Subscribe Twitter Facebook

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Jogo à italiana: a história dos esquemas táticos no futebol da Bota - parte 2

Herrera e Rocco, dois dos técnicos que mais trouxeram novidades ao futebol italiano
Na semana passada, começamos um novo especial aqui no Quattro Tratti. Resolvemos falar de tática, algo tão caro ao futebol italiano, sempre tão estudado e com grande foco nas ideias e estratégias dos seus treinadores. Falamos sobre o início de tudo, sobre as influências das escolas inglesa e húngara e o desenvolvimento de conceitos próprios na Bota; de WM, WW, Vittorio Pozzo e do Grande Torino. Nos aproximamos do presente nesta segunda etapa, mas iremos recapitular para você. Boa leitura!

>>> Veja aqui a primeira parte do nosso especial sobre tática
 
O auge, a queda e o ressurgimento do jogo à italiana
O fim do Grande Torino foi uma perda imensurável para o futebol italiano. Até então o maior time da história do Belpaese - e talvez ainda seja, por tudo o que representa -, era também a base da seleção azzurra - à época, 10 dos 11 titulares eram granata - e que encantava o país com seu futebol. Enquanto o Torino aos poucos caiu no ostracismo, a rival Juventus voltou a dominar e levou consigo Milan e Inter, na época acompanhados também pela Fiorentina.

Nesse contexto, a presença de estrangeiros ganhou maior relevância, ainda que sempre dentro do limite de três não-italianos para cada clube. Suecos, húngaros, dinamarqueses eram os destaques da liga, ao lado dos oriundi - argentinos, brasileiros e uruguaios de descendência italiana, que já desde os anos 30 passaram a ser importados para o futebol da Bota, assim como para a seleção nacional. Para a Nazionale, agregavam sua habilidade e individualidade para um futebol marcado pela organização tática desde os tempos de Vittorio Pozzo. Na beira do gramado, a presença estrangeira seguiu influente, com húngaros, britânicos e outros do leste europeu comandando vários times na primeira divisão.

Algo que descobri recentemente, porém sem uma fonte exata - um dos grandes problemas do futebol da época, com pouca oferta de material em foto e vídeo, e alguns registros de jornais e rádios - foi uma mudança importante no Grande Torino. Em sua última versão, na temporada 1948-49, sob o comando de Leslie Lievesley e Erno Erbstein, o Torino já apresentava uma das variações do WM que seriam difundidas na Europa nos anos 1950 e 1960, com um "leve" recuo de um dos meio-campistas, que atuava próximo dos defensores e participava com eles do sistema de marcação a homem. No caso, era Giuseppe Grezar quem fazia esse movimento, aparentemente sutil, mas que posteriormente moldaria a próxima grande mudança do futebol.

Do WM, 3-2-2-3, surgia quase um 4-2-4, ainda sem a defesa a quatro justamente alinhada. Não se sabe como, mas talvez Lievesley e Erbstein tenham se inspirado em algum adversário que enfrentaram numa das suas várias viagens internacionais que começaram a fazer após os consecutivos sucessos - numa dessas turnês, tragicamente, aconteceu o Desastre de Superga. Na América do Sul, acompanhada também por outras mudanças de posicionamento do WM, surgiu a diagonal, marca do grande River Plate dos anos 40. La Máquina jogava assim, e da mesma forma atuavam alguns times no Brasil, como o Corinthians e o Flamengo. No clube carioca, o argentino Carlos Volante atuava como Grezar - dez anos antes, por sinal - e popularizou o termo "volante". A função, já sabemos, dava sustentação para a defesa e o time.
A evolução do WM e o sistema das diagonais, quase um 4-2-4 assimétrico, que surgiria primeiro no Brasil, nos anos 50
Ao mesmo tempo, o gioco all’italiana (literalmente jogo à italiana) começava a dar as primeiras caras. O termo, normalmente utilizado para a zona mista, modelo de jogo disseminado nos anos 1970 e predominante até os anos 1980 na Itália, na verdade se refere ao sistema de marcação homem a homem tipicamente italiano, que por décadas consagrou diversos zagueiros no Belpaese. Tudo isso em conjunto com times de linhas baixas e que tinham no contra-ataque seus grandes argumentos ofensivos. Esse modelo de jogo revolucionou a preparação física, a partir de então mais intensa, e o estudo do futebol.

