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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Jogadores: Karl-Heinz Schnellinger

Na Copa de 70, Rivera (esq.) e Schnellinger (dir.) estiveram em lados opostos, mas, no Milan, o italiano e o alemão eram dois dos principais jogadores do time (Badische-Zeitung)
Karl-Heinz Schnellinger viveu o auge da carreira na Itália e se tornou ídolo do Milan nos nove anos em que defendeu o clube. A idolatria se deveu ao grande desempenho defensivo do alemão, que era conhecido por ser muito versátil e aliar bem técnica e força. As qualidades físicas lhe renderam o apelido de “panzer”. Porém, ele ficou mesmo conhecido como “Volkswagen”, pois, com ele, a equipe poderia contar com bom desempenho sempre.

Nascido na cidade de Düren, próximo a Colônia, Schnellinger ingressou no clube local aos dez anos e, a partir daí, começou a se desenvolver como defensor e o lado esquerdo já era o preferido. As coisas ocorreram rápido na carreira do “Volkswagen”, ao ser promovido ao time principal do Düren, ele recebeu um chamado para representar um selecionado amador da Alemanha. O desempenho agradou ao comandante Helmut Schön, que era o assistente do treinador do elenco principal, Sepp Herberger. A troca de informações entre os dois resultou na convocação de Schnellinger à Nationalmannschaft em 1958 e também na presença do lateral-esquerdo na Copa do Mundo de 1958.

Junto com o primeiro Mundial pela Alemanha, em que jogou pouco, veio a profissionalização através da transferência para o maior clube da região, o Köln. Nos bodes, após um primeiro ano em que ficou em segundo lugar no campeonato regional, Schnellinger ajudou o clube a vencer quatro vezes consecutivas o torneio e, desta forma, colocou o Köln na disputa pelo título nacional. Porém, a conquista só foi alcançada uma vez, em 1962. Na fase final do campeonato, os bodes enfrentaram Hamburgo, Eintracht Frankfurt e FK Pirmasens, sofrendo apenas um gol. Na decisão, venceram o Nürnberg por 4 a 0. O bom desempenho defensivo teve “Volkswagen” como destaque e, por isso, ele foi eleito o futebolista alemão do ano de 1962.

Porta de entrada de Schnellinger na Itália foi o Mantova (Wikipedia)
Ao final da temporada, havia mais uma Copa do Mundo para disputar. Desta vez, Schnellinger foi titular da seleção alemã que parou frente à Iugoslávia nas quartas de final do Mundial de 1962. Na temporada 1962-63, o Köln chegou mais uma vez à final da liga alemã, mas foi derrotado por 3 a 1 (naquele jogo, Schnellinger marcou um dos raros gols de sua carreira) pelo Borussia Dortmund na decisão. Os bons desempenhos lhe renderam uma transferência para a Roma, porém, a primeira passagem na capital italiana foi rápida e ele logo foi emprestado ao Mantova, em uma troca que envolveu outros dois jogadores giallorossi pelo ítalo-brasileiro Angelo Sormani.

No clube da Lombardia, o alemão impressionou e, por isso, retornou aos giallorossi, onde ficou uma temporada e seguiu mostrando qualidades. O alto nível do futebol apresentado rendeu o interesse do Milan, que o contratou em 1965 para fazer parte de um esquadrão rossonero, que tinha Gianni Rivera como grande estrela. Junto de Schnellinger desembarcaram em Milão, Sormani e Antonio Angelillo, porém, apenas o primeiro teve sucesso semelhante ao do alemão com a camisa do Diavolo.

Antes de começar a colecionar taças no Milan, o jogador alemão teve um primeiro ano sem conquistas. Individualmente, porém, o “Volkswagen” conquistou o direito de disputar sua terceira Copa do Mundo consecutiva. Em 1966, com um time baseado na grande linha defensiva, a Alemanha sofreu apenas dois gols até chegar à final. Na decisão frente à dona da casa Inglaterra, 2 a 2 no tempo normal. Na prorrogação houve o famoso gol de Hurst, em que a bola não cruzou a linha em Wembley, mas foi confirmado pela arbitragem. No final, 4 a 2 para a Inglaterra e o defensor milanista voltava à Itália como vice-campeão do mundo.

Em nove anos de Milan, o alemão foi sinônimo de alto rendimento (Calcio Magazine)
Nos primeiros dois anos pós-Copa, Schnellinger conquistou os torneios nacionais: Coppa Italia, em 1966-67 e a Serie A, em 1967-68. Porém, o melhor ficou para a temporada de 1968-69. No Campeonato Italiano o scudetto não veio, mas o desempenho defensivo milanista foi impressionante: apenas 12 gols sofridos em 30 partidas.

Na Copa dos Campeões, o Milan passou por cima de grandes adversários, como o Celtic e o Manchester United. Na final, os rossoneri despacharam o Ajax de Cruyff, por 4 a 1, com uma tripletta de Pierino Prati. Para completar o ótimo ano, em um confronto muito disputado, duro e catimbado, o Milan venceu o Estudiantes no placar agregado por 4 a 2.

Em 1970, mesmo estando com mais de 30 anos, Schnellinger foi convocado para a Copa do Mundo do México e esteve entre os 11 iniciais. Quarta participação consecutiva em mundiais, o que o coloca abaixo do goleiro Carbajal, do México e Lothar Matthäus, da Alemanha neste quesito – ambos participaram de cinco copas consecutivas.

A campanha da Nationalmannschaft foi muito boa em 1970: venceu as três partidas na primeira fase e conseguiu uma virada contra a Inglaterra, após estar perdendo por 2 a 0 nas quartas de final. Na semifinal, um confronto épico frente à Itália. O jogo encaminhava para a vitória da Squadra Azzurra, mas, nos acréscimos do segundo tempo, Schnellinger apareceu no meio da área para levar o jogo para a prorrogação e marcar o seu único com a camisa da seleção alemã. No tempo-extra, Gerd Müller colocou a Alemanha na frente, mas Burgnich e Riva viraram a partida (3 a 2). Gerd Müller ainda conseguiu empatar mais uma vez, porém, um minuto depois, Gianni Rivera fez o quarto gol italiano e decretou números finais ao jogo: 4 a 3. Na disputa pelo terceiro lugar, a Nationalmannschaft bateu o Uruguai por 1 a 0.

Schnellinger cumprimenta jogadores do Bayern na Recopa de 1968 (Bundesliga Classic)
Na volta à Itália a imprensa italiana questionou o “Volkswagen” sobre o sentimento de marcar contra a seleção do país em que jogava. A resposta de Schnellinger foi simples: “eu estava fazendo meu trabalho”. A descrição e a seriedade são parte fundamental da personalidade do alemão. Em 2009, em entrevista à Gazzetta falou sobre isso: “eu não sou tão fácil de lidar, mas, como jogador, eu nunca tive uma briga”. Em campo isso se refletiu, mesmo sendo defensor, foi expulso apenas duas vezes na carreira. Na última temporada em Milão, Schnellinger venceu a Recopa da Uefa e a Coppa Italia, completando oito taças conquistadas. No total, vestiu a camisa rossonera por 334 vezes, marcando três gols.

Schnellinger terminou a trajetória futebolística, em 1975, no Tennis Borussia Berlin, onde foi capitão e jogou a Bundesliga. Mas hoje, o ex-ídolo da parte vermelha e preta de Milão vive na Itália, em Segrate e é empresário. O amor pelo Diavolo permanece, “minha esposa Ursula sempre vai ao San Siro. Eu não posso fazer isso, eu sofro muito. Eu começo a suar e me desespero”, afirmou na mesma entrevista à Gazzetta já citada, ao ser questionado se ainda era milanista.

Karl-Heinz Schnellinger

Nascimento: 31 de março de 1939, em Düren, Alemanha
Posição: lateral-esquerdo/líbero
Clubes: SG Düren (1958-59), Colonia (1959-63), Roma (1963 e 1964-65), Mantova (1963-64), Milan (1965-74) e Tennis Borussia Berlin (1974-75)
Títulos: Campeonato Alemão (1962), 4 Coppa Italia (1963-64, 1966-67, 1971-72, 1972-73), Serie A (1967-68), Copa dos Campeões (1968-69), Taça Intercontinental (1968-69) e 2 Recopas da Uefa (1967-68 e 1972-73)
Seleção alemã ocidental: 47 jogos e 1 gol.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Review da temporada, parte 1

O rebaixamento doeu em Miccoli, do Palermo, e em todos os rosanero (AP)

Neste fim de semana, com a final da Coppa Italia, vencida pela Lazio, a temporada italiana se encerrou. Já tem clube se preparando para o próximo ano e o mercado de técnico e jogadores está esquentando. Porém, antes de pensar em 2013-14, é bom lembrar do passado. Por isso, trazemos aqui no Quattro Tratti um review da temporada, no qual faremos uma análise completa do rendimento de cada uma das equipes da Serie A. Na primeira parte, falamos sobre as equipe que terminaram a temporada entre a 20ª e a 11ª colocação. Boa leitura!

Publicado também na Trivela.

