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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Jogadores: Julio Cruz

Desajeitado e eficiente, El Jardinero Cruz teve passagem importante pelo futebol italiano (Passione Inter)
Nenhum campeonato de ponta dá tantas chances quanto a Serie A para que atacantes botinudos possam brilhar. Se a figura do centroavante grosso italiano já é uma entidade mística do futebol, o Belpaese também recebeu estrangeiros com total dignidade para ocupar este posto. Um deles foi Julio Cruz, argentino que brilhou com as camisas de Bologna e Inter.

Antes de brilhar na Itália, Cruz teve um longo e difícil percurso na Argentina. O atacante nasceu em Santiago del Estero, cidade localizada na inóspita região norte do país, mais de 1000 km distante da capital Buenos Aires e a cerca de 800 km das fronteiras com Paraguai, Chile e Bolívia. Não foi por lá, porém, que ele começou sua carreira: próximo dos grandes centros, deu seus primeiros passos nas categorias de base do Temperley, mas a falência do clube o deixou livre para assinar um contrato com o Banfield, também da região metropolitana buenairense.

Foi no clube alviverde que Julio Cruz ganhou o apelido que o acompanhou por toda sua carreira: El Jardinero. Na época em que era canterano de El Taladro, ele gostava de percorrer o campo nos carrinhos de jardinagem, que aparavam a grama. Certo dia, o treinador do time principal o viu a bordo da máquina e pediu que ele cortasse um pouco o gramado próximo à área, pois o plantel profissional treinaria em seguida. A alcunha surgiu ali e acabou pegando.

Cruz estreou pelo Banfield em 1994 e permaneceu no clube portenho até 1996. Após 64 jogos e 16 gols pelos alviverdes, o centroavante deu o primeiro grande passo na carreira e assinou com o gigante River Plate. Pelos millonarios, El Jardinero explodiu: em apenas um ano no Monumental, ganhou os torneios Apertura e Clausura, marcando 18 vezes em 32 partidas. Aos 23 anos, recebeu sua primeira convocação para a seleção argentina, participou da Copa América de 1997 e foi vendido para o Feyenoord, da Holanda.

Em Roterdã, Cruz passou a ser conhecido de todo o continente europeu. De 1997 a 2000, período em que defendeu a camisa do chamado "clube do povo", o argentino teve uma excelente média de gols, de quase um a cada dois jogos: foram 50 em 104 partidas. Na Holanda, o centroavante ganhou a Eredivisie e a Supercopa, em 1999, e também disputou a Liga dos Campeões. Em sua primeira participação, em 1997-98, ele marcou dois gols em uma vitória sobre a Juventus – que seria a vice-campeã do torneio – e iniciou a sina de balançar as redes contra a Velha Senhora.

Após brilhar no Feyenoord, o argentino teve dias felizes com a camisa dos bolonheses (Corriere di Bologna)
O encontro com o futebol italiano na Champions também antecipava a transferência do jogador para a Serie A. Em 2000, El Jardinero fechou um contrato com o Bologna, clube tradicional da Bota e que estava buscando se consolidar novamente na elite após anos nas divisões inferiores. Os primeiros momentos de Cruz na Emília-Romanha foram complicados, porque os preparadores físicos dos felsinei pediram que ele perdesse peso rapidamente, o que comprometeu sua força. Após se adaptar, logo relegou Igor Kolyvanov e Luís Oliveira ao banco, fazendo uma ótima dupla com Giuseppe Signori.
Em três anos sob as ordens do técnico Francesco Guidolin, o Bologna fez temporadas bastante razoáveis e tranquilas, sempre do meio da tabela para cima. O estilo finalizador de Cruz combinou com a velocidade e a qualidade técnica de Signori – os dois foram os goleadores do time naqueles anos. 
El Jardinero foi o artilheiro rossoblù em 2001-02, com 12 gols, e ficou logo atrás do companheiro em 2000-01 e 2002-03, com sete e 10 tentos, respectivamente. As suas atuações e os 30 gols pela equipe do estádio Renato Dall'Ara o mantiveram sob a observação da Argentina – foi convocado algumas vezes entre 2000 e 2002 – e chamaram a atenção da Inter, que, a pedido do compatriota Héctor Cúper, o contratou para substituir Hernán Crespo e ser reserva de Christian Vieri.

O centroavante de 29 anos chegou com moral e ganhou logo a camisa 9, mas foi visto com alguma desconfiança pelos torcedores, já que não era um primor de técnica. Porém, campeonato após campeonato Cruz mostrava o seu valor – especialmente como arma para o segundo tempo – e fazia a torcida se render a seu estilo trombador, mas eficiente. Nos seis anos de Beneamata, a maior parte dos gols de El Jardinero foram de cabeça, aproveitando seu 1,90m de altura e ótimo posicionamento, ou dando apenas um ou dois toques na bola para completar de dentro da grande área as jogadas criadas pelos companheiros. Cruz também era um bom cobrador de faltas.

Antes de encerrar a carreira, o atacante passou um ano na Lazio (UOL)
O argentino é dono de uma bela média de gols pela Inter: foram 75 gols em 190 partidas, superior a um tento a cada três jogos. Para quem quase sempre foi reserva, é um número muito expressivo – principalmente considerando os 15 gols marcados em 2005-06, que o levaram à Copa do Mundo de 2006, e os 13 de 2007-08. Além disso, Cruz era conhecido por ser um artilheiro de gols importantes: marcava em partidas complicadas e ajudou bastante a Beneamata a ganhar quatro scudetti, duas Copas da Itália e três Supercopas Italianas no período em que esteve lá.

El Jardinero deu uma amostra de seu poder de decisão em sua segunda partida pelo clube: seu primeiro gol vestindo nerazzurro aconteceu em Highbury Park, em uma vitória por 3 a 0 sobre o Arsenal. Na temporada 2003-04 Cruz ainda anotou uma doppietta sobre a Juventus, time de que se revelou um verdadeiro carrasco: o argentino balançou as redes 10 vezes quando encarou a Velha Senhora, sete delas pela rival Inter. Para completar, o caneleiro ainda decidiu partidas contra o Milan (uma delas com apenas 11 segundos em campo) e uma final de Coppa Italia contra a Roma.

Em 2009, ao fim do contrato com a Inter, Cruz ficou livre para assinar com outro clube. O argentino assinou com a Lazio e, ironicamente, estreou logo batendo a Inter na Supercopa Italiana – um desentendimento forte com o ex-companheiro Maicon fez com que a imprensa especulasse um mal estar entre os dois, mas foi coisa de campo. Naquele ano, o atacante de 35 anos fez 30 partidas pela equipe romana, entrando quase sempre nos minutos finais. Com apenas quatro gols marcados e vários problemas físicos, optou por rescindir seu contrato e se aposentar.

A aposentadoria fez com que Cruz voltasse a viver na Argentina ainda em 2010. Em seu país natal, decidiu que já se sentia realizado com o futebol e optou por não seguir carreira como treinador ou dirigente. Aliás, mudou radicalmente de planos: se aliou ao ex-cartola máximo do Boca Juniors, Mauricio Macri, e iniciou-se na política. Filiado ao Propuesta Republicana, mesmo partido do atual presidente argentino e ex-prefeito de Buenos Aires, El Jardinero sonha em ser o governante de Lomas de Zamora, cidade em que se tornou um futebolista vestindo a camisa do Temperley.