Além dos defensores ótimos no um a um, duas funções desempenhadas por jogadores bastantes técnicos surgiram nesse contexto. Um deles estava atrás da linha defensiva: era o libero (em italiano, quer dizer "livre"), que marcava por zona, "livre" da marcação individual, e que ocupava os espaços e buracos ocasionados pelas perseguições da marcação a homem, também fazendo a saída de bola, saltando linhas e apoiando o regista. O regista aparece como o construtor do jogo, realmente regendo os companheiros com lançamentos precisos e determinando onde, quando e como atacar. Junto com eles, surgiram também os primeiros terzini fluidificanti: defensores laterais que tinham liberdade para atacar, por fora ou por dentro, e causavam desequilíbrio aos adversários, visto que, até então, os laterais se limitavam a defender.

Essa ideia de retranca e contra-ataque, ou catenaccio e contropiede, em italiano, foi a principal característica do primeiro clube da Bota a conquistar sucesso mundial, construindo sua reputação com conquistas continentais e intercontinentais. Era a Grande Inter, nos anos 60, treinada por Helenio Herrera. O treinador se revolucionou, saindo das premissas técnicas da Espanha, do Barcelona e de suas raízes argentinas, e acabou mudando o futebol para sempre. A preparação física intensa surgiu com o franco-argentino, que tinha esse fator como uma das somas da fórmula da vitória. "Técnica + preparação atlética + inteligência = scudetto", era sua mensagem acima da porta do vestiário nerazzurro – como se vê na foto. Herrera ainda tinha outros dogmas. "Defesa: não mais de 30 gols sofridos. Ataque: mais de 100 gols marcados".

A fórmula do sucesso da Grande Inter
Apesar de tudo, mesmo com boas médias de gols marcados e com a qualidade de seus jogadores na frente – Sandro Mazzola, Mario Corso, Luis Suárez, Jair da Costa e Antonio Angelillo, por exemplo –, o time de Herrera foi massivamente criticado, sendo chamado de exemplo de "anti-futebol", por se defender com linhas baixas e preferir o contra-ataque como arma ofensiva. Assim, por exemplo, bateu o Real Madrid dos já "velhinhos" Francisco Gento, Ferenc Puskás e Alfredo Di Stéfano e o Benfica de Mário Coluna e Eusébio. 
Além do mais, o sucesso desse time repercutiu em interpretações ainda mais defensivas do modelo de jogo, com os times pequenos fazendo uso da tática de Herrera, mas não do jeito que o treinador idealizava. Isto gerou críticas do próprio franco-argentino, já que esses times se limitavam apenas a defender, sem oferecer opções de ataque, limitando também a atuação dos jogadores: os defensores ficavam restritos a defender, os meio-campistas a fazer lançamentos, os pontas a correr e fazer cruzamentos e os centroavantes a fazer gols. Longe de uma organização coletiva – o proposto por quem aplicava bem o esquema tático –, o futebol dessas equipes ficou demasiadamente individual.
A versão 1965 da Grande Inter de Herrera
As origens do ferrolho
O catenaccio, um modelo de jogo com estratégia defensiva, privilegiando os contra-ataques e maior segurança, não surge exatamente com Helenio Herrera. Na verdade, no Mundial de 1938, a Suíça apresentou ao mundo o ferrolho suíço, o verrou (tranca ou ferrolho, do francês; ou, no italiano, catenaccio, que significa parafuso ou ferrolho), superando a Alemanha. Do WM, o treinador Karl Rappan colocou um dos meio-campistas na linha dos zagueiros e recuou um desses para atuar atrás da primeira linha, livre de marcação fixa. Por sua vez, esse homem devia fazer marcação dupla ou recuperar bolas, atuando na sobra. Era o primeiro líbero.
O verrou de Rappan
Mais tarde, na Itália, três times chamaram atenção com a ideia de catenaccio e contropiede, ainda antes dos sucessos que os times milaneses teriam com o modelo de jogo, tornando-o popular nos anos 1960. Primeiro, a Triestina de Mario Villini em 1941-42, que fechou a Serie A com um digno oitavo lugar e a terceira defesa menos vazada no campeonato. Posteriormente, a equipe alabardata voltaria ao catenaccio com Nereo Rocco, treinador do time entre 1947 e 1950 – ainda falaremos sobre Rocco. Em um dos campeonatos entre-guerra, em 1944, o Spezia de Ottavio Barbieri surpreendeu ao bater um Grande Torino ainda em formação, reforçado pelo artilheiro Silvio Piola.

