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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Superação, teu nome é Itália

Balotelli marca dois e garante a passagem de uma Itália cheia de histórias à final da Euro (Getty Images)

Why always Italy, Germany? O tabu permanece: em competições oficiais, a Itália continua sem perder para a Alemanha - ao todo, em Copas do Mundo ou Euros, são oito jogos, quatro vitórias da Squadra Azzurra e quatro empates. No 2 a 1 de hoje, em Varsóvia, a Itália foi praticamente perfeita no que se propôs e superou a boa e jovem equipe tedesca, chegando, de maneira mais que improvável - depois de um escândalo esportivo e de uma fase de grupos na qual a classificação foi obtida no sufoco -, à final da Euro 2012, contra a Espanha. O jargão futebolístico diz: sem dificuldades, não é a Itália.

Espanha que, bom lembrar, quase foi parada pela Nazionale menos de um mês atrás, na estreia de ambas pelo grupo C da Euro. Uma seleção que, assim como a Alemanha, nunca venceu a Itália em uma partida oficial. Favoritismo, entretanto, não há. O que pode-se dizer, ao menos, é que esta Nazionale traz grandes histórias, muitas delas de superação - a mesma superação que a fez chegar à final mesmo desacreditada.

A primeira grande história é a do técnico Cesare Prandelli, uma das figuras que mais merece crédito pela campanha. Em 2001 ele estava sendo demitido pelo intempestuoso Maurizio Zamparini no pequeno Venezia, na sua última participação na Serie A. Depois, Prandelli guiou o Parma, afundado em dívidas, em ótimas campanhas na elite e, depois de dois anos, foi contratado pela Roma. Preferiu se demitir para cuidar de sua esposa, Manuela, que enfrentava um grave câncer. Quando ela se recuperou, voltou a trabalhar, desta vez na Fiorentina, onde fez um grande trabalho em cinco anos. Sua esposa, porém, não pode ver o ciclo: faleceu em 2007. Desde 2010 na seleção, mudou o estilo de jogo da equipe, fazendo com que a equipe jogasse um futebol vistoso, de muito toque e posse de bola. Desde que assumiu o cargo, não perdeu um jogo oficial sequer.

O meio-campo, tão importante para a forma de jogar do time de Prandelli, também está cheio de grandes histórias. A começar por De Rossi, que fez uma temporada ruim pela Roma, mas tem sido fundamental para o equilíbrio da equipe azzurra. Assim como Montolivo, "sacrificado", jogando como um falso trequartista, fora de sua posição natural, que fez sua melhor partida pela seleção. Ele, que tem mãe alemã, tem gravada na chuteira esquerda a bandeira italiana e, na direita, a bandeira alemã.

Foi justamente com a perna direita que ele lançou uma bola, de forma primorosa, para Balotelli, 40 metros à frente, fuzilar Neuer. Ou histórias como as de Diamanti e Thiago Motta, que seis anos atrás nem imaginavam vestir o manto azul - o primeiro, porque jogava no modestíssimo Prato, o segundo porque saía de uma passagem apagada pelo Barcelona e nem havia dado disponibilidade à Federação Italiana. Sem falar em Pirlo, renascido após sair do Milan, ser o melhor jogador da Serie A e também desta Euro.

Contra a Alemanha, Prandelli povoou o centro do campo como sempre, e obrigou Joachim Löw a mexer no time, deslocando o jogo das pontas para o centro, para evitar que a Itália dominasse o setor. Não deu certo: justamente em um dia de brilhantismo azzurro, a Alemanha não teve em Schweinsteiger a segurança de sempre.

Já a Itália teve a segurança de sempre na sua defesa, que resistiu bravamente por 91 minutos e só foi vazada porque Stéphane Lannoy assinalou um pênalti bem duvidoso, por toque de braço de Balzaretti. A zaga italiana também tem grandes méritos e histórias. Prandelli assumiu a ótima defesa da Juventus - mesmo que, nas Eliminatórias, com outros jogadores, a defesa italiana tivesse sofrido apenas três gols e tenha sido a menos vazada do certame - e deu certo.

Tudo dá certo desde Barzagli, que foi reserva da seleção italiana campeã do mundo em 2006, mas passou por maus bocados no Wolfsburg e, aos 30 anos, vive sua melhor fase da carreira na Juventus, a Bonucci, que teve seu nome envolvido no escândalo de apostas ilegais, mas não se abalou e faz ótima Euro. Ou Chiellini, que se lesionou antes e durante a Euro, mas se recuperou em tempo recorde nas duas oportunidades, para defender a seleção. Ainda há Buffon, que viveu o inferno da Serie B com a Juventus, em 2006-07, e passou por uma fase ruim, com inseguranças e lesões, entre 2008 e 2010. Gigi voltou a ser o grande goleiro que sempre foi, o maior da história italiana ao lado de Dino Zoff. Todos eles fizeram partidas muito boas contra a Alemanha, especialmente no segundo tempo.

O ataque, por sua vez, tem algumas das melhores histórias do time. A começar por Cassano, que driblou os problemas cardíacos e se recuperou da cirurgia corretiva a tempo de disputar a Euro, mesmo longe das suas melhores condições físicas. Se driblou os problemas cardíacos, poderia também driblar o ótimo zagueiro Hummels, um dos melhores em sua posição atualmente, para colocar na cabeça de Balotelli, no primeiro gol.

Balotelli, por sua vez, tem mais histórias do que o restante do time - este link do Estadão tem um bom resumo. Desmiolado, filho de imigrantes ganeses e adotado por uma família italiana, polêmico, jocoso, marrento, gênio... por que sempre ele? Hoje, Balotelli foi herói, "virou" linha de ônibus em Roma (veja aqui e aqui) e ainda pode chorar ao lado de suamãe adotiva, ao final do jogo. De quebra, estampou a capa dos maiores jornais italianos, mostrando que há, sim, negros italianos. E que eles podem ser importantíssimos para o país.

Balotelli fez dois golaços hoje, decidiu a partida e já é, ao lado de Cassano, Inzaghi, Casiraghi e Totti, o maior artilheiro da história da Nazionale em Euros - e, ao lado de Cristiano Ronaldo, Mandzukic, Dzagoev e Gómez, goleador desta edição, com três tentos. Fez apenas quatro gols pela seleção - todos bonitos e três deles decisivos. Se havia algum risco de que ele poderia colocar tudo a perder, por sua instabilidade, ele já parece distante. Ele, que costuma crescer nos momentos de dificuldade e maior pressão, tem a maior chance de sua carreira para ser protagonista.

Esta Itália, cheia de histórias, de superação e de curiosidades, pode gravar seu nome na história. Se não ganhar a Euro, ao menos já deu o recado: a seleção está de volta.

Notas
Buffon, 7,5 - Autor de grandes defesas durante o jogo, segurou o resultado. Mais uma vez, gigante
Balzaretti, 6,5 - Jogando fora de posição, fez mais uma partida sólida, mas desta vez com grande prestação defensiva
Barzagli, 7 -  Leão no centro da zaga, cortou todas que passaram perto de si
Bonucci, 7 - Seu carrinho perfeito sobre Klose foi seu ápice. Seguro no jogo
Chiellini, 6,5 - Um pouco abaixo dos companheiros, por questões físicas, não comprometeu. E participou do lance do primeiro gol
Marchisio, 6 - Ainda abaixo de todo o time, foi regular em seu papel, mas perdeu uma ótima chance de liquidar a fatura
Pirlo, 8 - Estratégico, geômetra, líder. Mais partida impecável do melhor jogador da Euro
De Rossi, 7,5 - Fundamental para a organização tática do time, mas também em subidas para o ataque
Montolivo, 7,5 - Melhor partida vestindo azzurro. Além de fazer bem sua função tática, deu um lançamento que valeu o ingresso para o segundo gol de Balotelli
Cassano, 7 - Belo drible e cruzamento perfeito para o primeiro gol, deitou e rolou sobre Hummels
Balotelli, 8,5 - Decisivo e devastador, com duas finalizações raivosas que deram a vitória à equipe
Diamanti, 6,5 - Mais uma vez, entrou bem no jogo, dando mobilidade à equipe e armando bons contra-ataques
Thiago Motta, 6 - Apareceu pouco, mas continuou executando bem as atribuições de marcação de Montolivo
Di Natale, 5 - Perdeu duas chances de matar o jogo, uma delas cara a cara com Neuer

Ficha técnica - Alemanha 1-2 Itália
Local: Estádio Nacional de Varsóvia, Polônia
Árbitro: Stéphane Lannoy, da França
Gols: Özil (46' 2T) e Balotelli (20' e 36' 1T)
Cartões amarelos: Hummels (Alemanha), De Rossi, Balotelli, Bonucci, Thiago Motta (Itália)

Alemanha: Neuer; Boateng (Müller 25’ 2T), Hummels, Badstuber, Lahm; Khedira, Schweinsteiger; Kroos, Özil, Podolski (Reus 1' 2T); Gómez (1' 2T). Técnico: Joachim Löw
Itália: Buffon; Balzaretti, Barzagli, Bonucci, Chiellini; Marchisio, Pirlo, De Rossi; Montolivo (Thiago Motta 18' 2T); Cassano (Diamanti 12’2T), Balotelli (Di Natale 24’2T). Técnico: Cesare Prandelli

segunda-feira, 25 de junho de 2012

No sufoco, de novo

Pirlo é cercado por três ingleses: de nada adiantou, o regista azzurro deitou e rolou em Kiev (Getty Images)
Se a classificação para as quartas de finais da Euro 2012 veio com muito suor e emoção, o embate contra os ingleses não foi diferente. Mas ao contrário do que foi apresentado frente aos irlandeses comandados pelo velho Giovanni Trapattoni, o time de Cesare Prandelli se comportou muito bem em campo nesse domingo na capital ucraniana, Kiev. O estilo de jogo, de muita posse de bola através de passes curtos, deu gosto de ver, apesar da falta de gols. A Itália teve 64% de posse de bola e trocou 815 passes. Andrea Pirlo, dono do jogo, deu 117 desses passes, além de correr mais de 15 quilômetros e não ter cometido uma falta sequer. De quebra, ainda foi decisivo nas penalidades.

