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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

De Eriberto a Luciano: um gato brasileiro na Serie A

Luciano arrependeu-se de ter falsificado documentos e, com seu nome real, fez carreira no Chievo (UOL)
O ano é 1995. No Rio de Janeiro, um jovem órfão de 19 anos dependia do sustento da irmã e do cunhado para sobreviver e já se sentia como um fardo para o humilde e recém-formado casal. Precisava trabalhar para sobreviver, era bom de bola e seu sonho era ser jogador de futebol, mas que clube o aceitaria, com a idade que tinha? Foi aí que um olheiro, professor de uma escolinha de futebol, apareceu em sua vida com a solução.

O olheiro, Reninson Gomes Barreto Filho, visitou a família de Eriberto Conceição da Silva, garoto de 16 anos que também tentava ser jogador de futebol. Garantiu a seus pais que conseguiria vagas em peneiras de grandes times brasileiros, mas que para isto, precisaria de autorização e da certidão de nascimento do adolescente. Após obter a documentação, a saída para os problemas de Luciano Siqueira de Oliveira, o nosso órfão de 19 anos, estava concretizada: seduzido pelo olheiro e precisando mudar de vida, Luciano aceitou mudar também de identidade. A partir da certidão obtida, tirou documentos falsos (RG, CPF, título de eleitor e passaporte) e se transformou em Eriberto, três anos mais novo. Sob a tutela de Reninson, participaria de peneiras Brasil afora e, se não fosse aceito, tentaria se sustentar de outra forma.

O novo Eriberto surgiu para o mundo em abril de 1996, quando todas as falsificações foram concluídas. A solução proposta pelo olheiro acabara por dar resultados: o meia-atacante passou em uma peneira do Palmeiras e, a partir de 1997, foi aproveitado na equipe principal por Luiz Felipe Scolari. Eriberto participou do vice-campeonato brasileiro naquele ano e foi ganhando espaço, a ponto de marcar cinco vezes no Brasileirão de 1998 e de participar da campanha do título da Copa do Brasil – sem falar nas convocações para a seleção sub-20 canarinho, com a qual disputaria o Sul-Americano da categoria, em 1999. Com destaque, foi vendido ao Bologna pelo equivalente a cinco bilhões de velhas liras.

Os primeiros momentos de Eriberto na Itália não foram tão positivos quanto no Palmeiras: o meia ficou conhecido por jogadas de velocidade e destreza, mas que não apresentavam consistência. Além da irregularidade em campo, viveu rodeado por polêmicas fora dos gramados – foi pego dirigindo alcoolizado algumas vezes, por exemplo. Ainda assim, o brasileiro fez 54 partidas em duas temporadas pelos bolonheses e marcou quatro gols – um deles, contra o Venezia, após uma arrancada de 70 metros.

Naquela época, o Bologna tinha um bom elenco e, através do título da Copa Intertoto, chegou a se classificar à Copa Uefa. Eriberto, porém, contribuía pouco: o meia-atacante chegou a ter bons companheiros, como Francesco Antonioli, Gianluca Pagliuca, Giancarlo Marocchi, Carlo Nervo, Klas Ingesson, Giuseppe Signori, Kennet Andersson, Igor Kolyvanov e o compatriota Zé Elias, mas não teve atuações boas o suficiente para convencer técnico e diretoria de que merecia mais espaço. Com isso, foi vendido ao Chievo por 2 bilhões de liras. Um passo para trás para o jogador, pois os clivensi nunca tinham disputado a Serie A e estavam na segunda divisão.

Em Verona, tudo começou a mudar. Eriberto foi alçado à condição de titular absoluto do 4-4-2 de Luigi Delneri e estreou marcando o gol da vitória dos gialloblù sobre o tradicional Genoa. Enquanto o brasileiro era vital pelo lado direito do setor e atacava com velocidade e cruzamentos certeiros para o centroavante Bernardo Corradi, o colega marfinense Christian Manfredini fazia o mesmo na ponta esquerda – a dupla acabou sendo conhecida como "freccie nere" ou "os flechas negras". Com esta fórmula, o Chievo garantiu o acesso à Serie A e fez história. Mas não parou por aí.

Em 2001-02, o time veronês estreou na elite aplicando um 2 a 0 sobre a Fiorentina, então campeã da Coppa Italia, em Florença. A surpreendente vitória foi uma metáfora para toda a temporada, pois os comandados de Delneri formaram o time apelidado de "Chievo dos milagres": com participação ativa de Eriberto (30 partidas e quatro gols), a equipe ficou com a quinta posição no campeonato e uma vaga na Copa Uefa. Inimaginável, até então. Com dinheiro no bolso e notoriedade esportiva, Eriberto tinha recebido uma rica proposta da Lazio (campeã italiana dois anos antes), mas não estava feliz: o incomodava viver como se fosse outra pessoa. Atormentado e com a consciência pesada, vivia crises de identidade e queria que seu filho Felipe, de 2 anos, pudesse saber quem de fato ele era.

Após se libertar da mentira, Luciano encontrou a felicidade em Verona (Skysports)
Então, durante as negociações com a Lazio, Eriberto decidiu, com o apoio da esposa, Raquel, contar a verdade: era gato. "Quanto mais o tempo passava, mais eu me fazia perguntas. Preferi tomar coragem e ser sincero, pois não conseguia mais lidar com o peso da mentira", declarou, ao Goal, em 2014. A confissão era mais um escândalo no registro de jogadores da Serie A – naquela mesma época, Milan e Inter foram condenados por adulterar dados nos passaportes de alguns jogadores – e teve consequências imediatas, no Brasil e na Itália. Em meio a todo o caos, o presidente do Chievo, Luca Campedelli, e o procurador de Luciano, Pedrinho Vicençote (ex-meia de Palmeiras, Vasco e Catania) deram apoio total ao atleta.

Luciano foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a indenizar o verdadeiro Eriberto em 100 mil reais, pois, por causa da fraude, ele viveu seis anos enfrentando constrangimentos diante das acusações de uso de documentos falsos. A Federação Italiana de Futebol – FIGC, multou o jogador em 160 mil euros e o suspendeu das atividades esportivas por um ano. A admissão de culpa e a confissão espontânea foram consideradas atenuantes, após recurso, e sua pena foi reduzida para seis meses de gancho. A ida para a Lazio melou, mas Luciano havia tirado um peso das costas.

Após a suspensão, Luciano voltou a jogar pelo Chievo e ajudou a equipe a ser sétima colocada do Italiano na temporada 2002-03. Com quase 28 anos, em plena maturidade física, viu que as portas para o estrelato ainda estavam abertas para ele. O brasileiro recebeu uma proposta da Inter, que o contratou por empréstimo e lhe deu a camisa 11, utilizada por uma lenda que atuava na mesma função em campo, o ponta Mario Corso. Luciano, no entanto, passou longe de ser até mesmo o Eriberto dos tempos de Chievo e nem engraxou as chuteiras de Mariolino: após seis meses e sete jogos pelos nerazzurri, foi devolvido à equipe de Verona.

Na volta ao estádio Marcantonio Bentegodi, Luciano recuperou a boa forma e foi se estabelecendo como um dos pilares de um time que, ano após ano, protagonizava campanhas surpreendentes na Serie A – nenhuma tão boa quanto a de estreia, mas com resultados significativos. Em 2006-07, os clivensi chegaram a se beneficiar da penalização imposta a equipes envolvidas no Calciopoli e, com o quarto lugar conquistado pós-tapetão, pode estrear na Liga dos Campeões. No entanto, foram eliminados pelo Braga na última fase preliminar e tiveram de disputar a Copa Uefa. A mesma temporada acabou mal para os gialloblù, que foram rebaixados para a Serie B pela única vez desde que estrearam na elite.

Luciano permaneceu em Verona e foi um dos artífices do retorno imediato para a Serie A, obtido com o título da segundona – o único troféu da história do Chievo. O brasileiro, que vestiu as camisas número 15, 5 e 10 dos Burros Alados ao longo de 13 anos no clube, permaneceu no elenco até 2013, quando seu contrato se encerrou. Aos 37 anos, acertou com o Mantova, da quarta divisão, mas atuou somente em seis partidas, jogando mal, e teve o contrato rescindido. Foi a deixa para anunciar a aposentadoria e ir morar em Florianópolis, cidade em que é dono de um flat.

Até hoje, Luciano, ex-Eriberto, é um dos grandes nomes da história do Chievo. Durante mais de uma década de casa, defendeu os gialloblù em 316 partidas, tornando-se o sexto jogador com mais aparições da história do clube. O crime certamente não compensa e o carioca pode se orgulhar de ter percebido que escolhera o caminho errado para trilhar: recebeu da vida uma rara segunda chance e construiu uma bela trajetória, com um final feliz.