Mais tarde, o mais famoso catenaccio da época, a Salernitana de Gipo Viani, que se mostrou um incômodo contra os grandes times do norte, mas acabou rebaixada em 1947-48. O sistema tático e modelo de jogo, baseado na ideia de Antonio Valese, ex-treinador-jogador do clube, recebeu até apelido, vianema, uma brincadeira com o sobrenome do treinador. O vianema basicamente era uma adaptação do WM, na qual Viani tirou o centroavante e colocou um meio-campista entre os zagueiros laterais, recuando o zagueiro central original para atuar atrás da primeira linha, como Rappan fizera na Suíça. A curiosidade é que esse meio-campista adaptado à zagueiro central, Alberto Piccinini, preservava a numeração do centroavante, a camisa 9, e era o próprio quem marcava especificamente o centroavante adversário.
O vianema de Viani: líbero no lugar do centroavante
Na década seguinte, mais especificamente em 1952-53, enquanto Milan e Juventus eram comandados por húngaros, veio o primeiro scudetto de um time que fazia o catenaccio. Comandada por Alfredo Foni, a Inter voltou a ganhar o campeonato depois de 13 anos com um futebol nada agradável e bastante criticado por torcedores e imprensa, mas quase imbatível em campo: apenas 24 gols sofridos em 34 partidas, mas somente 46 gols anotados.

Dessa vez, Foni fez uma adaptação diferente do WM, colocando o zagueiro lateral-direito Ivano Blason atrás da primeira linha, como líbero, e recuou o ponta-direita Gino Armano, que revezava entre a primeira e a terceira linha, uma função que se tornaria popular muitos anos depois, na zona mista, principalmente nos anos 1980, por Bruno Conti, na Roma e na seleção italiana. Armano era o ala tornante, que dava equilíbrio para o poderoso trio Lennart Skoglund, Benito Lorenzi e István Nyers decidir. Mesmo campeão, Foni abandonou o catenaccio na temporada seguinte, ainda levando ao bicampeonato um time que se mostrou forte defensivamente e mais regular, perdendo duas vezes menos e marcando 21 gols a mais.

Se a Inter de Foni foi a primeira a conquistar a Itália com o catenaccio, o Milan de Rocco foi o primeiro a conquistar a Europa. Apesar de Herrera ter acabado mais identificado como sinônimo do esquema tático, foi o treinador rossonero um dos precursores do modelo de jogo no Belpaese, e com a apresentação de versões do módulo em diferentes sistemas de jogo.

Rocco usava o padrão 1-3-3-3 - interpretado por Rappan e Herrera, com algumas diferenças -, que, apesar da aparente semelhança com o 4-3-3, não tem nada a ver e não foi sua origem. O técnico triestino também usou o 1-3-2-2-2 (o vianema), um 1-3-3-3 de sua própria criação, com desenho diferente no meio-campo, o 1-4-4-1 e o 1-4-3-2, com cinco defensores – veja nas "pranchetas" abaixo. Assim, Rocco fez boas e surpreendentes campanhas na primeira divisão com Triestina e Padova, chegando ao segundo lugar com o clube de Trieste em 1947-48, auge do Grande Torino, e ao terceiro lugar com o clube do Vêneto em 1957-58, liderado por Kurt Hamrin, peça importante anos mais tarde no seu Milan.
1-3-3-3
1-4-4-1
1-4-3-2
Em Milão, após as sólidas campanhas pelo Padova, Rocco teve sucesso imediato, levando o scudetto em 1961-62 e a Copa dos Campeões em 1962-63, superando o Benfica de Coluna e Eusébio. O time encarnado apresentava o 4-2-4 disseminado pelo húngaro Béla Guttmann, que trazia a novidade tática do Brasil.