Após 15 minutos de pressão sofrida e muitas deficiências apresentadas nas laterais e no trabalho do meio-campo, a equipe fez alguns ajustes e entrou de vez no jogo. Com um surpreendente Montolivo - com o mesmo posicionamento do período pré-Euro, sendo o “1” do 4-3-1-2, mas sem se caracterizar como trequartista, e muito mais como interno -, um motivado De Rossi novamente no meio-campo e um inspirado Pirlo, a Squadra Azzurra teve amplo domínio no setor, superando a estratégia de Roy Hodgson.

E com o domínio do meio-campo, logicamente as oportunidades de gol aumentaram. Por encontrar certa dificuldade em chegar tocando na área inglesa, Pirlo e seus companheiros logo perceberam a deficiência do English Team: o mau posicionamento da primeira linha do 4-4-1-1 de Hodgson. Com lançamentos seguidos de lançamentos, várias chances foram criadas pelos pés do camisa 21 italiano, e também por Montolivo e De Rossi. E essas chances foram desperdiçadas na mesma intensidade - sem contar com um ligado Hart na meta adversária.

Somente no primeiro tempo foram 10 finalizações, quase todas vindas dos pés de Balotelli e Cassano, que participaram muito bem do jogo, brigando com os zagueiros ingleses e se movimentando bastante, mas pecaram muito no momento crucial, o de marcar o gol - especialmente o atacante do Manchester City, mostrando certo preciosismo, como contra a Espanha. Mas a melhor chance surgiu logo no início, em um fabuloso chute com muito efeito, saído dos pés de De Rossi, que explodiu na trave de Hart. A Inglaterra respondeu logo depois, com sua melhor chance, mas a finalização de Johnson encontrou o corpo de Buffon, que se esticou como um gato para defender em dois tempos.

A segunda etapa começou no mesmo ritmo da primeira, com o time de Prandelli dominando o meio-campo e criando muitas oportunidades de gol, e desperdiçando todas. Passada a pressão italiana, a partida caiu de rendimento, mesmo com as mexidas de Hodgson (Walcott e Carroll entraram nos lugares de Milner e Welbeck), que por sua vez se preocupava mais em anular o meio-campo adversário que propriamente atacar, e quando o fazia, encontrava em Buffon, Barzagli e Bonucci - esse muito seguro -, um grande paredão bianconero.

Prandelli demorou a notar que seu time já não mais funcionava e somente nos minutos finais do tempo regulamentar tirou os exaustos De Rossi e Cassano, promovendo as entradas de Nocerino e Diamanti. No 4-3-2-1, ainda teve tempo para levar perigo à Hart, e claro, perder uma infinidade de gols. O 0 a 0 se manteve, e na prorrogação a Itália seguiu pressionando, pelo menos nos primeiros 15 minutos, explorando o cansaço inglês com Diamanti e Maggio (que entrou no lugar de Abate no finalzinho do tempo normal). Os dois jogavam pela direita, e o trequartista do Bologna novamente foi muito participativo - e mostrou-se digno até de titularidade.

Já nos 15 minutos restantes, poucas chances foram criadas, especialmente pelo cansaço de ambos os times, entretanto a Nazionale ainda tratou de perder três ótimas chances com Diamanti (2) e Montolivo, sem contar uma incrível sequência, na qual Hart defendeu um chute à queima-roupa de Balotelli e, no rebote, Montolivo, outra vez, colocou por cima do gol. A Itália também teve gol de Nocerino bem anulado pela arbitragem. Com isso, zero no placar, penalidades em Kiev.

Mario Balotelli abriu a contagem, batendo muito bem, diferentemente do que fez nos 120 minutos com a bola rolando, quando finalizou 10 vezes, sendo 4 com ótimas condições de marcar. Entre os ingleses, o líder e motor do time Steven Gerrard não fez diferente, vencendo Buffon. Na vez de Montolivo, claramente cansado, o novo regista do Milan bateu para fora. Wayne Rooney, na sequência, tratou de colocar seu time na frente.

Então foi a vez do grande personagem do jogo entrar em ação e mudar completamente o andar da disputa. De cavadinha, Andrea Pirlo teve calma e um “pouco” de loucura para esperar Hart cair e empatar. O feito de Pirlo - com tons de genialidade - pareceu ter mexido com os ingleses, que na sequência viram Ashley Young acertar o travessão e Antonio Nocerino converter sua penalidade, colocando a Azzurra em vantagem novamente. Na vez de outro Ashley, agora o Cole, Buffon, gigante, agarrou a cobrança do lateral blue. E para sacramentar e justificar a ótima atuação italiana, Alessandro Diamanti definiu.

Agora é contra a Alemanha, a invicta e fortíssima Nationalelf, em um dos maiores clássicos do futebol mundial. A tarefa não será fácil para o time de Prandelli, como nunca foi - mas também não será fácil para os germânicos, que nunca venceram a Nazionale em uma competição oficial. Acostumada a superar momentos de crises e calar a crítica, esse é o momento de a Itália reaparecer no cenário europeu. Para isso, o comandante italiano e seus comandados terão de fazer o que deixaram de fazer contra a Inglaterra: aproveitar as oportunidades e marcar gols. Ao menos, a sorte parece estar ao lado: foi apenas a terceira vez na história que a Itália venceu uma disputa de pênaltis - as outras duas foram na semifinal da Euro 2000, contra a Holanda, e na final da Copa do Mundo de 2006, contra a França.
Notas
Buffon, 8 - Gigante novamente, foi decisivo ao fazer uma defesa espetacular logo no começo do jogo e, claro, a defesa na última cobrança inglesa na disputa por pênaltis.
Abate, 5 - Mais do mesmo. Seguro na defesa, nulo no ataque, participando muito pouco das ações ofensivas.
Barzagli, 6 - Frente a uma Inglaterra pouco criativa, não teve problemas e manteve sua média de atuações seguras.
Bonucci, 7 - Surpreendendo a muitos, o beque bianconero foi muito bem quando exigido.
Balzaretti, 6,5 - Apesar da fraca temporada no Palermo, o terzino sinistro mais uma vez se sobressaiu no ataque. Mesmo cansado, ainda levou perigo no final. Entretanto, deu muito espaço nos minutos iniciais para Milner e Johnson.
Marchisio, 5 - Apático. Destoando das grandes exibições de seus parceiros de meio-campo, pouco fez, mesmo tendo espaço para atacar.
Pirlo, 9 - O grande craque da Itália na Euro mostrou grande exibição. Soube aproveitar muito bem o espaço que teve para executar seus sempre precisos passes e lançamentos. E ainda desequilibrou com uma cobrança magistral nas penalidades.
De Rossi, 8 - Outro que faz grande Euro até aqui. Foi essencial no combate pelo meio, com precisos desarmes e também auxiliou o ataque, chegando até mesmo acertar a trave logo no início.
Montolivo, 6,5 - Uma boa exibição com a bola rolando, surpreendendo, até, já que vinha mal com a camisa azzurra. Mas quase custou a classificação ao perder o pênalti.
Cassano, 6,5 - Mais um bom primeiro tempo, participando das jogadas com sua técnica, mas desperdiçou boas chances, e cansado, caiu no segundo tempo.
Balotelli, 6,5 - Poderia ter levado nota maior se não fossem seus lances de preciosismo, desperdiçando muitas chances. Muito participativo e abriu a contagem na disputa por pênaltis.
Maggio, 6 - Entrou já no final do jogo e conseguiu fazer mais que Abate, mas pouco ainda. Levou amarelo e está fora da semifinal.
Nocerino, 7 - Deu um novo gás ao meio-campo e ainda levou perigo numa de suas infiltrações, que por pouco não resultou em gol, sendo travado. Merecia uma vaga nos 11 com as fracas exibições de Marchisio.
Diamanti, 7,5 - Outro que faz por merecer uma vaga no time titular, colocando fogo no jogo ao entrar na segunda etapa. Definiu a classificação italiana às semifinais. 

