domingo, 21 de março de 2010

Uma Europa menos italiana

Zébina expulso, Cannavaro também: Juve terminou com nove o vexame frente ao Fulham (Getty Images)

Nesta temporada, o futebol italiano não se deu bem em campos europeus: o Milan caiu de forma humilhante para o Manchester United, a Fiorentina chorou por um gol ilegal de Klose no confronto com o Bayern de Munique, a Roma passou vergonha ao perder os jogos de ida e volta com o Panathinaikos e a Juventus sofreu uma virada histórica e inesperada para o Fulham. A partir disso, muito se fala sobre o risco de a Itália perder uma vaga na Liga dos Campeões 2011-12. Não é impossível: somente os três países mais bem colocados no ranking da Uefa têm direito a quatro clubes na competição.

Hoje, a Itália tem o terceiro melhor coeficiente, mas menos de dois pontos à frente da Alemanha, que vem logo atrás. A boa campanha alemã em torneios europeus nos últimos anos, aliada aos desastres italianos em campos continentais, ligaram o alerta. É até provável que a Velha Bota não perca esta vaga já para o próximo campeonato. Mas já é um processo inevitável: a não ser que se execute um milagre, a Liga dos Campeões da temporada 2012-13 terá apenas três clubes italianos, um deles com obrigação de disputar a fase preliminar.

Estes coeficientes são calculados a partir das campanhas europeias dos últimos cinco anos de cada país. Cada vitória vale dois pontos e cada empate, um. Para cada passagem de fase, um ponto extra. Pontos, estes, que serão divididos pelo número de times envolvidos em disputas continentais. Ou seja: mesmo que a Inter seja campeã da LC na atual temporada, a péssima campanha de Genoa e Lazio na Liga Europa derrubam a média italiana. E que tal a eliminação do Napoli para o Benfica na primeira fase da Copa da Uefa no ano passado? Ou a Sampdoria caindo humilhada para o ucraniano Metalist de Kharkiv no mesmo torneio? Ou Empoli, Palermo e a própria Samp sendo eliminados nas preliminares da mesma competição, há dois anos, por Zürich (Suíça), Mladá Boleslav (República Tcheca) e Aalborg (Dinamarca)?

A Roma de Mancini fez história: caiu duas vezes seguidas nas quartas, para o Manchester United (AP)

Motivos não faltam para esse rateio peninsular, cada vez menos cíclicos e mais crônicos no futebol italiano. A prepotência do país em relação a seu esporte é uma das principais armadilhas a serem contornadas: grande parte da Itália (torcida, mídia e clubes inclusos) não admite a superioridade atual de ligas de outros países, ainda que seja incontestável o maior poder de atração de Inglaterra, Espanha e, às vezes, Alemanha e França. Até mesmo para Turquia e Rússia a Serie A perdeu titulares, nos últimos meses. Mas a Itália ainda se vê por cima e simplesmente abstrai uma competição mais abordável, como a Liga Europa. Mesmo Sampdoria, Palermo e Empoli escolheram escalar reservas naquilo que os italianos ainda consideram um inaceitável "segundo escalão". O Milan, há duas temporadas, fez algo parecido até entrar em crise após cair para o Werder Bremen.

A Liga Europa, hoje, é vilipendiada pelos italianos que a disputam e vista como o patinho feio europeu. Ainda que seja absurdamente menos atrativa que a Liga dos Campeões e possua valor financeiro também menor, sua representatividade esportiva é inquestionável e pode abrir espaço para conquistas interessantes de clubes médios do país. Um bom exemplo é o bicampeonato recente do Sevilla, em 2007. Além de interferir diretamente no coeficiente nacional, é claro. Ainda que seja sempre deixada de lado, a sociedade que abstrai a Liga Europa é a mesma que não aceita as eliminações de seus clubes. E dá-lhe moviola, que é como os italianos chamam o nosso tradicional tira-teima. Alguém não deveria ser expulso, outro não estava impedido, no primeiro lance era pênalti... Discussões assim se arrastam por dias e tiram o foco dos verdadeiros problemas. A Itália não sabe perder.

E quem não sabe perder, não sabe ganhar: algo bem provado a cada ano que se passa e a Inter segue imbatível, às vezes tropeçando nas próprias pernas e continuando de pé. Não é raro ver partidas nas quais o clube de Appiano Gentile vence com um esforço mínimo - raramente os adversários complicam a vida dos nerazzurri quando estes entram razoavelmente concentrados no certame nacional. Ainda que Milan e Roma tenham chances reais de título e o time de Mourinho esteja com a cabeça longe da Serie A, é impossível descartar o favoritismo da Inter, que nunca precisou estar 100% para bater os adversários caseiros. O escândalo do calciopoli, que rebaixou a Juventus, redimensionou o Milan e baqueou Lazio e Fiorentina, derrubou o nível dos concorrentes e, principalmente, pôs na Europa gente que não estava preparada para disputá-la, como o Empoli de Piccolo, Rincón, Marzoratti e Volpato.

Na temporada passada, o Benfica de Nuno Gomes não teve dificuldades para eliminar o Napoli (EPA)

Se o campeonato se enfraquece, deve muito também à falta de renovações por toda a Serie A. Mesmo com uma categoria de base que vem colhendo bons resultados, o Milan está negociando a contratação de Yepes, 34 anos, para reforçar sua zaga. É o clube no qual Maldini se aposentou aos 41 e Costacurta, aos 40. Nesta, 34, ainda é o melhor zagueiro do campeonato enquanto está inteiro. Inzaghi, 36, se vê reinvindicando espaço por ser amuleto de uma torcida sem melhores perspectivas. Zambrotta, 33, é só sombra do que era há uma década. Dida, 36, foi de quarto goleiro à titular inconstestável e agora amarga a reserva. Mas não é só o Milan que "sofre" com a velha guarda. Há sempre uma Roma dependente de Totti, 33, um Napoli que se reencontrou defensivamente com as melhores atuações da carreira do agora zagueiro Grava, 33, ou uma Juventus que sofreu para repatriar Cannavaro, 36, um ex-capitão que deixara o clube brigado com a torcida. Para a seleção que vai à Copa, a falta de rejuvenescimento no trabalho de Lippi ainda faz-se aguardar os retornos de Nesta, Totti, Del Piero e Toni.