Luciano Siqueira de Oliveira
Nascimento: 3 de dezembro de 1975, no Rio de Janeiro
Posição: meia-atacante
Clubes em que atuou: Palmeiras (1997-98), Bologna (1998-2000), Chievo (2000-03 e 2004-13), Inter (2003-04) e Mantova (2013)
Títulos: Copa do Brasil (1998), Copa Intertoto (1998) e Serie B (2008)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

20ª rodada: O campeonato à parte da Fiorentina

Fiorentina derrotou a rival Juventus e apimentou a briga pelo scudetto (Getty)
Ganhar é bom, mas ganhar da Juventus é melhor ainda, diria um Galvão Bueno de Florença. Não há nada mais importante na temporada de um torcedor da Fiorentina que comemorar a vitória viola frente à Velha Senhora, sobretudo se o resultado significar pôr dificuldades em seu caminho. A Juve ainda tem um jogo a menos – contra o fraco Crotone –, mas a vantagem para Roma e Napoli, grandes adversários ao título, caiu três pontos, e a temporada de agouros e mandingas das torcidas contra os bianconeri foi reiniciada. Além do clássico, outros destaques da rodada foram a Inter, que chegou a cinco vitórias consecutivas e está se aproximando do pelotão que briga por vaga na Liga dos Campeões, e o jogaço entre Torino e Milan.

Fiorentina 2-1 Juventus
Kalinic (Bernardeschi) e Badelj | Higuaín

Tops: Chiesa e Sánchez (Fiorentina) | Flops: Dybala e Marchisio (Juventus)

Em mais uma demonstração da sua fragilidade longe do Juventus Stadium, a Velha Senhora caiu em Florença para a rival viola. Esta foi a quarta derrota bianconera no campeonato, todas fora de Turim, sendo três nas últimas cinco partidas – e três para adversários ferrenhos, como a própria viola e os gigantes de Milão. A queda no rendimento dos bianconeri permitiu à Roma voltar a se aproximar da briga pela liderança, agora distante apenas um ponto, ainda que a Juve tenha uma partida a menos, diante do Crotone. No domingo, porém, a festa maior foi da Fiorentina, que contou com grande presença da torcida, sumida nos últimos tempos, e homenagem para o ídolo Giancarlo Antognoni, que voltou ao clube como diretor.

Em campo, o time de Paulo Sousa soube neutralizar bem a equipe de Max Allegri, matando o coração criativo do time: Marchisio e Dybala, sumidos  no Artemio Franchi, e também Alex Sandro, engolido por Chiesa e Sánchez – o volante colombiano foi escalado como zagueiro pela direita. Para isso, trabalho de muito sacrifício desde o ataque, impedindo o domínio territorial adversário. Dessa vez, a Fiorentina não teve tanto a bola como de costume, mas atacou bem, inclusive mais do que os juventinos, e abriu o placar com Kalinic, após assistência de Bernardeschi, no final do primeiro tempo. Pouco depois do intervalo, uma nova desatenção da defesa levou ao gol de Badelj, que lançou o jovem Chiesa em diagonal: o filho de Enrico nem mesmo tocou na bola, mas enganou Buffon e fez questão de apontar para o regista croata na comemoração. Logo na sequência, Higuaín aproveitou raro momento de desatenção da defesa viola e descontou. Um gol que não desestabilizou os anfitriões, que mantiveram o placar até o fim com pouco sofrimento.

Udinese 0-1 Roma
Nainggolan (Strootman)

Tops: De Paul (Udinese) e Nainggolan (Roma) | Flops: Fofana (Udinese) e Dzeko (Roma)

Dzeko perdoa, Nainggolan não. Contra a Udinese, a Roma esteve longe de fazer grande partida, mas encaixou a segunda vitória consecutiva fora da capital, superando a derrota para a Juventus. Os giallorossi fizeram sua parte na tarde, comemoraram o tropeço da rival à noite e agora voltam a sonhar com uma disputa mais apertada pelo título. Em Údine, Dzeko não esteve em grande forma e perdeu grandes chances, além de um pênalti (um dos mais mal batidos dos últimos tempos), mas o meio-campo de Spalletti funcionou muito bem: Paredes, Strootman e, como sempre, Nainggolan, fizeram grande partida e controlaram o setor. Desde a saída de Pjanic, o belga cresceu extraordinariamente e se tornou protagonista não apenas pela energia e dinamismo, mas também pelo poder de decisão.

Não que Szczesny tenha sofrido muito, até porque Manolas e Fazio estiveram seguros, mas o goleiro polonês também foi decisivo: fez intervenções importantes para a manter a vitória, que saiu com gol de Radja logo no início. Depois de boa sequência, a Udinese chegou a duas derrotas seguidas no Friuli, mas o time de Delneri e a torcida friulana não podem perder o pique. A posição segue bastante confortável na tabela, afinal de contas, e a ótima partida do argentino De Paul pode significar crescimento na produção ofensiva, se ele mantiver a forma. O meia-atacante fez péssimas atuações na primeira parte da temporada, mas, neste domingo, se ressentiu da falta de colaboração de Zapata e Théréau.

Inter 3-1 Chievo
Icardi (Candreva), Perisic (Icardi) e Éder (Palacio) | Pellissier (Birsa)

Tops: Icardi (Inter) e Sorrentino (Chievo) | Flops: D'Ambrosio (Inter) e Gobbi (Chievo)

Em que pese o sofrimento até os minutos finais, dessa vez a Inter teve uma grande exibição. Jogando em alto ritmo desde o primeiro minuto, o time de Pioli teve bastante volume do jogo e o veterano Sorrentino acabou sendo o grande protagonista da partida – para o bem e para o mal. Contra a equipe de Maran, bem fechada por dentro, sobrou espaço nas laterais para os donos da casa jogarem, mas outra vez pesou a falta de precisão na construção das jogadas, especialmente nos cruzamentos. Foram 34 somente no primeiro tempo (um recorde na Serie A) e 70 no total. Ainda assim, foi em um cruzamento do contestado Candreva que saiu o gol de empate, completado pelo artilheiro Icardi. Empate porque outro veterano gialloblù já havia atirado um balde de água fria nos interistas. Na metade do primeiro tempo, durante a enorme pressão anfitriã, Pellissier se antecipou a D'Ambrosio na pequena área e completou escanteio de Birsa.

O gol do capitão foi a única chance clara de gol dos visitantes, que ainda acertaram o gol outras três vezes, mas sem perigo para Handanovic. Enquanto o Chievo pouco fazia e Maran mexia mal, Pioli ajeitou o time: Éder, especialmente, e também Banega e Palacio tiveram impacto na virada. Como não poderia deixar de ser, coube a Perisic decidir. Aos 86, o croata recebeu de Icardi, que recuperou bola no meio-campo, e chutou no meio do gol – Sorrentino, autor de mais de dez defesas difíceis no jogo, acabou falhando. Ainda deu tempo para Palacio e Éder criarem o terceiro gol no último lance da partida, aproveitando falha de Gobbi e garantindo a quinta vitória consecutiva dos nerazzurri, que agoram têm 36 pontos. O Chievo, que perdeu pela terceira vez seguida, permanece no meio da tabela.

Torino 2-2 Milan
Belotti (Ljajic), Benassi (Falqué) | Bertolacci, Bacca (pênalti)

Tops: Falqué e Belotti (Torino) | Flops: Ljajic (Torino) e Romagnoli (Milan)

Um dos grandes jogos da rodada. Tal qual na partida da última quinta-feira, pelas oitavas de final da Coppa Italia, o Torino começou colocando o Milan contra as cordas: o ritmo intenso do time de Mihajlovic forçou alguns erros da defesa rossonera e foi o fator principal para a vantagem. Falqué saiu costurando pela direita, deu uma caneta em Romagnoli e cruzou para Ljajic chutar mascado. Belotti, no lugar certo, desviou e fez o primeiro. Quatro minutos depois, em jogada semelhante, foi o artilheiro quem rolou para Falqué bater errado e Benassi, de letra, desviar.

O Toro poderia ter ampliado ainda no primeiro tempo, mas Ljajic foi displicente e Donnarumma defendeu a quarta das sete cobranças de pênaltis que teve contra si na carreira. Um gol que faria falta demais à equipe granata, pois os rossoneri conseguiram buscar o empate. Hart bem que tentou evitar, e fez ótimas defesas contra Suso e Bertolacci, ainda no primeiro tempo, e uma série de intervenções complicadas após o intervalo. No entanto, sucumbiu a falhas seguidas de sua defesa, pouco reativa à presença de Bertolacci na área e, depois, ao erro de Rossettini, que derrubou Paletta na área quando o goleiro já tinha o controle da pelota. A mesma displicência de Ljajic também acometeu o Milan, que poderia ter virado com Niang, no final. O empate não serviu aos times: os rossoneri perderam a chance de encostar no pelotão que incomoda a Juventus e o Toro ficou estacionado na oitava posição.

