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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Jogadores: Fabrizio Ravanelli

Ravanelli jogou em quatro países diferentes, mas fez história atuando pela Juventus campeã europeia de 1996 (Sportchampon)
Os cabelos brancos quase sempre eram cobertos pela camisa que vestia. Ora Juventus, ora Middlesbrough e até Olympique Marseille. Aquele corpanzil de 1,88m honrou todas as camisas que usou durante seus 19 anos como profissional, em pouco mais de 520 jogos. Fabrizio Ravanelli começou a carreira na Umbria, rodou até a terceira divisão da Itália e viveu seus melhores momentos no futebol na Juventus campeã européia de 1996.

Quando pequeno, Fabrizio “obrigava” seu pai a acompanhá-lo ao estádio para assistir jogos do seu clube de coração, a Juventus, quando a equipe jogava na Umbria. Em 1983, deu seus primeiros chutes. A oportunidade no profissional chegou na temporada 1986-87. Em três anos no Perugia, Ravanelli se notabilizou pela forte presença dentro da área, chegando a marcar 23 gols em uma só temporada – a do acesso do time à Serie B. O atacante foi contratado pelo Avellino, mas fez sete jogos antes de ser repassado ao Casertana, da terceira divisão. O período de experiência foi válido, pois a Reggiana sinalizou com a contratação da promessa.

Deu certo: Ravanelli já atraía olhares de clubes grandes após boas épocas pelo clube granata. Ele estava pronto para ingressar na primeira divisão do futebol italiano. Era forte fisicamente, resistente e tinha caráter. Tecnicamente, era bom no jogo aéreo e nos tiros de curta distância, o que o ajudou a marcar 24 gols em duas temporadas. Em 1992, o atacante acertou sua transferência para a Juve. A queda de desempenho da equipe na Serie B fez com que os torcedores culpassem o jogador e chamassem o, até então, ídolo de “vendido!”. “Eu sempre dei o meu melhor. O fato é que quando as coisas começaram a ficar ruins, algumas pessoas colocaram a culpa em mim”, disse, à época. 

Peronsalidade forte do atacante marcou sua carreira (Bobby FC)
A influência de Giovanni Trapattoni foi decisiva para o acerto com Ravanelli. Comparado a Roberto Bettega por conta dos cabelos grisalhos, ele chegou à Serie A aos 24 anos. Entretanto, também foram adquiridos Gianluca Vialli e Andreas Möller, enquanto o clube já contava também com Pierluigi Casiraghi e Roberto Baggio. O técnico mal aproveitou Ravanelli em 1992-93, mas tinha explicação: Trapattoni não queria colocá-lo em enrascadas. Ele ainda achava que o jogador era um pouco desajeitado e que precisava melhorar em alguns fundamentos. Ao fim da época, a torcida viu o atacante marcar cinco gols.

O jogador ficou na reserva até o primeiro semestre do ano seguinte e começou a ganhar mais chances por conta da transferência de Casiraghi para a Lazio, quando virou reserva imediato do ataque. Mas foi com Marcello Lippi que teve seu melhor momento na carreira. Em 1994-95, sob comando do treinador toscano, Ravanelli se firmou titular. O técnico lançou o time com a formação 4-3-3 com Vialli ao lado de la Penna Bianca, enquanto Del Piero dava o suporte necessário pelo flanco esquerdo. Um de seus melhores jogos pela equipe foi contra o CSKA Sofia, na Copa Uefa. Ele foi à rede em cinco oportunidades no jogo encerrado em 5 a 1. A Juve acabou com o título do torneio naquela temporada.

Em 8 de janeiro de 1995, um dia simbólico: em uma partida da Serie A, Dino Baggio colocou o Parma na frente, mas Ravanelli virou para 2 a 1 com um mergulho à “Bobby Goal” Bettega. Nas tribunas, o ex-jogador disse: “essas coisas acontecem apenas para aqueles que têm cabelos brancos”. Foi apenas o prenúncio do “mascarado”, sua famosa comemoração, que aconteceu pela primeira vez contra o Napoli: Lippi cobrou o time no vestiário após empate sem gols no primeiro tempo. Ravanelli marcou o gol da vitória e fez a festa. O gol em Turim foi apenas um dos 15 tentos feitos na Serie A de 1994-95, que terminou com o 22º scudetto da Juve. Os outros dois títulos da temporada foram conquistados em cima do Parma: Coppa Italia e Supercoppa.

Ravanelli celebra um de seus mais importantes gols com a camisa da Juve (Goal)
A vida profissional de Ravanelli ia tão bem que conseguiu sua primeira convocação para a Squadra Azzurra. E, claro, marcou o primeiro gol na estreia, contra a Estônia, apesar de iniciar o jogo como reserva. Ele foi chamado para integrar a seleção da Eurocopa de 96, mas pouco atuou. Para a Copa de 1998, Ravanelli teve azar: foi convocado por Cesare Maldini para o torneio, mas pegou rubéola e acabou substituído por Enrico Chiesa. No total, Ravanelli fez 22 partidas com a camisa azul.

Se a época anterior foi boa, a de 1995-96 foi melhor ainda. O atacante foi um dos protagonistas do campeonato europeu – o segundo na história bianconera. Ele detonou na primeira fase da competição e ficou meio sumido contra Real Madrid e Nantes, no mata-mata. Reapareceu novamente na final, contra o Ajax do técnico Louis van Gaal e tantos craques, quando marcou o gol mais importante da sua carreira: driblou van der Sar e, quase sem ângulo, abriu o marcador no Olímpico de Roma. A decisão, posteriormente, foi decidida e vencida nos pênaltis pela Juventus.

A relação com o clube, porém, se desgastou e ele foi vendido por 7 milhões de libras para o futebol inglês, onde, ao lado de Gianfranco Zola, Gianluca Festa, Roberto Di Matteo e Gianluca Vialli, formou uma espécie de invasão italiana no fim dos anos 90. Ele deixou na memória da torcida os seus 68 gols feitos em 160 partidas. Ravanelli nunca escondeu que ficou decepcionado com a ação do clube nem que sua carreira poderia ter tomado outro caminho se permanecesse na Juventus. Ele sempre demonstrou seu amor à equipe e achou que o time não devolveu todo o carinho. A contratação do bomber pelo Middlesbrough foi um impacto.

Dupla com Juninho fez sucesso na Inglaterra (Guardian)
A estreia de Ravanelli, já apelidado de Silver Fox (Raposa Prateada, em tradução literal) não podia ser melhor: marcou uma tripletta sobre o Liverpool, que, no ano anterior, lutou pelo título com Manchester United e Newcastle até o fim do campeonato inglês. Apesar de ser um dos artilheiros da temporada, o Boro foi rebaixado. O time ainda conseguiu chegar às finais da FA Cup e da Carling Cup, mas foi derrotado em ambas por Chelsea e Leicester, respectivamente. Com o rebaixamento, o jogador passou pelo Olympique Marseille, onde fez duas boas temporadas, antes de retornar ao país natal.

Ravanelli estava na lista dos jogadores bancados pela Cirio para atuarem pela Lazio em 1999. Com ele, chegaram Verón, Nedved, Vieri, Mihajlovic, Mancini e Fernando Couto. O clube da capital foi campeão italiano e da Coppa Italia, mas o atacante viu as duas conquistas do banco de reservas. Ele saiu em 2001 para o Derby County, que acabou rebaixado na Premier League, e transferiu-se para o Coventry, também da Inglaterra, que disputava a segundona. Depois, atuou em seis jogos pelo Dundee United. Na estreia pelo clube escocês, marcou seus únicos gols: realizou uma tripletta sobre o Clyde depois de entrar no jogo substituindo um companheiro.

Ravanelli se destacou na Juventus e no exterior, como pelo Marseille (Eurosport)
Após rodar meia Europa, sentiu que era hora de retornar ao Perugia, clube pelo qual encerrou a carreira, em 2005, depois de jogar meia temporada como titular na última passagem do clube pela Serie A – os umbros foram rebaixados após perderem play-out para a Fiorentina. Na temporada seguinte, ainda como titular, Ravanelli ajudou o time a chegar aos play-offs de acesso à elite, mas amargou novo insucesso, desta vez frente ao Torino.

Depois de se aposentar, o Penna Bianca teve uma rápida passagem como supervisor técnco da base dos grifoni e aceitou a proposta de Claudio Lotito para assumir as categorias juvenis da Lazio. Hoje, o ex-atacante trabalha como comentarista da Mediaset e, todos os anos, participa de uma importante competição amadora de ciclismo no Belpaese.

Fabrizio Ravanelli
Nascimento: 11 de dezembro de 1968, em Perugia
Posição: atacante
Clubes: Perugia (1986-89 e 2004-05), Avellino (1989), Casertana (1989-90), Reggiana (1990-92), Juventus (1992-96), Middlesbrough (1996-97), Olympique Marseille (1997-99), Lazio (1999-01), Derby County (2001-02), Coventry City (2002-03), Dundee United (2003-04)
Seleção italiana: 22 jogos e 8 gols
Títulos: 2 Serie A (1994-95 e 1999-00), 2 Coppa Italia (1994-95 e 1999-00), 2 Supercoppa Italia (1995 e 2000), Copa Uefa (1992-93), Liga dos Campeões (1995-96)

domingo, 26 de junho de 2011

Jogadores/Técnicos: Cesare Maldini

Cesare e Paolo: a liderança vem da família. Cesare foi o primeiro Maldini a capitanear e ser ídolo do Milan, pelo qual ergueu a Copa dos Campeões de 1963 (BBC/Empics)

Pai de Paolo Maldini, ídolo histórico do Milan, Cesare foi quem deu o pontapé da história da família com os rossoneri. Como seu filho, ele começou em uma das laterais - no seu caso, a direita - e depois, tornou-se capitão e líder da defesa. Pela equipe de Milão foram quatro scudetti e uma Liga dos Campeões, em 1962-63.

