Subscribe Twitter Facebook

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Serie B: que bruxaria é essa?

Comemoração dos jogadores do Benevento com o troféu dos play-offs (LaPresse)
Com a confirmação do acesso direto de Spal e Verona, que terminaram nas duas primeiras colocações durante a temporada regular da Serie B, a terceira vaga na elite do futebol italiano foi decidida nos emocionantes e surpreendentes play-offs. Com experiências na segundona, Cittadella, Carpi, Frosinone, Spezia e Perugia lutaram, mas foi o pequenino e estreante Benevento que conquistou um lugar ao sol em mais uma história fantástica proporcionada pela segundona. Um conto de fadas? Não, talvez uma bruxaria.

A cidade de Benevento, próximo a Nápoles, na Campânia, é conhecida como “cidade das bruxas”. Diz a lenda que quando o local foi invadido pelos lombardos, a população foi obrigada a se converter ao cristianismo. No entanto, rituais pagãos continuaram a ser realizados às escondidas e, a partir daí, nasceu a crença de que as bruxas habitavam a localidade. Na história, conta-se que mulheres eram vistas dançando em volta a uma nogueira em rituais que aconteciam nas noites de lua cheia, apavorando os moradores da região que praticavam a religião cristã.

No futebol, o Benevento aterrorizou os adversários em uma campanha histórica, apesar da simpática bruxinha estampada em seu escudo. Só o fato desta ter sido a primeira temporada em todos os tempos dos beneventani na Serie B, já seria memorável. No entanto, o time do técnico Marco Baroni investiu alto com a chegada de jogadores como Raman Chibsah (Sassuolo), George Puscas (Inter), Fabio Ceravolo (Ternana), Filippo Falco (Bologna) e Alessio Cragno (Cagliari).

A expectativa inicial era de uma campanha segura, talvez no meio da tabela, mas o ótimo pontapé inicial, com sete rodadas de invencibilidade, incluindo vitórias sobre Spal e Verona e um empate fora de casa com o Carpi, fez o torcedor do Benevento acreditar que seria possível sonhar com algo maior. O time da Campânia permaneceu durante todo o campeonato na zona de classificação aos play-offs, apesar de um período de instabilidade no segundo turno. Além dos 20 gols do artilheiro Ceravolo e das as ótimas atuações do goleiro Cragno e do ponta Amato Ciciretti, outro destaque foi o retrospecto no estádio Ciro Vigorito. Com grande apoio da torcida, os bruxos foram derrotados apenas duas vezes dentro de casa.

Técnico Marco Baroni foi responsável por organizar o Benevento (LaPresse)
Ao final do campeonato, o Benevento terminou na quinta posição, com os mesmos 65 pontos do quarto colocado Perugia, que levou vantagem no confronto direto. Se contasse apenas o desempenho dentro de campo, os giallorossi somariam 66 pontos, mas o clube foi penalizado com a perda de um ponto por atraso no pagamento de taxas. Apesar do equilíbrio na parte de cima da tabela, a punição não teve grande influência na sequência da competição.

O Benevento não teve vida fácil nos play-offs. Logo na primeira fase, a vitória por 2 a 1 contra o Spezia, teoricamente o mais fraco entre os seis participantes, foi conquistada com muito suor. Ceravolo e Puscas marcaram dois gols-relâmpago no primeiro tempo, mas o brasileiro Nenê descontou na etapa final e os campani tiveram de mostrar maturidade para segurar a pressão do adversário nos minutos derradeiros.

Na semifinal o adversário foi o Perugia. O mesmo Perugia que, durante a temporada regular, ganhou por 3 a 1 em casa e empatou sem gols como visitante contra o Benevento. No primeiro duelo, melhor para os beneventani. Vitória pelo placar mínimo no Ciro Vigorito e igualdade em 1 a 1 na Úmbria. Apesar da eliminação, o Perugia demonstrou bom poder defensivo durante a temporada, com 40 gols sofridos, a terceira melhor retaguarda da Serie B. Não por acaso nomes como o do jovem zagueiro Gianluca Mancini, negociado com a Atalanta, e do lateral esquerdo Gianluca Di Chiara se destacaram. Se não fossem os muitos empates (20 em 42 rodadas), talvez os grifoni poderiam até brigar mais acima na tabela.

Enquanto isso, na outra chave estava o Frosinone, que entrou como grande favorito na disputa dos play-offs. Os leoni terminaram o campeonato com os mesmos 74 pontos do vice-líder Verona e com nove pontos à frente do quarto colocado Perugia. Com apenas um pontinho a mais, os frusinati teriam garantido o acesso direto. Pelo desempenho no restante da competição, os canarini entraram direto na semifinal, ocasião em que enfrentaram o Carpi. As duas equipes estiveram juntas na Serie A na temporada anterior, porém, desta vez a diferença entre ambos era gritante. Com uma campanha irregular, muitas vezes fora da zona dos oito melhores colocados, os carpigiani encerraram o campeonato na sétima posição, 12 pontos abaixo do adversário. Os falconi já haviam eliminado o Cittadella na fase anterior e, diante do Frosinone, foram buscar a improvável classificação com uma vitória por 1 a 0 fora de casa depois de um empate sem gols na Emília-Romanha.

Carpi surpreendeu a chegar na final dos play-offs, mas ficou no "quase" (LaPresse)
Liderados pelo atacante Kevin Lasagna (já negociado com a Udinese), o Carpi, porém, não resistiu à força do Benevento no Ciro Vigorito na grande final dos play-offs. Depois de uma igualdade em 0 a 0 no primeiro jogo, o histórico acesso dos bruxos saiu dos pés de Puscas. O garoto com sobrenome de craque anotou o único gol da segunda partida, fazendo a cidade inteira explodir em uma festa colorida de amarelo e vermelho que vai se estender por toda a próxima temporada, quando a cidade das bruxas vai receber os melhores times de futebol do país. Mesmo se o Benevento não conseguir um feito histórico como o do Crotone, que se salvou na estreia na Serie A, o próximo ano certamente será o maior deste pequeno clube fundado em 1929 e refundado em 1953, 1990 e 2005.

O clube giallorosso ainda tem o orgulho de ter sido um dos últimos lugares em que o saudoso craque Dirceu, com passagens marcantes por Coritiba, Botafogo, Fluminense e Vasco, disputou partidas oficiais, em 1992. Com pouca expressão nacional, os stregoni estão acostumados com as terceira e quarta divisões, enquanto seu principal adversário, o Avellino, tem dez participações na Serie A entre as décadas de 1970 e 1980. Momento de dar o troco no rival, que segue estagnado na segundona, e de renovar os feitiços para a elite do futebol do Belpaese.

Seleção da Serie B
Meret (Spal); Lazzari (Spal), Vicari (Spal), Mancini (Perugia), Di Chiara (Perugia); Schiatterella (Spal), Falletti (Ternana), Bessa (Verona); Ciciretti (Benevento), Pazzini (Verona), Antenucci (Spal). Técnico: Leonardo Semplici (Spal).


Seleção da Serie B eleita pelos próprios jogadores
Cragno (Benevento); Lazzari (Spal), Bonifazi (Spal), Mancini (Perugia), Di Chiara (Perugia); Schiattarella (Spal), Dezi (Perugia); Bessa (Verona); Ciciretti (Benevento), Pazzini (Verona) e Dionisi (Frosinone). Técnico: Leonardo Semplici (Spal).

Lega Pro: varal torto

Símbolo do Parma, Alessandro Lucarelli ergue troféu dos play-offs (Marco Vasini/Repubblica)
O talento é fundamental no futebol, porém, nos últimos anos a exigência por modernização, profissionalismo, eficiência e gestão tem aumentado cada vez mais. O clube que se organiza minimamente consegue ter sucesso, mesmo sem ter, necessariamente, os melhores em campo. Nas últimas temporadas, equipes pouco conhecidas como Carpi, Frosinone, Sassuolo, Crotone e Benevento, por exemplo, aproveitaram a má administração de esquadras tradicionais para ascenderem à elite do futebol italiano. No entanto, em um movimento inverso, quatro times com histórias de peso mostraram sinais vitais para a retomada de dias melhores para seus torcedores. Após um longo campeonato da Lega Pro, a terceira divisão, Parma, Venezia, Cremonese e Foggia conquistaram o acesso e suas camisas irão “entortar o varal” da Serie B na próxima temporada.


Parma: o sonho continua


Festa dos jogadores do Parma após a conquista do acesso (Marco Vasini/Repubblica)
Começando pelo fim, o Parma deu um enorme passo em seu processo de reconstrução, após decretar falência em 2015. Os crociati recomeçaram da quarta divisão e conquistaram dois acessos seguidos. Se o primeiro, da Serie D para a Lega Pro, foi fácil, com 28 vitórias, 10 empates e nenhuma derrota, nesta temporada os parmigiani passaram por muito mais sufoco do que o planejado antes do campeonato.

Com a derrocada do clube, um grupo de empresários locais (com a maioria das ações) e outro grupo de torcedores assumiram a administração da sociedade. O presidente escolhido para esta tarefa foi o lendário Nevio Scala, campeão italiano e da Copa dos Campeões pelo Milan como jogador, em 1968 e 1969, respectivamente, e treinador da época de ouro do Parma, na década de 1990. Scala assumiu o comando técnico do clube ainda na Serie B, na temporada 1989-90, quando conquistou a quarta colocação e o primeiro acesso gialloblù à Serie A. Foi sob comando de Nevio Scala que o Parma levantou os troféus da Coppa Italia (1992), Recopa Europeia (1993), Recopa Europeia (1993) e da Copa Uefa (1995).

Afastado do futebol desde 2004, quando treinou o Spartak Moscou, da Rússia, Scala deixou a fazenda de sua família para se dedicar ao projeto de reconstrução do clube. Com o elenco mais caro do grupo B e o terceiro entre todos os 60 participantes da Lega Pro, os ducali montaram um grupo para brigar pela primeira colocação do grupo, única forma de subir sem a necessidade de disputar um desgastante e arriscado play-off em mata-mata. A principal referência do time seria o capitão Alessandro Lucarelli, de 39 anos: o zagueiro se tornou uma lenda na Emília-Romanha por ter continuado na equipe mesmo no fundo do poço. Quando foi anunciada a falência do Parma, Lucarelli declarou: “eu morri junto com o Parma e com o Parma quero renascer”. Apesar da idade avançada e da exigência defensiva, Lucarelli atuou em todas as 42 partidas no campeonato. Além dele, outros importantes atletas experientes formaram o grupo, como os defensores Michele Canini, de 32 anos (contratado junto à Atalanta), e Mohamed Coly, de 33 (Pro Vercelli); os meias Manuel Scavone, de 30 (Pro Vercelli), Francesco Corapi, de 31; e os atacantes Felice Evacuo, de 34 anos, e Emanuele Calaiò, de 35 (Spezia), autor de 18 gols e nove assistências. Todos rodados em divisões superiores.

