Subscribe Twitter Facebook

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Jogadores/Técnicos: Bruno Pesaola

Amado pela torcida do Napoli, Pesaola fez história no clube como jogador e treinador (Ansa)
28 de julho de 2015. Um dos maiores ídolos do Napoli completaria 90 anos. Foi por pouco: Bruno Pesaola, argentino de Buenos Aires – mas napolitano de coração, segundo o próprio –, faleceu no final de maio, deixando a cidade de Nápoles enlutada pela perda de um ícone azzurro. Conhecido como "Baixinho" – petisso, em espanhol –, Pesaola vestiu a camisa do clube por oito anos e ainda treinou os campanos em quatro oportunidades. Uma daquelas bandeiras tão caras ao futebol italiano.

Muito antes de se tornar uma figura tão identificada com o Napoli, o Petisso Pesaola viveu toda sua juventude na Argentina. Seu pai, Gaetano Pesaola, era italiano e se mudou para a América do Sul no início dos anos 1920, onde conheceu a espanhola Inocencia Lema. Em 1925, nasceu o filho Bruno, que viveria em Avellaneda e Buenos Aires até os 22 anos. O Petisso iniciou a carreira nas categorias de base do River Plate, ao lado de um tal Alfredo Di Stéfano. Entre 1939 e 1944 ficou nos Millionarios, mas por causa do sucesso de Félix Loustau, nunca chegou a jogar pelo time titular, treinado por Renato Cesarini – à época não eram permitidas substituições. Pesaola jogou dois anos no Dock Sud, time da rabeira da tabela da segunda divisão argentina. Tudo mudou quando ele foi para a Itália, em 1947, ajudado por um parente.

Pesaola acabou assinando com a Roma ao chegar na Itália e logo se destacou como ala avançado pela esquerda. Muito veloz e habilidoso, e com bom aproveitamento nos cruzamentos, o Baixinho dominou o flanco do time romano, resolvendo uma carência do elenco, em uma época de vacas bem magras dos giallorossi. Em três anos, se tornou popular e até apareceu em dois filmes sobre futebol da época. Em campo, disputou 90 partidas e marcou 20 gols, até que lesões graves na tíbia e no perônio quase acabaram com sua carreira.

A contusão fez com que o atacante perdesse espaço na Roma e acabasse negociando com a Cremonese, à época na Serie  B. Porém, o atacante Silvio Piola pediu para a diretoria do Novara tentar a contratação do argentino, que ele acreditava ser o seu parceiro ideal após a aposentadoria de Pietro Ferraris. Assim, Pesaola acabou tendo seu destino mudado depois que os azzurri pagaram a conta do hotel em Cremona – foi esse o acerto para a rescisão do contrato – e o levaram ao Piemonte.

Emprestado, colocaria sua carreira nos eixos novamente e seria apresentado à cidade em que faria parte da sua vida. Em dois anos, formou uma dupla de peso com Piola – maior artilheiro da Serie A –, disputou 64 jogos e fez 15 gols. No segundo ano, marcou oito, na melhor campanha da história do Novara, um oitavo lugar no Italiano.

Fora de campo, o argentino era um apreciador da noite, do uísque e principalmente dos cigarros, que fumava compulsivamente. Foi no ambiente das mesas de pôquer que conheceu Ornella Olivieri, miss Novara, sua esposa, com quem teve um filho – Zap Mangusta, nome artístico de Roberto Pesaola, se tornou um premiado escritor, dramaturgo, roteirista e radialista italiano. Sua esposa Ornella lhe orientou a acertar com o Napoli, em 1952. Com proposta dos azzurri e do Milan, ela convenceu o marido a ir para Nápoles, uma cidade que considerava mais aprazível, e na qual morava um irmão. Uma escolha de vida, pois foi lá que a família se estabeleceu para o resto da vida, com breves interrupções.

"Nápoles é como La Boca, em Buenos Aires", disse Pesaola, ao jornal La Repubblica, em 2007. "Cores, gente, barulho, magia, alegria, música. Mas aqui tem o mar, e lá apenas um canal". Assim, Pesaola passou a noite de núpcias e a lua de mel na ilha de Capri e em Positano, e logo foi para a pré-temporada napolitana. Começava muito bem.