Diferentemente do filho, Cesare não fez toda a sua carreira em Milão. O defensor nascido em Trieste realizou seus primeiros passos na Triestina, clube de sua cidade natal. A liderança apareceu ainda na juventude e, em sua segunda temporada na equipe, foi capitão dos alabardati. A trajetória meteórica no futebol logo lhe colocou no Milan, com apenas 22 anos. O primeiro título também chegou rápido: no ano do debute pelo Diavolo, conquistou a titularidade e o scudetto, com Gunnar Nordahl em grande destaque e sob o comando de Béla Guttmann e, posteriormente, de Ettore Puricelli. A conquista ainda classificou o Milan para a Copa Latina de 1956, que também foi vencida pelos rossoneri.

No ano seguinte, o Milan de Maldini conquistou mais um título italiano, com boa margem de vantagem em relação à Fiorentina, vice-campeã. Na temporada 1958-59 os rossoneri venceram outro scudetto, mas faltavam a Maldini duas coisas: uma convocação para a seleção e um título da Copa dos Campeões. Logo no início de 1960, veio o chamado da Squadra Azzurra e, contra a Suíça, ele fez a primeira de suas 14 partidas pela Nazionale. A história com a seleção foi rápida e acabou em 1963, frente à União Soviética. No período em azzurro, Maldini jogou a Copa de 1962 com a camisa cinco, e foi titular em duas das três partidas da equipe, que foi eleminada na primeira fase.

Em 1961-62, como capitão e tendo jogado as 34 partidas da Serie A, Cesare Maldini levantou o quarto e último scudetto de sua carreira. No ano seguinte, com uma campanha que beirou a perfeição, o Milan trouxe a primeira taça das grandes orelhas ao Belpaese. Foram 32 gols marcados e apenas seis sofridos. Os rossoneri tiveram Altafini como grande destaque, com 14 gols – dois deles no decisivo 2 a 1, na final contra o Benfica de Eusébio. No Mundial de Clubes daquele ano, decidido apenas no terceiro jogo entre Milan e Santos, Maldini cometeu o pênalti em Almir, que Dalmo bateu para garantir o título ao Peixe. Além disso, o capitão rossonero acabou expulso.

Cesare Maldini ficou no Milan até 1966 e não conquistou mais nenhum título. Ele terminou a carreira no Torino, jogando a Serie A e alcançando um honroso sétimo lugar. Após deixar de ser jogador, o ex-zagueiro seguiu ligado ao futebol, agora como auxiliar técnico. O início ocorreu no próprio Milan, assistindo Nereo Rocco e, logo após, substituindo seu conterrâneo - Rocco também nascera em Trieste -, no posto de treinador principal rossonero.

Após apenas uma temporada no comando do Milan, Maldini transferiu-se para o Foggia, na Serie B. Já em seu segundo ano com os satanelli, o treindor levou a equipe para a primeira divisão do futebol italiano. Maldini acabou permanecendo na Serie B, no Ternana, onde ficou apenas um ano antes de ir treinar o, até então, pequeno Parma, na Serie C. Com Maldini, os parmiggiani retornaram para a Serie B, mas ficaram apenas um ano na segundona antes de retornarem à Serie C.

Do Parma, ele partiu para a seleção italiana, como auxiliar técnico de Enzo Bearzot, cargo que ocupou entre 1980 e 1986, ajudando na conquista do Mundial de 1982. Depois desta experiência, Maldini partiu para seu grande trabalho como técnico, na seleção italiana sub-21, que em dez anos sob seu comando, entre 1986 e 1996, seria tricampeã europeia da categoria - em 1992, 1994 e 1996.

Lá ele lançou seu filho Paolo e o amadureceu para integrar a seleção principal e também trabalhou com Buffon, Cannavaro, Nesta, Del Piero e Totti, que dez anos depois seriam campeões do mundo, na Alemanha. Hoje, o trabalho de formação na Itália parece completamente desprezado e as seleções de base do país (entre os níveis sub-17 e sub-21) estão fora de todas as competições mundiais pela primeira vez na história.

O bom trabalho foi premiado com o comando da seleção italiana principal, que dirigiu durante dois anos, até a Copa de 1998, quando os azzurri foram eliminados pela França de Zidane, nas quartas de final.

Depois da experiência na Nazionale, tornou-se o conselheiro técnico dos rossoneri e, em 2001, assumiu interinamente o comando da equipe, ao lado de Mauro Tassotti. No mesmo ano, teve seu último trabalho como treinador, na seleção paraguaia. Cesare Maldini levou o Paraguai à Copa de 2002, tendo sido o treinador mais velho da disputa, com 70 anos. Foi eliminado nas oitavas de final pela vice-campeã Alemanha.

Após encerar a trajetória de técnico, Cesare Maldini voltou ao Milan, onde atua como olheiro. Além disso, também é comentarista do canal Al Jazeera.

Cesare Maldini
Nascimento: 5 de fevereiro de 1932, em Trieste, Itália
Posição: Zagueiro
Clubes como jogador: Triestina (1950-54), Milan (1954-66) e Torino (1966-67)
Clubes como treinador: Milan (1973-74 e 2001), Foggia (1974-76), Ternana (1976-77), Parma (1978-80), Seleção italiana sub-21 (1986-96), Seleção italiana (1996-98) e Seleção paraguaia (2001-02)
Títulos: 4 Serie A (1954-55, 1956-57, 1958-59 e 1961-62), Copa Latina (1956), Liga dos Campeões (1962-63), Europeu sub-21 (1992, 1994 e 1996)
Seleção italiana: 14 partidas

sábado, 25 de junho de 2011

È gol!, gol!, gol!, gol!, ...

Quem acompanha a Serie A em seus canais nativos sabe que os narradores italianos diferem bastante dos brasileiros. Nada daquele grito de gol prolongado ou de grande exaltação. Alguns, porém, tratam de compensar toda e qualquer tranquilidade na transmissão, e se esgoelam na torcida por seu time. É o caso de narradores-torcedores, como Raffaele Auriemma (Napoli), Carlo Zampa (Roma), Carlo Pellegatti (Milan), Claudio Zuliani (Juventus), Guido De Angelis (Lazio) e Roberto Scarpini (Inter).

Esses narradores trabalham nos canais de televisão dos clubes, tal qual o Inter Channel, ou na rádio, ou ainda na Mediaset Premium, que costuma disponibilizar dois tipos de transmissão: a regular e a di colore, em que os cronistas podem (e devem) torcer à vontade. Há, também, figuraças como Marcello Chirico, Cristiano Ruiu e Gian Luca Rossi, mas esse tipo de excentricidade fica para outro post. Curioso é que vêm desses profissionais a grande maioria dos apelidos dados aos atletas, como Ibracadabra; Top Gun (Montella), e Willy Wonka (Seedorf).

É fácil encontrar, na internet, vídeos que demonstrem as reações destes narradores. Carlo Zampa, que já foi locutor do Stadio Olimpico, talvez seja o mais famoso. Em um gol, ele claramente deixa de gritar gol, e passa a berrar com o máximo de potência qualquer coisa que possa exprimir sua explosão. A emoção, claro, também surge nos momentos ruins: como nesse contra-ataque desperdiçado por Julio Baptista, ao que Zampa reage com "Vá embora! Vá embora, Baptista! Eu não quero mais te ver! Vá embora!".

Raffaele Auriemma, fanático pelo Napoli, não deixa por menos. Ele literalmente distribui apelidos para os jogadores e grita como um general em guerra. O milanista Carlo Pellegatti, por sua vez, abusa da criatividade: não é qualquer um que chamaria Inzaghi de velociraptor e Fabio Capello de Windows 95. Guido De Angelis, laziale, e Roberto Scarpini, interista, são outros notáveis. O segundo já foi dj, e agora chama atenção pelo inconfundível "É gol! É gol! É gol!".

Outro fato bastante engraçado (e igualmente sádico) é observar as reações deste tipo de narrador em partidas adversas. Como Zampa frente a um gol da Lazio, e De Angelis, da Roma. Ficam arrasados, desorientados. Se algum dia qualquer um destes narradores infartar, não será difícil descobrir por quê. Fato é que eles fazem parte de uma cultura futebolística implacavelmente apaixonada.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Brasileiros no Calcio: Antônio Carlos Zago

Um dos defensores mais duros do futebol brasileiro, AC Zago foi campeão italiano (AS Roma)
Segurança. Era esse o sentimento compartilhado por quem atuava ao lado de Antônio Carlos Zago. Sua dedicação aos clubes pelos quais passou era inegável, e o zagueiro fazia questão de demonstrá-lo em campo. Isso para a tristeza dos adversários, que não tinham vida nada fácil com ele por perto.

