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sexta-feira, 27 de março de 2015

Jogadores: Giuseppe Signori

Giuseppe Signori, artilheiro de 188 gols na Serie A, brilhou no Foggia, Bologna e, principalmente, na Lazio, que capitaneou por anos (GQ Italia)
Gols. Era isso que Giuseppe Signori trazia para os times em que jogava. O veloz atacante, dono de uma das pernas esquerdas mais afiadas que o futebol italiano já viu, fez história entre o final dos anos 80 e o início dos anos 2000. A bola parada também era uma arma praticamente mortal para Beppe. Além das ótimas cobranças de falta, Signori tinha um estilo peculiar de bater pênaltis: não tomava distância superior a três passos da bola e, normalmente, não falhava.

Antes de se profissionalizar, Giuseppe Signori passou três anos nos juvenis da Inter, até ser dispensado por ser baixo. O atacante não desistiu e iniciou a carreira no AlbinoLeffe, de Bérgamo. Muito jovem, Beppe ajudou a equipe no acesso à Serie C2, marcando cinco vezes em oito jogos. Porém, no ano seguinte, os lanieri voltaram à Divisão Interregionale – o quinto nível do futebol italiano, à época.

Depois de mais uma temporada como titular na Lombardia, Signori se transferiu ao Piacenza, time pelo qual venceu a antiga Serie C1, mesmo sem ser titular. Após um ano sem sucesso pelos lobos, acabou emprestado ao Trento, onde também não conseguiu marcar muitos gols. Na volta à equipe biancorossa, na Serie B, foi titular, mas acabou rebaixado. Signori acabou sendo negociado com o Foggia, recém-promovido à Serie B, e, aí, sua carreira mudou: no sul da Itália, o atacante começou a aumentar a sua média de gols. Trabalhando junto com o treinador Zdenek Zeman, que privilegiava o jogo ofensivo e armava a equipe no 4-3-3, com o ótimo tridente ofensivo composto pelo próprio Signori, além de Baiano e Rambaudi.

Signori (centro), entre Baiano e Rambaudi no Foggia (Regista Blog)
Na primeira temporada, Signori marcou 14 gols e, na temporada 1990-91, com mais 11 gols do atacante, os satanelli conseguiram o acesso para a Serie A, que ficou conhecido como o “Milagre de Foggia”. Em seu debute na principal divisão do futebol italiano, Signori marcou novamente 11 gols na primeira das três ótimas temporadas dos rossoneri na elite. O bom desempenho lhe garantiu a primeira convocação para a Nazionale e também uma transferência para a Lazio, em 1992. Logo na segunda partida vestindo o azzurro da Itália, contra a Irlanda, o atacante marcou. A seleção se tornaria rotina para ele.
Os aquilotti receberam muito bem o centroavante e sua retribuição veio em campo. Em sua primeira partida, contra a Sampdoria, no estádio Luigi Ferraris, ele anotou uma doppietta, em um empate por 3 a 3. A temporada na equipe da capital foi ótima e Signori sagrou-se artilheiro da Serie A com 26 gols, o maior número alcançado por ele na carreira. Seus gols conduziram os laziali ao quinto posto, que garantiu a vaga na Copa Uefa, quinze anos após a última participação capitolina em competições europeias, quando a equipe ainda tinha o artilheiro Bruno Giordano. A partir de então, Signori tornou-se o líder da equipe.

Na competição continental, a Lazio treinada por Dino Zoff não teve sucesso, mas no campeonato italiano, a Lazio chegou à quarta colocação e Beppe, autor de 23 gols, chegou mais uma vez à artilharia, o que lhe garantiu vaga na seleção italiana de Arrigo Sacchi, que foi aos Estados Unidos disputar a Copa do Mundo de 1994.

Vestindo a camisa 20, Giuseppe Signori participou de seis partidas na campanha italiana, mas foi empregado por Sacchi como atacante em apenas uma oportunidade, tendo sido mais utilizado como meio-campista, embora tenha feito 48 gols em 56 partidas pela Lazio ao longo de dois anos. Por jogar fora de posição, acabou se desentendendo com o treinador nas semifinais, contra a Bulgária, e não entrou em campo na final, contra o Brasil. Depois do Mundial, o atacante laziale jogou apenas mais seis vezes com a Squadra Azzurra e como ocorreu nos Estados Unidos, não conseguiu balançar as redes, finalizando sua história na seleção em 1995, com 28 jogos e sete gols.

Para a Serie A de 1994-95, a Lazio contratou Zeman e, assim, a parceria entre o atacante o treinador foi reeditada - assim como aquela com Rambaudi, que chegou com o treinador. Signori novamente liderou os aquilotti e seus 17 gols contribuíram para o time ficar com o melhor ataque da competição e também ser vice-campeão italiano, além de chegar às semifinais da Coppa Italia e às quartas de final da Copa Uefa. Foi a melhor temporada da Lazio desde o título italiano de 1973-74, conquistado por Tommaso Maestrelli. A idolatria da torcida ao camisa 11 era tamanha que, em 1995, ele chegou a ter uma transfrência confirmada para o Parma, mas a enorme revolta da torcida fez com que a diretoria voltasse atrás nessa decisão.

O artilheiro respondeu em campo ao apoio da torcida e, na temporada 1995-96, com 24 gols na Serie A, foi novamente o artilheiro, ao lado do barês Igor Protti, levando a Lazio no terceiro posto. Porém, o desempenho não foi capaz de convencer Sacchi e o jogador ficou de fora da Euro 1996. Com a saída de Zeman e a volta de Zoff, no meio da temporada 1996-1997, a Lazio passa por uma reformulação e Signori, no entanto, continua como capitão e principal jogador.

Na temporada seguinte, a contratação de Sven-Göran Eriksson na temporada 1997-98 trouxe reforços como Vladimir Jugovic, Matías Almeyda e Roberto Mancini, mas limita os espaços de Signori, cada vez mais relegado ao banco, no esquema tático de Eriksson. Signori “comemora” seu primeiro título com a Lazio nesta temporada: o camisa 11 marcou seis vezes na campanha campeã da Coppa Italia, mas ficou de fora da reta final, já que optou por ser emprestado para a Sampdoria, vendo seu espaço diminuir após a contratação do ex-doriano Mancini. A passagem pelos blucerchiati foi rápida e sem destaque, mas o atacante acabou não retornando à Lazio: estava pronto para respirar novos ares.

Ao final da temporada, Beppe se transferiu para o Bologna, onde reencontrou a titularidade e voltou a marcar gols em grande quantidade. Assim, ele ajudou os rossoblù na reta final da Copa Intertoto, que valeu a classificação para a Copa Uefa, competição na qual Signori marcou seis gols.

Última vez que Signori jogou em alto nível foi pelo Bologna (Il Post)
Um dos jogadores mais representativos da época que Francesco Guidolin treinou a equipe emiliana, Giuseppe Signori disputou seis campeonatos italianos com o Bologna e, nesse período, marcou 67 gols. Dessa forma, o atacante chegou a marca de 188 gols em toda a sua carreira na Serie A, o que lhe garante o oitavo posto entre os maiores artilheiros da história da competição, com a melhor média da história.

Antes de pendurar as chuteiras, Beppe fez amistosos na China com a camisa do Milan, em 2004, e depois passou uma temporada na Grécia, com o Iraklis Thessaloniki. Seu último clube foi o húngaro Sopron, onde também passou apenas um ano. Dois anos após a sua última experiência na Serie A, o eterno artilheiro encerrou a carreira oficialmente.

Giuseppe Signori seguiu ligado ao futebol. Primeiro foi comentarista da RAI, onde começou na Copa de 2006. Em 2008, o ex-atacante tentou a carreira de consultor administrativo no Ternana, mas entrou em litígio com a direção do clube, pródiga em polêmicas, e voltou ao trabalho de comentarista, ao qual se dedica até hoje, fazendo parte da equipe esportiva da Mediaset Premium.

Giuseppe Signori
Nascimento: 17 de fevereiro de 1968, em Alzano Lombardo, Itália
Posição: Atacante
Clubes: Inter (1981-84), AlbinoLeffe (1984-86), Piacenza (1986-89), Trento (1987-88), Foggia (1989-92), Lazio (1992-97), Sampdoria (1998), Bologna (1998-04), Iraklis (2004-05) e Sopron (2005-06)
Títulos: Serie C1 (1986-87), Serie B (1990-91), Coppa Italia (1997-98), Copa Intertoto (1998) e Serie B (1990-91)
Seleção italiana: 28 partidas e sete gols

terça-feira, 24 de março de 2015

28ª rodada: Sampglória

Fim de semana de gala para Éder: golaço e convocação para a Itália (Getty Images)
Final de semana agitado para os clubes que pretendem chegar às competições europeias na próxima temporada. Dos oito primeiros colocados, apenas dois não venceram: Napoli e Fiorentina, justamente os times que seguem vivos na Liga Europa. Bom para a Roma, que voltou a conquistar três pontos, e para as sonhadoras Lazio e Sampdoria, que fazem campanha acima do esperado. Acompanhe o resumo da rodada.

Sampdoria 1-0 Inter
Como disse o presidente Massimo Ferrero, a Sampdoria agora é Sampglória. Com o dinheiro do produtor cinematográfico e sob o comando de Mihajlovic, a equipe de Gênova se mantém no topo da tabela e agora, é a quarta colocada, com quatro vitórias consecutivas. Se a vaga em uma competição europeia vai se aproximando de ficar com uma das surpresas da temporada, fica mais longe da Inter. Mancini diz estar no início de um projeto, para o qual estaria construindo ainda sua base, e tem lutado para dar regularidade e equilíbrio à equipe, numa fase importante para o futuro nerazzurro. O time realmente necessita de resultados para alcançar o objetivo (vaga em competição europeia) para não só atrair jogadores ou investimentos, mas para terminar a temporada ao menos em um lugar mais digno.