Outra vez decisivo, Perisic garantiu quinta vitória consecutiva da Inter (LaPresse)
Napoli 3-1 Pescara
Tonelli (Jorginho), Hamsík (Zielinski) e Mertens (Allan) | Caprari (pênalti)

Tops: Hamsík e Tonelli (Napoli) | Flops: Zuparic e Coda (Pescara)

Por incrível que pareça, o Napoli suou para vencer o Pescara e encostou na Juve. Depois do empate no Adriatico na primeira rodada, os golfinhos novamente foram uma pedra no sapato do time napolitano, que demorou para encaixar seu jogo no San Paolo. Quando encaixou, claro, sobrou contra a frágil defesa armada pelo técnico Oddo. O zagueiro-artilheiro Tonelli, pupilo de Sarri no Empoli justamente pelos gols em jogadas de bola parada, abriu o marcador e anotou seu segundo gol em dois jogos na Serie A. Sem tempo para perder, o Napoli ampliou na sequência, quando Zielinski lançou para Hamsík deslocar Bizzarri com um toque de primeira. Tudo isso em dois minutos logo após o intervalo, mostrando rápida reação depois de primeiro tempo fraco. Ainda deu tempo para Mertens guardar o seu aos 85, com passe de Allan, e até da defesa anfitriã conceder pênalti estúpido, convertido por Caprari.

Lazio 2-1 Atalanta
Milinkovic-Savic (Lulic) e Immobile (pênalti) | Petagna (Freuler)

Tops: Milinkovic-Savic e Immobile (Lazio) | Flops: Berisha e Kurtic (Atalanta)

Aproveitando a sequência em casa, a Lazio afastou qualquer possibilidade de queda na tabela depois de terminar o ano perdendo para a Inter: a equipe romana venceu novamente, dessa vez um adversário direto, mantendo vantagem na quarta posição e continuando no encalço do Napoli. No confronto entre duas das equipes mais físicas do campeonato, melhor para o time de Inzaghi, que teve no gigante Milinkovic-Savic seu protagonista. O treinador abriu Felipe Anderson e Lulic nas alas e apostou na presença do sérvio por dentro. O gigante balcânico dominou as áreas por onde pisou e fez o gol de empate laziale, em assistência de Lulic. Petagna abriu o placar aos 21, em uma das poucas oportunidades do time de Gasperini, neutralizado também pela defesa anfitriã. De pênalti, novamente Immobile foi decisivo para virar e garantir a vitória biancoceleste. Curiosamente, os técnicos dos dois times foram expulsos pelo árbitro Pairetto.

Cagliari 4-1 Genoa
Borriello, João Pedro, Borriello e Diego Farias (pênalti) | Simeone (Edenílson)

Tops: Borriello e Rafael (Cagliari) | Flops: Capuano (Cagliari) e Rigoni (Genoa)

No início, as coisas pareciam encaminhadas para mais um tropeço do Cagliari. Na enésima falha defensiva do time de Rastelli, Simeone sobrou para completar cruzamento de Edenílson na metade do primeiro tempo. Mas os anfitriões finalmente reagiram, e a partir de então, massacraram:  acertaram o gol visitante 12 vezes e, em quatro delas, Lamanna foi superado. O ex-grifone Borriello foi protagonista na reação, participando diretamente de todos os gols. No primeiro tempo, marcou o gol de empate, aos 40, e três minutos depois acertou a trave, oferecendo o rebote para João Pedro virar. Na etapa final, o veterano centroavante voltou a marcar e chegou ao seu nono gol no campeonato e, logo depois, deixou Diego Farias bater pênalti para decretar a goleada. Vantagem mantida também por causa de outro brasileiro, o goleiro Rafael, que impediu que as estocadas finais do Genoa pudessem ter resultado.

Sassuolo 4-1 Palermo
Matri (Berardi), Ragusa (Berardi), Matri e Politano (Defrel) | Quaison (Nestorovski)

Tops: Berardi e Matri (Sassuolo) | Flops: Posavec e Vittiello (Palermo)

Uma vitória para extravasar. Depois de sequência negativa e muitos problemas por lesão, o Sassuolo voltou a vencer e como não poderia deixar de ser, Berardi foi o grande protagonista. O jovem não marcou, mas deixou sua marca com duas assistências e outras jogadas de efeito. De qualquer forma, o Sassuolo viu os visitantes que abrirem o placar, depois que Nestorovski ajeitou de letra para Quaison marcar, logo aos nove minutos. Ainda assim, o empate veio a galope e Matri voltou às redes depois de três meses e 12 partidas, em passe de Berardi. Quem também aproveitou ajuda do camisa 25 foi Ragusa, que virou nove minutos depois. Na segunda etapa, Matri marcou novamente e deixou a vida de Di Francesco muito mais tranquila – o substituto de Berardi, Politano, ainda fez o quarto no final. O Palermo segue afundado na zona de rebaixamento, agora com oito de desvantagem para o Empoli, enquanto o Sassuolo aproveitou para se aproximar do meio da tabela.

Sampdoria 0-0 Empoli
Tops: Puggioni e Skriniar (Sampdoria) | Flops: Muriel (Sampdoria) e Marilungo (Empoli)

No único 0 a 0 da rodada, Samp e Empoli protagonizaram um jogo pouco técnico, marcado por muitas perdas de posse e duelos aéreos. Nesse cenário, as defesas foram os destaques, enquanto os atacantes sucumbiram ao domínio físico e imprecisão nas jogadas. O lance mais clamoroso acabou sendo o pênalti de Mchedlidze, defendido por Puggioni no primeiro tempo, enquanto do outro lado Muriel não teve a energia de sempre e ainda perdeu várias chances – em uma delas, Laurini salvou em cima da linha. O empate não muda a situação dos times na tabela: a Sampdoria está estacionada na 13ª posição e o Empoli, primeiro time acima da zona de rebaixamento, mantém boa diferença para o Palermo.

Crotone 0-1 Bologna
Dzemaili (Krejci)

Tops: Mirante e Dzemaili (Bologna) | Flops: Trotta e Rosi (Crotone)

Crotone e Bologna fizeram um jogo que parecia não ter fim. Em mais um exemplo do mau planejamento da Serie A para aproveitar um horário com bastante visibilidade para o mercado asiático, os "gênios" da liga escolheram deixar esta partida isolada na tarde de sábado. Para desgosto de quem queria bom futebol, as equipes da parte de baixo da tabela fizeram tiveram confronto marcado pela baixa qualidade técnica e pelos problemas físicos dos visitantes, que obrigaram Donadoni a fazer duas substituições ainda no primeiro tempo. Ainda assim, o ritmo subiu enquanto os emilianos buscaram o gol e quando os anfitriões buscaram a reação, frustrada por exibição importante de Mirante e da bem postada defesa felsinei. Dzemaili mais uma vez fez gol decisivo, mantendo o Bologna longe da zona de rebaixamento e o novato Crotone desesperançoso, com apenas nove pontos e 14 derrotas em 19 partidas.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 19ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Sorrentino (Chievo); Sánchez (Fiorentina), Tonelli (Napoli), Fazio (Roma); Berardi (Sassuolo), Gagliardini (Inter), Milinkovic-Savic (Lazio), Nainggolan (Roma), Perisic (Inter); Icardi (Inter), Borriello (Cagliari). Técnico: Stefano Pioli (Inter).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Jogadores: Alessandro Del Piero

Nas graças do povo: após vencer Copa do Mundo de 2006 com a Azzurra, Del Piero volta à Juve para disputar a Serie B e comemora gol de número 200 com a camisa bianconera (Foto: Juventus.com)
“Um verdadeiro cavalheiro nunca abandona sua senhora”, afirmou Alessandro Del Piero, em 2006, quando perguntado se deixaria a Juventus após o escândalo do Calciopoli, que rebaixou a equipe de Turim à Serie B italiana. Era um dos momentos mais difíceis da história da Velha Senhora (jogadores como Fabio Cannavaro e Zlatan Ibrahimovic já negociavam para trocar de camisa e não disputar a segunda divisão) e a declaração de amor eterno, sob qualquer dificuldade, provavelmente encurtou a jornada do atacante ao topo da galeria de ídolos juventinos. O capitão já caminhava para se tornar o maior de todos em Turim, é verdade - algumas semanas antes havia superado Giampiero Boniperti como maior artilheiro do clube, por exemplo -, mas a frase ajudou a cravar seu nome como o maior da história bianconera antes mesmo do fim de sua carreira. 

Àquela altura, ele já chegava a 13 anos de fidelidade absoluta à camisa listrada em preto e branco (chegaria a 19 no fim de sua passagem) e carregava no currículo cinco scudetti (ainda ganharia mais um antes de deixar o clube, em 2012), uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes. Também já era o dono da braçadeira de capitão havia cinco temporadas e estava prestes a conquistar o tetracampeonato mundial de seleções com a Itália. Ou seja, era considerado majestade nas ruas de Turim e, não à toa, ostentava o apelido de Dio Piero (Deus Piero) entre os fãs.

O processo de endeusamento começou em 1993, quando o jovem de Conegliano, vilarejo próximo a Turim, escolheu, entre várias ofertas, trocar o Padova - time que o acolheu dos 13 aos 18 anos - pela Juve. O garoto chegava sob a expectativa de se tornar o substituto de Roberto Baggio em poucos anos e não decepcionou. Em sua primeira temporada, entrou em 11 partidas da Serie A e marcou cinco gols, ao mesmo tempo em que se dividia com os times da base juventina. Naquele ano, foi um dos principais jogadores do título da equipe na Copa Viareggio e já aparecia como uma das principais promessas do futebol italiano. 

