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domingo, 27 de junho de 2010

Bidoni del mondo

"Agora é hora de renovar". Até o capitão sabia o que era necessário (Getty Images)

Desde 1974 a seleção italiana não era eliminada na primeira fase de uma Copa do Mundo. Daquela vez, ao menos venceu uma partida (3 a 1 contra o Haiti). Esse ano, na África do Sul, nem isso. Em um dos grupos mais fracos do Mundial, os comandados de Lippi sucumbiram diante de seleções fracas como Nova Zelândia e Eslováquia. Não obstante, terminaram na última colocação do grupo.

Era a crônica de uma morte anunciada. Muito anunciada. Há tempos, imprensa e torcida questionavam a nazionale. Lippi, ao melhor estilo Dunga, ria e ignorava. Tinha total certeza de que o grupo campeão de 2006 era forte. Abraçou-o e protegeu-o como se fosse seu filho. O problema é que preferiu não enxergar os defeitos do próprio filho. Levou à África um grupo envelhecido e sem talento, com peças que alguns definiriam como ex-jogadores em atividade. Lippi preferiu ignorar a má fase de grande parte dos jogadores em prol de uma equipe unida. Só ao fim da péssima campanha percebeu o erro: “É tudo culpa minha”, assumiu após a derradeira partida contra a Eslováquia.

Lippi se mostrou perdido na África. Em três jogos, três esquemas táticos diferentes. Contra o Paraguai, na estreia, um 4-2-3-1 com Iaquinta, Gilardino e Pepe formando o tridente ofensivo, enquanto Pazzini, Di Natale e Quagliarella esquentavam banco. No meio, Montolivo e Marchisio, fora de posição, também não foram bem. Na segunda partida, contra a Nova Zelândia, o técnico escalou o mesmo time, mas recuou mais Pepe, formando um estranho 4-4-2, que não obteve sucesso em momento algum do jogo. E no último jogo, um 4-3-3, contra a Eslováquia, quando o time acordou tarde demais e perdeu a vaga para as oitavas.

Em todas as ocasiões, ficou clara a falta de criatividade do time italiano. A ausência de Pirlo pode até ter sido a responsável por isso, mas não era a obrigação de uma grande seleção ter um substituto a altura para um de seus principais jogadores? Em momento algum Lippi pensou dessa maneira. Sacrificou a habilidade de alguns em troca de confiança. “Totti ou Del Piero serviriam”, falou Maradona depois da eliminação. Balotelli, Cassano ou Miccoli também, diria uma outra centena de torcedores. Mas já era tarde demais, os 23 de Lippi já tinham marcado sua participação na Copa de 2010. E negativamente.

Erro também da Federação Italiana, que não teve paciência com a renovação de Donadoni e readmitiu Lippi, para que seguisse com seu projeto ultrapassado. Agora, fica para Prandelli a difícil missão de reconstruir todo um time, que praticamente não tem base. Ele já mostrou ser capaz disso. Mostrou também que valoriza a qualidade do jogador, acima de qualquer coisa. Basta ver se a Federação terá paciência e não o derrubará depois dos primeiros tropeços.

*O título é do jornal Libero, de Milão. É uma referência ao prêmio Bidone D'Oro, distribuído aos piores jogadores do Campeonao Italiano.

Confira aqui as capas dos jornais italianos no dia seguinte à eliminação.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Crônica de uma morte anunciada

Mesmo anunciada, queda da seleção italiana não deixa de ser inesperada. Marcello Lippi poderia
ter feito algo para evitar o desastre. Mas só a assistiu de perto. (Reuters)

No dia em que iriam eliminá-lo, Marcello Lippi levantou-se às seis da manhã para esperar que o melhor acontecesse. Tinha sonhado que atravessava uma mata de altas figueiras, onde caía uma chuva branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. "Sonhava sempre com árvores", disse-me o filho, Davide Lippi, recordando 27 anos depois os pormenores daquela quinta-feira ingrata. Tinha uma reputação bastante razoável de vencedor de troféus e sempre se mostrara confiante nos momentos certos, porém desta vez não conseguira prever o início do jejum italiano.

Mas Lippi não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça. Interpretou como estragos naturais da farra do tetracampeonato que se tinha prolongado até as últimas partidas das Eliminatórias. Saiu da concentração rapidamente, um bocado sonolento mas de bom humor, e a todos comentava que fazia um dia lindo. Ninguém tinha a certeza de que ele se referia ao estado do tempo.

Marcello Lippi enfiou umas calças e um casaco vermeho igual ao dos empates com Paraguai e Nova Zelândia para o confronto. Era roupa conhecida. Pensara de novo em Totti e Cassano, aqueles resquícios de talentos que haviam sido abandonados em prol de... de que mesmo? Se apostou em tantos daqueles campeões de 2006 no ocaso da carreira, por que deixara para trás o camisa 10 de quatro anos atrás, um dos poucos em boa fase recente? Se fez tantas escolhas de risco em opções de última hora para sua defesa, por que deixara para trás o oásis de fantasia no futebol italiano?

Ficou bastante tempo andando e repassando as garantias de que estava certo. Qualquer afirmação contrária havia sido limada por Marcello Lippi e assim continuaria fazendo nas próximas horas. Mas herdera o instinto de sua família e sabia que a escolha para os últimos jogos não seria suficiente. Mudou o time, mas não muito. Em campo, o recuo inexplicável de Daniele De Rossi foi percebido quando o romanista entregou o primeiro gol de Vittek à Eslováquia. Pouco depois, Marchetti fez sua única defesa em três jogos de Copa do Mundo. Para a Itália marcar, a única chance foi um recuo de Skrtel que quase se tornou gol contra.

Pouco demais para suas ambições, um Marcello Lippi já abobalhado fez o que deveria ter feito há alguns dias, abrindo espaço para Maggio e Quagliarella. Também voltou a ver Pirlo jogar num campo que também contava com os tétricos Cannavaro, Pepe e Iaquinta, presenças inexplicáveis com a camisa azul enquanto Pazzini assistia a tudo do banco. Acuada, a Itália não saía da defesa. Quando o fez, Skrtel tirou sobre a linha uma bola que Quagliarella por pouco não mandou às redes. Mas não demorou para que Vittek marcasse o segundo. Num final emocionante, Di Natale ainda diminuiu e Quagliarella viu seu gol do empate ser anulado de forma polêmica.

A esperança de Marcello Lippi morreu nos pés de Kopunek. Quagliarella a recuperou com o gol mais bonito do Mundial até aqui, já nos acréscimos. Pepe quase marcou o terceiro nos segundos finais, mas pôs para fora uma bola que já era comemorada por uma campeã irreconhecível que tropeçou em si mesma para terminar na lanterna de um grupo que contou com a semi-amadora Nova Zelândia. Choro e destempero, tão comuns nesta hora, de nada adiantaram. Restou a Marcello assumir toda a culpa por erros claríssimos que até então não havia aceitado.

"Marcello, meu caro, o que há?", perguntou um jornalista.

"Eliminaram-me. A responsabilidade é minha e preparei tudo errado", respondeu.

Tropeçou no último degrau, mas levantou-se logo. Pela primeira vez nos últimos dias, teve o cuidado de ser polido. Depois, entrou na Itália pela porta dos fundos e desabou de bruços em sua Turim.

Narrativa baseada no romance homônimo de Gabriel García Márquez, Crônica de uma morte anunciada. Uma leitura obrigatória para quem está de férias, como os jogadores da seleção italiana, a partir de agora.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O retorno do Pescara e o sonho mais "próximo"

A bela Pescara é banhada pelo mar Adriático, que nomeou o estádio da cidade (La Bacheda d'Abruzzo)

A loja que a Nike mantém perto do Camp Nou, em Barcelona, tem dois andares e algumas centenas de produtos licenciados. Mesmo dois dias depois da derrota do time da cidade para a Internazionale, pela Liga dos Campeões, continuava lotada. Depois de escolher uma camisa blaugrana, era necessária mais de meia hora até que os atendentes estampassem nome e número no novo souvenir dos turistas - indiscutivelmente, maior público do local.

Um casal estava à minha frente, junto do filho em cadeira de rodas. Não, não há uma fila preferencial. Com ele, o pai puxou o assunto-chave: futebol. Ou melhor: "calcio". Depois de uns dois minutos de aproximação, conheci a família Vicino, tradicional de Pescara. Estavam de férias e foram passear pela Espanha, "que está numa crise bem menor que a da Itália", garantiu Marco, o pai. Para isso, o carro novo dos Vicino rodou 1.500 quilômetros e passou por vários pedágios em 14 horas de estrada até a primeira parada, Barcelona.

"Mas a estrada é linda. Várias vezes nós vimos o mar. Pra quem mora no litoral, é bom viajar tendo o mar ao lado". Marco concordava com a simpática esposa que, infelizmente, não conta mais com seu nome em minhas memórias. Pescara é a maior cidade da região italiana do Abruzzo e tem um lindo litoral habitado por 125 mil habitantes. Ainda possui um dos estádios mais simpáticos do país, o Adriatico, que Marco frequenta com o filho há 11 anos. Hoje, Filippo tem 25. O pai é sócio dos delfini e riu antes de contar que torcia para o time da cidade: "É um time pequeno, você não vai conhecer." Naquela época, o Pescara estava com boas perspectivas de promoção na Lega Pro Prima Divisione. Usei a informação, ganhei a confiança de Marco e fomos a diante.