Pescara

A campanha: 20ª colocação, 22 pontos. 6 vitórias, 4 empates e 28 derrotas. Rebaixado.
Ao final de 2012: 16ª colocação
Fora da Serie A: Eliminado no quarto turno da Coppa Italia pelo Cagliari
O ataque: 27 gols, o pior
A defesa:
84 gols, a pior
Time-base: Perin (Pelizzoli); Balzano (Zanon), Capuano, Cosic, Bocchetti (Modesto); Bjarnasson, Nielsen (Togni), Cascione; Caprari (Quintero), Abbruscato (Çelik), Weiss.
Os artilheiros:
Mervan Çelik e Vladimír Weiss (4 gols)
Os onipresentes:
Emmanuel Cascione (30 partidas), Mattia Perin (29), Antonio Balzano e Marco Capuano (ambos com 26)
Os técnicos:
Giovanni Stroppa, até a 13ª rodada; Cristiano Bergodi, da 14ª à 27ª rodada, e Christian Bucchi, da 27ª em diante
O decisivo:
Vladimír Weiss
A decepção:
Gaetano D'Agostino
A revelação:
Juan Quintero
O sumido:
Milton Caraglio
Melhor contratação:
Vladimír Weiss
Pior contratação:
Ante Vukusic
Nota da temporada:
2

Poucos times fizeram tanto para merecer um rebaixamento quanto o Pescara. Os golfinhos foram o time que menos ganhou, menos empatou e mais perdeu em toda a Serie A – somando apenas dois pontos no returno –, e ainda tiveram o pior ataque e a pior defesa – de longe. Com 22 pontos, a equipe se igualou ao Cesena da última temporada como segunda pior equipe a passar pelo campeonato em edições de 20 times. Só o Treviso, em 2006-07, foi pior: somou 21 pontos. O número de parênteses no time-base mostra a desorganização da equipe, que trocou de técnico quando não deveria, duas vezes, e acabou sucumbindo – afinal, de uma "confortável" 16ª posição na virada do ano, a equipe caiu demais e virou lanterna. 

Uma inesperada troca de goleiros do time titular também foi estranha. Em certo momento da temporada, Perin, um dos melhores goleiros do campeonato, foi barrado e deu lugar a Pelizzoli, que também fez boas partidas – porém, algo de podre havia nos bastidores. Claramente, faltou um matador no time, que apostou sobretudo em Caraglio e Vukusic e não colheu frutos. Outra grande decepção foi D'Agostino, que desde que deixou a Udinese perdeu seu futebol. Ao menos, a equipe ainda amadureceu jovens valores, como Perin, Quintero e Weiss, de longe os melhores do time. Os primeiros, que estavam emprestados, não ficarão, e o terceiro, principal jogador do time até se lesionar, deve ser bem vendido.

Siena

A campanha: 19ª colocação, 30 pontos. 9 vitórias, 9 empates e 20 derrotas. Rebaixado.
Ao final de 2012:
20ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado nas oitavas de final da Coppa Italia pela Lazio
O ataque:
36 gols, o terceiro pior
A defesa:
57 gols, a segunda pior
Time-base:
Pegolo; Neto (Contini, Terzi), Paci, Felipe; Ângelo, Vergassola, Bolzoni (Della Rocca), Rubin; Rosina, Sestu; Emeghara (Calaiò).
Os artilheiros:
Innocent Emeghara (7 gols), Alessandro Rosina (5) e Emanuele Calaiò (4)
Os onipresentes:
Gianluca Pegolo (38 partidas), Felipe (34) e Alessandro Rosina (31)
Os técnicos:
Serse Cosmi, até a 17ª rodada, e Giuseppe Iachini, da 18ª em diante
O decisivo:
Gianluca Pegolo
A decepção:
Zé Eduardo
A revelação:
Innocent Emeghara
O sumido:
Nicola Pozzi
Melhor contratação:
Innocent Emeghara
Pior contratação:
Nicola Pozzi
Nota da temporada:

O lamento de Emeghara, destaque do Siena (Skysports)
Para uma equipe que iniciou a temporada com 6 pontos de punição, o Siena fez um campeonato digno. A equipe foi valente e brigou até a reta final da temporada, mas acabou perdendo o fôlego e caiu. Para um time que estava certamente entre os mais fracos da temporada, a luta foi comovemente e os técnicos Cosmi e Iachini merecem os méritos por terem montado esquemas táticos (o 3-5-2 e depois o 3-4-2-1) que deixaram a equipe mais competitiva do que o esperado. 

Dois jogadores que também merecem aplausos são Pegolo, goleiro que, após ótimas partidas, certamente arranjará um contrato com um time da Serie A na próxima temporada, e Emeghara, belo achado do time toscano, que substituiu bem Calaiò, cedido ao Napoli em janeiro, e que também deve conseguir uma equipe maior. O português Neto também foi um belo achado, tanto é que acabou vendido ao Zenit em janeiro e, logo após sua saída, a defesa teve dificuldades de acertar-se. Entre os que decepcionara,, Zé Eduardo segue fracassando no futebol italiano. Presente em apenas oito jogos da campanha senese, o ex-santista marcou apenas um gol (cobrando pênalti) e dificilmente permanecerá no Belpaese – ainda é ligado ao Genoa, mas deve ser negociado. Para a disputa da Serie B, Iachini e uma boa quantidade de jogadores deve permanecer. O Siena será candidato ao retorno imediato à elite.

Palermo
 
A campanha: 18ª colocação, 32 pontos. 6 vitórias, 14 empates e 18 derrotas. Rebaixado.
Ao final de 2012:
18ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado no quarto turno da Coppa Italia pelo Verona
O ataque:
34 gols, o segundo pior
A defesa:
54 gols
Time-base:
Ujkani (Sorrentino); Múñoz, Von Bergen, Donati (Aronica); Morganella, Arévalo Ríos, Barreto, Kurtic, García; Ilicic, Miccoli (Dybala).
Os artilheiros:
Josip Ilicic (10 gols), Fabrizio Micoli (8) e Paulo Dybala (3)
Os onipresentes:
Steve Von Bergen (35 partidas), Santiago García e Ezequiel Múñoz (ambos com 32)
Os técnicos:
Giuseppe Sannino, até a 3ª rodada e a partir da 29ª, Gian Piero Gasperini, da 3ª à 23ª e na 28ª e 29ª rodadas; e Alberto Malesani, da 24ª à 26ª rodada.
O decisivo:
Josip Ilicic
A decepção:
Mauro Boselli
A revelação:
Paulo Dybala
O sumido:
Mauricio Sperduti
Melhor contratação:
Paulo Dybala
Pior contratação:
Mauricio Sperduti
Nota da temporada:
1

Uma verdadeira bagunça. Este foi o Palermo do sempre esquentado presidente Maurizio Zamparini, que tem uma média “respeitável” quando o assunto é demitir técnicos. Em 11 anos, 35 treinadores passaram pela tradicional equipe rosa e preta da Sicília. Só nesta temporada, a equipe teve três comandantes – um deles, Alberto Malesani, durou só três jogos. Giuseppe Sannino, atual treinador, começou a temporada e durou só três partidas, até ser substituído por Gian Piero Gasperini. Sannino voltou ao time, mas não conseguiu salvá-lo: o estrago já estava feito. Nada além da falta de planejamento causou a queda do Palermo, que tinha elenco e ótimos jogadores em todas as posições, de Sorrentino a Von Bergen e Arévalo Ríos, passando por Miccoli e Ilicic. O suficiente para viver um ano de tranquilidade na parte de cima da tabela.

A falta de planejamento se refletiu em um mercado totalmente estranho e muitos jogadores fracassaram, principalmente por terem sido contratados sem o aval do técnico que estava dirigindo a equipe no momento. Os casos são muitos, de Boselli a Faurlín, passando por Sperduti, que era destaque do Newell's Old Boys e nem entrou em campo pelo Palermo. Miccoli, envelhecido e sem ter a melhor das relações com Gasperini, também não fez um campeonato excepcional e isso acabou pesando. Ilicic, por sua vez, voltou a jogar bem e sua venda deve alimentar os cofres palermitanos. Com um trabalho sério na próxima temporada, a equipe siciliana retornará para a primeira divisão, de onde não deveria ter saído.

