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quinta-feira, 5 de maio de 2016

O adeus aos "gêmeos tortos" do gol

Toni e Di Natale, muito antes de serem veteranos: dupla envelheceu como um bom vinho (AP)
Esta foi uma semana triste para os amantes da Serie A, especialmente para aqueles que acompanharam o campeonato com afinco nos últimos 15 anos. Dois dos maiores goleadores deste período, Antonio Di Natale e Luca Toni, ambos com quase 39 anos, confirmaram que irão pendurar as chuteiras assim que a temporada acabar. Cada um deles foi artilheiro do Campeonato Italiano em duas oportunidades e, juntos, os matadores balançaram as redes 355 vezes de 2001 até aqui. Um número impressionante.

Não deixa de ser curioso que Di Natale e Toni tenham feito o mesmo comunicado em um espaço de menos de sete dias. Logo dois jogadores com características e fatos que os aproximam e distanciam tanto um do outro. Um grandalhão, grosso e oportunista; outro baixinho, muito técnico e criativo. Goleadores, cada um à sua maneira, formam uma espécie de gêmeos do gol no estilo fraterno, como Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito no famoso blockbuster oitentista Twins.

Tanto o emiliano Toni quanto o napolitano Di Natale estrearam na Serie A meio tarde; o primeiro, aos 23 anos, e o segundo, aos 25. Os dois, porém, vieram de baixo: rodaram pelas divisões inferiores – até foram companheiros de time em 1996-97, início de carreira, no Empoli – e fizeram suas primeiras partidas pelo Campeonato Italiano com times de pequeno porte. Depois disso, enquanto o centroavante vestiu oito diferentes camisas na elite da Bota (sem contar a passagem pelo Bayern Munique) e fez 147 gols com estas tantas, o fantasista vestiu somente duas, com as quais fez 208 gols, e se tornou um ícone da Udinese – clube que defendeu por 12 anos. A semelhança fica por conta de os dois terem feito sucesso longe dos principais centros futebolísticos do país.

Cigano da bola, Toni foi artilheiro do Campeonato Alemão e do Italiano. Na Bota, só ele e Zlatan Ibrahimovic faturaram o prêmio com dois times diferentes; só o centroavante e Francesco Totti conseguiram ser Chuteira de Ouro na Europa por causa dos gols anotados na Serie A. O emiliano também é um dos oito únicos jogadores a superarem a marca de 30 gols em uma temporada e ficou marcado como o principal artilheiro da história do Verona na primeira divisão, com 50 tentos.

Di Natale tem o mesmo feito pela Udinese, equipe pela qual balançou as redes por 190 vezes apenas na Serie A. Pelos friulanos, Totò também é recordista geral de gols (226) e de partidas realizadas (445). Falando em recordes, o atacante é o sexto maior artilheiro da história da Serie A, com 208 tentos. Feito que ele conquistou com muito suor e muita persistência com o intuito de realizar o sonjo de seu pai: superar o ídolo Roberto Baggio.

O carinho entre os "gêmeos", mestres no que faziam em campo (Getty)
Pela seleção da Itália, os dois tiveram sorte diferente. O mais lógico até poderia ser imaginar que um jogador de talento mais refinado, como Di Natale, teria mais sucesso e longevidade com a camisa azzurra, mas não foi isso que aconteceu. Totò nunca brilhou com a Nazionale: participou de duas Euro e um Mundial, mas foi coadjuvante, nunca decisivo. Toni, por sua vez, marcou época a seu modo.: foi o titular na campanha do tetracampeonato mundial em 2006, barrando Pippo Inzaghi, e depois não conseguiu repetir as mesmas atuações.

O grandalhão ressurgiu das cinzas, depois de ir mal com Roma, Genoa, Juventus e até com Al Nassr (Emirados Árabes Unidos). Toni foi artilheiro da Serie A em 2015, nove anos depois de ser o máximo goleador da Bota – ninguém conseguiu o feito em um espaço tão longo de tempo. Do outro lado, o baixinho nunca foi dado como morto: chegou a alcançar o feito de 10 temporadas na carreira superando a marca de 10 gols/ano. Só outros seis jogadores, que também fizeram história na Serie A tiveram número maior de temporadas tão prolíficas: Silvio Piola (16 vezes), Francesco Totti (13), Giuseppe Meazza (12), Amedeo Amadei (11), Roberto Baggio (11) e Carlo Reguzzoni (11). Isso mostra bem o quanto difícil é passar tantos anos em alto nível e quão importante Totò é para o futebol italiano.
 
A temporada 2014-15 marcou o último grande momento da dupla. A artilharia da Serie A foi de Toni e Di Natale superou Baggio na classificação histórica dos goleadores, além de ter chegado aos 10 anos com o dígito duplo em redes balançadas. Infelizmente, o ano seguinte dos craques, o da aposentadoria, não foi bom para nenhum deles, seja no plano individual seja no coletivo. Luca viu o Verona ser rebaixado e ficar com a lanterna da competição e pouco pode ajudar: os problemas físicos e a má relação com o técnico Luigi Delneri limitaram sua participação a apenas 22 jogos e cinco gols. O atacante já declarou que fará sua última partida neste domingo, contra a Juventus, diante da sua torcida, no estádio Marcantonio Bentegodi.

Totò, por sua vez, também lutou contra lesões e entrou em campo pela mesma quantidade de partidas, embora só tenha feito um gol. A Udinese ainda briga para não ser rebaixada e o capitão luta contra o tempo para tentar atuar na última rodada, em jogo que pode ser decisivo, contra o também desesperado Carpi.

Apesar de tudo, por mais que suas carreiras possam ficar marcadas pelo final não muito positivo, todos se lembrarão dos grandes momentos da dupla. Em 2014,  Toni e Di Natale se encontraram pela Serie A, durante um Verona-Udinese, e brincaram que, se eles, no outono de suas carreiras, estavam entre os principais goleadores do país, é porque havia algo de errado com os outros atacantes. Não, amigos, não era isso: vocês são (sim, ainda são) muito acima da média. E farão falta.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Do caos ao penta: a redenção da Juve pós-Calciopoli

Agnelli, Conte e o V de vitória: dupla foi fundamental para reerguer a Juve (Getty)
Há 10 anos, uma bomba caía no futebol italiano: o Ministério Público de Nápoles começava a investigar suspeitas de fraude na Serie A. Escutas telefônicas revelavam a tentativa de dirigentes de diversas equipes de manipular árbitros em seu favor e foram a principal causa do escândalo conhecido pelo nome de Calciopoli.

O julgamento puniu os cartolas, principalmente os da Juventus, time que teve dois scudetti revogados e um rebaixamento decretado por causa corrupção de Luciano Moggi e Antonio Giraudo. Na primeira parte do nosso dossiê, publicada ontem, detalhamos todo o andamento do processo, com os seus efeitos e polêmicas. Hoje, no capítulo final, falaremos como a Velha Senhora, grande afetada pelo ilícito esportivo, deu a volta por cima e conquistou o pentacampeonato nacional de forma brilhante, apenas uma década depois do período mais turbulento de sua história.

>>> DOSSIÊ CALCIOPOLI, PARTE 1 – Da lama ao caos: os 10 anos do escândalo

A queda e a ascensão dos bianconeri de Turim
Os primeiros vazamentos que colocaram Moggi e a Juventus no centro do Calciopoli tiveram como efeito a entrega dos cargos por parte de todo o quadro de diretores do clube – até mesmo quem não estava envolvido preferiu se demitir. No final de julho, a sentença baniu Moggi e Giraudo do futebol e cassou dois scudetti da equipe, conquistados no campo em 2005 e 2006. A Velha Senhora, rebaixada para a Serie B, começaria com punição de 9 pontos na segundona.

A queda significava um inevitável redimensionamento do clube, com redução de receitas provenientes de uma série de fontes (contratos de TV, menor exposição da marca, premiações da Federação Italiana de Futebol – FIGC e da Uefa e borderôs) e a necessidade de negociar atletas para cobrir os rombos – sem falar que jogadores de ponta raramente ficariam satisfeitos ao atuarem em uma segunda divisão.

Àquela época, a Juventus tinha a base da seleção italiana tetracampeã mundial em 2006 e vários titulares de outras seleções, como a francesa (vice-campeã), a brasileira, a checa, a romena e a sueca. Alguns craques pediram para sair e outros foram negociados porque tinham mercado. Dessa forma, foram vendidos Patrick Vieira e Zlatan Ibrahimovic à Inter; Lilian Thuram e Gianluca Zambrotta ao Barcelona; Emerson e Fabio Cannavaro ao Real Madrid e Adrian Mutu à Fiorentina.

Por outro lado, jogadores muito identificados com a Velha Senhora permaneceram para ajudar a reerguer o clube e, pela fidelidade, se tornaram mais ídolos da torcida: casos de Gianluigi Buffon, Mauro Camoranesi, Pavel Nedved, Alessandro Del Piero e David Trezeguet. O ano na Serie B, vencida de ponta a ponta e sem dificuldades, também foi a oportunidade para que futuras bandeiras do clube, como Giorgio Chiellini e Claudio Marchisio, começassem a ganhar cancha vestindo bianconero.

O técnico que conduziu a Juve de volta à elite foi Didier Deschamps, mas ele não permaneceu em Turim por causa de divergências com a nova diretoria do clube. O escolhido para assumir seu lugar foi Claudio Ranieri, técnico que continuou contando com Buffon, Nedved, Camoranesi, Trezeguet e Del Piero como pilares, apesar de a forma física dos veteranos já não ser das melhores. O time não contou com reforços do nível ao que estava habituado e passou longe de encantar, mas mesmo assim garantiu duas classificações para a Liga dos Campeões. A velha Juve estava de volta? Ainda não.

Os dois anos seguintes foram de pesadelo: muitos reforços não deram certo e a equipe obteve duas sétimas posições (que ficaram entre as cinco piores colocações da Juve na Serie A) e não jogou a Champions. Apesar de tudo, 2010-11, uma das temporadas em que a Velha Senhora fracassou em campo, não foi perdida: os alicerces para uma grande equipe estavam começando a ser fincados ali.
 
Agnelli, Giraudo, Capello e Moggi: atual presidente vivia dia a dia do clube
durante o escândalo e soube reerguer a Juve (Getty)
O respeito voltou
Um verdadeiro sinal de bons ventos para a Juventus é quando um membro da família Agnelli ocupa o cargo de presidente. Sempre que um integrante da dinastia mais próspera da Itália deu as ordens no clube e/ou viveu o seu dia a dia de muito perto, a Velha Senhora montou elencos competitivos e conseguiu títulos. Dizem que é o olho do dono que engorda o gado, certo?