A família Vicino ("próximo", numa tradução literal) não tem este nome à toa. Falasse português, passaria por uma trupe brasileira, de tão aberta e disponível nestes minutos de fila. Quando soube que falava com um brasileiro, Filippo contou como gostava do atual técnico de nossa seleção, "um dos maiores meio-campistas que já usou a camisa biancazzurra". Para ele, não passou batida a passagem de Dunga pelo Adriatico. Já Marco o acha "mais ou menos, assim como é hoje como treinador, desperdiçando Ronaldinho desse jeito". Mas há treinador pior que o nosso, ele jura. Antonello Cuccureddu, por exemplo. Demitido do Pescara em janeiro passado, "ele podia ter feito muito mais para nosso time".

O Pescara improvisou Eusebio Di Francesco como treinador e conseguiu o que se tornara inesperado. Filippo sonhava com o retorno à Serie A, mas disse que antes era preciso subir para a B e isto não viria tão cedo para um clube que vinha perdendo a esperança em sua terceira temporada seguida na terceira divisão. Mas, com Di Francesco, os biancazzurri alcançaram o líder Hellas Verona em queda livre, bem a tempo de disputar com eles o play-off de acesso. Venceram e voltaram de onde não deviam ter saído, ainda que às custas do tradicionalíssimo Hellas. Pescara é uma destas cidades apaixonadas por futebol que peca ao deixar seu clube tão longe dos holofotes.

O caminho para se manter em ascensão passa pela renovação do treinador Di Francesco (acertada por dois anos) e na constante ambição do presidente Giuseppe De Cecco. A meta, segundo ele mesmo, é se divertir na Serie B, em vez de ficar lutando contra o rebaixamento. Além de lutar por um retorno à primeira divisão num espaço de três anos. Para isso, também foi importante a chegada do diretor esportivo Daniele Delli Carri, ex-Renato Curi, grande amigo do treinador. As primeiras contratações apontam o nível das vontades da direção biancazzurra: inicialmente fala-se de Iunco (armador do Chievo), Carrus (zagueiro do Mantova) e Pettinari (meia da Roma). Para isso, a sociedade conta com a inserção de mais dois sócios aos 12 que o clube possui, hoje. Para que o sonho da família Vicino de voltar à Serie A, com o perdão do trocadilho bilíngue, fique mais próximo.

domingo, 20 de junho de 2010

Questão de tempo

Smeltz não demorou a furar a defesa italiana. Contou com um dos vários erros de Cannavaro na
partida para abrir o placar. O vexame azzurro é questão de tempo. (Getty Images)


Contra a Nova Zelândia, a Itália partiu para um jogo que, para o observador menos atento, não deveria lhe trazer grandes dificuldades. Mas não se deve esquecer o amistoso entre as duas seleções, há pouco mais de um ano. Antes da Copa das Confederações, a Nazionale teve dificuldades para vencer os kiwis por 4 a 3. Numa partida que valia muito mais, vieram os problemas e o empate em 1 a 1 na segunda rodada da Copa do Mundo. Um resultado difícil de se explicar.

Num dia de luto por Roberto Rosano, defensor do time campeão europeu em 1968 e vice mundial em 1970, Marcello Lippi escolheu sua Itália num estranho 4-4-2, com Marchetti no lugar do lesionado Buffon (com hérnia de disco) e Pepe e Marchisio pelas pontas de seu meio-campo. Bastaram seis minutos até o castigo, quando o atacante Smeltz, em suspeito impedimento, aproveitou falha grave de Cannavaro para bater Marchetti. Segundo gol sofrido pela Itália na Copa, segundo na conta de seu capitão. Depois deste lance, Marchetti não fez qualquer outra defesa, pela segunda partida seguida. É o primeiro goleiro do Cagliari a vestir azzurro num Mundial, depois de Enrico Albertosi, titular em 1970.

Pouco depois, Chiellini chutou torto em ótima chance e perdeu a oportunidade de empatar. O meio-campo se provava fora de posição. A Itália só atacava pelo lado direito, com Montolivo no suporte à dupla Zambrotta e Pepe. Mesmo aos trancos e barrancos, o time chegou ao empate em um discutível pênalti sofrido por De Rossi e bem convertido por Iaquinta. E quase a Nazionale conseguiu virar antes do intervalo, mas Montolivo parou na trave, De Rossi, no goleiro Paston, e Zambrotta viu sua bola subir um pouco além do ângulo. O lateral, inclusive, faz boa Copa e surpreende, já que estava em péssima fase.

Enquanto isso, Gilardino mantinha-se como uma das grandes vergonhas italianas da competição. Sem se apresentar, parecia fugir do jogo e não dava opção. Deu lugar a Di Natale. Pepe também saiu para a entrada de Camoranesi. Pouco depois, um irreconhecível Marchisio foi rendido por Pazzini - e, depois do jogo, criticou Marcello Lippi pelas insistentes mudanças que o técnico tem executado na seleção. A Nazionale atacou bastante, mas não conseguiu furar o ótimo sistema defensivo dos All Whites, comandado pelo capitão Nelsen. Do lado italiano, bem que Cannavaro podia ter encerrado sua carreira antes de levar um chapéu do neozelandês Wood, que passou perto de acertar um golaço.

Montolivo foi o melhor azzurro da partida e deu boas esperanças de futuro, algo inédito em suas outras passagens pela seleção, mas ainda precisa arriscar mais. Resta aguardar o retorno de Pirlo na última rodada da fase de grupos. Com a vitória do Paraguai sobre a Eslováquia, crescem as chances de a Itália pegar a badalada Holanda nas oitavas-de-final. Por enquanto, resta a vergonha para uma Itália sem talento. Mas Lippi continua dizendo que convocou bem, escalou bem, e que não tem qualquer arrependimento. Questão de tempo.

colaborou Braitner Moreira

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A nova onda do imperador

Mais de 1.500 anos depois da deposição de Rômulo Augusto pelos reis bárbaros, Roma
volta a ter um imperador para chamar de seu. Por bem ou por mal. (AP Photo)

Para alguns, o novo atacante da Roma foi o melhor atacante do planeta entre as Copas do Mundo de 2002 e 2006. Já na Itália, Adriano Leite Ribeiro foi vendido ao Parma em co-propriedade logo após o Mundial da Ásia para ganhar experiência na Serie A. Ganhou. Em um ano e meio, foram 26 gols em 44 partidas, o que o levou de volta à Inter. Daquele janeiro de 2004 até o fracasso na Copa da Alemanha, fez 108 jogos e 57 gols com a camisa nerazzurra, além de outros 20 gols em 25 partidas com a seleção brasileira. Depois da queda para a França de Zidane, só por São Paulo e Flamengo é que Adriano conseguiu jogar bem. Entre as Copas de 2006 e 2010, pode ter sido o jogador mais problemático do mundo.

O novo Imperador de Roma...
Os 15 jogos de Luca Toni no primeiro semestre deste ano quebraram a lenda urbana de uma Roma sem centroavante desde a saída de Batistuta, em 2003. Na verdade, Carew e Nonda passaram por Trigória nestes anos, mas não se firmaram e a posição perdeu espaço no 4-2-3-1 que Spalletti escolheu para o time. Já Claudio Ranieri prefere trabalhar com alguma referência ofensiva e, finalmente, conseguiu contratar Adriano, velho sonho do treinador e da própria equipe. Terá em suas mãos um atacante alto e forte, bom de dribles na velocidade e dono de bombas na perna esquerda.

No ambiente mais quente e liberal da Cidade Eterna, a maior dúvida será o aproveitamento de Adriano em campo. Ele terá de buscar seu espaço ao lado de Vucinic e Totti, um possível problema de egos relativamente fácil de ser gerido no decorrer de um calendário apertado. Outro aspecto favorável ao novo camisa 8 romanista é o elenco no qual vai se inserir. Hoje, são outros sete brasileiros no elenco, todos com um extracampo pacato e sem histórico de baladas e envolvimento com graves polêmicas. A ida do núcleo da família do jogador para Roma também pode ser decisiva para um comportamento melhor.

O aspecto físico também é promissor. Adriano teria feito os exames em Roma com 102kg, oito acima de seu peso ideal, mas há fontes que garantam dois quilos a mais no peso do Imperador. Ainda assim, na próxima semana o artilheiro começará um plano para voltar aos 94kg que lhe consagraram na Inter. Quando voltar à Trigória, em 1º de julho, encontrará uma tabela nutricional personalizada, baseada em massa muscular e consumo energético, para evitar perda de força. Nela, estão vetadas frituras, doces, cerveja e a tão querida carne vermelha.