Falta talento nos campos italianos. Isso porque falta espaço para jovens da casa num lugar onde as diretorias se habituaram a fazer negócios contestáveis. Como o Chievo, que tem como opção o talentoso Hanine, mas paga uma fortuna para um inócuo Bogdani. Ou a Lazio, que optou por um contestável Hitzlsperger quando tem o promissor Sevieri. Ou a Roma, com três goleiros brasileiros e dois romenos contendo o crescimento do ótimo Frasca. Ou o Cagliari, que pagou quase 5 milhões de euros por um reserva Nenê enquanto o sardo Ragatzu continua sem chances. Ou o Milan, que mandou Paloschi para o Parma porque já contava com um dispendioso Huntelaar. Emprestar um jovem para adquirir experiência e continuidade em uma equipe menor é comum nos grandes times. Trazê-los de volta e aproveitá-los bem é outra história. Para um observador menos atento, a presença de Giovinco no elenco da Juventus pode passar despercebida.

Há um protecionismo excessivo nas estruturas do futebol italiano. Dificilmente os times arriscam lançar algum jogador sem mandá-lo passear por divisões inferiores por pelo menos um ano. Ou até por três, como no caso do romanista Cerci. Na Espanha, 51 jogadores foram lançados na atual temporada, nove deles somente pelo Málaga. Na Itália, apenas 34 jogadores sub-23 fizeram sua estreia na Serie A até aqui - sendo que metade destes foram contratados de outros clubes, geralmente de outros países. Prata da casa, no futebol italiano, não tem um valor muito alto. Como também não têm os treinadores: Ancelotti, Capello, Mancini e Spalletti, os quatro italianos que mais se destacaram na década passada, hoje treinam fora da península, os três primeiros na Inglaterra e o último na Rússia.

A Samp de Ziegler também deu vexame: caiu inacreditavalmente para o ucraniano Metalist (Reuters)

Fora dos campos, o país sofre com uma crise estrutural. A carga tributária italiana sobre salários e movimentações financeiras é a maior entre os locais de futebol bem desenvolvido na Europa Ocidental, mas ainda assim a crise econômica já parece ter-se instalado de vez. Perspectivas otimistas, neste campo, são cada vez mais raras. A fiscalização também é forte, o que afugenta possíveis investidores. Na política, os nomes pouco mudam, interesses se confundem, eleições beiram referendos e investimentos pontuais não passam de sonho. Nas palavras recentes de Roberto Saviano, autor do best-seller Gomorra, "as antigas práticas da nossa política não são simplesmente uma aberração: são também um hábito".

A Itália de hoje se reflete no futebol, é claro. A parte "empresarial" do jogo fala demais e vende de menos. Merchandising não é uma palavra recorrente no ambiente italiano, raramente se vê ações visando novos mercados (a disputa da Supercoppa em Beijing é exceção) e mesmo os anunciantes das competições raramente mudam de uma temporada para a outra, desvalorizando um produto com tanto potencial midiático. Praticamente toda a renda dos clubes da Serie A vem de contratos televisivos. Entre os grandes, ja há uma dependência do dinheiro que a Uefa distribui em suas competições europeias. Só a Inter ainda possui uma capacidade de investimento nivelada às outras potências do continente, mas porque seu presidente aceita colocar a mão (e fundo) no próprio bolso. Ainda assim, nem sempre o dinheiro atinge os melhores destinos e sociedades autofinanciáveis, como a Roma pretende ser num futuro próximo, não passam de sonho.

Os estádios italianos sofrem problemas comuns aos nossos, brasileiros. Não são atrativos ao público e veem a Serie A sofrer com uma queda avassaladora de público. Na temporada 1998-99, a média foi de 30.840 torcedores por jogo. Dez anos depois, o número caiu para 25.779. Não há segurança, visibilidade, conforto, opções de lazer e condições adequadas de transporte até a maioria dos estádios da primeira divisão, nem mesmo projetos para revitalizá-los. Os centros de treinamentos de muitos clubes também estão estagnados e bastante defasados em relação aos rivais europeus - e, nisso, há muito clube brasileiro que já se põe à frente dos italianos. As estruturas do futebol são velhas e inadequadas, características herdadas do país em que está hospedado. Um país que precisa reconstruir seu futebol e, até certo ponto, a si mesmo. Para que, dentro de 30 anos, essa fase seja lembrada como uma crise, não como um redimensionamento definitivo.

Confira as campanhas de clubes italianos na Europa nos últimos cinco anos:

2009-10
Liga dos Campeões: Juventus eliminada na fase de grupos (acesso à Liga Europa), Milan e Fiorentina eliminados nas oitavas-de-final, Inter classificada às quartas-de-final
Liga Europa: Genoa e Lazio eliminados na fase de grupos, Roma eliminada na segunda fase, Juventus eliminada nas oitavas-de-final

2008-09
Liga dos Campeões: Fiorentina eliminada na fase de grupos (acesso à Copa da Uefa), Juventus, Inter e Roma eliminadas nas oitavas-de-final
Copa da Uefa: Napoli eliminado na primeira fase, Sampdoria, Fiorentina e Milan eliminados na segunda fase, Udinese eliminada nas quartas-de-final
Copa Intertoto: Napoli classificado à Copa da Uefa

2007-08
Liga dos Campeões: Lazio eliminada na fase de grupos, Milan e Inter eliminados nas oitavas-de-final, Roma eliminada nas quartas-de-final
Copa da Uefa: Empoli, Sampdoria e Palermo eliminados na primeira fase, Fiorentina eliminada nas semifinais
Copa Intertoto: Sampdoria classificada à Copa da Uefa

2006-07
Liga dos Campeões: Chievo eliminado na fase preliminar (acesso à Copa da Uefa), Inter eliminada nas oitavas-de-final, Roma eliminada nas quartas-de-final, Milan campeão
Copa da Uefa: Chievo eliminado na primeira fase, Palermo eliminado na fase de grupos, Livorno e Parma eliminados nas oitavas-de-final
Copa Intertoto: a Itália não teve representantes