Nascido no interior paulista, desde jovem o defensor destacava-se mais por seu desempenho físico do que pela técnica, mas Telê Santana viu um diamante a ser lapidado e introduziu qualidade em seu futebol. Foram dois anos de constante aprendizado no São Paulo, onde dividiu a retaguarda da equipe com jogadores de nível selecionável, como Ronaldão e Márcio Santos. A Seleção passou por um período de renovação graças ao fiasco na Copa de 1990 e viu potencial no zagueiro. Em 1991, Antônio Carlos vestiu a camisa canarinho pela primeira vez.

Após conquistar a Libertadores, veio sua primeira experiência na Europa: o modesto Albacete, da Espanha. Não foi titular absoluto, mas ajudou a equipe a escapar do rebaixamento. Terminado o campeonato, contudo, preferiu voltar ao Brasil. Desta vez o uniforme não era tricolor, e sim alviverde.

No Palmeiras, mais uma vez foi comandado por um renomado treinador: Vanderlei Luxemburgo. O time era uma máquina que contava com astros do quilate de Roberto Carlos, César Sampaio e Edmundo, e atropelava a todos que cruzavam o seu caminho.

O jovem, que havia vencido a Libertadores com apenas 23 anos, tornou-se bicampeão brasileiro aos 25. Ficou no clube paulista até 1996, quando se aventurou a ir ao Japão, jogar pelo Kashiwa Reysol. Com dificuldades de adaptação, voltou outra vez à cidade de São Paulo para defender mais um grande, o Corinthians.

Assim que chegou, mais um título: o campeonato paulista. Mas, infelizmente, o restante da temporada foi comprometido devido a lesões. Ainda assim, o agora maduro defensor voltava a ser figura carimbada nas convocações da seleção brasileira e passava a atrair interesse de clubes europeus.

Em 1998, foi contratado pela Roma. Sua estreia na equipe de Zdenek Zeman não foi boa: expulsão com menos de 30 minutos em campo. Aos poucos, o treinador lhe concedeu outras oportunidades e Zago foi conquistando sua confiança e a de seus torcedores. O jogador se entendia perfeitamente com o parceiro Aldair, formando um miolo de zaga legitimamente brasileiro, fato raro até então em uma grande equipe europeia.

Adaptado ao futebol italiano, foi convocado pelo amigo Luxemburgo para defender o Brasil na Copa América de 1999, formando dupla com Odvan. O fato que gerou muitas críticas, já que ambos valiam-se muito mais da vontade do que da plasticidade. Mas, no final das contas, o Brasil venceu a competição e o zagueiro conquistou seu primeiro e único caneco com a seleção canarinho.

Na Roma, o comando da equipe havia passado a Fabio Capello. Em sua segunda temporada à frente da equipe, o treinador mudou o esquema tático e montou a defesa com Zébina, Zago e Samuel, que substituiu Aldair, já iniciando seu descenso de final de carreira. O trio atuou bem por toda a temporada e deu a segurança necessária para que Totti, Delvecchio e Batistuta marcassem os gols da conquista do scudetto.

Mais disciplinado, o camisa três, agora chamado de Exterminador, recebeu apenas cinco cartões amarelos em trinta e três jogos, além de não ter sido expulso nenhuma vez. Na sequência, conquistou também a Supercoppa da Itália ao bater a Fiorentina por 3 a 0. Em um clássico contra a Lazio, Zago trocou cusparadas com Diego Simeone e caiu de vez nas graças dos tifosi, que o compararam a um dragão cuspidor de fogo.

Em 2002, seu último ano vestindo a camisa da Roma, Zago participou ativamente da campanha que levou o clube à 2ª colocação da Serie A. O time teve a segunda melhor defesa e foi o clube que menos perdeu, mas ainda assim foi superado pela Juventus. Após defender os giallorossi por 129 jogos, Antônio Carlos foi para o Besiktas, da Turquia. Pela segunda vez na sua carreira, passou por uma ingrata sequência de lesões e não foi capaz de retribuir à torcida alvinegra a idolatria recebida. Como de costume, o jogador teve a necessidade de voltar ao seu porto seguro: o Brasil.

O Santos foi a equipe escolhida, e o jogador adicionou ao seu currículo o único clube grande paulista que ainda lhe faltava. Infelizmente, a passagem foi breve e o jogador mudou de ares. No Juventude, Zago tornou-se ídolo e referência. Próximo ao fim de sua carreira como jogador, um episódio lamentável: o desentendeu-se com Jeovânio, do Grêmio e fez gestos racistas, recebendo uma devida punição. Tentou nova passagem pelo Santos, mas a idade já pesava e as lesões não cessavam.

Pouquíssimo tempo após encerrar a carreira, foi contratado como gerente de futebol do Corinthians. Como treinador, seu primeiro clube foi o São Caetano. Depois comandou Palmeiras, Prudente, Mogi Mirim (a pedido do amigo Rivaldo, presidente do clube) e o Vila Nova. Em nenhum deles alcançou muito sucesso.

Antônio Carlos Zago
Nascimento: 18 de maio de 1969, em Presidente Prudente
Posição: zagueiro
Clubes como jogador: São Paulo (1990-92), Albacete (1992-93), Palmeiras (1993-95), Kashiwa Reysol (1996), Corinthians (1997), Roma (1998-2002), Besiktas (2002-04), Santos (2004-05 e 2007) e Juventude (2005-06).
Clubes como treinador: São Caetano (2009-10), Palmeiras (2010), Grêmio Prudente (2010), Mogi Mirim (2011) e Vila Nova (2011).
Títulos: 3 Campeonatos Brasileiros (1991, 1993 e 1994), Taça Libertadores da América (1992), Serie A (2000-01), Copa América (1999), Supercopa Italiana (2001) e Campeonato Turco (2002-03).
Seleção brasileira: 37 partidas e 3 gols

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O homem mais odiado da cidade

Abracadabra: de uma hora pra outra, Leonardo deixou de ser bom moço e é odiado por toda a cidade de Milão (Getty Images)

Ser técnico de futebol não é tão simples quanto pensa, Leonardo. Que o brasileiro nunca foi unanimidade como treinador de futebol já se sabia. No Milan, onde foi ídolo como jogador e teve papel importante como diretor técnico, não teve grandes resultados e saiu por divergências com Silvio Berlusconi. O único ano como treinador, função para a qual foi catapultado pelo próprio primeiro-ministro italiano, não foi suficiente para que Leonardo se decidisse sobre qual função gostaria de ocupar: ele sempre declarava que havia se tornado técnico por acaso.

Seis meses depois de deixar o Milan, não foi bem o acaso que o levou para o outro lado de Milão. Meses após recusar uma proposta da Roma, um Leonardo ainda indeciso sobre sua vocação profissional substituiu Rafael Benítez na Inter. Seu passado rossonero foi poucas vezes colocado em questão pela torcida interista, enquanto milanistas hostilizavam Leo desde o anúncio oficial da Inter, em pleno Natal, até a comemoração de Gattuso e Abate pelo scudetto, passando pelo dérbi de Milão.

Apesar de ter feito o vestiário interista ficar coeso, vencer a Coppa Italia e ser reconfirmado pelo presidente Massimo Moratti, que lhe estimava mesmo quando estava no Milan, Leonardo mantinha as dúvidas sobre seu futuro. Dúvidas que também eram alimentadas pelos incessantes rumores de que Leonardo poderia tornar-se diretor da Inter caso José Mourinho retornasse.

Quando tudo parecia encaminhado para que Leonardo iniciasse a próxima temporada na Inter, desde a montagem do elenco, uma proposta do Paris Saint-Germain, comprado por xeques qatarianos, fez com que Leonardo tomasse uma decisão: voltará a ser diretor e assumirá o cargo de diretor geral do clube parisiense, onde também foi ídolo, e terá 150 milhões de euros em caixa para investir em contratações. Largando a Inter no início da pré-temporada, em um momento em que a equipe precisa se renovar para voltar a vencer, Leonardo perdeu também a estima dos nerazzurri, que havia conquistado em tão pouco tempo. Terá sido por isso que foi pego dirigindo alcoolizado no Rio de Janeiro? Fato é que, para Leonardo, não existe oração para salvá-lo do ódio de Milão.

A sucessão
Agora, a diretoria da Inter se vê imersa na busca tardia de um novo técnico para o time, em um mercado quase estéril, já que há poucos técnicos de nível mundial no mercado. A Beneamata já negociou, sem sucesso, com treinadores como Marcelo Bielsa (já havia assinado pré-contrato com o Athletic Bilbao) Fabio Capello (teve proposta negada pela Federação Inglesa) e André Villas-Boas (com multa rescisória muito alta, no valor de 15 milhões de euros, deixou o Porto para acertar com o Chelsea).

Hoje, a Inter ainda mantém negociações com Sinisa Mihajlovic, mas a Fiorentina não quer liberá-lo. De acordo com informações que circula na imprensa especializada, Guus Hiddink, atualmente no comando da Turquia, seria o favorito de Massimo Moratti, seguido por Mihajlovic e por Gian Piero Gasperini, sem emprego desde que deixou o Genoa, em novembro. Além deles, Delio Rossi e Luciano Spalletti também já foram ligados ao clube de Milão. A Inter promete anunciar o novo treinador até o fim da semana. Será?

Obs: o título remete a "Oração", música d'A Banda Mais Bonita da Cidade, que estourou na internet brasileira neste mês. Se você ainda não viu o clipe e quiser que a música grude em sua cabeça, clique aqui.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Os quintos do acesso

Da quinta colocação na temporada regular à superioridade nos play-offs - e quem esperava por soluções como estas? Após campeonatos de mil sofrimentos e crises técnicas, Hellas Verona (Grupo A) e Juve Stabia (B) mostraram superação e reconquistaram suas posições na Serie B.