Adriano chega motivado. Claramente feliz em sua coletiva de apresentação, garantiu que fez a escolha justa, por um time que joga um futebol divertido: "Será um ano mágico". Totti foi o primeiro a dar boas-vindas àquele que "estava destinado a jogar por aqui, algum dia". O contrato cheio de artimanhas, muito bem preparado pelo diretor esportivo Daniele Pradè, servirá para mantê-lo na linha. Há cláusulas que preveem multas até em fotos de paparazzi e aumento repentino de peso, além de uma possível rescisão sem ônus ao clube em casos extremos. Concentrado e bem fisicamente, há poucos centroavantes no mundo ao nível de Adriano, o novo Imperador de Roma. Que parece pronto a formar com Dino da Costa e Paulo Sérgio a tríade dos grandes atacantes brasileiros da história do clube.

...ou o sucessor de Renato Gaúcho?
Mesmo em sua grande fase, Adriano passou dos limites ao dar um soco duplo em Caneira, então no Valencia. Numa de suas últimas partidas pela Inter, veio outro soco, agora no blucerchiato Gastaldello. Pouco depois da suspensão de três jogos que este último lance lhe rendeu, o atacante viajou para responder a uma convocação da seleção brasileira, mas não voltou para Milão. Sumido, houve até quem falasse em sua morte. Passaram-se alguns dias para que Adriano voltasse à casa de sua mãe avisando que havia perdido a felicidade e pararia de jogar. Conseguiu rescindir seu contrato e voltar para o Flamengo, onde ficou por 13 meses até, digamos, recuperar sua felicidade de um contrato de 3,5 milhões de euros por ano com os giallorrossi.

Apesar de ter potencial para se tornar um dos maiores ídolos da história recente da Roma, Adriano também terá (várias) chances de ver sua carreira minguar até uma nova busca de felicidade no Rio de Janeiro. De temperamento instável, sempre é possível aguardar uma onda de depressão para abater o Imperador quando este estiver longe do Morro da Chatuba. As investigações do Ministério Público sobre um possível envolvimento do jogador com traficantes cariocas também têm grande potencial destrutivo, se o caso não for rapidamente resolvido.

Por mais que o ambiente da cidade seja mais livre para satisfazer as vontades de seu novo Imperador, a mídia local será sempre motivo de preocupação. Imprensa quente, tem alta influência sobre as passionais torcidas da cidade e consegue queimar jogadores com relativa facilidade, quando é de seu interesse. Adriano terá de pisar em ovos nos seus primeiros meses em Roma. E fazer social. E jogar bem. E marcar gols. Caso contrário, irá manter a escrita dos dispendiosos atacantes brasileiros que fracassaram na capital, lista que começou com Amarildo e conta com Fábio Júnior, Júlio Baptista e, claro, o mentor Renato Gaúcho.

Jogadores: Paolo Rossi

Rossi no jogo em que gravou seu nome na história das Copas (MSI)
Se você tem menos de 30 anos e nunca ouviu falar de Paolo Rossi, ouse perguntar a seu pai quem foi este atacante italiano. Logo irá perceber sua fisionomia ficar sisuda, porque você o estará lembrando da existência do carrasco que destruiu os sonhos daquela que, com certeza, foi uma das seleções brasileiras que apresentava o mais envolvente futebol.

No começo da carreira, o atacante passou por diversos clubes pequenos até chegar às categorias de base da Juventus, em 1972. Ainda jovem, sofria diversas lesões, chegando a passar por três cirurgias em um período de dois anos. Com poucas oportunidades no time bianconero, aceitou ser emprestado para o Como, onde atuou por seis vezes, mas sem marcar gols.

Em 1976, Rossi, então com 20 anos, chegou ao Lanerossi Vicenza e, com 21 gols em 36 jogos, foi peça fundamental na subida da equipe para a Serie A. Espantosamente, na disputa da primeira divisão, ainda pela equipe alvirrubra, Rossi melhorou o nível do futebol e marcou 24 vezes em 30 partidas, levando o clube à segunda colocação do campeonato, atrás apenas da Juventus.

A ótima fase de Rossi foi reconhecida e Enzo Bearzot o convocou para a Copa do Mundo de 1978, na qual fez três gols e ajudou a Squadra Azzurra a chegar na quarta colocação. Mas esta ainda não foi sua Copa. A competição que o colocou sob holofotes de todo o mundo e o projetou para a galeria dos que para sempre serão lembrados como carrascos da seleção canarinho (ao lado de Ghiggia e Zidane), foi a Copa de 1982, disputada na Espanha.

O Brasil, comandado por Telê Santana, chegava como favorito, contando com craques de indiscutível qualidade como Zico, Falcão, Junior e Sócrates. A Itália tinha sua força no sistema defensivo, com Zoff, Baresi, Bergomi e Gentile. No ataque, o time contava com algumas incógnitas. Graziani não vivia boa fase, o artilheiro da equipe até então, Roberto Bettega, se machucou meses antes da convocação e Paolo Rossi acabara de voltar de uma suspensão por suposto envolvimento com um esquema de armação de resultados da Loteria Esportiva Italiana que o impediu de jogar por dois anos. O escândalo aconteceu quando ele jogava pelo Perugia: Rossi foi acusado de concordar com a manipulação de uma partida contra o Avellino – na qual fez dois gols. O atacante, que fez ótimo campeonato pelo time alvirrubro em 1979-80, passou à Juventus, que quis contratá-lo mesmo suspenso.

Sem jogar por quase dois anos, Rossi ficou treinando com os outros jogadores da Velha Senhora, e estreou pela equipe apenas em abril de 1982. Mesmo tendo jogado apenas três partidas oficiais pelos bianconeri, Bearzot o convocou ao Mundial. Sem ritmo de jogo. O que fez o meia Gabriele Oriali, também convocado à competição, dizer pouco antes de a delegação rumar à Espanha: "Com Paolo Rossi no ataque, nossas chances de vencer ficam reduzidas". E assim foi na primeira fase, onde o ataque passou em branco nas partidas contra Polônia, Peru e Camarões.

Quiseram os deuses do futebol que as seleções caíssem no mesmo grupo da segunda fase, que contava ainda com a campeã Argentina. Para muitos, seria o típico jogo de ataque contra defesa, em que as apostas seriam apenas para ver por quanto tempo os italianos aguentariam a pressão brasileira.

Logo aos cinco minutos de jogo, Rossi mostrou o cartão de visitas e abriu o placar com uma cabeçada fulminante após cruzamento de Cabrini. O Brasil não se abateu e empatou aos 12. Aos 25, Rossi aproveitou passe errado de Toninho Cerezo e, com o habitual oportunismo, roubou a bola para colocar a Nazionale novamente à frente do placar. Na segunda etapa, o Brasil pressionou até encontrar o gol, com Falcão. Após o empate, o Brasil cresceu muito e teve oportunidades para virar o placar, mas então eis que Paolo Rossi, que já havia marcado duas vezes, apareceu novamente para dar o golpe de misericórdia. Aos 30 minutos, livre de marcação, desviou chute na pequena área. O Brasil não conseguiu superar o baque e, graças a Rossi, a Itália estava classificada para as semifinais.

Pablito comemora um de seus gols contra o Brasil (Interleaning)
O atacante ainda marcou duas vezes contra a Polônia, na semifinal, e uma contra a Alemanha, na final, e conquistou a chuteira de ouro da competição, com seis gols. Naquele ano, Rossi também ficou com a Bola de Ouro da France Football. Foi o terceiro italiano a ganhar o prêmio, após Gianni Rivera e Omar Sívori.

Em nível de clubes, sua melhor passagem foi pela Juventus, mesmo entre altos e baixos e mesmo sem nunca ter estabelecido um relacionamento muito amigável com a torcida, com o técnico Trapattoni e o presidente Boniperti. Pablito reclamava de ser substituído com frequência, treinava sem motivação e entrou em atritos com o presidente algumas vezes por pedir aumentos salariais.

De qualquer forma, ao lado de Platini e Boniek, Rossi conquistou diversos títulos com a Velha Senhora, dentre os quais se destacam os scudetti de 1982 e 1984 e a Copa dos Campeões de 1985. Sua melhor temporada foi a segunda, na qual contribuiu com 13 gols para o scudetto.

Rossi fez trio de luxo com Platini e Boniek (Interleaning)
Em 1985, transferiu-se para o Milan, mas devido aos antigos problemas no joelho, não conseguiu render o que se espera de um legítimo matador e marcou apenas dois gols com a camisa rossonera. No ano seguinte foi convocado para a terceira Copa do Mundo, na qual não chegou a jogar, defendendo então o Hellas Verona, time em que encerrou sua carreira após marcar quatro gols em vinte jogos.

Em 2002, Pablito publicou uma autobiografia, intitulada Eu fiz o Brasil chorar. Atualmente, é comentarista do canal italiano Sky Sports, presidente honorário do Prato e dirige uma agência imobiliária em Vicenza.

