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segunda-feira, 27 de junho de 2016

A revanche de Conte

A César o que é de César: Conte juntou elenco em torno de si e formou time competitivo para a Euro (Reuters)
Sabe todas aquelas críticas que o blog e vários outros jornalistas fizeram à convocação de Antonio Conte para a Euro e às atuações da Itália nas eliminatórias para a competição e nos amistosos? Elas estão mantidas. Porém, o futuro técnico do Chelsea tem mostrado porque tem suas convicções firmes e como suas escolhas se adequam ao que ele propõe em campo.

Nem mesmo quando derrotou a Bélgica com sobras, na fase de grupos da Eurocopa, a Itália tinha feito um jogo tão bom como o que fez contra a atual campeã, Espanha, nesta segunda, no Stade de France. Os que acreditam em mística podem dizer que a Squadra Azzurra venceu a Fúria pelo peso de sua camisa ou porque os espanhois nunca ganharam um jogo em Euro ou em Mundiais utilizando uniforme branco. Balela. 

Conte armou uma arapuca para Vicente Del Bosque e fez a Nazionale dominar quase toda a partida, obrigando a seleção adversária a jogar fora de seu estilo habitual. Assim foi construída a revanche da final de 2012, na qual a Itália, treinada por Cesare Prandelli, foi goleada pela Espanha por 4 a 0. O triunfo também deixou o retrospecto do confronto, que era absolutamente igual, favorável à Azzurra: agora são 11 vitórias, 10 derrotas e 14 empates contra os espanhóis.

As maiores decepções da Espanha de 2013 para cá foram contra times que foram a campo com linhas de três na defesa e muita intensidade na marcação, pressing e rápida transição ofensiva – Holanda e Chile, na Copa de 2014, e até mesmo a Itália, no primeiro confronto entre as seleções na Euro 2012, surpreendeu dessa forma, conseguindo um empate.

Já nos primeiros minutos a pressão dos jogadores italianos na marcação impediu os espanhóis de trocarem muitos passes sem que cometessem erros ou tentassem a ligação direta para Morata. Por isso, a Azzurra equilibrou a posse de bola no primeiro tempo e chegou a ter índice superior ao da Espanha em três quesitos: na própria manutenção da pelota e também em número de passes realizados e no índice de acerto. Em raríssimas oportunidades a Espanha se viu tão acuada.

Em alta, Éder e Giaccherini participaram do gol de Chiellini (Reuters)
O meio-campo italiano fez um fabuloso trabalho de marcação sobre Iniesta e Fàbregas, quase anulados durante toda a partida, seja pelo fato de De Rossi costumeiramente chegar junto para dobrar a marcação – e até dar uma caneta no jogador do Barcelona – ou pelos 13 quilômetros percorridos por Giaccherini no confronto. Sempre espetado, Florenzi também segurou as subidas de Jordi Alba. Pellè, questionadíssimo, fez um importante trabalho tático ao marcar Busquets o jogo inteiro, impedindo que a Espanha realizasse saída de bola mais limpa a partir do vértice baixo do meio-campo. Outro que exerceu função tática importante foi Éder, também questionado anteriormente, que ajudava a defesa, puxava contra-ataques e fazia boas aberturas para De Sciglio.
Nessa toada, o primeiro tempo foi um verdadeiro massacre da Itália sobre a Espanha. Imitando a Copa de 1970, Pellè cabeceou bem para o chão, mas De Gea deu uma de Banks e fez ótima defesa. O arqueiro voltou a fazer duas outras defesas fundamentais antes do intervalo, em tentativas de Giaccherini: uma de puxeta, que tocou também na trave, foi anulada pelo árbitro Çakir, enquanto a outra foi um belo chute com curva espalmado para escanteio. O goleiro do Manchester United, no entanto, falhou ao tentar espalmar uma bomba de Éder e o meia do Bologna aproveitou o rebote para passar para Chiellini fazer o primeiro.

O recital tático de Conte e o show de aplicação tática dos jogadores pode ser analisado ainda em outra perspectiva: Verratti e Marchisio, jogadores que seriam importantes demais para pressionar o time adversário e aliar a potência física à qualidade com a bola nos pés, estão machucados e nem foram para a Euro, ao passo que De Rossi não estava 100% fisicamente. Os remanescentes no elenco conseguiram diminuir as consequências desse cenário com muito comprometimento às ideias do treinador e uma perfeita execução do que lhes foi pedido.