Sempre dona da posse de bola e com domínio territorial, a Inter não foi capaz de converter isso em chances de gol e, claro, gols. O time de Mihajlovic, por sua vez, montou seu habitual “catenaccio”, com poucos espaços atrás e equilíbrio. Em resposta, foi bastante perigoso quando atacou com o trio Éder, Muriel e Eto’o, causando transtornos para uma desordenada defesa interista – nem mesmo com atuações regulares, Ranocchia e Vidic foram capazes de garantir maior estabilidade. Nas melhores chances não convertidas, Muriel limpou Ranocchia com lindo drible ao controlar a bola e bateu por cima do gol; Icardi carimbou o travessão e Éder cobrou falta acima do gol. O tento que defindiu o placar foi marcado justamente pelo agora ítalo-brasileiro Éder, recém-convocado por Conte para defender a seleção italiana na próxima data Fifa: com chute potente, em cobrança de falta, não deu chances a Handanovic. (Arthur Barcelos)

Juventus 1-0 Genoa
A Juventus deu o troco no Genoa com o mesmo placar do primeiro turno em 2014-15, quando os rossoblù provocaram a única derrota juventina nesta Serie A. Apesar do mando de campo da Velha Senhora, o Genoa teve a primeira oportunidade de gol na Arena quando Niang aproveitou um vacilo de Bonucci. Depois de um momento de pressão do Grifone, a Juve foi pra cima e definiu o resultado com um (mais um) golaço de Tévez, o 16º dele no campeonato. Nos acréscimos do primeiro tempo, Llorente parou em defesa de Perin e, no rebote, Chiellini acertou o travessão.

O goleiro do Genoa teve de deixar a partida logo no início da etapa seguinte com uma lesão no ombro. O substituto, Lamanna, defendeu cobrança de pênalti de Tévez. Na terceira apresentação do arqueiro nesta temporada, ele defendeu o segundo chute da marca da cal: ele já havia agarrado um pênalti de Ljajic, contra a Roma. Sturaro entrou no fim do jogo e quase completou o cruzamento de Pereyra para o gol, contudo, ele não conseguiu cabecear. A Juve segue 14 pontos a frente da Roma na liderança; apesar do marcador, o técnico Gasperini aprovou (bastante) o jogo do Genoa (10º) em Turim. (Murillo Moret)

Cesena 0-1 Roma
Aleluia! Depois de cinco tropeços seguidos, a Roma voltou a vencer e manteve a segunda posição na Serie A, evitando a ultrapassagem da rival Lazio. Contra um Cesena que vinha conquistando pontos contra equipes grandes, a equipe romana fez o básico e ficou com os três pontos. Dessa forma, a situação não se alterou para as equipes na tabela: continuam simétricas, na vice-liderança e na vice-lanterna.

Sem Totti, machucado, Garcia lançou novamente Doumbia desde o minuto inicial. O marfinense jogou mal de novo, mas dentre as novidades apresentadas pelo técnico francês, Uçan e o jovem Pellegrini tiveram atuações regulares. Para marcar o renascimento (será?) da Roma, o gol foi marcado por De Rossi, um dos jogadores mais criticados nos últimos meses, por viver péssima fase. O capitão da equipe na ausência de Totti finalizou após um cruzamento espirrado. (Nelson Oliveira)

Lazio 2-0 Verona
Seis vitórias consecutivas. Nenhum time vive fase tão esplendorosa quanto a Lazio nesta Serie A. E tudo se deve a Felipe Anderson e Candreva, justamente os autores dos gols no justo triunfo sobre o Verona. Hoje, o time biancoceleste, terceiro colocado um ponto atrás da Roma e quatro acima da Samp, é favorito a ocupar uma das duas vagas em jogo para a Liga dos Campeões – a outra, claro, é da Juve. Sem ambições, o Verona espera apenas somar mais alguns pontos para confirmar a permanência por mais um ano na elite.

A torcida laziale vibrou cedo. Aos 4 minutos, após cruzamento de Basta, Felipe Anderson meteu a cabeça na bola e marcou seu nono gol na temporada. Benussi não conseguiu segurar seu cabeceio e muito menos viu a bomba que Candreva mandou, de longe e no meio do gol, para ampliar o placar no final da primeira etapa. De resto, a Lazio ainda acertou duas vezes a trave, com Biglia e Felipe Anderson (voluntarioso, o brasileiro também ajudou demais na marcação), e teve outras oportunidades com Klose e Keita. O Verona só assustou no primeiro tempo, com cabeceio de Moras na trave. (NO)

Napoli 1-1 Atalanta
O Napoli voltou a tropeçar Na Serie A (quarto jogo sem vitória) e começa a se distanciar da zona de Champions League. Em casa, a equipe não saiu de um empate contra a ameaçada Atalanta e agora ocupa apenas a quinta colocação, cinco pontos atrás da Lazio. A partida teve a volta do técnico Reja de volta ao San Paolo, após quatro anos – o treinador da Atalanta foi o responsável por levar o Napoli da terceira à primeira divisão, nos anos 2000. Porém, o que marcará este duelo por algum tempo serão as polêmicas. Com a posse de bola, Henrique hesitou demais antes de recuar para Andújar, e perdeu a bola para Pinilla, que saiu na cara do gol e abriu o placar, na segunda etapa. O lance foi faltoso (houve a carga do chileno),  o que revoltou os napolitanos. Sobraram reclamações ao árbitro, o que levou à expulsão de Benítez ao fim do jogo. Técnico e diretoria napolitanos já vinham reclamando bastante da arbitragem em outros jogos, e este erro foi o estopim para uma revolta maior. O clube atacou os árbitros, e disse que os resultados estavam influenciando na tabela. As críticas se estenderam ao o presidente da FIGC, Carlo Tavecchio, por meio do Twitter oficial da equipe azzurra.

Antes de todo o bafafá, os bergamascos ficaram com um jogador a menos poucos minutos antes de abrirem o placar, após a expulsão de Gómez. O gol mexeu com o Napoli, que foi melhor e na primeira etapa teve duas boas chances para abrir o marcador. Denis salvou, em cima da linha, a cabeçada de Britos e a trave evitou o gol de Gabbiadini. A Atalanta se aproveitava dos vacilos defensivos de Henrique e Koulibaly para assustar nos contra-ataques. No segundo tempo, antes do gol, o Napoli continuava melhor e Sportiello evitou o gol napolitano em três oportunidades. Benítez lançou a campo Hamsík e Mertens, mas o gol só saiu nos minutos finais, quando Zapata escorou para as redes um cruzamento do eslovaco. (Caio Dellagiustina)

Udinese 2-2 Fiorentina
Depois de eliminar a Roma da Liga Europa, a Fiorentina foi até o Friuli e ficou no empate contra a Udinese, num dos jogos mais movimentados da rodada. Montella deu descanso a peças importantes, como Salah, Pizarro e Diamanti, mas contou com um Gómez inspirado. No lado bianconero, Stramaccioni perdeu Heurtaux, minutos antes da partida. Em seu lugar, Wagué assumiu a vaga na defesa e, no primeiro lance ofensivo da equipe, o malinês aproveitou sobra na grande área para abrir o placar.

O empate viola veio apenas na segunda etapa. Gómez aproveitou cruzamento de Ilicic e igualou o placar, de cabeça. Três minutos depois, o alemão voltou a balançar as redes. Após saída de bola errada friulana, recuperação de Badelj e outro bom passe de Ilicic, o alemão bateu na saída de Karnezis e virou o jogo. O empate bianconero poderia ter vindo na sequência, mas Guilherme não aproveitou o gol vazio, arriscando do meio campo. Porém, ao 17, Di Natale, de costas, cruzou na área e Kone apenas completou ao gol. A Fiorentina sofreu no final do jogo e contou com mais uma boa partida de Neto para segurar o empate, resultado que não foi bom para os toscanos, que saíram da zona classificatória da Liga Europa. Para a Udinese, apenas mais um ponto e estagnação no meio da tabela. (CD) 

Milan 3-1 Cagliari
Uma vitória, enfim. A nona em 28 jogos. E sempre com Ménez, agora vice-artilheiro do campeonato ao lado de Icardi. É muito graças ao francês que o Milan vai conseguindo lutar para não perder completamente a temporada. O time de Inzaghi segue desordenado e sem ideias claras do que fazer, e sente a falta um plano de jogo definido. Isso somado ao mau momento de alguns jogadores, mediocridade de outros, os velhos problemas físicos e a irregularidade. Mas os jogadores fizeram o bastante para bater e não sofrer tanto contra o Cagliari de Zeman, na luta cada vez mais dura contra o rebaixamento, a cada rodada e tropeço.

Em campo, um jogo que demorou para engrenar, se é que tenha engrenado alguma vez. O gol que abriu o placar veio aos 21, depois de Poli recuperar a bola e passar para Ménez acertar chute colocado no canto de Brkic. Fora dois lances protagonizados por Honda, não foram criadas mais oportunidades de gol claras até o intervalo. Mas logo no início do segundo tempo, um contra-ataque organizado por Ekdal e Sau terminou em gol de Diego Farias. O brasileiro marcou com estilo, após cortar Mexès e bater no canto oposto. Porém, no lance seguinte, o próprio Mexès recolocou o Milan na frente do placar, concluindo escanteio do compatriota Ménez com belo chute. Já aos 78, o camisa 7 rossonero voltou a aparecer para converter penalidade de Ceppitelli sobre Cerci. O árbitro Tagliavento e seus auxiliares erraram feio: a falta aconteceu fora da área e nem mesmo com o jogador indicando a marca no gramado deixada pelo carrinho a decisão foi acertada. (AB)

Parma 0-2 Torino
Em meio ao momento sofrível do adversário, o Torino conseguiu vencer o Parma no Ennio Tardini pela primeira vez desde a temporada 2001-02. Maxi López deu a vantagem ao time visitante aos 19 minutos, passando pelo capitão Lucarelli e chutando longe do alcance de Iacobucci - Mirante cumpriu suspensão. Ainda no primeiro tempo, o jogador do Parma deu uma cotovelada em Quagliarella, recebeu o cartão amarelo, reclamou e foi expulso por discutir com a arbitragem. Pegou gancho de três jogos.