Paolo Rossi
Nascimento: 23 de setembro de 1956, em Prato
Posição: atacante
Clubes: Juventus (1973-75), Como (1975-76), Lanerossi Vicenza (1976-1979), Perugia (1979-80), Juventus (1981-85), Milan (1985-86), Hellas Verona (1986-87)
Títulos: Serie A (1977), 2 Serie A (1982 e 1984), 1 Coppa Italia (1983), 1 Copa dos Campeões da Europa (1985), 1 Recopa Europeia (1984), 1 Copa do Mundo (1982)
Seleção Italiana: 48 jogos e 20 gols.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os últimos promovidos na Lega Pro

Os últimos 90 minutos dos play-offs de acesso da Lega Pro definiram os destinos felizes e tristes de dez equipes, entre a Prima e a Seconda Divisione: Varese e Pescara abandonaram as "profundezas" do futebol italiano para viver dias de mais esperança, na Serie B. Já Spezia, Gubbio e Cisco Roma saíram da semi-amadora Seconda Divisione e, a partir da próxima temporada, vão sonhar com a segunda divisão propriamente dita.

A escalada: em seis anos, o Varese saiu do Eccellenza para a Serie B (Tommaso Sabino)

Prima Divisione - Grupo A: Varese 2x0 Cremonese (ida: 0x1)
Varese e Cremonese tinham um certo "dever moral" de alcançar a Serie B. O Varese tinha que dar prosseguimento à ascenção que viu o clube sair dos campos regionais do Eccellenza para a Prima Divisione em cinco anos. A Cremonese, que vencera o primeiro jogo, já há dois anos investe pesado em busca da promoção e não poderia falhar mais uma vez. Em campo, foi um jogo nervoso, resolvido apenas na segunda etapa. Buzzegoli marcou os dois gols (o ultimo deles de pênalti, aos 47 minutos) que devolveram a Serie B ao Varese, após 25 anos de ausência. A Cremonese, que vai para seu quinto campeonato seguido na Lega Pro, mais uma vez, terá de rever seu projeto.

Ganci fez o Adriatico explodir com o retorno inacreditável do Pescara à Serie B (Il Centro)

Prima Divisione - Grupo B: Pescara 1x0 Hellas Verona (ida: 2x2)
Em 2006-07, Pescara e Hellas Verona caíram juntos para a antiga Serie C1. Três temporadas depois, os dois decidiram os play-offs para retornar à Serie B e apagar o insucesso da temporada regular, em que foram superados pelo Portosummaga. Depois de desperdiçar a vitória, em Verona, no último lance do jogo, o Pescara não se permitiu errar diante de sua torcida no Adriatico. Segura desde os primeiros momentos, a equipe abruzzese não permitiu nada ao Verona e, aos 10 minutos do segundo tempo, Ganci fez o gol que arquivou as últimas temporadas de terceira divisão. Festa em Pescara e grande tristeza pelos lados do Hellas Verona: após liderar o campeonato por 27 das 34 rodadas, o clube desperdiçou todas as chances de acesso e jogará sua quarta temporada seguida na Lega Pro.

Reencontro com a história: Alessandro Cesarini manda o Spezia para a Prima Divisione (Il Secolo XIX)

Seconda Divisione - Grupo A: Spezia 2x0 Legnano (ida: 1x2)
O Spezia faliu logo após ter sido rebaixado da Serie B, na temporada 2007-08, e precisou passar por um período traumático, em que foi refundado e inscrito na Serie D. Dois anos depois, o clube da Ligúria se reencontra com o lugar onde teve sua história interrompida. Depois de perder o primeiro jogo em Legnano, o Spezia teve de esperar até os 24 minutos do segundo tempo para dar corpo ao seu sonho, com um pênalti convertido por Cesarini; dez minutos mais tarde, o mesmo Cesarini ampliou e devolveu o Spezia à Prima Divisione. Para o Legnano, provavelmente, começa um período de incerteza. Muito do futuro societário do clube estava atrelado à promoção, que não veio.

O vôo mais alto do Gubbio: após cem anos, o clube alcança a Prima Divisione pela primeira vez (gubbiofans.it)

Seconda Divisione - Grupo B: San Marino 0x2 Gubbio (ida: 0x2)
Esperanças variadas em San Marino. O Sanma se agarrava ao retrospecto da semifinal contra a Sangiovannese, em que também reverteu uma derrota por dois gols. O Gubbio acreditava que poderia repetir a performance contra o Fano, com duas vitórias. E foi o que aconteceu. Reforçado por mais de três mil torcedores, o Gubbio fez prevalecer sua vontade de fazer história. Pela primeira vez em mais de cem anos, o time umbro jogará na Prima Divisione - aos danos do San Marino, que perdeu a chance de recuperar a categoria perdida no começo da década.


Terceiro time de Roma, a Cisco retornou à Prima Divisione (Il Messaggero)

Seconda Divisione - Grupo C: Catanzaro 4x2 Cisco Roma (ida: 0x4)
Tudo fácil para a Cisco Roma, que, após vencer em Roma por 4 a 0, transformou o segundo jogo dos play-offs contra o Catanzaro numa mera formalidade. Quase ninguém na Calábria acreditava que o time local pudesse reverter o resultado e, apesar de mostrar um bom jogo, o Catanzaro não foi controlado pelo regulamento, que estava do lado da Cisco Roma. Prevaleceu a diferença de gols e Roma inscreverá seu terceiro time mais forte na terceira principal categoria do futebol italiano.

ArrivederC!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fique de Olho: Khouma El Babacar

O jovem senegalês mostrou estrela e marcou logo na sua estreia, contra o Chievo, pela Coppa Italia (TC&C)

Com 17 anos recém completados, o senegalês Khouma El Babacar é um dos jovens talentos que começou a virar realidade nessa temporada. Mesmo com o pequeno número de aparições (apenas cinco), o atacante já deixou sua marca duas vezes e encheu os olhos dos torcedores da Fiorentina. O africano é uma das grandes esperanças para o ataque viola nos próximos anos, com seu preparo físico avantajado e técnica acima da média. Babacar já é comparado a Didier Drogba e foi eleito, aqui mesmo no Quattro Tratti, uma das 15 maiores revelações da Serie A italiana.


Nascido em Thies, no Senegal, o primeiro time de Babacar foi o US Rail, na própria cidade. Com apenas 13 anos, já era um dos melhores da equipe. Aos 15, saiu de seu país e partiu para Fuerteventura, no arquipélago das Canárias, onde entrou para a European Football University, escola de futebol de base liderada pelo italiano Franco Rondanini. Não demorou muito para que o jovem chamasse a atenção e partisse para a Itália, para defender os times jovens do Pescara.

A boa passagem pela equipe de Abruzzo fez com que Pantaleo Corvino, diretor esportivo da Fiorentina, fosse atrás de Babacar e o levasse para Florença ainda em 2008. O atacante estreou pelo time Primavera dos viola em 2009, na Copa de Viareggio e, apesar da campanha ruim de seu time, conseguiu algum destaque. Nesse seu tempo de adaptação ao time, disputou 18 partidas e marcou seis gols, sempre jogando com atletas três ou quatro anos mais velhos.

O bom rendimento de Babacar lhe rendeu um contrato com a Fiorentina e especulações vindas de outros grandes centros europeus. Com apenas 16 anos, o jovem atacante foi defender o time Allievi – categoria abaixo da Primavera - da equipe viola e venceu seu primeiro título: o campeonato nacional da categoria. Mais uma vez o garoto impressionou e conquistou seu espaço: Cesare Prandelli o chamou para compor a equipe principal.

Apenas um mês depois já fazia sua estreia, no jogo contra o Chievo, pela Copa da Itália. O garoto entrou de titular na equipe mista montada por Cesare Prandelli e, com seus poucos 16 anos, se tornou o jogador mais novo da história da Fiorentina a marcar um gol pela equipe profissional. Babacar marcou aos 75’, cinco minutos antes de sair, e ajudou seu clube a vencer o time de Verona por 3 a 2. O garoto mostrou estrela e começou a tomar o lugar que deveria ser do brasileiro Keirrison.

Enquanto o ex-palmeirense precisou de 12 jogos para marcar dois gols, Babacar fez o mesmo com apenas cinco partidas. Além de seu jogo de estreia na Coppa Italia, foram mais quatro jogos disputados na Serie A. Em todos, o senegalês mostrou boa movimentação, rendimento razoável nas finalizações e uma tranqüilidade pouco vista em jogadores tão jovens. Em seu gol na Serie A mostrou personalidade ao deixar o bom Bocchetti para trás e bater bonito na saída do goleiro.

El Babacar já é xodó da torcida do Artemio Franchi e, em um futuro próximo, deve se tornar peça importante do ataque viola, já que atua bem tanto centralizado no ataque, quanto pelos lados do campo. Não à toa, o senegalês de grande porte físico e velocidade ímpar já é pretendido por grandes clubes europeus, como Real Madrid, Chelsea e Manchester United. Olho nele.

Originalmente para o Olheiros.