Ficha técnica - Inglaterra 0-0 Itália; 2-4 nos pênaltis
Local: Estádio Olímpico de Kiev, Ucrânia
Árbitro: Pedro Proença, de Portugal
Gols/Penalidades: Balotelli (0-1), Gerrard (1-1), Rooney (2-1), Pirlo (2-2), Nocerino (2-3) e Diamanti (2-4)
Cartões amarelos: Barzagli e Maggio (Itália) 

Inglaterra: Hart; G. Johnson, Terry, Lescott, A. Cole; Milner (Walcott, 61’), Gerrard, Parker (Henderson, 94’), A. Young; Rooney; Welbeck (Carroll, 60’). Técnico: Roy Hodgson
Itália: Buffon; Abate (Maggio, 90’+1), Barzagli, Bonucci, Balzaretti; Marchisio, Pirlo, De Rossi (Nocerino, 80’); Montolivo; Cassano (Diamanti, 78’), Balotelli. Técnico: Cesare Prandelli

Jogadores: Juan Sebastián Verón

Verón passou dez anos na Europa e brilhou na Itália, principalmente com as camisas de Parma, Lazio e Inter (Getty Images)

Verón é um raros dos casos de jogador que soube se adaptar à idade. Com o tempo, deixou ser um jogador explosivo, que sempre aparecia na frente da área adversária para marcar gols e passou a jogar mais recuado, se utilizando de sua técnica para decidir as partidas com suas assistências e com a cadência do jogo. Na sua carreira, iniciada e concluída ontem, no Estudiantes de La Plata, sem dúvidas a passagem de sete anos pela Itália foi um capítulo especial na carreira de “La Brujita”, já que foi lá que ele conquistou o primeiro título na carreira e ganhou destaque mundial.

Filho de Juan Ramón Verón, “La Bruja” - daí vem seu apelido -, jogador campeão da Libertadores e do mundo pelo Estudiantes, no final da década de 60, Verón começou a trajetória no futebol pelo clube que consagrou seu pai. À época, o jovem meia ajudou a recolocar o time de La Plata na primeira divisão argentina e se transferiu para o gigante Boca Juniors, onde teve o prazer de dividir os gramados com Diego Maradona, em final de carreira.

Jogar no gigante sul-americano lhe levou à seleção e, indiretamente, o colocou na Itália. Pois foi logo após a estréia pela albiceleste que Sven-Goran Eriksson voltou seus olhos para “La Brujita” e o levou para a Sampdoria. À época, o clube contava com outros jogadores em situação semelhante à de Verón, ou seja, jovens com um futuro brilhante pela frente, como Clarence Seedorf e Ariel Ortega. Na temporada de estreia, o argentino fez cinco gols em 32 jogos e ajudou a equipe a conseguir um ótimo sexto lugar e uma vaga na Copa Uefa. No ano seguinte, balançou as redes apenas duas vezes, em uma temporada mediana da Samp, mas mesmo assim foi à França para disputar a Copa do Mundo como titular da albiceleste.

Após um Mundial em que sua Argentina parou nas quartas de final frente à Holanda, o meia se transferiu para o poderoso Parma, da Parmalat - em um mercado no qual a Samp desmanchava, anunciando a queda à Serie B no fim da temporada. Pelos gialloblù, o argentino levantou sua primeira taça continental: a Copa Uefa. Verón marcou um gol durante a campanha europeia e, na decisão contra o Olympique de Marseille, deu a assistência para o último do gol da partida, anotado por Enrico Chiesa. Além disso, os crociati venceram a Coppa Italia, competição na qual ele viu o compatriota Crespo decidir o título contra a Fiorentina de Gabriel Batistuta.

Primeiros títulos de Verón na Itália chegaram pelo Parma (AFP)
As conquistas valorizaram Verón, que logo se transferiu para a Lazio, por incríveis 18 milhões de libras, para ganhar o equivalente a 50 mil libras por semana. “La Brujita” honrou o dinheiro investido em seu futebol. Na temporada de estreia foram 31 jogos e oito gols – seis deles em bolas paradas, inclusive um gol olímpico em um 4 a 0 frente ao Verona. Verón ainda marcou um em uma difícil vitória por 2 a 1 no dérbi da capital, contra a Roma, na reta final do campeonato que acabou vencido pela própria Lazio.

Os aquilotti contavam com um grande time. Entre os nomes de destaque estavam Sinisa Mihajlovic, Roberto Sensini, Alessandro Nesta, Matías Almeyda, Diego Simeone, Pavel Nedved, Sergio Conceição, Iván de la Peña, Marcelo Salas, Simone Inzaghi e Fabrizio Ravanelli. Os oito gols de Verón ajudaram a guiar a Lazio ao scudetto e o meia, já jogando mais avançado, foi o vice-artilheiro laziale na conquista, ficando atrás apenas de Marcelo Salas. O Olímpico de Roma teve destaque na campanha biancocelesti: como mandante, o time capitolino não perdeu uma partida sequer. A Lazio ainda venceria a Coppa Italia (segunda em sua carreira) e, no início de 2000-01, confirmaria a breve hegemonia com o título da Supercoppa.

Durante o caminho para os títulos, “La Brujita” se envolveu em uma polêmica em torno da obtenção de seu passaporte italiano. Mas, mesmo com toda a confusão, o argentino não foi punido, já que realmente tinha descendência italiana. Apenas a sua agente Elena Tedaldi acabou sancionada, por forjar alguns documentos falso: ficou presa por 15 meses. Verón se manteve mais uma temporada na capital, ajudou a equipe a ser terceira colocada na Serie A e, mais uma vez, se classificar à Liga dos Campeões. Ao fim do ano, se transferiu para o Manchester United por quase 30 milhões de libras – à época, a transferência mais cara da história envolvendo um clube inglês.

Na Terra da Rainha, o argentino apenas flertou com o sucesso e, como coadjuvante, venceu um título inglês em 2002-03. No United, não encontrou muito espaço, mas fez uma boa Liga dos Campeões em 2002-03. A série de lesões no joelho direito - que o obrigariam a usar uma proteção no restante da carreira -, também não o fazia ter continuidade. Em 2003, transferiu-se por 15 milhões de libras ao Chelsea, onde teve desempenho ainda pior: “La Brujita” foi uma das primeiras contratações da era Abramovich, mas não alcançou o sucesso. A solução para Verón foi o retorno à Itália, agora por empréstimo e para jogar na Inter.

Em Milão, ele reencontrou o sucesso e voltou a ser campeão. Os nerazzurri viviam um jejum de sete anos sem títulos e com Verón jogando cinco das seis partidas da equipe na Coppa Italia, a Inter retomou o caminho das conquistas. A partir desta vitória, a Beneamata passou a dominar o futebol italiano, hegemonia que foi quebrada em 2010-11 pelo rival Milan. Verón, que ainda conquistou mais uma Coppa Italia pela equipe,  alcançando os quatro títulos do torneio, também fez parte do grupo que ficou com o título da Serie A 2005-06, depois do escândalo Calciopoli, que cassou o título da Juventus. Porém, a mais importante das 74 partidas e o mais decisivo dos 4 gols que fez em nerazzurro aconteceu na Supercoppa de 2005, quando, no 1 a 0 sobre a Juventus, ele deslocou Abbiati, após contra-ataque armado aos 5 minutos de acréscimos do segundo tempo.

Em um time cheio de argentinos, Verón chegou com experiência e função de líder (Interleaning)
Depois de duas temporadas em que reencontrou seu futebol, Verón decidiu retornar à Argentina. Fora do grupo da seleção nacional que jogou a Copa de 2006 - em 2002, ele havia sido considerado um dos responsáveis pela eliminação da albiceleste na fase de grupos do torneio, no chamado grupo da mort, que tinha ainda Inglaterra, Suécia e Nigéria -, o argentino já havia escolhido seu destino: o Estudiantes, para repetir as façanhas do pai. Aceitando a vontade do jogador, o Chelsea, que ainda detinha seu passe, não colocou barreiras para emprestá-lo ao time de La Plata por um ano, até que seu contrato acabasse.

Na Argentina, Verón voltou a ser gigante: venceu duas vezes o Torneio Apertura, conduziu o Estudiantes à final da Copa Sul-Americana em 2008 e venceu a Libertadores da América em 2009. Após levantar a taça do torneio continental como capitão, repetindo o feito de seu pai, Verón afirmou: “Eu trocaria tudo que conquistei por este título”. Jogando mais recuado, como maestro dos pincharratas e, praticamente, perfeito nos passes, “La Brujita” foi eleito pelo jornal uruguaio El País como o melhor futebolista do continente por duas vezes consecutivas: em 2008 e 2009. Verón ainda desbancou Lionel Messi em 2006 e 2009, sendo eleito melhor jogador argentino daqueles anos. Os bons jogos pelo Estudiantes garantiram a sua participação na Copa do Mundo de 2010, onde foi titular na maior parte do torneio e naufragou junto com a Argentina.

O amor de “La Brujita” pela equipe de La Plata ficou provado em 2009, quando renovou seu contrato para ganhar 40% menos – postura totalmente atípica para as estrelas do futebol atual. Sobre isso, o capitão dos pincharratas afirmou: “este dinheiro pode ser investido nos garotos, que mantêm o clube vivo”.