Comemoração dos jogadores do Parma em Florença (Marco Vasini/Repubblica)
No entanto, o técnico Luigi Apolloni, responsável pelo título da Serie D, não resistiu a um início instável e foi demitido após apenas 14 rodadas. A troca no comando gerou instabilidade. Nevio Scala não concordou com a decisão da direção técnica e pediu para sair em novembro de 2016, após uma goleada de 4 a 1 sofrida para o Padova no estádio Ennio Tardini. No entanto, a chegada de Roberto D’Aversa deu um novo ânimo ao elenco. O novo "professor" emendou uma sequência de 12 vitórias, quatro empates e somente uma derrota nos 17 primeiros jogos à frente dos emilianos. Parecia que o Parma poderia brigar para tirar o Venezia da liderança, mas o adversário não permitiu qualquer aproximação com uma campanha irreparável, com apenas uma derrota em 2017 – na última rodada, quando já estava com o acesso assegurado.

Com a segunda colocação garantida, o Parma entrou direto na segunda fase dos play-offs. Depois de eliminar o Lucchese com duas vitórias por 2 a 1 e o Pordenone, nos pênaltis, pela semifinal, o adversário na decisão foi a Alessandria, que contou com o elenco mais caro da competição. Porém, a experiência gialloblù foi fundamental nas partidas eliminatórias. Com maturidade, os ducali ganharam por 2 a 0 a final disputada em campo neutro, no estádio Artemio Franchi, em Florença, mas a festa se estendeu à Emília-Romanha, onde os torcedores vivem um verdadeiro sonho após abraçarem o clube no maior pesadelo de suas vidas.


Cremonese: a luta cabeça a cabeça com a Alessandria


Cremonese retorna à Serie B depois de 11 anos (Ib Frame)
Se algum cineasta produzisse um filme dramático baseado em fatos reais com o futebol de pano de fundo, certamente teria na Cremonese uma ótima fonte de inspiração. Para garantir o acesso direto, a Cremo precisava de uma vitória simples diante do último colocado Racing Roma na última rodada para garantir o retorno à Serie B depois de 11 anos. No final das contas, o triunfo aconteceu, mas sem antes uma dose extra de emoção.

A equipe treinada por Attilio Tesser chegou com os mesmos 75 pontos da vice-líder Alessandria, mas com vantagem no confronto direto, o primeiro critério de desempate. Quando Stefano Scappini abriu o placar logo aos três minutos, parecia que tudo ia ser tranquilo. No entanto, ainda com chances de escapar do rebaixamento, o time da capital italiana virou o placar com Ravaglia, contra, e o brasileiro Claudio de Sousa, já no segundo tempo. Scappini anotou a doppietta e voltou a deixar tudo igual aos 67 minutos. Enquanto isso, a Alessandria estava derrotando a Pontedera por 2 a 1 e assegurando o acesso. Porém, depois de ter um gol anulado por impedimento, os tigres finalmente chegaram ao terceiro e definitivo gol aos 86 minutos. O atacante Fabio Scarsella aproveitou a bobeada defensiva nos momentos finais para se tornar o mais novo herói da torcida grigiorossa.

Cremonese e Alessandria terminaram o grupo A rigorosamente empatados com 78 pontos. Porém, como a Cremo venceu o confronto direto por 1 a 0 em casa e empatou em 1 a 1 no Piemonte, ficou com a vaga direta na Serie B, aumentando ainda mais o sofrimento dos alessandrini com a derrota nos play-offs para o Parma. Se você já achou dramática a história do último jogo da Cremonese, saiba que esse foi apenas um capítulo, o encerramento triunfal de um longa-metragem repleto de drama e surpresas.

Em 114 anos de história, o tradicional time da cidade de Cremona, na Lombardia, já disputou a primeira divisão 14 vezes. O último e, talvez, o melhor momento do clube, foi entre 1989 e 1996, quando esteve na Serie A por cinco temporadas, sendo três consecutivas, entre 1993 e 1996. No entanto, os tigres entraram em queda livre nos anos seguintes. Após o rebaixamento à Serie B em 1995-96, a Cremo segurou a lanterna na segunda divisão e chegou à Serie C1 em 1997-98. Os lombardos retornaram à Serie B imediatamente, mas voltaram a cair nos anos seguintes e foram parar na Serie C2 no início do século XXI. Foi quando o histórico presidente Domenico Luzarra, que ocupava o cargo desde 1973, abandonou a equipe. Desde então, os violini até tiveram uma passagem relâmpago pela segunda divisão em 2005-06, mas se tornaram figurinhas carimbadas das terceira e quarta divisões do futebol italiano.

Torcedores saíram às ruas de Cremona para comemorar (Studio B12)
Após a saída de Luzarra, Luigi Gualco (ex-jogador do clube na época de ouro) assumiu a administração dos lombardos. No entanto, Gualco fracassou e deixou a Cremonese com sérios problemas financeiros em 2007, após a aventura desastrosa na Serie B. Foi quando o empresário do ramo siderúrgico Giovanni Averdi, natural da cidade de Cremona, adquiriu a maioria das ações e salvou o clube da falência. Desde então, os grigiorossi vinham montando times competitivos e brigando para ascender à Serie B novamente, mas sempre esbarrando na falta de sorte. Os cremonesi chegaram aos play-offs em 2008, 2010, 2012 e 2014, mas acabaram eliminados em todas as ocasiões.

Para a atual temporada, a diretoria apostou no técnico Attilio Tesser, com passagens recentes por Ternana e Avellino na Serie B e pelo Novara na elite, além de um elenco bastante experiente. Para se ter uma ideia, apenas três jogadores com menos de 27 anos fizeram mais de dez jogos pelo time no campeonato, enquanto nove atletas com mais de 30 anos entraram em campo em mais de dez partidas. Com uma média de 28,3 anos, o elenco da Cremonese é o mais "idoso" em toda a Lega Pro. Os "vovôs" assimilaram muito bem o simples 4-3-1-2 de Tesser. O atacante e capitão Andrea Brighenti, de 29 anos, marcou 16 gols e foi o artilheiro da equipe, sendo seguido pelo companheiro de área, Stefano Scappini, também de 29 anos, com 12 bolas nas redes. 

A concorrência com a Alessandria foi dura, já que a rival tinha o elenco mais caro do grupo e era a principal favorita ao acesso direto. Os ursos cinzas haviam surpreendido na temporada passada ao chegarem às semifinais da Coppa Italia, quando foram eliminados pelo Milan, e também fizeram um bom papel na Lega Pro, mas acabaram eliminados nas semifinais dos play-offs de acesso. O treinador Angelo Gregucci deixou o clube para ser assistente técnico de Roberto Mancini na Inter (o que durou somente algumas semanas) e foi substituído pelo experiente Piero Braglia. Por sua vez, o presidente Luca di Masi manteve a base e reforçou ainda mais o elenco do clube do Piemonte. O objetivo seria apenas um: o acesso.

Com a bola rolando, a Alessandria mostrou a superioridade e favoritismo dentro do campo. Os grigi mantiveram uma invencibilidade incrível nas 20 primeiras rodadas, chegando a abrir oito pontos para a própria Cremonese em dezembro de 2016. Foram 15 vitórias e apenas cinco empates neste período. No entanto, a Alessandria entrou em parafuso pouco antes da virada de ano. Desde 30 de dezembro, foram oito vitórias, quatro empates e seis derrotas – um aproveitamento muito baixo, se comparado ao do primeiro turno. O calcanhar de Aquiles da equipe foi, principalmente, o desempenho como visitante: desde o dia 8 de dezembro, os piemontesi arrancaram três pontos fora de casa apenas contra a Carrararese, que brigava para não cair, e perderam justamente o confronto direto para a Cremonese.

Enquanto isso, mesmo com um período ruim em janeiro, a Cremo cresceu de desempenho, perdeu poucos pontos bobos e conseguiu tirar a enorme vantagem do adversário no topo da tabela. Para se ter uma ideia, a Alessandria liderou o grupo da 3ª à 35ª rodada, mas não conseguiu segurar as pontas na reta final, mesmo com o desempenho ofensivo extraordinário de Riccardo Bocalon e Pablo González, que marcaram 20 gols cada um. Para completar, Piero Braglia não resistiu ao péssimo desempenho no segundo turno e foi substituído por Giuseppe Pillon para as três últimas rodadas, mas o novo técnico não conseguiu evitar o milagre da Cremonese e nem vencer os play-offs.


Venezia: os leões alados de Inzaghi


Pippo Inzaghi é festejado pelos jogadores do Venezia (Marco Sabadin/Vision)
Quando se fala em Veneza, a imagem que logo vem à mente é a de românticos canais que atravessam a pantanosa cidade do nordeste da Itália, passeando em gôndolas e passando sob as charmosas pontes que compõem um dos mais lindos cenários do mundo. No entanto, nesta temporada, Veneza voltou a ser também a terra do futebol. O tradicional Venezia, campeão da Coppa Italia em 1941 e dono de dois títulos da Serie B, garantiu a primeira colocação do grupo B e o acesso direto à segunda divisão depois de 12 anos, sob comando do técnico Pippo Inzaghi (ele mesmo).

Neste período, os leoni alati passaram alguns dos piores momentos de sua história. Com 23 participações na Serie A, o clube do Vêneto chegou ao fundo do poço duas vezes. A primeira, em 2005, após a administração de Maurizio Zamparini, que levou a equipe à Serie A, mas abandonou o time ao vislumbrar no Palermo uma oportunidade melhor de investimento. Sem dinheiro, a equipe entrou em crise e decretou falência. Nos anos seguintes, o Venezia figurou na terceira divisão, até ser excluído do campeonato por graves problemas financeiros na temporada 2008-09. Um grupo de torcedores até chegou a fundar um novo clube, o VeneziaUnited, com medo de que o clube pudesse acabar. Porém, o recomeço aconteceu na Serie D, equivalente à época à quinta divisão. Depois de quatro anos, os arancioneroverdi retornaram ao futebol profissional em 2012, já sob o comando do empresário russo Jurij Korablin, ex-sargento do exército soviético e ex-prefeito da cidade de Khimki, onde montou uma equipe de futebol e de basquete.

Com o investidor estrangeiro, a expectativa era de que o Venezia fosse crescer e voltar às primeiras divisões do futebol italiano. No entanto, o que aconteceu foi exatamente o contrário. Em 2014-15, Korablin diminuiu drasticamente o investimento no Venezia por causa da crise econômica que culminou com a desvalorização da moeda russa e as sanções financeiras impostas por Estados Unidos e outros países. Sem dinheiro, em 2015 o clube decretou a segunda falência em dez anos. Na temporada seguinte, os veneziani recomeçaram novamente da Serie D, que agora é equivalente à quarta divisão, sob o comando temporário do empresário americano do setor de produtos de limpeza James A. Daniels. No mesmo ano, o cargo de presidência passou para o advogado americano com descendência italiana Joe Tacopina, que passou a ser o dono da maior parte das ações dos leões alados. Desde que Tacopina assumiu a presidência, o Venezia vem crescendo ano após ano, conquistou dois acessos seguidos e estará de volta à Serie B em 2017-18.