Além de Pesaola, o Napoli do presidente Achille Lauro havia feito outra contratação de peso: o atacante sueco Hasse Jeppson, que brilhou com a camisa de sua seleção – terceira na Copa do Mundo de 1950 e prata na Olimpíada de 1948 – e com a Atalanta. Os dois se juntaram a Amedeo Amadei e formaram um dos mais fortes ataques da história do Napoli, que ficou formado por quatro anos. Sob o comando de Eraldo Monzeglio, o trio infernizou defesas e levou os partenopei a concluir o campeonato na quarta, na quinta e na sexta posição, respectivamente, nos três primeiros anos – apesar da quarta posição na primeira temporada, os azzurri brigaram pelo título até o final, mas a Inter levou. No quarto e último, o relacionamento entre jogadores e técnico ficou complicado e refletiu em campo, com a queda brusca na tabela – o Napoli acabou a temporada em 14º e com Amadei como treinador. Nem mesmo a chegada do brasileiro Luís Vinício ajudou a levantar a equipe.

Na temporada seguinte, Amadei continuou como treinador e acabou trocando Pesaola de posição. Com a saída de Jeppson e a aposentadoria de Amadei, Vinício ficava no comando de ataque, no lugar que era ocupado pelos dois, e o Petisso acabou recuado para a posição de meia-atacante. Pesaola continuou jogando bem, e teve como maior destaque naquela temporada uma doppietta em San Siro contra o Milan de Juan Schiaffino e Niels Liedholm: a partida, encerrada em 5 a 3, chegou a ter um 5 a 0 para o Napoli no primeiro tempo.

Nessa época, foi convocado para a seleção da Itália, por ser oriundo, e disputou sua única partida com a camisa da Nazionale. A maior glória, porém, foi no ano seguinte: a melhor campanha de Pesaola com o time napolitano aconteceu em 1957-58, quando ele e Vinício foram fundamentais para levar o Napoli novamente ao quarto lugar, com o segundo melhor ataque da competição. Naquele ano, marcou um gol contra a Inter em San Siro: roubou a bola de um defensor e acertou o ângulo. Este tento foi utilizado pela Rai como abertura do programa Domenica Sportiva durante anos.

Capitão da equipe desde 1953, Pesaola viveu outro grande momento na história do clube: a participação na inauguração do estádio San Paolo – à época, chamado de Del Sole –, em uma partida em que o Napoli fez 2 a 1 sobre a rival Juventus, pela Serie A 1959-60. Em 1960, a inimizade com o técnico e ex-companheiro Amadei fez com que ele deixasse o clube, encerrando sua passagem com 240 jogos e 27 gols marcados. Depois disso, jogou um ano pelo Genoa na Serie B e depois foi ser jogador e treinador da Scafatese, na Serie D. Assim, ele voltaria a viver próximo a Napoli, na província de Salerno.

Altafini, Pesaola e Sívori: já como treinador, o Petisso comandou o Napoli em outra época marcante (Wikipedia)
O trabalho pelos canarinhos de Scafati não foi maravilhoso, mas a proximidade com o presidente Lauro e o fato de estar vivendo a realidade campana outra vez fez com que Pesaola logo voltasse para ajudar o Napoli, que vivia situação complicada. A equipe havia sido rebaixada no ano seguinte à sua saída e estava muito mal na Serie B. Assim, em meio à temporada 1961-62, em janeiro, o ítalo-argentino foi chamado às pressas para ser o treinador da equipe, substituindo Fioravante Baldi. Sabendo o caminho das pedras, Pesaola fez um pequeno milagre: levou a equipe ao vice-campeonato da série cadetta e ao acesso à primeira divisão e ainda deu ao Napoli o seu primeiro título, a Coppa Italia. O Baixinho dirigiu o time apenas na semifinal contra o Mantova e na final contra a Spal, mas escreveu seu nome na história mais uma vez.

Pesaola não tinha a habilitação necessária para dirigir um time da primeira divisão. Então o Napoli convidou Eraldo Monzeglio para o cargo de diretor técnico, e os dois dividiriam o comando da equipe. A divergência de ideias não deu certo e os partenopei acabaram rebaixados, mesmo com o surgimento de futuros ícones do clube, como o meia Antonio Juliano e o atacante brasileiro Cané. Após passar quatro meses dirigindo o amador Savoia, Pesaola voltou ao Napoli para a temporada 1964-65. O time ainda estava na Serie B, e valorizando Juliano – que se tornaria capitão da equipe – e Cané, o Petisso conseguiu um novo vice-campeonato e outro acesso para seu currículo. Ali estava para começar o auge de sua carreira como treinador. Pesaola se tornaria um dos principais técnicos do país, concorrendo com ícones como Helenio Herrera, da Inter, e Nereo Rocco, do Milan – os dois principais esquadrões daquela época.

As três temporadas seguintes foram as melhores temporadas na história do Napoli antes da Era Diego Maradona. Logo no retorno para a elite, o clube de Fuorigrotta fez duas contratações de peso: José Altafini e Omar Sívori, que chegavam de Milan e Juventus, respectivamente, com os currículos cheios de títulos, gols e prêmios individuais. Brigando pelo título da Serie A até o fim, o Napoli ficou com a terceira posição, atrás do vice Bologna e da campeã Inter. 