Recentemente, as lesões vinham incomodando ainda mais o craque, que decidiu se aposentar no fim de 2011. Porém, ele reconsiderou sua decisão e deixou o futebol aos 37 anos, ontem, após o final do Apertura de 2012, em partida contra o Unión. A emoção, no entanto, ficou reservada para a partida do fim de semana anterior, a última em La Plata, frente ao Olimpo: com placa e cantos da torcida, Verón mereceu a ovação por toda a sua vitoriosa carreira. 

Juan Sebastián Verón
Nascimento: 9 de março de 1975, em La Plata, Argentina
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Estudiantes (1993-1996, 2006-07 e 2007-final da carreira), Boca Juniors (1996), Sampdoria (1996-98), Parma (1998-99), Lazio (1999-01), Manchester United (2001-03), Chelsea (2003-04 e 2007), Internazionale (2004-06)
Títulos: Copa Uefa (1998-99), 4 Coppa Italia (1998-99, 1999-00, 2004-05 e 2005-06), Supercopa europeia (1999), 2 Serie A (1999-00 e 2005-06), 2 Supercoppa Italiana (2000 e 2005), Premier League (2002-03), 2 Apertura (2006 e 2010) e Copa Libertadores (2009)
Seleção argentina: 73 partidas e nove gols

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ufa!

Polêmico, Balotelli marcou o gol que definiu o 2 a 0 e a classificação italiana às quartas da Euro (Reuters)
A Itália fez sua pior partida na Euro, mas se classificou. Graças ao 2 a 0 em Poznan, sobre a Irlanda, e à vitória da Espanha contra a Croácia - com um magro 1 a 0 que saiu só nos minutos finais -, a equipe de Cesare Prandelli ficou com 5 pontos e a segunda posição no grupo - como se esperava. Na última rodada, a se destacar a desportividade da Espanha, que se classificaria com qualquer empate - inclusive o 2 a 2 que eliminaria a Itália e classificaria a Croácia -, e da Irlanda, que mesmo eliminada, jogou como se tivesse chances de seguir em frente. Agora, os italianos enfrentam o líder do grupo D, que sai amanhã. A anfitriã Ucrânia e as tradicionais Inglaterra e França são os possíveis adversários.

A má partida da Squadra Azzurra tem uma simples razão: Pirlo, termômetro da equipe, esteve muito mal. Com o time de volta ao 4-3-1-2 - mas com Thiago Motta jogando como trequartista -, a expectativa era a de que o regista da Juventus tivesse ainda mais proteção para trabalhar a bola com tranquilidade. Mas ele pareceu um pouco perdido, procurando jogo ora pelo lado esquerdo, ora pelo direito. Além disso, a Itália insistiu demais em jogadas pelo meio, setor no qual Giovanni Trapattoni tinha reforçado a marcação. Thiago Motta foi bem tecnicamente, errando pouquíssimos passes, mas não criou nenhuma jogada de perigo. 

No primeiro tempo, a única jogada perigosa da Itália surgiu em uma incursão pelo lado direito, quando Di Natale ganhou de Given e ia marcando o primeiro gol, caso St. Ledger não cortasse em cima da linha. Na sequência, o goleiro irlandês cedeu um escanteio bobo e, na cobrança, Cassano abriu o placar, com uma estranha cabeçada, que entrou por muito pouco.

Na segunda etapa, a Itália esteve mal. Ia se classificando como primeira do grupo, devido aos estranhos critérios de desempate adotados pela Uefa nesta Euro, mas não convencia. A Irlanda começava a ganhar campo e colocava tensão no jogo. Desatento, Pirlo quase complicou a vida da Nazionale ao perder duas bolas na entrada da área. Aos 37 minutos, Buffon defendeu uma bomba de Andrews e segurou o resultado. 

Desde as entradas de Diamanti e Balotelli (aos 18 e aos 28 minutos, respectivamente), a Itália havia melhorado um pouco. E, depois desta defesa de Buffon, passou oito minutos de tranquilidade. Até que o atacante do Manchester City completou, aos 45 minutos, uma cobrança de escanteio de Pirlo com uma bela puxeta e definiu o placar. Na hora do gol, ensaiou xingar alguém (racistas poloneses?), mas foi contido por Bonucci, que tapou sua boca - vide foto. 

Menos mal que ele marcou, mas a Itália segue apresentando problemas evidentes no ataque e na criação. Fruto de duas escolhas de Prandelli: primeiro, deixou Destro (único centroavante de ofício na pré-convocação) de fora da Euro - Di Natale, por mais que jogue assim na Udinese, tem um esquema voltado todo para si, diferentemente da Nazionale. O técnico ainda deu, até agora, poucos minutos a Diamanti, único trequartista puro na lista de jogadores que viajaram à Polônia. Nas quartas de final, quando é matar ou morrer, as escolhas podem pesar ainda mais.
 
Notas
Buffon, 7 - Correspondeu, quando exigido, e ainda fez defesa providencial em cobrança de falta de Andrews, quando a Irlanda crescia
Abate, 6 - Nenhum grande lampejo, mas a solidez de seus melhores dias no Milan
Barzagli, 6 - Pouco exigido, mas firme. Voltou bem da lesão, apesar de um pouco lento
Chiellini, 6 - Atento, controlou as ações de Doyle
Bonucci, 6 - Entrou na fase mais difícil do jogo para a Itália, mas não comprometeu
Balzaretti, 7 - Mais regular em campo, marcou bem e criou duas ótimas oportunidades no ataque. Deve ganhar a posição de Giaccherini no time titular
De Rossi, 6,5 - Fortíssimo na marcação, ajudou a Itália a conter o ímpeto irlandês no segundo tempo, quando a Nazionale caiu de produção
Pirlo, 5,5 - Desatento, pouco criativo. Errou muitos passes e perdeu duas bolas na entrada da área
Marchisio, 6,5 - Mais participativo que nos outros dois jogos, compensou a má partida de Pirlo
Thiago Motta, 5,5 - Fora de sua posição natural, não criou muito, apesar de ter acertado muitos passes. De volta à sua função a partir dos 18 do segundo tempo, sumiu
Cassano, 6 - Fora de ritmo, teve apenas dez minutos de bom futebol. Teve uma chance, marcou o primeiro gol e só
Diamanti, 6,5 - Habilidoso, entrou bem no jogo, dando dinâmica à equipe na frente. Merece mais chances
Di Natale, 5,5 - Sumido durante todo o jogo, teve só uma grande chance de gol, que St. Ledger cortou em cima da linha
Balotelli, 7 - Em sua melhor partida na Euro, segurou a bola na frente quando a Itália passava sufoco e ainda marcou um bonito gol

Ficha técnica - Itália 2-0 Irlanda
Local: Estádio Municipal de Poznan, Polônia
Árbitro: Cuneyt Çakir, da Turquia
Gols: Cassano (35’1T) e Balotelli (45’2T)
Cartões amarelos: Balzaretti, De Rossi (Itália), O’Shea, St Ledger, Andrews (Irlanda)
Cartão vermelho: Andrews (Irlanda)

Itália: Buffon; Abate, Barzagli, Chiellini (Bonucci 11' 2T), Balzaretti; Marchisio, Pirlo, De Rossi; Thiago Motta; Cassano (Diamanti 18’2T), Di Natale (Balotelli 29’2T). Técnico: Cesare Prandelli
Irlanda: Given; O’Shea, Dunne, St. Ledger, Ward; McGeady (Long 20’2T), Whelan, Andrews, Duff; Keane (Cox 40’ 2T), Doyle (Walters 31’2T). Técnico: Giovanni Trapattoni

Campeonato Primavera: os destaques

Inter fez muitos gols e se sagrou campeã do Campeonato Primavera (ForzaItalianFootball.com)
Se na Serie B os jovens se destacaram, alguns dos principais jogadores do principal campeonato das categorias de base na Itália, o Campeonato Primavera - que integra atletas entre 15 e 21 anos -, mostraram, mais uma vez, como vale a pena investir na base, ou seja, investir no futuro. E quem vem desfrutando desse investimento é a Internazionale, tão conhecida por contratar jogadores internacionais e revelar (e aproveitar) poucos valores nos últimos anos – com exceção a alguns, como Goran Pandev, Marco Andreolli, Leonardo Bonucci, Jonathan Biabiany, Davide Santon e Mario Balotelli.

Campeã da Copa Viareggio em 2011, da primeira edição da Champions League juvenil (NextGen Series), em 2012, e agora do Campionato Primavera 2011-12, a Inter vem tendo um destaque impressionante nas categoriais de base – e não só no sub-21, mas também no sub-19 e no sub-17 –, fruto da passagem de José Mourinho, que bancou a revitalização do setor juvenil interista e contou com o apoio de Massimo Moratti, motivado pela queda no orçamento e no temeroso Fair Play Financeiro da Uefa.