Venezia foi o primeiro time a garantir o acesso à Serie B (Divulgação)
Dentro de campo, o Venezia não tem um grande destaque individual, mas o técnico Filippo Inzaghi, uma aposta depois da experiência ruim à frente do Milan, conseguiu tirar o melhor de um grupo que mescla juventude e experiência. Apesar da história de sucesso do treinador como atacante, o clube não teve o ataque mais positivo do grupo B da Lega Pro, mas terminou a competição com a melhor defesa, com apenas 29 gols sofridos em 38 jogos. Com 10 gols, o experiente atacante Alex Geijo, de 35 anos, foi o artilheiro da equipe ao lado de Stefano Moreo, de apenas 23 anos e 1,91m. 

A consistência do Venezia foi impressionante. Os lagunari assumiram a liderança do grupo em definitivo na 18ª rodada e não largaram mais. Foram 17 partidas seguidas de invencibilidade entre 30 de dezembro e 30 de abril. Os comandados de Pippo Inzaghi tiveram apenas uma derrota dentro de casa em todo o campeonato: no Estádio Pier Luigi Penzo, perderam o clássico contra o Padova, em 28 de novembro de 2016. Uma campanha incontestável de um time que deu mais um passo no sonho de voltar a estar entre os grandes.


Foggia: os diabinhos voltam a estar em evidência


Torcida do Foggia voltou a comemorar após anos difíceis (Divulgação)
Quem acompanha o futebol italiano certamente já ouviu falar do Foggia. O time da região da Apúlia entrou para a história como uma das equipes mais revolucionárias entre o final dos anos 1980 e início da década de 1990. Sob o comando de Zdenek Zeman, o estilo ultraofensivo que levou os satanelli da Serie C1 à nona colocação da Serie A (duas vezes) em quatro anos ficou conhecido como Zemanlandia e deu grande visibilidade a jogadores como os que formavam o "tridente maravilha", Roberto Rambaudi, Francesco Baiano e Giuseppe Signori. Além dos atacantes, o meia Giovanni Stroppa, campeão europeu com o Milan em 1989, chegou ao sul da Itália na temporada 1993-94 e foi convocado para a Squadra Azzurra quatro vezes antes de retornar a Milão. E quis o destino (e o trabalho) que fosse um dos atletas da época de ouro do Foggia um dos responsáveis pelo ressurgimento do clube. Os diabos desbancaram o rico Lecce para garantiram o retorno à Serie B depois de 19 anos e com Stroppa como seu treinador. Mais do que o acesso histórico, a conquista é um marco no ressurgimento de um clube que esteve muito próximo de fechar as portas em 2012.

Apesar de ter herdado um elenco forte (embora seja apenas o quarto mais caro entre todos os times do grupo C), a tarefa de Stroppa não foi fácil. Os rossoneri vinham de duas temporadas seguidas com o bom trabalho do técnico Roberto De Zerbi. Na temporada 2015-16, o Foggia bateu na trave do acesso ao perder a final dos play-offs para o Pisa de Gennaro Gattuso. Mesmo com o desempenho positivo, De Zerbi e a diretoria se desentenderam e o treinador foi demitido, rumando ao Palermo. Giovanni Stroppa chegou para apagar o incêndio interno e ainda montar o time – o que fez muito bem. Para se ter uma ideia, o valor do elenco do Foggia é avaliado em € 4,7 milhões, contra € 5,13 milhões do Matera; € 5,20 milhões do Catania; e € 6,03 milhões do Lecce, de acordo com o site Transfermarkt.

Mesmo com a disparidade financeira, os foggiani brigaram de igual para igual com os leccesi desde o início do campeonato. Os comandados de Stroppa largaram com seis vitórias seguidas, mas o grande teste de fogo surgiu cedo, entre outubro e o início de dezembro de 2016. Em 11 partidas neste período, os diabos venceram duas, contra Monopoli e Catanzaro, equipes que brigaram contra o rebaixamento. No entanto, a incrível reação do clube rossonero começou após a derrota por 3 a 2 para o Fondi no primeiro turno. Desde o do dia 6 de dezembro, o Foggia disputou 63 pontos e ganhou 54, um aproveitamento absurdo de 85,7% em 21 rodadas. Foram incríveis 17 vitórias, três empates e apenas uma derrota neste período. Enquanto isso, o Lecce tropeçou em jogos importantes e ficou para trás. Mais uma vez, os giallorossi tiveram de disputar os play-offs para tentar voltar à Serie B, mas fracassaram na missão. Desde que foi rebaixado diretamente da Serie A para a Lega Pro por causa de manipulações de resultados, em 2012, o Lecce ficou apenas no "quase" e perdeu três mata-matas valendo o acesso.

Técnico Giovanni Stroppa comemora acesso (Divulgação)
Coincidência ou não, com a bola rolando, Giovanni Stroppa adota o mesmo esquema tático favorito de Zeman, o 4-3-3. O grande destaque da equipe é o experiente atacante Fabio Mazzeo, de 33 anos. O jogador estava sem clube depois de ter sido dispensado pelo Benevento ao final da última temporada, mas encontrou no Foggia o melhor momento da carreira, com 21 gols marcados no campeonato. 

Com o fim da era do histórico presidente Pasquale Casillo e da Zemanlandia, o Foggia foi rebaixado da primeira para a segunda divisão na temporada 1994-95 e disputou a Serie B pela última vez em 1997-98, quando terminou na 17ª posição e caiu novamente. Também sem dinheiro para se reerguer, os rossoneri chegaram à Serie C2 em apenas dois anos. Desde então, o Foggia ficou orbitando entre a terceira e quarta divisões. O maior suspiro neste período foi em 2007, quando os diabos terminaram na quarta colocação do grupo B da Lega Pro e perderam a vaga na Serie B nos play-offs. Em 2010, Casillo comprou novamente o Foggia e levou com ele todos os diretores do clube na época de ouro, inclusive Zeman. No entanto, a tentativa de um retorno às glorias do passado terminou na pior tragédia da história do clube. Em 2012, Pasquale Casillo entregou as contas ao prefeito de Foggia. Sem ter como pagar a inscrição na Lega Pro, o time foi inscrito nas divisões amadoras do futebol italiano e decretou falência.

Mesmo com tanta história, o clube corria o risco de ter condições apenas para disputar as divisões regionais amadoras. No entanto, um grupo de empresários do ramo da energia elétrica, formado por Franco Sannella, Fedele Sannella e Massimo Curci, adquiriu as ações do Foggia em 2012. A nova gestão começou um processo de profissionalização e empreendedorismo para recuperar o clube. O antigo e tradicional escudo com o símbolo dos diabos foi recuperado e o trabalho, segundo os proprietários, tem como objetivo tornar o Foggia rentável em conjunto com ações com os torcedores. O primeiro resultado dentro de campo apareceu com o retorno à Serie B depois de 19 anos. Se o projeto vai continuar dando certo, apenas o tempo dirá. No entanto, a alegria nas ruas da cidade após a conquista mostra o quanto a torcida estava com saudade de comemorar.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O retorno do campeão: Di Francesco é sinônimo de nostalgia e esperança na Roma

Di Francesco fez parte da conquista do último scudetto da Roma e volta ao clube como treinador (Getty)
Chegou a hora dele. Após se consolidar como um dos cinco treinadores com trabalho mais interessante na Serie A, Eusebio Di Francesco finalmente foi contratado por um grande time da Itália. Não um clube qualquer, mas um com o qual ele tem intimidade: a Roma, pela qual faturou o scudetto, em 2001. Di Francesco, que teve passagem de quatro anos como jogador e fez parte do estafe técnico romanista, em 2005, foi apresentado nesta quarta (14) e volta a Trigoria com a expectativa de fazer história também no comando dos giallorossi.

Di Francesco será o segundo membro do elenco que conquistou o título italiano de 2000-01 a dirigir a Roma. O primeiro foi Vincenzo Montella, que estava à frente da equipe sub-15 quando foi alçado ao cargo em 2012, de forma interina: a ocasião marcou a estreia do ex-atacante como treinador profissional, e embora ele tenha feito uma boa condução do time, não teve sua permanência confirmada pela diretoria. Di Francesco, que é o 17º ex-jogador giallorosso a voltar ao clube como técnico, se mira em exemplos mais célebres, como os de Fulvio Bernardini e Fabio Capello – justamente o comandante do terceiro e último scudetto romanista.

Porém, até chegar a Trigoria e ter a oportunidade de dirigir um time que disputará a Liga dos Campeões e brigará por títulos, Di Francesco precisou superar muitas dificuldades em divisões inferiores e em clubes pequenos. O pescarês deu início a sua carreira como técnico no Lanciano, equipe do Abruzzo que disputava a terceira divisão, mas durou somente alguns meses por lá. Em janeiro de 2010, recebeu convite para comandar o Pescara, agremiação de sua cidade natal e à qual dedica seu carinho como torcedor: fez trabalho razoável pelos golfinhos, sendo responsável por tirar o time da Lega Pro e por uma campanha regular na Serie B. No Adriatico, DiFra estabilizou o ambiente e preparou as bases para que Zdenek Zeman conseguisse o acesso para a primeira divisão, no ano seguinte.

Simultaneamente, em 2011-12, Di Francesco teve sua estreia na Serie A, mas só ficou cinco meses à frente de um bagunçado Lecce, que seria rebaixado ao fim da campanha. Algum tempo após a decepção, o técnico aceitou retornar à segundona e encarou o desafio de treinar o ambicioso Sassuolo, que havia debutado na Serie B em 2008, após belo trabalho de Massimiliano Allegri, e batido na trave pelo acesso à elite com Stefano Pioli e Fulvio Pea. Na Emília-Romanha, DiFra deu a guinada em sua carreira.

À frente dos neroverdi, o sucesso foi imediato. A equipe foi a sensação do primeiro turno da Serie B e ficou com o título de campeã de inverno, mas não parou por aí: faturou o título da segundona, o maior de sua história, e conquistou o inédito acesso à elite, em 2013. Di Francesco começou a temporada seguinte no Città del Tricolore, mas foi demitido em janeiro de 2014, após a diretoria avaliar que os resultados não eram bons. Em março, Giorgio Squinzi reconheceu o erro e chamou o técnico de volta.

Nos anos que se seguiram, Eusebio não somente manteve o pequeníssimo Sassuolo na Serie A, mas tirou o máximo de jovens jogadores, como Domenico Berardi, Simone Zaza, Nicola Sansone, Alfred Duncan, Lorenzo Pellegrini e Grégoire Defrel. Ao elevar o nível desses jogadores e montar um time organizado, com futebol propositivo e ideias bem executadas, Di Francesco conseguiu, em 2015-16, um incrível 6º lugar no Italiano e a classificação para a Liga Europa. A última temporada foi mais atribulada, mas foi a sequência do trabalho que lhe deu, merecidamente, a oportunidade de treinar a Roma. No fim, haverá scudetto, como em 2001?