2005-06
Liga dos Campeões: Udinese eliminada na fase de grupos (acesso à Copa da Uefa), Juventus e Inter eliminadas nas quartas-de-final, Milan eliminado nas semifinais
Copa da Uefa: Sampdoria eliminada na fase de grupos, Roma, Palermo e Udinese eliminados nas oitavas-de-final
Copa Intertoto: Lazio eliminada nas semifinais

sábado, 20 de março de 2010

Presente do pretérito: campeonatos falseados

O último Potenza: a Lega se omitiu e a Corte Federal deu rumo novo ao campeonato (Potenzasportclub.com)

Ontem, 19 de março, o futebol italiano assistiu ao término de um jogo que durou dois anos, ainda que a diferença entre os apitos de início e fim não tenha ido além de 90 minutos: na temporada 2007-08, em partida válida pela antepenúltima rodada do Grupo B do extinto campeonato da Serie C1 - atual Prima Divisione - o Potenza, já salvo, recebeu a líder - e em queda de produção - Salernitana, que disputava ferozmente título (e a consequente promoção direta) com o Ancona.

No fim das contas, a Salernitana venceu em Potenza por 1 a 0 e o resultado, aliado ao tropeço do Ancona em casa contra a Pistoiese, a deixou a um empate de garantir sua promoção matemática à Serie B. O que de fato aconteceu. Mas muitas das chamadas evidências de jogo cercaram a partida. A Salernitana vinha em notável queda de produção no returno, após um primeiro turno arrasador; tinha vencido apenas quatro jogos fora de Salerno até então, e sua última vitória fora de casa fora conquistada apenas na 14ª rodada. O Potenza, ao contrário, era um péssimo anfitrião: mais 70% de seus pontos, no campeonato, tinham sido feitos em seus domínios, onde perdera apenas três vezes.

As duas associações, que já estavam a mira da Lega Calcio por irregularidades financeiras, também foram alvo de uma investigação sobre jogos com resultados combinados e apostas. Enquadraram-se no primeiro caso e foram a julgamento, pela Corte Federal Italiana. Após quase duas temporadas inteiras, chegou-se às sentenças. A Salernitana perdeu seis pontos na classificação atual. Ou seja: só com 16 pontos, é virtual rebaixada para a Lega Pro Prima Divisione (claro, se a propriedade resistir ao rebaixamento). Com o Potenza, a decisão foi muito mais dura. O clube, também lanterna, mas no Grupo B da Prima Divisione, foi expulso do torneio e desfiliado da FIGC. No próximo domingo, o clube já não entrará em campo contra o Foggia, que será declarado vencedor da partida pelo placar de 3 a 0. E assim acontecerá com todos os futuros adversários do clube na temporada, enquanto seus resultados anteriores serão mantidos. Seu presidente, na época, Giuseppe Postigliani, envolvido em escândalos de apostas, também foi punido com uma proibição de atuar no futebol por cinco anos.

Os veredictos em atraso, e a participação de clubes em débito, seja financeiro que em juízo, são a enésima prova de que, no futebol da Itália, as divisões inferiores (de onde, evidentemente, sairão os clubes que, um dia, integrarão a série máxima e poderão representar a Itália em torneios europeus) estão a esmo, em termos de fiscalização.

Na Serie B, não bastasse o desenrolar do verdadeiro escândalo que foi a inscrição do Gallipoli (que tinha apenas quatro jogadores no elenco e outros tantos desfiliados por falta de pagamento), agora a Salernitana mostra que não tinha condições de estar na disputa, por ser vítima de problemas financeiros que vêm desde a antiga (e falida) sociedade ou por estar em processo, como ré, em um caso de justiça desportiva e federal. Seria justo que times como estes possam jogar e tirar pontos de outros que estão em ordem com suas finanças e se esforçam para ter os balanços em equilíbrio? Num âmbito em que todos os clubes são empresas, o campeonato se torna um mercado. E "jogar" sem condições integrais caracterizaria competição desleal.

Quando falamos de Potenza e Lega Pro, a questão ganha ainda mais importância - e, tenhamos certeza: não gerará menor indignação. O Potenza já tinha problemas financeiros, vinha de um rebaixamento na temporada passada e foi repescado na categoria. Some-se isso ao seu processo, que corria na Justiça, à investigação a respeito de seu presidente, e temos um clube que jamais poderia ter tomado parte em um campeonato do gênero. Mas o clube tirou pontos dos líderes, de equipes pretendentes aos play-offs de acesso, que investiram pesadamente (dentro de suas possibilidades) para conquistar a permanência na categoria.

O Potenza, agora expulso da competição, acaba falseando o campeonato e a classificação e maculando os esforços de seus adversários. Pois de acordo com os parágrafos terceiro e quarto do artigo 53 da NOIF (Normas Organizativas Internas Federais) seus resultados anteriores poderim ser desconsiderados, e os futurosdados a favor daqueles que seriam seus adversários. A Lega, como costuma fazer em situações-limite, ainda não se pronunciou oficialmente sobre o cumprimento da norma. Mais uma vez, estamos assistindo a campeonatos falseados. Notícia velha, aliás.

Recordamos que, na temporada passada, na própria Prima Divisione, a Pro Patria (clube de Busto Arsizio) teve sua falência - por bancarrota fraudulenta - declarada com o campeonato em curso, montou e reforçou sua equipe com jogadores que não poderia pagar (e não pagou) e esteve a apenas um ponto de roubar o título e o acesso direto do Cesena; mais do que isso, esteve a apenas um gol, nos play-offs, de subir no lugar do Padova e, antes, eliminara a Reggiana - e, por ter se classificado às finais, tirou a vaga da Spal. Também na Prima Divisione, Sambenedettese e Venezia não reuniam condições de disputar o campeonato, mas disputaram os play-outs de permanência, onde somente a equipe vêneta se salvou. No Grupo B do campeonato da Serie D, a Biellese liderou, da primeira à última rodada, com um time em desacordo com suas possibilidades financeiras, tirou o acesso direto do Spezia (que acabou sendo repescado) para ser, meses depois, excluída da Seconda Divisione.