Na segunda etapa a Espanha teve período de crescimento, depois que Nolito deu lugar ao centroavante Aduriz, que entrou cheio de confiança. De Rossi, cansado, deu lugar a Thiago Motta, que entrou em um ritmo inferior ao do companheiro e ao exigido à função. Com mais espaço, Iniesta começou a criar mais e a Itália passou algum sufoco: foi aí que Buffon apareceu. O Superman fez defesaças em um sem pulo de Iniesta, em um chute de fora da área de Piqué e em uma tentativa à queima-roupa do defensor, espalmada com reflexos de um garoto.

O crescimento da Espanha deixou Conte irritado – e sua reação foi dar um bico em uma bola perdida por Giaccherini. O jogo mudou bastante e a Espanha conseguiu aumentar significativamente a posse de bola – finalizou a partida com 58% dela – e a quantidade de passes realizados e acertados, superando os azzurri nos quesitos. Conte precisou mudar e colocou Insigne e Darmian em campo para dar sangue novo ao time. Deu certo: em contra-ataque iniciado pelo atacante napolitano, o lateral do Manchester United ajeitou para Pellè, em bela movimentação, marcar. O gol foi uma cópia do anotado contra a Bélgica: de voleio, nos acréscimos e sacramentando o 2 a 0.
Agora, a Itália avança às quartas de final com a sensação de dever cumprido. O objetivo mínimo na competição foi cumprido e as duas atuações de gala contra Bélgica e Espanha dão moral a um time que entrou desacreditado e que, se for eliminado perante a fortíssima Alemanha, voltará para casa  celebrado. Só que o retrospecto contra os germânicos, eternos rivais no futebol, é favorável à Azzurra, que nunca perdeu ou sequer foi eliminada nos pênaltis pela Nationalmannschaft em Euros ou Mundiais. Na última Eurocopa, por exemplo, os italianos acabaram com os sonhos dos comandados de Joachim Löw com um show de Balotelli.

Contra os alemães a fórmula e a escalação de Conte devem ser as mesmas de hoje. Dos muitos pendurados (a Nazionale tinha 11 amarelados antes do jogo contra a Fúria), somente Thiago Motta estará indisponível, o que já é um mérito. O trio BBC, à frente de Buffon, será a base do aguerrido esquema, ao passo que a volta de Candreva (fora com um problema muscular) é quase impossível. O foco está no treino, na mentalidade, na confiança no trabalho e na aplicação das ideias de seu treinador.

Isso nos leva às críticas antes da Euro. Provavelmente, uma seleção com nomes que foram desconsiderados pelo treinador, como Saponara, Bonaventura, Berardi, Sansone e Belotti poderia entregar um futebol mais vistoso e técnico, mas talvez sem a mesma dedicação requisitada por Conte e a consequente confiança do treinador. Ideias que podem ser discutidas com argumentos em prol de cada estilo de jogo. O fato é que, dentro de sua proposta, o sucesso da fórmula do técnico apuliano nesta Euro é incontestável.

Itália 2-0 Espanha
Chiellini e Pellè (Darmian)

Itália (3-5-2): Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Florenzi (Darmian 84'), Parolo, De Rossi (Thiago Motta (54'), Giaccherini, De Sciglio; Pellè, Éder (Insigne 82'). Técnico: Antonio Conte.

Espanha (4-3-3): De Gea; Juanfran, Sergio Ramos, Piqué, Jordi Alba; Fàbregas, Busquets, Iniesta; Silva, Morata (Lucas Vázquez 70'), Nolito (Aduriz 46', Pedro 81'). Técnico: Vicente Del Bosque.

Local: Stade de France, em Saint-Dénis, França
Árbitro: Cüneyt Çakir (Turquia)

domingo, 26 de junho de 2016

10 anos do tetra italiano: Apito decisivo

Totti saiu do banco para marcar em pênalti polêmico nos acréscimos e classificar a Itália (Getty)
Após uma primeira fase sem sustos, a Itália tem pela frente nas oitavas de final da Copa de 2006 uma das surpresas da competição: a Austrália, treinada por Guus Hiddink, tinha superado o estereótipo e ser apenas um time físico e defensivo e havia passado por um grupo difícil, com Brasil (derrota por 2 a 0), Japão (vitória por 3 a 1) e Croácia (empate por 2 a 2). A primeira seleção da Oceania classificada ao mata-mata de um Mundial não era favorita, mas prometia complicar a vida da Squadra Azzurra com um jogo organizado e no campo da sorte. Foi no Fritz-Walter-Stadion, em Kaiserslautern, que os Socceroos venceram sua primeira partida em uma Copa do Mundo.