Para a temporada 2011-12, Ernesto Paolillo e Roberto Samaden, diretor-geral e diretor das divisões de base da Inter, apostaram no jovem e promissor Andrea Stramaccioni para substituir Fulvio Pea – que assumiu o Sassuolo – no comando do time Primavera. Credenciado pelo ótimo trabalho desenvolvido nos times Giovanissimi Nazionali e Allievi Nazionali da Roma, Stramaccioni não demorou a mostrar suas qualidades. Tendo como base o time campeão de Viareggio meses atrás, ele conseguiu adaptar os jogadores ao seu estilo. Revezando entre 4-3-3, 4-3-2-1 e 4-2-3-1 (de acordo com o adversário), o romano deu outra cara a equipe, tornando-a mais equilibrada e também com maior ímpeto ofensivo, valorizando a posse de bola, mas com a mesma objetividade e frieza do time de Pea.

Apesar disso, os verdadeiros destaques da fase de grupos foram os times romanos, que fizeram grande embate no Grupo C, ao centro e sul italiano, disputando quem mais massacrava os outros adversários. Roma e Lazio deitaram e rolaram no grupo que ainda tinha os bons Palermo (3º) e Reggina (6ª, não se classificando para a fase final). Com 70 e 62 pontos respectivamente, os times marcaram juntos 188 gols (95 e 93) em 52 partidas (26 cada), sofrendo apenas 43 tentos (23 e 20). No outro grupo, o A, do norte e noroeste do país, o destaque ficou para a Juventus, fazendo uma campanha regular, sem maiores sustos, e também muito efetiva no ataque (67 gols em 26 jogos). De volta ao Grupo B, ao norte e nordeste da Bota, sem maiores surpresas nos dois colocados, com a Inter levando vantagem sobre o Milan por ter vencido ambos os confrontos (como o time principal). As surpresas ficaram por conta de um crescente Varese – que também teve boa temporada no time principal pela Serie B, na qual perdeu para a Sampdoria na final do play-off na briga pela terceira vaga na Serie A 2011-12 – e da péssima campanha da Udinese, que ficou na nona colocação, decepcionando Giampaolo Pozzo, que costuma investir na base.

Vice-campeã, a Lazio mostrou talentos como o atacante Gonzalo Barreto (S.S. Lazio Brasil)
No play-off para decidir quais os times que participariam da fase final com Roma, Juventus, Inter, Lazio, Milan e Torino, o Palermo que havia batido o Napoli passou pelo Chievo e o Varese voltou a surpreender, batendo a sempre boa base da Fiorentina, após ter passado pelo AlbinoLeffe. Já na fase final, deu mais ou menos o óbvio: a Roma goleou o Varese (4 a 0), Lazio e Inter venceram Torino e Palermo respectivamente (2 a 1 e 2 a 0), enquanto o organizado Milan de Aldo Docetti passou pela Juventus de Spinazzola, Libertazzi, Bouy e dos irmãos  brasileiros Gabriel e Guilherme Appelt, vice-campeã da Coppa Italia Primavera e campeã da Copa Viareggio deste ano.

Toda a emoção ficou reservada para as semifinais e, claro, a grande final. Nas semifinais, aconteceriam nada menos que os dérbis da capital, entre Lazio e Roma, e o de Milão, entre Inter e Milan. No Derby della Capitale entre os garotos, uma partida bem equilibrada, com a Roma tendo o domínio da posse de bola e a Lazio buscando atacar com seu rápido, habilidoso e decisivo trio de ataque. E quem saiu vitorioso no confronto foram os objetivos laziale. Zampa, Emmanuel e Rozzi marcaram para o time da águia, enquanto Viviani marcou o único gol giallorosso. 3 a 1.

Assim como Roma-Lazio, o Derby della Madonnina juvenil foi muito equilibrado, com chances de gols para ambos os lados. A Inter tinha a posse de bola e encontrava certa facilidade para criar, mas não para finalizar. Enquanto o Milan procurava se fechar mais, mas sem abdicar do ataque, levando perigo nas eficientes transições ofensivas – futebol do time principal refletindo na base, cada qual com sua proposta de jogo. Venceu aquele que não se entregou nos minutos finais, que buscou a vitória no último minuto (literalmente, aos 32’ da prorrogação e 122’ do jogo), a Inter, que virou duas vezes, e fez 4 a 3, com direito a tripletta de Samuele Longo e gol do capitão Romanò. Já o Milan contou com uma doppietta do artilheiro Comi, e um belo chute de fora da área de Innocenti.

Longo marcou em todos os jogos importantes na temporada. De longe, o destaque da Inter (Getty Images)
Na final em Gubbio (assim como em toda a fase final), a Internazionale de Daniele Bernazzani – que substituiu Andrea Stramaccioni no comando do time Primavera – conseguiu ter controle maior sobre a organizada e bem distribuída Lazio de Alberto Bollini. Tinha o controle do meio-campo, consequentemente da posse e das principais chances criadas. Mas foi sob o comando do envolvente trio de ataque (Livaja, Longo e Garritano, esse que entrou ainda no primeiro tempo, no lugar do lesionado ítalo-brasileiro Daniel Bessa) que os gols da vitória por 3 a 2 saíram. Os três fizeram para os nerazzurri, enquanto Gonzalo Barreto e Onazi descontaram para os laziale.

Um Campeonato Primavera cheio de emoção, surpresa e bons valores. É justamente isso que se pede do futebol italiano, em um momento no qual busca revitalização e, com a perda de poder aquisitivo dos clubes, faz-se mais que necessário investir na formação. Os jogadores estão aí, para serem bem aproveitados – o que não quer dizer que devam corresponder de imediato, muito menos que se sobre muito, afinal são garotos de menos de 20 anos –, resta aos clubes, dirigentes e técnicos utilizá-los. 

A lição vale para a Internazionale, que perdeu a boa safra campeã em Viareggio (2008), e que já tem uma nova, tão promissora quanto. Com Andrea Stramaccioni de contrato novo e um Moratti mais cauteloso no mercado, espera-se que alguns jogadores já subam para o time principal, como são os casos de Raffaele Di Gennaro, Joseph Duncan, Lorenzo Crisetig, Marko Livaja e Samuele Longo, que treinaram várias vezes com o time principal desde que "Strama" substituiu Claudio Ranieri. Hoje, Longo está em copropriedade entre Inter e Genoa e ambas as equipes querem muito contar com ele para 2012-13. A situação indefinida está até gerando atritos entre as duas direções, que tem mantido ótimas relações desde o negócio que levou Thiago Motta e Milito à equipe de Appiano Gentile.

Mas não é só a campeã Inter que merece destaque. Pelo contrário. Lazio e Roma estão bem servidos no time Primavera, e com comandantes novos (Vladimir Petković e Zdeněk Zeman, respectivamente), estes jovens devem ganhar cada vez mais espaço, especialmente os romanos com Zeman, que fez excelente trabalho no Pescara na Serie B 2011-12. Petković já disse que pretende trabalhar no 3-4-3 (e por que não revezar com o 4-3-3, certo?), esquema que muito se assemelha ao 4-3-3 de Bollini

Já Zeman, como já é sabido, só trabalha no seu 4-3-3, apelidado de “Zemanlandia”. A equipe de Alberto De Rossi reveza entre 4-3-3 e 4-2-3-1, ou seja, não terá dificuldades em aproveitar alguns dos jogadores. O Milan também merece atenção especial, justamente agora que vários veteranos saíram, e outros ainda devem sair. O time de Aldo Docetti (no 4-3-1-2) lembra muito o time Allegri – e não é mera coincidência, já que Docetti foi recomendação do próprio treinador toscano –, tanto na parte tática, como na proposta de jogo. Outras equipes, como a Juventus, não devem dar espaço aos jovens no time principal por enquanto, já que o elenco é inchado, mas tem bom networking para fazer com que eles sejam emprestados para outras equipes, a fim de conquistarem espaço. Um espaço que os jovens estão fazendo por merecer no futebol italiano.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mais um drama italiano

Apesar do belo gol de Pirlo, a Itália não consegue superar a Croácia (Uefa.com)

De ânimo renovado. Assim chegou a Itália para o confronto contra a Croácia, após um bom empate no último jogo frente à Espanha. Porém, estatisticamente os italianos começavam em desvantagem contra os croatas, isso porque a única vitória em seis confrontos contra os eslavos aconteceu em 1942. Depois disso, vantagem do time xadrez, com três vitórias (uma na Copa do Mundo de 2002) e dois empates.

Cesare Prandeli resolveu manter a escalação do jogo ante a Espanha, com De Rossi na zaga. Porém, apesar do jogo croata não ser tão preciso quanto o espanhol, é de muito mais força física e jogada aérea, principalmente com Mandzukic, que marcou dois gols de cabeça no primeiro jogo. Mas, além de defender, nesse jogo a Itália precisava, acima de tudo, atacar. E desde os primeiros minutos foi assim. Balotelli foi o primeiro a tentar. A Nazionale pecava pela falta de finalização. Cassano teve duas oportunidades, mas preferiu não arriscar. Quando arriscou, perdeu boa oportunidade. Marchisio que havia ensaiado alguns chutes de fora da área perdeu a chance mais clara quando recebeu de Cassano, fintou Srna, mas parou, por duas vezes, no goleiro Pletikosa.