Di Francesco comemora com Marco Delvecchio um dos gols que marcou em Roma  (Getty)
Eusebio, o jogador
Se a trajetória de Di Francesco como treinador foi uma escalada difícil até se aproximar do topo, seu caminho como atleta não foi diferente. Nascido em Pescara e batizado em homenagem ao craque português Eusébio, o novo técnico da Roma teve de ir morar longe de casa para realizar o sonho de ser um futebolista. Em Empoli, na Toscana, DiFra concluiu sua formação nas categorias de base e estreou como profissional, na Serie A 1987-88. Depois disso, pelos próprios azzurri, atuou nas séries B e C1, e se estabeleceu como titular no meio-campo da Lucchese, equipe também toscana e que militava na segundona. Quatro bons anos em Lucca lhe renderam uma transferência para o Piacenza, que havia subido para a Serie A.

O meia canhoto chegou para reforçar o time e rapidamente se estabeleceu como um dos pilares dos biancorossi no biênio que passou por lá, juntamente ao goleiro Massimo Taibi – sem falar no regista Eugenio Corini e nos centroavantes Nicola Caccia e Pasquale Luiso, seus companheiros durante um ano. Em duas temporadas, Di Francesco só desfalcou a equipe em uma partida da Serie A e sua consistência foi fundamental para que os papaveri obtivessem a salvezza em ambas as oportunidades.

No final de 1996-97, Eusebio recebeu a primeira convocação para a seleção italiana, mas declinou a participação no Torneio da França para auxiliar seu time no spareggio, jogo-desempate que definiria o futuro do Piace na Serie A. Com a participação de Di Francesco, o Piacenza derrotou o Cagliari e ficou na elite. Ao final da temporada, com todas as credenciais positivas possíveis para sua carreira, o meia de 28 anos trocou os lobos da Emília-Romanha pela Loba giallorossa e viveu o grande momento da carreira.

Além da Roma, Eusebio vestiu com sucesso a camisa do Piacenza (Sky Sports)
Entre 1997 e 2001, DiFra dividiu o vestiário com estrelas e bandeiras como Francesco Totti, Gabriel Batistuta, Vincenzo Montella, Damiano Tommasi e Aldair. Nas duas primeiras temporadas, sob o comando de Zeman, foi titular da equipe, que concluiu a Serie A na 4ª e na 5ª posições, respectivamente, e caiu nas quartas de final da Copa Uefa de 1998-99. Na temporada de estreia de Capello na Cidade Eterna, Di Francesco também foi titular e ajudou sua equipe a a ficar com a 6ª colocação do Italiano e a novamente ir até as fases eliminatórias da Coppa Italia e da Copa Uefa. Neste período, fez parte dos planos de Cesare Maldini e Dino Zoff na Nazionale azzurra, mas não se firmou.

A temporada 2000-01 seria a última de Eusebio em Roma e poderia ter sido amarga, uma vez que ele entrou em campo somente em cinco oportunidades. Pior, só fez uma partida como titular, na penúltima rodada, contra o Napoli. Apesar disso, o jogador de quase 32 anos pode comemorar a sua única conquista como jogador profissional – e logo a maior que podia. Com gols de Totti, Montella e Batigol contra o Parma, no último fim de semana da competição, a Roma conquistava seu terceiro scudetto. Um caminho que Di Francesco, com 129 partidas e 16 gols pelo clube, ajudou a consolidar.

De saída da Roma, Eusebio Di Francesco retornou ao Piacenza, que estava em decadência. Fez duas temporadas com os lupi na Serie A, mas na última delas não conseguiu evitar o rebaixamento. Acabou fechando contrato com o Ancona, que também disputaria a elite, mas em janeiro de 2004 trocou a barca furada dos marquesãos – que, com pouquíssimos pontos, voltaria para a segundona naquele campeonato – pelo Perugia.

Os peruginos também cairiam para a Serie B, mas Di Francesco permaneceu para disputar a segunda divisão em 2004-05. Os biancorossi ficaram com 74 pontos na competição, empatados com Empoli e Torino, mas por critérios de desempate tiveram de jogar os play-offs de acesso. Não conseguiram superar o Toro e ficariam na segundona, mas as más condições financeiras do clube o levariam à falência.

Após este fim atribulado, Di Francesco decidiu se aposentar, com quase 35 anos, e recebeu convite para voltar à Roma. Na ocasião, o ex-jogador ocupou o cargo de team manager, fazendo a ponte entre os atletas e a diretoria. Parece que, de quando em quando, a Cidade Eterna entra no caminho de Eusebio. O destino lhe chama.

Eusebio Luca Di Francesco
Nascimento: 8 de setembro de 1969, em Pescara, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Empoli (1987-91), Lucchese (1991-95), Piacenza (1995-97 e 2001-03), Roma (1997-2001), Ancona (2003-04) e Perugia (2004-05)
Títulos como jogador: Serie A (2001)
Carreira como treinador: Lanciano (2008-09), Pescara (2009-11), Lecce (2011), Sassuolo (2012-14 e 2014-17) e Roma (2017-atual)
Títulos como treinador: Serie B (2013)
Seleção italiana: 13 jogos e um gol

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Saldo insuficiente

Em dia de brilho de Belotti, Insigne e Pellegrini, Itália goleou Liechtenstein (LaPresse)
Empurrada pelos friulanos, a Nazionale fechou sua participação na data Fifa de junho com a esperada goleada sobre Liechtenstein. Por 5 a 0, o time de Gian Piero Ventura construiu uma importante vantagem em Údine, embora permaneça atrás da Espanha pelo saldo de gols – agora, a Fúria tem quatro a mais. A Nazionale lamenta, pois poderia ter vencido por uma diferença maior, não fossem os erros da arbitragem escocesa, que anulou erroneamente dois gols italianos, além de outro corretamente invalidado.

A goleada demorou para ser construída, mesmo com a pressão azzurra. Insigne, o melhor jogador do time nas duas partidas nesta semana, abriu o placar com um golaço: recebeu passe de Spinazzola, outro em grande momento, ajeitou com o peito e finalizou firme e alto no canto do gol, sem deixar a bola cair. Poderia ter sido o segundo golaço do dia, já que nos minutos iniciais Candreva havia acertado um sem pulo de canhota, no ângulo, mas teve seu tento incorretamente anulado por impedimento.

O placar só seria ampliado na segunda etapa, conforme Candreva e Immobile, mais uma vez mal em campo, saíram de campo. Antes das substituições, Belotti recebeu mais uma assistência preciosa de Insigne para fazer o segundo da partida e abrir o caminho para Éder e Bernardeschi novamente aproveitarem a oportunidade.

Em menos de dez minutos, os jogadores de Inter e Fiorentina fizeram mais que aqueles que foram sacados e transformaram a vitória em goleada: o primeiro completou cruzamento de Belotti e o segundo acertou poderoso chute de fora da área após uma subida de Chiellini. Nos acréscimos, Gabbiadini, que entrou no lugar de Belotti após o terceiro gol, finalizou outra jogada construída por Insigne e Spinazzola. O atalantino cruzou e, com desvio do atacante do Southampton na primeira trave, o placar teve números finais.

O estreante da vez do lado italiano foi Pellegrini, que surpreendentemente atuou os 90 minutos e esteve muito confortável ao lado de De Rossi – a quem agradeceu no final do jogo. Enquanto isso, mais uma vez Insigne e Spinazzola foram protagonistas, enquanto Belotti deixou sua marca com um gol e uma assistência: no total, o Galo realizou quatro tentos e três passes decisivos nas Eliminatórias.

A Nazionale retorna a campo somente em setembro, quando terá confronto decisivo contra a Espanha, no dia 2, em Madri. Depois disso, restaram ainda partidas contra Israel (Reggio Emilia), Macedônia (Turim) e Albânia (Escodra). Segunda colocada no Grupo G, hoje a Itália enfrentaria Irlanda do Norte, Irlanda, Grécia ou Islândia nos play-offs, que acontecerão em novembro. Somente uma vitória no Santiago Bernabéu mudará este quadro.

Itália 5-0 Liechtenstein

Itália (4-2-4): Buffon; Darmian, Barzagli, Chiellini, Spinazzola; Pellegrini, De Rossi; Candreva (Bernardeschi), Belotti (Gabbiadini), Immobile (Éder), Insigne. Treinador: Gian Piero Ventura.

Liechtenstein (4-5-1): Jehle; Rechsteiner, Gubser, Malin, Göppel; Salanovic (Brändle), Büchel, Polverino (Quintans), Hasler, Burgmeier (Wolfinger); Frick. Treinador: Rene Pauritsch.

Gols: Insigne, Belotti, Éder, Bernardeschi e Gabbiadini
Local: Dacia Arena, em Údine, Itália
Árbitro: Kevin Clancy (Escócia)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os melhores da Serie A 2016-17

Hora de deixar a temporada 2016-17 para trás: hoje, nossa tradicional retrospectiva do Campeonato Italiano chega ao fim. O blog analisou as campanhas de cada uma das 20 equipes (veja aqui e aqui), escolheu as revelações da temporada e também listou os melhores jogos que aconteceram no Belpaese. Agora, é hora de conhecermos os melhores do torneio: o Quattro Tratti convidou alguns dos mais prestigiados jornalistas e blogueiros esportivos para escolherem a seleção da recém-concluída da Serie A e também os melhores do torneio em oito categorias. Agradecemos a cada um dos participantes desta eleição e também a você, leitor, que nos acompanha diariamente. Vamos conferir quem garantiu as premiações?

Publicado também na Trivela.

Seleção da Serie A 2016-17
Buffon (Juventus); Conti (Atalanta), Caldara (Atalanta), Bonucci (Juventus), Alex Sandro (Juventus); Nainggolan (Roma), Hamsík (Napoli); Mertens (Napoli), Dybala (Juventus), Gómez (Atalanta); Dzeko (Roma).

Menções honrosas
Goleiros: Donnarumma (Milan) e Szczesny (Roma);
Zagueiros: Fazio (Roma), Chiellini (Juventus) e Koulibaly (Napoli);
Laterais: Daniel Alves (Juventus) e Emerson Palmieri (Roma);
Meio-campistas: Milinkovic-Savic (Lazio), Biglia (Lazio), Kessié (Atalanta), Gagliardini (Atalanta/Inter), Khedira (Juventus), Strootman (Roma) e Pjanic (Juventus);
Atacantes: Insigne (Napoli), Salah (Roma), Higuaín (Juventus), Belotti (Torino) e Icardi (Inter).

Dries Mertens


Prêmios: Melhor jogador e melhor atacante

Pela primeira vez desde que começamos a escolher os melhores da Serie A, o craque do campeonato não joga no campeão ou no vice. Isso demonstra o quão impactante foi a temporada de Mertens, o maior destaque do Napoli, terceiro colocado e praticante do futebol mais ofensivo no Belpaese. Redescoberto como centroavante por Maurizio Sarri após a lesão de Milik, o belga chegou aos 30 anos vivendo a melhor fase da carreira: vice-artilheiro do Italiano, com 28 gols, Mertens superou as marcas que alcançou no PSV Eindhoven, mas não era um mero finalizador. Ele participava de toda a construção de jogadas dos partenopei e a prova disso é que ainda colaborou com oito assistências.

Na temporada mais movimentada dos últimos anos na Itália, é natural que outros atacantes também tenham brilhado e aparecido como concorrentes de Mertens não só na corrida pelo prêmio de melhor na posição, mas a craques do campeonato. Dzeko, Dybala, Gómez e Belotti foram lembrados por grande parte dos votantes, mas não conseguiram superar o jogador do Napoli.