Por um lado, a Itália enfrentaria a geração de ouro australiana, com Schwarzer, Bresciano, Cahill e Viduka – além de Kewell, no banco, e Emerton, suspenso –, mas por outro a seleção de Lippi tinha uma penca de opções. O técnico de Viareggio fez três alterações em relação ao time que venceu a República Checa: Materazzi continuou ocupando o lugar do lesionado Nesta (que não deve mais atuar na competição), Toni voltou ao time, na vaga de Camoranesi, e, surpreendentemente, Totti perdeu espaço para Del Piero. O esquema foi o mesmo, o 4-3-1-2.

A Itália entrou em campo pela primeira vez com seu uniforme tradicional no torneio, com camisa e meiões azuis e calções brancos. Isso, no entanto, não deu forças adicionais à Nazionale, que teve dificuldades de vencer o 3-5-1-1 australiano. Del Piero tentava se movimentar e criar, mas Toni e Gilardino estavam sem pontaria.

Nas duas melhores chances da primeira etapa, antes mesmo dos 25 minutos, o bomber da Fiorentina cabeceou para fora em uma oportunidade, enquanto em outra fez Schwarzer defender com os pés; por sua vez, Gila obrigou o goleiro espalmar um chute central, mas difícil, para escanteio. Do lado oposto, a grande chance veio com um chute potente de Chipperfield, defendido em dois tempos por Buffon.

No intervalo, Lippi decidiu mudar o esquema para um 4-3-3, substituindo Gilardino por Iaquinta e abrindo o atacante da Udinese na direita e Del Piero na esquerda. Porém, o árbitro Medina Cantalejo acabou com os planos do técnico: aos cinco minutos, Materazzi deu carrinho forte sobre Bresciano e o espanhol decidiu expulsá-lo com um cartão vermelho direto. A atitude extremamente rigorosa do apitador fez com que Lippi tirasse Toni para colocar Barzagli em campo e reconstituir a defesa. No entanto, a Austrália não se lançou ao ataque com a superioridade numérica e Viduka mal foi visto em campo. Somente Chipperfield, em outro chute forte, testou Buffon.

A Itália ainda foi melhor em campo e chegou perto do gol, apesar do cansaço. Não muito bem em campo, Pirlo quase surpreendeu Schwarzer com uma cobrança de falta por cobertura, mas o goleiro do Middlesbrough colocou para escanteio. A oportunidade mais clara, porém, foi desperdiçada por Gattuso: em contra-ataque os azzurri tinham vantagem de três contra dois, mas o volante errou passe simples para Del Piero, que estava na cara do gol. Disperso, aliás, o juventino foi substituído por Totti aos 30 da segunda etapa. A substituição que ajudou a decidir o jogo.

Não, Totti não foi autor de nenhuma jogada fenomenal. Na verdade, os jogadores italianos estavam bem cansados e a partida se encaminhava para a prorrogação, até que, no último minuto dos acréscimos, apareceu Grosso. O lateral esquerdo do Palermo envolveu Neill com algumas fintas e, quando o australiano deu um carrinho, provocou o contato com ele, cavando a penalidade – inexistente. Implacável, Totti cobrou e converteu, no último lance do jogo, levando a Itália para as quartas sob as vaias dos australianos. No caminho para o tetra, a Squadra Azzurra terá Suíça ou Ucrânia na próxima fase e larga como favorita no confronto.



Itália 1-0 Austrália – Oitavas de final

Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Materazzi, Grosso; Perrotta, Pirlo, Gattuso; Del Piero (Totti); Gilardino (Iaquinta), Toni (Barzagli). Técnico: Marcello Lippi.

Austrália: Schwarzer; Neill, Moore, Chipperfield; Sterjovski (Aloisi), Culina, Grella, Wilkshire, Bresciano; Cahill; Viduka. Técnico: Guus Hiddink. 

Gol: Totti (90 + 5)
Melhor em campo Fifa: Buffon
Cartões amarelos: Grosso, Gattuso e Zambrotta; Grella, Cahill e Wilshire.
Cartão vermelho: Materazzi.
Árbitro: Luis Medina Cantalejo (Espanha)
Local: Fritz-Walter-Stadion, em Kaiserslautern (Alemanha).

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Jogadores: Gianluca Signorini

Signorini foi capitão do Genoa em momentos de destaque na história recente do clube (Liverpool Echo)
O futebol italiano é especial e um dos motivos para isso é que, ao longo de sua história, alguns jogadores não foram exatamente brilhantes, mas conseguiram se tornar verdadeiros ídolos em times de menor expressão e com uma realidade bem diversa daquela dos grandes centros. Um desses personagens foi Gianluca Signorini, histórico capitão do Genoa, um batalhador em campo e fora dele. O jogador influenciou a forma de jogar de Franco Baresi, um mito do futebol, e emocionou a todos em sua luta contra a esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que, infelizmente, encerrou sua passagem neste mundo mais cedo do que se imaginava.