Khouma El Babacar
Nascimento: 17 de março de 1993, em Thies (Senegal)
Clubes: US Rail, Pescara e Fiorentina
Seleções de base que defendeu: Senegal Sub-20 e Sub-17
Títulos: Campionato Allievi 2008-09

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Não basta

De Rossi foi o destaque italiano na abertura da Copa e salvou o pescoço dos atacantes
no 4-3-3 desprovido de talento da Nazionale
(Reuters)


Em sua estreia na Copa do Mundo, a Itália precisou correr por um empate contra o Paraguai. A partida da Cidade do Cabo expôs ao menos dois pontos da Nazionale de Marcello Lippi: suas claras limitações - basicamente as mesmas de todo o período pós-2006 -, e o crescimento moral do time no torneio mais importante do futebol - basicamente o mesmo de sempre. Depois de ver Alcaraz abrir o placar cabeceando uma falta inexistente, os azzurri pressionaram e jogaram com valentia até chegar ao empate com De Rossi, aproveitando falha do goleiro Villar. Uma virada não teria sido injusta, pelo contrário. Os italianos até forçaram o segundo gol e não tiveram problemas com o ataque paraguaio, mas esbarraram em suas próprias barreiras.

A falta de criatividade no elenco de Lippi é fato batido e um ponto sobre o qual pouco se tem a acrescentar, visto o número de vezes em que esse problema crônico já foi citado. Marchisio foi mesmo adiantado no meio-campo, responsabilizando-se pela criação. O juventino, entretanto, sentiu a pressão e passou batido. Montolivo, pouco inspirado, foi outro incapaz de armar situações de perigo, embora tenha buscado o jogo da forma como pode. De Rossi, teoricamente o meia mais defensivo no 4-3-3, acabou sobrecarregado na armação e foi recompensado com o gol de empate. Bom início de Copa para o romanista que, há quatro anos, deu vexame ao acertar McBride com o cotovelo na segunda rodada e ser suspenso até a final.

Nas laterais, situação parecida: bastante esforço, pouco resultado. Zambrotta até foi melhor do que suas temporadas recentes, o que não diz muito: ainda assim é sombra de seu passado. Criscito chegou pouco ao ataque, sem mostrar perigo ou acertar algum cruzamento perigoso. No total, foram 24 cruzamentos feitos pela Nazionale, e só um realmente aproveitado. Cannavaro e Chiellini fizeram boa partida, manchada pelo lance em que o capitão deixou Alcaraz subir para cabecear e furar Buffon, que não teve culpa. O goleiro não foi exigido e saiu no intervalo com dores nas costas, dando lugar a um Marchetti igualmente inatingido.

Se a bola pouco chegava com qualidade, não seria Iaquinta a tirar suco de pedra. O atacante, presença bisonha na lista de Lippi, manteve seu nível e em nada acrescentou. Gilardino lembrou seus piores momentos no Milan, quando só aparecia na hora de ser substituído. Pepe não se intimidou. Não fez grande partida, porém, incansável, foi a maior ameaça à defesa paraguaia, partindo para cima dos adversários. Camoranesi entrou e, pateticamente, errou tudo. O ítalo-argentino ainda poderia ter sido expulso, ao levar cartão amarelo e fazer falta perigosa, poucos minutos depois. Di Natale também ganhou sua chance, mas pouco apareceu.

Com as substituições, Lippi abriu o time numa espécie de 4-2-2-2 até aqui jamais testado, mas que favoreceu a Itália. Não o suficiente para sonhar com o título e se mostrar tão confiável quanto o treinador toscano tem parecido, com respostas arrogantes e irônicas na entrevista coletiva. Pirlo faz falta, tanto quanto os não-convocados Cassano, Totti e Balotelli. A passagem de fase é questão de tempo. Depois disso, a Itália valente de hoje não basta.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Os escolhidos

A Copa do Mundo começa agora, mas a Itália só entra em campo na segunda-feira, dia 14. Até lá, uma boa pedida para conhecer mais sobre a Nazionale é o perfil dos 23 convocados de Marcello Lippi para o torneio. Uma lista que teve como maior surpresa o corte do lateral-esquerdo Grosso. Dos campeões na Alemanha, há quatro anos, nove entram para a disputa na África do Sul. A Juventus é o time com o maior número de convocados: seis. Nas próximas semanas, confira por aqui a repercussão e as análises da campanha azzurra em solo sul-africano. Siga conosco!

Goleiros
Buffon, Marchetti e De Sanctis
Defensores
Maggio, Criscito, Chiellini, Cannavaro, Bocchetti, Zambrotta e Bonucci
Meio-campistas
De Rossi, Gattuso, Marchisio, Camoranesi, Palombo, Pirlo e Montolivo
Atacantes
Pepe, Iaquinta, Di Natale, Gilardino, Quagliarella e Pazzini

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Perugia: a indiferença no futebol moderno

Um estádio sem time: falido e sem interessados em seu resgate, o Perugia morre
na indiferença de quem espera um negócio melhor (Ansa)


Não há mais tempo para o Perugia: o clube umbro, que há apenas seis temporadas figurava na Serie A, e que teve sua falência decretada no último mês de maio, não despertou o interesse de nenhum outro proprietário, e seguirá os procedimento normais para a sua extinção. O futebol na cidade, agora, depende da formação de um novo clube, amparado por uma nova sociedade, que deverá começar sua vida a partir dos campeonato amadores (provavelmente, no torneio regional de Eccellenza). Entenda o porquê de mais esta triste página do futebol italiano ter sido uma vitória incontestável do futebol moderno.

A sentença
No dia último dia 20 de maio, e pela segunda vez em cinco anos, o Perugia teve sua falência decretada pelo Tribunal da cidade. A bancarrota do clube perugino foi uma conseqüência direta da também falência de sua proprietária, a imobiliária Mas, de Leonardo Covarelli. A realidade era previsível. Desde sua primeira falência - que aconteceu após a Serie B 2004-05, - o Perugia vinha lutando com dificuldade. No terreno de jogo, o resultado mais expressivo foi em 2007-08, com a classificação para os frustrados play-offs de acesso à Serie B. Em seus gabinetes, a equipe umbra não conseguia encontrar uma solução em longo prazo para seus problemas financeiros, chegando a ter quatro patronos diferentes nos últimos cinco anos.

O caos havia se intalado definitivamente no clube perugino. A equipe, desmotivada pela falta de pagamentos, perdeu quaisquer possibilidades de alcançar os play-offs e, por pouco, não condenou o clube à disputa dos play-outs - o que, naquele momento da temporada, significaria "meio rebaixamento". Nos bastidores, hipotizou-se de tudo para tentar salvar o clube: a venda do título à prefeitura (que faria a transição para um eventual interessado), uma possível cessão da sociedade a um grupo árabe - algo que nunca foi confirmado - até um programa de acionário popular, de baixíssima aceitação, chamado Io sto con il Grifo. Nada deu certo.

Morte lenta
Em seus últimos dias, já em agonia, o clube travou um autêntica guerra especulatória contra si mesmo. Lançava a esmo comunicados à imprensa, prontamente desmentidos por sua propriedade. No último deles, falava sobre mais uma tratativa de cessão que seria mal sucedida, a ponto de declarar que, no mesmo dia 20 de maio em que viu sua história sofrer um hiato, seriam depositados documentos que provariam a integridade financeira de uma possível nova compradora.

A curadoria falimentar havia estabelecido que hoje deveria ocorrer um leilão do pacote societário do clube. As ofertas deveriam ser depositadas, no máximo, até a véspera, e o lance mínimo estva fixado em 665 mil euros. Estimadamente, salvar a equipe ainda na Prima Divisione custaria cerca de 4 milhões de euros ao novo comprador. Mais uma vez, especulou-se de tudo: pessoas interessadas em salvá-la, que constituiriam uma frente em prol do Perugia; ou empreendedores que esperavam, apenas, a entrada de mais um sócio para dar vida ao novo projeto.

Conforme o tempo passava e as coisas não se resolviam, o torcedor do Perugia sofria, talvez já conformado. Ontem, o triste caso conheceu sua última página de descaso: nenhuma oferta fora oferecida por suas ações. Nenhuma pessoa se interessou em resgatar um time que, em seus melhores tempos, chegou a ser vice-campeão da Serie A (1978-79, temporada em que terminou invicto) e viajar várias vezes pela Europa, inclusive sendo campeão da Copa Intertoto, em 2003. A partir do segundo semestre de 2010, o futebol da cidade deverá se contentar com vôos bem menores: os regionais e amadores do campeonato de Eccellenza.

Um grande negócio
Tal desfecho era esperado. Desde a "fundação" do que hoje podemos ter como futebol moderno, muito mudou. Mais que conduzir os clubes à profissionalização plena, há uma destruição da identificação dos mesmos com suas praças de origem. Não se pretende isentar de culpa administrações embaraçosas, nem repudiar o profissionalismo. Mas está claro que a mudança de um clube para uma sociedade - seja por ações ou por cotas - tem transformado o sentimento coletivo em um negócio particular.