O gol da Itália parecia próximo. E chegou aos 39 minutos, quando Pirlo acertou uma espetacular cobrança de falta, colocando a Squadra Azzurra em vantagem. Mas no segundo tempo, o time italiano entrou apático para o jogo.  A Croácia se lançava mais ao ataque e arriscava principalmente em chutes de média distância. Balotelli foi um dos poucos que criou algo, em um chute perigoso. O atacante até jogava bem, apesar de atuar como primeiro atacante, um pouco fora de seu habitat natural.

Apesar de não ser incisiva, a Croácia chegou ao empate. Depois de cruzamento de Strinic, o zagueiro Chiellini falhou ao marcar a bola e errar seu tempo quando subiu de cabeça. Quem aproveitou foi Madzukic, que em sua única oportunidade conseguiu marcar seu terceiro gol na Euro-2012, igualando-se a Dzagoev e Gómez na artilharia.

A derrota poderia sacramentar a eliminação precoce da Itália, então, mesmo precisando da vitória, Prandeli resolveu não arriscar. A única boa chance foi em um chute, de fora da área, de Montolivo. Tal como na Eurocopa de 2004, a Nazionale chega à última rodada com dois pontos e precisando da vitória. Se naquela época a vitória não garantiu a vaga, já que Dinamarca e Suécia poderiam empatar por 2 a 2 para, juntas garantirem o domínio escandinavo no grupo - e assim o fizeram -, em 2012 o time novamente precisará cumprir sua missão.

Na última rodada, a Itália tem que derrotar a eliminada Irlanda, grande fiasco da competição até o momento, com a pior defesa, além de contar com a ajuda, dessa vez da Espanha, para vencer a Croácia, para avançar às quartas de finais. Um empate por 0 a 0 aliado a uma simples vitória italiana, também garante o time de Prandelli na próxima fase. Se o jogo acabar 1 a 1, a Itália precisa vencer por dois ou mais gols de diferença - nesse cenário, só não vale um 2 a 0.

A equipe azzurra deve ter a volta de Barzagli, que se lesionou na preparação para o europeu. Com sua volta, De Rossi deve voltar ao meio-campo, liberando um pouco Marchisio. No ataque, Cassano parece sem ritmo de jogo e talvez seja a hora de permitir que Giovinco jogue desde o início. Uma coisa é certa: os gols tem de aparecer.

Notas
Buffon, 6,5 – Seguro como sempre. Não teve muito trabalho, mas no lance do gol, pouco pode fazer.
Bonucci, 5,5 – Foi, dos zagueiros, quem mais teve trabalho com os atacantes croatas. Mesmo assim, conseguiu anulá-los.
De Rossi, 6 – Novamente como zagueiro deu conta do recado. Mas sua permanência na defesa começa a fazer falta no meio campo.
Chielinni, 5 – Vinha seguro no jogo, anulando os atacantes croatas, até falhar no tempo de bola do gol de Mandzukic.
Pirlo, 7 – Maestro do meio campo, novamente ficou sobrecarregado na armação. Marcou um belo gol de falta.
Thiago Motta, 6,5 – Surpreendendo a muitos, controlou o meio campo e ajudou Pirlo na marcação. Saiu após levar uma pancada na cabeça.
Marchisio 5,5 – Ainda tímido na competição. O papel de protagonista ainda pesa. Teve boa chance no primeiro tempo mas parou em Pletikosa.
Maggio, 5 – Novamente se concentrou mais em marcar do que atacar. Fez uma partida regular.
Giaccherini, 6 – Mais incisivo que Maggio, conseguiu armar algumas jogadas pela esquerda e ao mesmo tempo não deixou Rakitic armar o jogo.
Cassano, 5,5 – Ainda sem ritmo de jogo, pecou em duas oportunidades ao não chutar em gol. Foi mais disperso do que no primeiro jogo.
Balotelli, 5,5 – Novamente apagado no jogo, mas ainda assim teve uma boa chance no começo do jogo. Saiu para dar lugar à Di Natale no segundo tempo.
Montolivo, 5 – Entrou mais como marcador do que como armador, fugindo à sua característica de jogo
Di Natale, 5 – Não brilhou como no último jogo. Foi discreto.
Giovinco, sem nota – Entrou já no final e pouco fez.

Ficha técnica: Itália 1-1 Croácia

Local: Estádio Municipal de Poznan, Polônia
Arbitragem: Howard Webb (Inglaterra)
Itália: Buffon; Bonucci, De Rossi, Chiellini; Maggio, Motta (18’ 2T Montolivo), Pirlo, Marchisio, Giaccherini; Cassano (38' 2T Giovinco), Balotelli (24' 2T Di Natale). Técnico: Cesare Prandelli.

Croácia: Pletikosa; Srna, Corluka, Schildenfeld, Strinic; Vukovejic, Modric, Rakitic, Perisic (23’ 2T Pranjic); Mandzukic (45’ 2T Kranjcar), Jelavic (38’ 2T Eduardo da Silva). Técnico: Slaven Bilic

terça-feira, 12 de junho de 2012

As emoções finais da Lega Pro

Os últimos 90 minutos dos play-offs da Lega Pro definiram os destinos felizes e tristes de oito equipes. Na Prima Divisione, Pro Vercelli e Virtus Lanciano fizeram história - cada um por seus motivos - e abandonaram as "profundezas" do futebol italiano para viver dias de mais esperança na Serie B. Já Cuneo e Paganese saíram da semi-amadora Seconda Divisione e, a partir da próxima temporada, vão sonhar com a segunda divisão propriamente dita. 

Sorrisos também em Mantova, onde a equipe da casa livrou-se da Serie D às custas da Vibonese, e em Cosenza, com a Nuova Cosenza que venceu os play-offs nacionais da Serie D e conquistou a prioridade em uma eventual (e possível) lista de repescagens apara 2012-13. Acompanhe:

 Pro Vercelli se reencontra com a Serie B após 64 anos (fcprovercelli.it)

Prima Divisione - Grupo A: Carpi 1x3 Pro Vercelli (ída: 1x1)
Acabou a penitência: após mais de seis décadas de trânsito entre a terceira, quarta, e até quinta Divisões, os torcedores da Pro Vercelli poderão exibir os sete scudetti do seu clube, pelo menos, na Serie B. A vaga foi confirmada no estádio Braglia, em Modena, onde o Carpi a exemplo da segunda semifinal com o Sorrento, voltou a se entregar: saiu na frente logo no primeiro minuto, com Ferretti, para ser alcançada por Modolo, 120 segundos depois, e, mortificada na segunda etapa, com os gols de Iemello e Malatesta - os mais importantes da história vercellese no pós-II Guerra.

 "B" de bem-vindo: em 2012-13, Lanciano verá a Virtus na Serie B pela primeira vez (tuttolegapro.com) 

Prima Divisione - Grupo B: Trapani 1x3 Virtus Lanciano (ída: 1x1) 
Em Trapani, na Sicília, sonhou-se em vão. Primeiro na temporada regular, quando a equipe perdeu a promoção direta para o Spezia nas rodada finais. E agora nos play-offs, em que os granata, mesmo em vantagem numérica desde os dez minutos de jogo, foram superados por uma Virtus Lanciano que beirou a perfeição tática e, de virada (Pavoletti, Sarno e Margarita responderam ao gol de Gambino), escreveu uma página inédita no futebol do Abruzzo: pela primeira vez, a província de Chieti terá um representante na Serie B.

 Fim da espera: 64 anos depois, Cuneo reconquista a Terceira Divisão (tuttolegapro.com)  

Seconda Divisione - Grupo A: Cuneo 5-2 Virtus Entella (ída: 1x1)
Em Cuneo, os gols de Varricchio (duas vezes), Carretto, Fantini e Cristini transformaram a final contra a Virtus Entella numa mera formalidade para o time da casa, coroando o brilhante retorno do clube ao profissionalismo com uma vaga na Prima Divisione - categoria que faltava à cidade desde a temporada 1947-48. Pelo lados da Entella, decepção pela oportunidade perdia, mas nenhum abatimento: a decisão do acesso confirma a evolução do clube, que, no último ano, já havia festejado o título do campeonato nacional de juniores Dante Berretti.

 De saída: torcedores da Paganese festejam a volta à Prima Divisione um ano após a queda (La Città di Salerno)

Seconda Divisione - Grupo B: Chieti 0-0 Paganese (ída: 0x2)
Na província de Chieti, no Abruzzo, a festa de Lanciano não chegou até a capital: o Chieti pagou pelos 2 a 0 sofridos no jogo ída, em Pagani e, mesmo jogando com um homem a mais desde os 36 minutos do primeiro tempo, não conseguiu furar o bloqueio da Paganese, que conquista um merecido retorno à Prima Divisione após o rebaixamento na última temporada. Para a equipe neroverde, que chegou perto de coroar sua reconstrução após a falência de 2006, resta a certezaa de que o projeto dos últimos 12 meses, que trouxe muitos jovens talentosos à cidade, deve ser continuado - além da esperança de uma eventual repescagem.