Nascido em Pisa, Signorini começou no clube da cidade no final dos anos 1970. Apesar disso, o jovem recém-promovido das categorias de base pisanas só atuou em duas partidas e acabou cedido ao amador Pietrasanta, que conseguira uma improvável promoção à Serie C2. Até 1983, o líbero atuou apenas em times da Toscana, região em que nasceu, passando também por Prato e Livorno. Ainda nas divisões inferiores, ele atuou por Ternana e Cavese, até que, em 1985, teve o divisor de águas na carreira: fechou com o Parma.

O zagueiro chegou à equipe juntamente com o técnico Arrigo Sacchi, que revolucionou sua forma de jogar. Signorini passou dois anos sob as ordens do estrategista, recebeu atribuições táticas inovadoras e conquistou a Serie C1 em 1986. Quando Sacchi foi para o Milan, utilizava vídeos com a movimentação do líbero Signorini como referência para Baresi, um dos maiores nomes da posição em toda a história do futebol. O caso é contada como folclore e dizem que Baresi, já campeão mundial, não gostava de aprender a jogar com um zagueiro de divisões inferiores, e que isto seria o principal motivo das frequentes rusgas entre ele e o treinador.

Zagueiro toscano teve curta passagem pela capital (AS Roma Ultras)
O sucesso no Parma, tanto na terceira como na segunda divisões fizeram com que Signorini, já aos 27 anos, tivesse a grande oportunidade na carreira ao assinar com a Roma, já na reta final da gestão do presidente Dino Viola. O jogador pisano atuou apenas uma temporada pelo clube capitolino, mas, sob o comando de Nils Liedholm, foi titular da defesa terceira colocada na Serie A 1987-88, ao lado de Fulvio Collovati. Ao final do campeonato, se transferiu para o Genoa, então na Serie B. 

Foi ao longo dos sete anos em que vestiu a camisa rossoblù que Signorini se consagrou como um dos mais sólidos zagueiros do fim dos anos 1980 e 1990 e fez carreira, sendo considerado o maior jogador da história do time. Contratado em 1988, o líbero subiu à elite com o clube genovês em sua primeira temporada já como peça fundamental do time de Franco Scoglio. Além de ter bom posicionamento e ser forte nas jogadas aéreas, o toscano também era um líder nato e chegava com força ao ataque.

A partir do ano seguinte, Signorini voltou a ter a companhia do campeão mundial Collovati na zaga, e deu suporte a uma equipe com jogadores de qualidade e voluntariosos, como Branco, Gennaro Ruotolo, Vincenzo Torrente, Carlos Alberto Aguilera e Tomás Skuhravy. Este elenco foi vice-campeão da Copa Mitropa, em 1990, e, em 1990-91, na melhor temporada da história do futebol da cidade de Gênova,  conseguiu a melhor classificação do time da Ligúria no pós-guerra: o Genoa, guiado por Osvaldo Bagnoli, ficou na quarta posição da Serie A e se classificou à Copa Uefa.

A emoção e o alívio do capitão com um resultado positivo dos genoveses (Genoa News 1893)
Na competição continental, o Genoa parou apenas nas semifinais, frente ao Ajax que se sagraria campeão contra o Torino de Casagrande. Signorini marcou um gol contra nos 16 avos de final, contra o Dinamo Bucareste, mas não se abateu, pois tinha crédito. Afinal, além de toda a doação em campo, seus poucos gols marcados pelo Vecchio Balordo foram sempre importantes, como o realizado em um dérbi contra a Sampdoria – 2 a 2, em 1992.

Signorini também esteve presente – e como – nas horas mais dramáticas. Em 1995, o Genoa venceu o Torino pela última rodada da Serie A, mas ia sendo rebaixado mesmo assim. Quando a Inter virou sobre o Padova, provocando o spareggio (partida-desempate entre as equipes, disputada em campo neutro), Signorini correu dos vestiários para a Gradinata Nord comemorando e chorando muito com a torcida no estádio Marassi. Mesmo assim, o time caiu para a segundona, após perder para os padovanos nos pênaltis.

Com o rebaixamento, Signorini voltou para o Pisa, clube em que começou e o qual ajudaria a reconstruir. Em 1995, o líbero tinha apenas 35 anos e lenha para queimar, mas decidiu ajudar o clube a voltar ao profissionalismo: os nerazzurri haviam declarado falência e iriam jogar as divisões amadoras, mas com a ajuda do experiente defensor, a equipe retornou à Serie C2. Signorini se aposentou em 1997.