É evidente que o título de um clube da história e da torcida do Perugia, falido, em uma divisão amadora, interesse muito mais, em termos de negócio, do que o resgate de um problemático, em uma categoria profissional. Os motivos são vários, mas citemos apenas três. Primeiro: os investimentos iniciais seriam incomparavelmente menores, uma vez que seria constituída uma nova sociedade e sua nova propriedade não precisaria arcar com débitos anteriores. Segundo: a perspectiva de alcançar resultados positivos a curto prazo seria muito maior em campeonatos de nível técnico modesto do que numa competição profissional. Terceiro: a nova propriedade ganharia muito em imagem e relações públicas; a possibilidade de guiar um clube à Seconda Divisione após vencer seguidamente o campeonato de Eccellenza e a Serie D criariam um clima positivo na praça, endossariam um trabalho sério e empenhado para a reconstrução da equipe, atrairia patrocinadores e geraria mais vendas de abonamentos e produtos.

Exemplos recentes não faltam para essa dinâmica. O Pisa não foi salvo, no começo da temporada, para ser prontamente reconstituído após sua falência e voltar à Seconda Divisione como campeão de seu grupo, na Serie D. A Lucchese, que ainda festeja seu retorno à Prima Divisione, foi refundada há dois anos, e apenas na Serie D - na época, seus torcedores chegaram a propor uma frente de mendicância para salvar o clube. A Massese, também falida há dois anos, inscreveu um time às pressas na Serie D, e só após ter sido rebaixada (com apenas quatro pontos marcados) e ter seu pacote leiloado, sem comprador, em três sessões, foi refundada, no torneio de Eccellenza. Mais acima na hierarquia do futebol italiano, lembre-se que Aurelio De Laurentis poderia ter adquirido o Napoli já em 2004, na Serie B, mas preferiu recomeçar na antiga C1.

Por tudo isso, o clube constituído em sociedade deixa de ser o que era, em essência: um patrimônio de sentimentos, que representa uma cidade e sua gente, que exprime seus sentimentos, sua história e sua cultura - e passa a ser um negócio de particulares. Talvez por isso, as torcidas italianas de província, cada vez mais, estejam cantando as músicas tradicionais de suas cidades e torcendo em dialeto. Algo que, por enquanto, a gente do Perugia não pode fazer: vítimas reincidentes do futebol moderno e dos riscos de negócio que ele compreende, estão sem clube, sem história e sem identidade.

Saiba mais
Em março de 2008, o Perugia precisava de um milagre para voltar ao convívio dos grandes. Guilherme Daroit falou sobre o tema. Confira clicando aqui.

domingo, 6 de junho de 2010

Os 23 de Lippi: Simone Pepe

Pepe comemora: ele deixou de ser qualquer um e agora briga por posição na Nazionale de Lippi (AP)

Há quatro anos, era bastante difícil imaginar que Simone Pepe, então desencontrado meia-atacante de Palermo e Udinese, fosse disputar uma Copa do Mundo. Àquela época, jogava a Serie A pela primeira vez, e, aos 22 anos, não havia demonstrado um potencial extraordinário, decepcionando aqueles que o haviam estimado nas seleções de base (de 2001 a 2006, nas sub-17, 19, 20 e 21). Revelado nas categorias menores da Roma, Pepe passou seis meses emprestado ao modesto Lecco, na Serie C1, e não teve tantas oportunidades. De volta à capital, foi cedido à Teramo, clube no qual mostrou bom futebol. A equipe terminou na quarta posição da C1 e foi eliminada nos playoffs de acesso à segunda divisão.

O Palermo, então na Serie B, interessou-se pelo jogador, e adquiriu metade de seu passe. Em 2003/04, sua primeira temporada no clube palermitano, Pepe jogou 19 vezes, marcando só um gol no ano em que os rosanero chegaram à divisão de elite do futebol italiano. Números medianos, que o fizeram ser emprestado para outro teste, desta vez no Piacenza. Novamente na segunda divisão, foi um dos destaques do time ao fazer 12 gols em 30 partidas. Acabou inteiramente vendido ao Palermo, numa negociação que envolvia antiga dívida entre a Roma e os sicilianos. Se parecia pronto para receber uma chance na Serie A, enganou-se: seis jogos em seis meses bastaram para que Simone procurasse um novo clube. Surgia a Udinese.

Contratado pelo clube friulano no meio da temporada, só entrou em campo três vezes na metade final da stagione. Enquanto a Itália erguia a taça na Alemanha, Pepe não se firmava em lugar algum, sem ter ideia de seu futuro. Foi emprestado pela quarta vez em cinco anos, agora para o Cagliari. Já atuando como um meia externo pelo lado direito do campo, começou a mostrar eficiência. Fez seu primeiro gol na Serie A, a qual terminaria com três, num time que conseguiu se salvar na penúltima rodada, sob comando de Marco Giampaolo. Bom para a Udinese, que poderia finalmente apostar no jogador.

Em Udine, Pepe se encontrou. Encontrou também Pasquale Marino, que fez subir o nível do atleta. Embora tivesse (e ainda tenha) suas limitações, ele se tornava cada vez mais perigoso em suas investidas. Terminou 2007-08 com boas prestações e três gols. Na temporada seguinte, manteve o ritmo e foi premiado por Marcello Lippi com uma convocação para amistoso contra a Bulgária. Disputou a Copa das Confederações no ano passado, e, na última época, realizou seu maior número de gols na Serie A: sete. Simone Pepe, que ainda não marcou com a camisa da Nazionale, vai à Copa como alternativa ofensiva, preparado para atuar próximo da ponta direita, ou, se necessário, em ambos os lados. Ele já entrou em acordo para defender a Juventus depois da competição.

Simone Pepe
Nascimento: 30 de agosto de 1983, em Albano Laziale
Posição: meio-campista e atacante
Clubes: Lecco (2002), Teramo (2002-03), Palermo (2003-04), Piacenza (2004-05), Palermo (2005), Udinese (2006), Cagliari (2006-07), Udinese (2007-hoje)
Seleção italiana: 15 jogos

Os 23 de Lippi: Mauro Camoranesi

Camoranesi é mais um juventino que só vai à África por causa do que fez no passado (Getty Images)

Em 2003, o argentino Mauro Germán Camoranesi se tornou o 45º estrangeiro a vestir a camisa da seleção italiana. Foi o então comandante da azzurra Giovanni Trapattoni que abriu as portas para o polêmico meio-campista. Não demorou muito para que ele mostrasse sua forte personalidade: “Não sou um traidor. Ainda me sinto 100% argentino. É só uma questão de futebol”, disse à imprensa depois de questionado sobre sua opção. Em 2006, mais uma gafe do ítalo-argentino. Depois de não cantar o hino da Itália na estreia da seleção na Copa do Mundo, respondeu um repórter com a típica simpatia: “Eu não conheço o hino italiano”.


Polêmicas à parte, Camoranesi é o estrangeiro que mais vezes vestiu a maglia azzurra e um dos principais nomes da seleção nos últimos dez anos. Conquistou esse espaço após duas boas temporadas no Hellas Verona e um ótimo início na Juventus. O garoto nascido em Tandil, na Argentina, chegou aos tradicionais clubes italianos depois de passar por times no México, Uruguai e na própria Argentina. Sua última temporada nas Américas foi em terras mexicanas, no Cruz Azul.

Com bom controle de bola, bons passes e um alto número de gols, Il Mago di Tandil chamou a atenção do Verona, ainda na Serie A italiana. Estreou pelos gialloblù no dia 22 de outubro de 2000, na vitória contra a Lazio, apoiando o ataque formado por Gilardino e Mutu. Ao final do campeonato, somava 22 presenças e quatro gols, como um dos principais jogadores do time. Foi destaque também na temporada seguinte, quando sua equipe foi rebaixada. A Juventus não pensou duas vezes antes de contratar o jogador e, por 4 milhões de euros, adquirir metade de seu passe, junto ao Cruz Azul. Já ao final de sua primeira temporada em Turim conquistou o scudetto e teve seus direitos inteiramente vinculados à Velha Senhora, por mais 4 milhões de euros.

Já com a confiança de Lippi, seu treinador na Juve entre 2002 e 2004, foi convocado para a seleção que disputaria a Eurocopa, agora sob o comando do treinador de Viareggio. Participou também das campanhas vitoriosas da Juve de 2005 e 2006 (posteriormente revogadas). Com um futebol de alto nível na ala direita, foi para a Alemanha, em 2006, onde jogou (e venceu) sua primeira Copa do Mundo. Assim, se tornou, mais do que nunca, homem de confiança do técnico. Mesmo com a má fase pós-Copa, continuou figurando nas convocações e é nome certo no Mundial da África.

Na temporada 2006-07 permaneceu nos alpes de Turim mesmo que contra sua vontade: depois do rebaixamento do time, pediu para sair e ser negociado com um grande time da Europa. Não foi atendido e, desde então, seu futebol só caiu de rendimento. No último ano, foi um dos piores jogadores da Juve, que acabou a Serie A apenas na 7ª colocação e igualou sua pior campanha em campeonatos nacionais. Agora, Camoranesi deve estar de saída da Juve e já teve seu nome ligado até a clubes argentinos.