Julio Ricardo Cruz
Nascimento: 10 de outubro de 1974, em Santiago del Estero, Argentina
Posição: atacante
Clubes: Banfield (1993-96), River Plate (1996-97), Feyenoord (1997-2000), Bologna (2000-03), Inter (2003-09) e Lazio (2009-10)
Títulos: Campeonato Argentino (1996 e 1997), Eredivisie (1999), Supercopa da Holanda (1999), Serie A (2006, 2007, 2008 e 2009), Coppa Italia (2005 e 2006) e Supercopa Italiana (2005, 2006, 2008 e 2009)
Seleção argentina: 22 jogos e 3 gols

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

5ª rodada: Recuperação imediata

Depois de derrota no dérbi, Juve vence e volta à liderança com gols de Dani Alves e Higuaín (LaPresse)
Houve quem questionasse a Juventus após a derrota para a Inter e o domínio da rival no clássico do fim de semana. Os comandados de Allegri trataram de dar a resposta adequada dias depois e trucidaram o Cagliari, em Turim, e ainda contaram com um empate do Napoli para voltarem à liderança da Serie A. A rodada também foi boa para a própria Inter e também para Milan, Roma e Chievo. Confira no resumo.

Juventus 4-0 Cagliari
Rugani, Higuaín, Daniel Alves (Pjanic) e Ceppitelli (contra)

Tops: Daniel Alves e Higuaín (Juventus) | Flops: Ceppitelli e Borriello (Cagliari)

Acredite, poderia ser pior. A Juventus não teve piedade do Cagliari após a derrota no Derby d'Italia e massacrou a equipe sarda. O 4 a 0 ficou barato diante das dez defesas de Storari em seu frustrado retorno à Turim – que lhe trouxe problemas com alguns radicais da torcida rossoblù, dias atrás. O goleiro foi bastante exigido nas finalizações de Pjanic e Higuaín, principais pontos de desequilíbrio do time de Allegri, e pouco teve a fazer senão aceitar o fuzilamento.

A Juve deu outro sentido à circulação e ao controle da bola com Lemina, Hernanes e o bósnio no meio-campo, assim como Dani Alves bastante ativo na direita e Alex Sandro na canhota – tudo isso mesmo com um Dybala em ritmo lento, agindo mais como armador. Com o tropeço do Napoli e a goleada em casa, liderança recuperada. Para o Cagliari, mais uma dura derrota fora de casa, mantendo a sina da equipe, que conquistou todos os seus pontos no Sant'Elia.

Empoli 0-2 Inter
Icardi (Candreva) e Icardi (João Mário)

Tops: João Mário e Icardi (Inter) | Flops: Saponara e Maccarone (Empoli)

Dia de muitas novidades para a Inter. Pela primeira vez a Beneamata saiu na frente do placar, marcou no primeiro tempo e não sofreu gol em 2016-17. Só uma coisa não mudou: a participação de Icardi nos gols dos nerazzurri. Dos sete em cinco rodadas, seis tiveram a marca do argentino, que assistiu o outro, de Perisic, no último domingo. Depois de um verão agitado, início espetacular do jovem capitão, que tem respondido no campo os falatórios da imprensa e de sua esposa-agente.

Contra o Empoli, o time de De Boer teve menos domínio, porém manteve o controle se defendendo bem, exceto quando Pucciarelli levou perigo algumas vezes e forçou cartões amarelos para dupla de zaga interista ou quando Murillo cometeu erros. Se era seguro na defesa, o time era ainda melhor contra-atacando, com o trio de ataque e as transições de João Mário funcionando muito bem. O português foi o protagonista na ausência de Banega e se sagrou como o melhor em campo: até agora, tem impacto muito positivo na equipe, acima do esperado, apesar dos 40 milhões de euros investidos na contratação.

Roma 4-0 Crotone
El Shaarawy (Florenzi), Salah (El Shaarawy), Dzeko (Totti) e Dzeko (Salah)

Tops: Salah e Dzeko (Roma) | Flops: Palladino e Ceccherini (Crotone)

Diante de um tropeço importante em confronto direto, a Roma reagiu bem e voltou a golear no Olímpico. Dessa vez a vítima foi o novato Crotone, atropelado pelo alto ritmo dos ataques romanos e pelo mau estado da sua lenta defesa, que sofreu mesmo contra o pesado Dzeko. O bósnio fez a festa e marcou dois gols: o primeiro teve a ajuda de Totti (escalado como titular pela primeira vez em 2016-17), que efetuou um lindo lançamento, e o segundo a assistência do frenético Salah. O egípcio também deixou sua marca, tal qual seu confrade El Shaarawy. Destaque também para o garoto Paredes, protagonista no domínio da bola do time de Spalletti ao lado de Strootman e Totti. O que se viu nesta quarta foi um cenário bem diferente da última rodada, quando o argentino não esteve em campo e a equipe sofreu com De Rossi e Nainggolan pouco participativos e criativos.

Milan 2-0 Lazio
Bacca (Kucka) e Niang (pênalti)

Tops: Paletta e Bacca (Milan) | Flops: Parolo e Djordjevic (Lazio)

Depois de duas derrotas, duas vitórias para a equipe de Montella. Diante de uma Lazio agressiva, o Diavolo teve como trunfo a eficiência do seu ataque, que produziu bastantes oportunidades de gol e poderia ter goleado em San Siro, não fosse a falta de pontaria do insistente Niang e as defesas do afobado garoto Strakosha. O ainda mais jovem Donnarumma também se destacou do outro lado, segurando o placar frente a pressão adversária. Com ataques tão eficientes, destaque para as transições protagonizadas por Kucka e Bonaventura, que acionaram muitas corridas de Niang e Bacca.

Genoa 0-0 Napoli
Tops: Perin (Genoa) e Reina (Napoli) | Flops: Pavoletti (Genoa) e Milik (Napoli)

Um daqueles jogos em que o Napoli sofre um apagão. Em Gênova, a equipe de Sarri jogou sem determinação e em ritmo baixo, contando com a defesa em bom dia para não sofrer gol – especialmente o goleiro Reina, que fez uma defesaça no primeiro tempo. Os azzurri sentiram falta de Hamsík, poupado na primeira etapa: com ele em campo, levaram perigo duas vezes. No entanto, o eslovaco foi, juntamente a Jorginho, dominado pelo Genoa de Juric e sua forte e agressiva marcação. Em um jogo de muita pegada, os atacantes Milik, Pavoletti e Simeone (sim, o filho do técnico do Atlético de Madrid) pouco fizeram.

Chievo 2-1 Sassuolo
Rigoni e Castro (Birsa) | Defrel

Tops: Rigoni e Castro (Chievo) | Flops: Hetemaj (Chievo) e Matri (Sassuolo)

Como no ano passado, o Chievo tem outro início de temporada para lá de positivo. Empatado com Roma e Inter com 10 pontos, certamente não terá força e qualidade para se manter na parte superior da tabela, mas vai conquistando pontos importantes para fazer mais um campeonato seguro. Contra o bom Sassuolo, prevaleceu sua solidez defensiva e a participações de Birsa e Castro, principais destaques do time de Maran e geradores de muitos pontos desde a temporada anterior. Em uma das partidas mais sem graça até o momento, com poucas chances de gol e ritmo baixo, destaque para o golaço de Rigoni e para o mérito do treinador clivense: Maran tem como princípio anular os pontos fortes dos adversários e fazê-los jogar mal. Conseguiu mais uma vez contra o ótimo Sassuolo de Di Francesco, irreconhecível nesta 5ª rodada.

Udinese 2-2 Fiorentina
Zapata (De Paul) e Danilo (Heurtaux) | Babacar (Tello) e Bernardeschi (pênalti)

Tops: De Paul (Udinese) e Babacar (Fiorentina) | Flops: Adnan (Udinese) e Kalinic (Fiorentina)

Duas vitórias em casa, mas novo tropeço fora para a Fiorentina de Paulo Sousa, que escalou alguns reservas, mas manteve boa base em campo. A equipe viola não esteve bem contra a Udinese e novamente teve muita posse de bola, mas pouca efetividade. Os visitantes ficaram duas vezes atrás do placar e marcaram graças à Babacar, que completou jogada de Tello com finalização de calcanhar e depois sofreu pênalti infantil de Adnan – convertido por Bernardeschi. Para a Udinese, mais um tropeço diante da sua pouco presente torcida no belo estádio reformado, mas vale destacar a campanha da equipe de Iachini depois da dura estreia contra a Roma. Badu, Kums, De Paul e Zapata mais uma vez foram determinantes para o sucesso e competitividade do time. A luta friulana contra o rebaixamento será ponto a ponto.