 Uma alegria: em temporada difícil, Mantova celebra a permanência na Seconda Divisione (Gazzetta di Mantova) 

Seconda Divisione A e B - Play-out Final: Mantova 4-0 Vibonese (0x0)
Reestreante no profissionalismo, o Mantova precisou de 42 jogos para não retornar ao amadorismo. E só conseguiu nos últimos 90 minutos. Menos mal para a torcida virgiliana, que, pela primeira vez no ano, sentiu o gosto de ver seu time dar espetáculo: quatro gols, com outras tantas ações ofensivas e defesa quase inoperante (não foi preciso). Pior para a Vibonese, que se reencontra com a Serie D após um ciclo de seis anos na Seconda Divisione.

 Nuova Cosenza vence os play-offs da Serie D - e torce para que o "C" da camisa se torne realidade (nuovacosenza.com)

Serie D - Play-off Final: SanDonà Jesolo 2x3 Nuova Cosenza
Após complicados processos de falência e refundação, os torcedores da Nuova Cosenza (o bom e velho Cosenza) têm um motivo para sorrir e olhar o futuro com esperança: a conquista dos play-offs nacionais da Serie D, que dará ao clube prioridade em caso de repescagem à Seconda Divisione. O triunfo aconteceu no estádio municipal de Arezzo, e tem seu quê de histórico, já que a formação cosentina perdia por 2a 0 ante os veroneses do SanDonà Jesolo e conseguiram a virada com um gol no último lance da partida - para a alegria dos mais de mil torcedores presentes.

Temporada feminina acaba de forma(s) histórica(s)

Torres tricampeã italiana e soberana no quadro de conquistas da Serie A; Brescia campeão pela primeira vez, na Coppa Italia; e Mozzecane, Pordenone, Grifo Perugia, Napoli e Siena promovidos à elite: estes são os vereditos definitivos do futebol feminino na Itália em 2011-12.

Uma lenda: Torres conquista seu primeiro tricampeonato e se torna a maior campeã da Serie A (Facebook Torres Calcio Femminile) 


Serie A
Pelos lados de Sassari, a alegria pela promoção da equipe masculina à Serie D uniu-se ao orgulho por mais um título da Torres. Novamente, as meninas confirmaram sua superioridade - sobretudo nos confrontos diretos, em que golearam as concorrentes Brescia e Verona fora de casa - e fizeram história ao conquistar seu primeiro tricampeonato e sexto scudetto, que colocam o clube no topo dos mais vitoriosos de todos os tempos. 

Festa também para as garotas de Verona, que estão de volta à Champions League, após uma temporada de ausência, e em Venezia, com as lagunare salvas do rebaixamento após o play-out contra a multi-titulada Lazio; as biancocelesti vão para a Serie A2 em companhia do Milan (quatro vezes campeão) e da arquirrival Roma (vencedora em 1969), rebaixadas vergonhosa e diretamente. 

Classificação Final: Torres (66 pontos), Verona (64), Tavagnacco (62), Brescia (58), Mozzanica (43), Torino (40), Chiasellis (35), Como 2000 (29), Firenze (26), Riviera di Romanga (24), Venezia (23), Lazio (22), Milan (12) e Roma (9).


A copa das leoas: meninas do Brescia presenteiam a cidade com sua primeira taça de elite (bresciafemminile.it)


Coppa Italia
A partir de agora, em Brescia, são os homens que devem lutar para se igualarem as mulheres - e não falamos apenas de um retorno à Serie A: as meninas conquistaram a Coppa Italia feminina, o primeiro título de cidade na elite do futebol italiano. Na decisão, a formação leonessa enfrentou o surpreendente Napoli, campeão do Grupo D da Serie A2 (e que eliminara nada menos que a Torres nas semifinais), numa partida cheia de alternativas. No final, após os 2 a 2 do tempo regulamentar, um gol aos 7 minutos da prorrogação deu ao Brescia o direito de costurar o centrino em sua camisa.


   Siena vence os play-offs e será um dos muitos debutantes da próxima Serie A (sienafree.it)

Novas integrantes 
Além das já citadas meninas do Napoli, a Serie A 2012-13 também contará com Mozzecane (campeã do Grupo A), Pordenone (B), Grifo Perugia (C) e Siena, que derrotou o Fiammamonza (campeão de 2005-06) nos play-offs. Com exceção do Mozze - que reeditará um sentido derby contra o Verona - todas os outros clubes chegam à elite pela primeira vez.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Serie B: A força dos Golfinhos

Pescara, de Verratti, Insigne e Immobile, conseguiu acesso à Serie A após 20 anos de ausência, com futebol ofensivo e baseado nos jovens (Getty Images)

Após estar entregue às dívidas em 2008 e ter sido refundado em 2009, como Delfino Pescara 1936, o time do Abruzzo está de volta a Serie A. A equipe da cidade localizada às margens do Mar Adriático – nome do estádio pelo qual sedia seus jogos – mostrou grande poder de recuperação e retorna à elite depois de 20 anos fora de ausência.
A diretoria bancou e Zdenek Zeman mostrou o resultado em campo. Apostando na juventude e no futebol ofensivo, características de seu trabalho, Zeman e seu insano 4-3-3 (ou simplesmente “Zemanlandia”) mais uma vez abrilhantaram os campos italianos com goleadas, o que refletiu nas estatísticas de seu time. Em 42 jogos, foram incríveis 90 gols marcados, nenhum 0 a 0 e apenas três partidas em que não marcou um golzinho sequer. Algo inimaginável no futebol do país que é, para muitos – erroneamente –, considerado “retranqueiro”. Mas a estratégia ofensiva de Zeman também teve seus problemas: foram 55 gols levados, muitos sustos e também derrotas. Apesar disso tudo, o time mostrou garra, determinação e qualidade para se recuperar nas últimas rodadas e alcançar a glória máxima: o título da segundona.
E se o título foi para a equipe do centro da Itália, o Torino teve uma parcela de “culpa”. Com uma campanha regular, o time de Gian Piero Ventura vacilou em momentos cruciais, esses que, se aproveitados, poderiam ter garantido o título e a classificação com maior tranquilidade. Mas nada que tire os méritos da equipe grená, que, após três anos na segunda divisão, voltou para o seu devido lugar: a elite. Ao contrário do insano Zeman, Ventura procurou montar um time mais equilibrado e seguro na defesa, mas com a mesma objetividade do Pescara, o que também é refletido nos números. Foram apenas 28 gols sofridos em 42 jogos, sendo 57 tentos a favor. O 4-4-2 também foi um fator importante, já que as duas linhas de quatro ajudavam na compactação do time sem a bola e facilitavam na rápida transição ofensiva.

Sampdoria, de Gastaldello, nem demorou na segundona: mostrou força na segunda parte do campeonato e nos play-offs para retornar imediatamente à elite (Il Secolo XIX)
Na briga pela terceira vaga, o surpreendente Sassuolo de Fulvio Pea, ex-treinador da equipe Primavera da Internazionale, fazia parecido ao Toro. Com um 3-5-2, Pea conseguiu fazer o mesmo que Ventura, dando equilíbrio ao time, mas com objetividade nas ações ofensivas. Apenas três pontos atrás dos dois colocados, o mais “justo” seria que o time conseguisse a inédita promoção para a Serie A – vale lembrar que esta foi apenas a quinta participação do time neroverdi na Serie B –, mas a inexperiência pesou nos play-offs. Caiu para uma Sampdoria que mostrou poder de recuperação na segunda metade da temporada, conseguindo a improvável classificação para a disputa pela terceira vaga na elite. 
Na outra chave dos play-offs, outra equipe também tropeçou em suas próprias pernas. No caso, ao invés da inexperiência, o Hellas Verona sucumbiu à fragilidade defensiva somada à dificuldade em jogar fora de casa. O ex-líbero interista Andrea Mandorlini montou uma equipe distribuída no 4-3-3 com triângulo de base alta, que sabia muito bem aproveitar as facilidades criadas pelo esquema, como a criação de “sociedades”, facilitando a troca de passes por meio das triangulações. Talvez tenha sido a equipe com um futebol mais “vistoso” na Serie B, mas que falhou quando não podia - os gialloblù chegaram até mesmo a liderar o campeonato, mas perderam pontos em momentos importantes. A equipe, que havia subido para a Serie B nesta temporada, acabou cedendo para o organizado Varese de Rolando Maran, montado de forma bem semelhante ao Torino de Ventura.
Na final dos play-offs, Sampdoria e Varese protagonizaram dois jogos emocionantes, mas que evidenciaram a força da velha Samp. Esquematizada no 4-3-1-2 de Giuseppe Iachini, que deu outra cara aos blucerchiati, foi na bola parada (com seu capitão Gastaldello sendo decisivo, em duas cabeçadas) e no oportunismo de Pozzi que o time da Ligúria conseguiu a promoção após uma temporada para se esquecer em 2010-11.