Sabendo disso, o técnico Marcello Lippi apostou no jovem para suprir a ausência do ídolo máximo Roberto Baggio, que se lesionou no início da temporada 1994-95. A reposição deu tão certo que, com o título ao fim daquela temporada, a diretoria juventina decidiu vender Baggio para o Milan e dar a camisa 10 para Del Piero. Foi quando o atacante ganhou do presidente Gianni Agnelli o apelido de Pinturicchio, pela sua classe com a bola nos pés. “Se Baggio era Rafael, Del Piero é Pinturicchio”, enalteceu o dirigente, que costumava comparar os craques aos grandes pintores renascentistas da Itália. Pinturicchio, além de significar pequeno pintor, também era o apelido de Bernardino di Betto, importante artista.

Retrato do artista quando jovem: Del Piero levanta a taça da Liga dos Campeões (Getty)
Com a saída de Baggio e a consequente titularidade no time, aumentaram as responsabilidades de Delpi. O atacante de 21 anos ainda contava com os experientes Gianluca Vialli e Fabrizio Ravanelli ao seu lado, mas ainda tinha que provar para a torcida porque merecia a camisa 10 de Baggio. E provou: em sua primeira temporada como protagonista, Del Piero brilhou na campanha campeã da Liga dos Campeões, com gols em todas as suas cinco primeiras partidas como titular no maior torneio da Europa e bons jogos na fase decisiva. No fim do ano, marcou o único gol do jogo e foi eleito o melhor jogador do Mundial Interclubes contra o River Plate. Os feitos lhe renderam o título de melhor jogador sub-21 da Europa naquele ano e ainda o quarto lugar na disputa da Bola de Ouro de 1996.

Nessa temporada, ficou famosa entre os jornalistas italianos a definição de “gol à Del Piero”, aquele em que o chute acerta o ângulo oposto, tirando a bola do goleiro com efeito. Além das precisas finalizações de fora da área, Delpi ficou famoso pela habilidade para driblar em espaço curto e para cobrar faltas. Foi esbanjando todas essas características que ele conquistou mais quatro títulos italianos entre 1997 e 2003 e se tornou um dos principais jogadores italianos da época. O Pinturicchio ainda levou a Juve à mais uma final da Liga dos Campeões, em 2002-03, mas viu o Milan ficar com o troféu daquela que foi a única decisão entre dois italianos na história do torneio europeu.

À época, Del Piero já atuava mais preso à grande área - um pedido de Lippi - e passou a marcar mais gols que em qualquer fase da carreira. Em 2001-02, anotou 21 e, dali em diante, não marcou menos de 10 vezes em nenhuma temporada até 2012. Assim, se tornou o único italiano a marcar mais de 10 gols em 16 temporadas da carreira e entrou para o top-10 de maiores artilheiros do futebol da Bota, com 188 comemorações na Serie A. 

Após o título da Copa do Mundo com a Squadra Azzurra (no qual foi importante, ao decidir a semifinal contra a Alemanha) e o “fico” na Juventus, em 2006, o já trintão Del Piero viveu anos de menos brilhantismo, com menos títulos e menor protagonismo, mas ainda desfilou sua classe por algum dos maiores estádios da Europa, ganhando aplausos de torcedores do Real Madrid, no Santiago Bernabéu, e do Manchester United, no Old Trafford, em momentos marcantes. O atacante deixou a Juve em 2012, como maior artilheiro da história do clube (290 gols) e atleta que mais vezes vestiu a camisa bianconera (705). Passou por Sydney FC e Delhi Dynamos antes de encerrar a carreira com o status de lenda do futebol.

Veja os gols mais bonitos de Del Piero com a camisa da Juventus:


Alessandro Del Piero
Nascimento: 9 de novembro de 1974, em Conegliano, Itália
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Padova (1991-93), Juventus (1993-2012), Sydney (2012-14) e Delhi Dynamos (2014-15)
Títulos: Copa do Mundo (2006), 6 Serie A (1995, 1997, 1998, 2002, 2003 e 2012), Coppa Italia (1995), 4 Supercoppa Italia (1995, 1997, 2002 e 2003), Serie B (2007), Liga dos Campeões (1996), Mundial Interclubes (1996), Supercopa da Uefa (1996), Copa Intertoto (1999), Copa Viareggio (1994) e Campeonato Primavera (1994)
Seleção italiana: 91 jogos e 27 gols

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Jogadores: Roberto Rambaudi

Meia-atacante tão habilidoso quanto tático, Rambaudi viveu bons momentos por Lazio e Foggia (SS Lazio Fans)
Aniversariante deste dia 12 de janeiro, o meia-atacante Roberto Rambaudi foi um daqueles jogadores pouco badalados, mas que escreveram bela história na província e acabaram por se tornar úteis em um time maior, da metrópole. Um dos mais célebres representantes desta classe de atletas, Rambaudi fez sucesso no milagroso Foggia do início dos anos 1990 e teve bons momentos pelo Lazio, temporadas depois.

Natural de Moncalieri, cidade da região metropolitana de Turim, Rambaudi começou no futebol como jogador das categorias de base do Torino. Aos 18 anos, Roberto foi integrado ao plantel principal pelo técnico Luigi Radice, mas não entrou em campo em nenhuma partida do vice-campeonato grená, em 1984-85. O meia-atacante destro acabou deixando o Toro na temporada seguinte e disputou a Serie C2 pelo Omegna, pequeníssimo clube piemontês que acabou rebaixado para o Interregionale. Ainda assim, Rambaudi mostrou bom futebol e acertou com o Pavia: ele marcou 18 gols em duas temporadas pelos lombardos, nas séries C2 e C1, e acabou interessando ao Perugia.

Os peruginos haviam sido vice-campeões italianos uma década antes, mas o envolvimento de jogadores nos escândalos Totonero e Totonero-bis fizeram o time despencar para a Serie C2, cujo título foi conquistado enquanto Rambaudi estava nos azzurri da Lombardia. O meia foi um dos reforços dos biancorossi para a disputa da terceira divisão, em 1988-89, e fez um bom campeonato: marcou oito gols em 28 partidas e foi contratado pelo Foggia, que havia garantido o acesso à Serie B com o vice-campeonato da terceirona. A partir de então, sob o comando de Zdenek Zeman, a trajetória futebolística do meia-atacante entrou em uma crescente mais impactante.

Rambaudi chegou à corte de Zeman juntamente a Giuseppe Signori, que também havia atuado na Serie C1, pelo Piacenza. Os dois jovens, praticamente desconhecidos, passaram por um trabalho de amadurecimento feito pelo treinador – que costuma dar chances a novos talentos e revelou dezenas de craques ao longo de sua carreira –, mas não conseguiram levar os satanelli à elite. Em 1990-91, o time da Apúlia ganhou o reforço de Francesco Baiano, que se entrosou com Rambaudi e Signori e formou um trio de ataque imparável.

Na campanha que terminou com o título do Foggia na segundona, o tridente fez 48 gols: 22 de Baiano, 15 de Rambaudi e 11 de Signori. O número foi superior ao de 16 times do torneio e os rossoneri, claro, tiveram o melhor ataque da Serie B, com 67 tentos. Foi o prelúdio da ascensão do Foggia, que iria dar espetáculo na badalada liga italiana e com Rambaudi como protagonista, atuando sempre com velocidade e destreza pela ponta direita da ofensiva equipe de Zeman. Àquele tempo, a torcida já o chamava carinhosamente de Rambo.

Baiano, Signori e Rambaudi: o trio que encantou Foggia em tempos de Zemanlandia (Wikipedia)
Na Serie A, o estilo ultraofensivo do Foggia deixou o mundo boquiaberto e ganhou o apelido de Zemanlândia, pois era um divertimento para os olhos. Rambaudi descreveu bem o estilo da equipe em uma entrevista ao Corriere del Mezzogiorno, em 2010: "A proposta de Zeman estava dez anos à frente do seu tempo. Um time pequeno desafiar um grande, atacando-o como se estivesse jogando de igual para igual era algo que nunca tinha sido visto. Era um futebol diferente, total, nada calculista, em que se buscava a vitória de verdade – e não apenas na conversa. Claro, podia acontecer de perdermos, mas tínhamos a certeza de que dávamos tudo para vencer e a torcida compreendia isso".

O futebol corajoso daquele Foggia não era apenas utopia; dava resultados. Entre goleadas contra e a favor, a equipe rossonera teve a segunda pior defesa e o segundo melhor ataque da Serie A 1991-92, com 58 gols sofridos e marcados, e ficou com a 9ª posição – por cinco pontos não se classificou para a Copa Uefa. O tridente ofensivo brilhou de novo e Rambo, o menos matador dos três, entrou em campo em 33 das 34 partidas do campeonato e fez nove gols. As grandes atuações fizeram com que Rambaudi deixasse o pequeno clube do calcanhar da Bota e rumasse a Bérgamo para acertar sua ida para a Atalanta.

Rambo vestiu a camisa nerazzurra por duas temporadas, período em que foi treinado por Marcello Lippi, Francesco Guidolin e Cesare Prandelli – todos em início de carreira. Seu melhor momento pelos orobici foi na primeira temporada, período em que foi uma peça importante do 4-4-2 lippiano e se tornou vice-artilheiro da equipe, com seis gols. Depois do oitavo lugar na Serie A, a Atalanta viu suas principais peças caírem de rendimento e foi rebaixada, em 1994, mas Rambaudi não ficou para a disputa da segundona. Zeman havia sido contratado pela Lazio e pediu a contratação de seu pupilo, que voltaria a fazer dupla com Signori.