O Torino estava bastante motivado para a partida apesar da derrota e eliminação da Liga Europa, entretanto, a partida teve pouquíssimas chances. A equipe da casa teve a oportunidade de passar à frente no marcador com Belfodil, duas vezes - ele chegou a acertar a trave quando a bola passou por Padelli. Basha deu números finais ao jogo após o cruzamento na medida realizado por Molinaro. O Torino continua bem, e até o momento tem aproveitamento superior ao da última temporada. Será que vem vaga na Liga Europa de novo por aí? (MM)
 
Chievo 1-0 Palermo
No jogo que abriu a rodada, um resultado um tanto surpreendente. Excelente para o Chievo, que vem em boa sequência (tirou pontos de Sampdoria, Milan, Roma e Genoa) e está próximo dos 40 pontos e de mais uma salvezza, para o desespero dos olhos dos fãs da Serie A. Pragmático e direto, o time da cidade de Romeu e Julieta não parece ter muita conexão com a tragédia de William Shakespeare e prefere não causar emoção em ninguém.

Paloschi faz temporada apagada, mas voltou a marcar e por pouco não repetiu a doppietta da semana passada. O atacante isolou um pênalti, o que incentivou o Palermo a atacar. Os rosanero, que estagnaram no torneio, esbarraram na defesa gialloblù e em mais um dia apagado de Dybala, mesmo com o sempre regular Vázquez perigoso ao lado de Barreto. Já são cinco jogos sem vencer, o que afasta definitivamente a utópica conquista de uma vaga europeia. (AB)

Empoli 3-1 Sassuolo
Bravíssimo Empoli, bravíssimo Sarri e bravíssimo Saponara. Apesar de ser o time que mais empata no campeonato e próximo de bater o recorde de igualdades em uma única temporada, o Empoli joga um futebol atrativo, propositivo, moderno e que felizmente tem chamado atenção na Itália. Esse mesmo futebol está garantindo uma boa e surpreendente temporada para a equipe toscana no retorno à primeira divisão. São oito jogos de invencibilidade e 33 pontos. A salvação está bem próxima. Assim como a do Sassuolo.

Dominante, o time de Sarri transformou o domínio em vantagem apenas na segunda etapa, quando todos os quatro gols saíram. O primeiro com menos de 30 segundos após a volta do intervalo, em jogada toda de Saponara. Porém, pouco depois, em bola cruzada por Berardi, Rugani acabou fazendo contra. O que não afastou os donos da casa do ataque: o Empoli voltou a frente do placar aos 60, de forma bem rápida. Primeiro, Mchedlidze, apenas 13 segundos após entrar no jogo, completou cruzamento de Saponara e fez seu primeiro gol na Serie A. No lance seguinte, Saponara novamente apareceu, dessa vez em jogada de Croce, e decretou a vitória azzurra. (AB)

Relembre a 27ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Neto (Fiorentina); Barzagli (Juventus), Astori (Roma), Moretti (Torino); Candreva (Lazio), Saponara (Empoli), Felipe Anderson (Lazio), Widmer (Udinese); Ménez (Milan), Gómez (Fiorentina), Éder (Sampdoria). Técnico: Massimiliano Allegri (Juventus).

sexta-feira, 20 de março de 2015

Liga Europa: Sobrou quem tem forças

Fiorentina atropelou a Roma e agora viaja até a Ucrânia (ESPN)
Nas oitavas da Liga Europa, o roteiro foi clichê: entre os times italianos, classificaram-se aqueles que viviam melhor fase que seus adversários e que, por isso, eram favoritos em seus duelos. No confronto totalmente azzurro, melhor para a Fiorentina, que vive grande momento e aproveitou-se de toda a instabilidade da Roma nos últimos meses para passar o carro por cima dos adversários, em pleno Olímpico. Para o Napoli, ordinária administração do bom resultado na ida e classificação em Moscou. Já a Inter esbarrou em suas limitações e mais uma vez deu vexame contra o Wolfsburg. O Torino, por sua vez, foi eliminado, mas caiu de pé contra o Zenit, um dos favoritos ao título.
 
Quartas de finalDynamo Kyiv-Fiorentina
Napoli-Wolfsburg

*Veja todos os duelos aqui.

Roma 0-3 Fiorentina

A Roma não sabe mais vencer. Pior, não sabe mais se controlar. O time de Rudi Garcia vinha ganhando jogos até janeiro, é verdade, mas muitas vezes não convencia. Passava pelos adversários na marra, e muitas vezes com erros de arbitragem. A partir de fevereiro, a crise chegou: o futebol continuava burocrático, as lesões tomaram conta do elenco e o rendimento de vários jogadores caiu bastante – vide De Rossi, Pjanic, Manolas e Gervinho. Era outro time e seu treinador não conseguia mudar isso. A equipe romana começou a empatar demais, viu a Juventus deslanchar na ponta da Serie A e a Fiorentina eliminá-la na Coppa Italia. O psicológico ruiu e foi a própria equipe viola que fez a torcida romana ter um surto de lucidez. No Olímpico, 3 a 0, sem choro nem vela.

Já nos minutos iniciais, só dava viola. Parecia que o jogo era no Artemio Franchi. Aos 8 minutos, Mati Fernández já era derrubado por Holebas dentro da área, em pênalti infantil – o chileno era marcado por dois. Gonzalo Rodríguez precisou bater por duas vezes para abrir o placar. A esta altura, a Roma já havia sofrido um baque. E foi à lona nove minutos depois. Skorupski, goleiro reserva utilizado por Garcia na Liga Europa, tentou evitar escanteio após recuo de bola da zaga. Porém, deixou a bola escapar. Alonso, que não é bobo e havia ido pressionar o polonês (que estava longe de sua meta), aproveitou, roubou a pelota e só completou para o gol vazio. A missão, que já era difícil para a Roma, tornou-se impossível quando Basanta subiu livre (Holebas falhou de novo) e testou forte para as redes. Implacável.

Nem adiantou que a Roma tentasse diminuir. Neto e a defesa florentina estavam lá para afastar qualquer perigo. Após o terceiro gol, a Curva Sud romanista se esvaziou. A organizada foi embora – algo que não aconteceu nem após o 7 a 1 do Bayern de Munique e em outros momentos delicados – e foi protestar. Deixou faixas agressivas no confronto dos jogadores ("mercenários", diziam), e entoou cânticos pesados. No final do jogo, longa conversa entre atletas e torcida, e a entrevista do diretor Walter Sabatini, que assumiu erros no mercado de verão, mas especialmente no de janeiro – por exemplo, Doumbia, que chegou do CSKA Moscou por 18 milhões de euros e acabou nem sendo relacionado para esta partida.

A Fiorentina, por sua vez, vive grande momento. Está viva em três competições, com duas chances de chegar à Liga dos Campeões (via Liga Europa e Serie A) e com a possibilidade de levantar dois títulos (LE e Coppa Italia). A equipe voltou à Florença de trem e foi recebida de forma calorosa por centenas de torcedores na estação de Santa Maria Novella. Montella, que treinou a Roma em 2011 e foi dispensado, é ídolo na cidade e tem a grande chance de arrematar seu primeiro troféu como técnico e o primeiro título viola desde a Coppa Italia de 2002. Para chegar ao título continental, a Fiorentina precisará, primeiro, passar pelo embalado Dynamo Kyiv. A equipe, que é líder do Campeonato Ucraniano, enfiou 5 a 2 no Everton nas oitavas e é uma adversária perigosa. (Nelson Oliveira)

Dinamo Moscou 0-0 Napoli
Ainda restam cinco jogos para o fim da competição, porém, o Napoli está mais perto do objetivo da temporada. Esta é a primeira vez desde 1989 que os partenopei alcançam as quartas de final de um campeonato europeu. Naquela oportunidade, a equipe levantou o caneco da Copa Uefa. Na Rússia, o Napoli jogou o simples para ficar com a vaga na fase seguinte. A chance inicial saiu da cabeça de Maggio, que não acertou a bola da forma correta após bom cruzamento de Gabbiadini, ainda aos três minutos. Mertens acertou a trave e Callejón chutou para fora no único momento que saiu na frente de Gabulov.

O Dinamo esboçou uma reação com o gol invalidado de Samba. Ele desviou a cobrança de falta e o assistente marcou um impedimento duvidoso no lance. Para protestos da torcida, Kokorin também balançou a rede, mas também estava à frente do último defensor. O mesmo atacante parou, na chance seguinte, em Andújar. Kuranyi tentou de cabeça e de bicicleta, contudo, não conseguiu vazar o goleiro do Napoli de forma legal.

O Napoli avança pelo resultado obtido no San Paolo – 3 a 1 –, com a excelente tripletta de Higuaín. O atacante argentino ainda teve a chance de marcar em Moscou ao desarmar Gabulov fora da área. Ele tentou chutar de primeira, encobrindo os zagueiros. A bola bateu em Kozlov e Hubocan conseguiu rebater, no segundo tempo. Agora, os azzurri terão pela frente o Wolfsburg, vice-líder da Bundesliga. O time dos ótimos De Bruyne, Dost, Benaglio e Luiz Gustavo vive ótima fase no Campeonato Alemão e passaram pela Inter com facilidade, mas muito pelas falhas defensivas dos nerazzurri. Se jogarem o futebol dos confrontos contra a Beneamata, o Napoli leva ligeira vantagem. Mas, se for o Napoli dos últimos jogos na Serie A contra o time alviverde que encanta a Alemanha, a história é diferente. Em uma espécie de final antecipada da competição, tudo pode acontecer. (Murillo Moret)
Faltou lucidez à Inter de Hernanes contra o Wolfsburg (Eurosport)
Inter 1-2 Wolfsburg
Passa para lá. Passa para cá. Para um lado. Para o outro. Para trás. Só quem não passa nesse ritmo é a Inter, que mais uma vez sucumbiu a erros de uma defesa muito contestada e à baixíssima criatividade do meio-campo. Agradecem o técnico Dieter Hecking e todo o time do Wolfsburg, que mesmo longe de terem sido geniais, passaram às quartas da Liga Europa.