Após encerrar a carreira, ele foi diretor esportivo e auxiliar técnico do Pisa, além de responsável pelas categorias de base do Livorno, mas teve sua carreira abreviada quando tentava tirar a licença para treinador profissional através do curso da Federação Italiana de Futebol, em Coverciano. O ex-jogador foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, assim como Stefano Borgonovo, e faleceu precocemente, aos 42 anos, em 2002. Não teve tempo de ver seu filho, Andrea, dar os primeiros passos no futebol pelo Genoa – hoje, atua no Rimini.

Signorini nunca foi esquecido pela torcida rossoblù, que tentou ajudá-lo enquanto ele batalhava contra a síndrome degenerativa. Uma partida beneficente com sua presença, pouco antes de sua morte, lotou o Marassi e emocionou o jogador, que, consciente, não pode conter as lágrimas. Sua camisa 6 foi aposentada pelo clube, que também renomeou o centro de treinamentos em sua homenagem – o Pisa também dedicou a ele um setor das arquibancadas de seu estádio. Nada mais justo para um dos jogadores que mais contribuíram com o vermelho e azul genoano e com o azul e preto toscano.

Gianluca Signorini
Nascimento: 17 de março de 1960, em Pisa, Itália
Morte: 6 de novembro de 2002 em Pisa, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Pisa (1978-79 e 1995-97), Pietrasanta (1979-80), Prato (1980-81), Livorno (1981-83), Ternana (1983-84), Cavese (1984-85), Parma (1985-87), Roma (1987-88) e Genoa (1988-95)
Títulos conquistados: Serie B (1989) e Serie C1 (1986)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A real Itália

Gol de Brady, com falha da defesa italiana, deu vitória à Irlanda (Getty)
Não é Itália se for com 100%. No último dia da fase de grupos da Euro, o time de Conte chegou como o único com a chance de ganhar as três partidas e já classificado, algo raríssimo para os padrões da seleção do Belpaese. Isto não só não aconteceu, como a Squadra Azzurra perdeu pela primeira vez e também sofreu o primeiro gol. Mas nada desesperador, claro: a primeira posição já estava assegurada e desde o minuto 87 de Croácia 2-1 Espanha se sabia o adversário nas oitavas – a Fúria.

Como não poderia deixar de ser, os italianos ficaram na "chave da morte". Passando pela Espanha, poderão enfrentar a Alemanha (que duela com a Eslováquia) nas quartas e França ou Inglaterra (adversários de Irlanda e Islândia) nas semifinais. A adversária Bélgica no Grupo E, por outro lado, terá a Hungria nas oitavas, País de Gales ou Irlanda do Norte nas quartas e Suíça, Polônia, Croácia ou Portugal nas seminais. Para a Itália, tudo tem que ser do jeito difícil mesmo: se tivesse ficado com a segunda posição no grupo, como se imaginava, a Azzurra teria vida facilitada no mata-mata.

Em Lille, o jogo honrou o péssimo estado do gramado, afetado pelas chuvas e pior que o de San Siro. O time pouco técnico e mais físico de Conte combinou com os irlandeses criados na Inglaterra e o que se viu foram muitas disputas aéreas (38) e faltas (40), poucas jogadas trabalhadas e muitos passes errados.

Nesse cenário, a Irlanda foi superior a uma Itália com oito reservas em campo: criou mais oportunidades, exigiu bastante de um Sirigu fora de forma e conseguiu o gol histórico aos 85' (muito melhor nessa trilha sonora) com seu melhor jogador, Brady - não o Liam, craque em campos italianos nos anos 80, mas Robbie.

Se Conte esperava observar algo do jogo de hoje, não teve muita sorte. Quem ganhou chance no time titular não aproveitou, especialmente Bernardeschi e Immobile, enquanto quem entrou no segundo tempo, Insigne e El Shaarawy, enfrentou um contexto complicado para mostrar algo positivo. O napolitano ainda acertou a trave na melhor chance italiana, logo após entrar em campo, mostrando que merece ser mais utilizado. A Nazionale ainda teve a seu favor um voleio perigoso de Zaza no primeiro tempo, mas em uma das únicas coisas produtivas que fez em campo. Agora é se poupar para o jogo de segunda, contra a Espanha.

Itália 0-1 Irlanda
Brady (Hoolahan)

Itália (3-5-2): Sirigu; Barzagli, Bonucci, Ogbonna; Bernardeschi (Darmian 60'), Sturaro, Thiago Motta, Florenzi, De Sciglio (El Shaarawy 81'); Zaza, Immobile (Insigne 74'). Técnico: Antonio Conte.