Gianluigi Buffon


Prêmio: Melhor goleiro

Enquanto não se aposentar, o destino de Buffon será ser escolhido anualmente como melhor goleiro da Serie A. Lenda viva, Super Gigi não precisa ser espalhafatoso ou aparecer o tempo todo para nos lembrarmos de sua importância e qualidade – afinal, sua grande marca é ser regular, sempre em alto nível. Além de suas habilidades técnicas, Buffon se destaca por ser capitão da Juve hexacampeã e transmitir sua liderança nos bastidores e dentro de campo aos colegas.

Além do Superman, outros três goleiros foram lembrados pelos eleitores. A começar pelo seu herdeiro na seleção italiana: Donnarumma evoluiu nesta temporada, aprendeu com alguns erros e fez defesas espetaculares, que ajudaram o Milan a retornar às competições europeias. O milanista teve o maior percentual de defesas na Serie A e foi seguido por Szczesny, da Roma, que também recebeu votos de nosso eleitorado. Outro goleiro polonês que teve temporada de alto nível foi Skorupski, do rebaixado Empoli.

Leonardo Bonucci


Prêmio: Melhor zagueiro

Considerado por muitos o melhor zagueiro em atividade atualmente, Bonucci faturou pela segunda vez o prêmio concedido pelo blog. Um dos líderes da Juventus, Leonardo permaneceu atuando em altíssimo nível em linhas defensivas de três ou quatro jogadores e não se afetou pelas tantas especulações sobre uma eventual transferência. Ao contrário, foi um dos jogadores mais regulares na campanha do hexa da Serie A, do tri na Coppa Italia e do vice na Champions League. Extremamente técnico, o defensor destacou-se mais uma vez por ser peça central na base de construção de jogadas da Juventus, com passes bem feitos e por seus lançamentos, mas também por marcar gols – anotou cinco na temporada.

Ao lado de Bonucci, Chiellini voltou a fazer uma grande temporada, após dois anos de alguma irregularidade, e também foi lembrado. O terceiro juventino da lista é o jovem Caldara: revelado pela Atalanta e já adquirido pela Velha Senhora, o grandalhão mostrou técnica, frieza, personalidade e instinto matador (fez sete gols) para ser um dos destaques dos nerazzurri na Serie A. Outro jogador que fez bom campeonato e mereceu menção nesta lista foi o argentino Fazio, da Roma.

Radja Nainggolan


Prêmio: Melhor meio-campista

Vai que é tua, Ninja. Segundo belga da premiação, Nainggolan foi o principal nome da Roma vice-campeã italiana ao lado de Dzeko, e destacou-se – tal qual seu compatriota Mertens – por ter se reinventado na temporada. Radja surgiu como meia defensivo e mantém as características comuns a jogadores que realizam esta função, como a qualidade nos desarmes, o incansável espírito de luta e a rispidez, mas Luciano Spalletti adiantou seu posicionamento em campo desde que chegou em Trigoria e colheu frutos. Atuando avançado, em suporte ao tridente ofensivo, o belga participou mais da articulação de jogadas e foi estimulado a entrar mais na área adversária e a experimentar chutes de longa distância: acabou terminando a Serie A com 11 gols e três assistências em sua conta.

Na campeã italiana, o ex-romanista Pjanic também fez boa temporada (embora com papel mais discreto do que em seus tempos na capital) e foi lembrado, juntamente com o colega Khedira. Autor de 12 gols e cinco assistências, Hamsík, do Napoli, também concorreu ao prêmio de melhor meio-campista do campeonato, tal qual os meias centrais Gagliardini (Inter/Atalanta) e Milinkovic-Savic (Lazio).

Alex Sandro


Prêmio: Melhor jogador brasileiro

Dessa vez era fácil afirmar que o melhor jogador brasileiro da Serie A seria um lateral. Com menos atacantes do nosso país brilhando em solo italiano, os destaques de 2016-17 foram os juventinos Alex Sandro e Daniel Alves e o romanista Emerson Palmieri – este, porém, já assumiu a cidadania italiana. Entre o ex-santista e o ex-barcelonista, o primeiro foi mais regular e merceu o prêmio.

Titular absoluto do time bianconero, Alex Sandro não sofreu com lesões durante o ano, ao contrário de Dani, que fraturou a fíbula e ficou três meses de molho, e foi utilizado o tempo inteiro, seja numa linha de quatro na defesa ou numa de cinco no meio-campo – o baiano, por sua vez, chegou a jogar como zagueiro. Em 27 jogos no campeonato (contra 19 de Dani, que também repousou para brilhar na Liga dos Campeões), fez três gols e ainda deu duas assistências, mas destacou-se mesmo por cumprir bem sua função no esquema tático de Max Allegri. Para seu azar, o Brasil tem Marcelo e Filipe Luís também em grande fase, fato que diminui suas chances de convocação por Tite.

Mattia Caldara


Prêmio: Revelação da Serie A

Mattia Caldara é mais uma prova viva de como a Atalanta tem um dos principais centros de formação de jogadores do futebol mundial. O clube que revelou Gaetano Scirea, um dos grandes zagueiros da história, acertou em cheio novamente ao dar oportunidade a Caldara: o defensor central tem tudo para ser referência da posição nos próximos anos. Nascido em Bérgamo, o jogador foi emprestado para ganhar tutano na Serie B, mas só foi impressionar mesmo em sua volta à cidade natal. Gian Piero Gasperini o alçou ao time titular na 7ª rodada e ele não saiu mais do centro do trio de zaga. Caldara mostrou um senso de posicionamento muito apurado, além de ser excepcional nas roubadas de bola e melhor ainda no jogo aéreo, a ponto de ter anotado sete gols na Serie A. Pilar do time na melhor campanha de sua história, o zagueiro já atuou e marcou pela seleção italiana e está acertado com a Juventus, que o deixará emprestado à Dea até junho de 2018.

A Atalanta foi o paraíso das revelações do campeonato. Além de Caldara, a equipe nerazzurra revelou vários outros jogadores nesta temporada, como Kessié e Gagliardini, que também foram lembrados pelos votantes da seleção da temporada. Uma nota à parte fica por conta de Federico Chiesa, filho do ex-atacante Enrico, que teve um bom ano com a camisa da Fiorentina.

Gian Piero Gasperini


Prêmio: Melhor técnico

A volta por cima da cabeleira mais branca de todo o futebol italiano. Gasperini surgiu como técnico revolucionário no Genoa, caiu em desgraça após passagens sofríveis por Inter e Palermo e, à frente da modesta Atalanta, conseguiu entrar para a história do clube e do esporte no Belpaese. Arrojado, o piemontês redesenhou a equipe para acomodar seu 3-4-3 (ou 3-4-1-2) e optou por colocar vários jogadores experientes no banco para dar espaço a jovens que compraram as suas ideias. Caldara, Conti, Gagliardini, Kessié, Cristante, Spinazzola e Petagna: todos eles evoluíram muito e explodiram nesta temporada, sob o comando do treinador. Gasperini ainda conseguiu valorizar atletas pouco badalados e ajudou o capitão Papu Gómez a viver o auge de sua carreira aos 29 anos.

A soma de acertos táticos e de bastidores fez a Atalanta superar suas limitações e fazer a melhor temporada de sua história, quebrando uma série de marcas: melhor posicionamento no campeonato, maior quantidade de pontos conquistados e o maior número de vitórias em uma Serie A. Com isso, a surpresa da temporada italiana conseguiu a classificação à Liga Europa e volta a disputar uma competição continental pela primeira vez desde 1991. Por tudo isso, Gian Piero superou Maurizio Sarri e suas abordagens tática e técnica contagiantes à frente do Napoli, Massimiliano Allegri e sua Juventus implacável (graças a modificações táticas efetuadas por ele, vale destacar) e Simone Inzaghi e sua Lazio organizada e ofensiva.
Votantes da seleção da temporada
Aldir Junior (Atalanta Brasil/Calcio Alternative/Quattro Tratti)
Alexandre Perin (Almanaque Esportivo)
Anderson Moura (Quattro Tratti/Esporte Interativo)
Antônio Carlos Zamarian (Portale Romanista)
Arthur Barcelos (Quattro Tratti/Centrocampismo/La Beneamata – ESPN FC)
Beatriz Lopes (AC Milan Brasil)
Braitner Moreira (Quattro Tratti/Correio Braziliense)
Bruno Formiga (Esporte Interativo)
Bruno Bonsanti (Trivela)
Bruno Vicari (ESPN)
Caio Bitencourt (Gazeta Press / Partenopeo – ESPN FC)
Caio Dellagiustina (Quattro Tratti)
Caio Pavoski (AC Milan Brasil)
Charley Moreira (VAVEL/AC Milan Brasil)
Clara Albuquerque (Esporte Interativo)
Daniele Monti (Sportv)
Felipe Lobo (Trivela)
Felipe Portes (Todo Futebol/Coração de Roma – ESPN FC)
Felipe Rolim (Esporte Interativo) 
Filipy Roberto (Doentes por Futebol)
Gabriel Joaquim (AC Milan Brasil)
Gian Oddi (ESPN) 
Gustavo Villani (FoxSports)
Hugo Quadros (AC Milan Brasil)
Jandir Rocha (AC Milan Brasil) 
João Guilherme (FoxSports)
Júlio Souza (SampBrasil – ESPN FC)
Leonardo Bertozzi (ESPN)
Lucas Martins (Doentes por Futebol/Centrocampismo) 
Luiz Augusto (Inter de Milão Brasil)
Luiz Carlos Largo (ESPN)
Marco De Vargas (FoxSports)
Mauro Cezar Pereira (ESPN)
Michel Costa (co-autor do livro "É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil")
Murillo Moret (Quattro Tratti/Gazzebra – ESPN FC) 
Napoleão de Almeida (UOL/Bandsports)
Nathalia Perez (AC Milan Brasil)
Nelson Oliveira (Quattro Tratti)
Paulo Andrade (ESPN)
Pedro Lampert (Centrocampismo)
Pedro Spiacci (Quattro Tratti)
Raniery Medeiros (Doentes por Futebol) 
Raphael Lins (Juventus Brasil)
Rodrigo Antonelli (Quattro Tratti/Correio Braziliense)
Rodrigo Bueno (FoxSports)
Thiago Simões (ESPN)
Victor Canedo (Globo Esporte)
Victor Quintas (Doentes por Futebol) e
Wladimir Dias (Doentes por Futebol/O Futebólogo)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Mentalidade vencedora

Éder foi um dos marcadores no amistoso contra o Uruguai (Getty)
Depois do teste para os jovens contra San Marino, foi a vez de os veteranos entrarem em ação. Afinal, o adversário do amistoso desta quarta-feira era muito mais gabaritado que os samarineses. O Uruguai traz lembranças ruins para os italianos e é uma das três únicas seleções que levam vantagem no confronto direto contra a Nazionale, ao lado do Brasil e da antiga União Soviética. A vitória por 3 a 0, no entanto, aproximou a Itália da celeste no testa a testa: agora são três vitórias para a seleção europeia, quatro para a sul-americana e quatro empates.