Genoa

A campanha: 17ª colocação, 38 pontos. 8 vitórias, 14 empates e 16 derrotas.
Ao final de 2012:
19ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado no terceiro turno da Coppa Italia pelo Verona
O ataque:
38 gols, o quinto pior
A defesa:
54 gols
Time-base:
Frey; Granqvist, Portanova (Manfredini, Canini, Bovo), Moretti; Tózser (Jankovic), Kucka, Matuzalém (Vargas), Bertolacci, Antonelli; Immobile, Borriello.
Os artilheiros:
Marco Borriello (12 gols), Ciro Immobile (5), Andrea Bertolacci e Bosko Jankovic (ambos com 4)
Os onipresentes:
Sébastien Frey (36 partidas) e Andrea Granqvist (35)
Os técnicos:
Luigi De Canio, até a 8ª rodada; Luigi Delneri, da 9ª à 21ª rodada; e Davide Ballardini, da 22ª em diante
O decisivo:
Marco Borriello
A decepção:
Juan Manuel Vargas
A revelação:
Ahmed Said
O sumido:
Marco Rossi
Melhor contratação:
Marco Borriello
Pior contratação:
Rubén Olivera
Nota da temporada:

Assim como o Palermo, o Genoa poderia ter vivido um ano muito mais tranquilo, mas se complicou nas próprias pernas. Os genoanos começaram o campeonato muito bem, vencendo Cagliari e Lazio e dando um trabalhão para a Juventus nas quatro primeiras rodadas. Porém, quando o time sofreu uma virada em casa, contra a Roma, depois de estar vencendo por 2 a 0, o presidente Preziosi achou por bem demitir o técnico De Canio, que já fazia ótimo trabalho desde a última temporada. De Canio, reconhecido por fazer bons trabalhos a médio prazo em equipes de menor expressão, não teve tempo de trabalhar direito e seu sucessor, Delneri, era mal visto pela torcida. Acumulou sete derrotas nos primeiros oito jogos e deixou o clube com apenas dois sucessos em quase três meses.

Borriello salvou o ano dos grifoni (Getty Images)
Após a chegada de Ballardini, o Genoa melhorou bastante, sobretudo porque Borriello passou a marcar os gols que não vinha fazendo – foram dele, inclusive, os gols que sacramentaram a permanência rossoblù. Outro destaque do time foi o jovem Bertolacci, de 21 anos, que começou a jogar mais adiantado, como trequartista, e viveu grandes momentos, com gols, assistências e muita movimentação. Na defesa, Granqvist foi a única peça inamovível de uma retaguarda que mudou bastante com a troca de técnicos e o líder do campeonato no quesito afastadas de bola. Por outro lado, a política atacadista de contratações do Genoa merece críticas: se o clube acerta e contrata alguns talentos a cada temporada, a grande rotatividade e as contratações emergenciais tem atrapalhado o desenvolvimento de uma base sólida que faça o clube sofrer menos sustos. Afinal, o rebaixamento bateu na trave por duas temporadas consecutivas. É hora de abrir o olho.

Torino

A campanha: 16ª colocação, 39 pontos. 8 vitórias, 16 empates e 14 derrotas.
Ao final de 2012:
13ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado no quarto turno da Coppa Italia pelo Siena
O ataque:
46 gols
A defesa:
55 gols
Time-base:
Gillet; Darmian, Glik, Ogbonna (Rodríguez), D'Ambrosio (Masiello); Cerci, Gazzi, Vives (Basha, Brighi), Santana; Meggiorini, Bianchi.
Os artilheiros:
Rolando Bianchi (11 gols) e Alessio Cerci (8)
Os onipresentes:
Jean-François Gillet (37 partidas), Alessio Cerci (35) e Alessandro Gazzi (34)
O técnico:
Giampiero Ventura
O decisivo:
Alessio Cerci
A decepção:
Alen Stevanovic
A revelação:
Abou Diop
O sumido:
Pablo Cáceres
Melhor contratação:
Alessio Cerci
Pior contratação:
Pablo Cáceres
Nota da temporada:

Se a Itália precisa de alguma prova de que bons trabalhos merecem receber uma prova de confiança, um bom exemplo é o Torino. A equipe contratou o técnico Giampiero Ventura quando caiu para a Serie B, em 2011, e o manteve na disputa da elite, mesmo quando o rendimento diminuiu, na reta final do campeonato. Prestigiado, o experiente Ventura pode construir a equipe no seu ofensivo 4-4-2, que muitos chamam de 4-2-4, e escolheu ótimas peças para esta temporada. A principal delas foi Cerci, que reencontrou o treinador que o descobriu para o lançou de vez para o futebol, no Pisa da temporada 2007-08. O meia é um dos poucos wingers de origem no futebol italiano e no time de Ventura foi figura central, vivendo o auge de sua carreira até o momento. Não à toa, está na mira de uma pá de clubes italianos e estrangeiros para este mercado e foi convocado para a seleção italiana.

Brilhante não é um adjetivo que se possa aplicar ao futebol e à campanha do Toro, mas não dá para negar que o time foi eficiente. No ano em que retornou à elite e em que o objetivo máximo era se safar da Serie B, a equipe cumpriu o seu objetivo sem muitos sustos – inclusive, um certo relaxamento nos últimos jogos fez o time perder posições. Para o próximo ano, a equipe já perdeu o matador Bianchi, que saiu em fim de contrato, mas espera manter Cerci e sonha com voos maiores.

Atalanta

A campanha: 15ª colocação, 40 pontos. 11 vitórias, 9 empates e 18 derrotas.
Ao final de 2012:
11ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminada nas oitavas de final da Coppa Italia pela Roma
O ataque:
39 gols
A defesa:
56 gols, a quarta pior
Time-base:
Consigli; Raimondi, Stendardo, Lucchini (Canini, Manfredini), Brivio (Peluso, Del Grosso); Giorgi (Schelotto), Cigarini, Biondini (Carmona), Bonaventura; Moralez, Denis.
Os artilheiros:
Germán Denis (15 gols) e Giacomo Bonaventura (7)
Os onipresentes:
Germán Denis (36 partidas), Giacomo Bonaventura e Andrea Consigli (ambos com 35)
O técnico:
Stefano Colantuono
O decisivo:
Germán Denis
A decepção:
Maxi Moralez
A revelação:
Giuseppe De Luca
O sumido:
Daniele Capelli
Melhor contratação:
Guglielmo Stendardo
Pior contratação:
James Troisi
Nota da temporada:
5,5 

Colantuono tem o mais longo trabalho da Serie A (Goal.com)
Mais uma vez, uma das equipes com mais baixa folha salarial da Itália fez um campeonato digno, de acordo com suas condições. Se na última temporada a Atalanta começou o campeonato à toda, com pontuação de equipe que brigava pela Liga dos Campeões, dessa vez foi menos brilhante e jogou o suficiente para nunca correr sérios riscos de rebaixamento. Grande conhecedor de sua equipe, por ser o técnico com mais tempo de trabalho em toda a Serie A (em junho, completa três anos de clube), o técnico Stefano Colantuono tira o melhor de seus comandados e soube variar o seu típico 4-4-2 quando as coisas apertaram, experimentando um interessante 4-3-2-1.

Comandada pelo argentino Denis, o fazedor de gols que a equipe precisa, a Dea ainda teve a importante participação de Bonaventura, que marcou sete gols. O meia italiano era tido como promessa anos atrás e, aos 23 anos, vai explodindo – chegou a ser pré-convocado para a Copa das Confederações por Cesare Prandelli. A equipe ainda contou com uma boa temporada do goleiro Consigli, além de uma segura dupla de zaga formada pelos experientes Stendardo e Lucchini. Porém, como nem tudo são flores, o meia-atacante Moralez ficou devendo em sua segunda temporada em Bérgamo e teve números pífios: apenas um gol e uma assistência. Para piorar, no negócio que levou Gabbiadini à Juventus (o atacante acabou emprestado ao Bologna), a contrapartida técnica se mostrou ruim. O australiano Troisi não se adaptou e jogou pouco mais de 200 minutos em toda a temporada.

Sampdoria

A campanha: 14ª colocação, 42 pontos. 11 vitórias, 10 empates e 17 derrotas.
Ao final de 2012: 15ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminada no terceiro turno da Coppa Italia pela Juve Stabia
O ataque:
43 gols
A defesa:
51 gols
Time-base:
Romero; Gastaldello, Palombo (Rossini), Costa; De Silvestri (Berardi), Obiang, Kristicic (Munari, Maresca), Poli, Estigarribia; Éder, Icardi.
Os artilheiros:
Mauro Icardi (10 gols), Éder (7) e Maxi López (4)
Os onipresentes:
Pedro Obiang (34 partidas), Marcelo Estigarribia (34) e Daniele Gastaldello (33)
Os técnicos:
Ciro Ferrara, até a 17ª rodada, e Delio Rossi, da 18ª em diante
O decisivo:
Mauro Icardi
A decepção:
Simon Poulsen
A revelação:
Mauro Icardi
O sumido:
Paolo Castellini
Melhor contratação:
Marcelo Estigarribia
Pior contratação:
Simon Poulsen
Nota da temporada:
5,5

Assim como o Torino, a Sampdoria voltava da Serie B e tinha como objetivo permanecer na primeira divisão com tranquilidade. Porém, a diretoria doriana queria mais logo de cara e trouxe Ciro Ferrara, dono de um ótimo trabalho com a seleção sub-21 italiana. Ferrara começou muito bem e, nos cinco primeiros jogos, o time venceu três e empatou dois, ficando entre os quatro primeiros do torneio. Passou pouco tempo e a equipe somou sete derrotas consecutivas e despencou na tabela. Até que, em dérbi contra o Genoa, o grande nome da temporada blucerchiata surgiu: na 13ª rodada, Icardi entrou em campo e marcou seu primeiro gol na temporada. Mas nem mesmo a vitória no dérbi salvou a pele de Ferrara, que acabou caindo quatro rodadas depois. O tempo mostrou que a demissão foi precipitada, uma vez que o desempenho de Delio Rossi foi muito semelhante. A Samp era 15ª e finalizou o campeonato na 14ª posição.