Após levar 3 a 1 na Alemanha, a Inter precisava de um gol na primeira etapa, já para abrir o confronto. Precisava começar ligada, para ter mais tempo de buscar o segundo gol, que a mandaria para a próxima etapa do torneio. Mas esta equipe não é do tipo que não sofre gols – desde a volta de Mancini, isso aconteceu apenas três vezes, diante de Chievo, Empoli e Palermo. Jogando fechado e em busca de contra-ataques, o time alemão já havia levado perigo duas vezes, e achou seu primeiro gol aos 24. Rodríguez lançou De Bruyne, que cruzou rasteiro para Caligiuri anotar – Juan Jesus ainda estava entrando no táxi para voltar e realizar a marcação e Carrizo hesitou para sair do gol. 

Agora, o time italiano precisava de três gols para levar o jogo para a prorrogação. Não conseguiu nem criar muitas chances, porque Shaqiri estava fora, lesionado, e seu substituto, Kovacic, além de viver uma fase muito negativa, que compromete a sua evolução, saiu machucado no início do segundo tempo. Hernanes e Guarín pecaram demais e erraram passes e chutes em demasia, escolhendo muitas vezes as jogadas erradas. Faltou lucidez e sobrou nervosismo. Ansiedade ampliada por Benaglio, que fez três defesas em chances de Hernanes, Icardi e Palacio. E pela bola que teimava em passar perto, como nas finalizações do brasileiro e do jovem argentino. 

O gol da Inter surgiu já nos 20 minutos finais, quando as entradas de Kuzmanovic e D'Ambrosio (vejam só) deram vitalidade ao time, que jogou melhor. Aos 72, uma boa triangulação entre Palacio e Hernanes acabou no gol do argentino. Aí, o Wolfsburg sentiu o gol, mas a blitz italiana, que durou cerca de 10 minutos, não teve êxito. A partir de então, Hecking adiantou suas linhas de marcação, forçando a Inter a jogar no seu campo de defesa. E Bendtner (!!!) matou o jogo, depois de receber na área e girar para o gol. A temporada da Inter está praticamente finalizada: eliminada da Liga Europa e da Coppa Italia, e com chances de chegar à Liga dos Campeões bem reduzidas através da Serie A. Mesmo voltar à segunda competição continental europeia é complicado – e, talvez, até indesejado. É hora de pensar em 2015-16. (NO)

Torino 1-0 Zenit
A torcida foi à loucura, aos 44 da segunda etapa após o gol de Glik. Porém, os sete minutos restantes não foram suficientes para o Torino. Ao final, aplausos de todo o Estádio Olímpico para uma equipe que mesmo com a eliminação da Liga Europa, foi valente e lutou até onde podia, até onde conseguiu. Faltou talento, faltou jogadores, faltou um gol... Só não faltou esforço e o carinho de toda a Itália que, segundo a própria imprensa local, encheu de orgulho da equipe turinense. No final das contas, o multimilionário Zenit é uma equipe mais forte e deu a lógica. Por pouco, mas deu.

Depois do 2 a 0 na Rússia, a missão grená não seria nada fácil, mas acabou tornando-se ainda mais difícil após o fraco primeiro tempo feito pelos granata. As melhores chances apareceram apenas na bola parada, enquanto, por sua vez, o Zenit fazia valer a vantagem. No segundo tempo, o gol chegou, mas acabou anulado, corretamente. Sem tantas opções, Ventura encheu o time de atacantes, que pressionaram, mas pararam nas defesas de Ludgyn.

O gol de Glik deu esperanças, mas a essa altura, faltava tempo. Pouco após o gol, Lombaerts ainda salvou cabeçada em cima da linha, decretando a vitória da equipe de Hulk. No final das contas, os italianos se lamentaram muito pelo jogo de ida, no qual a expulsão de Benassi e algumas decisões da arbitragem atrapalharam. (Caio Dellagiustina)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dossiê: Falências à italiana, parte 2

Nem mesmo vendas milionárias de Rui Costa e Toldo, além de Batistuta, salvaram a Fiorentina (Tumblr)
Ontem, começamos o nosso longo dossiê sobre as falências no futebol italiano sem cerimônias. Para informar o nosso leitor sobre o quão comuns são as bancarrotas em todas as divisões do esporte itálico, fizemos um levantamento que chegou a um resultado assustador. Quase dois terços dos times que disputaram ao menos uma edição da Serie A faliram pelo menos uma vez nos últimos 30 anos.

Neste primeiro texto, tentamos explicar os motivos que levaram tantas torcidas a sofrerem e também explicamos trâmites burocráticos dos bastidores e o que a Federação Italiana de Futebol – FIGC não fez para evitar o pior.

Agora, na segunda parte do especial, contamos um pouco da história das falências de times tradicionais da Velha Bota. Fiorentina, Napoli, Torino e o próprio Parma, que está em processo de bancarrota neste momento, tem histórias interessantes que circundam sua decadência e passagens pelas divisões inferiores. Também relembramos como Milan, Lazio e Roma quase chegaram a fechar as portas nos últimos anos. Pois é. Confira no dossiê.

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Saiba mais: Falências à italiana, parte 1

Fraude e virada de mesa marcaram falência da Fiorentina
A família Cecchi Gori (primeiro com o pai, Mario, e a partir de 1993, depois de sua morte, com o filho, Vittorio) foram do céu ao inferno em Florença. Nem mesmo os ex-presidentes Enrico Befani e Nello Baglini, que venceram o scudetto (veja mais), levaram tantos craques a vestir o violeta da Fiorentina. Baggio, Batistuta, Rui Costa, Toldo, Edmundo, Márcio Santos... o time brigava na parte alta da tabela, jogou Liga dos Campeões e chegou a ganhar títulos.

Ao mesmo tempo, Vittorio Cecchi Gori mantinha sua vida de produtor cinematográfico – produziu clássicos como O Carteiro e o Poeta e A Vida é Bela – e de senador. A princípio, parecia ter poder político e econômico necessário para gerir a Fiorentina. No entanto, o clube entrou em uma crise enorme por causa dos gastos desenfreados e gestão fraudulenta do seu dono, que nem mesmo as vendas de Batistuta, Rui Costa e Toldo foram capazes de sanar. Cecchi Gori foi preso por duas vezes, condenado por falir tanto a Fiorentina, em 2002, quanto sua produtora, anos depois. Hoje, obviamente, é odiado na cidade.

A Fiorentina foi salva pelo seu prefeito, que garantiu a continuidade do título esportivo. Refundada, a Fiorentina virou Florentia Viola e recomeçou na Serie C2, quarta divisão, capitaneada pelo histórico capitão Di Livio, que ficou no clube mesmo com a queda. Após subir com folga para a Serie C1, a equipe violeta foi beneficiada por uma virada de mesa, em 2004.

O chamado Caso Catania, no qual os sicilianos, o Siena e o Venezia entraram com pedidos de punições aos adversários por causa de jogadores escalados de forma irregular (saiba mais aqui), fez com que a Serie B não tivesse clubes rebaixados naquela ocasião e fosse aumentada para 24 clubes. A virada de mesa foi feita para acontentar os times envolvidos no imbróglio, que durava muito mais tempo do que o devido, e a Fiorentina acabou se beneficiando. A equipe entrou diretamente na segundona por "mérito esportivo", e ocupou o lugar do Cosenza que, vejam só a ironia, havia declarado falência. A FIGC preferiu dar a vaga à viola ao invés de dar a vaga a algum time que tivesse jogado os play-offs da C1 em 2002-03. Absurdo, a princípio?

Nosso colaborador, Thiago Zanetin, explica. "Apontar virada de mesa bancada pela Fiorentina é um erro recorrente. Todos os times que possuam condições financeiras - como a então Fiorentia Viola possuía - podem requerer a repescagem. Os 'méritos esportivos' são apenas parte da equação que define quais os clubes que podem subir - e, no caso, foram potencializados porque a antiga Florentia Viola havia readquirido a marca da Fiorentina, imobilizada desde a falência. O caso Catania não permitiu que clubes caíssem da B, mas não teve influência técnica na promoção da Viola", diz.

O cenário, no entanto, era de muita confusão. A questão só foi resolvida com a temporada 2003-04 já em andamento: as divisões inferiores tiveram os jogos iniciais adiados, mas a Coppa Italia já acontecia. Diversos clubes que atuavam nas séries B e C se revoltaram pela alteração das fórmulas de disputa, ampliação do campeonato e consequente aumento no número de jogos e se retiraram da Coppa Italia em protesto.

A situação surreal ainda influenciou no acesso à Serie A. Naquela temporada, teria até seis vagas: cinco diretas e uma possível em uma partida de play-off contra o quarto pior time colocado da elite. O destino, irônico como sempre, colocou a Fiorentina na 6ª posição, e após o spareggio contra o Perugia, a equipe voltou à elite dois anos depois da queda. Ademais, resta lembrar que foi essa patacoada que fez a disputa da Serie A passar de 18 para 20 times. Hoje, depois que times sem expressão e que pouco acrescentaram ao futebol italiano chegaram à elite, luta-se para que ela volte a ter 18 equipes novamente.

Calaiò foi o símbolo do Napoli nos primeiros anos pós-falência (Spazio Napoli)
A lenta queda e a rápida ascensão do Napoli
No mesmo ano em que a Fiorentina voltava à elite, um Napoli combalido e já há três anos na Serie B falia pela primeira vez. Por motivos similares aos da viola: Corrado Ferlaino, seu histórico presidente, gastara muito em 30 anos – sem, no entanto, ter gestão fraudulenta associada a ele. Levara o clube às suas maiores glórias, com Maradona e Careca. Mas uma hora a festa acabou. Ferlaino saiu de cena em 1993, quando vendeu todas as suas ações no clube.