A Juventus começou a construir o caminho que a fez ser soberana outra vez na Itália a partir do retorno da família à presidência – mesmo que os Agnelli sejam detentores da maior parte das ações desde 1923 e nunca tenham se ausentado do seu papel. Em 2010, Andrea, que já era conselheiro da Exor (holding que controla o clube e outras empresas da família, como a Fiat), foi nomeado como novo presidente do clube e se tornou o quarto membro da família a ser mandatário da Juve, após Edoardo (seu avô, 1923-35), Gianni (tio, 1947-54) e Umberto (pai, 1955-1962). Durante o Calciopoli, Andrea já acompanhava o dia a dia juventino, mas não ocupava cargo algum no clube do coração.

O fato de a Juventus fazer parte de um conglomerado empresarial tão pujante já lhe ajudaria a se reerguer com mais facilidade do que um time sem o mesmo aporte financeiro. A Fiat é a maior empresa italiana (e a Exor ainda é acionista majoritária da Ferrari e da The Economist) e nem com toda a crise econômica na Europa a sua liderança no mercado automobilístico se abalou. O fato de um representante direto do clã Agnelli voltar ao comando estreitava esta relação e facilitava o aporte de novos investimentos. Verbas que acabariam mudando a relação do torcedor piemontês com o seu time.

A Juve tem a maior torcida da Bota há muitos anos e uma parte disso se deve à família Agnelli: além de montar elencos que encantaram o país e conquistaram a paixão de novos adeptos, a equipe e a dinastia simbolizavam a Fiat, maior empregadora do Belpaese. Mesmo em qualquer momento de crise na Itália, a gigante dos automóveis era um ponto de referência para os trabalhadores e sinônimo da esperança de um futuro próspero. Com grande apelo em todo o território nacional e ajudando famílias (muitas delas, do sul, onde os bianconeri têm torcida enorme) a deixarem a pobreza, a Fiat alavancou o crescimento de admiradores da Velha Senhora. Com quase o dobro do número de torcedores de Milan ou Inter, a Juventus é o time do povo.

Porém, mesmo com uma torcida tão grande, a Velha Senhora tinha uma média de público baixíssima. O estádio Delle Alpi (69.295 lugares) ficava distante do centro de Turim e a má infraestrutura desanimava os torcedores, que preferiam assistir as partidas dos sofás de suas casas. A praça esportiva tinha baixa visibilidade, não era confortável e, sem cobertura, acabava por ser gelado demais durante inverno, outono e primavera.

Por isso, em 2003, a Juventus adquiriu o imóvel da prefeitura e, cinco anos depois, optou pela demolição. A nova arena do clube seria construída no lugar do antigo estádio e tinha um projeto moderno, com o objetivo de diversificar receitas, que não viriam apenas dos dias de jogos: o Juventus Stadium é ecossustentável, dispõe de centro comercial, museu e calçada da fama do clube. O campo é à inglesa, com arquibancadas próximas ao gramado, bem diferente do desolado Delle Alpi. A capacidade foi reduzida para 41.475 lugares e deu novo gás ao time zebrado, hoje acompanhado sempre de perto pelo seu torcedor. A distância do centro continua igualzinha, mas o Stadium, inaugurado em 2011, está sempre lotado.

Consolidação de Pogba e Allegri foram fundamentais para bianconeri manterem ciclo vitorioso (Eurosport)
Um clube do tamanho da Juventus, no entanto, não pode se contentar apenas com muita verba e um lindo novo estádio. Por isso, Andrea Agnelli também mudou uma série de políticas dentro do clube. A queda para a Serie B, as mudanças na diretoria e no elenco deixaram a Juventus à deriva e fora do lugar que sempre ocupou no futebol da Itália. Era certo de que o clube precisaria passar por um tempo de readaptação, mas até mesmo sua postura habitual no mercado foi comprometida com as punições pelo Calciopoli – e não foi exatamente por falta de verba, já que bons milhões foram gastos com Amauri, Tiago, Diego e Felipe Melo em um momento no qual o clube construía seu novo estádio, diga-se de passagem.

O modelo de negócio que sempre pautou as contratações do clube (sobretudo em épocas menos endinheiradas) foi mal gerido (quase abandonado) entre 2007 e 2010, por questões de competência. Afinal, os diretores que substituíram Moggi e Giraudo não tinham tanta experiência, trânsito nos bastidores e poder de barganha do que seus antecessores para fazerem as melhores negociações possíveis para a Velha Senhora. A contratação de Giuseppe Marotta, diretor esportivo de ótimo trabalho pela Sampdoria, foi uma cartada de mestre do presidente. A nomeação de Nedved para presidente do conselho deliberativo do clube também.

Com Marotta, o clube gastou 59 milhões de euros em 2010-11, ano em que alcançou posição intermediária na tabela. O alto valor investido, desacompanhado de bons resultados de imediato gerou críticas e fez parecer que o novo projeto não iria engrenar. No entanto, naquele ano foram contratados jogadores como Leonardo Bonucci e Andrea Barzagli, pilares da equipe até hoje. A chegada de um treinador muito exigente nos treinamentos e partidas, além de bastante identificado com o clube, como Antonio Conte, contratado na temporada seguinte, acelerou o processo de reconstrução.

Um claro projeto de mercado em consonância com um projeto técnico: foi assim que a Juventus solidificou o caminho que a levou à conquista de nove títulos de 2012 para cá; sem contar o vice-campeonato da Liga dos Campeões. Entre as contratações pontuais, o clube ousou e foi atrás de jogadores em fim de contrato, como Andrea Pirlo, Fernando Llorente e Sami Khedira – o mesmo vale até para Massimiliano Allegri, que substituiu Conte em 2014. Também aproveitou boas oportunidades de mercado, como quando fechou com Arturo Vidal, Carlos Tévez, Juan Guillermo Cuadrado e até mesmo Emanuele Giaccherini.

Os jovens nunca estiveram de fora. Seja valorizando os que foram feitos em casa, como Claudio Marchisio (quando surgiu) e Daniele Rugani ou indo buscá-los em outras paragens – casos de Paul Pogba, Kingsley Coman, Álvaro Morata, Simone Zaza e Paulo Dybala. Hoje, os dois grandes craques da equipe, ao lado do veterano Buffon, são Pogba e Dybala, dois sub-23. O que sugere que a margem para retorno esportivo e/ou financeiro ainda é enorme.

Além disso, a Juve soube gerir a saída de seus ídolos ou grandes craques. Del Piero, Tévez, Vidal e Pirlo deixaram Vinovo e não fizeram falta dentro de campo. Nenhum deles teve rusgas com treinadores ou diretoria e foram bem substituídos – no hard feelings: suas saídas foram progressivamente planejada, seja com a preparação de um jogador do elenco para substitui-los ou com nomes já engatilhados para serem contratados. Outro ponto positivo para a ótima gestão Agnelli-Marotta.

Não há dúvidas: a Juventus é o time mais bem administrado do futebol italiano. Em qualquer um dos campos que estão relacionados com o gerenciamento de uma entidade esportiva, a gigante de Turim é superior a suas adversárias mais próximas. Mesmo que Inter e Milan passem por um profundo período de reformulação e que a Velha Senhora tenha, como explicamos, um contexto que foi favorável para a sua volta por cima, o abismo que separa a Juve dos outros times só se explica com a competência na gestão – não há exemplo em qualquer campeonato de alto nível de outra equipe que foi rebaixada e garantiu um pentacampeonato na década seguinte. Os rivais terão de suar muito para quebrar a hegemonia bianconera.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Da lama ao caos: os 10 anos do Calciopoli

Trabalho sujo de Moggi e Giraudo nos bastidores eclipsou excelente time de Capello (Getty)
Na primeira semana de maio de 2006, há exatos 10 anos, veio à tona o maior escândalo do futebol italiano: o Calciopoli, inicialmente chamado de Calciocaos. Uma década depois do furacão que desmontou o esporte na Bota, o Quattro Tratti montou um especial em duas partes, relembrando o que aconteceu à época, as punições, as polêmicas e como a Juventus se reconstruiu depois de ter sido o time que enfrentou a punição mais severa. Começamos hoje, com os fatos revelados a partir de 2006 e seus desdobramentos.

O início do processo e os alicerces da denúncia
Havia indícios de que havia algo de podre nos bastidores do futebol italiano desde 2005. A operação Offside, conduzida pelo Ministério Público de Turim, acabou sendo arquivada porque a investigação não conseguiu delimitar possíveis crimes – no entanto, foram enviados para a Federação Italiana de Futebol (FIGC) alguns documentos que poderiam servir para providências disciplinares.

O escândalo começou a tomar forma apenas em maio de 2006, às vésperas da Copa do Mundo e antes mesmo do fim da Serie A 2005-06, que Juventus e Milan disputavam ponto a ponto. Naquele momento, a imprensa italiana divulgou áudios e transcrições de telefonemas que remetiam à temporada anterior e mostravam Luciano Moggi e Antonio Giraudo, principais diretores da Juventus, influenciando os chefes da arbitragem nacional. Moggi, o pivô do Calciopoli, tinha o poder de escolher os árbitros escalados para partidas da Juve e de seus adversários, também comentava sobre qual comportamento eles deveriam ter em campo e até mesmo contestava decisões tomadas pelos apitadores.

O surgimento das gravações foi estarrecedor e instalou um clima desconfortável no país em um momento importante para o futebol, já que o campeonato estava se decidindo e a seleção estava prestes a embarcar para a Alemanha. A Juve faturou o scudetto, mas pouca gente comemorou nas ruas de Turim, porque já se imaginava que poderia haver alguma punição por fraude esportiva, como a cassação da taça no tapetão. Além disso, a equipe voltou de Bari, local do jogo que definiu o título, e foi recebida no aeroporto turinês sob forte contestação dos torcedores. Não aos jogadores, claro, mas à diretoria.

Ao mesmo tempo, a Itália se preparava para o Mundial e disputou a competição enquanto o processo corria. De alguma forma, a Itália parecia ter sido levada de volta aos anos 1980, quando o escândalo Totonero balançou o país e afetou a preparação da Squadra Azzurra – que se redimiu com o tricampeonato. O tetra acabou sendo gerado no mesmo ambiente.