Bologna 2-0 Sampdoria
Verdi (Krejci) e Destro (Krejci)

Tops: Krejci e Gastaldello (Bologna) | Flops: Barreto e Quagliarella (Sampdoria)

Bologna, seu nome é Ladislav Krejci. No Renato Dall'Ara, basicamente tudo que o time de Donadoni produziu passou pelos pés precisos do checo. Com dois cruzamentos espetaculares, o ponta esquerda serviu Verdi – que marcou um golaço com um sem pulo com a direita sua perna "fraca" –, e Destro, voltando a marcar depois da primeira rodada. Como de costume, os bolonheses foram eficientes quando atacaram e também ao defender sua área – destaque para a grande atuação do veterano Gastaldello, que anulou Quagliarella e também não enfrentou um Muriel inspirado. Dia negativo para a Sampdoria de Giampaolo, que teve a bola, mas pouco agrediu – a não ser com o belga Praet, um dos poucos que se salvaram. O time de Gênova chegou à terceira derrota depois de duas pedreiras.

Pescara 0-0 Torino
Tops: Biraghi (Pescara) e Hart (Torino) | Flops: Vives e Acquah (Torino)

Depois de início goleador, mais um frustrante 0 a 0 para o Torino de Mihajlovic, que tem sentido a falta de Belotti (presente no final do jogo), Ljajic e Iago Falqué. Os visitantes, como sempre, levaram perigo nos contra-ataques, mas perderam a eficiência com a ausência de seus principais jogadores de ataque. Já a defesa esteve melhor em relação a outras partidas, mas interpretou erroneamente os pedidos de agressividade do técnico – não à toa, Acquah e Vives foram expulsos. Foi um empate bom para o Toro, considerando as circunstâncias e também a força do dinâmico Pescara de Oddo. Os biancazzurri lamentam um pouco porque poderiam ter aproveitado a vantagem numérica e os erros de Hart, mas Verre, Benali e Caprari não estavam em dia positivo.

Atalanta 0-1 Palermo
Nestorovski (Jajalo)

Tops: Posavec e Nestorovski (Palermo) | Flops: Kessié e Gómez (Atalanta)

Observadores de gigantes europeus estavam em Bérgamo para ver Franck Kessié, mas o marfinense e a Atalanta acabaram decepcionando. O motorzinho do time de Gasperini, Papu Gómez, também esteve abaixo da média e, se o empate já seria ruim, a derrota nos minutos finais foi um banho de água fria. Posavec e a defesa siciliana tiveram bastante trabalho, mas ainda assim os anfitriões não foram agressivos o bastante e muito menos tiveram criatividade. Contratação questionável diante da fraqueza no ataque, Nestorovski voltou a agradar e foi premiado com gol aos 44 minutos do segundo tempo, que garantiu a primeira do time siciliano na temporada e do jovem treinador De Zerbi na Serie A.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 4ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Reina (Napoli); Daniel Alves (Juventus), Paletta (Milan), Gastaldello (Bologna), Alex Sandro (Juventus); Rigoni (Chievo), João Mário (Inter); Salah (Roma), Krejci (Bologna), Dzeko (Roma); Icardi (Inter). Técnico: Luciano Spalletti (Roma).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Jogadores: Alberigo Evani

Operário de luxo em um Milan estelar, Evani foi um dos bons meias italianos nos anos 1980 e 1990 (Getty)
Todo time marcante tem os seus coadjuvantes, as formiguinhas que fazem o trabalho comezinho e fazem os craque brilharem. São aqueles jogadores que talvez fossem pouco notados em equipes menores e que crescem exponencialmente nas mãos de grandes técnicos e cercados de talento dentro dos campos. Este é o caso do meia Alberigo Evani, titular absoluto do Milan de Arrigo Sacchi e Fabio Capello.

Nascido em Massa, cidade toscana próxima a Pisa, Evani foi descoberto pelo Milan muito cedo, quando ainda tinha 14 anos. O jogador concluiu sua formação nas categorias de base dos rossoneri e estreou como profissional em 1980, atuando como lateral esquerdo em uma partida da Serie B – o Milan havia sido rebaixado como punição por envolvimento de jogadores no escândalo Totonero. Após um ano na elite e novo descenso, Evani ganhou a titularidade da faixa esquerda da defesa do Diavolo em 1982-83, quando tinha apenas 19 anos.

Já inserido no grupo milanista, Evani foi apelidado pelos companheiros como Chicco ou Bubu, pela semelhança com o personagem conhecido no Brasil por Catatau – na Itália, o amigo do urso Zé Colmeia é conhecido pelo nome original, dado pela dupla Hanna-Barbera. Naqueles anos o Milan não vivia grande fase, mas o jovem jogador manteve a titularidade na lateral e passou a ser convocado para a seleção sub-21 da Itália, com a qual disputou a Eurocopa da categoria, em 1984.

Tudo ia bem para Chicco, que já tinha vencido dois títulos da Serie B, uma Copa Mitropa e esperava que o Milan crescesse com a chegada de Berlusconi ao poder, em 1986. Porém, naquele mesmo ano, ele sofreu uma lesão e abriu espaço para que uma joia da base rossonera aparecesse: Paolo Maldini. Apesar disso, Evani continuou sendo escalado no onze inicial com a chegada de Sacchi, em 1987. O treinador decidiu adiantá-lo e o adaptou à posição de meia pela esquerda de seu 4-4-2.

Meia de muita potência e inteligência tática, Evani se adaptou facilmente à complexa filosofia de jogo sacchiana. Por causa de suas características biológicas, Bubu se adaptou ao ritmo intenso pedido pelo treinador e executava muito bem a marcação por pressão, executada à perfeição por uma equipe que foi pioneira ao propor um futebol compacto, com jogadores distribuídos em um espaço de 30 metros. Além de tudo, o milanista – que também atuava pelo lado direito do meio-campo – tinha excelente toque de bola e um chute forte de canhota, arma letal em cobranças de falta.

Foi exatamente com as cobranças de falta que Evani marcou os dois gols mais importantes de sua carreira, em 1989. Primeiro, marcou contra o Barcelona, no segundo jogo da decisão da Supercopa Uefa, e, dias depois, na disputa do Mundial Interclubes: uma pancada da meia-lua deu a vitória ao Milan no final da prorrogação contra o duríssimo Atlético Nacional. No ciclo de Sacchi, Chicco conquistou uma Serie A e uma Supercopa Italiana, em 1988, e levantou por duas vezes os títulos da Copa dos Campeões, da Supercopa Europeia e do Mundial, em 1989 e 1990.

Na fase final da carreira, o toscano participou de um momento vitorioso da Sampdoria (Getty)
A partir de 1991, com a chegada de Capello ao Milan, Bubu passou a jogar quase sempre como meia centralizado. Mudou de função e perdeu espaço, o que culminou em sua saída do clube, em 1993, antes dos maiores títulos daquela geração. Depois de vencer mais dois scudetti e duas supercopas italianas pelo Diavolo, Evani deixou Milão após 393 partidas e acertou com a ambiciosa Sampdoria do presidente Paolo Mantovani, campeã nacional em 1991. O jogador estava em busca de minutos para ser convocado para a seleção italiana.