O Milan de Rocco era baseado no WM, com certas adaptações e, claro, o catenaccio e contropiede. Cesare Maldini liderava a defesa, dando cobertura à primeira linha e equilibrando a marcação a homem de Víctor Benítez e Giovanni Trapattoni, que sustentavam o jogo para Dino Sani e Gianni Rivera distribuírem e apoiarem o trio de ataque que tinha como destaque e artilheiro José Altafini. Mais tarde, Rocco voltaria a repetir o mesmo caminho, levando o scudetto em 1967-68 e a Copa dos Campeões em 1968-69, além da Copa Intercontinental, em 1969, sempre com Trapattoni e Rivera, e dessa vez reforçado com Roberto Rosato, Karl-Heinz Schnellinger, Kurt Hamrin, Angelo Sormani e Pierino Prati.

Rocco e seu discípulo Trapattoni, em tempos de Milan
O declínio do catenaccio e um novo jeito de entender futebol
O sucesso de Inter e Milan no catenaccio também foi acompanhado de melhor observação dos adversários, especialmente os internacionais, que tanto criticavam o modelo de jogo. O melhor entendimento dos adversários quanto aos esquemas táticos dos italianos ajudou a frear o desempenho internacional dos times da Bota. Entre a metade dos anos 1950 e fim dos anos 1960, os times italianos chegaram a 10 de 27 finais europeias, e levaram cinco títulos – quatro deles na Copa dos Campeões. Na década seguinte, com mais competições continentais acontecendo, foram seis decisões, e apenas dois títulos, em 33 torneios disputados.

Ainda nos anos 1960, a soberba Inter sucumbiu ao veloz e sagaz Celtic no 4-2-4 de Jock Stein em 1966-67. Dois anos depois, porém, o Milan resistiu e goleou a primeira versão do Ajax de Rinus Michels e seu totaalvoetbal (futebol total, literalmente). Na década seguinte, o time holandês simplesmente destruiria o catenaccio e a reputação dos times italianos, superando os envelhecidos times de Inter e Juventus em 1971-72 e 1972-73 com a constante movimentação e marcação agressiva, superando a marcação a homem e os contra-ataques.

Herrera, já velho, mostra seu time e como todos passaram a copiar e gerar encaixes óbvios
Simultaneamente, a seleção italiana também sucumbiu com o catenaccio. A seleção foi eliminada na fase de grupos da Copa de 1966, em uma de suas piores campanhas em mundiais. Renasceu pouco depois: a Squadra Azzurra foi campeã europeia em 1968, e montou grande time na Copa do Mundo de 1970, treinada em ambas as ocasiões por Ferruccio Valcareggi. O treinador, porém, limitava espaço entre Mazzola e Rivera – só um jogava como titular, com a famosa e pouco agradável staffetta – , apostando nos gols de Roberto Boninsegna e Gigi Riva e a solidez defensiva.

Naquela Copa, a Nazionale fez fase de grupos modesta, com apenas um gol e uma vitória, além de dois empates por zero a zero, contra Uruguai e Israel. Depois, goleada sobre os anfitriões mexicanos e, nas semifinais, a equipe fez um dos jogos mais espetaculares do futebol, à época chamado de o jogo do século, terminado com vitória épica a Alemanha Ocidental. Após estar vencendo por quase 90 minutos e sofrer o empate no último lance, a Itália levou a virada na prorrogação; voltou a estar na frente no placar (3 a 2) e sofreu novo empate. Foi aí que Rivera decidiu e levou o time para a fatídica final – para os azzurri.

Aquela seleção seria totalmente superada pelo Brasil, que conhecia bem a marcação a homem e as perseguições individuais. Os canarinhos promoveram a desordem no sistema defensivo italiano com Carlos Alberto Torres, Gérson, Rivellino, Jairzinho, Tostão e Pelé. O ocaso do catenaccio na seleção aconteceu com um show do futebol ofensivista à brasileira.