Irlanda (4-3-3): Randolph; Coleman, Duffy, Keogh, Ward; Hendrick, McCarthy (Hoolahan 77'), Brady; Long (Quinn 90'), Murphy (McGeady 70'), McClean. Técnico: Martin O'Neill.

Local: Estádio Pierre-Mauroy, em Lille, França
Árbitro: Ovidiu Hategan (Romênia)

10 anos do tetra: Um caminho escrito em linhas tortas

Oportunista, Inzaghi anotou seu único gol em mundiais e sacramentou classificação italiana às oitavas (Getty)
A hora da verdade. Apesar de ter feito dois bons jogos na Copa do Mundo, a Itália ainda não havia garantido a classificação no disputado Grupo E da competição. Àquele momento, as quatro seleções tinham chances de se classificar e a Squadra Azzurra teria pela frente o adversário teoricamente mais complicado. Líderes da chave com quatro pontos, os italianos enfrentariam a badalada República Checa, de ótima campanha na Eurocopa de 2004 e com três pontos conquistados. Gana, com três, e Estados Unidos, com um ponto, duelavam no mesmo horário.

A partida não começou muito bem para a Itália, que se viu pressionada graças à liderança de Nedved, um inimigo íntimo. Ex-jogador da Lazio e titular da Juventus, o loiro atuou no centro do meio-campo e era o principal responsável por acionar Baros, que deu trabalho pra Buffon nos primeiros minutos. Depois, o arqueiro juventino precisou fazer duas ótimas defesas em chutes de fora da área do colega. Aos 17 minutos, outra complicação para a Nazionale: Nesta voltou a sentir dores no adutor da coxa direita, que o incomodaram na reta final da temporada 2005-06, e precisou ser substituído por Materazzi. Foi a terceira vez que o jogador do Milan se lesionou durante um Mundial.

O que parecia uma péssima notícia para a Itália logo se transformou em um grito de felicidade. Aos 26 minutos, Totti bateu escanteio e Matriz subiu mais alto que Polák para cabecear sem chances para Cech e abrir o placar. O volante checo voltou a falhar no final da primeira etapa, quando cometeu dura falta sobre Totti no campo de defesa italiano: ele levou o segundo cartão amarelo e foi para o chuveiro mais cedo.

Com a vantagem o placar e no número de jogadores em campo, Lippi recuou o meio-campo da Azzurra e explorou os contra-ataques e os erros dos checos. Em um desses lances, Totti (com mais liberdade, após a expulsão de Polák) aproveitou uma roubada de bola e obrigou Cech a espalmar um perigoso chute para escanteio. Poucos minutos depois, Inzaghi – substituto de Gilardino – quase marcou depois de uma lambança da defesa eslava, mas bateu à direita do gol adversário. O atacante rossonero perdeu outro gol feito, depois que Pirlo provocou um salseiro na área: na sobra, Super Pippo, sozinho, cabeceou para fora.

Do outro lado, o duelo entre Buffon e Nedved seguia duro. A Fúria Checa era a grande luz da sua equipe e obrigou seu amigo bianconero e espalmar dois chutes fortes, negando o empate. A partida ia ficando perigosa para a Itália, que não conseguia definir o resultado, mas ao mesmo tempo os checos iam perdendo a confiança a cada minuto que passava, já que iam sendo eliminados, já que Gana vencia os EUA por 2 a 1. 
 
A tensão estava no ar e é nestes momentos que os jogadores decisivos aparecem. O goleador Inzaghi teve a chance para se redimir das oportunidades desperdiçadas, aos 37 do segundo tempo: Barone roubou uma bola na defesa e Perrotta deu belíssima assistência, deixando Pippo livre para correr meio campo sem marcação, driblar Cech e classificar a Azzurra às oitavas. Foi o primeiro gol do milanista pela seleção em Mundiais (ele também jogou em 1998 e 2002) e o primeiro desde o anotado contra o Azerbaijão, em 2003.

Com a vitória, a Itália garantiu a liderança do grupo e despachou a República Checa, tida como uma das seleções que poderiam fazer excelente campanha na Copa. A decepção eslava foi substituída pela estreante seleção de Gana, que continua viva no torneio. A adversária da Azzurra sairá dos confrontos do Grupo F, que acontecem mais tarde: a surpreendente Austrália de Guus Hiddink e a Croácia são as candidatas, já que o Japão dificilmente vencerá o classificado Brasil.



República Checa 0-2 Itália – Grupo E

República Checa: Cech; Grygera, Kovác (Heinz), Rozehnal, Jankulovski; Polák; Rosicky, Poborsky (Stajner), Nedved, Plasil; Baros (Jarolim). Técnico: Karel Brückner.

Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Nesta (Materazzi), Grosso; Gattuso, Pirlo, Perrotta; Camoranesi (Barone), Totti; Gilardino (Inzaghi). Técnico: Marcelo Lippi.

Gols: Materazzi (26) e Inzaghi (87).
Melhor em campo Fifa: Materazzi.
Cartões amarelos: Gattuso e Polák.
Cartão vermelho: Polák.
Árbitro: Benito Archundia (México).
Local: AOL Arena, Hamburgo (Alemanha).

sexta-feira, 17 de junho de 2016

10 anos do tetra: Som e fúria

Cotovelada de De Rossi marcou negativamente um jogo em que a Itália foi bem (Getty)
O segundo jogo da Itália na campanha do Mundial de 2006 ficou marcado para sempre como o jogo em que De Rossi deu uma dura cotovelada em McBride e deixou o norte-americano ensanguentado – tal qual Tab Ramos, quando o brasileiro Leonardo fez o mesmo gesto na Copa de 1994, diante da seleção dos Estados Unidos. Galvão Bueno logo vaticinou: o volante da Roma é o jogador mais violento do mundo. Essa foi uma das partes de fúria de um jogo em que Pirlo jogou por música.

No entanto, a partida foi muito mais do que isso. O primeiro tempo foi agitadíssimo: aos 22, Pirlo cobrou falta perfeita, na cabeça de Gilardino, que abriu o placar. Cinco minutos depois, o empate ianque chegou a galope, graças a um lance bizarro. Donovan levantou bola na área e Zaccardo furou de maneira bisonha com a canhota, vendo a pelota bater na direita e ir para as redes. Após a retomada do jogo, um ainda inexperiente de Rossi foi expulso. Com isso, Totti – que voltava após se lesionar no primeiro jogo do Grupo E – deu lugar a Gattuso.

A criação ficou quase toda a cargo de Pirlo, que fez mais uma bela partida – já havia sido eleito o melhor em campo no 2 a 0 contra Gana. Antes do intervalo, o meia do Milan provocou a expulsão do volante Mastroeni, que lhe deu um duríssimo carrinho após quase marcar um golaço em cima de Buffon. Assim que os times voltaram dos vestiários foi a vez de Gilardino cavar nova expulsão, desta vez de Pope – incrivelmente, o árbitro Jorge Larrionda acertou em todos os lances. O apitador uruguaio também anulou corretamente um gol norte-americano: Beasley bateu cruzado, mas a bola tocou em McBride, impedido, e enganou Buffon.

O segundo tempo foi uma verdadeira blitz da Itália, iluminada por Pirlo. O regista cruzou com perigo na área e Bocanegra cabeceou contra o próprio patrimônio, acertando o travessão. Com uma linda cavadinha, o rossonero também acionou Del Piero, que obrigou Keller a se esticar e evitar o segundo gol da Nazionale. Muito bem debaixo das traves, o arqueiro norte-americano (eleito melhor em campo), ainda estava na bola em chute perigoso de Zambrotta e espalmou uma bomba de Delpi para segurar o empate.

Com o resultado, o Grupo E fica embolado: a Itália lidera com 4 pontos, seguida por Gana e República Checa, com 3, e Estados Unidos, com 1. Nos dias que se seguem, a expectativa é grande para a punição a De Rossi: se imagina que o romanista possa ficar de fora do resto do Mundial.


Itália 1-1 Estados Unidos – Grupo E
Itália: Buffon; Zaccardo (Del Piero), Nesta, Cannavaro, Zambrotta; Perrotta, Pirlo, De Rossi; Totti (Gattuso); Toni (Iaquinta), Gilardino. Técnico: Marcello Lippi. 
Estados Unidos: Keller; Cherundolo, Pope, Onyewu, Bocanegra; Dempsey (Beasley), Reyna, Mastroeni, Convey (Conrad); Donovan; McBride. Técnico: Bruce Arena. 
Gols: Zaccardo (contra; 21) e Gilardino (27). 
Melhor em campo Fifa: Keller.
Cartões amarelos: Totti, Zambrotta e Pope.
Cartões vermelhos: De Rossi, Pope e Mastroeni.
Árbitro: Jorge Larrionda (Uruguai).
Local: Fritz Walter Stadion (Kaiserslautern).