As primeiras gravações incorporavam uma denúncia protocolada pelo procurador federal Stefano Palazzi, vinculado ao MP de Nápoles e colaborador da FIGC desde 1990. A magnitude dos conteúdos e da operação fez com que o escândalo recebesse uma nova denominação. Inicialmente chamada de Calciocaos – pelo rebuliço que causou –, a investigação foi comparada a uma das mais famosas devassas a casos de corrupção no sistema político italiano, a Mani Pulite (ou Mãos Limpas, como ficou conhecida no Brasil), também chamada de Tangentopoli. A partir daí, surgiu o nome Calciopoli.

Moggi e Giraudo: do topo do mundo à Serie B com a Juventus (Giornalettismo)
Para entender o escândalo é necessário ter em mente que ele nasce no seio de uma sociedade altamente corrompida. Não é surpresa que o Calciopoli seja decorrente de outros ilícitos: o rebuliço no futebol italiano foi revelado a partir de outro caso, investigado em paralelo por muito mais tempo. As escutas foram feitas de maneira ilegal, em atos de espionagem não autorizada realizados por diretores da Telecom Italia e do Serviço Secreto Italiano – SISMI. Cerca de 5 mil cidadãos italianos foram grampeados, entre os quais figuras importantes, como políticos e personalidades ligadas ao esporte.

Com o passar dos dias, a denúncia foi ganhando corpo. Mais ligações telefônicas vinham à tona e a equipe do magistrado Palazzi indiciou uma série de dirigentes de clubes e de instituições, além de representantes da arbitragem – todos tiveram conversas interceptadas pelos grampos ou nomes citados em conversas reveladoras. 19 partidas do campeonato 2004-05 (não houve investigação de jogos de 2005-06) foram elencadas com suspeitas de fraude relativas a arbitragem.

Grande parte destes jogos envolvia Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio, que faziam parte da primeira corrente da operação do MP italiano. O método dos procuradores era utilizar os grampos (que, em muitas ocasiões, citavam expressamente as partidas relacionadas na investigação) e verificar se houve algo de suspeito em campo – além, claro, de interrogatórios e acareações. Uma segunda corrente investigativa, em uma diferente jurisdição, apurava fatos que envolviam Reggina e Arezzo – equipe militante na Serie B –, mas não citou jogos específicos em que houvesse sido praticado ilícito esportivo.

Apesar do envolvimento de outras equipes, o esquema de influência dos árbitros nos bastidores acabou ficando conhecido popularmente como "sistema Moggi". O juventino era o mais forte dos dirigentes envolvidos nos grampos. Macaco velho do futebol italiano, Moggi estava na ativa desde os fim dos anos 1960, com passagens por Juventus (duas vezes), Roma, Lazio, Torino e Napoli.

O Calciopoli teve uma série de demissões como efeitos imediatos. Poucos dias depois do vazamento das ligações telefônicas, Moggi e Giraudo entregaram seus cargos – todo o conselho administrativo da Juve tomou a mesmo atitude depois, ainda que sem ter envolvimento com o ilícito. Também se demitiram o presidente da FIGC, Franco Carraro; Innocenzo Mazzini (um de seus vices); Tullio Lanese (presidente da Associação Italiana de Árbitros – AIA) e o homem forte do Milan, Adriano Galliani, dirigente máximo da Lega Calcio, coordenadora da Serie A. O árbitro Massimo De Santis, que era investigado, teve de abrir mão de representar a Itália na Copa do Mundo e cedeu sua vaga a Roberto Rosetti.

De Santis representaria Itália na Copa de 2006, mas foi banido (Il Giornale)
O conteúdo dos grampos e o jogo de bastidores
Basicamente, o Calciopoli se sustentava pelo seguinte: dirigentes das equipes, por meio de telefonemas e relacionamento constante com a chefia de arbitragem (movimentos esportivamente proibidos) obtinham informações privilegiadas sobre quais árbitros seriam escalados e também combinavam como seriam suas atuações. Interferiam em lances capitais, como impedimentos, anulação de gols ou distribuição de cartões.

Embora todos os dirigentes que viriam a ser acusados tiveram grampos vazados, os que mais ganharam notoriedade foram os do diretor esportivo da Juventus, Luciano Moggi, e daqueles que faziam parte da cúpula da arbitragem italiana. Casos de Pierluigi Pairetto (membro das comissões de arbitragem italiana e europeia), Paolo Bergamo (chefe de árbitros da FIGC) e Tullio Lanese (presidente da AIA).

O que ficou claro no Calciopoli é que a comunicação entre dirigentes dos clubes e os chefes da arbitragem (e às vezes com os próprios árbitros) eram recorrentes e, no mínimo, inadequadas. A naturalidade e intimidade com a qual cartolas conversavam com os designadores de árbitros e com os apitadores davam a entender que a relação ia além do profissional e do que acontecia no campo. Os membros da comissão de arbitragem faziam juízos de valor sobre seus comandados àqueles aos quais não deveriam dar satisfações de maneira tão servil (os dirigentes de clube) e ao mesmo tempo eram muito abertos a seu descontentamento e suas críticas – algumas bastante duras, em tom ameaçador.

Por motivos que nem sempre foram bem explicados, os grampos indicavam que os times grandes e aqueles com melhor trânsito nos bastidores contavam com a benevolência dos apitadores que eles mesmos escolhiam – os quais eram suscetíveis a pressões, enquanto outros, considerados desfavoráveis, acabavam hostilizados. E, mais: nem sempre eram os dirigentes dos clubes que procuravam os chefes de arbitragem e os diretores da FIGC. O inverso aconteceu muito, segundo os grampos.

Pairetto, por exemplo, era bem próximo de Moggi. Em uma conversa, o bianconero pedia um carro para uma revendedora Maserati (pertencente à Fiat, dona da Juve) e, depois, ligava para o ex-árbitro para confirmar que o veículo de luxo estava disponível. Pairetto influenciou o "sorteio" de uma série de juízes para jogos da equipe, incluindo alguns da Liga dos Campeões: após a vitória da Velha Senhora por 1 a 0 contra o Ajax, em Amsterdã, o representante da Uefa ligou para falar sobre a escalação do árbitro suíço Urs Meier. "Viu? Não esqueci de você", disse Pairetto ao juventino.

Em outros grampos, a operação identificou conversas em que Pairetto e Bergamo sugeriam nomes de árbitros para dirigentes; Moggi, em especial – o intuito era verificar quais deles seriam aprovados ou reprovados para os próximos jogos de cada equipe. Em uma conversa, Pairetto indicava ao árbitro Paolo Dondarini para "ver até aquilo que não aconteceu" em jogo entre Sampdoria e Juventus. Após o 3 a 0 dos bianconeri, o árbitro conversou com o chefe sobre um pênalti marcado, em um papo para lá de dúbio.

Outro caso que chamou atenção envolvia o árbitro Gianluca Paparesta. Em mais de uma conversa grampeada, se comentou que ele teria sido trancado por Moggi nos vestiários do estádio Oreste Granillo, após a vitória da Reggina sobre a Juventus, por 2 a 1. O cartola, irritadíssimo, teria descido até os túneis para reclamar de erros que o trio de arbitragem teria cometido contra a Velha Senhora, e, além de ameaçar Paparesta (segundo conversa do delegado da partida, Pietro Ingargiola, e Lanese), terminaria por deixá-lo preso nas dependências do local. O próprio diretor da Juve contava vantagem sobre este suposto acontecimento, em um outro telefonema, mas o episódio foi negado por todos nas audiências feitas em tribunal.

Moggi também era influente nos meios de comunicação. O diretor ofereceu um relógio de ouro para o jornalista Aldo Biscardi, apresentador de um dos programas mais assistidos do país (Il Processo di Biscardi), a quem também tentava controlar – durante a investigação, se descobriu que Moggi tinha grande influência também entre outros comunicadores. Em um dos telefonemas interceptados que tinham mais relevância, o juventino pedia para que Biscardi e o ex-árbitro e comentarista de arbitragem Fabio Baldas (que participava do programa) aliviassem nas críticas para alguns apitadores e para que pesassem a mão para outros. Em troca, Baldas pedia para que o cartola intercedesse por ele nos bastidores da FIGC. Outro que pediu favores a Moggi foi o Ministro do Interior, Giuseppe Pisanu: ele queria que o dirigente intercedesse a favor do Sassari Torres, da Serie C1, junto aos chefes da arbitragem.

Os grampos também revelavam situações "menores", como a influência que os diretores exerciam na negociação de transferências e nas convocações para a seleção italiana. Giraudo, por exemplo, conversava irritado com Moggi pelo fato de Zlatan Ibrahimovic, então no Ajax, ter jogado bem em um amistoso, ao invés de jogar mal e forçar sua transferência para Turim ("eu disse para ele jogar mal e falar ao clube que não jogaria mais lá, para aproveitarem os 10 últimos dias de mercado para comprarem um substituto").

Moggi, por sua vez, tentou forçar a transferência de Fabio Cannavaro da Inter para a Juve e ameaçou Fabrizio Miccoli, através de um intermediário: disse que o atacante não deveria mais se comportar como um estúpido. "Senão faço com que não seja mais convocado para a seleção, pois só é convocado porque eu que mando", relatou. O diretor também bolava estratégias para prejudicar equipes de Zdenek Zeman, um dos maiores denunciadores de esquemas que favoreceriam a Juventus nos anos 1990 e 2000.

As escutas também pegaram outros dirigentes. Os irmãos Andrea e Diego Della Valle, donos da Fiorentina, conversavam com o ex-diretor da Juve, enquanto alguns indícios levavam a crer que Claudio Lotito,  presidente da Lazio, interferia em resultados de partidas. Pelo lado do Milan, foram flagradas conversas entre o diretor Leonardo Meani e o diretor Adriano Galliani, que também dirigia a Lega Calcio – por isso, ele foi investigado por conflito de interesses.

O panorama, naquele momento, era surreal: a desesperança com o futebol de clubes contrastava com os festejos pela seleção. A cada vitória conquistada pela Itália na Copa de 2006, novos áudios dos grampos eram divulgados, envolvendo dirigentes de uma fortíssima Juventus, bicampeã nacional, e também do vice Milan, da Fiorentina (4ª colocada) e da Lazio (6ª). Nos programas esportivos do Belpaese os comentários sobre a participação da Azzurra e das outras seleções no Mundial dividia espaço com a análise das conversas entre dirigentes e chefes da arbitragem, além de exibições dos lances polêmicos das partidas investigadas e todo um vocabulário jurídico. De um lado, todo um sistema se despedaçava; de outro, os italianos poderiam alcançar o topo do mundo.