O treinador checo continuou aplicando sua filosofia ofensiva em Roma e deu a Rambaudi um lugar de destaque em sua Lazio. O meia-atacante piemontês atuou em 32 das 34 partidas do Campeonato Italiano (31 como titular), marcou quatro gols e foi um dos destaques da campanha do vice-campeonato da Lazio, ao lado de Alen Boksic, Pierluigi Casiraghi e de seu amigo Signori. Na maturidade da carreira, aos 28 anos, Rambo foi convocado por Arrigo Sacchi para duas partidas das Eliminatórias para a Euro 1996, defendendo a Itália diante de Estônia e Croácia.

O meia-atacante continuou exercendo papel importante na Lazio durante mais um ano e meio, período em que Zeman ficou no cargo – foi demitido em janeiro de 1997. Rambaudi ajudou os biancocelesti a ficarem com a terceira e a quarta posições na Serie A mas só conquistou títulos mesmo sob as ordens de Sven-Göran Eriksson, que pouco o utilizou. Após 109 jogos, 13 gols e três títulos na Cidade Eterna (Coppa Italia, Supercopa Italiana e Recopa Uefa), Rambo entrou na fase final da carreira: defendeu Genoa e Treviso, na Serie B, e se aposentou em 2000, aos 34 anos.

Nos anos seguintes à aposentadoria, Roberto Rambaudi se dividiu entre as funções de treinador e comentarista, como tantos outros ex-atletas. Na mídia, trabalhou nos canais Dahlia TV, Mediaset Premium e Rai – neste último, foi um dos titulares do prestigioso Giostra del Gol –, e teve poucos trabalhos como técnico. Rambo fixou domicílio em Roma e só comandou pequenas equipes da região do Lácio, incluindo a Astrea, formada por agentes penitenciários e participante da sexta divisão italiana. Nada mais adequado para quem recebeu um apelido em referência a um dos soldados mais casca-grossas do cinema.

Roberto Rambaudi
Nascimento: 12 de janeiro de 1966, em Moncalieri, Itália
Posição: meia-atacante
Clubes em que atuou: Torino (1984-85), Omegna (1985-86), Pavia (1986-88), Perugia (1988-89), Foggia (1989-92), Atalanta (1992-94), Lazio (1994-98), Genoa (1998-99) e Treviso (1999-2000)
Títulos: Coppa Italia (1998), Supercopa Italiana (1998), Recopa Uefa (1999) e Serie B (1991)
Carreira como técnico: Latina (2004), Viterbese (2007-08), Astrea (2013-15) e ASD Luiss (2016)
Seleção italiana: 2 jogos e nenhum gol

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Jogadores: Fulvio Collovati

Criado no Milan, Collovati foi titular no tricampeonato mundial da Itália, em 1982 (Maglia Rossonera)
Quando se fala sobre a seleção da Itália da Copa do Mundo de 1982, os primeiros nomes que veem à mente são os de jogadores como Paolo Rossi, Dino Zoff, Marco Tardelli, Bruno Conti e Gaetano Scirea. Porém, o timaço azzurro que levantou o tricampeonato tinha alguns coadjuvantes pouco badalados, mas que foram importantes para a conquista. Um deles foi o zagueiro Fulvio Collovati, que fez carreira por Milan e Inter.

Collovati nasceu em Teor, uma cidade de menos de mil habitantes próxima a Údine. No entanto, Fulvio e sua família se mudaram para a região metropolitana de Milão quando ele ainda era um garotinho, o que acabou influenciando a sua vida de uma forma mais determinante do que qualquer um poderia imaginar. Aos 13 anos, o jovem disputava uma pelada em um campinho quando foi descoberto por Giovanni Trapattoni – uma pessoa que, definitivamente, entende de sistemas defensivos. Com o aval do Trap, Collovati foi convidado a entrar nas categorias de base do Milan e aceitou imediatamente, já que era torcedor rossonero.

Em Milanello, o jogador passou com destaque por todas as categorias juvenis e foi duas vezes vice-campeão da tradicional Copa Viareggio, que revelou alguns craques italianos – Collovati chegou a ser eleito o melhor jogador do torneio sub-20 em uma das oportunidades. Após completar 19 anos, o defensor de boa técnica e qualidade nas antecipações, comparado a Roberto Rosato, foi aproveitado no time profissional do Milan e estreou com o técnico Giuseppe Marchioro.

O treinador foi demitido após maus resultados – a equipe chegou a brigar contra o rebaixamento –, mas Fulvio não perdeu espaço. Pelo contrário, desenvolveu uma relação de proximidade com o legendário Nereo Rocco, substituto de Marchioro, e ajudou o Milan a ganhar a Coppa Italia da temporada 1976-77. Seu primeiro ano como profissional foi um belo prólogo para sua carreira de sucesso.

Nos dois anos seguintes, a consagração. Nils Liedholm assumiu como técnico dos rossoneri pela segunda vez e faria história. O sueco escalou Collovati, 20 anos, como titular da zaga milanista e colheu os frutos em 1978-79: o defensor se tornou um dos pilares do time e foi fundamental para a conquista do décimo scudetto do Milan, que deu ao clube o direito de ostentar uma estrela em seu uniforme. Líder de uma das defesas menos vazadas do país, Fulvio ganhou convocações para a seleção italiana sub-21 e também para a Nazionale principal: estreou em fevereiro de 1979, num amistoso em que os azzurri fizeram 3 a 0 sobre a Holanda.

Até 1982, a carreira de Collovati viveu altos e baixos, embora ele continuasse atuando em alto nível. O Milan foi rebaixado para a Serie B em 1980, como consequência do envolvimento de alguns jogadores no escândalo Totonero, mas o defensor ficou para a disputa da segundona, ainda que temesse perder sua vaga na seleção. Logo após a decisão do tribunal desportivo, Fulvio disputou a Eurocopa e acabou desperdiçando cobrança de pênalti decisiva na disputa de terceiro lugar, contra a Checoslováquia, mas continuou a ser convocado por Enzo Bearzot (friulano como ele) ao longo de sua militância na Serie B. Em três oportunidades, o zagueiro chegou a jogar pela Itália no sábado, voltou a Milão na madrugada e precisou entrar em campo pelo clube horas depois. Uma rotina estafante, mas que lhe garantiu a continuidade na Nazionale, posição de destaque no título e consequente acesso dos rossoneri e ainda a faixa de capitão da equipe.

Com a braçadeira, Collovati ficou mais exposto e foi eleito pela torcida como um dos bodes expiatórios pelo segundo rebaixamento da história do Milan. O time não conseguiu manter-se na elite após o retorno e a contestação dos torcedores pelas más atuações foi tão grande que Fulvio chegou a ser atingido por uma pedra durante uma derrota contra o Como.

Mesmo com a queda, Bearzot o levou para a Copa de 1982 com o status de titular de uma fortíssima linha defensiva. Ligeiramente mais experiente que Pietro Vierchowod e Franco Baresi, Fulvio foi escolhido pelo técnico para formar a zaga da Itália com Claudio Gentile, Scirea, Giuseppe Bergomi e Antonio Cabrini, tendo a honra de ser uma das peças mais importantes para o tricampeonato mundial da Itália. O camisa 5 teve atuações muito seguras em toda a competição e só não esteve presente em parte do confronto com o Brasil, pois se lesionou no primeiro tempo.

Collovati teve boa passagem pela Inter, mas é lembrado também por não ter parado Hateley em um
dos gols mais famosos do Derby della Madonnina (AC Milan)
Depois de conquistar o mundo, Collovati não voltaria ao Milan para disputar a Serie B outra vez. O clima estava ruim com a torcida e havia algumas desavenças com a diretoria, mas a grande razão para que o zagueiro deixasse o clube (segundo o mesmo, em uma entrevista concedida ao Tutto Mercato Web, em 2013) foi o medo de, desta vez sim, ser descartado por Bearzot, que seguia como treinador da Itália. Fulvio chegou a negociar com a Fiorentina, mas foi o protagonista de uma polêmica transação e se tornou um dos primeiros jogadores da era moderna do futebol do Belpaese a passar diretamente de um clube de Milão para o rival. Aos 25 anos, o defensor foi cedido em copropriedade para a Inter, que emprestou aos rossoneri o zagueiro Nazzareno Canuti, o meia Giancarlo Pasinato e o jovem atacante Aldo Serena.

O negócio que fez bem a todo mundo, pois a Beneamata contou com Collovati por quatro temporadas e o Milan acabou vencendo a segundona novamente. Fulvio, por sua vez, foi recebido com carinho e respeito pela torcida da Inter, mas recebeu a alcunha de traidor dos milanistas, seus antigos apoiadores, que capricharam no sarro após uma vitória do Milan no dérbi local, em 1983-84. A partida, terminada em 1 a 0, foi decidida com um belo cabeceio do inglês Mark Hateley, que saltou mais que o próprio defensor friulano e chegou ao gol.