O trio de ataque sul-americano funcionou bem e os azzurri faturaram o título da Copa dos Alpes, disputada na parte final da temporada – primeiro título internacional napolitano. No último jogo do torneio disputado entre quatro times italianos e quatro suíços, Pesaola deu uma tacada de mestre. Ele, que já havia convencido Sívori a trocar a Juve pelo Napoli, por causa dos problemas que o atacante tinha com o técnico paraguaio Heriberto Herrera, estimulou seu compatriota através da raiva que sentia pelo ex-comandante. No intervalo da partida contra o Servette, ele pediu que fosse anunciado no alto-falante do estádio que a Juventus vencia – o que tiraria o título azzurro. A informação era falsa, mas Pesaola provocou Sívori, que não estava jogando bem. O ex-Bola de Ouro voltou enfurecido a campo e ajudou a decidir a partida, que fez com que os sulistas ficassem com a taça.

Nos dois anos seguintes, o Napoli continuou jogando um futebol muito bonito, um dos melhores de toda a Itália. Em 1966-67, a equipe ficou com a quarta posição, em um campeonato muito disputado, que teve a Juventus como campeã, cinco pontos à frente dos azzurri. Em 1967-68, a equipe dirigida por Pesaola ganhou o reforço de Dino Zoff, continuou jogando muito bem e chegou ao vice-campeonato, até então o melhor resultado de sua história, ficando atrás do histórico Milan de Rocco – que seria campeão europeu no ano seguinte.

O Petisso é identificado com o Napoli, mas também com a Fiorentina:
treinou o time no segundo scudetto da história gigliatta (Wikipedia)
O estilo de Pesaola já estava definido. Seus times jogavam da mesma forma que as equipes em que ele atuava como jogador: praticavam um futebol bastante vertical, explorando a velocidade pelos lados do campo e com um goleador na frente, abastecido pelos alas e por um regista ofensivo. Fora de campo, o Petisso era conhecido como um motivador de primeira linha, vide o caso de Sívori e o fato de ter conseguido controlar jogadores de personalidade forte e já em final de carreira em um mesmo elenco. Pesaola convidava Sívori e Altafini para jantar com frequência, para que os dois, de jeitos tão diferentes, não brigassem. O treinador também era conhecido por fumar bastante durante os jogos e também por usar um sobretudo de pele de camelo como talismã. Tudo indicava que os seus métodos continuassem a serviço do Napoli, mas após o vice-campeonato, o argentino deixou o San Paolo porque facções contrárias a ele e ao presidente ameaçavam de morte a sua esposa.

O Baixinho chegou a receber uma proposta da Juventus, mas fechou com a Fiorentina, que lhe oferecera o dobro de salário – 120 milhões de liras. Logo em seu ano de estreia pela equipe de Florença, Pesaola levou a Viola ao segundo – e, até hoje, último – scudetto de sua história. Foi um campeonato bastante disputado e no primeiro turno o Milan tinha o histórico Cagliari de Gigi Riva como seu maior rival. Em uma virada antológica, a Fiorentina de Amarildo, Giancarlo De Sisti e Mario Maraschi ultrapassou os adversários e ainda conquistou o título com uma rodada de antecedência, batendo a odiada Juventus em Turim. A equipe foi a primeira na história a conquistar o campeonato sem perder partidas fora de casa e teve como destaque uma defesa muito forte, que sofreu somente 18 gols.

Com o título mais importante de sua carreira debaixo do braço, Pesaola recebeu propostas da Inter e do Napoli. Mesmo sob contrato com a Fiorentina, o ítalo-argentino acertou com a equipe de Milão, mas quando viu a proposta napolitana, balançou – afinal, amava Nápoles. Assinou contrato com os três clubes, mas prometeu ao presidente do seu antigo clube, Corrado Ferlaino, que voltaria para a Campânia caso ele contratasse Amarildo e dois jogadores da Inter que estavam em conflito com a diretoria: Angelo Domenghini e a bandeira Sandro Mazzola.

Ferlaino não fechou com nenhum, Pesaola desistiu da nova aventura italiana e foi denunciado à Federação Italiana de Futebol pelo dirigente. O Petisso poderia ter sido banido do futebol por ter assinado contrato com três clubes, mas o comandante da FIGC, Artemio Franchi, muito ligado à Fiorentina – o estádio do clube foi batizado com seu nome, anos depois – lhe concedeu uma graça: se ficasse em Florença, escaparia da punição. Assim foi e Pesaola treinou os gigliatti por mais um ano e meio, sem conseguir levar a equipe a glórias novamente, apesar de ter vencido o prêmio Seminatore d'Oro, como o melhor técnico do país. Após uma metade de Serie A ruim em 1970-71, Pesaola acabou demitido em janeiro.