Os anos 1970 foram tempos difíceis para os italianos, especialmente para o futebol. A "morte" do catenaccio após os insucessos internacionais fez o campeonato fechar espaço para estrangeiros e distanciou os clubes italianos de uma final da Copa dos Campeões por 10 anos - título, mesmo, só depois de 16 temporadas. Mas enquanto no Belpaese se praticava o futebol do catenaccio e contropiede, nos outros centros europeus surgiam os sistemas com defesa a quatro, as primeiras versões do 4-4-2 após o 4-3-3 e a marcação a zona voltava a ser uma tendência com o totaalvoetbal de Michels e Cruyff. Era hora de mudar.

A Itália entra na zona
Na Bota, muitos técnicos decidiram por manter o catenaccio. O futebol do país já estava sob influência da marcação por zona introduzida por Nils Liedholm, um dos primeiros a enfrentar as críticas por causa da preferência histórica dos italianos por marcação a homem. Com a introdução do novo tipo de marcação, o técnico sueco teria grande prestígio nos anos 1980, inspirando outros treinadores e clubes apostarem na mudança – mas isso é assunto para outra parte.

Mesmo para aqueles que optaram por manter o catenaccio algumas mudanças foram necessárias. Assim, na segunda metade dos anos 1970, Giovanni Trapattoni e Luigi Radice conseguiram sucesso ao fazer adaptações em termos de marcação e posicionamento no tradicional 1-3-3-3, a versão mais repetida do catenaccio.

Basicamente, Trapattoni e Radice apostaram em misturar as duas formas de marcação, a homem e por zona. Os defensores, criados no contexto de marcação apertada e perseguições individuais, tinham como referência o jogador adversário, enquanto os meio-campistas e o líbero tinham o espaço como referência, com atenção na cobertura e compensações aos defensores. Era, assim, a zona mista, a próxima evolução do jogo à italiana. Em termos de posicionamento, a ideia era ter superioridade numérica no meio-campo, setor que sofreu  pela baixa presença de jogadores por ali nos tempos de catenaccio.
Versão tradicional da zona mista
A zona mista, como evolução do catenaccio, aproveitou algumas funções que começaram a ser difundidas graças à Inter de Herrera, como o terzino fluidificante e o ala tornante: o lateral-esquerdo tinha liberdade para apoiar e o ponta-direita, por causa da marcação a homem, devia seguir o seu adversário, e assim passou a atuar mais recuado que o normal. Por causa da nova mudança na regra do impedimento, o líbero também sofreu mudança de posicionamento, passando a atuar mais próximo dos defensores – e não tão atrás, próximo do goleiro –, fazendo a cobertura ou dobrando a marcação.

O modelo de jogo também traz uma mudança de estratégia, com os times buscando mais o ataque e a posse de bola. Isso também afetou o papel dos líberos italianos, cuja maior inspiração, agora, vinha de Franz Beckenbauer e dos líberos holandeses, como Ruud Krol. Agora, eles passavam a ter maior peso na construção do jogo, avançando para o meio-campo e apoiando de forma mais contínua o regista, o playmaker do time - seja ele mais adiantado ou recuado.

Com isso, muitos meio-campistas passaram a assumir a função de líbero, a exemplo de Agostino Di Bartolomei, que, inclusive, usava a 10, na Roma, e Andrea Mandorlini, hoje treinador do Verona e então líbero com Trapattoni na Inter – até mesmo o meia-atacante Zbigniew Boniek chegou a jogar assim, em alguns momentos da fase final da carreira. Mas as grandes estrelas na função de "novo líbero" foram Gaetano Scirea e Franco Baresi, ambos desenvolvidos no catenaccio – para muitos, os dois se juntam a Beckenbauer na tríade dos melhores intérpretes da função em toda a história. O primeiro sempre sonhou ser regista e começou como meio-campista, mas virou líbero na Atalanta; o segundo, um defensor de físico incomum, baixo e sem muita massa muscular, mas com senso de posicionamento e leitura de jogo extraordinários.

Trapattoni, da Juventus, e Radice, do Torino, em um dérbi turinense dos anos 1970
Do 1-3-3-3 padrão, os times passaram a atuar em 4-4-2 assimétricos, quase sempre contando com o terzino fluidificante à esquerda e o ala tornante à direita. No novo modelo de jogo, muitas funções foram redefinidas e são usadas até hoje assim.