Mais atrás no tempo, na Serie B 2004-05, Perugia e Torino, dois clubes em clara situação falimentar, fizeram a final dos play-offs de acesso para depois serem desclassificados - ao dano de Hellas Verona e Modena, que ficaram a apenas um ponto de se classificar para as finais. Em 2001-02, uma Lazio afogada em dívidas e impostos atrasados foi salva da falência e do rebaixamento pelo Estado romano, enquanto o Hellas Verona caiu com as contas em ordem. E foi decisiva para isso a derrota, por 5 a 4, para o próprio time romano.

Apesar de tudo, é complicado esperar que isto acabe por aqui. Neste ano, a Lega Pro recebeu três sociedades falidas da Serie B - Pisa, Avellino e Treviso - e, desde que a antiga Lega Serie C foi refundada pelo presidente Mario Macalli, nada menos que onze clubes já faliram, antes, durante ou depois dos campeonatos, apenas na Prima Divisione. De nada vale separar as administrações dos campeonatos se, depois, é a Justiça Comum a decidir o curso dos campeonatos. É o passado que não se aprende e que insiste em ser repetido no presente e se tornar parâmetro para o futuro. Tornando inesperado um campeonato normal - e puramente esportivo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lega Pro: reviravoltas e poucas certezas

Esperança: Como sai dos play-outs da Prima Divisone e pode permanecer na categoria (Foto: tifonet.it)

No último boletim sobre a Lega Pro, contamos que a hora de gritar "Campione!" estava cada vez mais próxima nos campeonatos da categoria. Bem, abaixo com as certezas: as zonas play-off e play-out estão passando por mudanças e, dentre os pretendentes aos acessos diretos, apenas o Novara parece ter a situação realmensob controle.

Confira a situação de todos os torneios da terceira e quarta divisões da Itália.

27ª Rodada
Prima Divisione - Grupo A
O Novara (61 pontos) segue liderando, agora com dez pontos de vantagem para a Cremonese (51). Arezzo (49), Varese (47) e Benevento (44) completam os play-offs. Viareggio (28), Lecco (27), Pro Patria (27) e Pergocrema (27), hoje, jogariam os play-outs. A Paganese (20) está virtualmente rebaixada.

Prima Divisione - Grupo B
O Hellas Verona (47) segue líder, mas quem está jogando bola é o Portosummaga (44). A zona play-off ainda conta com: Reggina (41), Pescara (41) e Ternana (40). Nos play-outs, Giulianova (28), Foggia (28), Real Marcianise (27) e Pescina (27). O Potenza (26), embora tenha melhorado, ainda é último.

Seconda Divisione - Grupo A
O Spezia (50) ainda lidera. Alghero (47), Alto Adige (47), Feralpi Salo’ (46) e Pavia (43) compõem os play-offs. Na zona play-out, embora vencedores, Villacidrese (30), Carpenedolo (29) e Olbia (26) não saem da área de perigo, e têm a companhia da Pro Belvedere (23). A Pro Sesto (15) diminui a diferença, mas está praticamente rebaixada.

Seconda Divisione - Grupo B
Pequena recuperação da líder Lucchese (53), que passa por um péssimo momento, mas conserva cinco pontos de vantagem. San Marino (48), Fano (47), Prato (43) e Gubbio (41) estão na zona play-off. Sacilese (28), Bellaria (28), Poggibonsi (26) e Carrarese (25) estão nos play-outs. A Colligiana (24) volta à lanterna.

Seconda Divisione - Grupo C
No saldo de gols, o Catanzaro (57) conserva a liderança diante da Juve Stabia (57). Cisco Roma (54), Siracusa (45) e Gela (43) também estariam nos play-offs. Scafatese (28), Noicattaro (24), Vico Equense (23) e Vibonese (23) estão nos play-outs, enquanto o Igea Virtus (10), cairá matematicamente se sofrer mais três derrotas.

ArrivederC!

Tchau, Europa!

Mesmo com gol de Trezeguet, no início, Juve se deixou envolver, sofreu virada
e caiu diante do Fulham, na Liga Europa (La Presse)


Felipe Melo foi o melhor jogador juventino no primeiro tempo. No segundo, o goleiro Chimenti foi o destaque. Por aí, conclui-se que as coisas não tomaram um rumo muito bom para a Velha Senhora, em Londres. A derrota por 4 a 1 para o Fulham eliminou os bianconeri da Liga Europa e acabou com qualquer esperança de títulos para essa temporada.

O jogo começou dando pistas de que seria uma tarde tranquila para os torcedores da Juventus. Logo aos dois minutos, Salihamadzic cruzou, Diego tentou e a bola sobrou para Trezeguet bater no canto. O gol na Inglaterra dava ainda mais tranquildade para os juventinos: nesse momento, só seriam desclassificados se levassem quatro. O final da história todos já conhecem.

É claro que não seria uma tarde tranquila. Jogo tranquilo, não é jogo da Juve. Assim aprenderam os torcedores bianconeri. Aos nove minutos, Zamora dominou no peito e chutou forte, para empatar. Até aí, tudo bem. O placar ainda dava certa tranquilidade para a Juve, que, jogando da mesma maneira que semana passada, com dois trequartisti (Diego e Candreva), trocava passes no meio e marcava a saída de bola do Fulham. Felipe Melo fazia um bom jogo mais atrás, evitando bem investidas mais perigosas do time inglês.

Porém, aos 25 minutos, Davies recebeu bom lançamento e disparou na frente de Cannavaro, que não acompanhou a corrida e só conseguiu parar o galês com falta: vermelho para o ex-melhor do mundo. Expulsão decisiva para o futuro do jogo. Com um a mais, os londrinos dominaram o jogo. Na Juve, o bom Candreva saiu para dar lugar ao atrapalhado Grygera, que já tinha ido muito mal na decepção de domingo, contra o Siena, e no Fulham, Hodgson trocou o zagueiro Kelly por Dempsey. Assim, a Juventus recuou a marcação e se viu pressionada o resto da partida.