Na Fiorentina, batendo uma bolinha com craques como Amarildo e De Sisti
e vestido com seu talismã, um casaco de pele de camelo (Wikipedia)
A demissão deixou o argentino parado por uma temporada e meia. No entanto, quando voltou a trabalhar, Bruno Pesaola foi para o outro lado dos Montes Apeninos, mais precisamente para a cidade de Bolonha. Em um Bologna que tinha jogadores experientes como Giacomo Bulgarelli e Giuseppe Savoldi, o Petisso passou quatro anos, nos quais deixou a equipe em posições intermediárias na Serie A – três vezes na sétima e uma na nona. A grande glória neste período foi a conquista da Coppa Italia, em 1974, passando por Napoli, Milan e Inter nas fases de grupos e batendo o Palermo na final.

Depois de quatro temporadas no Bologna, Pesaola voltou para o Napoli, onde encontrou velhos conhecidos, como Savoldi (ex-Bologna), Juliano (já uma bandeira napolitana) e Luciano Chiarughi, jogador importante em seus tempos de Fiorentina. A equipe ainda tinha dois defensores duros, como Tarcisio Burgnich e Giuseppe Bruscolotti, e apesar da posição intermediária na Serie A – sétimo lugar – a temporada 1976-77 foi positiva. Os azzurri ficaram com o título da Copa da Liga Anglo-Italiana, com vitória sobre o Southampton, e chegaram às semifinais da Coppa Italia e da Recopa Europeia.

Mesmo com a boa temporada, Pesaola acabou deixando o Napoli e voltando para o Bologna. O Petisso conduziu os felsinei a duas temporadas em meio de tabela e depois foi para a Grécia, onde quase levou o Panathinaikos ao título local. Já perto de se aposentar, dirigiu o Siracusa na Serie C1 e, no meio da temporada 1982-83, foi chamado às pressas para tentar salvar o Napoli do rebaixamento. 

Como diretor técnico – o treinador era Gennaro Rambone –, ele ajudou um time com bons jogadores, como Bruscolotti, Luciano Castellini, Moreno Ferrario e as estrelas Ruud Krol e Ramón Díaz a escapar de uma vergonhosa queda. Para salvar o time do rebaixamento, ele apostou em uma tática bastante defensiva, e para não ser vaiado pela torcida, enquanto fazia movimentos com os braços para que a equipe atacasse, gritava para que os jogadores se defendessem – já que os torcedores não poderiam lhe ouvir. A última temporada rendeu a Pesaola uma de suas mais marcantes imagens: antes dos pênaltis cobrados por Ferrario, ele se agarrava a um terço e fechava os olhos.

Pesaola se aposentou relativamente cedo. Aos 58 anos, após deixar o Napoli, ainda treinou o Campania, equipe amadora de um bairro de Nápoles. Depois de deixar o futebol, ele continuou morando em Nápoles, mesmo depois de ter ficado viúvo, em 1985, e, até ficar incapacitado, era figura constante em transmissões esportivas quando o Napoli era assunto. Pesaola inspirou o renomado diretor de cinema Paolo Sorrentino a criar o personagem Molosso, no filme L'Uomo in più, de 2001.

Antes de falecer, Pesaola declarou que seu único arrependimento na carreira foi não ter treinado Maradona no Napoli – um ano após sua saída, o Pibe de Oro chegou no San Paolo. O ítalo-argentino foi homenageado pela Fiorentina e entrou para o Hall da fama da equipe, além de ter ganhado o título de cidadão honorário de Nápoles. O Petisso nos deixou no final de maio de 2015, e foi lembrado com um minuto de silêncio nos jogos disputados em Nápoles e Florença.

Bruno Pesaola
Nascimento: 28 de julho de 1925, em Buenos Aires, Argentina
Morte: 29 de maio de 2015 em Nápoles, Itália
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Sportivo Dock Sud (1944-46), Roma (1947-50), Novara (1950-52), Napoli (1952-60), Genoa (1960-61), Scafatese (1961-62)
Títulos como jogador: nenhum
Seleção italiana: 1 jogo, nenhum gol 
Carreira como treinador: Scafatese (1961-62), Napoli (1962-63, 1964-68, 1976-77 e 1982-83), Savoia (1963-64), Fiorentina (1968-71), Bologna (1972-76 e 1977-79), Panathinaikos (1979-80), Siracusa (1980-81) e Campania (1984-85)
Títulos como treinador: Serie A (1969), Coppa Italia (1962 e 1974), Copa dos Alpes (1966) e Copa da Liga Anglo-Italiana (1976)

Seja o primeiro a comentar

Postar um comentário