Pelo menos no papel, a partida em Nice teve caráter amistoso, mas o time de Gian Piero Ventura levou o jogo a sério e aproveitou também para ganhar alguns pontos no ranking da Fifa, no qual figura apenas na 12ª posição. Com tal atitude, elogiada pelo treinador na coletiva concedida após o duelo, ficou fácil dominar a seleção charrua, bastante desfalcada. Na França, o veterano Óscar Tabárez precisou fazer experiências, já que não contou com seus principais jogadores – Godín, Cavani e Suárez.

No Allianz Riviera, o treinador azzurro repetiu mais uma vez o 4-2-4 com Candreva e Insigne nas pontas e os amigos Belotti e Immobile no centro do ataque. As novidades da vez foram a a titularidade do precoce Donnarumma e a utilização de Spinazzola, ala na Atalanta de Gasperini, que jogou pela primeira vez como lateral em uma defesa com quatro jogadores. Entre os que entraram no decorrer do jogo, destaque para os retornos de Gabbiadini (em boa fase na Inglaterra) e Montolivo, que ficou longo tempo parado por lesão. O capitão do Milan entrou ainda no primeiro tempo, por causa de um desconforto muscular do juventino Marchisio, e fez boa partida.

A Nazionale dominou a partida contra o enfraquecido time uruguaio, e pela postura séria e ofensiva dos comandados de Ventura, raramente foi ameaçada – exceto por uma defesa de Donnarumma e um gol anulado por falta de Cáceres sobre Montolivo. O grande destaque ficou pela soberania sobre o setor direito adversário: Spinazzola e Insigne estiveram bastantes ativos no jogo, graças à distribuição de bola de Bonucci e De Rossi, jogadores com mais toques e passes no amistoso.

Em lançamento do baixinho napolitano, aliás, saiu o primeiro gol. O camisa 7 buscou Belotti, que dominou com o peito e foi antecipado tragicamente por Giménez. O zagueiro do Atlético de Madrid deu condições para o centroavante do Torino e, na ânsia de corrigir o erro de posicionamento, correu todo atrapalhado e chutou como um artilheiro contra seu gol. Era o início de sua atuação desastrosa em Nice.

Entre as variações no segundo tempo, El Shaarawy e Éder mais uma vez aproveitaram a oportunidade, enquanto os titulares Candreva e Immobile não deixaram muitas lembranças. O romanista foi protagonista com algumas jogadas pelas pontas e o interista levou perigo nas finalizações. Inclusive, o ítalo-brasileiro ampliou o marcador já no final, desviado um chute cruzado de Gabbiadini, que acabara de entrar.

Ainda houve tempo para De Rossi deixar seu gol. Giménez errou novamente e, após ser driblado por El Shaarawy, deu um carrinho mesmo que o adversário já não tivesse mais o controle da bola. Ao converter penalidade e marcar seu 22º gol azzurro, Daniele De Rossi superou simplesmente Paolo Rossi em números de tentos pela Nazionale. Um belo presente para o novo capitão da Roma, que hoje também superou Dino Zoff nas presenças (113) pela Itália. O volante, aliás, já falou que se aposentará da seleção em 2018.

Agora, a Itália direciona seu foco para Liechtenstein, adversário das Eliminatórias para a Copa do Mundo, e contra o qual visa aumentar seu saldo de gols. A Nazionale retorna a campo no domingo, em Údine, com expectativa de casa cheia no belo Friuli.

Itália 3-0 Uruguai
Itália (4-2-4): Donnarumma; Darmian, Barzagli (Chiellini), Bonucci, Spinazzola; De Rossi, Marchisio (Montolivo); Candreva (Bernardeschi), Belotti (Éder), Immobile (Gabbiadini), Insigne (El Shaarawy). Treinador: Gian Piero Ventura.

Uruguai (4-2-3-1): Muslera; Maxi Pereira (Corujo), Giménez, Coates, Cáceres; González, Vecino; Sánchez (Stuani), Nández, Urreta; Rolan (Alejandro Silva). Treinador: Óscar Tabárez.

Gols: Giménez (contra), Éder e De Rossi
Local: Allianz Riviera, em Nice, França
Árbitro: Clément Turpin (França)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Retrospectiva da Serie A 2016-17, parte 2

Na segunda-feira, iniciamos a retrospectiva 2016-17 da Serie A aqui no blog. Na ocasião, analisamos as campanhas dos times classificados na parte mais baixa da tabela e agora iremos falar dos 10 primeiros do campeonato. Confira os feitos da hexacampeã Juventus e dos melhores ataques do certame, que anotaram mais de 70 gols.

Confira aqui a primeira parte do especial. Publicado também na Trivela.

Sampdoria


A campanha: 10ª colocação, 48 pontos. 12 vitórias, 12 empates e 14 derrotas.
No primeiro turno: 12ª posição, 23 pontos.
Fora da Serie A: Eliminada nas oitavas de final da Coppa Italia pela Roma.
Ataque e defesa: 49 gols marcados e 55 sofridos
Time-base: Puggioni (Viviano); Sala (Bereszynski), Silvestre, Skriniar, Regini; Barreto, Torreira, Linetty; Praet (Schick, Bruno Fernandes); Quagliarella, Muriel.
Artilheiros: Fabio Quagliarella (12 gols), Patrik Schick e Luis Muriel (ambos com 11)
Técnico: Marco Giampaolo
Os destaques: Patrik Schick, Luis Muriel e Karol Linetty
A decepção: Dodô
A revelação: Patrik Schick
Quem mais jogou: Fabio Quagliarella (37 jogos) e Matías Silvestre (36)
O sumido: Angelo Palombo
Melhor contratação: Patrik Schick
Pior contratação: Luca Cigarini

Deu para o gasto. Ninguém esperava que a Sampdoria poderia fazer algo além do que produziu e o técnico Giampaolo continua na equipe para a próxima campanha, já que alcançou os resultados para os quais foi contratado. A equipe blucerchiata fez jogos duros contra os grandes – venceu Inter, Milan e Roma, por exemplo –, esteve no nível das equipes de meio de tabela e, mais importante: venceu os duelos contra o Genoa. Desde o fim dos anos 1950 os dorianos não conseguiam triunfar nas duas partidas de uma mesma edição da Serie A diante do rival.

Giampaolo montou uma base coesa e preferiu trabalhar com um grupo reduzido de atletas – somente 24 foram utilizados ao longo da temporada, e nomes como Dodô, Cigarini e o capitão Palombo foram relegados ao ostracismo. Entre os que tiveram mais minutos em campo, o argentino Silvestre voltou a apresentar o bom nível de seus anos no Catania, enquanto os jovens Torreira e Linetty foram a garantia de intensidade e qualidade nos passes no meio-campo. Tudo isso para que os atacantes ficassem mais livre para cumprir seu objetivo. O experiente Quagliarella guardou sua habitual cota de gols, ao passo que Muriel teve sua melhor temporada desde que saiu do Lecce, em 2012. O grande destaque, porém, ficou por conta do habilidoso Schick, que começou a temporada no banco, mas ganhou espaço com gols e jogadas importantes. Em alta, deve ser negociado e abastecer os cofres do excêntrico presidente Massimo Ferrero com cerca de 25 milhões de euros.

Torino


A campanha: 9ª colocação, 53 pontos. 13 vitórias, 14 empates e 11 derrotas.
No primeiro turno: 8ª posição, 30 pontos.
Fora da Serie A: Eliminado nas oitavas de final da Coppa Italia pelo Milan.
Ataque e defesa: 71 gols marcados e 66 sofridos
Time-base: Hart; Zappacosta, Rossettini, Moretti, Barreca; Benassi, Valdifiori (Acquah, Boyé), Baselli; Falqué, Belotti, Ljajic.
Artilheiros: Andrea Belotti (26 gols), Iago Falqué (12) e Adem Ljajic (10)
Técnico: Sinisa Mihajlovic
Os destaques: Andrea Belotti, Daniele Baselli e Marco Benassi
A decepção: Joe Hart
A revelação: Antonio Barreca
Quem mais jogou: Daniele Baselli (37 jogos) e Joe Hart (36)
O sumido: Danilo Avelar
Melhor contratação: Adem Ljajic
Pior contratação: Juan Manuel Iturbe

Assistir o Torino nesta temporada foi garantia de ver redes balançando muitas vezes: entre gols pró e contra, a participação dos grenás na Serie A teve uma média de 3,6 gols por partida. Isso se explica inicialmente pela grande produção ofensiva da equipe, que fechou o campeonato como uma das seis agremiações que ultrapassaram a marca de 70 tentos anotados. Na temporada de sua afirmação definitiva, o matador Belotti foi o principal destaque do time e, com 26 gols, se tornou o maior artilheiro do Toro em um único ano desde Benjamín Santos, em 1950. Para marcar gols de todas as formas, o Gallo contou com coadjuvantes de bom nível, como Zappacosta, Barreca, Baselli, Benassi, Falqué e Ljajic.

Para montar uma máquina ofensiva, Mihajlovic teve êxito na implementação de um de seus principais preceitos. O sérvio gosta de equipes que sempre atuem com intensidade elevada e marcação dura, para retomar a posse de bola com rapidez – com isso, os atacantes acabavam acionados rapidamente. Miha, porém, em nenhum momento conseguiu dar um jeito na defesa granata, que não se acertou após as saídas de Glik e Maksimovic e ainda contou com um Hart em péssima fase. O goleiro inglês foi um dos que mais teve falhas capitais em todo o campeonato e não ofereceu segurança ao setor. Menos mal que o Torino tinha fome de gols.

Fiorentina


A campanha: 8ª colocação, 60 pontos. 16 vitórias, 12 empates e 10 derrotas.
No primeiro turno: 9ª posição, 30 pontos.
Fora da Serie A: Eliminada nas quartas de final da Coppa Italia pelo Napoli e nos 16 avos de final da Liga Europa pelo Mönchengladbach.
Ataque e defesa: 63 gols marcados e 57 sofridos
Time-base: Tatarusanu; Sánchez (Tomovic), Rodríguez, Astori; Tello (Chiesa), Badelj, Vecino, Milic (Olivera); Bernardeschi, Borja Valero (Ilicic); Kalinic (Babacar).
Artilheiros: Nikola Kalinic (15 gols), Federico Bernardeschi (11) e Khouma Babacar (10)
Técnico: Paulo Sousa
Os destaques: Federico Bernardeschi, Matías Vecino e Federico Chiesa
A decepção: Josip Ilicic
A revelação: Federico Chiesa
Quem mais jogou: Cristian Tello (36 jogos) e Ciprian Tatarusanu (35)
O sumido: Sebastian De Maio
Melhor contratação: Carlos Sánchez
Pior contratação: Kevin Diks

A decepção é violeta. Na temporada 2015-16 a Fiorentina despontou como uma das surpresas da Serie A, não só em termos de resultados, mas também de futebol bem jogado. Porém, a equipe toscana regrediu bastante e não foi nem sombra do time que encantou a Itália anteriormente. O técnico Paulo Sousa foi apontado como um dos responsáveis pelo sucesso da equipe em seu primeiro ano, mas viu sua batata esquentar ao não encontrar soluções para driblar a queda de rendimento do time – uma diminuição de desempenho que esbarrou sobretudo em problemas táticos. Não à toa, o português foi substituído por Stefano Pioli nesta semana.