Pudera, o técnico da Itália era Sacchi, que adorava seu futebol: o toscano ganhou sua primeira chamada para a seleção italiana principal ainda em 1991, quando começava a ser colocado para escanteio por Capello. Bubu, que em 1988, tinha ajudado a Nazionale olímpica a ficar com o quarto lugar nos Jogos de Seul, foi convocado para 15 jogos na gestão do ex-comandante milanista. O técnico até lhe deu a chance de jogar a Copa do Mundo de 1994: o meia atuou em dois jogos da campanha do vice-campeonato, inclusive entrando na final diante do Brasil e convertendo sua penalidade.

Evani viveu os últimos bons momentos e anos de alto nível com a camisa da Sampdoria. Em Gênova, sua melhor temporada foi a de estreia, na qual teve Ruud Gullit, velho conhecido de Milan, como companheiro: a dupla chegou ao clube juntamente com o inglês David Platt e rapidamente se inseriu em uma equipe forte, que já tinha Gianluca Pagliuca, Moreno Mannini, Pietro Vierchowod, Srecko Katanec, Vladimir Jugovic, Attilio Lombardo e Roberto Mancini. O time comandado por Sven-Göran Eriksson foi terceiro colocado na Serie A e ainda venceu a Coppa Italia. Titular em toda a campanha, Chicco ainda anotou um gol na final da copa sobre o Ancona, vencida por um incrível 6 a 1.

Em 1997, Evani deixou a Samp juntamente com Eriksson, Mancini e tantos outros, em um desmonte que acabou levando ao rebaixamento da equipe dois anos depois. Já aos 34 anos e longe do seu auge físico, Bubu foi jogar a segundona pela Reggiana. No entanto, só atuou pelos granata por três meses e assinou com a Carrarese, maior equipe da província de Massa-Carrara, onde nasceu. Depois de 12 jogos pela equipe gialloazzurra na Serie C1, o meia decidiu se aposentar.

Logo que encerrou a carreira como jogador, Evani voltou ao Milan para colaborar com as divisões de base, o que fez até 2009. O ex-meia treinou a equipe sub-20 do clube em que deu seus primeiros passos, mas obteve maior destaque com a sub-17, com a qual chegou a ser campeão nacional da categoria. Após um breve período como técnico do San Marino, Evani assumiu as seleções de base da Itália: passou pelos azzurrini sub-18 e sub-19 e, desde 2013, ocupa o cargo de comandante da sub-20. Muito querido no Milan, Evani é um dos 54 jogadores que fazem parte do Hall da Fama rossonero.

Alberigo Evani
Nascimento: 1º de janeiro de 1963, em Massa, Itália
Posição: lateral esquerdo e meio-campista
Times como jogador: Milan (1980-93), Sampdoria (1993-97), Reggiana (1997) e Carrarese (1997-98)
Títulos conquistados: Serie A (1988, 1992 e 1993), Coppa Italia (1993), Copa dos Campeões (1989 e 1990), Supercopa da Europa (1989 e 1990), Mundial Interclubes (1989 e 1990), Supercopa Italiana (1988, 1992 e 1993), Copa Mitropa (1982) e Serie B (1981 e 1983)
Carreira como técnico: Milan (juvenis; 1998-2009), San Marino (2009-10), Itália sub-18 (2010-13), Itália sub-19 (2011-13) e Itália sub-20 (2013-hoje) 
Seleção italiana: 15 jogos e nenhum gol

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Jogadores: Pietro Fanna

O carequinha Fanna está na história da Serie A: conquistou scudetti com três equipes diferentes (TMW)
Você pode olhar e não confiar, não dar nada por ele. No entanto, o carequinha meio-campista Pietro Fanna está na história da Serie A: é um dos cinco únicos jogadores a terem conquistado o scudetto com três times diferentes. Além de ter vencido com Juventus e Inter, o friulano foi um dos grandes nomes do histórico título do Verona e se consolidou como um dos melhores meias dos anos 1980.

Nascido no vilarejo de Grimacco, próximo a Údine, Fanna iniciou sua formação como jogador na Udinese, mas, aos 14 anos, foi negociado com a Atalanta, clube em que se profissionalizou. Engrandecido pela excelência da cantera do clube nerazzurro, Pierino se tornou um ótimo meio-campista: ala destro ofensivo, unia qualidade em passes e lançamentos a técnica, velocidade e senso tático.

Quando ainda tinha 17 anos, Fanna se firmou entre os titulares do time de Bérgamo na disputa da Serie B e realizou 20 partidas em seu primeiro ano no plantel principal. No seguinte, 1976-77, o ala foi peça fundamental para a campanha do acesso à primeira divisão e, aos 19 anos, foi premiado com uma transferência para a Juventus. O jovem jogador chegaria para fazer sombra ao experiente Franco Causio, dono do flanco direito do meio-campo da Velha Senhora.

Com pouco espaço, Pietro Fanna estreou pela Juve no final do primeiro turno da Serie A 1977-78, mas com grande estilo: atuou contra Pescara e Roma, marcando gols que valeram duas vitórias para a equipe, que se sagraria campeão italiana ao fim do certame. Apesar da colaboração, Fanna teve dificuldades de se adaptar ao ambiente cheio de pressão da gigante de Turim por causa de seu caráter tímido e introvertido.

Ainda com alguns cabelos, Fanna rege o jogo em seus primeiros anos com a Juve (Il Fatto Quotidiano)
Outro fator que contribuiu para que Fanna não despontasse ao longo dos cinco anos em que vestiu a camisa bianconera foi que ele poucas vezes foi utilizado em sua posição de origem pelo técnico Giovanni Trapattoni. Entre 1977 e 1982, nas mais de 100 partidas em que atuou pela Juventus, Pierino atuou como ala pela direita, mas também como segundo atacante, agindo como suporte a Roberto Bettega ou Pietro Paolo Virdis. Em 1981 e 1982, com alguns gols e muitas assistências, Fanna chegou a ser titular juventino e conquistou mais dois scudetti, embora fosse questionado pela fragilidade física – era franzino e não muito alto. Com isso, foi negociado com o emergente Verona.

O meia friulano chegou ao Vêneto por cerca de 1,5 bilhão de velhas liras, o que na época era um valor bastante respeitável. O jogador calvo, de apenas 24 anos, não havia demonstrado todo seu potencial em Turim, mas com a camisa scaligera explodiu de vez: atuando aberto pela direita no meio-campo, setor essencial do esquema do técnico Osvaldo Bagnoli, fez uma parceria memorável com o lateral Roberto Tricella.

O truque tático utilizado pelo estrategista veronês consistia em uma troca de posições entre os dois jogadores nos contra-ataques, o que permitia a abertura de espaços para que outros titulares daquele time, como Antonio Di Gennaro e Hans-Peter Briegel, finalizassem as jogadas. Além de confundir os adversários, Pierino era devastante pela faixa direita do meio-campo e estava sempre ditando o ritmo do histórico esquadrão do Verona que levantou o scudetto em 1985 e foi duas vezes vice-campeão da Coppa Italia, em 1983 e 1984.

Sem a pressão de jogar em um grande time, o carequinha conseguiu se tornar um dos melhores meias italianos dos anos 1980, o que lhe garantiu convocações para a seleção italiana. Fanna, que já participara dos Campeonatos Europeus sub-21 de 1978 e 1980, participou da Olimpíada de Los Angeles, em 1984, e foi chamado por Enzo Bearzot para 14 partidas pela Itália, todas entre 1983 e 1985 e 13 delas partidas amistosas. Nunca chegou a conseguir lugar no grupo do seu conterrâneo, que se manteve fiel aos tricampeões de 1982 e pouco renovou a seleção para a Copa do Mundo de 1986.

Última passagem de sucesso do meia foi pela Inter, clube em que também venceu a Serie A (Wikipedia)
Logo após ser um dos heróis do scudetto do Verona, Fanna recebeu uma nova chance em uma das equipes gigantes da Itália: por 5,2 bilhões de liras a Inter decidiu apostar no jogador de 27 anos, que parecia maduro o suficiente para arrebentar também em Milão, outra "piazza calda", como dizem os italianos. Em bom português, um barril de pólvora, cheio de pressão.