Pouco depois, voltou à presidência e assumiu o Napoli em crise, abarrotado de dívidas. Viu o time cair para a Serie B em 1997-98, e voltar à elite do futebol italiano dois anos depois. Para, no entanto, cair novamente em seguida. Conseguiu dois sócios, mas depois de uma série de polêmicas, recursos e contra-recursos, estes compraram as ações de Ferlaino, e assumiram o controle total da sociedade por um curto período de tempo. O Napoli não conseguiu pagar suas contas em 2004 e fechou as portas. Foi aí que Aurelio De Laurentiis, atual presidente azzurro, apareceu.

Buscando reestruturar o clube de baixo, o produtor de cinema (mais um), inscreveu a equipe na Serie C1, beneficiado pelo procedimento Lodo Petrucci (saiba mais) – teve de trocar o nome oficial do time para Napoli Soccer, adquirindo o direito de voltar a utilizar o nome Società Sportiva Calcio Napoli apenas em 2006. A promessa era a de montar um time forte nos anos seguintes. De Laurentiis não viu os azzurri retornarem à segundona de imediato, mas cumpriu sua promessa. Em pouco mais de 10 anos à frente do clube campano, o transformou novamente em um dos maiores do país, levantando três títulos e participando de três Champions. O clube voltou a ser respeitado internacionalmente, vive o segundo melhor momento de sua história, teve e tem ídolos como Hamsík, Cavani, Lavezzi e Higuaín.

Hoje a torcida, uma das mais apaixonadas do país, volta a lotar o San Paolo, que chegou a ter públicos irrisórios em tempos de crise – e também públicos enormes mesmo na Serie C1, quando a esperança havia sido retomada. Depois de quase 15 anos de maré baixa e humilhação, os napolitanos sorriem.

Calisto Tanzi, dono da Parmalat e bênção e maldição de Parma (AP)
Trate sua torcida com amor e Parmalat?*
*Lembrou?

2004 foi um ano movimentado no quesito administrativo para equipes médias da Serie A. Naquela temporada, o Parma viu acontecer a sua primeira falência, mesmo tendo ficado a um ponto de conquistar a classificação para a Liga dos Campeões – garantiu, com a 5ª posição, vaga na Copa Uefa. A Parmalat, uma das maiores empresas de laticínios do mundo, afundou e levou o clube que patrocinava e comandava ao fundo do poço. A multinacional, assim como muitos dos proprietários que atravessaram períodos de ouro e de falência dos seus clubes (vide os casos que citamos acima), foi para o Parma, "croce e delizia", como dizem os italianos. Ou, em bom português, ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Do céu ao inferno.

O Parma vencedor dos anos 1990 nunca teria existido sem a Parmalat. Nos tempos anteriores à empresa do magnata Calisto Tanzi, o clube nunca tinha sonhado com a Serie A – a melhor colocação em toda a sua história havia sido um 5º lugar na Serie B 1973-74 –, muito menos com a conquista de oito títulos; quatro de relevo nacional e quatro continentais. A Parmalat entrou no Parma no final dos anos 1980, inicialmente como patrocinadora e sócia minoritária, e levou ao clube técnicos ousados taticamente, como Zdenek Zeman e Arrigo Sacchi, parte importante da história recente do futebol italiano. Mas foi com Nevio Scala que a equipe chegou pela primeira vez à elite, e com o acesso, Tanzi adquiriu a totalidade do clube.

Nos anos da Parmalat, todos que acompanham o futebol da Itália sabem os grandes esquadrões formados com o dinheiro da multinacional (conheça mais aqui e aqui). A lista de craques é enorme, e tem gente do calibre de Buffon, Crespo, Cannavaro, Thuram, Verón, Asprilla, Brolin, Zola e Taffarel, só para citarmos alguns. Porém, os Tanzi eram craques mesmo é da corrupção. Hábeis em evasão de divisas, lavagem de dinheiro, superfaturamento e ocultamento de débitos. Negociações de jogadores tinham valores mentirosos, sobretaxados para que o dinheiro desviado voltasse para a conta dos Tanzi em paraísos fiscais.

O filho de Calisto Tanzi, Stefano, foi presidente do Parma e representante da família no Brasil, onde fez negócios com o Palmeiras e o Juventude. O alviverde paulista, que era patrocinado pela empresa à época do escândalo, também sofreu com a falência e teve investimentos reduzidos no final e após a parceria.

O escândalo da multinacional – considerado a maior bancarrota da história empresarial europeia – estourou em 2001, quando se soube que uma subsidiária na verdade não tinha quase 4 bilhões de euros em conta. O valor, no entanto, fazia parte da contabilidade da empresa. Pouco depois, foi descoberto que a dívida da Parmalat era, na verdade, de 13,2 bilhões de euros, oito vezes superior à especulada pelo mercado. Vale a pena ler esta reportagem da ISTOÉ Dinheiro para entender mais sobre o caos parmalatiano.

Com o passar dos anos, as investigações, a Parmalat perdeu grande parte do seu valor de mercado, a diretoria foi afastada, julgada e condenada – Calisto Tanzi foi detido pela primeira vez em 2003, e condenado em definitivo quase 10 anos depois. O Parma, claro, sentiu o baque, ainda que Cesare Prandelli tenha conseguido isolar os jogadores e levado o clube a altos voos.

Os ducali foram beneficiados pela Lei Marzano, que permitia que empresas em dificuldades financeiras continuassem em funcionamento, enquanto reestruturavam suas dívidas ou resolviam processos de falência. Com isso, o Parma acabou continuando na Serie A, mas administrado por um interventor enquanto buscava um novo comprador. Sem investimentos, o clube teve de vender jogadores importantes desde antes do crac definitivo da Parmalat (Buffon, Cannavaro, Crespo, Thuram, Verón, Sensini, Sükür, Taffarel), durante (Adriano, Mutu, Di Vaio, Nakata) e depois (Frey, Gilardino, Fábio Simplício e Bonera).

A primeira temporada pós-bancarrota foi cheia de altos e baixos, com o clube heroicamente chegando às semifinais da Copa Uefa, mas precisando de um jogo-desempate para salvar-se do rebaixamento – caiu o Bologna. Após anos de times tecnicamente muito ruins, o Parma passou para as mãos de Tommaso Ghirardi, em 2007, e se reestruturou brevemente. Caiu para a segundona em 2008, mas voltou mais forte. E, agora, vive a angústia de retornar à Serie B ou, pior, voltar às origens e jogar a amadora Eccellenza emiliana ou as séries D e C.

Após anos de sofrimento, Torino viu a dupla Cerci-Immobile levarem o clube ao renascimento (La Stampa)
Clamor da torcida salvou o Torino do pior
Outro time tradicionalíssimo que faliu quase na mesma época foi o Torino, em 2005. Os sinais de falta de liquidez no clube foram notados durante todos os anos 1990, quando nem mesmo a venda de Lentini – o negócio mais caro do mundo à época – foi capaz de tirar o time do vermelho. Entre 1995 e 2005, o Toro foi um verdadeiro ioiô, e alternou bastante entre a primeira e a segunda divisão, um claro efeito da falta de dinheiro – o que piorou a partir de 2000, quando Francesco Cimminelli assumiu o clube.

Em 2003, após a enésima queda para a B, a torcida não aguentou mais: foi organizada uma marcha que reuniu cerca de 50 mil torcedores em Turim. A manifestação partiu das ruínas do histórico estádio Filadelfia, passou pelo memorial de Luigi Meroni, ex-craque do clube, morto aos 24 anos, e terminou na Basílica de Superga.

Em 2004-05, a agonia poderia ter dado lugar a um raro e curto momento de alegria: o Torino conseguiu o acesso para a Serie A – e conquistando o acesso em revanche sobre o Perugia, que anos antes havia eliminado o time grená no play-off de acesso. Porém, teve a licença negada pela FIGC por causa do enorme débito societário contraído nos últimos anos e por falta de garantias, não apresentadas por Cimminelli. Não se inscreveu nem na Serie A nem na Coppa Italia. Incrivelmente, dali para frente, o clube viveu uma pequena odisseia.

Um grupo de torcedores se reuniu, criou uma nova firma e, com apoio de uma empresa local, o Torino foi beneficiado pelo Lodo Petrucci e aceito na Serie B, superando um longo processo burocrático, de um mês e meio – inicialmente, a proposta não foi aceita pela federação. Já estava tudo certo para que Urbano Cairo, conhecido publisher lombardo e empresário do ramo editorial, assumisse o Torino. Uma entrevista coletiva chegou a ser marcada na mesma taverna em que o Toro fora fundado. Porém, um dos acionistas que ajudaram o Torino a pagar parte dos débitos, Luca Giovannone, apareceu com uma escritura que lhe garantia o controle acionário dos granata – 51%. E, prontamente, se recusou a vender o clube a Cairo.

Depois de uma longa negociação, que envolveu até o prefeito de Turim, Giovannone decidiu vender... e logo voltou atrás. Após a fúria da torcida grená, ele fugiu da cidade e se escondeu em um hotel, mas mesmo assim foi cercado por torcedores, tendo de deixar o local escoltado pela polícia. No fim das contas, já em cima da hora – a Serie B havia começado e o Torino teve jogos adiados pela questão –, ele cedeu à pressão e deixou o clube nas mãos de gente responsável. Urbano Cairo tornou-se presidente e viu o processo de falência e troca total de posse serem finalizados em novembro daquele ano. O Torino conquistou o acesso na mesma temporada, mas voltou a ser uma equipe ioiô.

Hoje, 10 anos depois, Cairo continua na presidência, e vê um cenário novo, com mais perspectivas. Seu time voltou a disputar uma competição continental e tem dinheiro em caixa. Até ameaçou voltar a vencer a grande rival, a Juventus, algo que não acontece desde 1995 e, hoje, parece novamente possível. A torcida, que chegou a contestá-lo bastante entre 2009 e 2013, hoje está em trégua.