Antes do gol da virada, duas bolas na trave: uma de Davies, em uma cobrança de falta; e outra de Etuhu, após escanteio. Aos 39 minutos, então, Gera marcou seu primeiro e colocou os cottagers na frente, em bela jogada coletiva. Mais gols eram só uma questão de tempo, pelo que se via. Sorte da Juve que o tempo estava acabando. No intervalo, Zaccheroni teria tempo para conversar com seus jogadores e mudar de esquema tático e/ou joagadores. Mas não o fez.

Os dois times voltaram iguais para a segunda etapa e, claro, o jogo também. No mesmo ritmo do fim do primeiro tempo, o Fulham partiu para o ataque e conseguiu um pênalti logo aos quatro minutos, após mão de Diego, dentro da área. Na cobrança, Gera anotou seu segundo gol e ampliou para os ingleses. No agregado 4 a 4, placar que levava a partida para a prorrogação. Restava a Juve segurar o resultado e tentar a sorte na prorrogação ou nos pênaltis. Um gol para tranquilizar novamente parecia muito distante. O time de Turim não conseguia sequer encaixar um contra-ataque. Zac nem deu chances para isso também. Logo depois do gol, sacou Camoranesi e colocou De Ceglie, para montar uma desfesa a três.

Nos 30 minutos seguintes, a torcida londrina empurrou o Fulham como pôde e viu um jogo de ataque contra defesa. Defesa essa bem atrapalhada. Grygera e Zebina não se entendiam de jeito nenhum e ofereciam inúmeras oportunidades para o adversário. Em pelo menos três delas, Chimenti fez grandes defesas, aparecendo como destaque da Juve no jogo. Mas, como diz o ditado, ''água mole em pedra dura, tanto bate até que fura''. A dez minutos do fim, Dempsey marcou um golaço (daqueles que ninguém sabe se foi chute a gol ou cruzamento) e deu números finais à partida, desclassificando uma Juve que, antes do apito inicial, era uma virtual classificada, para muitos.

Antes do fim de jogo, só deu tempo de Zaccheroni trocar Grosso por Del Piero e dar a chance para os trocedores protestarem, perguntando o porquê d'Il Capitano não ter entrado antes. Má partida de Zac, que não trocou bem durante o jogo. Foi a segunda reviravolta sofrida pela Juve, na semana, evidenciando a fraqueza, principalmente defensiva, do time. Nas duas últimas partidas, foram sete gols sofridos. O resultado é ruim também para a Itália no ranking da Uefa. Agora, só sobrou a Inter em competições europeias. Os alemães continuam com o Bayern, na LC, e Wofsburg e Hamburgo, na Liga Europa. Menos mal que o Werder Bremen também foi eliminado, hoje, pelo Valência.

Veja os gols aqui.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Jogadores: Roberto Baggio

No Brescia, dizer que Baggio imortalizou a camisa 10 não é apenas força de expressão (Life in Italy)

Se nem só de campeões vive o futebol, Roberto Baggio é a grande prova. Desde que começou a carreira, no Vicenza, em 1982, precisou de 11 anos até conquistar o primeiro dos quatro títulos que venceria como jogador - pouco demais para tamanha técnica. Depois do último deles, em 1996, ainda passaria mais oito anos como profissional. Ainda assim, Baggio sempre foi o jogadores que todos quiseram e muitos puderam ter. Ainda que, pouco depois, o deixassem ir embora sem muitas lamentações. E sempre foi capaz de inflamar discussões em mesas de bar e mesas-redonda para cada uma de suas polêmicas, seja na seleção, nos clubes... ou mesmo dentro de campo. Afinal, era ele um armador ou um atacante?

Michel Platini foi quem encerrou este tema. Entre a camisa 10 típica do trequartista, o tradicional armador italiano capaz de encantar, e a camisa 9 do centroavante, como todo o mundo conhece ao vê-lo marcar 205 gols na Serie A e mais 27 pela seleção azzurra, o francês vaticinou: "Baggio é um nove e meio". Mais seco ainda foi Carlo Mazzone, que o treinou já no Brescia, em fim de carreira: "Sem problemas nos joelhos, teria sido o melhor do mundo". Joelhos que foram para Baggio motivo da última polêmica da carreira, ao não ser convocado por Giovanni Trapattoni para sua quarta Copa do Mundo: "Não te convoco porque você não está bem fisicamente", ainda que o craque tivesse disputado mais de 75% dos jogos do Brescia na temporada pré-Copa.

Baggio chegou a Vicenza aos 13 anos e fez história nas categorias de base do clube, com 110 gols em 120 partidas. Os lanerossi ainda estavam na Serie C1 e por lá jovem vêneto estreou, na última rodada da temporada 1982-83. Aos poucos conseguiu seu espaço e, em 1984-85, já era titular absoluto do time que conseguiria subir para a Serie B. A alegria só não foi maior por conta de um jogo contra o Rimini de Arrigo Sacchi, já no fim do campeonato. Naquele 5 de maio, Baggio rompeu o joelho direito em vários pontos e passou mais de um ano parado. Mas aprendeu que a culpa ou o mérito do que te acontece pertence a você mesmo: um dos principais ensinamentos budistas, religião que passou a seguir enquanto se recuperava de sua primeira grande lesão.

A Fiorentina já o havia contratado e poderia ter rescindido o contrato, mas apostou em sua recuperação. Um ano e meio depois, Baggio estreava na Serie A. Em maio de 1987, marcava seu primeiro gol na primeira divisão, no empate em 1 a 1 com o Napoli de Maradona, que naquele dia festejava o primeiro scudetto de sua história. Logo se tornou indispensável ao clube viola, chegou à seleção italiana e foi vice-campeão da Copa da Uefa em 1990. O título foi perdido para a Juventus. E para lá Baggio seguiu, por 25 bilhões de liras, cerca de 13 milhões de euros em moeda corrente, uma cifra recorde naquela época. Os protestos em Florença foram tantos que causaram problemas até na concentração para a Copa do Mundo, na qual Baggio passou grande parte no banco de Vialli. Pudera: a torcida dava adeus a um de seus torcedores, que se recusara a vestir um cachecol da Juve em sua apresentação e, mais tarde, também não aceitaria cobrar um pênalti contra a Fiorentina.