Pelos lados de Verona, a penitência durou quatro temporadas, período em que o clube scaligero viveu de tudo: lutou contra o rebaixamento no ano de estreia, superou um risco de falência, trocou dois presidentes, três diretores esportivos e emprestou sua camisa a mais de 60 jogadores. Para o pequeno clube da província de Nápoles, o retorno é um verdadeiro sonho, que põe fim a seis décadas de espera.

Verona resistiu à pressão e reecontrou a Serie B em Salerno (Fotoexpress)

Grupo A: Salernitana 1x0 Hellas Verona (ída: 0x2)
No estádio Arechi, em Salerno, o Hellas Verona confirmou uma curiosa "tradição": viver seus grandes momentos longe de sua cidade. Foi assim na conquista do scudetto, há 26 anos; no play-out contra a Reggina, há dez temporadas; na histórica fuga da então Serie C2, em Busto Arsizio, em 2007-08; e também agora, na reconquista da Serie B. Após a boa vitória na partida de ida, e equipe gialloblù viajou para administrar sua vantagem perante a Salernitana. E conseguiria fazê-lo com tranquilidade, não fosse o pênalti cometido por Martia Rini em Ragusa, já nos acréscimos da primeira etapa. Carrus bateu e converteu, fazendo explodir as arquibancadas.

A segunda etapa, porém, traiu as esperanças do público de casa: a Salernitana atacava e perdia sistematicamente suas melhores oportunidades. E, a cada bola que passava pelo gol ou parava no goleiro Rafael, perdia o entusiasmo. A partir dos 20 minutos, o Hellas Verona dominou o meio-campo, passou a acionar as laterais e empurrou o inimigo para trás. Poderia ter empatado - mas não precisou. Uma derrota doce, que arquiva quatro anos de sofrimento na terceira divisão. Para a Salernitana, ao contrário, uma vitória amarga, e que pode se tornar ainda mais triste: com a perda do acesso, as possibilidades de que o clube se salve de uma nova falência são mínimas.

Sonho eterno: Juve Stabia festejou a Serie B em Roma (Bartoletti)

Grupo B: Atletico Roma 0x2 Juve Stabia (ída: 0x0)
A vitória no campeonato da Seconda Divisione, na temporada passada; o título inédito da Coppa Italia Lega Pro; a classificação para os play-offs, após um péssimo início de campeonato; e, agora, a conquista da Serie B, 60 anos depois da última passagem pela categoria. O repertório de "milagres" da Juve Stabia é amplo e consagra o melhor período do clube em toda a sua história. A partida, contudo, foi nervosa. O time da capital, além de ser tecnicamente superior, contava com a vantagem do empate (no tempo normal e na prorrogação) e por pouco não abriu o placar, aos 10 minutos, com Ciofani. A resposta da Juve Stabia só viria nove minutos mais tarde, com Corona, sem muito perigo.

Após essas tentativas, a marcação prevaleceu e a partida ficou restrita ao meio-campo. Quando todos já se preparavam para o intervalo, porém, a equipe campana surpreendeu os donos da casa, com Molinari, após cobrança de escanteio. Na segunda etapa, o Atletico Roma tentou de tudo para empatar: chutes de perto e longe, e até uma cobrança de falta. Nada. A Juve Stabia, fechada, preparava o bote e o aplicou no limite da crueldade: aos 44 minutos, Tarantino arrancou em contra-ataque pla esquerda e serviu Corona, que não desperdiçou. A equipe romana, que já tinha dificuldades para marcar um gol, desabou: era o fim do sonho. E o começo da festa para a provinciana de Castellamare di Stabia.

sábado, 18 de junho de 2011

Prima Divisione: tudo em 90 minutos

Amanhã (19), os play-offs da Prima Divisione apontarão os dois últimos promovidos à Serie B. No Grupo A, a Salernitana terá de reverter a boa vantagem que o Hellas Verona construiu na partida de ida, em Verona. Já no Grupo B, a melhor campanha do Atletico Roma prevaleceu no primeiro jogo contra a Juve Stabia, e a equipe da capital continua a um empate de comemorar o acesso à divisão cadetta.

Na parte de baixo, por outro lado, as definições já aconteceram: após péssimas campanhas em seus grupos, Monza, Ternana, Südtirol e Cosenza fracassaram nos play-outs e foram rebaixados para a Seconda Divisione. Tudo, porém ainda pode ser reescrito: seja pelas dificuldades que muitos clubes enfrentarão para uma nova inscrição na categoria - por motivos variados; seja pelas possíveis consequências práticas do novo escândalo de apostas que abala a Bota. O único caso sem solução parece ser o do Cosenza: à beira de uma nova falência, o clube busca recursos para, primeiramente, não desaparecer.

Com dois gols de Ferrari, Verona construiu uma boa vantagem para o jogo de volta (Fotoexpress)

Grupo A: Salernitana x Hellas Verona (ida: 0x2)
Por seus elencos, Salernitana e Verona eram candidatos naturais ao acesso. Os problemas durante a temporada, porém, quase desmentiram essa lógica: a equipe de Salerno, à beira de uma nova falência, foi constantemente penalizada com a perda de pontos, e os gialloblù só engrenaram para valer com a chegada do técnico Andrea Mandorlini, que recuperou uma campanha destinada ao fracasso. Após terem agarrado as duas últimas vagas para os play-offs, os clubes demonstraram seus melhores recursos: o Verona (5º) não teve dificuldades contra o Sorrento (2º), vencendo em casa por 2 a 0 e empatando fora por 1 a 1; e a Salernitana (4ª), após um sofrido empate por 1 a 1 diante de sua torcida, conquistou a final na casa do Alessandria (3º), onde venceu por 3 a 1.

No primeiro jogo da decisão, em Verona, o Hellas reverteu a vantagem da Salernitana graças à atuação inspirada do centroavante Nicola Ferrari, que marcou dois gols, ambos de pênalti, em momentos capitais da partida: o primeiro, aos 17 minutos, esfriou a equipe de Salerno, que já tivera duas oportunidades de marcar; e o segundo, conquistado por ele mesmo aos 22 minutos da etapa final, levou à expulsão do goleiro adversário e selou a vitória. No jogo de volta, a equipe vêneta festejará a promoção em caso de empate ou derrota simples. Para a Salernitana, servirá uma vitória por três de diferença; um triunfo com dois gols de vantagem levará a disputa para a prorrogação, em que a formação granata terá a vantagem do empate.

Decisão aberta: Atletico Roma e Juve Stabia lutarão pela Serie B na cidade eterna (Mosca)

Grupo B: Atletico Roma x Juve Stabia (ida: 0x0)
Que o Atletico Roma (3º) jogaria pela Serie B, ninguém duvidava; mas que o time da capital seria desafiado pela Juve Stabia (5ª), poucos apostavam. Aqui, os play-offs ofereceram uma solução tão inesperada que até os caminhos para a decisão foram antagônicos: a formação romana passou pelo Taranto (4º) após vencer por 1 a 0 fora e perder por 3 a 2 em casa, e as vespe eliminaram o Benevento (2º) - a melhor equipe do grupo depois da campeã Nocerina - com uma vitória por 1 a 0 em casa e um empate externo por 1 a 1.

Os primeiros 90 mintos da decisão entre os dois times foram embalados pela atmosfera eletrizante do estádio Romeo Menti, em Castellamare di Stabia, completamente tomado por mais de 12 mil pessoas. Gols, porém, não aconteceram. E não por falta de oportunidades, já que os primeiros 45 minutos foram marcados por boas ações ofensivas de ambas as partes. Na segunda etapa, ao contrário, apenas uma chance relevante: aos 17 minutos, com Franceschini, para a Juve Stabia. No mais, prevaleceu o poder de marcação do Atletico Roma, que manteve sua (ainda que mínima) vantagem para o jogo de volta. Para a Juve Stabia, que saiu de campo reclamando dois pênaltis a seu favor - um destes, indiscutível - servirá somente a vitória, nos 90 minutos ou na prorrogação.

Decadência: pretendente ao acesso na última temporada, Ternana foi parar na Seconda Divisione (tuttoggi.info)

Play-outs - Grupo A
Prevaleceram as melhores campanhas de Pergocrema (14º) e Ravenna (15º), que após as derrotas por 1 a 0 nos jogos de ida, perante Monza (17º) e Südtirol (16º) respectivamente, apegaram-se ao regulamento: venceram suas segundas partidas pela mesma diferença de gols e se salvaram. O alívio vindo de campo, porém, não durou muito: o clube de Crema foi colocado à venda dias após conquistar a permanência e o Ravenna se vê como um dos focos principais do novo escândalo de apostas do futebol italiano. Para os rebaixados, resta a esperança da repescagem.