Confira os diagramas táticos das equipes que ficaram na ponta da tabela
Na parte de baixo...
Na briga para evitar a despromoção, pouca surpresa entre os três que acabaram caindo após as 42 rodadas: a até então novata Nocerina acabou com 40 pontos e volta para a Lega Pro Prima Divisione juntamente com Gubbio (outro que havia recentemente voltado para a Serie B) e o lanterninha AlbinoLeffe, com 32 e 30 pontos respectivamente. No play-outs, o Empoli superou o Vicenza
de forma heróica, com gol aos 94, marcado pelo carequinha Maccarone, mantendo-se na segunda divisão. Pouco antes, Paolucci havia desperdiçado um pênalti, que poderia deixar os vênetos em situação confortável, já que a partida de ida havia terminado empatada em 0 a 0.
Enquanto isso, na Lega Pro Prima Divisione, Ternana e Spezia garantiram um lugar na próxima Serie B, quando ambos alcançaram a primeira colocação nos grupos A e B, respectivamente. O primeiro não disputava a segunda divisão italiana desde a temporada 2005-06, enquanto o segundo, após enfrentar inúmeros problemas administrativos e financeiros, volta depois de participar em 2006-07. Nos play-offs, o sete vezes campeão da Serie A, Pro Vercelli, garantiu sua volta a segundona após 64 anos juntamente com o novato Virtus Lanciano, do Abruzzo.
A Serie B 2011-12 certamente superou as expectativas quanto ao que foi apresentado em campo, e também mostrou que é capaz de se vencer apostando no futuro, sem esquecer-se do passado. A nova safra de jogadores italianos é boa e não pode ser desprezada como outras gerações. 

domingo, 10 de junho de 2012

A vitória tática de Prandelli

De Rossi, atuando como zagueiro, foi perfeito no primeiro tempo, mas pecou no segundo. Mesmo assim, foi um dos trunfos da vitória tática de Prandelli sobre Del Bosque neste domingo (Getty Images)
Depois de um péssimo resultado no amistoso contra a Rússia, o que preocupava a Itália na estreia na Euro 2012 frente a Espanha, atual campeã europeia e mundial, era a defesa que preocupava o técnico Cesare Prandelli. Barzagli, machucado, não poderia jogar e, sem por isso, o técnico preferiu dar espaço a um esquema com três zagueiros, com o qual Bonucci e Chiellini já estavam acostumados, promovendo o recuo de De Rossi à defesa. Na Roma, ele já havia executado a função de líbero algumas vezes. 

A ideia tática de Prandelli também privilegiaria os alas Maggio e Giaccherini, que em Napoli e Juventus, também jogam em um esquema com três zagueiros. No centro do meio-campo, Pirlo e Marchisio eram outros habituados ao sistema. A resposta de Vicente Del Bosque foi simples: escalou Fàbregas como um "falso nove" Fàbregas, em um 4-3-3, com liberdade de movimentação, para obrigar De Rossi a sair mais da área. 

A tática da seleção vermelha não deu certo: a Espanha atacava, mas sem chutes. Penteava a bola na entrada da área e via a zaga italiana impecável em posicionamento, estabelecendo situações de maioridade numérica que facilitavam os cortes. De acordo com tweet da revista inglesa Four Four Two, todas as 13 tentativas de desarme italianas na primeira etapa deram certo. À Fúria fez falta a referência de ataque, que nos últimos anos foi Villa, para ultrapassar a barreira azzurra.

Na Itália, a criação foi dividida por Pirlo e por Cassano, que voltava bastante para buscar jogo - a participação dos dois fez com que em momentos do jogo a posse de bola fosse de 50% para cada seleção. Marchisio, por sua vez, esteve sumido, se apresentando pouco para o jogo e mais preocupado em interceptar. As melhores chances italianas no primeiro tempo surgiram justamente com Fantantonio, em dois chutes perigosos: um para fora e outro defendido por Casillas. Mas a melhor chance azzurra aconteceu no último minuto do primeiro tempo, com uma cabeçada de Thiago Motta.

No segundo tempo, a Espanha voltou um pouco melhor. Tanto é que a primeira ótima chance após o intervalo foi roja: Iniesta avançou pela esquerda e chutou perigosamente, obrigando Buffon a fazer defesa providencial. Logo depois, Balotelli foi esperto ao roubar bola de Sergio Ramos, mas demorou demais para decidir se passava para Cassano ou se chutava para o gol e permitiu a recuperação do lateral madridista. Prandelli não gostou e logo o substituiu por Di Natale. O atacante da Udinese, que não tem tanta história na seleção, acabou fazendo seu gol mais importante pela Nazionale poucos minutos depois. Ele, que havia perdido pênalti contra a Espanha, na Euro 2008, se redimiu: se movimentando na linha dos zagueiros, sem entrar em impedimento, recebeu passe magistral de Pirlo e girou para marcar, tornando-se, aos 34 anos, o quarto mais velho a fazer um gol na Euro, atrás de Ivica Vastic (38), Jan Koller (35) e Christian Panucci (35).

A Espanha respondeu em seguida, com Fàbregas. Chiellini saiu para marcar e De Rossi não ficou na sobra, abrindo espaço para o barcelonista receber ótimo passe de Silva. Giaccherini não conseguiu acompanhá-lo no movimento para o buraco deixado pelo vice-capitão da Roma, que falharia pela primeira vez no jogo, após fazer partida impecável. Depois, a Espanha cresceu no jogo. Silva e Fàbregas saíram para as entradas de Navas e Torres, o que provocou certa confusão no sistema defensivo italiano. Giaccherini, exausto, tinha dificuldades de conter o jogador do Sevilla, enquanto, curiosamente, Torres começou a obrigar De Rossi a se movimentar mais. 

Em duas jogadas do atacante do Chelsea, De Rossi deixou sua posição e a Esoanha quase virou. Na primeira, Buffon precisou dar uma de zagueirou: Itália errou linha de impedimento, com De Rossi, e Torres ia saindo na cara do gol, obrigando o capitão a deixar o gol e, com os pés, mandar para lateral. Aos 40, De Rossi saiu mal no combate, deixando Torres livre. Porém ele tentou encobrir Buffon e colocou para fora. Antes, a Itália quase marcou, outra vez com Di Natale.Giovinco - que havia substituído Cassano - descolou lindo lançamento para Di Natale, que pegou mal no voleio e mandou para fora. Aos 43, Marchisio tabelou bem com Thiago Motta, mas chutou fraco.

No fim das contas, a Itália sai fortalecida do confronto, apesar do empate, com a vitória tática de Prandelli sobre Del Bosque. O resultado mostra ainda que o técnico da Nazionale pode apostar mais vezes neste esquema, com três zagueiros, ao invés de tentar um esquema com três atacantes, que se mostrou exposto demais, na derrota contra a Rússia, ou o improdutivo 4-3-1-2, que não deu certo quando Montolivo foi o trequartista, pela dificuldade de criação de jogadas e de marcar gols. As dúvidas agora são no ataque, setor no qual Balotelli parece ameaçado, pela displicência, sobretudo em comparação à eficiência de Di Natale. Já Cassano jogou bem, mas Giovinco parece mais inteiro.

Notas
Buffon, 7 - Seguro no gol, fez uma defesa importante e ainda evitou gol de Torres agindo como zagueiro
Bonucci, 6,5 - Mais seguro que de costume, concedeu pouco e só começou a ter trabalho quando Torres entrou em campo
De Rossi, 6,5 - Impecável no primeiro tempo, cometeu três erros no segundo; um deles originou o gol espanhol
Chiellini, 6,5 - A entrada de Navas e a exaustão de Giaccherini o obrigaram a se expor demais, mas foi bem
Maggio, 6 - Ficou muito preso à marcação de Iniesta, perdeu o duelo para o meia do Barcelona e compunha setor mais vulnerável da equipe
Thiago Motta, 6 - Chegou bem ao ataque, mas teve dificuldade em coibir a centralização de jogadas espanhola
Pirlo, 7 - Termômetro da Itália, fez um jogo apenas regular, mas deu passe magistral para o gol
Marchisio, 5,5 - Apagado desde o fim da temporada, precisa acordar para que a Itália sonhe mais alto; marcou bem, mas contribuiu pouco ofensivamente
Giaccherini, 6 - Estreia regular do meia juventino pela seleção, com sacrifício pela equipe
Balotelli, 5 - Começou jogando bem, mas foi muito displicente ao perder ótima chance no segundo tempo
Cassano, 6 - Mesmo aparentemente fora de forma, se doou pela equipe no primeiro tempo, criando boas jogadas
Nocerino, sem nota - Entrou faltando apenas três minutos
Giovinco, 6 - Quando entrou, Itália levava sufoco, mas mesmo assim arranjou primoroso passe que poderia ter terminado em gol de Di Natale
Di Natale, 7 - Dois toques na bola, um gol e um voleio perigoso, mas para fora: eficiente

Ficha técnica: Espanha 1-1 Itália
Local: PGE Arena Gdansk, Polônia
Arbitragem:Vikot Kassai (Hungria)
Espanha: Casillas; Arbeloa, Piqué, Sergio Ramos, Jordi Alba; Xavi, Busquets, Xabi Alonso; Silva (20' 2T Navas), Fàbregas (28' 2T Torres), Iniesta. Técnico: Vicente Del Bosque.
Itália: Buffon; Bonucci, De Rossi, Chiellini; Maggio, Motta (44' 2T Nocerino), Pirlo, Marchisio, Giaccherini; Cassano (20' 2T Giovinco), Balotelli (11' 2T Di Natale). Técnico: Cesare Prandelli.