A responsabilidade fica mais a cargo do treinador porque o elenco sofreu poucas modificações – dos mais utilizados em 2015-16, somente Alonso, Pasqual, Blaszczykowski, Roncaglia e Mati Fernández deixaram Florença. É claro, porém, que o ano ruim da Fiorentina passou por atuações negativas de algumas peças-chave do plantel: entre os jogadores que ficaram, Kalinic teve altos e baixos, Tatarusanu, Astori e Rodríguez mostraram a habitual insegurança e Badelj e Ilicic foram incapazes de apresentar o nível e outros anos. O bom futebol, no entanto, continuou com Bernardeschi, Vecino e Borja Valero, que conseguiram tirar alguns coelhos da cartola ao longo da temporada. Chiesa surgiu como ótima opção e Babacar se converteu em uma boa alternativa de segundo tempo, mas a soma destes fatores não foi suficiente para que a viola tivesse um ano estável.

Inter


A campanha: 7ª colocação, 62 pontos. 19 vitórias, 5 empates e 14 derrotas.
No primeiro turno: 7ª posição, 33 pontos.
Fora da Serie A: Eliminada nas quartas de final da Coppa Italia pela Lazio e na fase de grupos da Liga Europa.
Ataque e defesa: 72 gols marcados e 49 sofridos
Time-base: Handanovic; D'Ambrosio, Miranda, Medel (Murillo), Ansaldi (Nagatomo, Santon); Gagliardini (Banega), Kondogbia (Brozovic); Candreva, João Mário (Éder), Perisic; Icardi.
Artilheiros: Mauro Icardi (24 gols), Ivan Perisic (11) e Éder (8)
Técnicos: Frank De Boer (1ª-11ª rodada), Stefano Pioli (13ª-35ª) e Stefano Vecchi (interino; 12ª e 36ª-38ª)
Os destaques: Mauro Icardi, Ivan Perisic e Samir Handanovic
A decepção: Jeison Murillo
A revelação: Roberto Gagliardini
Quem mais jogou: Antonio Candreva (38 jogos), Samir Handanovic (37) e Ivan Perisic (36)
O sumido: Gabriel
Melhor contratação: Roberto Gagliardini
Pior contratação: Caner Erkin

Três treinadores durante a temporada e um outro demitido durante os amistosos de preparação, em meio à troca na gestão do clube: não tinha como o ano da Inter dar certo. Ainda assim, o forte elenco nerazzurro tinha obrigação de tentar abocanhar ao menos uma vaga em competições europeias e falhou miseravelmente. A desastrada passagem de De Boer pela Beneamata – leia mais aqui – tirou qualquer chance de classificação à Liga dos Campeões e proporcionou uma vexatória eliminação continental. Seu substituto conseguiu ajeitar a casinha por um tempo e fez o time jogar bem (aplicou até 7 a 1 na Atalanta, sua asa negra e sensação do campeonato), mas outra vez a equipe de Milão tropeçou nas próprias pernas. O elenco mostrou fraqueza mental em horas decisivas de sua campanha e perdeu fôlego na reta final da Serie A, vendo a sua consolação (uma vaga na Liga Europa) escorrer pelos dedos.

O grande problema em La Pinetina é que a Inter se inspira no famoso romance de Robert Louis Stevenson, que retrata um homem com dupla personalidade, meio médico e meio monstro. Candreva erra 30 cruzamentos em uma partida, mas acerta unzinho e tira espaço de Gabigol; Perisic anota gols decisivos e isola chances claras; João Mário e Banega alternam partidas em altíssimo nível com o mais completo anonimato; Miranda e Handanovic corrigem a maioria dos erros de Murillo, mas basta estarem ausentes em um lance para que a equipe desabe; e para cada acerto de posicionamento de Gagliardini e Kondogbia na parte baixa do meio-campo, Brozovic resolve ser displicente na entrada da área e estragar os planos de jogo dos treinadores. Enquanto isso persistir, não haverá avanços e não adiantará injeção de capital chinês. Para se reconstruir, a Inter deve se basear nos pilares que trouxeram algum alento nesta temporada. Como por exemplo, no alto rendimento de Icardi, que marcou 24 vezes neste certame e já adentrou a lista dos 10 maiores artilheiros do clube. Com ele, a Beneamata superou os 70 gols marcados na Serie A.

Milan


A campanha: 6ª colocação, 63 pontos. 18 vitórias, 9 empates e 11 derrotas.
No primeiro turno: 4ª posição, 40 pontos.
Fora da Serie A: Eliminado nas quartas de final da Coppa Italia pela Juventus e campeão da Supercopa Italiana.
Ataque e defesa: 57 gols marcados e 45 sofridos
Time-base: Donnarumma; Abate, Paletta, Romagnoli, De Sciglio; Kucka, Locatelli (Sosa), Pasalic (Bonaventura); Suso, Bacca, Deulofeu (Lapadula, Niang).
Artilheiros: Carlos Bacca (13 gols), Gianluca Lapadula (8) e Suso (7)
Técnico: Vincenzo Montella
Os destaques: Gianluigi Donnarumma, Suso e Alessio Romagnoli
A decepção: Carlos Bacca
A revelação: Manuel Locatelli
Quem mais jogou: Gianluigi Donnarumma (38 jogos), Suso (34) e Carlos Bacca (32)
O sumido: Keisuke Honda
Melhor contratação: Gerard Deulofeu
Pior contratação: José Sosa

Finalmente teremos o Milan de volta a uma competição europeia, após uma ausência de três temporadas. Ok, não é a Champions League, torneio que o clube venceu sete vezes, mas sim a Liga Europa. É hora de dar um passo de cada vez no caminho da reconstrução, que pode vir com um elenco cada vez mais recheado de jovens jogadores italianos, como os pratas da casa Donnarumma, Calabria e Locatelli, e com capital chinês. Não dá para deixar de mencionar a troca de comando no clube como um dos fatos mais importantes do ano rossonero: afinal, Silvio Berlusconi encerrou sua vitoriosa presidência de mais de três décadas ao vender o Diavolo para Yonghong Li. A nova gestão foi pé quente e tem se mostrado ambiciosa, pois já assegurou três contratações para a próxima temporada – Mateo Musacchio, Franck Kessié e Ricardo Rodríguez.

Antes mesmo de ter um grande elenco em suas mãos, o técnico Montella soube trabalhar com um plantel menos gabaritado e construiu um time interessante e reativo. As arrancadas de Suso (e de Deulofeu, no segundo turno) mostraram que o grande caminho para o gol estava pelas pontas, já que os meio-campistas, bastante físicos, serviam mais para dar sustentação ao esquema. Aos rossoneri, porém, faltou um matador em grande fase e em sintonia com a dupla espanhola: se Bacca não vivesse fase tão ruim, talvez o Milan poderia ter impressionado mais. A grande força deste time estava, de fato, em sua própria grande área: naquele retângulo, o excepcional Donnarumma pode realizar suas defesas e ratificar seu posto de verdadeiro valor agregado do elenco. O zagueiro Romagnoli também fez uma grande temporada e, quando esteve em campo, o time quase sempre venceu. Sem show e com pés no chão, o Milan deu um passo para dar a volta por cima.

Lazio


A campanha: 5ª colocação, 70 pontos. 21 vitórias, 7 empates e 10 derrotas.
No primeiro turno: 5ª posição, 40 pontos.
Fora da Serie A: Vice-campeã da Coppa Italia.
Ataque e defesa: 74 gols marcados e 51 sofridos
Time-base: Strakosha (Marchetti); Basta, De Vrij, Hoedt (Wallace), Radu; Parolo, Biglia, Milinkovic-Savic; Felipe Anderson, Immobile, Lulic (Keita).
Artilheiros: Ciro Immobile (23 gols), Keita Baldé (16) e Marco Parolo (5)
Técnico: Simone Inzaghi
Os destaques: Ciro Immobile, Keita Baldé e Sergej Milinkovic-Savic
A decepção: Felipe Anderson
A revelação: Thomas Strakosha
Quem mais jogou: Ciro Immobile (36 jogos), Sergej Milinkovic-Savic e Marco Parolo (ambos com 34)
O sumido: Federico Marchetti
Melhor contratação: Ciro Immobile
Pior contratação: Moritz Leitner

Depois de um freio de arrumação em 2015-16, a Lazio voltou a mostrar um grande futebol e terminou o campeonato classificada para a Liga Europa e com um vice na Coppa Italia. Ainda que o resultado tenha ficado abaixo ao de dois anos atrás, ocasião em que a equipe celeste acabou garantindo passagem para a Champions League, a vaga foi bastante comemorada pelos lados de Formello, já que esta Serie A foi muito competitiva e as atuações do time foram de alto nível. Simone Inzaghi, que havia assumido a equipe no fim da última temporada, teve agora um ano inteiro de trabalho e superou com méritos o batismo de fogo, fazendo a diretoria esquecer de Bielsa, que chegou a acertar verbalmente na pré-temporada. A solução caseira se provou efetiva e sem os possíveis desgastes nos bastidores que o estilo de El Loco provocaria, o que valeu a Simone a renovação de contrato.

Ex-técnico das divisões de base da Lazio, Inzaghi soube lidar com o mais jovem elenco da Serie A (média de 24,9 anos) e aprimorou o que Pioli havia construído em sua passagem. No 4-3-3, a equipe romana se destacou pelo meio-campo combativo e técnico, que construía e concluía jogadas: Parolo, Milinkovic-Savic, Biglia e Lulic encerraram a temporada com um razoável número de gols e contribuíram para que a Lazio tivesse o quarto melhor ataque da competição. O setor, comandado por Immobile e Keita, foi letal: os dois jogadores conseguiram aliar velocidade com um bom poder de finalização, especialmente no segundo turno, e foram protagonistas na partida com maior número de gols na temporada – o 7 a 3 contra a Sampdoria. Felipe Anderson, apesar do grande número de jogos, dos quatro gols e das sete assistências, não esteve no mesmo ritmo dos colegas: foi inconstante e, com seu potencial, poderia ter ajudado ainda mais ao longo do ano.