Play-outs - Grupo B
Aqui, salvaram-se Viareggio (17º) e Foligno (16º), as equipes pior colocadas na temporada regular. O primeiro surpreendeu e impôs duas derrotas ao Cosenza (14º), enquanto o segundo impôs o rebaixamento à Ternana (15ª) após vencer em casa e empatar - no último minuto - em Terni. A equipe umbra já anunciou que fará o pedido de repescagem e, pelo novo desastre que se desenha na pré-temporada, tem grandes chances de conseguir. Já o clube da Calábria, que faliu recentemente e sofreu muitos anos na Serie D antes de retornar às categorias profissionais, vê-se seriamente ameaçada por uma nova quebra, que poderá levá-lo ainda mais abaixo.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Lega Pro: Seconda Divisione já está definida

Da Serie A à LND, quase todas as divisões nacionais da Itália já têm seus veredictos. A única exceção é a Lega Pro, que está definida pela metade, e receberá atenção especial do Quattro Tratti em sua semana derradeira, em que serão conhecidos os últimos ascensores à Serie B. Mas, por ora, falemos do que já está resolvido: no último domingo (12), os play-offs da Seconda Divisione definiram FeralpiSalo', Carrarese e Trapani, respectivos vice-campeões dos Grupos A, B e C, como os últimos promovidos à terceirona de 2011-12.

À parte os méritos incontestes dos três vencedores, seus acessos foram os atos finais de três campeonatos embaraçosos, marcados por inúmeras falências societárias, repescagens realizadas a esmo (e, ainda assim, em número insuficiente) e falseamentos esportivos. Panorama que deverá se manter na próxima temporada, já que muitos clubes da categoria estão em situações alarmantes. Alguns deles, como Sangiovannese e Pro Patria, à beira da falência, e suas inscrições estarão atreladas a uma taxa de fideiussione 50% superior àquela praticada nesta temporada (200 mil euros).


A mais nova fábula: com apenas três anos de vida, FeralpiSalo' alcança a Prima Divisione (Il Giornale di Brescia)

Grupo A: FeralpiSalo' 2x1 Pro Patria (ida: 1x1)

Em 2008, os brescianos Feralpi e Salo', duas equipes apenas medianas da Serie D, resolveram unir forças para criar um único clube: nascia ali o FeralpiSalo', imediatamente aceito na então Serie C2 e promovido já em seu ano de estreia. Na última temporada, os play-offs e a derrota nas semifinais para o Spezia. Neste ano, uma nova chance e, enfim, o histórico acesso à Prima Divisione. É mais nova fábula emergente da Itália. E como em todo bom sonho de glória, a consagração veio numa partida de contornos dramáticos.

Após o empate de Busto Arsizio, o FeralpiSalo', melhor colocado na temporada regular, conservara sua vantagem regulamentar para a decisão contra a Pro Patria. O que se viu nos primeiro minutos, porém, foi uma equipe nervosa e envolvida pela boa formação adversária, que abriu o placar aos 22 minutos, com Serafini. A reação do FeralpiSalo' foi modesta, e a situação tendia a piorar na segunda etapa, com a expulsão de Colicchio pouco antes do intervalo. Tendia, apenas: agressiva, a equipe da casa criou três ótimas oportunidades de gol antes que Bracaletti empatasse a partida.

Em superioridade numérica, a Pro Patria tentou responder, mas perdia entusiasmo a cada chance desperdiçada. Cansada, a squadra de Busto Arsizio passou a abusar das faltas e chegou aos 45 minutos com apenas nove homens em campo. E então, quando já se esperava pela prorrogação, Meloni se aproveitou de uma falha da defesa bustocca e marcou o gol mais importante da história do FeralpiSalo'. Festa nas arquibancadas, em contraste com o desespero da Pro Patria: em situação societária dramática, o clube enxergava na promoção uma chance de sobrevivência, e seu futuro, mais do que nunca, é incerto.


Jogadores e torcedores da Carrarese festejam a promoção (Il Tirreno)

Grupo B: Carrarese 2x0 Prato (ida: 0x1)

Quase impecável no campeonato e extremamente irregular nos play-offs. Poderia ser o enredo de uma grande decepção, mas a Carrarese inverteu a tendência e, após oito anos, reencontrou-se com a Prima Divisione. O salto de categoria foi dado às custas do Prato, que chegou a Carrara embalado por um boa vitória na primeira partida da disputa. O entusiasmo, porém, durou apenas sete minutos, tempo necessário para que Benassi abrisse o marcador em favor da equipe gialloblù.

O gol acalmou os ânimos das duas equipes. Seguiram-se poucas oportunidades de gol para os dois lados, prevalecendo a marcação no meio-campo. O panorama se manteve inalterado até os 20 minutos da segunda etapa, quando a Carrarese perdeu Giovinco, expulso. Com mais homens em campo, o Prato foi em busca do gol que poderia lhe valer a promoção, mas esbarrou na própria falta de pontaria

Como quem não marca acaba sofrendo, o Prato foi castigado: aos 33 minutos, de pênalti, o experiente Corrent (ex-Verona e Lecco) mandou para a rede a bola da Prima Divisione, e deu início a uma festa que ultrapassou em muito os limites do estádio Marmi. Para o Prato, que permanecerá na categoria pela oitava temporada seguida, o salto de categoria bateu na trave mais uma vez.


O elenco do Trapani, que devolveu a Terceira Divisão à cidade (trapanicalcio.it)

Grupo C: Trapani 3x1 Avelino (1x2)

Após a derrota de Avellino, os torcedores do Trapani esperavam por uma decisão nervosa e disputada. E as previsões se confirmaram - mas pelos motivos diferentes: o nervosismo ficou restrito à ansiedade da equipe da casa em alcançar e manter o resultado; e a desigualdade da disputa foi tamanha que o Avellino nem parecia estar no gramado do estádio Provinciale.

O Trapani começou arrasador e, logo aos seis minutos, com um pênalti de Barraco, já tinha recuperado a vantagem perdida no jogo de ida. Foi o bastante para desorientar o Avellino, completamente dominado em todos os setores do campo. O segundo gol siciliano era questão de tempo, e veio aos 40 minutos, com Mastrolli.

No segundo tempo, o Trapani abdicou do ataque para administrar o resultado, que já lhe garantia o acesso. O Avellino permanecia sem reação: além de limitar seu jogo a ligações diretas entre o meio e o ataque, ainda ficou com um homem a menos após a expulsão de Ricci. Mas, a oito minutos do final, o improvável: num raro ataque consciente, os lupi conseguiram uma falta na entrada da área, transformada por Vicentin.

Na prorrogação, o Trapani reassumiu o controle e hipotecou a promoção aos 13 minutos, com o gol de Pirrone. Precisando de dois gols em 15 minutos, o Avellino se desesperou, e teve mais dois jogadores (um em campo, outro no banco) e seu técnico expulsos. Foi a senha para que o Trapani festejasse seu retorno à Terceira Divisão, que faltava à cidade há 13 anos.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Quando a Bota afunda na lama

Signori, ex-atacante da Lazio e da seleção italiana, foi preso, acusado de comandar esquema de apostas ilegais, mas foi liberado temporariamente (Affaritaliani.it)

Demorou, mas aconteceu de novo. O futebol italiano volta a ficar cercado de dúvidas quanto a sua integridade devido a um novo escândalo de manipulação de resultados. Desta vez, o escândalo não teve os mesmos traços que o último, o Calciopoli de 2006, em que diretores de clubes manipulavam resultados através de ameaças (telefônicas e físicas) e subornos a árbitros. Desta vez, o caso diz respeito a esquemas de apostas ilegais, envolvendo jogadores de algumas equipes.

A justiça italiana, em cada uma de suas divisões regionais, ainda procede as investigações, que versam sobre mais de 20 jogos (cinco da Serie A) que podem ter sido manipulados entre 2009 e 2011. Através de escutas telefônicas, a polícia italiana interceptou ligações entre líderes do esquema, jogadores de times de divisões inferiores e outros ex-jogadores. As interceptações contém dados relevantes e que podem mudar resultados da Serie B e da Lega Pro, caso os clubes sejam considerados envolvidos e acabem sendo punidos com a perda de pontos.

Até agora, nenhuma prova evidencia o envolvimento direto de clubes e muitas denúncias são confusas e não se encaixam - motivo pelo qual só voltaremos a tratar do caso quando for definido. Entre os acusados, que chegaram a ser presos, estão Antonio Bellavista (ex-Bari), Mauro Bressan (ex-Milan e Fiorentina), Marco Paoloni (Cremonese), Gianluca Ticella (Chieti, do futsal), Vittorio Micolucci e Vincenzo Sommese (Ascoli), além de Giuseppe Signori (ex-Lazio, Bologna e seleção italiana) - este último seria um dos líderes do esquema. Stefano Bettarini (ex-Sampdoria) e até mesmo Cristiano Doni (Atalanta) podem estar envolvidos.

Até hoje, não existem muitas fontes de informação sobre o caso em português. Indicamos, para quem desejar se aprofundar na espécie de "disse-me-disse" que está acontecendo todo dia, em tribunais italianos, o especial feito pela italiana Gazzetta dello Sport. Em português, temos a entrevista concedida pelo goleiro Rubinho, ex-Genoa, Torino e Palermo, a Gustavo Hofman, da Trivela. Aque, ficaremos com apenas um trecho da entrevista do brasileiro, que pode dar a noção do amadorismo das divisões inferiores da Itália, que fazem os jogadores apostarem - prática vetada, e que já provocou escândalos como o Totonero, de 1980, e o Totonero Bis, em 1986.

Rubinho diz: "na Série B é complicado mesmo. Na Série A os interesses são maiores, os jogadores pensam em transferências, jogar em competições europeias... Na B tem clubes que sabem que não vão subir, vão ficar lá seis, sete anos, e aí os jogadores veem essa forma de ganhar seu dinheirinho, pelas apostas, uma aqui, outra ali. Tem muitos jogadores italianos que apostam. Aí também o cara vai e conhece o dono de uma loja de relógios, aparece no vestiário vendendo relógio. As Séries B e C na Itália não têm nada de profissional..." Confira a entrevista, na íntegra, aqui.