No fundo, a sensação dos italianos era a de que não fazia sentido assistir ao campeonato, já que dirigentes e árbitros eram verdadeiros mestres da corrupção. Por outro lado, o fato de a Itália sonhar com o tetracampeonato guardava um fio de esperança. Algo de melhor estava por vir?

Galliani, cartola do Milan e da liga, também foi envolvido no escândalo (Getty)
Os acusados, as punições e as consequências diretas

Dirigentes de clubes: Antonio Giraudo (Juventus), Luciano Moggi (Juventus), Andrea Della Valle (Fiorentina), Diego Della Valle (Fiorentina), Sandro Mencucci (Fiorentina), Claudio Lotito (Lazio), Leonardo Meani (Milan), Adriano Galliani (Milan e Lega Calcio) e Pasquale Foti (Reggina).
Dirigentes de instituições: Pierluigi Pairetto (vice-presidente da comissão de arbitragem da Uefa e chefe de árbitros da FIGC), Paolo Bergamo (chefe de árbitros da FIGC), Franco Carraro (presidente da FIGC), Innocenzo Mazzini (vice-presidente da FIGC), Tullio Lanese (presidente da AIA), Gennaro Mazzei (chefe de arbitragem) e Pietro Ingargiola (delegado de partida).
Árbitros e bandeirinhas: Paolo Bertini, Massimo De Santis, Paolo Dondarini, Domenico Messina, Pasquale Rodomonti, Paolo Tagliavento, Gianluca Rocchi, Duccio Baglioni, Gianluca Paparesta, Fabrizio Babini, Claudio Puglisi, Stefano Titomanlio e Tiziano Pieri.

Como se pode ver, as duas correntes de investigação montaram uma extensa lista de acusados no escândalo. O Ministério Público, no entanto, só poderia se aventurar na esfera do delito desportivo, sem ação penal. Por isso, os jornalistas não poderiam receber nenhum tipo de sanção de cortes italianas, uma vez que a sua conduta não era tipificada criminalmente – no entanto, uma parte deles acabou recebendo suspensões da Ordem dos Jornalistas, órgão de regulamentação do exercício da profissão.

O grupo do procurador Palazzi indiciou muita gente e pediu penas bastante pesadas para as pessoas e os clubes envolvidos no Calciopoli. Entre dirigentes, a punição mais branda solicitada pela acusação foi de 2 anos para Galliani; para os representantes das entidades organizadoras, 1 ano para Ingargiola e 2 para Mazzei; e para os árbitros, 3 anos para Baglioni e Titomanlio, 1 para Babini, Puglisi e Paparesta, 6 meses para Dondarini e Pieri. O pedido da acusação para todos os outros foi de uma sentença mais rigorosa: 5 anos de suspensão mais a proposta de banimento do esporte.

Quanto aos clubes, a Juventus teve a proposta de pena mais pesada: revogação dos scudetti de 2005 e 2006, rebaixamento para uma divisão inferior à Serie B e 6 pontos de punição. Para Fiorentina, Reggina, Milan e Lazio, a proposta era de rebaixamento para a segundona, com punição de 15 pontos, para os três primeiros citados, e 3 para os rossoneri. Para os procuradores, o Arezzo deveria ser rebaixado para a terceira divisão, com 3 pontos a menos no início da temporada.

O calhamaço que formava o processo, com as petições das sentenças, foi divulgado em um dia chave para a seleção italiana: 4 de julho. Horas depois da apresentação formal da denúncia à corte federal, a Nazionale, recheada de jogadores de Juventus e Milan, vencia a Alemanha, na prorrogação das semifinais da Copa, em uma das partidas mais lembradas da história azzurra.

Alguns dias depois, com a conquista do tetra pela Itália, houveram boatos e até mesmo um movimento político – inclusive do partido de Silvio Berlusconi – com o intuito de promover uma anistia dos envolvidos no Calciopoli, mas as punições aconteceram, apesar de muitos indiciados (especialmente árbitros) terem sido absolvidos ao longo do processo.

Cada linha de investigação se desenrolou por tempos diferentes. O primeiro filão, mais espesso, teve as sentenças de segundo grau, após a apelação à corte, divulgadas em 25 de julho – o segundo, que investigava Reggina e Arezzo, apenas em meados de agosto. Os clubes ainda poderiam recorrer ao Comitê Olímpico Italiano – qualquer recurso à justiça comum poderia banir a Itália de competição internacionais, segundo as regras da Fifa –, como o fizeram.

No final das contas, todas as penas foram abrandadas, depois da sentença de apelo que foi definitiva para a atribuição do campeão da temporada 2005-06. A proximidade da temporada 2006-07, a qual precisaria ter calendário ajustado, fez com que as penas desportivas, referentes aos clubes, fossem agilizadas. O julgamento dos recursos das pessoas físicas só foi finalizado em 2007.

Assim, naquele dia de julho, a Inter, terceira colocada na Serie A 2005-06, foi declarada campeã do torneio, uma vez que a Juve tinha sido rebaixada e o Milan, vice, sofreu severa perda de pontos. O último scudetto nerazzurro havia sido conquistado em 1989, 17 anos antes. Por sua vez, o Chievo ganhou vaga na Liga dos Campeões e Palermo, Livorno e Parma foram alçados à Copa Uefa. O Messina, rebaixado para a Serie B pelos resultados no campo, foi repescado após a queda da Juve.

O circo, que já estava armado, ganharia nuances ainda mais acirradas, com polêmicas e rivalidade.

Penas finais (após todos os recursos)

Clubes:
Juventus: revogação dos títulos de 2005 e 2006, rebaixamento para a Serie B e -9 pontos em 2006-07;
Fiorentina: -30 pontos em 2005-06 e -15 em 2006-07;
Milan: -30 pontos em 2005-06 e -8 em 2006-07;
Lazio: -30 pontos em 2005-06 e -3 em 2006-07;
Reggina: -11 pontos em 2006-07 e 100 mil euros de multa;
Arezzo: -6 pontos na Serie B 2006-07.

Dirigentes dos clubes:
Luciano Moggi: 5 anos de suspensão com possibilidade de banimento;
Antonio Giraudo: 5 anos de suspensão com possibilidade de banimento;
Leonardo Meani: 2 anos e 2 meses;
Sandro Mencucci: 1 ano e 5 meses;
Pasquale Foti: 1 ano e 1 mês;
Andrea Della Valle: 1 ano e 1 mês;
Diego Della Valle: 8 meses;
Adriano Galliani: 5 meses;
Claudio Lotito: 4 meses.

Dirigentes de instituições:
Innocenzo Mazzini: 5 anos de suspensão com possibilidade de banimento;
Pierluigi Pairetto: 2 anos e 6 meses;
Gennaro Mazzei: 2 anos;
Tullio Lanese: 1 ano;
Franco Carraro: multa de 80 mil euros;
Pietro Ingargiola: advertência;
Paolo Bergamo: não foi julgado, pois se demitiu de cargos esportivos.

Árbitro: 
Massimo De Santis: 4 anos

Todos os outros citados foram absolvidos pela justiça italiana.

No âmbito esportivo, os clubes punidos pelo Calciopoli tiveram diferentes destinos. A Juventus venceu a Serie B, passou por um interregno e agora é pentacampeã nacional; o Milan foi campeão europeu e mundial logo na temporada sucessiva à pena e, após outro título italiano, entrou em crise; Fiorentina e Lazio reconquistaram lugares na Europa e são times estáveis, com os mesmos presidentes da época do escândalo; enquanto a Reggina, na época, conseguiu uma salvezza histórica e, só depois, faliu e foi relegada ao amadorismo.

A devassa no futebol nacional teve consequências negativas necessárias. A descoberta de um claro esquema de corrupção nos bastidores, que falseava os resultados esportivos, fez com que houvessem naturais perda de credibilidade do campeonato (como saber que não havia mais sujeira encoberta?) e desvalorização da Serie A como produto – os contratos de transmissão do torneio para o resto do mundo tiveram reajuste menor que o dos campeonatos inglês, espanhol e alemão, por exemplo.

A revelação do escândalo ajudou a quebrar a Serie A: muitos dos grandes clubes perderam receitas, craques se esquivaram de um país em que não poderia se saber ao certo se o que acontecia em campo era verdadeiro. A bolha, inflada por operações financeiras de alto padrão nos anos 1990 e 2000, começou a estourar antes do Calciopoli e explodiu de vez depois dele.

Gravações que não foram anexadas ao processo inicial surgiram depois
da morte de Facchetti, presidente da Inter (Il Mattino)
A polêmica prosseguiu: sobre o que veio antes e depois
Durante a fase quente do Calciopoli, a Itália parecia o Brasil durante a condução do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff: a polarização era nítida e virulenta. De um lado, havia o partido anti-Juve, que via no escândalo a confirmação de uma série de supostos esquemas que beneficiaram os bianconeri. Esta corrente acredita até hoje que a manipulação de resultados vinha de longa data, já que Moggi e Giraudo estavam na Juventus desde 1994, ano em que a equipe voltou a ser soberana na Itália.

Neste período de 12 anos, a Velha Senhora ganhou 16 títulos, incluindo sete scudetti. Teve, também, times fortíssimos, como que teve os títulos retirados, treinado por Fabio Capello e com Gianluigi Buffon, Lilian Thuram, Fabio Cannavaro, Gianluigi Zambrotta, Emerson, Patrick Vieira, Mauro Camoranesi, Pavel Nedved, Alessandro Del Piero, David Trezeguet e outros ótimos jogadores no elenco. Este time, em 2005-06, fez 91 pontos na Serie A, um recorde até aquele momento – superado pela Juve de Antonio Conte, em 2013-14.

Foram questionados lances muito polêmicos que marcaram a Era Moggi, como a sequência que definiu o scudetto em 1998: Juventus e Inter disputavam o campeonato ponto a ponto e se encontravam em um Derby d'Italia na reta final da temporada. Em uma distância de segundos, o árbitro Piero Ceccarini não marcou pênalti de Mark Iuliano em Ronaldo e anotou carga em Del Piero, no contra-ataque – o craque desperdiçou a cobrança, mas a vitória da Juve foi crucial para que o título ficasse em Turim. Os aderentes a esta forma de pensar também acham que as acusações de Zeman são verdadeiras e que a Juventus dopava seus atletas.

Uma outra corrente adotou parte da defesa de Luciano Moggi como mote para tentar invalidar o veredito do processo – ou, pelo menos, adicionar outros clubes e diretores à investigação. Novas escutas, que não foram incluídas no processo inicial e foram divulgadas em 2010 pelos advogados do cartola, apontavam para cartolas da Inter – ou seja, os diálogos mostravam que até mesmo gente ligada ao time que ficou com scudetto revogado pela Juventus conversavam com os responsáveis pelos árbitros.