As quatro temporadas pelos nerazzurri foram boas, mas Collovati não conquistou nenhum título. Embora tenha perdido um pouco da potência física que o distinguia, o zagueiro chegou a desempenhar a função de líbero e atuou quase sempre como titular de um time que tinha um ótimo elenco, mas que bateu na trave várias vezes: no período em que Fulvio esteve em La Pinetina, a Inter foi duas vezes semifinalista da Copa Uefa e da Coppa Italia e duas vezes terceira colocada da Serie A.

Em 1986, Collovati viajou para o México e, já como reserva, participou de uma partida da negativa campanha da Itália no Mundial – contra a Coreia do Sul, teve sua última exibição em azzurro. Após a competição, a diretoria interista o comunicou que ele não fazia mais parte dos planos e, depois que recebeu uma proposta da Udinese, convenceu o jogador a ir jogar no maior clube do Friuli, região em que tinha nascido. No entanto, Fulvio não teve atuações brilhantes (principalmente por questões físicas) e viu os bianconeri, penalizados em nove pontos, serem rebaixados. Na janela de transferências sucessiva, um telefonema de Liedholm, seu treinador no Milan, transformou a queda para a segundona em um salto: Collovati havia sido contratado pela Roma.

Tempestili, Collovati e Signorini: três amigos na Roma do fim dos anos 1980 (AS Roma Ultras)
Na Cidade Eterna, o brilho do zagueiro friulano quase não foi notado: na fase final da carreira, Collovati viveu altos e baixos e não foi um titular absoluto da equipe giallorossa, que concluiu a Serie A na terceira posição, em 1987-88, e em oitavo, na edição seguinte. Do biênio na capital, o zagueiro se recorda principalmente do início da convivência com Gianluca Signorini, que seria seu grande parceiro durante seu outono como jogador, e da importância do clássico contra a Lazio. Na mesma entrevista ao Tutto Mercato Web, já citada, ele lembrou de um encontro divertido com um torcedor. "Um senhor chegou e me disse [imita o sotaque romano]: 'Collovà, melhor ser rebaixado do que perder o dérbi'".

Aos 32 anos, uma idade bastante avançada para o futebol da época, Fulvio trocou a Roma pelo Genoa, que seria seu último clube como profissional. O friulano disputou quatro temporadas pelos grifoni, renovando seu contrato anualmente, e formou novamente uma dupla de zaga com o amigo Signorini. A torcida nunca esquecerá da força defensiva daquela equipe, que, em tempos de muita competitividade na Velha Bota, conseguiu ser quarta colocada da Serie , em 1991, e ainda alcançou as semifinais da Copa Uefa, no ano posterior.

Após levar a equipe rossoblù a seus melhores resultados após a II Guerra Mundial e fazer história no Marassi, Collovati se aposentou, aos 36 anos. Franco Scoglio, um de seus treinadores em Gênova, tentou demovê-lo da ideia para levá-lo ao Messina, então na Serie C1, mas o zagueiro achou melhor não forçar a barra. Dessa forma, sua última partida como profissional acabou sendo ainda mais especial, pois foi diante do time que o revelou: 2 a 2 contra o Milan, no estádio Luigi Ferraris.

Collovati continuou ligado ao futebol depois de se aposentar e mostrou tino para os negócios. O ex-jogador foi diretor esportivo do Piacenza por três anos, entre 2001 e 2004, e foi um dos responsáveis por levar o defensor argentino Hugo Campagnaro (ex-Sampdoria, Napoli e Inter) ao Campeonato Italiano. Em 2015, adquiriu, juntamente com outros acionistas, o Pro Patria, um pequeno e tradicional clube da região de Milão: foi diretor geral dos tigrotti, mas se demitiu do cargo e atualmente é apenas sócio e conselheiro.

Embora tenha feito incursões no business do esporte, Collovati ficou mais conhecido mesmo pela facilidade em trabalhar com comunicação – segundo o próprio, uma vocação que ficou clara quando ele ajudou a organizar a festa de centenário do Genoa, em 1993. O ex-zagueiro se destaca na função de comentarista: chegou a apresentar um programa com sua esposa, Caterina, no Canale Italia, mas ficou mais conhecido pelo trabalho na Rai, a rede televisiva pública italiana. Fulvio trabalhou na emissora durante quase uma década e foi um dos analistas fixos do célebre programa La Domenica Sportiva, que deixou em 2014. Hoje, é dono de uma produtora de conteúdo para televisão e internet e, eventualmente, aparece como convidado de colunas ou mesas-redondas para dar seus pitacos.

Fulvio Collovati
Nascimento: 9 de maio de 1957, em Teor, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Milan (1976-82), Inter (1982-86), Udinese (1986-87), Roma (1987-89) e Genoa (1989-93)
Títulos: Copa do Mundo (1982), Serie A (1979), Coppa Italia (1977), Copa Mitropa (1982) e Serie B (1981)
Seleção italiana: 50 jogos e três gols

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Jogadores: Alessandro Melli

Bandeira do Parma, o atacante Melli se destacou no clube em meados dos anos 1990 (Corriere dello Sport)
Em seus tempos de ouro, o Parma ficou conhecido por contratar uma série de jogadores que tinham ou teriam renome mundial – alguns italianos, mas muitos estrangeiros. Isto não significa, porém, que o clube não desse espaço para pratas da casa, jovens criados nas categorias de base e com grandes ligações afetivas com a agremiação. O principal exemplo deles foi o atacante Alessandro Melli, que vestiu a camisa crociata por 10 anos e participou dos momentos mais gloriosos da história parmense.

Filho da arte, Alessandro – ou Sandro, como era apelidado – é o primogênito de Emilio Melli, centroavante de físico robusto que nasceu em Parma e defendeu o clube local nos anos 1960. Seu rebento, porém, seria gerado bem longe dali: veio ao mundo em Agrigento, Sicília, durante a passagem do pai pelo pequeno Akragas. Anos depois, a família deixou a ilha e foi morar novamente na cidade da Emília-Romanha conhecida por seus presuntos e seus queijos.

Mellino logo foi colocado pelo pai na escolinha de futebol do Audace Parma, pequeno clube do município. Alessandro ficou lá até os 13 anos, quando foi seguir os passos do pai como centroavante da base dos ducali, que à época não tinham as glórias que viriam a ser conquistadas nos anos 1990 – o Parma nunca havia disputado a Serie A e alternava entre a segunda e a terceira divisão. Foi justamente na antiga Serie C1 que Melli fez suas primeiras partidas como profissional, aos 16 anos: em 1985-86, Arrigo Sacchi o colocou em campo em seis partidas da reta final do campeonato, vencido pelos gialloblù, e viu a revelação balançar as redes uma vez.

Já na Serie B, Melli recebeu mais chances do treinador e atuou em 20 partidas, até enfrentar o Pisa e receber uma falta do zagueiro Davide Lucarelli – hoje colaborador técnico de Stefano Pioli na Inter. A pancada ocasionou uma lesão no joelho do jogador, que ficou fora de combate por grande parte da temporada 1986-87 e só conseguiu retornar nos últimos jogos, a tempo de marcar um gol sobre a Sambenedettese.

A contusão, no entanto, seria apenas o início de um período muito negativo para Sandro. Na temporada seguinte, foi pouco utilizado pelos técnicos Zdenek Zeman (que não confiava em sua forma física) e Giampiero Vitali, e, após ser terceiro colocado com o time sub-20 na Copa Viareggio, acabou emprestado para o Modena, da terceira divisão. Pelos canarini, não estourou: dentro de campo não parecia ter confiança e não balançava as redes, enquanto fora do futebol se dedicava a noitadas, garotas e futilidades – o que lhe rendeu o apelido de Casanova. Voltou ao Parma após seis meses e só entrou nos eixos em meados de 1989, época em que conheceu a advogada Silvia Serena – com quem se casaria – e quando passou a trabalhar com um novo treinador, Nevio Scala.

Sob as ordens de Scala, Melli virou o ponto de referência do ataque do Parma na Serie B: na campanha do acesso à elite, Alessandro anotou 11 gols (entre os quais uma tripletta num 5 a 3 contra o Foggia de Zeman) e foi o vice-artilheiro da equipe gialloblù na competição. A ótima fase levou o atacante siciliano, então com 20 anos, à seleção sub-21 da Itália, para a qual começou a ser convocado com frequência. A falta de continuidade estava ficando para trás e Melli teria a chance de demonstrar ser um grande atacante nos principais palcos italianos.

O ano de estreia na Serie A não poderia ser melhor. O Parma estava endinheirado por causa do patrocínio da Parmalat, mas decidiu apostar na sua joia e reforçou apenas outros setores, deixando Melli no comando do ataque do 3-5-2 de Scala. A temporada gialloblù foi concluída com a 5ª posição no Campeonato Italiano e a campanha surpreendente se deveu basicamente aos 13 gols marcados pelo artilheiro. Sandro iniciou sua trajetória na elite com um bom presságio, anotando contra a Juventus – maior campeã do futebol local e adversária dos ducali nos anos que estariam por vir –, e também vazou as defesas de Fiorentina, Inter, Milan e do rival local Bologna. Em fevereiro de 1991, o atacante foi convocado por Azeglio Vicini para a seleção principal da Itália, mas não foi utilizado em um amistoso contra a Bélgica.