P.S: Hoje a federação italiana (FIGC), confirmou oficialmente o banimento de Luciano Moggi e Antonio Giraudo, ex-diretores da Juventus, que comandaram o Calciopoli de 2006. Infelizmente, a decisão não quer dizer que a condução do atual escândalo será feita com o mesmo rigor.

Gene Gnocchi e o futebol cômico

Gene Gnocchi virou Gnoccão e colocou Parma e Genoa no seu currículo futebolístico (Reppublica.it)

Eugenio Ghiozzi é advogado de formação, mas ganhou fama como um multifuncional: sob a alcunha de Gene  Gnocchi (lê-se nhóqui mesmo), ele é humorista, apresentador, cantor, escritor e ator. Comediante desde a década de oitenta, sempre esteve próximo ao futebol. Se na juventude ele chegou a defender a Alessandria, na Serie C, o ano de 2007 fez do humorista o atleta mais velho em toda a história da Serie A.

Foi através do Quelli che il calcio e..., de onde costumava soltar seus comentários sarcásticos, tal qual "O Parma se diz interessado no empréstimo de Adriano. Como de costume, não quer perder o melhor presunto da época", que Gnocchi realizou, em novembro de 2006, um apelo bastante curioso - o de ser aceito por qualquer clube da Serie A. Ei-lo, em tradução livre:

Isso não é uma piada. Eu, Gene Gnocchi, 51 anos, em plena posse (ou quase) das minhas faculdades mentais, peço que uma equipe da Serie A me contrate e me faça jogar, nem que por apenas cinco minutos, antes do fim do campeonato. Estou disposto a superar qualquer teste psico-físico-atitudinal dentro e fora do campo. As razões para esta decisão são essencialmente cinco e todas exemplares, dotadas de inatacável calibre moral:

1 - O futebol é levado a sério demais. O time que decidisse me fazer jogar demonstraria um sentido de ironia ao menos equiparável àquele de Maurizio Mosca
(polêmico ex-apresentador), quando defende pela enésima vez que o Ascoli já contratou Kaká;
2 - O futebol precisa de uma cara nova; de alguém que quando está em campo passe um recado às pessoas: 'com certeza não é da Gea'
(empresa de Luciano Moggi, parte do Calciopoli);
3 - A conquista da Copa do Mundo levou o futebol italiano ao apogeu, mas na Europa continuam dizendo que aqui há pouco espetáculo: pronto, eu sou o cara certo;
4 - Sempre sonhei  com uma velina
(como se chama uma dançarina do programa Striscia la notizia) no jantar, olhando em meus olhos após ter me visto em campo, dizendo: "Te acho muito atraente mesmo não sabendo sua ocupação";
5 - Se o Bettarini
(Stefano, ex-zagueiro; atuou em vários clubes da Serie A e se aposentou em 2005) tem um programa na TV no domingo à tarde, por que eu, no mesmo horário, não posso jogar na Serie A? Ontem no Quelli che il calcio e... já aderiram à campanha Marcello Lippi, Cristiano Lucarelli e Attilio Tesser. Se você quer demonstrar seu apoio, ou é um clube que pretende me contratar ou me testar, escreva-me. Juntos podemos mudar.

Parece absurdo, mas o pedido deu certo. Em março de 2007, Gene Gnocchi virou Gnoccão - alusão às nomenclaturas de jogadores brasileiros - e assinou com o Parma pelo salário mínimo permitido a um futebolista, 1.500 euros por mês. Trajando a camisa número #52, referente à sua idade, o humorista foi acolhido por Tommaso Ghirardi e apresentado a Claudio Ranieri, então treinador dos crociati, numa coletiva bastante animada.

Nem tudo deu certo nessa história bizarra. O Parma lutava para não cair e não pode se dar ao luxo de fazê-lo entrar em campo. A festa terminou - ou teria começado - quando Gnocchi disputou um amistoso contra a Carpenedolo, ao fim da stagione. O comediante, olhe só, foi meio-campista. Apesar de confirmado para a temporada seguinte - chegou a figurar no Fantacalcio, o Cartola de lá - Gnocchi não disputou nenhuma partida oficial.

Com o sonho parcialmente realizado, o humorista largou a ideia de estrear na Serie A, até que o Genoa, em 2009, propôs a mesma iniciativa antes tomada pelo Parma, e Gnoccão, agora trajando a camisa #54, assinou por seis meses com a equipe promissora de Gian Piero Gasperini, Thiago Motta e Diego Milito. Diante da campanha ambiciosa dos grifoni, que atingiram a quinta posição, todavia, outra vez o comediante ficou de fora do campeonato. Sem graça, esses italianos.

Gene Gnocchi chegou a treinar com Bari e Napoli por um dia, mas sem grandes pretensões. O apresentador seguiu em sua área e trocou a Rai pela Sky, depois foi ao Canale 5 e hoje comanda L'almanacco del Gene Gnocco, de volta à Rai, e sempre acompanhado de muito bom humor.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um retorno aguardado

Pablo González abriu o caminho com um gol de falta na final do play-off para a promoção do Novara (LaPresse)

Na última coluna de Serie B falávamos que faltavam apenas duas definições: o último a subir para Serie A e o rebaixado pelo play-out. Na briga pelo acesso, a decisão ocorreu entre Novara e Padova. Já pela incômoda disputa pela permanência, AlbinoLeffe e Piacenza se enfrentaram. A vantagem para AlbinoLeffe e Novara por terem melhor campanha na fase de pontos corridos, seria decidir em casa e também jogar por dois empates, pois nestes jogos não há vantagem pelos gols fora de casa.

Pelo play-off, Novara e Padova, jogaram a primeira partida na quinta, no estádio Euganeo, em Pádua. Porém, dessa vez, os patavini não conseguiram tomar conta da partida em seus domínios: em uma partida com poucas finalizações, os visitantes conseguiram controlar a posse de bola e voltaram para o Piemonte com um vantajoso 0 a 0. Para a finalíssima, a torcida dos azzurri lotou as dependências do estádio Silvio Piola e fez barulho praticamente durante todos os 90 minutos.

Jogando em casa, o treinador Attilio Tesser armou a sua equipe no 4-3-1-2 e jogou o tempo todo pressionando os patavini. A partida ficou totalmente sob o controle do Novara e, aos 14 minutos da primeira etapa, Pablo González recebeu na frente e foi puxado pelo brasileiro César: cartão vermelho e falta na entrada da área, já que ele era o último homem. O argentino bateu muito bem a falta para marcar seu 15° gol na Serie B e colocou os azzurri com boa vantagem.

Para recompor a defesa, o jovem treinador Alessandro Dal Canto (36 anos), uma das revelações do campeonato deste ano, desde que assumiu o time no meio de março, fez opção estranha ao sacar El Shaarawy – um dos destaques dos biancoscudati na reta final da Serie B. Com um jogador a mais e a torcida empurrando muito o time, o domínio dos donos da casa apenas aumentou. A festa ficou completa no segundo tempo, quando Rigoni fez seu quarto gol na competição, aos 25 minutos.

O 2 a 0 recoloca o Novara na Serie A após 55 anos ausente e mostra que a manutenção da base campeã da Lega Pro Prima Divisione foi a boa escolha, garantindo a segunda promoção consecutiva. No entanto, o clube já perdeu o diretor esportivo Pasquale Sensibile para a Sampdoria, que tentará fazer o mesmo caminho.

No jogo final do play-out, o Piacenza acabou sendo vítima das rodadas finais da Serie B, que foram bastante diferentes para o clube e para o AlbinoLeffe. Os lupi perderam três partidas e foram ultrapassados pelos celestes. Com isso a vantagem no play-out mudou de lado e ela fez muita diferença na decisão de quem ficaria mais uma temporada na segundona.

Na partida em Piacenza, no sábado de 4, o 0 a 0 deixou para Bérgamo a decisão da incômoda vaga na Lega Pro Prima Divisone. Se o jogo na casa dos biancorossi foi pouco movimentado e com raras oportunidades de gol, na Lombardia, o panorama foi totalmente diferente – talvez por ser a última chance de ambos se manterem na segunda divisão italiana.

O Piacenza foi surpreendido na primeira etapa e, aos 34 minutos de jogo, os donos da casa já contavam com a boa vantagem de 2 a 0. Para escapar do rebaixamento, os lupi teriam que virar a partida, uma missão muito difícil, que afastava a equipe da esperança da salvezza. No começo do segundo tempo, quem deveria aparecer, apareceu: Cacia voltou a marcar, após um jejum que parecia interminável. O gol de pênalti, aos 4 minutos, reascendeu a esperança biancorossa.

Porém, os seriani conseguiram segurar o placar, dominando a posse de bola. Aos 31 minutos, o Piacenza empatou, mas não alcançou a virada e, portanto, acabou mesmo sendo rebaixado, menos de dez anos depois de jogar a Serie A. O trabalho de reconstrução será mais do que árduo.

sábado, 11 de junho de 2011

A tarantella dos técnicos

Final de temporada e o panorama é o mesmo de sempre. Poucos times realmente tem o que comemorar, com a grande maioria fazendo cálculos para ter melhor desempenho na próxima Serie A. E na hora das mudanças, quem dança primeiro são os treinados. Quase sempre apontados como os responsáveis pelo balanço final, muitas vezes acabam sendo a válvula de escape para que dirigentes tentem maquiar equipes mal montadas e recheadas de crises internas. Na Itália, como se sabe, a paciência com técnicos é muito curta e, para a próxima temporada, apenas oito treinadores continuarão à frente dos mesmos times pelos quais concluíram 2010-11.