Mauro Camoranesi
Nascimento: 4 de outubro de 1976, em Tandil, na Argentina
Posição: meio-campista Clubes: Aldosivi (1995-96), Santos Laguna (1996-97), Wanderers (1997), Banfield (1997-98), Cruz Azul (1998-2000), Hellas Verona (2000-02) e Juventus (2002-hoje)
Seleção italiana: 53 jogos, 5 gols
Títulos: 1 Campeonato Italiano Serie A (2003), 1 Campeonato Italiano Serie B (2007), 2 Supercopas Italianas (2002 e 2003) e 1 Copa do Mundo (2006)

sábado, 5 de junho de 2010

Os 23 de Lippi: Christian Maggio

Depois da última Copa do Mundo, Maggio arrebentou por Samp e Napoli, mas demorou a chegar
à seleção. Agora, tem a titularidade a um passo. Vai funcionar? (Getty Images)

Com a lateral-esquerda sem Grosso, quem mais tende a aproveitar é Maggio. Não faz sentido? Pois com a provável ida de Zambrotta para o lado de lá, é o lateral do Napoli que deve ganhar uma camisa de titular na defesa azzurra para a Copa do Mundo. Algo inesperado para alguém que se firmou como meia externo nos últimos anos, tem jogado poucas vezes como lateral-direito e não fez qualquer jogo oficial pela Nazionale: foram apenas cinco amistosos, contra Grécia, Suécia, Camarões, México e Suíça. E nenhum deles espetacular, vale lembrar.

Em 2000, Maggio foi revelado no Vicenza por Edoardo Reja, que oito anos depois o levaria ao Napoli. Com poucas oportunidades nos tempos de Serie A do clube, o rebaixamento o ajudou a conquistar um espaço maior até ver a carreira desandar por conta de uma lesão. A Fiorentina, ainda na Serie B, confiou no lateral-direito vêneto. Titular absoluto, Maggio foi importante na campanha de retorno dos viola à primeira divisão, mas quase não teve espaço na posterior luta contra o rebaixamento após a contratação de Comotto.

No início da temporada 2005-06, perdeu de vez seu espaço com a afirmação de Ujfalusi como lateral. Acabou emprestado ao já rebaixado Treviso para um final melancólico de campeonato. Ao fim da Serie A, foi contratado pela Sampdoria e viu sua sorte mudar. Alcançou a titularidade no decorrer das rodadas e coroou as boas partidas, agora jogando mais avançado no 3-5-2 de Walter Mazzarri, com um golaço de voleio contra o Siena e outro decisivo no dérbi contra o Genoa.

Valorizado, foi uma das grandes contratações do Napoli em 2008. O clube partenopeu pagou 8 milhões de euros à Samp pelo misto de lateral e meio-campista e não demorou a ter retorno no investimento. Em alguns meses, os gols de Maggio decidiram jogos complicados contra Fiorentina, Catania e Bologna. Até que, em março do ano passado, o ligamento cruzado anterior de seu joelho direito se rompeu para tirá-lo de campo por seis meses. Quando voltou aos gramados, gastou algumas partidas para recuperar sua melhor fase. Mas, quando o fez, de novo sob o comando de Mazzarri, jogou como poucas vezes na carreira e nos fez lembrar van Basten. Será o suficiente para a África do Sul?

Christian Maggio
Nascimento: 11 de fevereiro de 1982, em Montecchio Maggiore
Posição: lateral-direito e meio-campista
Clubes: Vicenza (2000-03), Fiorentina (2003-06), Treviso (2006), Sampdoria (2006-08), Napoli (2008-hoje)
Seleção italiana: 5 jogos

Os 23 de Lippi: Domenico Criscito

No vem-e-vai entre Genoa e Juve, Criscito estacionou na Ligúria, chegou à seleção e virou ídolo
local - ainda que continue ligado à Velha Senhora e possa voltar a qualquer momento (Il Sussidiario)

Com o inesperado corte de Fabio Grosso da seleção italiana, Criscito ganhou um espaço que até então não esperava. Ainda que aguardasse uma chance entre os 23 convocados, a chance de titularidade marca a preparação da jovem bandeira do Genoa. Jogador mais polivalente entre os escolhidos de Lippi, foi o dono da lateral-esquerda no amistoso contra o México e uma das poucas peças da equipe que funcionou razoavelmente bem. Mas é cedo para falar de certezas numa seleção tão perdida, já que a primeira opção do setor ainda deve ser Zambrotta, ou até mesmo Chiellini.

Criscito chegou ao Genoa aos 15 anos, em 2002, levado por Claudio Onofri, ex-zagueiro do próprio clube. Jogou pela base por alguns meses até ter uma oportunidade inesperada na Serie B, na última rodada do campeonato 2002-03 em que o grifone já estava rebaixado. Mas ficou nisso e voltou para os allievi, no qual ficou até 2004, quando foi negociado com a Juventus e se destacou no time Primavera que conquistou o campeonato da categoria dois anos depois. Já com 19 anos e algumas partidas no banco do time principal, voltou ao Genoa, em co-propriedade, para disputar a Serie B.

Com os trabalhos de pré-temporada, logo convenceu o recém-contratado Gian Piero Gasperini a escolhê-lo como titular. E com boas apresentações logo de início, chegou à seleção italiana sub-21 como titular e foi considerado um dos melhores laterais do torneio, apesar da baixa idade. Essencial na campanha de retorno do time à Serie A, foi recontratado pela Juventus por mais de 7 milhões de euros. Na temporada 2007-08, estreou com a camisa bianconera na primeira divisão desde a primeira rodada, jogando como zagueiro, mas perdeu espaço quando Claudio Ranieri passou Chiellini, então lateral-esquerdo, para a posição.

Sem chances na defesa da Velha Senhora, voltou para o Genoa em empréstimo. Recuperou o bom futebol e viu o clube lígure pagar por sua co-propriedade, que dura até hoje e deve ser decidida no próximo mês entre Juventus e Genoa. Em mais de 100 jogos com a camisa rossoblù, atuou em quatro posições diferentes no 3-4-3 padrão de Gasperini, entre zagueiro, meia externo e até ponta-esquerda e armador. Forte na marcação e no desarme e de bom posicionamento na defesa, joga com muita vontade e personalidade em campo e, aos 23 anos, se destacou mesmo numa temporada tão instável quanto a recém-encerrada. Hoje, é ídolo de uma torcida que sabe que pode perdê-lo a qualquer momento para a Juve, pela terceira vez.

Domenico Criscito
Nascimento: 30 de dezembro de 1986, em Cercola
Posição: lateral-esquerdo, zagueiro e meio-campista
Clubes: Genoa (2002-04), Juventus (2004-06), Genoa (2006-07), Juventus (2007), Genoa (2008-hoje)
Seleção italiana: 6 jogos

Os 23 de Lippi: Leonardo Bonucci

Bonucci é aposta de Lippi na defesa azzurra, que sofreu no amistoso contra o México (Getty Images)

Dentre os convocados do técnico Marcello Lippi, Leonardo Bonucci é o mais jovem, com 23 anos recém-completados em maio, e apenas quatro temporadas como profissional. O zagueiro, formado nos juvenis do pequeno Viterbese, de sua cidade natal, não demorou para chamar a atenção da Inter, que o contratou para fazer parte de sua equipe Primavera. Nas categorias de base dos nerazzurri, o zagueiro foi titular da equipe que ganhou o Campionato Primavera em 2007, com Mario Balotelli como principal destaque. Três anos depois, apesar de o atacante ser muito mais badalado, quem estará na África do Sul será Bonucci, que teve sua primeira verdadeira chance na Serie A apenas na atual temporada, com o Bari.

Após impressionar nas categorias de base da Beneamata, Bonucci passou duas temporadas jogando na Serie B por Treviso e Pisa, onde, apesar das más campanhas das equipes, fez bom papel. Assim, foi envolvido na negociação que levou Thiago Motta e Milito do Genoa para a Inter, para depois ser cedido em co-propriedade para o Bari, recém-promovido para a elite do campeonato italiano.

Num Bari que parecia fadado ao rebaixamento, mas que fez uma campanha surpreendente e concluiu o campeonato com 50 pontos (recorde histórico do clube), o canhoto Bonucci estreou como titular e fez uma sólida dupla com o igualmente jovem Andrea Ranocchia, duas grandes revelações da temporada. Graças às ótimas atuações da dupla, os biancorossi concluíram 2009 como a segunda melhor defesa da competição, com apenas 15 gols sofridos em 16 jogos. Embora na segunda parte da Serie A o nível tenha caído um pouco após a lesão de Ranocchia, Bonucci foi o principal jogador dos galletti na temporada, tendo atuado em todos os jogos da campanha. Zagueiro seguro, muito bom nas jogadas aéreas e também no combate corpo a corpo, por sua boa estrutura física, já chega a ser comparado a Chiellini por causa de suas características técnicas e físicas.

As boas atuações do zagueiro fazem crer que ele não deverá permanecer na Puglia após o Mundial: existem grandes possibilidades de que se concretize uma transferência para a Juventus ou um retorno para a Inter, seu time do coração. A grande temporada também lhe valeu as primeiras convocações para a seleção italiana, na qual estreou em março, em partida contra Camarões. Nos amistosos de preparação para a Copa do Mundo, Bonucci tem sido escalado por Lippi no lugar do titular Chiellini, que está lesionado.