Uma rara Itália

Gol de Éder teve quê de raridade e levou a Itália às oitavas da Euro (Getty)
"Contra Suécia (17, sexta) e Irlanda (22, quarta) a Itália terá a oportunidade de evoluir como time ou simplesmente administrar a vantagem e esperar a próxima fase", falávamos na análise que fizemos após o jogo da Squadra Azzurra contra a Bélgica. Até o minuto 88, tudo se encaminhava para a segunda parte. Itália e Suécia fizeram jogo medíocre, muito lento e pouco técnico, provavelmente um dos piores desta Euro. No entanto, como tem sido tendência na competição, um gol no apagar das luzes definiu o resultado e levou a Nazionale para as oitavas de final, com duas vitórias e nenhum gol sofrido. Uma fase de grupos incomum para uma Itália que costuma sofrer.

Contra tudo e todos, Conte manteve Éder em campo. O atacante ítalo-brasileiro, nascido em Lauro Müller (SC), não havia sequer dado um passe ou um chute a gol – sofria com a falta de interação com Pellè. O treinador já havia colocado Thiago Motta e Sturaro em campo, aparentemente sem grande ambição, apenas para renovar o meio-campo e manter o ritmo no setor.

Mas dos pés do contestado atacante saiu o belíssimo gol, que deu a segunda vitória italiana na França e a classificação garantida para a próxima fase. Uma jogada digna do Éder dos tempos de Sampdoria e que decepciona na Inter, mas que quebrou uma marca: desde a Copa de 2006, contra a República Checa, a Azzurra não vencia partida em Euro, Copa das Confederações e Mundial com um gol de atleta nerazzurro – na final de 2006, contra a França, Materazzi, que anotou contra os checos, deixou o dele, mas a partida acabou empatada.

O gol da vitória sobre a Suécia teve um bônus: participação de Zaza no pivô, após lateral longo de Chiellini. O centroavante juventino entrou no segundo tempo para corrigir o problema ofensivo italiano (ou um dos problemas), visto que a Suécia se preparou para anular Pellè e teve sucesso. Mesmo mais participativo e técnico, o reserva lucano não teve grande impacto até a assistência decisiva, porque, de forma geral, a Itália jogou sem ritmo, com pobreza na movimentação e na construção das jogadas.

Além de dominar Pellè, a Suécia adiantou a marcação, diminuindo espaços entre as linhas, impedindo apoios ao pivô italiano. Por outro lado, seguiu medíocre com a bola, mesmo dominando a posse, e Buffon não fez uma única defesa em todo o jogo. Guidetti até incomodou, mas Ibrahimovic desapareceu na marcação de Barzagli e Chiellini e, quando teve uma chance, colocou por cima do gol um cruzamento que recebeu, em impedimento, debaixo das traves. Sorte dele que o bandeira assinalou a infração – aliás, a Suécia não chutou uma bola sequer no gol nesta Euro.

O time escandinavo também cedeu espaços para desmarques, como o de Giaccherini contra a Bélgica, mas os italianos estiveram apáticos, e jamais o baixinho, Éder ou os alas buscaram essa movimentação para Bonucci lançar.

De qualquer forma, desta vez sem convencer e deixar nenhum aspecto positivo, a Itália venceu pela segunda vez consecutiva - o que não acontecia desde a Euro de 2000 -, não sofreu gol e se classificou. Depois de Giaccherini, Éder foi outro herói improvável, e desta vez em uma vitória com gosto de vingança: os italianos têm certa rivalidade com a Suécia pelo fato de os blagult terem feito jogo de compadres com a vizinha Dinamarca na Euro 2004 para eliminarem a Azzurra. O troco foi dado, já que os suecos se complicaram no grupo.

Contra a Irlanda, na próxima quarta, novamente o time de Conte terá a oportunidade de evoluir seu jogo ou simplesmente descansar e se preparar para a próxima fase. Seria interessante, até pelo ponto de vista físico e como poderiam acrescentar para o time, ver Insigne, Bernardeschi e El Shaarawy, que ainda não jogaram na França. Conte declarou que deve fazer mudanças no time que vai a campo e agora é aguardar para ver como os reservas aproveitarão sua chance.

Itália 1-0 Suécia
Éder (Zaza)

Itália (3-5-2): Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Candreva, Parolo, De Rossi (Thiago Motta 74'), Giaccherini, Florenzi (Sturaro 85'); Pellè (Zaza 60'), Éder. Técnico: Antonio Conte.

Suécia (4-4-2): Isaksson; Lindelöf, E. Johansson, Granqvist, M. Olsson; S. Larsson, Ekdal (Lewicki 79'), Källström, Forsberg (Durmaz 79'); Guidetti (Berg 85'), Ibrahimovic. Técnico: Erik Hamrén.

Local: Estádio Municipal, em Toulouse, França
Árbitro: Viktor Kassai (Hungria)