Entre os méritos de Rossi estão o maior aproveitamento de Icardi, que ganhou espaço em relação a Maxi López, e a recuperação do futebol de Éder. O brasileiro chegou a negociar uma saída para o Vasco, mas decidiu ficar em Gênova e fez seu primeiro grande campeonato na Serie A, sendo uma pedra no sapato dos defensores, por sua velocidade e movimentação. Rossi, que deixou o 4-4-2 de Ferrara de lado e usou um 3-5-2, ainda reintegrou Palombo, autor de um belo campeonato jogando como líbero. Isso porque, no meio-campo, Obiang evoluiu muito e virou o dono da posição, apresentando um futebol mais moderno, aliando forte poder de marcação e qualidade nos passes. Com um time organizado, a manutenção das peças principais – até agora, apenas Icardi e Poli devem sair –, e a evolução de jovens como Obiang, Rossini e Regini e Zaza, que retornam de empréstimo à Empoli e Ascoli, a Sampdoria tem potencial para fazer um campeonato melhor em 2013-14.

Bologna

A campanha: 13ª colocação, 44 pontos. 11 vitórias, 11 empates e 16 derrotas.
Ao final de 2012:
14ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado nas quartas de final da Coppa Italia pela Inter
O ataque:
46 gols
A defesa:
52 gols
Time-base:
Agiardi (Curci); Garics (Motta), Sorensen (Cherubin), Antonsson, Morleo; Pérez (Krhin, Guarente), Taïder; Kone, Diamanti, Gabbiadini; Gilardino.
Os artilheiros:
Alberto Gilardino (13 gols), Alessandro Diamanti (7), Manolo Gabbiadini e Panagiotis Kone (ambos com 6)
Os onipresentes:
Alberto Gilardino (36 partidas), Alessandro Diamanti e Saphir Taïder (ambos com 34)
O técnico:
Stefano Pioli
O decisivo:
Alberto Gilardino
A decepção:
Roger Carvalho
A revelação:
Dejan Stajoanovic
O sumido:
Nico Pulzetti
Melhor contratação:
Alberto Gilardino
Pior contratação:
Gianluca Curci
Nota da temporada:
5,5 

Chegada de Gilardino acabou com Diamanti-dependência (Ansa)
Em sua segunda temporada no comando do Bologna, o técnico Stefano Pioli ganhou dois ótimos reforços para livrar o time da Diamanti-dependência. E deu certo: o meio-campista da seleção italiana brilhou menos, mas justamente por ter podido dividir a responsabilidade com Gilardino e Gabiadini, além de Kone, que fez uma ótima temporada pela equipe do Renato Dall'Ara. Com colegas mais gabaritados, Diamanti marcou sete gols e deu sete assistências. Quem agradeceu foi Gilardino, que, aos 30 anos, se recuperou para o futebol depois de duas temporadas ruins e até voltou a ser convocado para a seleção italiana.

Com o quarteto em boa fase, a equipe felsinea produziu mais e deu algumas mostras de bom futebol na temporada, produzindo resultados importantes, como a quase classificação às semifinais da Coppa Italia e, na Serie A, boas vitórias contra Napoli, Inter, Roma e Catania. Por outro lado, Gabbiadini e Gilardino não são de propriedade da equipe e a direção bolonhesa terá de negociar para mantê-los no time – e, claro, segurar Diamanti. Entre os aspectos negativos, durante toda a temporada, a indefinição de quem seria o goleiro titular, diante das atuações pouco convincentes de Agliardi e Curci acabaram dificultando o percurso da equipe. Na quarta zaga, Sorensen também foi muito mal, e Roger Carvalho não agradou. Naldo, que chegou em janeiro, teve poucas chances, mas pode crescer, caso permaneça no clube.

Chievo

A campanha: 12ª colocação, 45 pontos. 12 vitórias, 9 empates e 17 derrotas.
Ao final de 2012:
12ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado no quarto turno da Coppa Italia pela Reggina
O ataque:
37 gols, o quarto pior
A defesa:
52 gols
Time-base:
Puggioni (Sorrentino); Andreolli, Dainelli, Cesar; Sardo (Frey), Guana, Rigoni, Cofie, Dramé (Jokic); Hetemaj (Paloschi, Pellissier); Théréau.
Os artilheiros:
Cyril Théréau (11 gols), Alberto Paloschi (7) e Sergio Pellissier (5)
Os onipresentes:
Cyril Théréau (37 partidas), Dario Dainelli (34) e Luca Rigoni (31)
Os técnicos:
Domenico Di Carlo, até a 6ª rodada; e Eugenio Corini, da 7ª em diante
O decisivo: 
Cyril Théréau
A decepção:
Gabriel Hauche
A revelação:
Isaac Cofie
O sumido:
Gabriel Hauche
Melhor contratação:
Isaac Cofie
Pior contratação:
Samir Ujkani
Nota da temporada:

Normalmente, o Chievo é um dos times mais insossos do Campeonato Italiano. Os veroneses costumam apresentar um futebol defensivo, burocrático e baseados em individualidades no ataque, para decidir. Em 2012-13, também foi assim, com Di Carlo e Corini, que montaram um esquema defensivista, baseado primeiramente em Pellissier e, depois, em Théréau. Especificamente com Corini, que dirigiu o time na maior parte do campeonato, o time clivense jogou num 3-5-2 que era praticamente um 5-3-2, muito fechado. Na frente, Théréau aproveitava lançamentos e arrancadas para se destacar.

O futebol burocrático, no entanto, conseguiu fazer com que jogadores do meio-campo e da defesa se destacassem. Se Théréau se matava no ataque, na ausência de Pellissier (o salvador da pátria anterior), e tinha a ocasional companhia de Paloschi, mais atrás o Chievo conseguiu dar espaço ao jovem volante Cofie, destaque do Sassuolo no ano passado. No Ceo, o ganês foi destaque, assim como o romeno Stoian, emprestado pela Roma e com grande futuro pela frente. Jogadores que, como Andreolli, não continuarão no clube para a próxima temporada.

Cagliari

A campanha: 11ª colocação, 47 pontos. 12 vitórias, 11 empates e 15 derrotas.
Ao final de 2012:
17ª colocação
Fora da Serie A:
Eliminado nas oitavas de final da Coppa Italia pela Juventus
O ataque:
43 gols
A defesa:
55 gols
Time-base:
Agazzi; Pisano, Astori, Rossettini (Ariaudo), Avelar (Murru); Nainggolan (Ekdal), Conti, Dessena; Ibarbo (Cossu); Sau, Pinilla (Nenê, Thiago Ribeiro).
Os artilheiros:
Marco Sau (12 gols), Mauricio Pinilla (7) e Víctor Ibarbo (6)
Os onipresentes:
Michael Agazzi, Radja Nainggolan e Víctor Ibarbo (todos com 34 partidas)
Os técnicos:
Massimo Ficcadenti, até a 6ª rodada, e Ivo Pulga, da 7ª em diante
O decisivo:
Marco Sau
A decepção:
Andrea Cossu
A revelação:
Nicola Murru
O sumido:
Sebastian Eriksson
Melhor contratação:
Mauricio Pinilla
Pior contratação:
Federico Casarini
Nota da temporada:

Sau, o guerreiro-mor do Cagliari (Sportsmole)
Heroísmo, trabalhamos. A temporada na Sardenha foi duríssima, por uma série de motivos. Primeiro, o Cagliari iniciou a temporada muito mal e, em seis jogos, não conseguiu uma vitória sequer. A demissão de Ficcadenti e a indicação da dupla Ivo Pulga-Diego López como sucessores mudou o jogo: a equipe conseguiu quatro vitórias em cinco jogos e demonstrou que a temporada seria de superação. Sobretudo por causa da série de problemas que interditaram o estádio Is Arenas por quase toda a temporada – quando o time pode jogar lá, na maior parte dos jogos foi com portões fechados. Mesmo jogando praticamente "fora de casa", a equipe fez um campeonato muito bom. Pulga e os jogadores merecem méritos e o apoio da torcida.
Em campo, o grande destaque foi Sau, que já havia sido vice-artilheiro da última Serie B. O jogador, formado no próprio Cagliari, tinha rodado por empréstimo por diversas equipes, até fazer sucesso no Foggia de Zeman, em 2010-11, e na Juve Stabia da última temporada. Após 12 gols e ótimas atuações no campeonato, foi pré-convocado por Prandelli para a Copa das Confederações, assim como os colegas Agazzi e Astori – desde a década de 70 a equipe sarda não cedia tantos jogadores para a seleção italiana. E o número pode aumentar em um futuro breve, afinal, Murru, de 19 anos, teve boas atuações na lateral esquerda. Outros jogadores que fizeram boa temporada foram Conti, Nainggolan, Ibarbo e Pinilla. Nesse contexto, Cossu, com muitos problemas físicos, não fez falta.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Brasileiros no Calcio: Angelo Sormani

Sormani ganhou todos os títulos de sua carreira no Milan, mas o atacante desembarcou
em Mântova para quebrar recorde na Itália (Getty)
Na cidade de Jaú, no fim da década de 1930, nasceu o descendente de italianos Angelo Benedicto Sormani. Em trinta anos, o ítalo-brasileiro já tinha passado pelo melhor Santos de todos os tempos, fez história num pequeno clube recém-promovido à elite do futebol da Bota e foi campeão europeu e mundial no famoso Milan de Nereo Rocco.