Sua história em Turim duraria cinco anos e 115 gols, 78 deles na Serie A. Depois de uma estreia ruim com o time instável de Gigi Maifredi, na qual foi bastante atacado por torcida e imprensa, chegou o tempo para consagração. Primeiro, se tornando líder e capitão. Depois, vencendo a Copa da Uefa que havia perdido três anos antes, desta vez marcando cinco gols entre semifinais (contra o Paris Saint-Germain) e final (frente ao Borussia Dortmund). Na Serie A, os anos eram difíceis para algum time que não fosse o Milan de Fabio Capello. Em 1994, tudo mudou: Baggio era titular absoluto da seleção italiana na Copa dos Estados Unidos e fez uma competição espetacular, coroada pela espetacular doppietta na semifinal com a Bulgária, mas manchada pelo pênalti isolado na final em que jogou no sacrifício contra o Brasil.

Pela Juventus, foi um ano em chiaroscuro. Baggio começou muito bem junto do time, mas lesionou outra vez o joelho direito e ficou cinco meses parado. Quando voltou, marcou gols e ajudou na conquista de um scudetto que não vinha há sete anos. Mas a temporada também marcou o surgimento de Del Piero e assim Baggio acabou cedido ao Milan, para a cólera de mais uma torcida que dava adeus a um ídolo. Na Milão de Capello, foi o quinto jogador da história a vencer duas vezes seguidas a Serie A, por times diferentes. Em rossonero, formou um ótimo trio ofensivo com Weah e Savicevic até que uma crise de resultados atingisse a equipe: de novo sob o comando de Sacchi, com quem tinha entrado em atrito na seleção, acabou como reserva de Dugarry.

No verão de 1997, Capello estava de volta e Baggio esperava recuperar sua posição no time, mas passou uma das maiores humilhações da vida de jogador: o clube pediu para que encontrasse outro lugar para continuar a carreira. Depois de acertar com o Parma, acabou vetado por Carlo Ancelotti, por "questões táticas". Para jogar com continuidade e entrar na lista para a Copa do Mundo na França, escolheu o Bologna, cortou os cabelos e fez história, apesar dos problemas com mais um técnico, desta vez Renzo Ulivieri: 22 gols em 30 partidas e a convocação tão aguardada para a Nazionale de Cesare Maldini. Sem o rabo de cavalo que lhe era tradicional, Baggio aproveitou para diminuir o número de vezes que era chamado de codino divino, título que nunca havia apreciado.

Em França '98, Baggio venceu a concorrência com Del Piero e de novo jogou acima do nível do time. Mas viu sua Itália eliminada nas quartas-de-final, numa cobrança de pênalti que Di Biagio falhou. Ainda assim, tornou-se o maior artilheiro italiano em Copas do Mundo (nove gols, assim como Paolo Rossi e Vieri), além do único a marcar em três edições diferentes. Depois da competição, fechou com uma Inter recém-campeã da Copa da Uefa e superfavorita em todas as frentes, mas que acabou a temporada atormentada pela lesão de Ronaldo e com quatro técnicos diferentes. Depois, com Marcello Lippi, Baggio passou seu segundo e último ano em Appiano Gentile sendo pouco utilizado e se degladiando publicamente com o treinador. Em sua despedida, marcou duas vezes contra o Parma para colocar a Inter nas preliminares da Liga dos Campeões.

Desmotivado, Baggio recusou propostas de Arsenal e Real Madrid e estava prestes a fechar com a Reggina quando foi convencido por Carlo Mazzone a assinar com o Brescia: queria disputar outra Copa do Mundo, ser fundamental para algum time e ficar perto de casa. Venceu a desconfiança de quem lhe dava como terminado, guiando os rondinelle em seus melhores anos. Logo em sua primeira temporada, um sétimo lugar histórico para o clube. E o ano seguinte só não foi melhor porque um Baggio espetacular, com oito gols nas nove primeiras rodadas, perdeu alguns meses por conta de uma lesão no joelho direito. Em 2001, mesmo longe da seleção e em um time de menor relevância, entrou na lista final da Bola de Ouro. No ano seguinte, acabou de fora da lista de Trapattoni para o Mundial. O jogador encerrou sua carreira em 2004. Bastou uma temporada para o Brescia aposentar sua camisa 10 e ser rebaixado.

Roberto Baggio
Nascimento: 18 de fevereiro de 1967, em Caldogno
Posição: atacante
Clubes: Vicenza (1982-85), Fiorentina (1985-90), Juventus (1990-95), Milan (1995-97), Bologna (1997-98), Inter (1998-2000), Brescia (2000-04)
Seleção italiana: 56 jogos, 27 gols
Títulos: 2 Serie A (1995, 96), 1 Coppa Italia (1995), 1 Copa da Uefa (1993)

Pós-jogo: Chelsea 0x1 Inter

Mourinho deixou Ancelotti boquiaberto porque voltou ao Stamford Bridge
do mesmo jeito que o deixou: vencendo (Getty Images)


Texto também publicado no Ortodoxo e Moderno

A Inter pisou pela primeira vez no gramado (em péssimas condições) de Stamford Bridge para uma partida oficial válida por competições europeias como uma equipe grande. E deixou o estádio do Chelsea da mesma maneira, após desempenhar seu melhor futebol no jogo mais importante da temporada nerazzurra, até então. De maneira surpreendente, José Mourinho escalou uma Inter bastante ofensiva, que desde os primeiros minutos tomou a iniciativa do jogo e sufocou os londrinos, um tanto atônitos com o que estava acontecendo. Carlo Ancelotti e sua equipe certamente não imaginariam enfrentar uma Inter tão "bem-resolvida" em relação a seu trauma referente a Liga dos Campeões. A mentalidade que Mourinho conseguiu passar ao elenco foi o principal trunfo que a Inter teve para eliminar o forte Chelsea e avançar às quartas-de-final da competição, quatro anos após Roberto Mancini classificar os meneghini pela última vez.