Outras falências
O primeiro clube de peso a falir no futebol italiano foi o Verona. Em 1991, seis anos após conquistar o scudetto, más administrações levaram o clube a retornar à Serie B e a falir durante a campanha. No entanto, apesar da queda de poder econômico, o clube acabou garantindo o acesso à elite no mesmo ano. Os efeitos daquela falência só viriam a ser sentidos anos depois, quando a administração desastrosa de Giambattista Pastorello, entre 1998 e 2006, levou o combalido time à terceira divisão.

Depois foi a vez do Bologna, sete vezes campeão nacional. No meio dos anos 1990, depois da saída do presidente Gino Corioni (que comprou o Brescia) e de alguns sócios, a equipe (mesmo com jogadores de calibre disputando a Serie B) se perdeu e foi rebaixada para a terceirona. Cheia de dívidas que não poderia pagar, decretou falência, em 1993, e só foi salva pelos planos ambiciosos de Giuseppe Gazzoni Frascara, que levou o time de volta à elite e, entre outras coisas, levou Roberto Baggio à Emília-Romanha.

Gazzoni Frascara ficou até 2006, e depois o clube passou nas mãos de Renzo e Francesca Menarini, Sergio Porcedda e Massimo Zanetti, sempre com algumas dificuldades financeiras. No final de 2014, Joey Saputo, ítalo-canadense dono do Impact Montréal, adquiriu o clube, que agora tem planos de se restabelecer na Serie A.

Dos anos 1980 para cá, ainda podemos citar muitos clubes tradicionais e que deram contribuição para o esporte – seja pela disputa de bons campeonatos, seja pela força de sua torcida ou apresentação de novos talentos. Os casos mais recentes são o do Padova, clube que revelou Del Piero, atualmente na Serie D, e do Bari, que mostrou ao mundo o futebol de Cassano. Enquanto os padovanos terão uma longa estrada pela frente, os bareses deram show no ano passado.

Uma comovente campanha feita pela torcida do Bari conseguiu salvar o clube e mantê-lo na Serie B. O estádio San Nicola, um dos maiores da Itália, lotou diversas vezes em 2014 para pedir que o proprietário, Vincenzo Matarrese, declarasse o clube falido – sua família é historicamente ligada ao Bari, e comandava o clube desde 1977. Apenas com a declaração de falência com a temporada em curso seria possível manter o time na mesma divisão – é a mesma coisa que a torcida do Parma quer hoje, ao pressionar o mitômano e falsário Giampietro Manenti. Após a falência, o Bari é presidido pelo ex-árbitro Gianluca Paparesta.

Temos, também, alguns times importantes e que já chegaram a falir em processo de recuperação. Podemos citar os casos de Avellino, Perugia, Pescara, Ascoli, Alessandria e Foggia. Os três primeiros citados brigam forte por uma vaga na próxima Serie A, enquanto os três últimos tentam voltar à segundona. Brasileiros já brilharam por alguns desses times: Juary e Dirceu pelo Avellino, Júnior, Tita e Dunga pelo Pescara e Casagrande pelo Ascoli. Atualmente, um dos líderes do Perugia é Taddei.

Uma das derrocadas mais sentidas é a da tradicionalíssima Triestina, que não joga a Serie A desde 1957 – no entanto, esteve presente em todas as edições do campeonato até aquele momento. Hoje, após duas falências e de quase retornar à elite, o time que revelou o histórico técnico Nereo Rocco joga a Serie D. Destino similar tem o Mantova, equipe que faliu três vezes e pela qual passou Zoff. Sem falar no Casale, que já foi campeão italiano e desde 1947 não joga na Serie B e desde 1992 não chega nem a disputar a terceirona. O time da estrela solitária disputa um torneio regional, a Eccellenza do Piemonte.

Berlusconi, à esquerda de Liedholm e Galliani, transformou o Milan de quase falido em lenda (Corriere.it)
Foi quase...
Várias outras marcas de peso no futebol italiano e internacional quase deixaram de existir nas últimas décadas. A principal delas, certamente é a do Milan, que quase faliu nos anos 1980. Naquela década, o Diavolo vivia um dos piores momentos de sua história. O clube havia vencido apenas seis títulos nos últimos 15 anos (um scudetto, no fim dos anos 1970) e sido rebaixado em 1980, por participação no Totonero, e novamente em 1982, dessa vez por mau rendimento no campo.

Giuseppe "Giussy" Farina, antigo presidente do Lanerossi Vicenza, comprara o clube, pouco antes da queda, e levou o clube à derrocada financeira – como fizera no Vêneto; mas ao contrário do que houve com a equipe biancorossa, que teve sucesso nos campos, levou a torcida rossonera à loucura. Em 1986, quando a situação era periclitante, foi obrigado pelos outros sócios a vender o clube. O megaempresário Silvio Berlusconi apareceu, comprou o clube e o resto é história: encheu o time de craques e transformou uma equipe já campeã europeia e multicampeã nacional em uma máquina; no clube que mais troféus tem no mundo – saiba mais aqui e aqui.

A possibilidade de falência também foi grande para a dupla romana. O clube que mais perto ficou disso foi a Lazio. Depois que a Cirio, de Sergio Cragnotti, entrou no clube e investiu milhões de euros para comprar craques e conquistar sete títulos – o segundo scudetto da história celeste foi o maior deles –, a bolha estourou. A empresa do ramo alimentício, graças à gestão fraudulenta do seu dono – que também era o dono da Lazio –, faliu e quase levou os aquilotti junto. Cragnotti acabou condenado, destino diferente do time que comandou.

Por sorte, as vendas de alguns jogadores, como Vieri, Crespo, Nesta e Verón ajudaram a equilibrar as contas até a chegada de Claudio Lotito, atual presidente do clube. No entanto, no ano seguinte à compra do clube pelo seu atual proprietário, a Lazio escapou do rebaixamento por apenas três pontos. O campeonato de 2004-05 foi disputadíssimo: a diferença do sétimo colocado, Messina, para o penúltimo, Brescia, foi apenas de sete pontos – veja.

Em 2004-05, a Roma também quase caiu. Naquele campeonato nivelado por baixo, os giallorossi foram mal demais, e escaparam por causa de quatro pontinhos. Foi o auge do sofrimento pelo qual a equipe passou após o scudetto de 2001.

Nas mãos de Franco Sensi e sua família, a Roma passou por um longo período de investimentos limitados por causa do endividamento das empresas do clã. Nessa época, a equipe alternou resultados medíocres e o flerte com o rebaixamento com alguns vice-campeonatos. Após a cessão da maior parte das ações do clube a um consórcio bancário, em um processo que durou alguns anos, o grupo de investidores norte-americanos guiados por James Pallotta e Thomas Di Benedetto assumiu o comando da entidade, em 2011.

Hoje, a Roma está construindo um novo estádio, tem ambiciosos planos de marketing e investe com inteligência em jovens e jogadores de centros menos badalados no futebol. É um dos clubes com maior perspectiva de crescimento no futebol italiano e europeu.

A melhor Juventus na Europa

Juve deu show na melhor apresentação internacional nos últimos três anos (Foto: LaPresse)
Nas três temporadas em que a Juventus foi treinada por Antonio Conte, duas apresentações em 22 foram realmente boas em partidas europeias - os confrontos contra Chelsea, em casa, e Celtic, fora, em 2012. É possível discutir se qualquer uma delas foi tão boa quanto os 3 a 0 desta quarta-feira ante o Borussia Dortmund, no Signal Iduna Park. A partida marcou o avanço às quartas de final do, por enquanto, melhor time da Itália.

A primeira quinzena de março foi um período para o técnico Massimiliano Allegri frisar aos jogadores que eles tinham de manter os pés no chão. O empate contra a Roma e a derrota para a Fiorentina, na Coppa Italia, ligaram um sinal de alerta antes das vitórias simples contra ante Sassuolo e Palermo. O 1 a 0, para o treinador, significa bastante. É o método de dizer: "ei, nada está vencido. Deem o máximo até o final".

O comandante queria atacar o Dortmund na Alemanha. Blefou. Omitiu informações porque a Juventus foi ofensiva e efetiva nos momentos certos e, essencialmente, soube se defender com a ausência de dois titulares. Pirlo ficaria apenas 20 dias fora da equipe, mas não foi liberado para jogar na Liga; Pogba voltou a sentir uma lesão no joelho (ele foi poupado contra a Roma) e saiu de campo ainda no primeiro tempo com suspeita de lesão muscular.

Tévez aproveitou um desarme no campo de ataque para dar a vantagem a Juventus logo no terceiro minuto - e com um pequeno auxílio de Weindenfeller. Postada então com quatro zagueiros, Marchisio jogou à Pirlo e Vidal e Pereyra inverteram as posições para dar mobilidade e fluidez à saída de bola. Defensivamente, ora Tévez, ora Morata faziam a recomposição. O veloz ataque adversário, com Kampl, Mkhitaryan, Reus e Aubameyang, foi completamente dominado pela defesa bianconera. A entrada de Barzagli, então, foi a nova camada de cimento no muro intransponível em Dortmund.

O Borussia mal atacou, é verdade. Para se ter uma ideia, Kampl foi o jogador mais incisivo da equipe por mais de 50 minutos - ele sequer chegou perto de marcar gol. Um chute de longa distância de Subotic, na etapa final, foi o único momento de sufoco que Buffon passou. O time alemão bem que tentou pressionar, porém, simplesmente não conseguia passar pela defesa perfeitamente executada pelos comandados de Allegri. Apenas em contra-ataques, Morata parou em duas ótimas defesas de Weindenfeller antes de tocar para o fundo do gol após passe de Tévez. O argentino ainda deu números finais ao confronto com toque de Pereyra, outro jogador fundamental para a ofensiva da Velha Senhora na Alemanha.