Entre essas podemos citar a figura do mediano, meio-campista central à frente da defesa e mais recuado, e também o mezz'ala ou interno, antes meia-atacantes, e a partir de então meio-campistas laterais em um trio: os "motorzinhos", agressivos na marcação e ricos em movimentos ofensivos, entrando na área. Também podemos falar do regista, não apenas aquele que nos acostumamos hoje na frente da defesa, mas sempre o construtor do jogo do time, definitivamente o playmaker. O regista podia atuar mais recuado, como Paulo Roberto Falcão, por exemplo, ou mais adiantado, vide Michel Platini e Lothar Matthäus. As modificações criaram também a figura do seconda punta (segundo atacante), que largava a ponta esquerda para transitar no último terço do campo, usando sua velocidade e habilidade para apoiar o centroavante, geralmente mais fixo, usado como referência física e de bolas aéreas para o time.

Que dupla! Scirea e Baresi em campo
Mas a zona mista também teve variações de sistema, como com um losango no meio-campo, então com dois mezz'ali ou interni, e a figura do trequartista, um regista transformado em meia-atacante. A zona mista partia sempre da premissa de ser um 4-4-2 assimétrico. Era um modelo de jogo, e não exatamente um esquema tático, mas influenciou alguns sistemas posteriores, como o 3-5-2 e o 4-3-1-2, que se tornariam populares nos anos 1990 e voltaram a ser utilizados nos anos 2010 - assunto nosso para o futuro. A zona mista também foi adaptada por treinadores da marcação por zona, como Nils Liedholm (Milan 1978-79 e Roma 1982-83) e Osvaldo Bagnoli (Verona 1984-85).

Dessa forma, comandado por Radice, o Torino ganhou seu último scudetto na temporada 1975-76, 27 anos depois do Desastre de Superga. Além da contribuição com a zona mista, o treinador foi um dos primeiros a importar o pressing, a marcação pressão, para a Itália. Também assim, Trapattoni se consagrou um dos maiores treinadores do futebol italiano, dominando o campeonato com a Juventus entre o final dos anos 1970 e início dos 1980 – levantando também a Copa dos Campeões e o Mundial Interclubes –, e tirando a Inter da seca nacional em 1989 e continental em 1991. Ao todo, Trap conquistou 17 troféus nesse período, se tornando o recordista de títulos da Serie A (sete) e da Copa Uefa (três). É o técnico italiano com mais taças levantadas em toda a história.

Torino de Radice, 1975-76
Primeira Juventus de Trapattoni, 1976-77 e 1977-78
Juventus modificada por Trap, em 1983-84
Enzo Bearzot foi outro a fazer sucesso com a zona mista, conduzindo a Itália para o título mundial em 1982. Entre outros exemplos, também no Belpaese, adaptações do modelo acabaram em scudetti em diversas ocasiões – veja os desenhos táticos abaixo. Os melhores expoentes deste futebol foram a Inter de 1979-80 com o losango de Eugenio Bersellini e a dupla Evaristo Beccalossi e Alessandro Altobelli; o grande Napoli de Ottavio Bianchi e, depois, de Alberto Bigon, em 1986-87 e 1989-90 com suportes para o trio Ma-Gi-Ca (Diego Maradona, Bruno Giordano e Andrea Carnevale, depois Careca) desequilibrar; e a grande Sampdoria de Vujadin Boskov, campeã em 1990-91 com Pietro Vierchowod, Toninho Cerezo, Roberto Mancini e Gianluca Vialli.
O losango de Bersellini na Inter 1979-80
A retranca de Bianchi no Napoli 1986-87: líbero, três zagueiros, três volantes e o trio Ma-Gi-Ca
A Inter dos recordes de Trapattoni, 1988-89
Mais abaixo: desenhos táticos parecidos com a zona mista, mas marcação por zona.

Roma de Liedholm, 1982-83
Verona de Bagnoli, 1984-85
Nossa segunda viagem pelo mundo da tática italiana termina por aqui. Na terceira e penúltima parte desse especial, nos aproximamos ainda mais da contemporaneidade. Será a hora de falarmos do futebol italiano no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 – outra vez –, mas sob outra perspectiva. Qual? Aguarde e confie.

Seja o primeiro a comentar

Postar um comentário