Desde o sorteio das oitavas-de-final da Liga dos Campeões, José Mourinho era o nome do duelo entre Chelsea e Inter, por motivos óbvios. Sua volta ao Stamford Bridge, onde só perdeu uma vez durante toda sua gestão, por vezes parecia mais aguarada do que a própria partida em si. Percebendo que as atenções dos meios de comunicação recairiam justamente sobre este fato, Mourinho usou uma tática bastante inteligente para desviar as atenções de seu time, que passa por um período ruim na Serie A. Ao concentrar o foco da mídia sobre si e seu retorno ao estádios dos Blues, o técnico de Setúbal pôde preparar seu time sem que este ficasse pressionado pela aproximação do Milan no campeonato italiano e evitando maiores estragos, caso explodissem novas polêmicas relativas a Mario Balotelli. Para isto, ajudou também o silêncio à imprensa decretado pelo presidente Massimo Moratti desde a polêmica que envolveu a Inter e a arbitragem de Paolo Tagliavento em Inter x Sampdoria. Na parte mais prática do trabalho, Mourinho declarou após a partida: "já conhecia o ambiente do estádio e sabia que se nos defendêssemos o jogo todo, não conseguiríamos manter o 0 a 0.", afirmou o português. Mourinho ainda declarou ter assistido a partida de ida "sete ou oito vezes".

Logo após o apito inicial, a formação italiana já aparentava uma postura completamente diferente da que teve em anos anteriores, quando entrava perdida e acovardada em campo. Desta vez, a Inter revolucionava a partir da escalação: foi a campo da maneira mais solta possível, com três atacantes apoiados por Sneijder. Os nerazzurri ficavam mais tempo com a bola, graças a participação de Eto'o e Pandev, que recuavam ao meio-campo para ajudar os meias a manter a bola distante do gol defendido por Júlio César. Ancelotti, por sua vez, não efetuou nenhuma mudança no esquema do Chelsea e também não pareceu ter conseguido mexer com os brios dos jogadores. Os Blues até atacaram, mas a defesa da Inter estava tão atenta quanto na partida de ida, travando os chutes assim que saíam. Foi o que aconteceu em duas das chances mais claras do Chelsea no jogo: em uma delas, Drogba aproveitou sobra da defesa interista e, da entrada da área chutou com força, mas Maicon cortou. Pouco antes, Ballack chutara rasteiro, mas a bola passou a direita de Júlio César.

Mas a primeira meia hora de jogo foi melhor para a Inter, embora o time pouco tenha chutado ao gol defendido por Turnbull, terceiro goleiro do Chelsea. Os italianos trabalhavam melhor a bola e mantinham a maior parte das ações do jogo em seu campo de ataque graças a ótima partida de Sneijder, o que assegurava a classificação e deixava o tempo correr. Eto'o ainda teve chance de dificultar o trabalho do Chelsea, mas não aproveitou o erro de Terry no tempo de bola e cabeceou meio sem jeito uma bola vinda de bom cruzamento de Maicon. Os quinze minutos finais do primeiro tempo foram os mais difíceis para a equipe visitante, que sofreu com uma maior pressão do Chelsea. Em uma de suas raras aparições no jogo, Anelka recebeu bom passe elevado de Zhirkov e tentou dar um tapa rasteiro na bola, mas Júlio César desviou com os pés e Thiago Motta completou o corte. Também houve espaço para a polêmica: os Blues pediram pênalti sobre Ivanovic e Drogba em duas cobranças de escanteio, mas o árbitro Wolfgang Stark ignorou. Os interistas também reclamaram de um impedimento mal marcado de Milito, em um lance bem mais difícil que os que aconteceram na área nerazzurra.

No segundo tempo, o Chelsea voltou um pouco mais focado do que na primeira etapa, mas a Inter continuava muito bem postada na defesa. Porém, a única boa chance dos donos da casa apareceu com sete minutos, com um belo chute de Malouda, que fez Júlio César se esticar todo e colocar a bola para escanteio. Na partida, o francês confirmou mais uma vez que deixou de lado a alcunha pejorativa de "jogador tático". Ele compensou a má partida de Zhirkov, deu trabalho a Maicon e se mostrou uma das principais válvulas de escape da equipe de Ancelotti. Malouda foi o único jogador do trio de ataque inglês a levar algum perigo a Júlio César. Anelka e Drogba (mais uma vez) foram anulados por Lúcio e Samuel, que tem formado uma das duplas de defesa mais sólidas da Europa. No meio-campo, Lampard teve mais uma atuação apagada e sucumbiu à marcação de Cambiasso.

À medida que o jogo ia passando e a Inter continuava jogando bem, a confiança do time de Mourinho só aumentava. Aos 17 minutos da segunda etapa, Ancelotti colocou Joe Cole no lugar de Zhirkov, para tentar chegar ao gol da classificação, e colocou Malouda na lateral esquerda. Antes de deixar o gramado, o russo havia salvado o os Blues por duas vezes, desarmando Eto'o e Pandev, que tinham chances bastante claras de marcar. A partir da entrada do meia inglês, o Chelsea perdeu completamente o controle do meio-campo e sofreu com um Sneijder impossível, auxiliado por Stankovic. O sérvio entrou no lugar de Pandev quando Mourinho percebeu que poderia dominar o meio-campo com a entrada de mais um jogador naquele setor, o que anulou a substituição feita pelo ex-técnico do Milan e confirmou a vitória tática do português no jogo de hoje. O primeiro chute a gol da Inter veio aos 20, com Milito, que aproveitou sobra após cobrança de escanteio e girou chutando rasteiro, para a defesa de Turnbull. O argentino teve uma chance ainda mais clara minutos depois, quando recebeu passe longo de Sneijder e, cara a cara com Turnbull, chutou torto.

Sneijder estava mesmo com os pés calibrados e continuava servindo os atacantes da Inter com lançamentos e passes cada vez mais precisos, que originaram as chances mais claras do jogo. Motta quase abriu o placar quando aproveitou cruzamento do holandês para cabecear, mas a bola passou por cima do gol inglês. A equipe nerazzurra jogava com mais agressividade e o gol parecia questão de tempo. E ele veio claro, a partir de Sneijder. Lampard errou um passe bobo no meio-campo, que a Sneijder logo soube transformar em perigo para os Blues. O holandês percebeu a corrida de Eto'o nas costas de Ivanovic e o encontrou com um lindo lançamento. O atacante dominou no peito e, na saída de Turnbull, bateu forte no cantinho, para comemorar junto com a torcida da Inter, que se encontrava logo atrás do gol do Chelsea. Jogada trabalhada por dois dos jogadores contratados nesta temporada especialmente para a Liga dos Campeões, quando a diretoria da Inter queria dar mais qualidade e poder de decisão a equipe.