Na Beneamata, Fanna voltou a ter Marco Tardelli e Liam Brady como companheiros de meio-campo e tinha a tarefa de abastecer a forte dupla de ataque nerazzurra, formada pelo capitão Alessandro Altobelli e o panzer Karl-Heinz Rummenigge. Apesar de ter sido titular e ter ajudado a Inter a alcançar as semifinais da Copa Uefa, Pierino e a equipe não brilharam muito na temporada 1985-86.

No ano seguinte, a Inter sofreu uma pequena revolução, que levou Trapattoni ao comando da equipe. Sob as ordens do antigo treinador, Fanna manteve a titularidade no primeiro ano e, utilizado em sua função de origem, teve atuações regulares, marcando até um gol sobre a Juventus. Entre 1985 e 1988 o time de Milão teve temporadas positivas, mas não brilhantes. Nelas, o ala calvo foi figura importante, mas não jogou tanto quanto em Verona.

Sem convencer de todo a torcida interista e já no avançar da idade, Pierino acabou perdendo posição para o novo contratado Alessandro Bianchi na temporada 1988-89. Como reserva, o meia voltou a levantar um título nacional,  chegando ao recorde de ter faturado o scudetto com três times diferentes. É um dos cinco únicos jogadores a terem alcançado o feito, ao lado de Giovanni Ferrari, Sergio Gori, Aldo Serena e Attilio Lombardo.

Após o período de quatro anos na Inter, Fanna voltou ao Verona, aos 31 anos, com o intuito de encerrar a carreira no clube, que já não vivia os tempos de glória de anos atrás e passava por problemas financeiros. O carequinha atuou mais quatro temporadas pelos butei – duas na elite e duas na segundona – antes de se aposentar, em 1993.

Após pendurar as chuteiras, o ex-meia cuidou das divisões de base do Verona e, entre 1998 e 2000, foi auxiliar na comissão técnica de Cesare Prandelli no Hellas. Com a saída do treinador para o Venezia, ele acabou indo trabalhar nos Leões Alados, com contrato até 2002.

Hoje, Fanna continua ligado ao Hellas: mora em Verona e trabalha na rádio oficial do clube, comentando partidas. O meia preferiu não seguir carreira como técnico ou dirigente para deixar intacto o mito construído com a camisa gialloblù. Uma lenda que seria ainda maior e mais contada ao redor da Itália se a lustrosa carequinha tivesse brilhado da mesma forma em Turim e Milão.

Pietro Fanna
Nascimento: 23 de junho de 1958, em Grimacco, Itália
Posição: meio-campista
Times como jogador: Atalanta (1975-77), Juventus (1977-82), Verona (1982-85 e 1989-93) e Inter (1985-89)
Títulos conquistados: Serie A (1978, 1981, 1982, 1985 e 1989) e Coppa Italia (1979)
Seleção italiana: 14 jogos e nenhum gol (seis jogos e três gols pelo time olímpico)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

4ª rodada: O matador de velhinhas

Icardi marcou contra sua vítima favorita e fez a Inter quebrar jejum contra a Juve (LaPresse)
Em 2004, quando fizeram o satírico filme "Os matadores de velhinhas", os irmãos Joel e Ethan Coen jamais poderiam imaginariam que inspirariam o título de uma crônica esportiva. Pois bem, um dos maiores clássicos do futebol italiano, o Derby d'Italia, disputado entre as gigantes Inter e Juventus, teve um personagem que permitiu explorarmos este potencial: Mauro Icardi, a peça fundamental para dar a vitória e um pouco de renovação de moral aos nerazzurri – sem falar na liderança, que caiu no colo do Napoli. Acompanhe o resumo da rodada, que ainda teve um importante partida entre Fiorentina e Roma e vitórias do novo líder, do Milan, da Lazio e do Sassuolo.

Inter 2-1 Juventus
Icardi (Banega), Perisic (Icardi) | Lichtsteiner (Alex Sandro)

Tops: Icardi e João Mário (Inter) | Flops: Asamoah e Mandzukic (Juventus)

Há tempos o jogo que mexe com toda a Itália não era tão equilibrado. A supremacia da Juventus nos últimos anos coincidiu com a decadência da Inter, um time que tem prometido renascer após o investimento do grupo chinês Suning. Um bom passo para que isso possa acontecer foi a vitória sobre a grande rival, justamente em um momento de muita contestação – vale lembrar que os nerazzurri deram vexame na quinta, contra o Hapoel Be'er Sheva. Desde 2012 a Beneamata não batia a Velha Senhora pela Serie A e desde 2010 não a vencia em casa. E, em todo este período, não conseguiu ser páreo à pentacampeã, muito menos demonstrar superioridade. Palmas para De Boer, que organizou o time a partir de João Mário e Banega.

Porém, a equipe de Milão precisava de algo mais que uma equipe arrumada para superar o jejum. Era necessário uma espécie de exorcista, um especialista em fulminar a Juventus. Icardi, que tem na Velha Senhora a sua vítima preferida (são sete gols sobre os bianconeri), fez uma de suas melhores partidas com a camisa interista: o capitão se movimentou muito, buscou jogo fora da área, acertou a trave e foi o artífice da virada da Inter. Graças ao artilheiro, a equipe surpreendeu e não sentiu o gol de Lichtsteiner, que balançou as redes aproveitando a deficiência do time da casa nas laterais, justo em um momento em que a Beneamata era melhor. A resposta imediata de Icardi, que marcou de cabeça, foi apenas o prelúdio para sua belíssima assistência de trivela para o gol de Perisic, que definiu o Derby d'Italia e tirou a invencibilidade juventina.

Fiorentina 1-0 Roma
Badelj (Tomovic)

Tops: Badelj (Fiorentina) e Strootman (Roma) | Flops: Kalinic (Fiorentina) e Perotti (Roma)

Nas últimas temporadas, Fiorentina e Roma apresentaram futebol bastante agradável, entre os mais bem jogados da Itália. Por isso, quem esperava que a partida entre as duas equipes fosse exuberante, se decepcionou: faltou criatividade e intensidade tanto para os comandados de Paulo Sousa quanto para os de Spalletti.

O time visitante teve mais a bola e a manteve no campo de ataque, mas a noite apagada de Bruno Peres, Perotti, Salah e Dzeko contribuiu para que a Roma pouco ameaçasse Tatarusanu – o fez só no final, após a entrada de Totti, graças a um chute na trave de Nainggolan. Muito sólida no meio-campo, graças às boas atuações de Badelj e Sánchez, a viola controlou o ímpeto romano e tentou marcar com Milic e Kalinic, mas Szczesny estava bem colocado para defender. Já nos minutos finais, polêmica: Badelj arriscou de fora da área e acertou o canto do arqueiro polonês, mas o gol poderia ter sido anulado pelo impedimento de Kalinic, que estava na trajetória da bola.

Napoli 3-1 Bologna
Callejón (Insigne), Milik (Hamsík), Milik | Verdi

Tops: Milik e Callejón (Napoli) | Flops: Krafth e Gastaldello (Bologna)

Higuaín? Milik já tem mais gols do que jogos com a camisa do Napoli e faz a torcida ter mais facilidade para esquecer o Pipita. Com seis gols em cinco jogos – quatro na Serie A – o polonês saiu do banco para decidir a partida para os azzurri. O domínio total do Napoli sobre o Bologna no primeiro tempo, graças à ótima interação entre Zielinski, Hamsík, Callejón e Insigne, resultou em um gol prematuro, marcado pelo atacante espanhol após uma inversão de jogo do baixinho napolitano. Embora os partenopei tivessem criado o suficiente para ampliar o placar ainda antes do intervalo, uma falha de Reina permitiu o empate bolonhês nos primeiros minutos da segunda etapa – foi aí que Milik apareceu e tranquilizou a torcida no San Paolo, anotando um deles com o primeiro toque na bola e outro em muito oportunismo. Com os resultados, o Napoli termina a 4ª rodada na liderança da Serie A, com 10 pontos.