Depois de analisar os melhores da temporada, o desempenho dos 20 clubes na última Serie A e também as maiores revelações do campeonato, o Quattro Tratti mostra quem são os times que mudaram de comando para a próxima temporada, quais mantiveram seus treinadores e quem serão os novos técnicos no mercado e nos bancos de reservas italianos.

Luis Enrique vem do Barcelona B e é a aposta da Roma para uma temporada menos amarga (Getty Images)

Quem mudou

Roma

Por que mudou? A Roma precisava de novos ares. Vicenzo Montella não fez um trabalho ruim na capital, tendo sido quase que vítima das incoerências de seu sucessor Claudio Ranieri, das péssimas contratações feitas no início da temporada, do fato de ter assumido o comando do clube com a Serie A em andamento e, principalmente, pela confusão societária vivida pelos giallorossi.

Quem chega? Luis Enrique, ex-Barcelona B. O espanhol é a prova de que não faltou confiança em Montella pelo fato de este ser jovem. Vindo da Catalunha, o ex-meio-campista do Barcelona é perfeito para a mudança requerida em Roma: trará um novo estilo de jogo, provavelmente novos jogadores e terá a missão de importar a filosofia blaugrana para a Itália. Existe, é claro, a desconfiança. Isso porque Luis Enrique não é carimbado no mercado e, acima de tudo, porque a importação de uma filosofia de jogo e de clube é algo que leva certo tempo para dar certo. A primeira mudança é que Luis Enrique terá controle direto sobre as equipes de base da Roma.

Juventus

Por que mudou? Mais uma temporada decepcionante em Turim. Luigi Delneri chegou à Juve credenciado pela ótima campanha que fez com a Sampdoria em 2010. Após levar os genoveses até a Liga dos Campeões, foi contratado pelos bianconeri e de cara recebeu alguns reforços. A maioria deles não rendeu e, salvo exceção à Krasic, Matri e Quagliarella (os dois últimos por apenas meia temporada), fizeram temporada sem brilho algum. O time seguiu a mesma linha e, sem padrão de jogo, não fará nenhuma viagem internacional na próxima temporada. Afinal, a péssima sétima colocação deixa a Juventus fora até da Liga Europa. Prejuízo nos cofres e dentro de campo também.

Ídolo bianconero como jogador, Conte chega à Juventus para tentar colocar fim a uma crise que se arrasta pelos últimos anos (Getty Images)

Quem chega? Antonio Conte, ex-jogador da Juve e com passagens por Bari, Atalanta e Siena como técnico. Chega credenciado por dois fatores: foi ídolo com a camisa bianconera e fez dois bons trabalhos na Serie B com bareses e seneses, que subiram mostrando futebol ofensivo e convincente. Fora isso, não tem experiência de alto nível, talvez um fato interessante para um time que precisa se reconstruir. Se levados em conta sua forma de armar o time em outras oportunidades, deverá abusar das jogadas pelas pontas, forte da Juve com Pepe e Krasic. Com as chegadas confirmadas de Ziegler e Pirlo, terá dois jogadores que sabem defender e apoiar com eficácia, ficando com um bom elenco em mãos. Terá, porém, que lidar com a pressão excessiva da torcida, que desde o Calciopoli não tem motivos para sorrir.

Palermo

Por que mudou? Mais uma vontade realizada do presidente Maurizio Zamparini. Para a imprensa, a versão sobre a saída de Delio Rossi é a de que a saída foi serena e consensual entre diretoria e treinador. A derrota na final da Coppa Italia de maneira alguma surtiu efeito na decisão, tendo sido a chegada à Liga Europa e à final da competição dois fatos históricos para os sicilianos. As filosofias de Zamparini e Rossi, porém, eram opostas, e os dois costumavam se desentender com frequência. O clima para Rossi não era dos melhores. É sempre bom lembrar que o treinador foi demitido em meio à temporada, passou 36 dias afastado do cargo e voltou. Além disso, o técnico sentiu que poderia perder Pastore para o mercado e, com isso, ter dificuldades tanto na Europa quanto na Itália. A saída, então, foi uma solução acertada.

Quem chega? Stefano Pioli, ex-Chievo. Talvez um dos nomes mais desejados do mercado – foi cotado para assumir a Roma -, o treinador chega com um bom trabalho feito no limitado elenco do Chievo, fato que traz aos rosanero a esperança de repetir a boa campanha de 2010-11. A iminente perda de Pastore, menina dos olhos de muitos times europeus, pode fazer com que o Palermo perca muito de sua força. Caberá ao novo treinador, então, tentar manter de pé um time que pode perder seu astro. A pressão da torcida e da diretoria estará voltada para uma maior estabilidade da equipe ao longo da temporada, além, é claro, de uma boa campanha na Liga Europa.

Catania

Por que mudou? Porque Diego Simeone quis sair. A diretoria e os torcedores gostariam – e muito – que o argentino continuasse a dirigir a equipe. A boa campanha do time após a chegada do ex-jogador, que levou os etnei de um provável rebaixamento para uma honrosa 13ª colocação. O treinador, porém, optou por rescindir seu contrato para, provavelmente, tentar dirigir um clube de maior expressão. Após rumores de que poderia ir para o Atlético de Madrid, Simeone deverá seguir de volta para a Argentina, de onde recebeu convite do Estudiantes de La Plata.

Quem chega? Vicenzo Montella, ex-Roma. Se não conseguiu dar continuidade ao seu trabalho na Roma, Montella não ficará parado. O ex-jogador chegará na Sicília com certa carga de responsabilidade. A limitação do elenco é evidente, mas se Simeone conseguiu levar o time para longe do rebaixamento, a expectativa é de que a campanha na próxima temporada será pelo menos parecida. Um peso que Montella terá que carregar sem muitos reforços e que colocará em prova de fogo suas capacidades como treinador.

Bologna

Por que mudou? Após o ótimo trabalho, Alberto Malesani preferiu sair, com o objetivo de comandar uma equipe maior - está negociando com o Genoa. O treinador fez a equipe crescer em meio a uma crise societária, que incluía troca de comando, salários atrasados e até mesmo risco de que os jogadores tivessem os contratos rescindidos pela justiça. Mesmo com 3 pontos deduzidos pelas dívidas, o time garantiu a salvezza com rodadas de antecedência e só acabou relaxando na reta final do campeonato, quando somou apenas dois pontos nas últimas oito rodadas.

Quem chega? Pierpaolo Bisoli, ex-Caglari. Sem trabalhar desde novembro de 2010, quando deixou o Cagliari, é uma aposta arriscada e que não deve ter tanto poder de mudança no time. No entanto, Bisoli chegou afirmando que gostaria de ficar no clube por cinco, seis anos, com um projeto de médio prazo. A notícia boa fica pelo momento da chegada, antes da abertura do mercado, o que permitirá a Bisoli sentar com a diretoria e montar um time que lhe agrade.

Chievo

Por que mudou? Porque seu treinador preferiu aceitar o convite para dirigir o Palermo. Stefano Pioli fez uma boa campanha com o time, terminando na 11ª colocação – é sempre bom lembrar que a equipe era bastante cotada para estar entre os rebaixados ao início da temporada. Sem estrelas, levou o time para longe do risco de cair e, em alguns momentos, chegou a sonhar com melhores dias, com chances de brigar pelas últimas vagas europeias.

Domenico Di Carlo chega ao Chievo com o peso de ter ido muito mal no comando da Sampdoria (Getty Images)

Quem chega? Domenico Di Carlo, ex-Sampdoria. Na última temporada Di Carlo tinha um panorama desejado por muitos treinadores: assumiu uma equipe ascendente, com um bom plantel, motivada e com vaga na competição de clubes mais importante do mundo. Seus seguidos erros no comando, porém, resultaram em um ano vexatório para a Sampdoria. No entanto, o treinador retorna ao clube pelo qual fez o melhor trabalho da carreira, em 2009-10, e encontra um time muito parecido com o que deixou, com apenas quatro peças diferentes no time titular, o que deve ser positivo para tentar manter a campanha regular feita pelos gialloblù em 2010-11.

Cesena

Por que mudou? A diretoria do Cesena chegou à conclusão de que a permanência na Serie A não foi suficiente. Depois de passar 19 anos longe da elite italiana, os bianconeri não fizeram feio e garantiram sua vaga entre os 20 melhores da próxima temporada. A campanha, porém, não garantiu a permanência de Massimo Ficcadenti. Estranhamente, ao anunciar que não renovaria com o treinador, a diretoria do Cesena mostrou muita incoerência ao dizer que a campanha na Serie A havia sido bem melhor do que os diretores imaginavam no começo do ano.

Quem chega? Marco Giampaolo, ex-Catania. Assim como o Chievo, o Cesena faz aposta arriscada. Mesmo que a campanha na Serie A não tenha sido perfeita, Ficcadenti conseguiu manter o time na elite e conhecia o grupo. Giampaolo chega à equipe tendo como campanha mais recente os 22 pontos nas 20 primeiras rodadas da última Serie A no comando do Catania. Um panorama nada animador para os bianconeri, que buscarão evitar o rebaixamento de novo, e esperam do treinador trabalhos como os realizados anteriormente, como por Ascoli, Cagliari e a primeira temporada no Siena.