A Juventus ainda teria dificuldades em vencer a Liga dos Campeões porque não tem o time mais qualificado entre os que ainda continuam lutando pelo título. Barcelona, Bayern de Munique, Real Madrid, PSG e Atlético estão à frente. Contudo, o clube italiano mostrou que o trabalho colossal realizado em nível nacional com Conte foi repensado por Allegri. E esse treinador representa o futuro de uma equipe cada vez mais preparada para reintegrar o principal escalão do Velho Continente.

A cena do técnico Jürgen Klopp deixando o Signal Iduna Park a pé, depois do confronto, traduz o que ele disse na entrevista coletiva: "perdemos para um time muito superior ao nosso". Com Conte, a Juve era forte na Itália. Com Allegri, a Juve está chata, perigosa e sedenta para melhorar também em nível continental.

Borussia Dortmund 0-3 Juventus (no agregado, 1-5)

Borussia Dortmund: Weidenfeller, Sokratis, Subotic, Hummels e Schmelzer (46' Kirch); Bender (63' Ramos), Gundogan e Mkhitaryan (63' Kuba); Kampl, Reus e Aubameyang. T: Jurgen Klopp

Juventus: Buffon, Lichtsteiner, Bonucci, Chiellini e Evra; Vidal, Marchisio, Pogba (27' Barzagli); Pereyra; Tévez (81' Pepe) e Morata (78' Matri). T: Massimiliano Allegri

quarta-feira, 18 de março de 2015

Dossiê: Falências à italiana, parte 1

Quando o Parma faliu pela primeira vez, Gilardino salvou o time do rebaixamento em campo (AP)
A falência do Parma é iminente: nesta quinta, 19 de março, uma audiência judicial definirá o futuro do clube. Seu presidente, Giampietro Manenti, foi preso nas primeiras horas desta quarta, acusado de utilizar capital de origem ilícita na compra do clube: o plano para mudar os rumos do Parma na verdade seria esquema que usaria o clube para lavar dinheiro de cartões falsos e contas hackeadas – saiba mais. Ele foi preso preventivamente e as investigações estão em curso.

O caso do time emiliano causou furor, pela velocidade dos fatos – até a última temporada, os crociati não pareciam atravessar uma crise financeira –, mas levantou também uma outra questão: porque dentre os países que sediam os maiores campeonatos do futebol europeu é justamente a Itália que, de longe, mais vê equipes entrarem em bancarrota?

Para tentar elucidar os fatos e tentar chegar a um diagnóstico preciso, o Quattro Tratti fez um levantamento para verificar o grau de "infestação" pelo qual passa o futebol italiano. Todo ano, dezenas de equipes de divisões inferiores, profissionais ou semiamadoras, entram com pedidos de falência junto à Federação Italiana de Futebol – FIGC, o que é mais um indício para notar como as estruturas do futebol local andam precisando de mais cuidados. 

Porém, como a realidade econômica e administrativa de equipes muito pequenas é bastante diferente de times mais organizados e que passaram pela elite, estabelecemos alguns critérios para deixar os dados da análise mais facilmente digeríveis. Nossa régua foi a seguinte: levantamos quantas equipes jogaram a Serie A desde a sua formação, em 1929, e quantas destas faliram a partir da década de 1980, quando o Campeonato Italiano se tornou o maior do mundo – ao ponto de seleções postulantes ao título da Copa do Mundo (ou mesmo vencedoras) terem jogadores atuando na segundona do Belpaese. O aperfeiçoamento do profissionalismo e a globalização do futebol, que aumentaram a partir desta época e, principalmente, o crescimento da bolha econômica nos anos 1980 e 1990 e o estouro que veio logo depois ajudam a entender as falências, em nosso ponto de vista, e foi por isso que escolhemos este período histórico para situar a análise.


Chegamos a um resultado assustador. Dos 63 clubes que participaram de ao menos uma edição da Serie A, 40 faliram pelo menos uma vez nos últimos 35 anos – a lista completa, com o número e anos dos processos administrativos, segue abaixo. Ao menos uma vez, porque, pasmem, há times que entraram em bancarrota duas ou três vezes, muitas vezes em um espaço de tempo de apenas cinco anos. O número representa quase dois terços do total de times que já entraram nos gramados da elite da Velha Bota. Somente 11 dos clubes citados não chegaram a jogar a primeira divisão no período da análise. Você imagina o mesmo acontecendo em Inglaterra, Alemanha ou mesmo em Espanha e França? Nenhum país tem mais clubes sendo refundados ou desaparecendo do que a Itália.

No final das contas, restam apenas 23 equipes que participaram da Serie A e não passaram pelo drama da falência em algum momento das últimas três décadas. Algumas dessas instituições chegaram muito perto disso – e temos exemplos de times graúdos, como Lazio, Milan e Roma, que tiveram sérias dificuldades em momentos distintos; os romanos no início deste século e os milaneses na década de 1980, pouco antes da posse de Silvio Berlusconi.

Como mostramos, quebras de clubes na Itália não são novidade. O próprio Parma já faliu uma vez, há 10 anos. O caso do (probabilíssimo) segundo processo de bancarrota do Parma só evidencia como a federação e as ligas não estão atentas a um dos problemas mais antigos do futebol local, que segue presente. Não há como não atribuir uma grande parcela de culpa às entidades que comandam o esporte do Belpaese. Há, no entanto, um conjunto de motivos que levam a situações como estas. Vamos a eles.

Tommaso Ghirardi, o homem que presidiu o Parma de 2007 a 2014 (Calcio Fanpage)
Por que os clubes quebram?
O futebol italiano viveu seus melhores momentos calcado em um modelo de negócio de simples entendimento: o mecenato. Os donos dos clubes, normalmente ricaços apaixonados pela equipe ou pelo esporte em geral, injetavam dinheiro próprio na gestão do clube, para sanar dívidas ou fazer contratações. Um modelo já obsoleto, por causa da crise econômica que atingiu a Itália – com isto, o poder de investimento dos dirigentes diminuiu.

Clubes de futebol na Itália são historicamente ligados a empresas ou famílias ricas, normalmente sócias de algum forte conglomerado industrial. Por exemplo, a Juventus cresceu no berço da Fiat, a Inter era ligadíssima ao grupo Saras, o Milan é uma empresa que faz, efetivamente, parte do grupo Fininvest e o pequeno Sassuolo é do mesmo dono da Mapei. No mecenato, a saúde financeira de um clube costuma estar intimamente ligada ao sucesso das empresas do seu dono.

Foi por isso que a Lazio passou por grave crise financeira quando a Cirio, do seu presidente Sergio Cragnotti, estava à beira da falência. Pelo mesmo motivo, o Parma faliu pela primeira vez juntamente com a bancarrota da Parmalat. Claro, a derrocada das empresas são fruto de má gestão – e nos casos da Cirio de Cragnotti e da Parmalat de Calisto Tanzi, uma administração fraudulenta –, e mesmo se um clube não chega a ter envolvimento com grupos familiares ou empresariais de alto calibre, o que pode determinar sua decadência é uma administração irregular.

Os mecenas estão cada vez mais dissociados do esporte por conta do Fair Play Financeiro da Uefa. O mecanismo obriga os clubes a terem balanços com cada vez menos débitos e, progressivamente, lucro. Ou seja, obrigam, em tese e na prática, cada clube a ter vida própria, no mínimo parcialmente desligada do sucesso empresarial de seus donos, que não podem mais aumentar o capital do clube e realizar compras de jogadores a atacado, com gastos exorbitantes e prejuízos. Pelos preceitos do sistema adotado pela máxima entidade do futebol europeu, o clube deve ser, então, uma entidade autossustentável, que gere receita própria.

Na Itália, o mesmo rigor do FPF não é aplicado, e as equipes precisam apenas provar que tem seus débitos trabalhistas quitados e que seus balanços estão equilibrados, o que é verificado pela Covisoc – Comissão de Vigilância dos Clubes Profissionais de Futebol, instrumento da federação para avaliar eventuais problemas fiscais e econômicos das sociedades.

O problema é que isto ainda é pouco para evitar problemas dessa gravidade. A Covisoc, ao analisar não só os balanços da última temporada do Parma, mas os de anos anteriores dos ducali, recomendou à FIGC um "atento monitoramento" da situação. Afinal, as dívidas, sempre em crescente, chegavam aos 70 milhões de euros. 33 destes somente com fornecedores e serviços terceirizados, muitos dos quais não recebiam há quase um ano, o que chegou a inviabilizar o funcionamento de diversas atividades do clube e levou até à penhora de bens.

Em uma situação normal, qualquer clube poderia tentar solucionar (ou abrandar) o vermelho nas contas vendendo jogadores, antecipando receitas (como direitos de TV), contraindo empréstimos ou via injeção de verba por parte dos acionistas ou por novos contratos de patrocínio. No caso do Parma, o ex-presidente Tommaso Ghirardi, já decidido a deixar o comando dos emilianos, nada buscou. E nem a FIGC e nem a Liga da Serie A exigiram garantias de que o clube não entraria em parafuso durante o campeonato. Falta controle e mais rigor na fiscalização.

Repetimos o que escrevemos duas semanas atrás: o livre mercado no futebol, sem responsabilidade, já mostrou que a bolha cresce e estoura, e quando isso acontece, pouca coisa sobra. O futebol italiano é o melhor exemplo disso: depois dos anos de ouro, viu centenas de clubes se endividarem e falirem.

Hoje, a crise na Europa é ainda maior do que em anos anteriores, e a Itália é um dos países mais afetados, seja na economia, seja no futebol. O momento de crise fez com que o pensamento de sustentabilidade no esporte ficasse mais forte no continente como um todo, o que gerou a introdução do FPF, por exemplo. Os italianos, no entanto, engatinham no assunto – para não dizer que andam até na contramão.

Lucarelli, capitão do Parma (Getty Images)
A postura da FIGC e da Liga da Serie A logo quando o caso Parma eclodiu sugere que pouco será feito. Primeiro, os órgãos se eximiram de comentar sobre o assunto, e depois, em nota oficial praticamente tiraram o corpo fora, afirmando que as sanções com multas, perda de pontos e da licença Uefa eram suficientes para o caso.