Bergamo, chefe da arbitragem, e a secretária da AIA, Maria Grazia Fazi, apareciam em conversas com Massimo Moratti, dono do clube nerazzurro, e Giacinto Facchetti, falecido presidente (veja algumas transcrições aqui). Em depoimentos à Justiça e a programas de TV, o próprio Bergamo já havia afirmado que os contatos com diretores da Inter eram frequentes e também citou algumas conversas que teve com Capello, à época (2003-04), técnico da Roma, e Massimo Cellino, ex-presidente do Cagliari.

Outra declaração, do auxiliar de arbitragem Rosario Coppola, foi que "os policiais não se interessavam pela Inter". Segundo ele, Facchetti havia invadido os vestiários para pressionar os árbitros a mudarem a súmula, de modo que um soco de Iván Córdoba em Stefano Bettarini fosse transcrito como acidental. Após estas revelações, houve quem dissesse que o sistema estava tão corrompido que alguns dirigentes tentavam "equilibrar forças", porque já se sabia que algumas equipes tentavam burlar as normas.

O tenente-coronel Attilio Auricchio, responsável pela investigação em que se baseou o processo, declarou que esses telefonemas não existiam e outros indícios e depoimentos que relacionavam outros possíveis acusados foram considerados irrelevantes para a corte. Porém, essas ideias foram questionadas: o júri foi acusado de falta de isenção. Por que essas escutas e declarações não foram incluídas na investigação original do Calciopoli?

Mais: segundo sua defesa, Moggi utilizava chips suíços para fazer algumas das ligações telefônicas que foram grampeadas – dessa forma, a Tim, sucursal da Telecom, não teria como invadir a privacidade do ex-dirigente e as provas não seriam legítimas. Já em 2012, Giuliano Tavaroli, ex-chefe de segurança da Telecom, declarou, no âmbito das investigações do processo que envolviam a empresa de telecomunicações e o SISMI, que membros da diretoria da Inter haviam pedido a ele que espionasse Moggi, Giraudo e o árbitro De Santis. Provas comprovadas – e pelas quais a Beneamata e a Tim foram condenadas – foram as da espionagem feita ao atacante Christian Vieri, em seus tempos de Inter.

O processo teve sua isonomia colocada em xeque desde o início, mas após a divulgação das conversas que envolviam Moratti, Facchetti e Bergamo, isso voltou à tona. Juventinos, em especial, questionavam a atribuição do scudetto aos nerazzurri e enxergavam parcialidade em todo o processo. Isso porque Marco Tronchetti Provera, presidente da Tim, era acionista minoritário da Inter e porque o presidente extraordinário da FIGC, após a demissão de Franco Carraro, era Guido Rossi.

O novo dirigente já havia sido diretor da Telecom e membro do conselho deliberativo da Inter, time do qual é torcedor fanático. Houve um grupo de especialistas para analisar o caso e definir o mérito das denúncias, mas um destes executivos, Gerhard Aigner, teria declarado à imprensa que a decisão de atribuir o scudetto à Inter foi de Rossi. O então presidente da FIGC negou veementemente qualquer parcialidade.

O procurador Stefano Palazzi tentou reabrir o processo, no que seria chamado de "Calciopoli 2", com o envolvimento de inter, Milan, Chievo, Cagliari, Empoli, Palermo, Reggina, Vicenza, Brescia e Udinese, mas tudo acabou arquivado. Facchetti não poderia se defender, pois faleceu em 2006, e as provas já haviam prescrito. Por outro lado, a Juventus pediu a restituição dos scudetti em diversos foros e o pagamento de um ressarcimento de mais de 443 milhões de euros para a FIGC – o processo de compensação financeira ainda corre na justiça. Em suas comunicações oficiais, o clube está em desacordo com a federação: afirma que tem 34 títulos da Serie A e não 32, como homologado pela entidade.

Após o período de cinco anos de suspensão, Moggi, Giraudo e Mazzini foram banidos do futebol. Maior pivô do escândalo, Moggi acabou sendo investigado por outras supostas irregularidades, além do Calciopoli. Ao passo em que respondia ao processo penal pelos delitos de manipulação de arbitragens (poderia ser condenado a 2 anos e 4 meses de prisão), o dirigente foi acusado de favorecer jogadores da Gea – empresa de agenciamento do seu filho, Alessandro – e fazê-los constar em convocações da Squadra Azzurra; lavagem de dinheiro e doping de atletas. O processo do caso Gea acabou sendo anulado, por incorreção no uso da norma e, no que tange ao Calciopoli, os crimes de Moggi prescreveram em 2015 ele não podia mais ser julgado.

Ficou algum legado? Difícil crer. Apesar de grandes times do país terem sido punidos de forma severa, isso não mudou os bastidores do futebol italiano. Em 2011 e 2015, novas denúncias relativas a apostas ilegais e manipulação de jogos vieram à tona, nos escândalos conhecidos como "Calcioscommesse". Jogadores que participaram de Copa do Mundo pela Itália, como Giuseppe Signori e Cristiano Doni, foram flagrados no esquema.

No final das contas, os fatos são claros: a Justiça italiana é falha, o Campeonato Italiano era manipulado e não tem dirigente santo nessa história.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

36ª rodada: Sempre ele

Totti mudou o jogo mais uma vez e mantém Roma na briga pelo vice (LaPresse)
Com o título da Serie A já definido, a principal luta do fim de temporada era a por vagas na Liga dos Campeões. Esta também se encaminhou neste final de semana: com a derrota da Inter, Napoli e Roma se classificaram matematicamente para a competição, embora ainda esteja em aberto qual das duas equipes ficarão com a vaga na fase de grupos. Em termos de Liga Europa, o Sassuolo conseguiu ultrapassar o Milan e agora seca o Diavolo no Campeonato Italiano e na Coppa Italia para conseguir um feito inédito. Na parte de baixo da tabela, Frosinone, Palermo, Carpi, Udinese e Sampdoria ainda brigam para não cair. Acompanhe o resumo da 36ª rodada.

Genoa 2-3 Roma
Tachtsidis (Laxalt), Pavoletti (Rincón), El Shaarawy (Dzeko) | Salah (Perotti), Totti (De Rossi), El Shaarawy (Dzeko)

Tops: Suso (Genoa) e Totti (Roma) | Flops: Izzo (Genoa) e Maicon (Roma)

Quantas vezes teremos de repetir a frase "no Totti, no party"? Após o jogo, Spalletti disse que o capitão da Roma é "um diamante que não deve ser utilizado todos os dias", mas o fato é que o craque colocou o time matematicamente na Liga dos Campeões e foi fundamental na arrancada do time desde a chegada do treinador. Totti jogou somente 56 minutos nas últimas quatro partidas da Roma, e fez quatro gols (média de um a cada 14 minutos). Seus gols significaram 8 pontos para os giallorossi.

Nesta segunda, no Marassi, Totti entrou em campo aos 59 minutos, substituindo Perotti – que ia bem, até. A partida estava em ritmo muito alto, e logo no início a Roma, pressionada, abriu o placar com Salah e teve pênalti não marcado. Por sua vez, o Genoa fez o seu com Tachtsidis, aproveitando jogada nas costas de Macon, e virou no início do segundo tempo, em outra falha do brasileiro. Foi aí que o capitão entrou no jogo: fez um golaço de falta e deu outra vida ao time romano. Tanta vida que até Dzeko apareceu bem, recebendo lançamento de De Rossi e ajeitando para El Shaarawy virar a partida em definitivo. Outro ponto positivo para a equipe, terceira colocada, foi a volta de Strootman ao time titular: o holandês não começava uma partida desde janeiro de 2015.

Juventus 2-0 Carpi
Hernanes (Asamoah) e Zaza (Pogba)

Tops: Pogba e Asamoah (Juventus) | Flops: Martinho e Sabelli (Carpi)

Abrindo o domingo de futebol na Itália, a Juventus fez sua primeira partida diante de seus torcedores após a conquista do scudetto. Em campo, o time fez mais do mesmo e, com muita tranquilidade, garantiu mais uma vitória e um clean sheet em casa: em 2016, a Velha Senhora não sofreu nenhum gol jogando em Turim pela Serie A.

Ponto positivo para o meio-campo formado por Pogba, Hernanes e Asamoah, que controlaram a partida e foram protagonistas nos gols: o brasileiro em assistência do ganês e o francês ajudando Zaza a marcar seu quinto gol como substituto. O Carpi, que provavelmente não contava com pontos nesta partida, perdeu a chance de se aproximar da Udinese e agora vê o Palermo com os mesmos 35 pontos. Nas rodadas finais, enfrentará a Lazio em casa e fará jogo de vida ou morte contra a Udinese no Friuli.

Napoli 2-1 Atalanta
Higuaín (Hamsík), Higuaín (Callejón) | Albiol (contra)

Tops: Higuaín e Hamsík (Napoli) | Flops: Djimsiti e Diamanti (Atalanta)

O Napoli entrou em campo pressionado: minutos antes de o jogo começar no San Paolo, a Roma havia batido o Genoa e havia assumido a vice-liderança temporariamente. Debaixo de muita chuva, os azzurri enfrentariam uma Atalanta que só cumpria tabela e precisariam de pouco para recuperar o segundo posto. Deu o esperado: jogo fácil, participações fundamentais de Hamsík e Higuaín e três pontos na bagagem.

Logo nos primeiros minutos, a partida já estava encaminhada. O eslovaco, que foi homenageado antes do apito inicial pelos 400 jogos com a camisa azul, achou Higuaín na área e o Pipita abriu o placar. Os napolitanos continuaram com domínio total do jogo, e no segundo tempo acertaram o travessão com Allan, antes de o argentino fazer mais um – com 32 gols, ele é o maior artilheiro da Serie A desde 1959, e com dois jogos pela frente, ainda pode igualar ou ultrapassar Gunnar Nordahl, autor de 35 gols em 1950. A Atalanta ainda descontou, com gol contra de Albiol, mas Reina foi um mero espectador da partida.

Lazio 2-0 Inter 
Klose (Lulic) e Candreva (pênalti)

Tops: Keita (Lazio) e Kondogbia (Inter) | Flops: Murillo e Miranda (Inter)

A Inter 2015-16 tem muitas facetas. Assim como é o quarto time que mais venceu no campeonato, perdeu dez partidas; tem a terceira defesa menos vazada e é um dos que mais leva gols através de erros individuais; e, se é um dos times que menos faz faltas, está entre aqueles que mais jogadores expulsos teve (12). Tanta ambivalência impede que a equipe alce voos mais altos.