Sampdoria 0-1 Milan
Bacca (Suso)

Tops: Muriel (Sampdoria) e Bacca (Milan) | Flops: Skriniar (Sampdoria) e Bonaventura (Milan)

Aquela que poderia ser a primeira crise de bastidores do Milan foi resolvida dentro de campo. Para a visita a seu antigo time, o técnico Montella decidiu barrar Bacca (considerado pouco participativo) e deu uma chance como titular a Lapadula, artilheiro da última Serie B. Não deu certo: apagado em campo, muito por causa da má partida de Bonaventura, o ítalo-peruano foi substituído no segundo tempo pelo seu concorrente e viu ele colocar fogo no jogo. Bacca entrou acertando uma bola na trave, logo respondida pelo compatriota Muriel, que também balançou o poste, com um chute rasteiro. A Sampdoria, que teve dois gols bem anulados, acabou cedendo: um erro do jovem Skriniar possibilitou a roubada de bola de Suso, que só ajeitou para que Bacca, no finalzinho, marcasse o gol da segunda vitória milanista no campeonato.

Lazio 3-0 Pescara
Milinkovic-Savic (Felipe Anderson), Radu (Cataldi), Immobile (Keita)

Tops: Immobile (Lazio) e Caprari (Pescara) | Flops: Djordjevic (Lazio) e Memushaj (Pescara)

Quem assistiu só o primeiro tempo de Lazio e Pescara e acabou dando um cochilo ou tendo que sair para um compromisso pode ter dificuldades de assimilar o resultado final da partida. O equilíbrio dos times resultava em um jogo ofensivo e agradável: de um lado, os romanos tiveram uma bola na trave e um gol anulado de Immobile, além de uma incrível chance desperdiçada por Parolo, enquanto a equipe treinada por Oddo (ex-ídolo da Lazio) assustou com Caprari e perdeu pênalti com Memushaj, que cobrou muito mal. No segundo tempo, porém, os aquilotti definiram tudo em nove minutos e após a entrada de Keita. O senegalês substituiu o apagado Djordjevic e pôs fogo no jogo, decidido por dois gols de cabeça, de Milinkovic-Savic e Radu, e um bonito tento de Immobile.

Sassuolo 2-0 Genoa
Politano (pênalti), Defrel (Peluso)

Tops: Consigli e Defrel (Sassuolo) | Flops: Orbán e Pavoletti (Genoa)

Mesmo sem as peças que consagraram o Sassuolo nos últimos anos, o time de Di Francesco mantém o seu padrão. Dias depois de triturar o Athletic Bilbao pela Liga Europa, o time neroverde recebeu o Genoa e mostrou um pouco de cansaço, mas soube resolver o jogo porque se mantém fiel à proposta do treinador. A primeira etapa foi fraca e o time da casa só chegou com perigo com Duncan, que acertou a trave. Depois do intervalo os genoveses voltaram melhores, iluminados por Miguel Veloso, mas Consigli respondeu com boas defesas. Até que, aos 12 minutos, Defrel costurou na área e foi ingenuamente derrubado por Orbán – Politano converteu o pênalti. O francês voltou a incomodar Perin, que também fez um milagre no rebote, em chute de Ricci, e deixou o dele poucos minutos depois, completando cruzamento. As duas equipes estão com 6 pontos.

Cagliari 3-0 Atalanta
Borriello (João Pedro), Sau (Isla), Borriello

Tops: Borriello e Rafael (Cagliari) | Flops: Paloschi e Berisha (Atalanta)

Dia de alegria para o Cagliari desde antes de a partida começar. A torcida homenageou o brasileiro Nenê, estrela do scudetto conquistado em 1970, que faleceu no início do mês, e aplaudiu muito a lenda Riva e outros jogadores daquele time, que estiveram presentes na cerimônia. Dentro de campo, Borriello deu mais um show na temporada – já marcou oito gols, quatro na Serie A – e mostrou como é cruel com os times em que já jogou. Ele, que atuou em oito times diferentes no campeonato, só balançou as redes contra equipes nas quais foi referência. A boa partida defensiva dos sardos, com ótima atuação da dupla Bruno Alves-Ceppitelli, foi suficiente para barrar Kessié, Gómez e Paloschi. Quando teve chance, o artilheiro atalantino desperdiçou pênalti, defendido por Rafael.

Crotone 1-1 Palermo
Trotta (Falcinelli) | Nestorovski (Aleesami)

Tops: Palladino (Crotone) e Aleesami (Palermo) | Flops: Capezzi (Crotone) e Goldaniga (Palermo)

O campeonato nem bem começou, mas esta partida já marcava o confronto de dois futuros desesperados. Crotone e Palermo serão times que brigarão contra o rebaixamento e que já partem tendo de correr atrás do prejuízo: os calabreses somaram seu primeiro ponto na Serie A, ao passo que os palermitanos empataram pela segunda vez no certame. O Crotone – que mais uma vez jogou em Pescara, uma vez que seu estádio ainda está em reforma – saiu na frente depois que uma enfiada de Palladino originou o gol de Trotta, mas o Palermo cresceu no segundo tempo e empatou, com Nestorovski. Resultado justo para uma partida em que os times se equilibraram em seu baixo nível técnico.

Udinese 1-2 Chievo
Zapata (Hallfredsson) | Castro (Pellissier), Cacciatore (Castro)

Tops: Hallfredsson (Udinese) e Castro (Chievo) | Flops: Wagué (Udinese) e Inglese (Chievo)

Almoço indigesto para a Udinese. Jogando em casa, a equipe friulana foi inferior ao Chievo durante toda a partida, mas ainda assim ia conseguindo a vitória até os minutos finais. Apesar das atuações negativas de Théréau e De Paul, os bianconeri abriram o placar aos 25 minutos, quando Zapata aproveitou um cruzamento de Hallfredsson e fulminou, com belo cabeceio. O gol chamou o Chievo para cima, mas Karnezis não efetuou defesas complicadas até a reta final do jogo. Foi aí que um cruzamento de Hetemaj foi desviado por Pellissier e empurrado para as redes por Castro, que empatou o jogo. Os clivensi continuaram com a carga e, no quinto minuto de acréscimo, uma jogada similar acabou com o gol do lateral Cacciatore.

Torino 0-0 Empoli

Tops: Boyé (Torino) e Saponara (Empoli) | Flops: Iago (Torino) e Gilardino (Empoli)

São apenas quatro jogos na Serie A, mas o Torino de Mihajlovic (suspenso e substituído por Lombardo nesta rodada) ainda não engrenou. A equipe grená sentiu muito a falta do artilheiro Belotti nos últimos dois jogos, nos quais conseguiu apenas um pontinho. O primeiro tempo do Toro foi bom, mas a equipe não conseguiu capitalizar as chances criadas em gol: Obi e Boyé pararam em Skorupski e Acquah cabeceou para fora. Após o intervalo, o Toro caiu muito de rendimento por falta de preparo físico, mas o Empoli não conseguiu aproveitar, embora Saponara buscasse jogo. A partida negativa de Gilardino manteve o zero no placar, mas os toscanos se deram por satisfeitos pelo empate.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 3ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Consigli (Sassuolo); Cacciatore (Chievo), Miranda (Inter), Bruno Alves (Cagliari), Radu (Lazio); João Mário (Inter), Badelj (Fiorentina); Borriello (Cagliari), Defrel (Sassuolo), Milik (Napoli); Icardi (Inter). Técnico: Frank De Boer (Inter).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Italianos na Europa, semana 1: Pouco motivo para comemorar

Vitória do Sassuolo foi destaque da semana dos times italianos nas competições continentais (Ansa)
As fases de grupos da Liga dos Campeões e da Liga Europa começaram e nós mudamos o nosso sistema de análises: agora, traremos um resumo semanal do desempenho das equipes italianas nas competições continentais, a começar por hoje. O destaque foi a vitória do Sassuolo, que estreou na fase principal de um torneio da Uefa.