Seria mesmo difícil esperar algo diferente de quem comanda um sistema que permite que um clube da primeira divisão seja vendido duas vezes ao custo de 1 euro, e no espaço de dois meses. E as transações aconteceram sem que houvesse qualquer verificação anterior por parte das autoridades sobre a capacidade administrativa (sobretudo do ponto de vista financeiro) dos novos donos. Em nenhum momento se indagou se os compradores teriam condições de tocar o barco – foi descoberto que o patrimônio declarado da Dastraso Holding e do Mapi Group, que compraram o Parma, um após o outro, não são compatíveis para a administração de uma entidade esportiva de elite.

O futebol italiano continua cheio de problemas e a sensação é similar à que temos no Brasil com a CBF: a de que um resultado esportivo positivo para o futebol italiano em âmbito internacional só acontecerá graças a esforços de um pequeno número de clubes ou da própria seleção. Enquanto o Campeonato Italiano definha do ponto de vista administrativo e moral, com escândalos extracampo em série, outras grandes ligas europeias continuam se valorizando e aumentando o abismo em relação à Serie A.

Pequeno Treviso jogou Serie A e faliu duas vezes após a queda (Getty Images)
Exceção ou nem tanto? Falência dos pequenos tem origem diferente
A falta de rigor na fiscalização às contas dos clubes e o estouro da bolha são realmente dois dos maiores problemas que ajudam a compreender a crise no futebol de elite da Itália. No entanto, um outro problema, com origens em aspectos sociopolíticos do país, ajuda a compreender um pouco as falências da maior parte dos clubes da Bota, aqueles que jogam as divisões inferiores. O provincianismo aliado à desorganização dos campeonatos. Na Serie B, por exemplo, nesta edição times da ponta e do fundo da tabela já apresentaram problemas. O lanterna Varese – time da cidade homônima, vizinha à Milão – passa por dificuldades e já foi penalizado em 3 pontos por não pagar dívidas. No início do campeonato, o Bologna, vice-líder, também perdeu um ponto por isso. Porém, foi comprado por um grupo de empresários canadenses e norte-americanos e vive melhores momentos.

Como acontece em qualquer lugar do mundo, clubes pequenos e médios têm torcida significativa apenas em sua cidade. Na Itália, fora os três grandes, Inter, Juventus e Milan, que tem torcida espalhada por todo o país – e de Roma, que tem se expandido, e do Napoli, pela quantidade de sulistas espalhados pelo Belpaese –, grande parte dos clubes tradicionais tem torcida apenas na sua cidade local e em outras cidades da província, sem ter alcance em toda a península. É o que acontece, por exemplo, com Torino, Fiorentina, Bologna, Lazio ou mesmo com Cremonese, Pescara, Bari ou Lecce. Quando passamos para os clubes de escalão mais baixo, isso aumenta. E aí, com a criação da Lega Pro, que correspondia à terceira e quarta divisões do país, é que as coisas começaram a piorar. Aqui no blog, Thiago Zanetin escreveu sobre isto em 2010, e reproduzimos alguns trechos abaixo.

>>> Saiba mais: A estrutura do futebol italiano não zela pela saúde financeira dos pequenos

"À medida que esses clubes, de cidades pequenas ou não-capitais de província, fechados nos confins de suas cidades, foram obtendo sucesso nos campeonatos amadores, tiveram de ser aceitos obrigatoriamente na Lega Pro, a porta de entrada do profissionalismo italiano. Consequentemente, puxaram o nível dos campeonatos para baixo, não apenas tecnicamente, mas em termos de negócios e visibilidade. E fizeram da categoria o que ela é hoje: uma soma de identidades diversas, sem apelo nacional. Mais do que um campeonato italiano, criou-se um torneio interprovinciano.

Como poucos times pequenos não suplantariam a estrutura necessária, começou-se a inflar a categoria de clubes, chegando a inacreditáveis 90 equipes (36 na Prima e 54 na Seconda Divisione). A falta de preocupação estrutural com o movimento de divisões é claríssima. Não existem parâmetros que determinem o porte que um clube profissional deve ter - patrimônio, torcida, apoio das instituições locais, possibilidades de exploração e prestígio da marca junto à cidade, à província ou a região, entre tantos outros.

Vincular a possibilidade do profissionalismo a uma mera conquista esportiva ou repescagem é assumir que o terreno de jogo comanda os bastidores do campeonato. Não se trata de fazer uma ode ao futebol moderno ou desmerecer os esforços dos clubes menores, proibindo-os de ascender ao profissionalismo. Trata-se de esclarecer outras coisas. Enquanto o Vado (primeiro campeão da Coppa Itália) não oferecer garantias expressivas de que possa voltar a ser profissional, garantias que devem ir além do terreno de jogo, então deverá continuar jogando, no máximo, até a Serie D".


Resumindo, as divisões inferiores da Itália acabaram sucateadas por motivos políticos e foram palco de um show de pedidos de falência e repescagens. Os times faziam jogos demais, tinham custos demais com viagens e não tinham retorno. Eventualmente, mesmo atuando no vermelho, algumas dessas equipes conseguiam resultados no campo e algumas chegaram a jogar a Serie A – sobretudo nos anos 2000, quando muitos times tradicionais começaram a entrar em crise financeira e foram redimensionados. Foi o caso de Ancona e Treviso, que obtiveram o acesso à elite e acabaram entrando em bancarrota poucos anos depois. Antes disso, situação parecida ocorreu com Pistoiese, Pisa e Venezia. E, pior, com o Verona, que foi campeão em 1985 e faliu seis anos depois.

Falir fica ainda mais fácil quando um time sobe para uma divisão cujos custos não tem condição de arcar – ao menos por um certo período de tempo. Isto, obviamente somado a diretorias pouco eficientes e muita dificuldade de gerar receitas, seja porque o clube não tem boa divisão de base ou uma rede de olheiros que torne possível fazer dinheiro com venda de jogadores. Ou mesmo por razões mais comezinhas, decorrentes de uma elevação de despesas que nem mesmo ao fazer jogos contra times maiores serve de solução.

Já faz algum tempo que jogar em uma primeira divisão não é mais garantia de um modelo de negócio de sucesso, mesmo com a oferta de maior exposição nacional e internacional da marca, um maior valor por direitos de TV e maior renda com o público que vai ao estádio. Os dirigentes precisam ser mais criativos, precisam revelar mais jogadores – o que barateia o negócio e é fonte de lucro – e estimular trabalhos de longo prazo. Algo que Sassuolo e Chievo, por exemplo, fazem muito bem. As federações, por sua vez, deveriam estimular estas práticas e não o fazem bem. Muitas vezes, na verdade, empurram com a barriga e abrem brechas para soluções paliativas e nada efetivas.

Foi o caso, por exemplo, do Lodo Petrucci. A partir de 2004, um procedimento baseado em uma ideia de Gianni Petrucci, presidente do Comitê Olímpico Italiano – CONI, teve o intuito de desburocratizar falências. O processo, que levou o nome do criador, concedia a novas sociedades formadas a possibilidade de herdarem o título esportivo da empresa que falira, mediante algumas condições: o clube/empresa falido deveria possuir méritos esportivos (ou seja, história construída no futebol profissional por um período significativo), sua diretoria não deveria ser ligada à anterior e o clube deveria, obrigatoriamente, iniciar a temporada seguinte uma divisão abaixo da que estava – até 2008 – ou duas – depois disso. Os jogadores ficavam automaticamente livres dos contratos e a marca do clube teria de ser reinventada – podendo ser readquirida anos depois, via processo judicial.

A prática, no entanto, suscitou críticas, porque, apesar das boas intenções, possibilitou que muitos empresários despreparados entrassem subitamente com o controle acionário de clubes somente para aproveitar a tradição daqueles falidos anteriormente, sem que houvesse o mínimo de organização societária. Tanto é que muitas das equipes que se aproveitaram da brecha judicial faliram novamente poucos anos depois. 
O Lodo Petrucci foi abolido em 2014, com a reforma da Lega Pro e, hoje, se uma equipe chega a falir durante a temporada, e obedecendo aos ritos legais (saiba mais sobre a "falência controlada" aqui), o clube pode preservar seus resultados esportivos. Caso não, o reinício terá as divisões amadoras como ponto de partida.

Em tempo: a Lega Pro teve o formato alterado para a atual edição. Não são mais duas divisões, mas apenas uma, com 60 clubes, divididos em três grupos de 20, regionalizados. Sobem à Serie B quatro equipes e caem nove outras. Ainda não é possível verificar qualquer mudança na vida dos clubes que atuam por lá, mas o campeonato ainda parece muito inchado e menos regionalizado do que poderia ser. Continuaremos atentos.

A lista da bancarrota (dos anos 1980 até aqui, por ordem alfabética)
Alessandria (2003);
Ancona (2004 e 2010);
Ascoli (2014);
Avellino (2009);
Bari (2014);
Bologna (1993);
Casale (1993 e 2013);
Catanzaro (2006 e 2011);
Como (2005);
Fiorentina (2002);
Foggia (1984, 2004 e 2014);
Lecco (2002);
Legnano (2010);
Livorno (1991);
Lucchese (2008 e 2011);
Mantova (1983, 1994 e 2010);
Messina (1988, 2008 e 2014);
Napoli (2004);
Padova (2014);
Palermo (1986);
Parma (2004);
Perugia (2005 e 2010);
Pescara (2009);
Piacenza (2012);
Pisa (1994 e 2009);
Pistoiese (1988 e 2009)
Pro Patria (2009);
Pro Vercelli (2010);
Reggiana (2005);
Reggina (1986);
Salernitana (2005 e 2011);
Siena (2014);
Spal (2005, 2012 e 2013);
Ternana (1993)
Torino (2005);
Treviso (1993, 2009 e 2013);
Triestina (1994 e 2012);
Varese (2004);
Venezia (2005 e 2009);
Verona (1991).