Dessa vez, Miranda e Murillo tiveram um dia horrível, errando todos os posicionamentos e tomadas de decisões, e foram engolidos pelo veteraníssimo Klose, autor de cinco gols e três assistências nas últimas cinco partidas na Serie A. Os nerazzurri também sofreram com o talentoso Keita, cada vez mais maduro e importante para a Lazio, que sofreu com uma temporada ruim de Candreva e Felipe Anderson. Com preguiça, poucos da Inter acompanharam o ritmo de Kondogbia – bem na partida, apesar do domínio de Biglia e Lulic no setor. O resultado garantiu matematicamente Roma e Napoli na Champions e a Inter na Liga Europa. A Lazio ainda tem remotas chances de se classificar para a competição continental de segundo escalão.

Milan 3-3 Frosinone
Bacca, Antonelli (Alex), Ménez (pênalti) | Paganini (D. Ciofani), Kragl, Dionisi

Tops: Bardi e Dionisi (Frosinone) | Flops: Donnarumma e Alex (Milan)

Este Milan-Frosinone deveria ser um objeto de estudo para os cientistas que trabalham a teoria do caos. Assim como o Milan, que mais uma vez aplicou a lei de Murphy: se algo pode dar errado, dará. O time de Brocchi, que levou três gols do Frosinone em casa, não se achou em campo e o domingo só não foi pior graças à reação aos trancos e barrancos no final, que descontou o 0-2 inicial. Nos dois primeiros gols, de Paganini e Kragl, Donnarumma pecou pela inexperiência e falhou.

Balotelli teve pênalti defendido pelo interista Bardi, autor de oito defesas, mas também de uma falha no gol do quase desaparecido Bacca. De meia-bicicleta, Antonelli recolocou o Diavolo na partida e Ménez empatou de pênalti nos acréscimos – depois que Dionisi aproveitou erro duplo de Alex e Monotlivo para anotar o 3 a 1. O empate não diminui o fracasso do Milan, agora ultrapassado pelo Sassuolo e fora da zona de classificação para a Liga Europa, competição que os rossoneri só jogarão se ganharem da Juventus na final da Coppa Italia ou se conseguirem se recuperar  contra Bologna e Roma e os neroverdi tropeçarem. O Frosinone se esforçou muito, mas deve voltar para a Serie B: quatro pontos atrás do Carpi, último time fora da zona, e com uma tabela difícil, só um milagre o salvará.

Chievo 0-0 Fiorentina
Tops: Hetemaj (Chievo) e Zárate (Fiorentina) | Flops: Tello e Kalinic (Fiorentina)

Mais um resultado negativo para a Fiorentina. No dia seguinte, a Viola viu a Inter perder e se lamentou ainda mais por outra partida sem graça, com muita posse de bola e pouca efetividade – tanto que o veterano goleiro Bizzarri, do Chievo, não teve muito trabalho e o lado esquerdo anfitrião, com Gobbi e Hetemaj, neutralizou os adversários. O protagonismo sobrou para Zárate, mas apesar de alguns bons lances do argentino, a atuação não foi suficiente para que o time de Paulo Sousa chegasse à vitória. A equipe de Florença somou apenas oito pontos nas últimas dez partidas e deve mesmo ficar com a quinta colocação, enquanto o Chievo deve ficar entre os 10 primeiros.

Sassuolo 1-0 Verona
Pellegrini

Tops: Acerbi (Sassuolo) e Ionita (Verona) | Flops: Falcinelli (Sassuolo) e Juanito (Verona)

Em dia negativo do ataque neroverde, o meio-campo de Di Francesco honrou seu passado e manteve o time vivo na partida. O jovem Pellegrini marcou o gol após erro de Moras, Magnanelli manteve a ordem no setor e liderou o time, enquanto Duncan deu ritmo e força para criar o gol. Atrás, Acerbi fez partida quase perfeita e anulou, juntamente com Consigli, um Verona agressivo, mas ineficaz com a bola – apesar de não estar entregue, mesmo já estando rebaixado. Três pontos que colocam o clube de Squinzi na frente do Milan e pode levá-lo para um competição europeia pela primeira vez: o time precisa garantir a vantagem sobre os rossoneri nos jogos contra Frosinone e Inter e torcer para a Juventus na final da Coppa Italia.

Udinese 1-5 Torino
Felipe (Bruno Fernandes) | Jansson (Silva), Acquah, Martínez (Acquah), Belotti e Martínez

Tops: Martínez e Belotti (Torino) | Flops: Heurtaux e Danilo (Udinese)

Em temporada irregular e decepcionante pelo potencial da equipe, o Torino conseguiu bons resultados nas últimas partidas, mas vinha de duas derrotas seguidas. Dessa vez, a equipe grená massacrou a Udinese com protagonistas inesperados: Martínez, Acquah e Jansson. Com exceção de Acquah, os dois foram titulares porque o técnico Ventura colocou em campo uma formação alternativa, deixando, por exemplo, sua defesa titular no banco – até certo ponto, uma escolha justa, pelo mau desempenho recente do trio Maksimovic, Glik e Moretti. Tudo isso aconteceu um dia depois de o comandante dizer que, para a próxima temporada, o elenco teria que passar por mudanças ou a comissão técnica teria que sair.

Os três protagonistas inesperados foram acompanhados pelo cara que decide sempre: o jovem bomber Belotti. O ex-atacante do Palermo é o segundo maior goleador de 2016, atrás apenas de Higuaín, e é o segundo maior artilheiro italiano no campeonato, perdendo somente para Éder. Enquanto o camisa 9 granata fez um e teve dois anulados, seu companheiro de ataque, o venezuelano Martínez, foi o homem do jogo, com sua primeira doppietta na Serie A. Aos anfitriões, uma derrota aterrorizante em um Friuli mais uma vez vazio. O time inteiro foi mal, especialmente Heurtaux e Danilo, e agora a equipe tem apenas três pontos de vantagem para a zona de rebaixamento, além de confrontos diretos desfavoráveis contra Carpi, Palermo e Sampdoria. O que poderia ser uma salvezza tranquila se torna outra dor de cabeça para o clube dos Pozzo.

Palermo 2-0 Sampdoria
Vázquez (Gilardino) e Krsticic (contra)

Tops: Vázquez e Thiago Cionek (Palermo) | Flops: Ranocchia e Krsticic (Sampdoria)

Quem diria que o Palermo teria forças para reagir com Ballardini, logo o único dos tantos treinadores rosanero de 2015-16 que saiu brigado com o elenco? O orgulho ficou para trás, e a equipe está focada em tirar os sicilianos desta situação: agora são duas vitórias consecutivas e, diante de Fiorentina (fora) e Verona (casa), a equipe rosanero terá que brigar pela salvezza. De volta ao Renzo Barbera, Vázquez foi protagonista: marcou o primeiro, aproveitando a roubada de bola de Gilardino em cima de um péssimo Ranocchia, e participou do gol contra de Krsticic. Fundamental também o brasileiro naturalizado polonês Thiago Cionek, que salvou um gol na linha de De Silvestri logo após o primeiro dos anfitriões. E a Sampdoria, que poderia ter vida muito mais fácil, está a cinco pontos da zona de rebaixamento, terá o Derby della Lanterna e a Juventus nas últimas rodadas. Caso faça um pontinho nestes jogos, está matematicamente salva, mas não é bom dar sopa para o azar.

Empoli 0-0 Bologna
Tops: Croce (Empoli) e Giaccherini (Bologna) | Flops: Zielinski (Empoli) e Mounier (Bologna)

A partida mais sem graça da rodada, quem diria, foi entre Empoli e Bologna. Tudo bem que ambos estão apenas cumprindo tabela, já salvos, mas são times interessantes: os anfitriões, pelos jovens técnicos e um jogo atrativo, os visitantes, pela organização e ataques diretos. No entanto, pouco disso foi visto no Castellani. O time de Giampaolo teve posse de bola estéril, criou pouquíssimo e viu Zielinski, que faz ótima temporada e chama atenção de clubes grandes, perder gol inacreditável. Por sua vez, o time de Donadoni levou mais perigo com Giaccherini, exigindo algumas defesas de Pelagotti, mas não foi o bastante para marcar.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 35ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Bardi (Frosinone); Thiago Cionek (Palermo), Acerbi (Sassuolo), Jansson (Torino), Lulic (Lazio); Vázquez (Palermo), Acquah (Torino), Hamsík (Napoli); Keita (Lazio); Higuaín (Napoli), Belotti (Torino). Técnico: Giampiero Ventura (Torino).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

No auge, Ranieri se confirma domador do improvável

Campeão inglês com o Leicester, Ranieri se especializou em façanhas com elencos modestos (The Sport Bible)
Se o futebol ensinou uma lição em 2015-16 é a de que o mundo dá voltas. Poucos treinadores iniciaram a temporada tão desacreditados quanto o italiano Claudio Ranieri: ele conseguiu fracassar com a Grécia nas Eliminatórias para a Euro 2016 e foi demitido da seleção após perder para Ilhas Faroe e ficar na lanterna de seu grupo. Desprestigiado, ele assumiu o Leicester, tido como favorito ao rebaixamento na Premier League, e a confirmação de sua chegada não foi nada auspiciosa: reforçou o senso comum de que os Foxes cairiam – o próprio Ranieri admitia que o objetivo era brigar para evitar a queda. O que aconteceu foi exatamente o inverso e o provável lanterna foi campeão inglês, no trabalho que marca o auge da carreira de três décadas do treinador romano.

A confirmação do título do modesto Leicester foi, sem dúvidas, um dos maiores feitos da história do esporte: em tempos de gigantes endinheirados e elencos estelares, o time azul escreveu um roteiro digno de filme e capaz de quebrar casas de apostas da Inglaterra. Ao mesmo tempo, ao guiar Riyad Mahrez, Jamie Vardy, N'Golo Kanté e companhia em uma sensacional campanha cercada de improbabilidade, Ranieri não flertou apenas com o sonho e se redimiu, mas pôs em prova a sua especialidade: tirar o melhor de onde não se espera.

Foi assim que o romano conseguiu deixar de lado a sua reputação de treinador medíocre e fracassado – fama que permeou sua trajetória por times grandes – e passou a ser um queridinho do mundo do futebol. Até mesmo na Itália: Ranieri foi o primeiro técnico de time estrangeiro a ser manchete principal da capa do Corriere dello Sport, um dos maiores diários esportivos italianos. Conhecido por sua educação e simpatia, o treinador será lembrado também por ter promovido uma rodada de pizza para unir o time e por suas prioridades: não viu o jogo entre Chelsea e Tottenham, que poderia definir o título do Leicester, porque foi à Itália visitar a mãe de 96 anos e estava voando de volta para a Inglaterra na hora do clássico.