Assim como 99% dos jogadores de futebol - habitualmente -, o pequeno Angelo começou a bater bola nas ruas da cidade no interior do estado de São Paulo. Seu pai, no entanto, com problemas de saúde, não podia sustentar a família. Sormani, recém-formado em contabilidade, transformou seu hobby em profissão. Em 1958, após ter jogado por um período no XV de Jaú, foi vendido para o Santos.

Com 20 anos de idade, o atacante teve poucas chances em sua primeira temporada. Afinal, ele era reserva de um cara aí chamado Pelé - foi ele quem indicou Sormani ao Peixe. No entanto, a facilidade em jogar em outras posições acabou rendendo uma vaga no time titular a partir do segundo semestre de 1959, como atacante aberto pela direita. No ano seguinte, uma viagem acabou por culminar o destino do jogador.

Giancarlo Debecca vivia no Brasil há época. O correspondente de um jornal esportivo da Itália alertou o primo, Giuseppe Nuvolari, presidente do Mantova, que existia, em território brasileiro, o "Pelé branco". Desta forma, o mandatário enviou Edmondo Fabbri, treinador da equipe, para observar o jogador durante uma turnê europeia do Santos. Sormani fez uma ótima excursão e foi titular na final do Troféu Giallorosso, no Olímpico, contra a Roma. O Peixe venceu por 3 a 2, com dois gols de Dorval - suplente de Sormani - e um de Pelé. O Mantova, que conseguiria a promoção à Serie A naquela temporada, então, contratou o jovem jogador de Jaú.

A estreia de Sormani na elite do futebol italiano calhou de ser, também, a do Mantova, no novo formato do campeonato. A última participação da equipe na competição mais importante do país fora em 1926, na Prima Divisione  - na Lega Nord, existia uma fase de qualificação para dois grupos de 12 equipes interregionais; na Sud, os dois melhores times da fase regional se classificavam para a fase nacional. Os campeões de suas ligas se enfrentavam na finalíssima. Baita confusão.

A primeira partida da temporada colocava frente a frente os campeões das séries A e B. Allemann, atacante suíço comprado do Young Boys naquele mesmo ano, marcou o único gol biancorosso no empate em 1 a 1 contra a Juventus. De físico invejável, poderoso e com técnica extraordinária, Sormani liderou o Mantova na época de 1961-62. O ítalo-brasileiro marcou 16 gols e foi o terceiro goleador do campeonato - empatado com Hitchens, da Inter, e atrás de Altafini (Milan) e Milani (Fiorentina). Os virgiliani terminaram o torneio na 9ª colocação, com 32 pontos.

Logo em seu primeiro ano na Itália, Sormani conseguiu a cidadania italiana graças à origem de seus avôs, que nasceram no Belpaese. Para completar, o ótimo futebol apresentado rendeu-lhe uma convocação por parte de Paolo Mazza e Giovanni Ferrari para a Copa do Mundo de 1962. Assim, Sormani se juntou aos também oriundi Altafini e Sivori. O jogador atuou apenas na partida derradeira contra a Suíça, na fase de grupos. A Itália caiu cedo e, consequente, muitos jogadores daquele grupo não voltaram mais a vestir a camisa azzurra. Sormani foi um deles.

Em nove meses, Sormani saiu de uma incógnita para o sucesso absoluto na Lombardia e para os primeiros passos com a seleção italiana. Ele foi o assunto principal na janela de transferências de verão. Juventus, Fiorentina e Barcelona queriam o atacante. A Sormani-mania tomou conta da cidade, que protestou contra a possível venda do jogador.

Disse Nuvolari: "cheguei em Milão no sábado à tarde e havia um monte de repórteres e fotógrafos, que me atacaram. Um deles, especialmente, perguntou: 'é verdade que você vendeu Sormani por 500 milhões de liras para a Juventus?'. Eu respondi: 'eu não vendi e não tenho nenhuma intenção de vendê-lo". Cogitava-se até uma troca por Costanzo Balleri, atacante da vice-campeã Inter. Nuvolari: "é absolutamente impossível pensar nisso. Um jogador de 29 anos, que há três é conhecido como o maior preguiçoso da Itália e que custa 15 milhões...".

As cifras comentadas pela venda de Sormani eram altíssimas. Nenhuma equipe havia desembolsado 400 ou 500 milhões de liras italianas por um atleta (500 mi, em euros, é cerca de 260 mil, em valores atuais). Para um agremiação pequena, o dinheiro em caixa para se manter livre das dívidas era importantíssimo. O presidente revelou a conversa sobre uma partida de Sormani ao primo Debecca: "porque, pelo amor de Deus, antes de aceitar os 400 milhões - e não os 500, valor que nunca foi oferecido -, eles queriam chegar lá com 250 e Nicolè". Bruno Nicolè, atacante nascido em 1940, foi o vice-artilheiro da Juventus em 1961-62, com 12 tentos.

Em suma, o Mantova conseguiu segurar o goleador por mais uma temporada. Na época seguinte, a equipe fez um campeonato pior, terminando na 13ª posição, a três pontos do primeiro rebaixado, o Napoli. Após mais 13 gols na Serie A, Sormani foi finalmente negociado, na transferência recorde de 500 milhões de liras italianas para a Roma. O clube da capital pagou 250 milhões em dinheiro e ainda cedeu três jogadores: Torbjörn Jonsson, Elvio Salvori e Karl-Heinz Schnellinger.

Talvez a aura magnífica criada em torno do ítalo-brasileiro ajudou para que ele fizesse fracas exibições durante as duas temporadas seguintes. Na Roma, os três técnicos que passaram em 1962-63 (Alfredo Foni, Naim Krieziu e Luis Miró) não domesticaram o bando de bons jogadores na capital. Fora de posição porque o meia Angelillo ocupava a ala direita, Sormani ainda teve de conviver com a insatisfação de Pedro Manfredini na reserva - o argentino fora artilheiro do campeonato anterior. 

Sormani atuou rapidamente com a camisa da Roma (AS Roma)
A Roma até acabou sendo campeã da Coppa Italia, mas Sormani não comemorou o título. A final da competição foi disputada no início do ano posterior, quando os giallorossi já haviam vendido o "Senhor Meio Milhão" para a Sampdoria. Nestas duas temporadas, Sormani foi à rede apenas oito vezes, sendo duas delas em Gênova, onde também atuou fora de posição.

A imprensa já falava em estado de declínio do atacante e que ele deveria se transferir para um time menor. No entanto, Nils Liedholm investiu na contratação do atleta para seu Milan. Sem a pressão excessiva nem da torcida, nem dos profissionais rossoneri - mesmo com a "missão" de substituir Altafini, vendido ao Napoli, Sormani terminou a época com 22 gols na Serie A.

Os melhores momentos de Sormani no futebol aconteceram exatamente na equipe de Milão. Em 1966-67, mesmo sem o atacante na final contra o Padova, o rossonero venceu pela primeira vez a Coppa Italia. Na temporada seguinte, novamente com Nereo Rocco, o time voltou a conquistar a Serie A, com 11 pontos de vantagem para o Napoli. Sormani foi o vice-artilheiro milanista, com 11 gols. 

Além do sucesso na Bota, o Milan deixou para trás Levski Sofia, Györi ETO, Standard Liège, Bayern de Munique e Hamburgo para vencer a Recopa Europeia. O título da Copa dos Campeões veio na temporada seguinte, ao bater o Ajax de Rinus Michels por 4 a 1. O atacante nascido em Jaú marcou o terceiro gol milanista.

O ítalo-brasileiro permaneceu no Milan por mais duas temporadas, antes de se transferir para o Napoli, clube no qual jogou duas temporadas, entre 1970 e 1972. A primeira delas foi ótima: 3º posto ao fim da época no campeonato nacional e vice-artilheiro da equipe, com 5 gols; Altafini liderou com 7. 

Depois da passagem pelo clube do sul, Sormani voltou ao centro-norte da península para atuar na Fiorentina. Porém, foi pouco aproveitado na Viola e, após um ano, foi trocado com o Lanerossi Vicenza pelo jovem Walter Speggiorin. 57 jogos e 12 gols depois, aos 37 anos, Sormani pendurou as chuteiras. 

Ele, no entanto, não se separou do futebol nem da Itália. Entre 1985 e 91, foi treinador da Roma, em dupla com Sven-Göran Eriksson e, depois, Niels Liedholm, e Catania, mas teve mais destaque treinando os juvenis da equipe romana. Até hoje mora em Roma, com sua esposa Julieta. Na terra de seus antepassados, nasceram Amerigo, Angela, Magda e Adolfo. Adolfo, inclusive, virou jogador de futebol e teve uma carreira mediana jogando pelo Avellino. Hoje, enquanto seu pai curte a aposentadoria, Adolfo é treinador: já foi técnico dos juvenis da Juventus e do Napoli, e hoje é assistente de Zola no Watford.