Em alta
Na quinta, o Sassuolo entrou em campo no Mapei Stadium para enfrentar o adversário mais tradicional e mais complicado do Grupo F, o Athletic Bilbao – os outros são o Rapid Viena, da Áustria, e o Genk, da Bélgica. Após um primeiro tempo equilibrado, os neroverdi partiram para cima dos bascos e nem sentiram a falta do seu principal craque, o atacante Berardi, vetado por lesão, e foram para cima da equipe que, duas temporadas atrás, eliminou o Napoli da Champions. 

O jovem lateral  direito Lirola, emprestado pela Juventus, abriu o placar com uma bela jogada individual e conclusão de canhota, e depois Defrel ampliou, contando com falha da defesa dos leões. O atacante francês, nome do jogo, ainda deu uma assistência de calcanhar para o terceiro tento, anotado por Politano com um chute da entrada da área, que deslocou o goleiro Herrerín. No outro jogo do grupo, o Rapid venceu o Genk por 3 a 2.

Quem também estreou com o pé direito, dessa vez pela Liga dos Campeões, foi o Napoli. A equipe viajou para a Ucrânia e saiu atrás do Dynamo Kyiv: uma desatenção da defesa levou ao gol de Garmash, que recebeu cruzamento na área e completou de voleio, abrindo o placar. Ainda no primeiro tempo, Milik virou, com dois gols de cabeça, mostrando que é letal: só finalizou 11 vezes com a camisa azzurra e marcou quatro gols pelo clube, até o momento. A expulsão de Sydorchuk, no final do jogo, ajudou os partenopei a segurarem o placar e garantirem a liderança do Grupo B – no outro jogo, Benfica e Besiktas ficaram no 1 a 1.

Futebol da Inter foi tão feio quanto o terceiro uniforme criado pela fornecedora (LaPresse)
Em baixa
A Inter foi a única equipe italiana a sair derrotada de campo neste meio de semana. O time voltou a uma competição europeia e teria um adversário de pouca expressão e muito inferior tecnicamente para ganhar ritmo na competição e, teoricamente, encaminhar sua classificação no Grupo K da Liga Europa – que também tem Southampton e Sparta Praga, com liderança dos ingleses. Porém, o Hapoel Be'er Sheva, campeão israelense, fez os nerazzurri – jogando com um horrendo terceiro uniforme azul e verde limão – protagonizarem um de seus maiores vexames na história dos torneios continentais. A derrota por 2 a 0 em San Siro se iguala às eliminações de 1995 para o Lugano, na Copa Uefa, e na Liga dos Campeões pelo Helsingborgs, em 2000.

Desde os primeiros minutos, o time alvirrubro de Israel foi melhor em campo. Lúcio Maranhão superou facilmente a marcação (sic) de Ranocchia e levou perigo constante ao gol de Handanovic, enquanto Buzaglo e Nwakaeme tiveram supremacia sobre Felipe melo, Medel, Nagatomo e Brozovic. A Inter até acertou a trave, com Éder, mas o domínio dos visitantes se traduziu em gol no segundo tempo, depois de uma jogada ensaiada e cruzamento para Miguel Vítor. O Hapoel Be'er Sheva ampliou com um belo gol de falta de Buzaglo e poderia ter feito mais, caso a tentativa de encobrir Handanovic, feita por Bitton, não tivesse parado no travessão.

Do banco de reservas, Frank De Boer assistiu incrédulo e passivo o seu time ser vaiado pela torcida, que também gritava "olé" quando os israelenses colocavam a Inter na roda. A falta de ação do holandês é normal, se levarmos em conta que ele não montou o elenco e foi catapultado a Milão cerca de um mês atrás, mas preocupa os torcedores. Afinal, a temporada já começou e a Beneamata enfrenta a Juventus no fim de semana, pela Serie A.

Juve até tentou, mas passou em branco diante do Sevilla (AP)
Não impressionaram
A Juventus, aliás, também não estreou da melhor das formas nas competições continentais. A cabeça de chave do Grupo H da LC, no entanto, teve tarefa muito mais complicada: recebeu o Sevilla, de Jorge Sampaoli. Apesar do adversário mais qualificado que o da Inter, é bem verdade que a Velha Senhora esteve longe dos seus dias mais inspirados e pouco conseguiu criar. 

Em um jogo de poucas chances, quase todas para os bianconeri, Khedira desperdiçou duas vezes frente a Rico, enquanto o goleiro fez uma bela defesa, já nos minutos finais, em cabeçada de Alex Sandro. Quando não conseguiu chegar na bola, contou com a sorte – foi assim quando Higuaín acertou o travessão em um belo cabeceio. O 0 a 0 não foi muito bom, mas a Juve deve se recuperar na próxima partida, contra o Dinamo Zagreb, que levou 3 a 0 do Lyon.

Na Liga Europa, Roma e Fiorentina jogaram fora de casa contra os adversários mais difíceis de seus respectivos grupos e empataram. Se não foi o resultado mais impressionante, o pontinho conquistado não é nada desprezível, uma vez que as duas equipes devem garantir classificação sem sustos.

A Roma foi à República Checa para enfrentar o Viktoria Plzen – tal qual os giallorossi, os checos caíram na fase preliminar da Champions e foram para a Liga Europa. Logo no início os romanos tiveram um pênalti a favor (mais um nesta temporada) e Perotti converteu, mas o empate veio a galope: uma irônica assistência de um jogador chamado Zeman para que Bakos balançasse as redes. O equilíbrio se manteve até o fim e a partida terminou mesmo com a igualdade – no outro jogo do Grupo E, o Astra Giurgiu perdeu em casa para o Austria Vienna.

Por sua vez, Paok e Fiorentina não saíram do zero em Tessalônica, na Grécia. O ataque viola não tem funcionado muito bem até o momento e Paulo Sousa precisa ficar atento a isto, mas menos mal que Qarabag e Slovan Liberec também empataram, no Azerbaijão. Tudo igual no Grupo J.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Setembro amarelo: a depressão e o suicídio também afetam jogadores do futebol italiano

Di Bartolomei ganhou quase tudo com a Roma, mas isso não preencheu seu vazio interior: após se
aposentar, o craque entrou em depressão e cometeu suicídio (Getty)
O último sábado, 10 de setembro, foi o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Com base nisso, entidades brasileiras, como CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), iniciaram a campanha Setembro Amarelo, para conscientizar a população do Brasil para a realidade do suicídio no país e divulgar formas de prevenção. O tema é tabu por aqui e em áreas específicas, como o esporte, ainda mais: pouca gente sabe que o mundo do futebol – especialmente o italiano – tem altos índices de depressão e tentativas de suicídio entre jogadores e ex-atletas.

Em 2007, um estudo feito pela Federação Internacional dos Jogadores Profissionais de Futebol – FIFPro em 11 países chegou a um número alarmante: pouco mais de um terço dos entrevistados sofriam ou já haviam sofrido com sintomas de depressão – o índice era maior entre os jogadores que já haviam se aposentado. A pesquisa não foi feita na Itália e não falou em suicídio, mas estima-se que mais da metade das pessoas que se suicidaram estavam deprimidas e que o risco de uma pessoa com perturbações do humor (principalmente depressão) tirar a própria vida é de 6 a 15%.