Atalanta


A campanha: 4ª colocação, 72 pontos. 21 vitórias, 9 empates e 8 derrotas.
No primeiro turno: 6ª posição, 35 pontos.
Fora da Serie A: Eliminada nas oitavas de final da Coppa Italia pela Juventus.
Ataque e defesa: 62 gols marcados e 41 sofridos
Time-base: Berisha; Rafael Tolói, Caldara, Masiello; Conti, Kessié (Gagliardini, Cristante), Freuler, Spinazzola; Kurtic; Gómez, Petagna.
Artilheiros: Alejandro Gómez (16 gols), Andrea Conti (8) e Mattia Caldara (7)
Técnico: Gian Piero Gasperini
Os destaques: Alejandro Gómez, Andrea Conti e Mattia Caldara
A decepção: Bryan Cabezas
A revelação: Mattia Caldara
Quem mais jogou: Alejandro Gómez (37 jogos), Jasmin Kurtic (37) e Andrea Masiello (35)
O sumido: Giulio Migliaccio
Melhor contratação: Leonardo Spinazzola
Pior contratação: Alberto Paloschi

Palmas para a melhor Atalanta da história. Os bergamascos enfileiraram quebras de marcas da agremiação: melhor classificação em sua existência, maior quantidade de pontos conquistados no primeiro turno e no geral, além do maior número de vitórias em uma Serie A. Com isso, a surpresa da temporada italiana conseguiu, com méritos, a classificação à Liga Europa e volta a disputar uma competição continental pela primeira vez desde 1991. Nada mal para quem esperava apenas evitar a queda para a segunda divisão e fazer uma temporada tranquila no meio da tabela.

Quando a diretoria orobica decidiu contratar o técnico Gasperini para o lugar de Edy Reja talvez nào tivesse percebido, mas deu o primeiro passo para que a temporada ganhasse contornos épicos. Arrojado, o piemontês redesenhou a equipe para acomodar seu 3-4-3 (ou 3-4-1-2) e optou por colocar vários jogadores experientes no banco para dar espaço a jovens que compraram as suas ideias. Caldara, Conti, Gagliardini, Kessié, Cristante, Spinazzola e Petagna: todos eles evoluíram muito e explodiram nesta temporada, sob o comando do treinador. Gasperini ainda conseguiu valorizar atletas pouco badalados, como Rafael Tolói e Freuler, e ajudou o capitão Papu Gómez a viver o auge de sua carreira aos 29 anos. O carismático e baixinho argentino teve liberdade para comandar a equipe atuando como atacante aberto pela esquerda ou entrando mais na área, com o suporte de Petagna, e foi um dos grandes nomes de toda a temporada italiana. Para manter o mesmo nível em 2017-18, a Atalanta precisará segurar seus destaques ou reduzir os danos de um provável desmanche com contratações bem pensadas.

Napoli


A campanha: 3ª colocação, 86 pontos. 26 vitórias, 8 empates e 4 derrotas.
No primeiro turno: 3ª posição, 41 pontos.
Fora da Serie A: Eliminado nas semifinais da Coppa Italia pela Juventus e nas oitavas da Liga dos Campeões pelo Real Madrid.
Ataque e defesa: 94 gols marcados (o melhor) e 39 sofridos (a 3ª melhor)
Time-base: Reina; Hysaj, Albiol, Koulibaly, Ghoulam; Zielinski (Allan), Jorginho (Diawara), Hamsík; Callejón, Mertens (Milik), Insigne.
Artilheiros: Dries Mertens (28 gols), Lorenzo Insigne (18) e José Callejón (14)
Técnico: Maurizio Sarri
Os destaques: Dries Mertens, Lorenzo Insigne e Marek Hamsík
A decepção: Leonardo Pavoletti
A revelação: Marko Rog
Quem mais jogou: Marek Hamsík (38 jogos), Lorenzo Insigne, José Callejón e Pepe Reina (todos com 37)
O sumido: Lorenzo Tonelli
Melhor contratação: Piotr Zielinski
Pior contratação: Nikola Maksimovic

Quem não conhecia Maurizio Sarri até dois anos atrás já virou seu fã. O ótimo técnico tem transformado o Napoli em um dos times europeus que mais praticam um futebol moderno e de alto nível, sempre com passes curtos e rápidos, desde o campo de defesa. A venda de Higuaín não chegou a ser sentida em toda a campanha: na verdade, serviu para que o comandante pudesse ganhar reforços sobretudo para o meio-campo e pudesse rodar o elenco no setor sem perder oxigênio e qualidade. Afinal, o controle do setor é fundamental para que os azzurri consigam superar seus adversários – neste aspecto, Hamsík e Jorginho foram precisos nesta temporada.

A campanha partenopea começou com Milik fazendo o papel que Higuaín desempenhava, mas sua séria lesão deixou a equipe órfã por algumas rodadas – Pavoletti, decepcionante, não conquistou espaço para substitui-lo. Demorou um pouco até Sarri descobrir a verve goleadora de Mertens e foi justamente neste período que o Napoli acabou ficando para trás na corrida pelo título. Não fossem uma Juventus implacável e uma Roma excelente, este time napolitano poderia ter conquistado mais, já que os números são de uma equipe gabaritda a brigar pelo scudetto. O time somou impressionantes 86 pontos (pontuação alta para um terceiro colocado), teve o melhor ataque e uma das melhores defesas de toda a temporada, sem contar no nível de suas atuações e, em especial, de seu quarteto ofensivo. Hamsík, Callejón, Insigne e Mertens tem uma sintonia única e deram show neste ano, sendo responsáveis por 72 dos 94 gols do time. Sem falar nas assistências: o espanhol foi líder no quesito e deu 12 passes para gol, enquanto o belga e o italiano aparecem com oito cada um. Quem sabe nos próximos anos os azzurri consigam algo além de uma vaga na Liga dos Campeões?

Roma


A campanha: 2ª colocação, 87 pontos. 28 vitórias, 3 empates e 7 derrotas.
No primeiro turno: 2ª posição, 47 pontos.
Fora da Serie A: Eliminada ns semifinais da Coppa Italia pela Lazio, nos play-offs da Liga dos Campeões pelo Porto e nas oitavas da Liga Europa pelo Lyon.
Ataque e defesa: 90 gols marcados (o 2ª melhor) e 39 sofridos (a 2ª melhor)
Time-base: Szczesny; Rüdiger (Bruno Peres), Manolas, Fazio, Emerson Palmieri; Strootman, De Rossi (Paredes); Salah, Nainggolan, El Shaarawy (Perotti); Dzeko.
Artilheiros: Edin Dzeko (29 gols), Mohamed Salah (15) e Radja Nainggolan (11)
Técnico: Luciano Spalletti
Os destaques: Edin Dzeko, Radja Nainggolan e Mohamed Salah
A decepção: Bruno Peres
A revelação: ninguém
Quem mais jogou: Wojciech Szczesny (38 jogos), Federico Fazio, Radja Nainggolan e Edin Dzeko (todos com 37)
O sumido: Gerson
Melhor contratação: Federico Fazio
Pior contratação: Thomas Vermaelen

Apesar do vice-campeonato e das ótimas marcas alcançadas pelo ataque e pela defesa, a temporada da Roma foi mais atribulada do que deveria. O diretor esportivo Sabatini se demitiu, dando lugar a Monchi, ex-Sevilla, mas o principal motivo para o ambiente bagunçado foi o tratamento dado a Totti, que fez a torcida criticar continuamente Spalletti e a diretoria. O ídolo máximo romanista enfrentou atritos com o treinador, que foi apoiado pelos cartolas, recebeu poucos minutos ao longo da Serie A e acabou se despedindo do seu time do coração ao final da temporada. Por outro lado, os resultados de campo depõem a favor do treinador, que adicionou mais uma segunda posição e uma classificação à Champions League a seu currículo e à história do clube.

Os giallorossi tiveram peças-chave em todos os setores do campo em 2016-17, a começar por Szczesny, preferido por Spalletti ao brasileiro Alisson: o polonês foi um dos goleiros com mais defesas difíceis na Serie A. Mais à frente, se Manolas regrediu em suas atuações, Fazio e Rüdiger deram conta do recado, enquanto Emerson foi uma grata surpresa na lateral esquerda e manteve a amplitude da equipe mesmo com a lesão de Florenzi, que atuava no lado oposto. O forte meio-campo contribuiu muito com as duas fases de jogo dos romanos, mas as grandes notícias ficaram por conta da recuperação física de Strootman e da crescente importância de Nainggolan para o funcionamento do time. No ataque, Dzeko finalmente mostrou a que veio e fez a torcida esquecer sua trágica temporada de estreia: auxiliado pelos velozes Salah, Perotti e El Shaarawy, o bósnio foi o grande destaque da campanha da Loba e, além de artilheiro da Serie A, superou Rodolfo Volk como maior goleador da Roma em uma única temporada.

Juventus


A campanha: Campeã, 91 pontos. 29 vitórias, 4 empates e 5 derrotas.
No primeiro turno: 1ª posição, 51 pontos.
Fora da Serie A: Campeã da Coppa Italia, vice-campeã da Liga dos Campeões e vice-campeã da Supercopa Italiana.
Ataque e defesa: 77 gols marcados (o 3º melhor) e 27 sofridos (a melhor)
Time-base: Buffon; Lichtsteiner (Daniel Alves), Bonucci, Chiellini (Barzagli, Benatia), Alex Sandro (Asamoah); Pjanic, Khedira; Cuadrado, Dybala, Mandzukic; Higuaín.
Artilheiros: Gonzalo Higuaín (24 gols), Paulo Dybala (11) e Mario Mandzukic (7)
Técnico: Massimiliano Allegri
Os destaques: Paulo Dybala, Gonzalo Higuaín e Gianluigi Buffon
A decepção: Stephan Lichtsteiner
A revelação: Moise Kean
Quem mais jogou: Gonzalo Higuaín (38 jogos) e Mario Mandzukic (34)
O sumido: Marko Pjaca
Melhor contratação: Daniel Alves
Pior contratação: nenhuma

Um ano histórico e que começou a todo o vapor. Já nos primeiros dias do mercado, a Juve fechou as impactantes contratações de Higuaín, Pjanic e Daniel Alves, que se tornariam pilares do time em toda a temporada e adicionariam estofo para que a Juve pudesse competir forte em todos os fronts. Para isso, Allegri não se furtou a rodar bastante o elenco e descansar suas peças, além de optar por o esquema tático do time com a temporada em andamento. A opção por um 4-2-3-1 sem marcadores natos no meio-campo foi uma aposta bem sucedida no coletivo, pois cada jogador cumpriu sua função tática à perfeição – Mandzukic, por exemplo, cobriu bem as subidas de Alex Sandro. Com isso, Allegri tirou um pouco de responsabilidade do decantado trio BBC (Bonucci, Barzagli e Chiellini) e as transferiu para o ataque: a Juve continua impressionando por sua força defensiva, mas agora tem nos jogadores de frente os seus principais destaques. Com Dybala iluminando e Higuaín empurrando bolas para as redes, a Velha Senhora ficou ainda mais temida na Itália e na Europa.

Faltou muito pouco para a temporada da Juventus ter atingido a perfeição. O último jogo da campanha bianconera foi a derrota por goleada na final da Liga dos Campeões diante do Real Madrid, responsável por deixar um gostinho amargo na boca da torcida juventina, mas isso não apaga o que foi construído ao longo de 2016-17. É impossível esquecer as marcas quebradas anteriormente pela Velha Senhora. Um dos times mais dominantes de toda a história do futebol italiano, a Juventus de Max Allegri conseguiu conquistar o inédito hexacampeonato nacional e o tri da Coppa Italia, chegando a 33 scudetti e 12 títulos da copa. E é difícil imaginar que vá se dar por satisfeita em parar por aí.