Contra o México, nesta quinta, Bonucci marcou o gol de honra na vexatória derrota da Itália por 2 a 1, em atuação na qual a Squadra Azzurra não mostrou criatividade e ainda teve problemas na defesa. A defesa passou por muitos apuros, seja pela má fase do capitão Cannavaro ou pela inexperiência do próprio zagueiro de Viterbo, que completou apenas seu segundo jogo pela Nazionale. Embora tenha qualidade, a falta de cancha pode ser um problema, já que Bonucci teve poucas oportunidades de trabalhar este aspecto: antes da convocação final para a Copa, a Itália realizou apenas um amistoso neste ano.

Leonardo Bonucci
Nascimento: 1º de maio de 1987, em Viterbo
Posição: zagueiro
Clubes: Inter (2005-07), Ascoli (2006), Treviso (2007-09), Pisa (2009) e Bari (2009-hoje)
Seleção italiana: 2 jogos, 1 gol

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Os 23 de Lippi: Gennaro Gattuso

Gattuso: a fase não é das melhores, mas seu nome passa confiança (Getty Images)

Gennaro Gattuso é uma das figuras mais carimbadas do futebol italiano. Caracterizado por seu espírito lutador, o meio-campista defende o Milan desde 1999, e já venceu de tudo. Competições nacionais, continentais e mundiais: todas têm espaço no currículo de Rino. Natural da Calábria, Gattuso, 32 anos, é um dos selecionados entre os 23 de Lippi. Campeão em 2006, disputará a sua terceira Copa do Mundo. Se seu nome é sinônimo de confiança, seus momentos recentes atrapalham: Gattuso vive má fase e é outro motivo de preocupação ao elenco Azzurro.

Filho de um ex-jogador da Serie D, Gennaro começou cedo no Perugia: aos 12 anos de idade, já defendia as categorias infantis do clube. Algumas temporadas mais tarde, venceu o torneio Primavera, no qual teve grande destaque. O potencial demonstrado por Rino - que já defendia a Nazionale sub-18 -, foi suficiente para chamar a atenção do Rangers. O clube escocês se aproveitou de seu fim de contrato para adquirí-lo. Gattuso, trazido por Walter Smith (a quem se refere como 'segundo pai'), levou azar: o treinador assumiu o Everton, e Dick Advocaat, seu sucessor, não se interessou pelo futebol do italiano. Chegando a ser improvisado na lateral-direita, Rino não agradava ao novo comandante, e logo foi posto para transferência, apenas uma temporada após sua chegada.

A Salernitana se interessou por seu futebol e o trouxe de volta à bota, pagando cifra até hoje recorde para o clube: o equivalente a aproximados seis milhões de euros. Em Salerno, ele cresceu e fez uma ótima temporada, que, porém, não evitou a queda dos campani. O Milan não deixou passar a oportunidade, e, vencendo a concorrência da Roma, foi atrás de Gattuso. Os rossoneri pagaram o dobro de seu valor passado e fecharam com o atleta para a temporada 1999-00. Rino começou bem, mas não sabia que sua consagração viria mesmo com a chegada do estimado Carlo Ancelotti, em 2001.

Sob os comandos de Carletto, Gattuso se transformou em líder. Assumiu inúmeras responsabilidades do meio-campo milanista e marcou seu nome na história da equipe. Sempre presente, foi um verdadeiro cão-de-guarda para Rui Costa, Shevchenko, Kaká e tantos outros atletas vitoriosos que passaram por Milanello na última decada - alguns dos quais ainda remanescentes, como Pirlo e Seedorf. Teve importância inquestionável no Scudetto de 2004 e nas duas Ligas dos Campeões conquistadas pelo Milan, em 2003 e 2007. Suas atuações lhe valeram uma vaga na Copa do Mundo de 2002, na qual jogou pouco; e outra em 2006, em que só não disputou uma partida. Campeão mundial, ganhou o respeito de Lippi, e nunca foi desconsiderado pelo treinador da Nazionale.

O problema é que Gattuso tem sofrido com lesões, e não só. Desde a saída de Ancelotti para o Chelsea - que, tamanha a consideração, quase foi acompanhado por Rino - o meia não teve a mesma imponência de anos atrás. Em decadência como boa parte do elenco milanista, não se deu bem com Leonardo, e até ameaçou deixar o clube em janeiro. Permaneceu e, em ano de Copa, finalizou uma de suas temporadas menos expressivas. Foram só 17 presenças na Serie A 2009-10, número que só bate a época anterior, na qual entrou em campo 12 vezes, muito por culpa de um rompimento nos ligamentos cruzados do joelho direito. Pouco para quem já atingiu a marca de 400 jogos com a farda do Milan.

Até o momento, Gattuso não recuperou sua forma física - algo que faz muita diferença para um atleta conhecido por ensopar a camisa após poucos minutos no gramado. Já sem vaga garantida nos onze de seu clube, terá a Copa do Mundo como oportunidade de recomeço. Seu nome passa credibilidade imensa; resta saber se Rino conseguirá se superar a ponto de não depender dele.

Gennaro Ivan Gattuso
Nascimento: 9 de janeiro de 1978, em Corigliano Calabro
Posição: meio-campista
Clubes: Perugia (1995-97), Rangers (1997-98), Salernitana (1998-99), Milan (1999-hoje)
Seleção italiana: 71 jogos, 1 gol
Títulos: 1 Coppa Italia (2003), 1 Serie A (2004), 1 Supercoppa Italiana (2004); 2 Ligas dos Campeões (2003 e 2007), 2 Supercopas Uefa (2003 e 2007), 1 Mundial Interclubes (2007); 1 Copa do Mundo (2006)

Os 23 de Lippi: Giampaolo Pazzini

Opção viável a Gilardino no setor ofensivo italiano, Pazzini tem tido poucas oportunidades
na Nazionale. Mas está provado que azul lhe cai bem... (Getty Images)

Pazzini jogou em todas as seleções italianas de base e atingiu seu auge no Europeu Sub-19 em que venceu marcando gol na final contra Portugal. Também deixou sua marca na inauguração do novo Wembley, com uma tripletta contra a Inglaterra sub-21. Por clubes, teve um ótimo começo por sua Atalanta e vem de dois grandes campeonatos com a Sampdoria. Na África do Sul, voltará a vestir azul, esta cor que lhe cai tão bem. Principalmente se Lippi confirmar a utilização do 4-2-3-1 que tem testado nos treinamentos antes do torneio, um módulo no qual Gilardino sempre provou ter dificuldades. Ainda que o camisa 11 largue na frente pela camisa de titular no ataque, Pazzini poderá incomodar com o passar dos dias.

Mais um produto das categorias de base da Atalanta, Pazzini chegou em Bérgamo aos 14 anos para treinar no clube e morar num abrigo para garotos de outras regiões. Na Primavera nerazzurra, fez uma parceria de sucesso com seu amigo Montolivo. Foi de Pazzini o passe para o primeiro gol de Montolivo na categoria, aliás. Nos profissionais, subiram juntos, como titulares. No ataque oróbico, marcou nove gols em 39 jogos da Serie B e chamou a atenção de alguns times da Serie A, para onde voltou com a Atalanta. Continuou seis meses em nerazzurro, até ser contratado pela Fiorentina, que pagou 6,5 milhões de euros por ele em janeiro de 2005.

Em sua meia temporada de estreia, marcou três gols, um deles num empate inesperado contra a Juventus em 3 a 3. Com a opção de Cesare Prandelli por um esquema com um só atacante, Luca Toni, Pazzini acabou com pouco espaço entre os titulares, mas ainda assim deixou seus gols. Em dois anos, foram 12 nas poucas partidas como titular, o que lhe rendeu a expectativa de ser o herdeiro natural de Toni. Sem o camisa 30, o jovem artilheiro assumiu a titularidade e participou diretamente de mais de 20% dos gols da Fiorentina no campeonato, mas viu seu espaço diminuir com a contratação de Gilardino, em 2008.

Depois da chegada do ex-milanista, Pazzini só começou três partidas como titular até dezembro e acabou negociado com a Sampdoria, que pagou 9 milhões para tê-lo como acompanhante de Cassano no ataque blucerchiato. Fantantonio lhe recomendou a camisa 10, Pazzini aceitou. Em seus sete primeiros jogos, fez seis gols. Logo no primeiro semestre como referência ofensiva doriana, mostrou grande entrosamento com Cassano e marcou contra Juventus, Milan, Inter e Roma. Na temporada recém-encerrada, na qual jogou com uma máscara em várias partidas, foi ainda melhor e fez 19 gols. Inclusive o que decidiu a vaga na Liga dos Campeões para a Samp, na última rodada, contra o Napoli. Em todo o setor ofensivo da seleção italiana, é quem vem em melhor fase.

Giampaolo Pazzini
Nascimento: 2 de agosto de 1984, em Pescia
Posição: atacante
Clubes: Atalanta (2003-05), Fiorentina (2005-09), Sampdoria (2009-hoje)
Seleção italiana: 7 jogos, 1 gol
Títulos: 1 Europeu Sub-19 (2003)