O futebol é uma montanha-russa e um jogador pode passar de ídolo a dispensável, de craque a perna de pau em segundos. A pressão, as responsabilidade e a exposição são enormes, e muitas vezes o atleta, muitas vezes de vida humilde, precisa abrir mão desde cedo de aspectos de sua vida pessoal para ser a principal fonte de renda de sua família. Quando a carreira acaba, o vazio é inevitável – e nem precisa dizer que dinheiro, fama e sucesso não trazem, necessariamente, felicidade.

Na Itália, tal qual em outros países, a figura do psicólogo para acompanhar os jogadores dentro dos clubes já é bastante comum, a fim de prevenir que problemas mais sérios de saúde mental aconteçam. Na gestão de Damiano Tommasi, ex-Roma, a Associação Italiana de Jogadores – AIC, está tentando fazer um trabalho mais forte com ex-atletas, jogadores lesionados e também junto à família dos atletas, para tentar humanizar ainda mais a profissão. Se iniciativas semelhantes fossem tomadas antes, muito sofrimento poderia ter sido evitado.

Recém-aposentado, Pessotto tentou suicidar-se na sede da Juventus (Getty)
As vidas comprometidas
Até hoje, dois jogadores que atuaram no futebol italiano cometeram suicídio. O mais famoso deles foi Agostino Di Bartolomei, capitão e um dos maiores jogadores da história da Roma, que não suportou o fim da carreira, o que deixou de conquistar e as dívidas. Em 1994, três anos depois de se aposentar, Ago estava no auge da depressão e o que lhe dava prazer anteriormente, como o esporte, sua família e cuidar do seu jardim, significava pouco.

Em sua carta de despedida, ele disse "se sentir em um buraco". No dia 30 de maio de 1994, exatamente 10 anos após a final perdida da Copa dos Campeões, pelo Liverpool, o ex-meio-campista foi encontrado morto com um tiro de pistola 38 em seu peito.

Pouco mais de um ano depois, a depressão e o suicídio levaram outro jogador. Dessa vez, um jovem de apenas 25 anos: Edoardo Bortolotti. Promissor, o lateral esquerdo do Brescia já jogava na seleção sub-21 italiana e interessava à Roma, mas uma fratura na fíbula, em 1991, o afastou dos gramados por um longo tempo. Fora de combate por quase quatro meses, entrou em depressão e passou a usar cocaína para aliviar as dores de quem estava em alta e poderia ter a carreira comprometida por uma fratura.

Assim que voltou a ser relacionado pelo Brescia, foi pego em um exame antidoping e ficou suspenso por um ano – além de ter seu contrato rescindido pelo clube lombardo. Bortolotti tentou voltar a jogar em clubes de divisões inferiores, mas nunca mais conseguiu jogar bem ou ter o prazer de ser futebolista. Perdido no meio do caminho, aquele que poderia ser um ótimo jogador sucumbiu à pressão e às contumazes críticas e decidiu largar o esporte aos 24 anos. Em 2 de setembro de 1995, com problemas financeiros, tomou tranquilizantes e se atirou do terceiro andar. Chegou a ser internado, mas morreu pouco depois de dar entrada no hospital.

O destino de Bortolotti poderia ser o mesmo de Gianluca Pessotto, lateral que fez sucesso em mais de uma década pela Juventus. Logo após se aposentar, em 2006, ele virou team manager da Velha Senhora, mas não estava se sentindo bem com a vida – e pendurar as chuteiras não ajudava nisso. No dia 27 de junho, com um terço em mãos, o dirigente se atirou de um parapeito na sede da Juve, mas caiu em cima do carro do colega Roberto Bettega, o que amorteceu sua queda e o salvou.

O ex-lateral entrou em coma, foi homenageado pela seleção italiana na campanha do tetracampeonato mundial, e foi se recuperando física e psicologicamente, até ter alta, no início de setembro. Em 2008, já curado da depressão e sem sequelas da sua tentativa de suicídio, ele publicou uma autobiografia, na qual contava sua trajetória. Pessottino ainda trabalha na Juventus, ajudando a formar novos jogadores nas categorias de base dos bianconeri.

Depois que seu pai morreu, Adriano entrou em depressão e nunca mais foi o mesmo (AP)
São poucos os jogadores que já tiveram coragem de falar sobre o assunto – principalmente os que ainda estão em atividade. Alguns casos mais graves são de jogadores menos conhecidos, como Marco Bernacci (ex-Bologna) e Saul Santarelli (ex-Messina) chegaram a rescindir seus contratos por vontade própria porque estavam incapacitados de jogarem futebol. O jovem Martin Bengtsson, ex-meia das categorias de base da Inter, não aguentou a mudança da Suécia para a Itália aos 17 anos e a solidão o levou a cortar os pulsos. Devastado pelo quadro depressivo e – alega – tratado de forma inadequada pelo departamento médico nerazzurro, decidiu não prosseguir como profissional e virou músico.

Entre os jogadores mais conhecidos que falaram do tema durante sua carreira profissional, Thiago Silva, ex-Milan, já declarou ter tudo depressão quando teve tuberculose em seus tempos de Rússia; Christian Vieri também padeceu quando foi espionado pela direção da Inter, ao passo que seu colega Matías Almeyda também se deprimiu e teve ataques de pânico durante um período de lesões – desde então, toma antidepressivos e ansiolíticos. Carlos Tévez e o volante Emerson também mencionaram ter passado por episódios depressivos durante sua carreira. Paul Gascoigne nunca assumiu ter depressão, mas o abuso de bebidas alcoólicas é um sintoma muito frequente entre portadores de depressão.

Em 2003, quem passou por um período difícil de sua vida foi Gianluigi Buffon – o Superman mostrou que era humano e passou por um período de sete a oito meses em depressão. As pressões da carreira e a descoberta de que ele havia falsificado um diploma de ensino médio para se inscrever na universidade, anos antes, fizeram com que ele adoecesse: se sentia culpado pelo gesto desleal e por ter decepcionado os pais e seus familiares.

Após várias sessões de psicoterapia e uso de fármacos, o mito do futebol recuperou a felicidade e colocou a carreira nos trilhos novamente. "Daquela experiência traumática eu saí mais forte e maduro. Vencer a depressão foi a principal defesa da minha vida", disse ao diário Il Giornale, de Turim.

Infelizmente, um craque que ainda não encontrou o seu caminho é Adriano – um dos casos mais emblemáticos em toda a história do futebol, quiçá. O brasileiro jogou tanta bola na Itália que passou a ser chamado de Imperador, mas a morte do pai, em 2004, e a de um amigo, em 2006, lhe tiraram o foco e a alegria. Após uma batida policial, o atacante passou a ser vítima de extorsão, o que também atrapalhou o desenvolvimento se seu futebol.

No final das contas, o sucesso e a riqueza repentinos foram coisas com as quais Adri não soube lidar: com a má fase, se entregou ao alcoolismo, pensou em parar de jogar futebol e em se suicidar. Massimo Moratti, Iván Córdoba e Javier Zanetti tentaram lhe ajudar em seus tempos de Inter, mas não conseguiram – o ex-capitão nerazzurro diz que esse é o seu maior arrependimento como futebolista. Sem cuidados psicológicos e acompanhamento psiquiátrico, Adriano não teve mais continuidade e foi apenas uma sombra do que era quando explodiu.

Falar sobre saúde mental é sempre muito delicado e penoso, mas é necessário ultrapassar esta barreira. A lista de craques que o futebol da Itália perdeu por suicídio ou que foram afetados por distúrbios de humor são apenas uma amostra de como o problema é sério em todas as sociedades. Portanto, cabe um apelo: ajude as pessoas próximas a se abrirem sobre o assunto e busque ajuda, se estiver se sentindo diferente. Todo mundo pode salvar uma vida.