A carreira de Ranieri no banco de reservas é quase imagem e semelhança dos seus anos como jogador. O ex-zagueiro foi revelado pela Roma, mas não foi aproveitado pelo seu time do coração e desenvolveu sua carreira como destaque do pequeno Catanzaro, à época (anos 1970 e 1980) flutuando entre as séries A e B. Como treinador, o simpático técnico dos Foxes também não se deu bem nas grandes praças do futebol italiano e mundial: obteve seus principais resultados com equipes de menor expressão ou em times médios que buscavam se reerguer.

Primeiro trabalho relevante do romano foi com o Cagliari de Francescoli (Gazzetta dello Sport)
O início empolgante
Ranieri começou sua vida como técnico em times praticamente amadores, como a Vigor Lamezia e a Puteolana, ambos do sul da Itália. Como conseguiu alcançar resultados satisfatórios nos dois clubes, Claudio ganhou uma chance maior: fechou com o tradicional Cagliari, que quase duas décadas após a conquista de seu único scudetto, estava fadado à Serie C1. À época, o treinador tinha apenas 37 anos, mas já chegou causando impacto: na primeira temporada, os rossoblù faturaram os títulos da Serie C1 e da Coppa Italia da Serie C. Na segunda, o romano foi responsável por comandar o time ao segundo acesso consecutivo, desta vez para a elite do futebol italiano.

Para a primeira experiência na Serie A, Ranieri ganhou os reforços dos uruguaios José Herrera, Daniel Fonseca e Enzo Francescoli, além do volante italiano Gianfranco Matteoli. Apesar dos bons reforços, o elenco era um dos mais frágeis do campeonato e chegou a ocupar a lanterna, na 22ª rodada. Em incrível arrancada – o time perdeu só uma vez nas 12 rodadas seguintes – os casteddu conseguiram se safar do rebaixamento e Ranieri foi contratado para substituir Alberto Bigon no Napoli, campeão italiano um ano antes, em 1990.

Em Nápoles, Ranieri tinha a grande tarefa de lidar com a saída de Diego Maradona, suspenso por doping e escolheu Gianfranco Zola para isso. No primeiro ano pelo time de Fuorigrotta, o romano de Testaccio levou a equipe a um quarto lugar e à Copa Uefa; no seguinte foi demitido na 9ª rodada do campeonato, depois de uma surra do Milan em pleno San Paolo. Apesar de o trabalho não ter sido exatamente ruim, as expectativas sobre Ranieri, um dos técnicos emergentes do início da década de 1990, eram maiores, e ele fracassou. Foi a partir de então que a carreira do romano se dividiu entre passagens opacas em equipes grandes e bons períodos em times desacreditados.

O treinador se tornou amado em Florença nos quatro anos de trabalho (Gazzetta dello Sport)
Entre altos e baixos
Assim que saiu do Napoli, Ranieri passou alguns meses parado e recebeu uma proposta da Fiorentina, que acabara de ser rebaixada para a Serie B. O romano aceitou o desafio de trabalhar novamente nas divisões inferiores e se tornou um ídolo em Florença, cidade em que morou entre 1993 e 1997. Logo em seu primeiro ano, levou uma Viola guiada por Gabriel Batistuta, Francesco Baiano, Francesco Toldo e Stefan Effenberg ao título da segundona. Nos três anos seguintes, continuou fazendo excelente trabalho na elite.

Na volta à elite, a Fiorentina se desfez de Effenberg, mas ganhou o reforço do português Rui Costa. Em um campeonato de transição, no qual o objetivo era continuar na Serie A, Batistuta fez 26 gols, já preparando os florentinos para o ano seguinte: com outro show do argentino, que anotou 19 tentos no Italiano e oito na Coppa Italia, a Viola foi campeã na copa local e terceira colocada no torneio nacional. Em 1996-97, a Fiorentina de Ranieri também conquistou a Supercopa Italiana e chegou às semifinais da Recopa Uefa. Foi temporada de despedida do romano.

O fim do período na Toscana coincidiu com o início de um longo "exílio": até 2005, Ranieri só trabalhou em clubes de fora da Itália. Foram tempos de muitos altos e baixos para o técnico, que alternou títulos de segundo escalão com momentos de pressão e demissões. Foi assim em duas passagens pelo Valencia, clube em que brigou com Romário, ganhou uma Copa do Rei e conseguiu uma vaga na Liga dos Campeões (na primeira delas, entre 1997 e 1999), mas pelo qual foi demitido, em 2005. No Atlético de Madrid, ele não se acertou de jeito algum, mas ainda assim recebeu oportunidade no Chelsea, clube em que teve o compatriota Gianluca Vialli como antecessor e que ainda não era comandado pelo bilionário Roman Abramovich.

No Chelsea, o técnico romano teve percurso similar ao que teve no Valencia. Se, pelo clube do Mestalla, ele iniciou o projeto que Héctor Cúper e Rafa Benítez concluíram, com final da Liga dos Campeões e título espanhol, respectivamente, Ranieri preparou o terreno para que José Mourinho virasse um deus vivo em Londres.

Antes da chegada do dinheiro russo, o treinador – que ganhou o apelido de Tinkerman por mudar demais as escalações e nunca informá-las aos jornalistas – fez um trabalho bem avaliado pelos torcedores, mas depois, não suportou a pressão. Os Blues foram vice-campeões ingleses e alcançaram as semifinais da Liga dos Campeões, mas os resultados foram considerados inferiores ao ideal, já que Abramovich investira mais de 100 milhões de libras, com a contratação de jogadores como Juan Sebastián Verón, Hernán Crespo, Adrian Mutu, Joe Cole, Damien Duff e Claude Makélélé. Com isso, Ranieri acabou deixando Stamford Bridge.

Em 2005, o Tinkerman encerrou sua primeira passagem pelo exterior e ficou sem clube por quase dois anos, muito por causa da pecha de "perdedor" que acabou ficando por causa do trabalho no Chelsea. O período de inatividade foi interrompido quando Ranieri aceitou pegar uma batata quente, em fevereiro de 2007: foi convidado para treinar o Parma, que era o penúltimo colocado da Serie A. A partir da chegada do romano, os crociati começaram a jogar melhor e fizeram 24 pontos em 15 jogos, embalados por Igor Budan e Giuseppe Rossi, escapando do rebaixamento e ficando com 12ª posição no campeonato.

À frente do Parma, Ranieri conseguiu uma improvável salvezza (Sky Italia)
O fracasso onde houver expectativa
A arrancada do Parma fez com que Ranieri voltasse a ser apreciado pelos diretores esportivos italianos. Assim, ele ganhou a chance de comandar a Juventus em sua tentativa de reconstrução: a Velha Senhora precisou disputar a Serie B em 2006-07, punida por envolvimento no Calciopoli, e Didier Deschamps não prosseguiu no cargo. O romano assinou contrato de três anos, mas não ficou nem dois. Apesar de ter classificado a Juve para a Liga dos Campeões duas vezes – algo que Ciro Ferrara e Luigi Delneri, seus sucessores, não conseguiram –, ele deixou Turim antes do fim da temporada 2007-08, por uma crise de resultados ruins que ameaçavam o vice. Pesaram uma série de resultados negativos e o futebol pouco atrativo e sem confiança da equipe.

Ainda assim, Ranieri conseguiu um outro trabalho em equipe de ponta na Itália. Desta vez, foi escolhido não para iniciar a temporada, mas quase isso: a Roma, seu time do coração, decidiu reabrir as portas para ele. Luciano Spalletti foi demitido na 2ª rodada da Serie A e o romano voltou a Trigoria.

O trabalho do Tinkerman na Cidade Eterna durou pouco mais de um ano e meio e ficou marcado pelos atritos com Francesco Totti e Daniele De Rossi – a dupla chegou a ser barrada de um clássico contra a Lazio, que terminou com vitória giallorossa – e pela incrível romada da equipe. Em 2009-10, a Loba ultrapassou a Inter de Mourinho na reta final da Serie A, venceu o dérbi, mas perdeu para Sampdoria, de virada, e deixou o título escapar. No campeonato seguinte, a Roma praticou um futebol pragmático e sem resultados, o que fez com que Ranieri optasse por se demitir.

Parecia que o treinador, então com quase 60 anos, entraria na fase descendente da carreira. Foi aí a Inter surgiu no horizonte: em 2011, a Beneamata escolheu Gian Piero Gasperini como técnico, mas ele foi demitido logo no início da Serie A. Ranieri surgiu para tapar buraco, mas não conseguiu nem concluir a temporada. Organizou o time defensivamente, mas o futebol opaco e a falta de resultados, além da eliminação na Liga dos Campeões, fizeram com que sua rescisão de contrato acontecesse.

Em "casa", Ranieri viveu às turras com Totti e fez parte de romada histórica (The World Game)
A reviravolta do "senhor gentileza"
Em todos os clubes pelos quais passou, o Tinkerman ficou conhecido pela simpatia e gentileza com a torcida e com os jornalistas. Apesar de tudo, a ternura de Ranieri não importava muito: torcedor gosta mesmo é de bons resultados e de bom futebol. Isso o romano não conseguiu entregar com regularidade em nenhum dos grandes clubes pelos quais passou.

O (relativo) fracasso por Juve, Roma e Inter fechava as portas para Ranieri no futebol italiano – a não ser que ele topasse abaixar suas pretensões novamente e treinar uma equipe menor. Uma vez que Napoli e Fiorentina – clubes em que ainda dispunha de prestígio – já tinham técnicos estabelecidos, ou o romano tentava novas experiências no exterior ou ficaria parado. A primeira opção foi a escolhida.

O magnata russo Dmitrij Rybolovlev acabara de adquirir o Monaco, então na segunda divisão francesa, e deu o comando do time a Claudio Ranieri. O italiano levou o time para a Ligue 1 e, na elite, duelou com o Paris Saint-Germain pelo título – ficou com o vice e acabou licenciado do cargo. Dois meses depois, assinou com a Grécia e deu vexame. Em 2015, o Leicester cruzou o caminho de Ranieri e o resto é história.