Com a camisa da Sampdoria, Mellino é marcado por Luigi Apolloni, ex-companheiro de Parma (La Samp)
Apesar de ter feito muitos gols em seus dois primeiros anos como titular do Parma, Melli era um centroavante atípico, não era um mero goleador. Grande finalizador, com uma perna direita fulminante, o siciliano era bom no posicionamento e forte no cabeceio, o que lhe conferia a camisa 9. Só que Sandro também vestia a 7: atuava como segundo atacante, graças a sua velocidade, e era muito hábil para fazer o pivô ou assistir os companheiros.

Na segunda temporada dos crociati na Serie A, o Mellino "número 7" foi mais visto no campeonato local, torneio em que ele deixou sua marca seis vezes, enquanto o 9 apareceu na Coppa Italia. Graças a seus cinco gols – dois nas semifinais, contra a Sampdoria, e um no jogo de volta das finais, diante da Juve –, o Parma levantou o primeiro caneco importante em mais de 80 anos de história. Ainda em 1992, Melli teria outra glória na carreira, ao ajudar a Itália a ser campeã europeia sub-21 e a classificar-se para os Jogos Olímpicos – competição em que também defendeu os azzurrini.

Em 1992-93, a Parmalat intensificou seus investimentos no clube, mas Melli não perdeu sua vaga no time titular, mesmo com as contratações de Tomas Brolin e Faustino Asprilla. A chegada dos dois ótimos jogadores só melhorou as atuações de Sandro, que viria a marcar 12 gols na excelente campanha parmense na Serie A – a melhor na história até aquele momento –, concluída com um terceiro posto. No entanto, Mellino foi mesmo decisivo para a conquista da Recopa Uefa, primeiro título internacional da equipe: fez três gols na competição, um deles na final, contra o Royal Antwerp. Os grandes momentos o levaram a mais quatro convocações para a Nazionale, que já era comandada por Sacchi, que o lançara para o futebol. No entanto, devido à grande concorrência para a posição, o atacante só jogou contra Malta e Estônia, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994.

Embora Melli vivesse uma grande fase, ele acabou sendo vítima da pressão da Parmalat para que o Parma tivesse um sucesso internacional ainda maior e pudesse ser campeão italiano. Com isso, a diretoria contratou Gianfranco Zola, do Napoli, o que limitou as suas participações, que caíram quase pela metade. Ainda assim, o centroavante siciliano participaria da conquista da Supercopa Uefa, do vice da Recopa e das boas campanhas na Serie A e na Coppa Italia. Ao fim da temporada, acabaria vendido para a Sampdoria.

Sandro tinha somente 25 anos e estava próximo do auge físico e do amadurecimento total como jogador. Apesar disso, não seria em Gênova que viveria este momento da carreira: menos de quatro meses depois de ter chegado à Samp e ter se tornado titular, o atacante foi envolvido em uma troca por Ruud Gullit. O holandês atuaria novamente na equipe blucerchiata, enquanto Melli faria o caminho inverso, indo jogar no todo poderoso Milan.

Na fase final da carreira, Sandro defendeu o Perugia (Getty)
Dessa forma, os rossoneri conseguiram concretizar um sonho antigo, pois Alessandro havia sido sondado como reforço dos gigantes quatro anos antes, em 1990. O grande problema é que Sacchi não estava mais no comando da equipe lombarda: enquanto o carequinha gostava de seu futebol e pretendia lhe dar chances, Fabio Capello só o utilizou em seis jogos, apenas dois como titular. Ao menos, Melli adicionou ao currículo mais um troféu da Supercopa Europeia.

A temporada cheia de percalços entre Gênova e Milão foi um divisor de águas na carreira de Alessandro Melli: depois das frustrações de 1994-95, ele nunca mais seria o atacante perigoso do início da década, nem mesmo em Parma. Sandro voltou para sua casa em 1995, mas só atuou em um nível regular apenas no primeiro ano, quando foi um reserva bastante utilizado por Scala. O treinador seria substituído por Carlo Ancelotti em 1996, o que fez as aparições do atacante siciliano rarearem, a ponto de ele ter ficado seis meses sem ser utilizado no ano seguinte.

Melli tentou retomar a carreira no Perugia, clube com o qual assinou em dezembro de 1997. Os grifoni estavam na Serie B, mas com a ajuda do experiente atacante conseguiram subir para a primeira divisão após eliminarem o Torino no spareggio. Longe da melhor fase, o atacante ainda fez duas temporadas com o clube umbro na elite e se transferiu, em 2000, para defender o Ancona, na série cadetta. Com apenas 31 anos e rendendo muito menos do que já havia desempenhado, Sandro optou por se aposentar do futebol.

Até hoje a torcida do Parma tem uma forte identificação com o ex-atacante, que honrou por mais de uma década as cores do clube que o formou. Neste período, Alessandro Melli se consagrou como uma bandeira: é um dos 10 atletas que mais vezes vestiram a camisa gialloblù, com 241 partidas, e também é o quarto maior artilheiro ducale, com 56 gols marcados. Depois de se aposentar, Sandro não deixou de contribuir com os crociati, ainda que fora das quatro linhas. Desde 2005, ele é o team manager parmense, peça importante para a reconstrução de um clube que faliu duas vezes em menos de 15 anos.



Alessandro Melli
Nascimento: 11 de dezembro de 1969, em Agrigento, Itália
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Parma (1985-88, 1989-94 e 1995-97), Modena (1988-89), Sampdoria (1994), Milan (1994-95), Perugia (1997-2000) e Ancona (2000-01)
Títulos: Recopa Uefa (1993), Coppa Italia (1992), Supercopa Uefa (1993 e 1994), Serie C (1986) e Eurocopa Sub-21 (1992)
Seleção italiana: 2 jogos e nenhum gol

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

19ª rodada: No bico do corvo

Napoli conseguiu vitória nos últimos minutos e manteve contato com a ponta da tabela (Getty)
Última rodada do primeiro turno e a primeira do futebol italiano em 2017. Com este cenário, não faltaram emoções neste fim de semana de Serie A, mesmo que os sete primeiros colocados tenham vencido seus jogos e não tenha havido alterações significativas na tabela. Cinco dessas equipes sofreram para conquistarem os três pontos e só os faturaram com placares apertados, muitas vezes com gols nos últimos instantes. A forte frente fria que derrubou as temperaturas em toda a Itália (especialmente em locais mais próximos do mar e tradicionalmente quentes) ocasionou uma nevasca no Abruzzo e adiou a partida entre Pescara e Fiorentina. O agitado final do turno ainda teve recordes de pontuação: Lazio (37) e Atalanta (35) nunca haviam feito tantos pontos em um campeonato de 20 times. Confira a análise da rodada.

Napoli 2-1 Sampdoria
Gabbiadini (Callejón) e Tonelli (Strinic) | Hysaj (contra)

Tops: Tonelli e Strinic (Napoli) | Flops: Silvestre e Quagliarella (Sampdoria)

Quem jamais imaginaria que um dia Gabbiadini e Tonelli fossem decidir uma vitória do Napoli? Mas foi o que aconteceu nesse sábado no San Paolo, com os gols italianos decisivos já nos minutos finais, antecipando um roteiro que foi comum nesta rodada da Serie A – entre os primeiros colocados, somente Juventus, Roma e Atalanta não precisaram decidir seus jogos nos minutos finais. De forma surpreendente, o time de Sarri, mesmo com suas habituais jogadas, novamente esteve desatento na defesa e, dessa vez, foi impreciso no ataque. Isso explica tanta dificuldade contra a Sampdoria.

Já no início os azzurri davam mostras de que não dominariam o adversário, com em outras ocasiões. Hysaj fez gol contra no primeiro tempo e as oportunidades criadas pelos anfitriões ou pararam em Puggioni ou na falta de pontaria. No fim, a rigorosa expulsão de Silvestre acabou por ser determinante e o time de Giampaolo sofreu para defender com um a menos. Pouco depois de entrar em campo, aos 77 minutos, Gabbiadini completou passe de Callejón na pequena área e empatou. Mas a virada veio somente no quarto minuto de acréscimo da etapa final: o estreante zagueiro Tonelli finalizou assistência de Strinic e manteve o Napoli na terceira posição da Serie A.

Juventus 3-0 Bologna
Higuaín (Pjanic), Dybala (pênalti) e Higuaín (Lichtsteiner)

Tops: Higuaín e Dybala (Juventus) | Flops: Oikonomou e Destro (Bologna)

Campeã de inverno antecipadamente e ainda com um jogo adiado por causa da Supercopa Italiana, a Juventus encerrou a rodada jogando pela primeira vez com Marchisio, Pjanic e Dybala, que não tinham tido a oportunidade de atuarem juntos por problemas físicos. Allegri ainda promoveu o retorno dos veteranos Barzagli e Chiellini, que há um bom tempo também não jogavam juntos, assim como o do ala esquerdo Asamoah, que optou por ficar fora da Copa Africana das Nações. Todos eles estiveram em boa forma contra o Bologna, muito pelo bom planejamento do treinador juventino, mas também pela falta de atitude dos visitantes comandados por Donadoni, que pouco competiram e falharam nos gols.