Angelo Benedicto Sormani
Nascimento: 3 de julho de 1939, em Jaú (BR)
Posição: atacante
Clubes: XV de Jaú (1957), Santos (1958-61), Mantova (1961-63), Roma (1963-64), Sampdoria (1964-65), Milan (1965-70), Napoli (1970-72), Fiorentina (1972-73) e Lanerossi Vicenza (1973-76)
Títulos: Coppa Italia (1966-67), Campeonato italiano (1967-68), Copa da Europa (1967-68), Copa dos Campeões (1968-69), Copa Intercontinental (1969)
Seleção italiana: 7 jogos e 2 gols

A águia volta a voar

Após quatro anos sem títulos, Lazio volta a erguer um troféu. Conquista tem gostinho especial por ter sido contra a maior rival (Blitz Quotidiano)

Na primeira decisão de título da história entre Lazio e Roma, foi a equipe biancoceleste que se deu melhor e levantou a taça da Coppa Italia. A conquista dá à Lazio uma vaga na Liga Europa da próxima temporada e, de quebra, evita que a rival borde no peito a estrela prateada - direito de quem vence dez vezes a competição. Agora, a Roma soma nove vice-campeonatos, além dos nove títulos na competição. A Lazio, por sua vez, encerra jejum de quatro anos sem conquistas e chega ao hexa na Coppa. 

Além das expectativas, o time de Petkovic dominou o dérbi na maior parte do tempo e mereceu a conquista. Na primeira etapa, nada brilhante para nenhum dos lados, a Lazio foi um pouco melhor, se impondo mais e marcando seu território no campo adversário. Não à toa, a melhor chance dos primeiros 45 minutos foi laziale: Klose aproveitou cruzamento da esquerda e cabeceou forte em direção ao gol, mas Lobont mostrou estar com os reflexos em dia e fez ótima defesa. As investidas pelas alas, aliás, foram as principais jogadas da Lazio na partida. Do outro lado, a escolha de Andreazzoli por Destro no lugar de Osvaldo não se mostrou eficiente e o ataque romanista pouco produziu no primeiro tempo.

Logo no início da etapa final, Ledesma se machucou e obrigou Petkovic a mudar seu esquema de jogo. Mauri entrou no lugar do argentino e o time ficou mais aberto, atuando em um 4-2-3-1, com Candreva e Lulic bem avançados nas laterais. Hernanes também mudou de posição e conseguiu se livrar um pouco da forte marcação de Bradley. A Roma também voltou melhor no segundo tempo e o jogo melhorou. O cansaço, porém, era evidente. De Rossi tentava passes longos e Totti brecou pelo menos dois contra-ataques porque o corpo não aguentava mais.

De tanto insistir com as jogadas pelas laterais, a Lazio chegou ao gol dessa forma: Candreva fez ótima jogada pela direita e cruzou para o meio da área. Lobont desviou, mas Lulic estava atento para empurrar para o fundo das redes. Gol justo, que premiou os dois melhores jogadores da partida. No lance seguinte, Totti cobrou falta perigosa no meio da área e quase marcou. A bola passou por todo mundo, Marchetti bobeou e viu ela explodir no travessão. Mas foi só. Andreazzoli demorou para colocar Osvaldo no jogo e a Roma insistiu em cruzamentos que levaram pouco perigo ao gol laziale. Quem teve chance de marcar de novo, inclusive, foi o time biancoceleste, em dois contra-ataques que Mauri demorou para finalzar e desperdiçou.

O título dá um alento à torcida da Lazio, que começou a temporada bem e com expectativas no alto, mas não conseguiu manter o ritmo até o fim do campeonato, no qual terminou na decepcionante sétima colocação, atrás da própria rival. Do outro lado, a derrota coloca a Roma de novo como uma das maiores decepções da temporada italiana. Com time muito promissor, a equipe não conseguiu fazer bonito em nenhuma das competições que disputou e, mais uma vez sob o comando dos americanos, ficou de fora das competições europeias. As lágrimas da filha de Totti após o apito final mostram bem o sentimento da torcida romanista neste fim de temporada.

Filha de Totti chora após derrota da Roma (Reprodução TV)

Clique aqui para ver uma galeria de fotos da final e aqui para ver os gols do jogo.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Times Históricos: Itália 1982

O tricampeonato mundial da Itália foi conquistado com uma seleção lotada de craques
Grande feito: Campeã do Mundo em 1982.

Time base: Zoff; Bergomi, Gentile, Scirea e Collovati; Cabrini, Antognoni (Oriali), Tardelli; Rossi, Conti e Graziani (Altobelli). Técnico: Enzo Bearzot.

Os fantasmas de uma geração de ouro
A Copa do Mundo de 1982 parecia ter um favorito único que ficaria marcado para sempre na história como uma das seleções mais fantásticas do futebol: o Brasil. Com um ótimo jogador para cada posição em campo, o time demonstrava com suas apresentações antes do mundial que levaria a Copa da Espanha com um pé atrás. Mas isso ficou no sonho. Para o Brasil,  a tarde do dia 5 de julho, no estádio Sarriá, em Barcelona, foi sombria: a Itália – e Paolo Rossi – colocaram fim àquela geração talentosa. 

Porém, não foi apenas Rossi o carrasco. Foi Gentile. Foi Cabrini. Foi Scirea. Foi Zoff. A Itália, ao contrário do que muitos pensavam, era muito boa, tinha muita segurança na defesa e mostrou ser uma das melhores marcadoras de craques da história. O time superou escândalos que assolaram o campeonato italiano, deu a volta por cima, e levou a Copa. Os órfãos da seleção brasileira de 1982 vão entender agora o motivo de aquela Itália ter eliminado o time canarinho e conquistado de maneira digna a Copa do Mundo. A Squadra Azzurra era muito mais que um Paolo Rossi…

País em frangalhos
O início da década de 1980 foi terrível para o futebol italiano. Foi descoberto naquela época o esquema de manipulação de resultados conhecido como Totonero, em que atletas de diversos clubes do país apostavam na Totocalcio, a loteria esportiva italiana. Sete clubes foram punidos, Milan e Lazio foram rebaixados para a Serie B, e jogadores foram detidos ou intimados a depor, entre eles, Paulo Rossi, futuro carrasco do Brasil, que ficou dois anos sem jogar. O escândalo abalou o país e colocou a Itália no fosso do esporte. Ninguém conseguia acreditar que tamanha vergonha havia acontecido. Faltando apenas dois anos para a Copa, qual seria o papel do país naquele mundial?

Juntando os pedaços
Enzo Bearzot e seu inseparável cachimbo
Técnico da Itália desde 1977, Enzo Bearzot reuniu o que de melhor o futebol do país oferecia para desempenhar um bom papel na Copa de 1982. 

Depois de levar a Itália ao quarto lugar na Copa de 1978 apresentando um bom futebol, Bearzot fez jogadores como Scirea e Tardelli despontarem como craques na Squadra Azzurra, com muita aplicação e eficiência. 

Somados a experiência do goleirão Dino Zoff, à habilidade do atacante Graziani e do meia Antognoni, e de bons jogadores como Cabrini, Bergomi, Oriali e Conti, além de Rossi (que conseguiria disputar o mundial devido ao fim de sua punição) a Itália estava pronta. Mas sem esperança nenhuma de sua torcida.

O início na Copa
Tardelli contra Camarões, em duro duelo técnico
Historicamente, a Itália quase sempre passa apuros na primeira fase de uma Copa. Em 1982, porém, ela abusou do artifício: foram três empates em três jogos: 0 a 0 contra a Polônia, na estreia, 1 a 1 contra o Peru e 1 a 1 contra a boa seleção de Camarões. 

O time se classificou apenas no quesito gols marcados, gerando ainda mais desconfiança da torcida. Como uma seleção que não vencia poderia ir adiante naquela Copa? Para blindar os atletas, o técnico Bearzot proibiu seus jogadores de dar entrevistas, para manter o foco na competição. A atitude foi muito criticada, claro, mas foi fundamental para a mudança drástica que ocorreria na segunda fase.

O despertar do gigante
Itália acordou contra a Argentina, campeã à época
Pode-se dizer que a Itália ainda estava abalada na primeira fase da Copa. Sem apresentar um bom futebol, o time caiu no Grupo 3 na segunda fase do Mundial ao lado de ninguém menos que Argentina (campeã da Copa de 1978) e o sublime Brasil, de Zico, Falcão, Sócrates, Éder, Leandro, Júnior, Serginho e Toninho Cerezo. Cair em um grupo tão difícil deixou a torcida italiana ainda mais desconfiada e sem esperança. 