Siena

Por que mudou? Mais um caso na qual a vontade do clube não fez diferença. Após conseguiu o retorno à Serie A, Antonio Conte se destacou e foi convidado para comandar o projeto de reestruturação da Juventus. Tentado a dirigir um clube muito maior e no qual é ídolo, o treinador deixou o Siena.

Quem chega? Giuseppe Sannino, ex-Varese. Após fazer ótima campanha e quase levar o Varese à Serie A um ano após o clube subir da Lega Pro, o experiente Sannino, muito rodado por times das divisões inferiores da Itália desde o início da década de 1990, finalmente voltará a dirigir uma equipe da primeira divisão. A experiência e o bom time – com destaque para a defesa – montado pelo treinador no comando dos leopardi são as credenciais para alcançar o objetivo da próxima temporada: manter os bianconeri na Serie A.

Genoa

Por que mudou? A décima colocação na tabela não é nem de longe o suficiente para agradar uma diretoria que se mexeu e foi às compras. Davide Ballardini assumiu o time para tentar chegar a uma competição europeia, mas logo viu que o principal objetivo da temporada era reduzir danos. Como o treinador havia sido contratado apenas para conduzir o time até o final da temporada, já se sabia que o Grifone teria novo treinador para 2011-12.

Quem chega? Até o momento nenhum treinador foi contratado.

Lecce

Por que mudou? Luigi De Canio foi um verdadeiro mágico nas duas temporadas que esteve no comando do Lecce. O elenco limitadíssimo do time sempre começou o ano entre os mais cotados para ser rebaixado, mas a queda foi bravamente evitada nas duas temporadas, sempre com a ajuda do treinador. De tanto fazer milagres, De Canio ganhou reconhecimento no mercado e resolveu não renovar seu contrato, por não crer que seu projeto possa continuar tendo espaço no Lecce, que foi colocado à venda por seus donos, a família Semeraro. Quer alçar voos mais altos e espera proposta de algum clube maior – até julho, especula-se, deve receber a proposta de um time com maiores pretensões na Serie A. No momento, trocou o Lecce pelo desemprego.

Quem chega? Até o momento nenhum treinador foi contratado.

Sampdoria

Por que mudou? Pela péssima temporada que culminou com o rebaixamento. Alberto Cavasin havia sido contratado apenas para tentar a salvezza e não conseguiu. A Serie B exigirá um treinador mais gabaritado e Cavasin, que estranhamente assumiu uma equipe maior do que suas competências podiam arcar, não era o homem adequado para conduzir os blucerchiati.

Quem chega? Gianluca Atzori, ex-Reggina. A boa campanha de Atzori com o Reggina na Serie B credenciou o treinador para tocar aquele que deve ser o projeto mais delicado do futebol italiano na próxima temporada, o de resgatar a moral e o bom futebol do time que mais passou vergonha em 2010-11. Para isso, ainda terá que lidar com a evidente saída de bons jogadores, que provavelmente rumarão para outros times a fim de não disputar a segunda divisão. Um panorama bastante complicado e desanimador para o técnico, que merece aplausos pelo simples fato de topar o desafio.

Quem não mudou

Milan

Por que não mudou? Pela primeira vez em sete anos os rossoneri levantaram um scudetto. Depois de bater na trave muitas vezes, o Milan finalmente conseguiu com Massimiliano Allegri. Motivo mais do que suficiente para o treinador ter reconhecimento e estar garantido no comando do time na próxima temporada.

Inter

Por que não mudou? Porque a diretoria deu mais uma chance para Leonardo. A manutenção do brasileiro, porém, pode ser dada como certa basicamente porque José Mourinho recebeu plenos poderes no Real Madrid e não tem chances de voltar para Milão e, além disso, não há tantos nomes de peso acessíveis no mercado. Apesar da vulnerabilidade defensiva do time e da impactante eliminação para o Schalke 04 na Liga dos Campeões, Leo também teve seus méritos: manteve uma invencibilidade de 12 partidas em casa e tendo um aproveitamento superior aos 75% enquanto treinou a equipe.

Napoli

Por que não mudou? A melhor campanha do time nas últimas décadas. Desde Maradona não se via um Napoli tão forte na Serie A. O retorno à Liga dos Campeões e a briga pelo scudetto foram suficientes para fazer de Walter Mazzarri um dos técnicos mais festejados da Itália nesta temporada. Assim sendo, o treinador tem todo o respaldo para continuar no comando dos partenopei, apesar de ter se desentendido com o presidente De Laurentiis e quase ter saído.

Udinese

Por que não mudou? O time conquistou a vaga na Liga dos Campeões pela segunda vez em sua história. Jogando o futebol mais bonito da Itália, a Udinese de Francesco Guidolin encantou e foi muito bem na Serie A. Com um esquema ofensivo, mas que nunca deixou a defesa sem cuidado, méritos para o ótimo treinador, que foi especulado em grandes times. A permanência no Friuli é uma forma mais do que merecida de reconhecer o ótimo trabalho do técnico.

Lazio

Por que não mudou? Se não fosse a falta de elenco, o time teria ido muito mais longe. Com um elenco limitado para a disputa no topo, Edoardo Reja fez malabarismo e, contando com o ótimo futebol de Hernanes, conseguiu devolver a Lazio a uma competição europeia, ficando à frente da arquirrival Roma.

Fiorentina

Por que não mudou? Para dar continuidade ao projeto. É evidente que Sinisa Mihajlovic balançou com a campanha ruim que a viola fez neste ano. Mas mandá-lo embora não iria mudar muitas coisas. Jovem, o treinador é visto como um bom valor para o futuro e por isso foi mantido no comando da equipe. A cobrança por resultados na próxima temporada, porém, será muito mais intensa, e o objetivo é chegar à Liga Europa.

Parma

Por que não mudou? Pois o time foi bem com o treinador no comando. Franco Colomba foi o grande responsável pela reação do time, ao assumir na 32ª rodada, tirar o Parma de uma perigosa proximidade da zona de rebaixamento e levá-lo ao meio da tabela. A permanência do técnico é a prova de que a diretoria aprovou seu trabalho e espera a mesma pegada na próxima temporada.

Cagliari

Por que não mudou? Pelo ótimo trabalho feito. Se não fosse o trabalho de Roberto Donadoni, provavelmente o Cagliari podia estar entre os rebaixados desta temporada. Quando assumiu o clube em novembro, os jogadores estavam desmotivados e a equipe brigava na parte de baixo da tabela. Sem muita complicação, Donadoni fez o melhor trabalho de sua carreira até agora, salvou o time e motivou os jogadores. Motivos mais do que suficientes para permanecer para o próximo ano.

Atalanta

Por que não mudou? Porque Stefano Colantuono fez ótimo trabalho, devolvendo à equipe à elite apenas uma temporada depois do rebaixamento. O treinador tem moral no clube porque foi ele que comandou os nerazzurri em 2006-07, quando a Atalanta ficou na oitava colocação da Serie A, com 50 pontos, seu recorde histórico.

O mercado

Luigi De Canio

Por que contratá-lo? O treinador é nome forte no mercado pelas ótimas temporadas que fez recentemente com o Lecce. Se desvinculou do clube justamente para conseguir trabalhos em clubes maiores e deve consegui-los em breve.

Luigi Delneri

Por que contratá-lo? O técnico foi mais uma vítima da crise na qual a Juventus se vê afundada. Recentemente, foi o grande responsável por levar a Sampdoria de volta às competições europeias. Caso tenha uma chance, pode fazer novamente um time com elenco mediano emergir. Chegou a ser cogitado na Atalanta, mas a renovação de Colantuono fechou-lhe as portas.

Gian Piero Gasperini

Por que contratá-lo? Mesmo com a campanha mais recente do Genoa sendo decepcionante, Gasperini levou o time a colocações boas em anos anteriores. Assim sendo, seria nome bom para times que precisam de um técnico com gabarito e que não esteja entre os mais caros do mercado.

Claudio Ranieri

Por que contratá-lo? Apesar de muito criticado por um certo conservadorismo, Ranieri já fez ótimos trabalhos na Serie A, com Fiorentina, Parma e Roma. Se na última temporada não conseguiu ajeitar o envelhecido elenco da Roma, no ano anterior fez um trabalho excelente, e lutou pelo título até a última rodada.

Delio Rossi

Por que contratá-lo? Dono de alguns dos melhores trabalhos da Serie A nos últimos anos, por fazer campanhas positivas com equipes que não eram exatamente as de maior escalaão, Rossi é uma opção de peso para qualquer equipe que tenha objetivo de chegar a uma competição europeia. Rossi também é treinador para longo prazo, ao menos quando se fala em Itália, já que passou quatro anos na Lazio e outros dois no Palermo,conquistando um título da Coppa Italia e um vice do mesmo torneio, chegando à Europa por quatro vezes - uma à Liga dos Campeões.

Alberto Malesani

Por que contratá-lo? A campanha mais satisfatória do Bologna nos últimos anos tem a sua marca. Técnico motivador e que costuma ter um padrão tático bem definido, seria boa opção para qualquer clube de meio de tabela que tem ambição de surpreender.