O placar foi inaugurado logo aos sete minutos e Higuaín foi fatal ao aproveitar desatenção adversária e finalizar passe de Pjanic. Com a vantagem obtida logo cedo, a Juventus controlou o jogo e buscou maior entrosamento na nova formação, cenário que Dybala aproveitou para ganhar confiança. E o próprio camisa 21 marcou o segundo gol, convertendo pênalti sofrido por Sturaro. O terceiro e último gol veio de forma inesperada: Lichtsteiner, em má fase e cotado para sair do clube, acertou cruzamento preciso para Higuaín marcar, com belo cabeceio, sua doppietta e o 12º gol no campeonato. Ainda houve tempo para Rincón estrear, no lugar de Khedira.

Genoa 0-1 Roma
Izzo (contra)

Tops: Ocampos (Genoa) e Szczesny (Roma) | Flops: Izzo (Genoa) e Perotti (Roma)

O jogo mais aguardado da rodada acabou decepcionando, muito pela má forma técnica de ambos os times. Em um cenário mais físico, a Roma levou a melhor com os gigantes Fazio na defesa, Strootman no meio-campo e Dzeko no ataque. Em que pese a imprecisão, o zagueiro argentino controlou Simeone, o holandês dominou seu setor e o bósnio criou as principais oportunidades dos visitantes, sendo parado por Perin e Lammana. O goleiro titular do Genoa, aliás, segue o seu calvário físico: foi substituído aos nove minutos, por causa de mais uma grave lesão nos ligamentos do joelho (desta vez o esquerdo) e ficará ente sete e nove meses fora dos gramados. O único gol da partida foi marcado por Izzo, contra, em jogada de Bruno Peres, enquanto Szczesny  se tornou o melhor em campo com grandes intervenções no final da partida. O polonês segurou a pressão e manteve a vitória dos giallorossi na Ligúria, além da segunda colocação na tabela.

Milan 1-0 Cagliari
Bacca (Lapadula)

Tops: Lapadula (Milan) e Isla (Cagliari) | Flops: Bonaventura (Milan) e Capuano (Cagliari)

Desbancado por Lapadula nas últimas rodadas por problemas físicos e comportamentais, Bacca começou o ano dando resposta à má fase e justificando o desinteresse em sair de Milão. Curiosamente, o colombiano chegou ao gol da vitória justamente com contribuição do concorrente no centro do ataque rossonero: mesmo caído, Lapadula deu assistência para a vitória aos 88 minutos, passando a bola nas costas de Bruno Alves, que ainda foi expulso nos acréscimos. A vitória foi suada, mas o time de Montella dominou desde o início e teve grande atuação de Romagnoli, Suso e, especialmente, Locatelli. Bonaventura, de volta de lesão, sofreu com a falta de ritmo e foi substituído cedo. Os milanistas ainda comemoraram a confirmação da posição na tabela, já que Inter e Atalanta também venceram e haviam os ultrapassado durante o domingo.

Udinese 1-2 Inter
Jankto (Samir) | Perisic (Icardi) e Perisic (João Mário)

Tops: Samir (Udinese) e Perisic (Inter) | Flops: Théréau (Udinese) e Candreva (Inter)

Sem marcar desde o Derby della Madonnina, na estreia de Pioli no comando da Inter, Perisic voltou a ser decisivo para os nerazzurri. Segundo a Gazzetta dello Sport, o vice-artilheiro interista foi responsável direto por 11 dos 33 pontos da equipe no primeiro turno, e desta vez apareceu no fim de cada tempo do jogo para marcar os gols que garantiram a vitória nerazzurra. Na gelada, porém ensolarada Údine, o croata foi protagonista em uma partida marcada pelo equilíbrio pelas equipes com os melhores retrospectos recentes da competição, atrás apenas de Juventus, Roma e Napoli. Se no segundo tempo a Inter foi melhor, graças à entrada de João Mário, e faturou os três pontos, a etapa inicial teve domínio do time de Delneri, com os jovens Fofana, Jankto e De Paul como protagonistas dos perigosos ataques. Jankto marcou o gol friulano e ainda teve duas chances, acertando a trave e parando em Handanovic, mas o destaque da Udinese foi Samir: o brasileiro, utilizado como lateral esquerdo, segurou Candreva durante toda a partida e ainda criou a jogada do gol do time da casa, ao avançar com personalidade e achar seu colega entre Murillo e D'Ambrosio.

Lazio 1-0 Crotone
Immobile

Tops: Immobile (Lazio) e Festa (Crotone) | Flops: Biglia (Lazio) e Martella (Crotone)

Antes tarde do que nunca. Mais uma vez o Crotone dificultou a vida de um grande, mas eventualmente a Lazio chegou ao gol da vitória e do recorde: os biancocelesti chegaram aos 37 pontos, na quarta posição, e comemoraram sua máxima pontuação em um primeiro turno de um campeonato de 20 equipes. Immobile, que não marcava desde outubro, foi responsável pelo gol, já nos acréscimo, em falha de Martella. O atacante, que extravasou na comemoração, ainda chegou aos dois dígitos na liga: acima dele, apenas Icardi, Belotti, Dzeko, Higuaín e Mertens. A situação poderia ter sido mais fácil para o time de Inzaghi, não fossem as boas defesas do goleiro Festa, o pênalti isolado por Biglia e as pesadas ausências de Felipe Anderson e Keita.

Chievo 1-4 Atalanta
Pellissier (Floro Flores) | Gómez (Freuler), Gómez (Spinazzola), Conti e Freuler (Petagna)

Tops: Gómez e Petagna (Atalanta) | Flops: Gobbi e De Guzmán (Chievo)

Mesmo Caldara, Kessié e Gagliardini a Atalanta não sofreu. A grande força de La Dea não são apenas as revelações cortejadas por Juventus, Chelsea e Inter, mas sim o cabeça do por trás disso: Gasperini. O técnico substituiu os jovens devidamente e viu seu time manter o ritmo de sempre para atropelar o Chievo na cidade de Romeu e Julieta. Papu Gómez homenageou sua filhinha com uma faixa de capitão estilizada com o desenho Frozen, mas foi em campo que o craque nerazzurro realmente fez a diferença: logo no início guardou uma doppietta, aos 4 e 23, e participou da jogada do gol de Conti, que assegurou a vitória. Na etapa final, Pellissier descontou, graças a impedimento não marcado e falha de Berisha, mas não abalou o time de Bérgamo, que ampliou logo em seguida com Freuler. Apesar de não ter feito nenhum gol, o centroavante Petagna teve uma de suas melhores partidas com os bergamascos, ajudando demais como "rifinitore", ou seja, o cara que participa da fase final de construção das jogadas.

Sassuolo 0-0 Torino
Tops: Acerbi (Sassuolo) e Zappacosta (Torino) | Flops: Belotti e Ljajic (Torino)

Quem diria que o ótimo ataque do Torino fecharia o primeiro turno passando em branco? Não foi por falta de tentativa, mas certamente por falta de pontaria: foram 24 chutes a gol, mas inacreditavelmente apenas um no alvo, defendido por Consigli; no mais, 16 para fora e sete bloqueados por Acerbi, Peluso e companhia, protagonistas em uma exibição defensiva muito boa do time de Di Francesco. O Sassuolo teve como novidades a boa estreia de Aquilani e o retorno de Berardi, após cinco meses de estaleiro, mas ambos ainda procuram o melhor ritmo de jogo – especialmente o atacante, que começou a temporada marcando gols nos seis primeiros jogos.

Empoli 1-0 Palermo
Maccarone (pênalti)

Tops: Skorupski e Maccarone (Empoli) | Flops: Nestorovski e Thiago Cionek (Palermo)

Nada como começar o ano com um jogo pouquíssimo atrativo em um dos melhores horários comerciais por causa dos espectadores orientais. Empoli e Palermo entregaram o de sempre, com uma partida muito pouco técnica e marcada pelo físico. Nesse cenário, os visitantes foram mais perigosos, mas Skorupski e a dupla Bellusci-Costa estiveram seguros na defesa, assim como o jovem Dioussé no meio-campo. O gol da vitória anfitriã veio já nos minutos finais, quando Maccarone converteu pênalti cometido pelo polaco-brasileiro Thiago Cionek. Mais uma para a conta do desastre defensivo que vive o Palermo, segunda equipe mais vazada do campeonato e que chegou à 13ª derrota graças a mais uma falha individual. Bom para o Empoli, que ainda bateu concorrente direto contra o rebaixamento e abriu sete pontos de vantagem para a zona da degola.

Pescara-Fiorentina
Partida adiada pelo mau tempo e condições ruins de acesso ao estádio Adriatico. Será disputada no dia 1º de fevereiro.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 18ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Szczesny (Roma); Abate (Milan), Tonelli (Napoli), Miranda (Inter), Samir (Udinese); Grassi (Atalanta), Pjanic (Juventus); Perisic (Inter), Petagna (Atalanta), Gómez (Atalanta); Higuaín (Juventus). Técnico: Gian Piero Gasperini (Atalanta).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.