Mas foi nessa adversidade que o gigante despertou. Na primeira partida, contra a Argentina, a Itália mostrou um futebol totalmente diferente da primeira fase: mais aguerrido, mais técnico, mais eficiente, sem erros. Maradona, craque maior do time argentino, foi anulado sem dó pelo “carrapato da Copa”, Gentile. O italiano não deixou o argentino respirar, garantindo a segurança para que a Squadra Azzurra vencesse o jogo por 2 a 1, gols de Tardelli e Cabrini. O time conquistava uma importante vitória. No jogo seguinte, o Brasil eliminou a Argentina ao vencer por 3 a 1. A decisão pela vaga nas semifinais seria entre brasileiros e italianos.

A mítica batalha do Sarriá
Brasil e Itália se reencontravam em mais uma Copa. Era o primeiro jogo desde a decisão do terceiro lugar de 1978, vencida pelo Brasil. A Itália tinha o rival engasgado na garganta pelos revezes na Copa de 1970 e 1978. Era a chance de ouro de ter a vingança eliminando a mais brilhante seleção que o rival formava desde a de 1970. Já o Brasil queria bater o “freguês” novamente e seguir na caminhada até então impecável rumo ao tetra. Um empate bastava para a seleção. Porém, o jogo foi o apogeu e despertar de Rossi, que estava até então sem marcar gols. 

Com três gols contra o Brasil, Rossi viveu seu auge
Ele fez daquela partida a mais importante da carreira dele, para mostrar que após a punição do Totonero ele ainda estava em plena forma. Aos cinco minutos, Rossi abriu o placar. Sete minutos depois, Sócrates empatou para o Brasil. Aos 25, Rossi fez mais um. No segundo tempo, Falcão empatou num golaço. Mas aos 30, Rossi, de novo, fechou a conta para a Itália: 3 a 2. Perto do final do jogo, o zagueiro brasileiro Oscar quase empatou para o Brasil, mas Zoff fez uma defesa que, segundo o próprio, foi a mais sensacional de sua carreira, ao pegar em cima da linha. Era o fim da geração de ouro do Brasil. E a vitória que a Itália precisava para calar a boca de críticos, imprensa e torcedores que não acreditavam naquele time que se mostrava o mais eficiente da Copa.

Se o Brasil era ofensivo e brilhante, não tinha eficiência na zaga. Não existia apoio aos laterais e meias que subiam constantemente ao ataque. E, ao deparar com craques defensores como Scirea (um dos maiores líberos da história do futebol), Bergomi, Cabrini e, sobretudo, Gentile, que anulou Zico, o Brasil sucumbiu. Já a Itália mostrou a frieza e a precisão que o Brasil não teve para decidir o jogo. E um centroavante com estrela (Paolo Rossi), diferente do Brasil, que não teve Careca (contundido) e viu Serginho não jogar nada naquele mundial.

Rossi de novo
Seis gols na Copa e artilharia confirmada para Rossi
Com o entusiasmo lá em cima, a Itália partiu com tudo rumo à final. Nas semis, a equipe reencontrou a Polônia, adversário da primeira fase. Dessa vez, o jogo não foi monótono como outrora e Paolo Rossi confirmou sua estrela ao marcar mais dois gols, os dois da vitória italiana. A equipe, depois de 12 anos, estava na final.

A final da Copa de 1982 colocou Itália e Alemanha frente a frente. Uma das seleções seria tricampeã mundial, se igualando ao Brasil. A Itália estava tinindo, apenas com a ausência de Antognoni, que se machucou na partida contra a Polônia. Já a Alemanha estava exausta e mal fisicamente por conta da desgastante semifinal contra a França de Platini. A partida foi decidida apenas nos pênaltis após empate e 1 a 1 no tempo normal e 2 a 2 na prorrogação. O filme era o inverso do vivido pela Itália em sua última decisão de Copa, em 1970, quando chegou à final contra o Brasil mal fisicamente depois de uma partida de tirar o fôlego contra a Alemanha, decidida na prorrogação.

Tardelli extravasa: a Itália estava com a mão na taça
Os italianos tiraram proveito da situação e dominaram o jogo logo no início e tiveram a chance de abrir o placar no primeiro tempo, mas Cabrini desperdiçou um pênalti. Na segunda etapa, logo aos 11 minutos, Rossi, sempre ele, marcou seu sexto gol na Copa e o primeiro da Itália na decisão. Aos 24, Tardelli ampliou – e soltou seu famoso grito, marca da conquista italiana. 

Aos 35, Altobelli fez 3 a 0 e praticamente hipotecou o tricampeonato italiano. Breitner descontou para a Alemanha dois minutos depois, mas já era tarde. O time não tinha mais forças para correr atrás do placar. A Itália era tricampeã mundial de futebol e conquistava a Copa depois de 44 anos, desde a geração de Meazza e Piola, que conquistou o bicampeonato no início da história das Copas, em 1934 e 1938.

E ela veio: a Itália era tri antes da Alemanha
Era a coroação de uma equipe que chegou desacreditada à Espanha, mas que saia campeã do mundo. Era também o título para mostrar ao mundo a eficiência e precisão de jogadores como Conti, Scirea, Cabrini, Tardelli, Gentile, Zoff e Rossi. 

O goleiro italiano, capitão daquele time, foi o mais velho jogador a ser campeão mundial, com 40 anos de idade. Era o desfecho que ele precisava para encerrar uma carreira brilhante.

Time único
Zoff ergue a taça: campeão do mundo aos 40
A geração campeã de 1982 foi quase a mesma na Copa de 1986, mas sucumbiu diante da grande França de Platini nas oitavas de final. A Itália seguiria competitiva nas Copas seguintes, mas só venceria novamente um mundial em 2006, num filme bem parecido com o de 1982. 

Parece mesmo que o time comandado por Paolo Rossi teve como objetivo mostrar que nem sempre o futebol arte vence. É preciso, além da arte, ter eficiência, equilíbrio, frieza em decisões e nunca achar que uma partida está ganha. A Itália de 1982 soube como ninguém aliar todas essas características e levantou uma Copa que todos achavam que já tinha dono. Para nós, brasileiros, foi dolorido. Mas, para o futebol, ficou o aprendizado: nunca duvide da capacidade de um time. Principalmente quando do outro lado existe uma Itália…

Toda a delegação, na foto oficial para a Copa de 1982
Os personagens:

Dino Zoff: capitão da Squadra Azzurra e um dos grandes goleiros italianos na história, Dino Zoff fez milagre no jogo contra o Brasil, ao defender uma cabeçada certeira de Oscar no finalzinho de jogo. Seguro e exemplo de liderança, foi um dos melhores goleiros do século XX. Disputou 112 partidas pela Itália, de 1968 até 1983. Conquistou também uma Eurocopa, em 1968.

Giuseppe Bergomi: rápido, veloz, inteligente, Bergomi foi um dos grandes zagueiros de sua época e da Itália. Seu estilo de jogo lembrava muito o de outro mito, este dos tempos mais recentes: Fabio Cannavaro. Bergomi teve a dura missão de marcar o alemão Rummenigge na final da Copa de 1982, trabalho feito com maestria. Disputou 81 partidas pela seleção e foi um dos ídolos do país nas décadas de 80 e 90.

Claudio Gentile: foi o “carrapato da Copa” ao marcar de maneira precisa (e também bem dura) os craques Maradona e Zico, anulando ambos nas partidas vencidas pela Itália na segunda fase. Foi um monstro naquele mundial e peça fundamental na conquista do título.

Gaetano Scirea: antes de Baresi, a Itália teve Scirea como seu maior líbero no futebol. Dono de notável técnica, muito estilo e comportamento exemplar dentro e fora de campo, Gaetano Scirea comandava a zaga e o meio de campo da azzurra naquela Copa com muita maestria. Disputou 78 jogos pela seleção.

Fulvio Collovati: peça fundamental no sistema defensivo da Nazionale, Collovati desempenhou muito bem o seu papel, dando segurança na contenção da equipe. Disputou 50 partidas pela seleção.

Antonio Cabrini: foi o substituto do brilhante Facchetti na lateral esquerda da Itália durante 12 anos. Divino na defesa, Cabrini ia muito bem, também, no ataque, seja em cruzamentos ou chutes no gol. Fez parte da grande Juventus da década de 80.

Gabriele Oriali: outro que teve papel decisivo na marcação do meio de campo italiano. Brilhou naquela Copa e foi peça importante no título. Jogou mais de 13 anos na Internazionale.

Giancarlo Antognoni: foi titular da equipe até se machucar na semifinal. Meio campista de muita técnica, foi essencial na campanha do trimundial da Itália. Jogou quase a vida toda na Fiorentina.

Marco Tardelli: a vibração de Tardelli após fazer seu gol na decisão da Copa contra a Alemanha é um dos momentos mais marcantes da história das Copas, tamanha a emoção do jogador. Ele foi um dos grandes nomes naquela Itália, e desempenhou papel fundamental na conquista com passes, gols e muita habilidade. Foram 81 jogos pela seleção na carreira.