Depois do título e a classificação dos Foxes para a Liga dos Campeões, a expectativa se torna maior. Claro, repetir a dose é algo muito complicado, mas se imagina que o Leicester volte a fazer uma boa Premier League. Por outro lado, sempre é possível ficar com uma pulga atrás da orelha com Ranieri, ao menos quando se espera muito do time dele. Um dos grandes duelos de 2016-17 já está estabelecido: vencerá o histórico negativo do Tinkerman e o Leicester terá um ano difícil ou o homem e o time que quebraram tantos paradigmas derrubarão outros?

Claudio Ranieri

Nascimento: 20 de outubro de 1951, em Roma, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Roma (1972-74), Catanzaro (1974-82), Catania (1982-84) e Palermo (1984-86)
Carreira como treinador: Vigor Lamezia (1986-87), Puteolana (1987-88), Cagliari (1988-91), Napoli (1991-93), Fiorentina (1993-97), Valencia (1997-99 e 2004-05), Atlético de Madrid (1999-2000), Chelsea (2000-04), Parma (2007), Juventus (2007-09), Roma (2009-11), Inter (2011-12), Monaco (2012-14), Grécia (2014) e Leicester (2015-hoje)
Títulos como treinador: Premier League (2016), Supercopa Uefa (2004), Supercopa Italiana (1996), Coppa Italia (1996), Copa do Rei (1999), Copa Intertoto (1998), Serie B (1994), Ligue 2 (2013), Serie C1 (1989) e Coppa Italia da Serie C (1989)

sábado, 30 de abril de 2016

Crotone, o tubarão da Serie A

Crotone vem de uma das regiões mais pobres da Itália e já fez história ao chegar à elite (Getty)
Colaborou Arthur Barcelos

Nesta sexta, 29 de abril, a Serie A ganhou um pequeno capítulo em sua história: a confirmação de que a 66ª agremiação diferente disputará uma edição do Campeonato Italiano. O time estreante será o pequeno Crotone, que até o início dos anos 2000 não tinha sequer participado de uma Serie B – assim como Sassuolo, Frosinone e Carpi. Terceiro time da Calábria a disputar a elite, depois de Catanzaro (anos 1970 e 1980) e Reggina (1990 e 2000), os rossoblù terão a chance de construir uma história de superação na elite.

Em verdade, a cruzada de superação do Crotone começou muito antes disso. A equipe vem de uma das regiões mais belas da Itália, mais exatamente de uma cidade que tem uma longa e rica história, mas que atravessa dificuldades. Falaremos um pouco sobre a história do caçula da Serie A 2016-17 e da cidade aqui no blog.

Um time matemático
Crotone fica no litoral da Calábria, no extremo sul do país – na "sola" da Bota –, e é uma das mais antigas da Itália: foi fundada pelos gregos, em 718 a.C., sob o nome Kroton. A cidade foi palco da escola filosófico-matemática de Pitágoras, que lá viveu e desenvolveu seu nome como um dos maiores cientistas da antiguidade. Por causa do legado do criador do famoso teorema e das ruínas da época, o Crotone é conhecido pelo apelido de pitagóricos (pitagorici, em italiano) – e, por causa dos tubarões que habitam as águas do mar Jônico, os torcedores também são chamados de tubarões (squali).

Se, no passado, Crotone foi um dos centros do pensamento da Grécia Antiga, hoje atravessa um período muito complicado e menos próspero. O extremo sul do Belpaese depende da agricultura e do turismo, uma vez que a instalação de indústrias por lá acabou sendo comprometida pela crise da Europa. A região tem os piores índices de desenvolvimento humano do país (e um dos piores do continente), má infraestrutura e é uma das rotas de refugiados asiáticos e africanos, que acabam não conseguindo se inserir na sociedade, por diversos fatores. Crotone não escapa de todos estes problemas e, para piorar, tem uma taxa de desemprego de 31%.

O contexto sócio-econômico nunca foi favorável para a formação de uma equipe forte na Calábria – muito menos um clube que não é bancado por milionários, como o Crotone nunca foi. O time foi fundado em 1910 e nunca esteve em evidência, nem mesmo na região, cujos maiores times são Catanzaro e Cosenza. Na 12ª participação na Serie B, nesta temporada, o Crotone também não era um time forte. No nosso guia da segundona, inclusive, não citamos a equipe nem como uma das que corriam por fora pelo acesso – dissemos que ficaria do meio para baixo na tabela. De fato, os rossoblù não tinham tantas pretensões, mas surpreenderam.

Boa parte da força dos pitagóricos vinha de sua torcida. O estádio Ezio Scida, que possui apenas 9.547 lugares, é tão acanhado que é possível assistir aos jogos dos quartos do hospital San Giovanni di Dio, localizado ao lado de uma das arquibancadas e visível nas transmissões de televisão – um exótico caldeirão. A título de informação: Scida, que batizou o estádio, foi um jogador do Crotone que morreu em um acidente automobilístico a caminho de uma partida dos squali, nos anos 1940.
Bem vindo à Serie A, Crotone! (Getty)
Quase 30 anos de construção
O novo Crotone começou a ser esculpido em 1991, ano em que o clube foi refundado. O presidente Raffaele Vrenna, que está no cargo deste então, tem sido acompanhado pelo diretor esportivo Giuseppe Ursino desde 1995 e participou de todo o período de crescimento. Os pitagóricos conseguiram sete promoções de divisão entre 1991 e 2000, ascenderam da sétima para a segundona divisão, mas as principais evoluções aconteceram mesmo depois da chegada do time à Serie B.

O Crotone merece estar colhendo os frutos deste trabalho duro. A equipe estreou na segundona neste século, em 2000-01, e foi rebaixado apenas duas vezes neste período, em 2002 e 2007. Desde que retornou, em 2009, teve cinco campanhas acima do meio da tabela, e inclusive atingiu os play-offs de acesso para a Serie A em 2013-14, mas foi eliminado e, no último ano, caiu de produção e ficou próximo da zona de rebaixamento. Na atual temporada, além de garantir vaga na elite, a equipe chegou às oitavas de final da Coppa Italia e quase eliminou o Milan em pleno San Siro, num prelúdio do que estava por vir.

No entanto, a primeira vez que o Crotone começou a chamar atenção na Itália foi com o técnico Gian Piero Gasperini, hoje pra lá de conhecido por seu trabalho no Genoa. O piemontês começou sua carreira no futebol profissional como treinador justamente no clube, em 2003, e implantou uma política de valorização de jogadores jovens, que foi seguida pelos treinadores que o sucederam. Com Gasp, ex-comandante da equipe Primavera da Juventus por quase uma década, boa parte das revelações que passaram por lá eram ex-juventinos. Outro “professor” marcante do time foi Massimo Drago, cria da casa como jogador e técnico: Drago trabalhou na Calábria por dez anos, assumindo como treinador em 2012 e permanecendo até a última temporada, quando foi contratado pelo Cesena.

O clube calabrês também ficou conhecido por abrigar jovens de clubes maiores, a exemplo de Salvatore Aronica, Giuseppe Sculli, Daniele Gastaldello, Abdoulay Konko e Antonio Mirante, todos da Juventus nos anos 2000. O clube também foi palco do "estágio" de Stefano Pettinari, Vid Belec, Alessandro Florenzi, Raffaele Maiello, Lorenzo Crisetig, Jacopo Dezi, Danilo Cataldi e Federico Bernardeschi, quase todos na Serie A hoje.

Alguns jogadores então desconhecidos também cresceram desde a passagem pelos squali, como Domenico Maietta, Daniele Vantaggiato, Abdelkader Ghezzal, Antonio Nocerino, Graziano Pellè, Archimede Morleo e Nicola Sansone. Sem esquecer dos brasileiros Ângelo, Jeda, Digão e Gabionetta.

Por falar em brasileiros, a equipe que subiu para a Serie A tem como capitão o zagueiro goiano Claiton, que jogou na elite em poucos jogos, por Bologna e Chievo – além do goleiro paranaense Caio Secco, reserva da equipe. Claiton foi um dos jogadores mais importantes do time no acesso, ao lado do goleiro Alex Cordaz e do defensor Gian Marco Ferrari, os únicos que jogaram todos os minutos na Serie B – todos eles foram líderes da defesa menos vazada do campeonato. Velhos conhecidos, a exemplo do lateral esquerdo Francesco Modesto, meia Adrian Stoian e do atacante Raffaele Palladino (ex-Juventus e autor do gol do acesso), também se destacaram.

Como não poderia deixar de ser, o Crotone continuou com sua política de valorização de jovens. Nesta temporada, a base do time teve, de revelações, o zagueiro Guy Yao (Inter), o talentoso regista Leonardo Capezzi (Fiorentina) e Mihai Balasa e Federico Ricci, ala e ponta pela direita, ambos da Roma. Andrea Barberis, meio-campista promissor, ex-Varese, e Ante Budimir, centroavante croata emprestado pelo alemão St. Pauli e artilheiro do time, são outros jovens importantes. No entanto, o maior destaque do time é o ala esquerdo Bruno Martella, de 23 anos, revelado pela Sampdoria e na mira de clubes de maior expressão.

Deu para notar que a equipe não tem uma abundância de grandes nomes. O que nos leva ao seguinte ponto: a grande estrela dos tubarões em 2015-16 é o técnico Ivan Juric, aprendiz de Gasperini. O treinador do Genoa conheceu o croata na passagem pelo Crotone (época em que Juric, volante sólido, era jogador) e o levou para o Luigi Ferraris – o jovem treinador acompanhou o comandante grisalho também nos trabalhos em Inter e Palermo, já como assistente.

Após experiência pelo Mantova na Lega Pro, o ex-volante retornou para a Calábria e fez a equipe encaminhar o título da Serie B com o melhor futebol do campeonato, que lembra muito o Genoa de Gasperini. Além de o sistema ser o mesmo, o 3-4-3, o Crotone apresenta agressividade e alto ritmo, criando chances de gol através de ataques em bloco. Foi assim que os squali ultrapassaram equipes superiores, como Cagliari, Pescara, Bari, Spezia e Cesena, e colocaram o Milan nas cordas em San Siro. A torcida espera que a base seja mantida e que Juric fique. Será o primeiro passo para que a equipe possa desempenhar um bom papel na elite.
 Desde já, uma cena já é esperada com ansiedade para a próxima Serie A: a festa da torcida do Crotone. Além de tomarem as ruas da cidade, após o acesso, os pitagóricos elegeram a música "Ma il cielo è sempre più blu", do cantor crotonês Rino Gaetano (morto em acidente de carro em 1981) como hino da campanha que fez o sonho virar realidade. Ouvi-la na estreia do time rossoblù em casa será de tirar o fôlego.