A partir de então, a torcida italiana, que já fazia mais barulho que a inglesa, calou definitivamente o estádio. No fim do jogo, Motta ainda "cavou" a expulsão de Drogba, ao trombar com o marfinense e levar um pisão quando estava caído e, depois, Eto'o perdeu a chance de ampliar a vitória, na noite que já chamada de Special One pela imprensa europeia. Apesar de ter dito que não iria comemorar caso a Inter vencesse seu ex-clube, Mourinho avisou que festejou nos vestiários e ainda saiu com uma frase de efeito, no final do jogo e na sua volta às entrevistas: "Mourinho nunca perde no Stamford Bridge."

O próprio Chelsea não perdia em casa na LC desde 2006, quando o Barcelona de Ronaldinho venceu a equipe treinada pelo próprio Mourinho, o que qualifica ainda mais o feito da Inter e de Mourinho, que demoliu no confronto o time que ele mesmo começou a construir. De uma só vez, o time parece ter deixado para trás o carma europeu, com sua melhor partida na temporada e a superioridade perante os ingleses - um dos times favoritos ao título. Com isto, acabou dando um recado para o Milan, com quem disputa ponto a ponto a Serie A. Se os rossoneri podem se aproveitar do empenho da Inter na competição para lutar pelo título nacional, o Chelsea deve tentar o mesmo contra o Manchester United, na Premier League.

Chelsea 0-1 Inter
Chelsea: Turnbull; Ivanovic, Alex, Terry, Zhirkov (Kalou); Ballack (Joe Cole), Mikel, Lampard; Anelka, Drogba, Malouda.
Inter: Júlio César; Maicon, Lúcio, Samuel, Zanetti; Cambiasso, Thiago Motta (Materazzi), Sneijder (Mariga); Pandev (Stankovic), Milito, Eto'o.
Árbitro: Wolfgang Stark, da Alemanha.
Gol: Eto'o.
Cartões amarelos: Malouda, Drogba e Alex (Chelsea); Eto'o, Thiago Motta, Lúcio e Júlio César (Inter).
Cartão vermelho: Drogba (Chelsea)

Veja também
Manchester United 4-0 Milan
Fiorentina 3-2 Bayern de Munique

terça-feira, 16 de março de 2010

Serie B: a hora dos pequenos?

Artilheiro, chileno Pinilla pode colocar Grosetto na Serie A pela primeira vez em sua história (Zimbio)

Desde a última coluna temática sobre a Serie B, um mês atrás, foram disputadas cinco rodadas do campeonato, que segue amplamente indefinido. Os resultados dos últimos jogos embolaram a zona dos play-offs, que agora tem, mais do que nunca, seis times brigando de forma parelha pelas duas vagas diretas para a Serie A. O Lecce (líder, 49 pontos) ainda está na frente, mas já deve ligar o sinal de alerta: nas últimas cinco rodadas os salentini enfrentaram equipes que lutam contra o rebaixamento, mas uma forte queda de produção fez com que quatro empates fora dos planos tivessem de ser levados em conta para o planejamento do restante da temporada.

No último sábado, a equipe de Luigi De Canio jogava no Via del Mare, mas levou uma goleada por 5 a 1 do surpreendente Cittadella (7º, 42), que contraria todas as expectativas ao lutar por uma vaga na próxima Serie A após quatro vitórias seguidas. Boa parte dos méritos vão para os atacantes Ardemagni e Iunco, que em sua primeira temporada como protagonistas, marcaram 25 dos 39 gols da equipe no campeonato.

Na vice-liderança, Sassuolo (2º, 48) também subiria diretamente para a Serie A, caso a temporada terminasse hoje. Os neroverdi passaram por uma fase complicada, com apenas uma vitória em quatro jogos, mas derrotaram o Cesena (4º, 45) mais cedo e podem estar se recuperando, ainda que o Grosseto (3º, 47) pareçam mais credenciados a subir diretamente. Os biancorossi tiveram jogos complicados, mas somaram dez pontos graças a resultados importantes, como as vitórias fora de casa contra Modena (8º, 42) e Brescia (6º, 45), que compensaram a goleada sofrida em casa contra o fraco Crotone (15º, 35). A forma atual dos grifoni, embalada pelas ótimas performances do chileno Pinilla (artilheiro do campeonato com 20 gols e pretendido pelo Genoa), os coloca como um dos principais candidatos ao título, no momento.

Entre o terceiro e o sexto colocado, que se classificariam para os play-offs, pouca ou nenhuma diferença de pontos: Cesena, Ancona (5º, 45) e Brescia (6º, 45) são os principais candidatos a passarem pela fase eliminatória. Os cavalos-marinhos de Cesena perderam uma partida importante em casa contra o Sassuolo, confirmando seu período decrescente, com apenas uma vitória em cinco jogos. O Ancona, por sua vez, perdeu dois pontos por causa de complicações com o fisco, mas segue confiante graças às boas atuações do meio-campo liderado pelo uruguaio Surraco e aos gols de Mastronunzio. O bresciano Caracciolo, com 18 gols, também é a esperança de seu time. Fora da zona de classificação, Torino (9º, 41) e Empoli (10º, 41) estão à espreita.

Na briga dos times que querem escapar da Lega Pro Prima Divisione, a Triestina (15ª, 36) de Daniele Arrigoni conseguiu uma ótima vitória fora de casa contra o AlbinoLeffe (13º, 38) e sonha de verdade com a permanência. Tarefa que parece difícil para Padova (17º, 34), Piacenza (18º, 34), Gallipolli (19º, 34), Reggina (20ª, 33) e Mantova (21º, 31) e impossível para a lanterna Salernitana (22). A diretoria do clube amaranto demitiu Gianluca Grassadonia e efetivou Ersilio Cerone, chegando a cota de quatro técnicos na mesma temporada.

Confira aqui a classificação e a tabela da Serie B.

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