Paolo Rossi: a maior estrela da Itália na Copa de 1982. Rossi acordou na partida contra o Brasil e não dormiu mais. Foram seis gols em três jogos, o título da Copa, a Bola de Ouro e a Chuteira de Ouro, tudo como reconhecimento pelo seu desempenho brilhante na reta final do mundial. No auge da carreira, Rossi fez daquela Copa a resposta pessoal a todos os que não acreditavam que ele pudesse dar a volta por cima depois do escândalo que o suspendeu por dois anos. Na bola, na habilidade e com gols, ele calou a boca de todo mundo, virou ídolo nacional e o maior pesadelo para os brasileiros. Ele completa a tríade de fantasmas que assombram o Brasil na história do futebol, junto ao Maracanazo proporcionado por Ghiggia e Zidane.

Bruno Conti: ponta extremamente habilidoso, Conti tocou o terror nas zagas dos adversários na Copa de 1982. Difícil de ser parado, Conti foi peça decisiva no ataque italiano. Foi um dos maiores ídolos da história da Roma.

Francesco Graziani: atacante da Itália na Copa, Graziani marcou apenas um gol e foi ofuscado por Rossi. Fez história no Torino da década de 70. É um dos maiores artilheiros da seleção na história com 23 gols.

Alessandro Altobelli: fez o gol do título da Itália na final da Copa de 1982. Era letal dentro da grande área por conta de seu porte físico e habilidade.

Enzo Bearzot (Técnico): um dos maiores responsáveis pelo tricampeonato mundial da Squadra Azzurra foi o técnico Bearzot. Ele transformou a equipe naquele mundial e conduziu de maneira brilhante seu país ao título. Uma frase do treinador resume sua ideia e sua filosofia: “O futebol parece ter-se tornado uma ciência, ainda que nem sempre exata. Mas, para mim, antes e acima de tudo, trata-se de um jogo”.

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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Jogadores: Dejan Savicevic

Habilidoso, o meia-atacante foi figura central do Milan dos anos 90 (The Sunday Times)
Para quem não tem talento ou desenvoltura, a bola parece ter vida própria. Teimosa, rebelde e desobediente, a pelota foge aos pés dos pobres mortais, aqueles que se contentam em ser coadjuvantes no circo que é o futebol. Um dos que conseguia domar com tranquilidade, fazendo dela uma extensão das suas chuteiras era Dejan Savicevic, um verdadeiro artista do esporte.

Muito cedo se sabia que o menino Savicevic havia nascido para ser jogador. Aos 15 anos já era o coringa da base do OFK Titograd, hoje conhecido como Mladost Podgorica. Atrevido, imediatamente foi reconhecido como joia rara na equipe montenegrina. Acostumado ao estilo rápido e objetivo do futsal, Savicevic conciliava seu tempo como juvenil desfilando pelas quadras iugoslavas.

Isso certamente o ajudou a ter uma relação toda especial com a bola. Em 1983, aos 16 anos, não podia mais ser apenas um craque de bairro e assinou com o Buducnost, da primeira divisão local. Foram cinco anos em que ele aperfeiçoou sua técnica e ganhou espaço no cenário profissional da Iugoslávia, que criou toda uma escola baseada na filosofia da posse e dos dribles. E assim, em 1988, foi contratado pelo Estrela Vermelha, a principal potência eslava da época. Ali encontrou seu lugar.

Com 23 anos e já relativa experiência, mostrou em níveis internacionais o que poderia fazer. Suas façanhas incluíam carregar a bola por quase todo o campo, enfileirando adversários indefesos e impotentes diante do seu jogo de cintura. Ia e voltava, fintava e desistia, partia para cima outra vez e sumia da vista do marcador: era endiabrado e possivelmente devia ter um trato sobrenatural para dominar tanto o instrumento de jogo.

Quisesse driblar da sua defesa até as traves do oponente, o faria com a maior calma, em passadas largas e dribles ligeiros. Cérebro do Estrela Vermelha que conquistou a Europa em 1990, Savicevic já era tido como estrela mundial e a iniciativa de deixar a Iugoslávia para um país de maior tradição era natural. Em 1992, os dirigentes do clube de Belgrado não mais resistiram ao assédio dos gigantes e venderam seu maior craque ao Milan, certamente um dos três times que dominavam a Europa no início da década de 90.

Da Iugoslávia para o mundo
Por cerca de 10 bilhões de liras italianas, o montenegrino se juntou a um plantel estelar comandado por Fabio Capello. A consagração também não demoraria a chegar, já que em 1993 os rossoneri chegaram à final da Liga dos Campeões diante do Marseille. A derrota para os franceses, por 1 a 0, não abalou os ânimos de Capello e seus pupilos. A equipe havia se sagrado campeã italiana pouco antes e jogaria a próxima liga – e dois gols de Savicevic, em vitória contra a Fiorentina, foram fundamentias para o título.

No ano seguinte, lá estava o Milan outra vez na decisão, passando por cima do Barcelona por 4 a 0 em atuação clamorosa de Savicevic e Massaro, que marcou duas vezes. Savicevic participou com um gol – justamente o que abriu o placar, encobrindo Zubizarreta – e ainda deu uma assistência para um dos gols de Massaro.

Alcançando um nível muito superior aos demais, Dejan foi afetado pela fama e fortuna, virando uma pessoa complicada de lidar. Segundo melhor atleta do mundo em 1991, o meia-atacante passou a acumular algumas encrencas fora de campo. Dono de uma opinião forte e polêmica, sempre era entrevistado nos momentos em que a pauta era a involução do futebol iugoslavo. Durante a década de 2000, quando virou dirigente, constantemente ia aos jornais para criticar outros cartolas e treinadores montenegrinos, sustentando sua argumentação com críticas ferrenhas.

Sem medo de represálias, Savicevic batia de frente com os homens que ditavam as regras no território iugoslavo. O posicionamento radical em relação aos direitos do povo de Montenegro e especialmente como isso influenciaria na separação que se daria anos depois, é uma das causas com que o ex-craque sempre estará associado.

Dentro dos gramados, de 1992 a 1998 foi importantíssimo no San Siro. Sucessor legítimo do trio holandês fomado por Rijkaard, Gullit e van Basten, Savicevic herdou o trono que lhe era de direito. Responsável pela criação e apoiando bastante os finalizadores, cansou de erguer troféus pela agremiação rossonera. Três Serie A, três Supercopas italianas, uma Liga dos Campeões e uma Supercopa europeia, sem falar no caneco europeu pelo Estrela Vermelha, os três campeonatos iugoslavos e uma Copa da Iugoslávia em 1999. Incontestavelmente um grande vencedor que fazia por onde dentro das quatro linhas.

Em ação num dérbi contra a Inter (Corriere della Sera)
Mais uma vez entre os heróis
O retorno de Savicevic ao Estrela Vermelha foi marcado para 1999, quando ele já estava com 33 anos nas costas. Foi o último brilho de Savo, já num panorama em declínio. Lesionado e pouco útil aos Delije, Dejan foi cedido ao Rapid Viena de forma que encerrasse na Áustria sua trajetória como profissional. De 1999 a 2001 ensinou os austríacos um pouco da incrível dominação a que submetia quem quisesse lhe marcar. 

Encerrou seu ciclo aos 36 anos de idade, no Rapid, sem ter levantado uma Copa sequer. A opção por terminar seus dias como astro longe de casa talvez tenha sido um final que não fez jus ao passado. Durante mais de dez anos, reinou em Belgrado e Milanello. E como se sabe, os verdadeiros reis nunca perdem a majestade. Pelo Milan, onde viveu a fase mais gloriosa de sua carreira, realizou 144 partidas e marcou 34 gols. O último de seus gols pelo Diavolo aconteceu em janeiro de 1998, em dérbi contra a Inter. A partida, válida pelas quartas de final da Coppa Italia, acabou com um histórico 5 a 0 a favor dos rossoneri.

Dejan foi soberano como poucos um dia puderam ser. De natureza imprevisível até no cotidiano, o ex-atleta deixa saudades. Quando o futebol era menos marcação ou força, o compasso da genialidade dava o tom por onde ele passava. Sem dúvidas a década de 90 mostrou ao mundo alguns coringas competentíssimos. Uns caíram no esquecimento, outros vivem de suas glórias, afinal, só será lembrado pelo grande público quem triunfou. Savicevic ainda foi técnico da seleção iugoslava entre 2001 e 2003, mas acabou demitido.

Não há lugar na memória para os perdedores. E exatamente por isso Savicevic segue tão vivo na lembrança de quem o viu brilhar.

Dejan Savicevic
Nascimento: 15 de setembro de 1966, em Podgorica, antiga Iugoslávia
Posição: Meia-atacante
Clubes: Buducnost (1982-88), Estrela Vermelha (1988-92; 1999), Milan (1992-98) e Rapid Vienna (1999-2001)
Títulos: 3 Campeonatos Iugoslavos (1989-90, 1990-91, 1991-92) 3 Serie A (1992-93, 1993-94, 1995-96), 3 Supercoppa Italia (1992, 1993, 1994), 1 Copa da Iugoslávia (1989-90), 1 Copa dos Campeões (199091), 1 Liga dos Campeões (1993-94), 1 Supercopa Europeia (1994) e 1 Mundial Interclubes (1991).
Seleção iugoslava: 56 jogos e 22 gols.