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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Brasileiros no Calcio: Nenê

Nenê comemora scudetto do Cagliari ao lado de Riva: ícones do clube (Repubblica)
Filho de peixe, peixinho é? No caso de Nenê, sim. Claudio Olinto de Carvalho, atacante, herdou até mesmo o apelido do pai, Hermínio, que foi lateral. A trajetória dos dois poderia ser bem parecida, com diferença apenas na posição dos dois em campo. Mas enquanto o Nenê pai jogou a vida inteira no Santos, seu filho apenas começou no Peixe: desenvolveu sua carreira quase que inteiramente na Itália, onde atuou por Juventus e Cagliari, conquistando o único scudetto do pequeno time da Sardenha.

Nenê teve apenas dois anos de futebol no Brasil. Mais precisamente, dois anos convivendo com o esquadrão santista do início dos anos 60. Ele era coadjuvante na equipe tricampeã paulista em 1960, 61 e 62, que tinha lendas como Pepe, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Zito e Pelé. Apesar de ser criado na Vila – lá jogou do juvenil ao time de aspirantes –, não teve o mesmo espaço para mostrar o seu futebol na equipe principal. Mesmo assim, o atacante conquistou nove títulos com a camisa do Santos, dentre os quais duas Libertadores, dois Brasileiros e um Mundial Interclubes.

Em uma das turnês europeias com o Santos, Nenê pisou pela primeira vez no gramado do estádio Comunale de Turim, onde enfrentou a Juventus, em amistoso. Centroavante oportunista e habilidoso, Nenê chamou a atenção do diretor esportivo da Vecchia Signora, Giampiero Boniperti, que pediu sua contratação. Então, em 1963 Nenê trocou o preto e branco da Vila pelo bianconero da Juve. Foi um dos jogadores que se destacaram com a camisa do Santos, mas não a ponto de desbancarem os fortíssimos atacantes santistas e que acabaram no futebol da Itália – casos de Angelo Sormani e Emanuele Del Vecchio.

Nenê integrou uma das Juventus mais brasileiras da história – ainda que isso tenha durado pouco tempo. O técnico, já há um ano, era o brasileiro Paulo Amaral – que foi preparador físico da Seleção no bicampeonato mundial em 1958 e 1962 –, e a Velha Senhora também contratara o compatriota Dino da Costa, ex-Botafogo, Roma e Fiorentina. Em sua primeira temporada, Nenê não deixou a desejar e fez 11 gols em 28 jogos, terminando a temporada como o nono maior artilheiro da Serie A. Porém, a Juventus não teve grande rendimento: Amaral foi demitido no início o campeonato e Eraldo Monzeglio não conseguiu dar jeito no time, que terminou a Serie A na quinta colocação. Além disso, Nenê teve atritos com o Bola de Ouro Omar Sívori, atacante argentino que era capitão da equipe. Tudo isso somado levou a uma curta passagem pelo norte da Itália.

Nenê na Juventus (Wikipedia)
Promovido à Serie A pela primeira vez em sua história, o Cagliari apostou em Nenê e o contratou para ser uma das referências da equipe treinada por Arturo Silvestri, ex-jogador do Pisa, Modena e Milan. Logo nos primeiros treinos, Silvestri viu no brasileiro potencial para ser ponta-direita – o que, de certa forma, aproximou o futebol do Nenê filho com o do seu pai. Mais longe do gol, Nenê não perdeu o faro de artilheiro, mas mostrou-se comprometido na nova posição, destacando-se com velocidade pelas alas e infiltrações pelo meio. Os cinco gols marcados por Nenê em 26 jogos ajudaram a não apenas manter a equipe sarda na elite, mas também a levá-la à a 7ª colocação. Uma bela estreia.

O brasileiro passou mais dois anos jogando como ala/ponta, até a chegada de Manlio Scopigno ao comando dos rossoblù. O novo treinador aproveitou a versatilidade do brasileiro e o colocou para jogar no meio-campo, formando um tridente ao lado do argentino Miguel Ángel Longo e do italiano Pierluigi Cera. No ataque, além do intocável Gigi Riva, jogavam Roberto Boninsegna, Francesco Rizzo e Gerry Hitchens. Jogando mais recuado, Nenê deixou de fazer muitos gols e nem de longe chegou perto de repetir a marca que alcançou em seu ano na Juventus.

A própria Juve viu o talento que havia desperdiçado e tentou recontratar Nenê para a temporada 1967-68, aproveitando-se do scudetto conquistado na temporada anterior para tentar seduzir o jogador. O Cagliari, porém, segurou a sua joia. Na temporada seguinte, Nenê ajudaria o Cagliari a ser vice-campeão italiano – algo improvável anos antes do investimento feito por um conglomerado de empresas, dentre as quais a Saras, de Angelo Moratti, antigo dono da Inter.

Se a festa de 1968-69 já parecia demais, o ano seguinte reservaria o topo da Itália para Nenê e o Cagliari. O brasileiro conquistaria, ao lado de craques que viriam a ser finalistas da Copa do Mundo do México, em 1970, o único scudetto da equipe sarda. Jogando junto a Gigi Riva, Sergio Gori, Enrico Albertosi, Angelo Domenghini, Comunardo Niccolai, Pierluigi Cera – estes seis convocados pela Itália para o Mundial –, Mario Brugnera, Giuseppe Tomasini e Mario Martiradonna, fez parte de um time que entrou para a história do futebol italiano, sendo a primeira equipe de “fora” da Bota campeã da primeira divisão. Até hoje, nenhuma outra equipe de uma ilha italiana – Sardenha ou Sicília – levantou a taça da Serie A.

Nenê e o time do Cagliari com o scudetto no peito, na temporada 1970-71 (Wikipedia)
No ano seguinte, o Cagliari jogou a Copa dos Campeões. Estreou bem, eliminando os franceses do Saint-Étienne, mas acabaram caindo nas oitavas de final contra o Atlético de Madrid – a ausência do lesionado Riva no jogo de volta pesou. A última temporada acima da média de Nenê e dos sardos foi em 1971-72, quando o time – que manteve grande parte do elenco campeão – ficou com a 4ª posição na Serie A e garantiu uma vaga na Copa Uefa.

Durante sua estadia no clube sardo, Nenê ainda participou de um experimento do Cagliari, em 1967: durante o verão, época de férias nos campeonatos europeus, os cagliaritanos inscreveram uma equipe no campeonato norte-americano, chamada Chicago Mustangs. O brasileiro foi um dos atletas que participaram da empreitada.

Nenê jogou pelos rossoblù até 1976. As 13 temporadas, 311 jogos e 23 gols colocaram o brasileiro como o sexto jogador com mais partidas na história do Cagliari. Considerando apenas as partidas disputadas na Serie A, Nenê foi o jogador que mais atuou pelo clube durante muito tempo. Sua marca só foi batida em 2015, quando o volante Daniele Conti o superou – são 333 jogos para o italiano. Os serviços prestados com a camisa vermelha e azul lhe renderam um lugar no Hall da Fama da equipe sarda.

Após encerrar a carreira como jogador, Nenê continuou na Itália, onde já havia se estabelecido – sua esposa era italiana e ele tinha dois filhos nascidos no país. Aposentado, foi ser treinador de futebol, e começou sua trajetória nos juvenis da Fiorentina. Com o pé direito, aliás: na estreia, faturou o Campeonato Primavera e a Coppa Italia da categoria. Três anos depois, teve a oportunidade de ser técnico profissional do Sant’Elena Quartu, modesta equipe da província de Cagliari. Na oportunidade, os alviverdes conseguiram sua melhor participação numa competição local, terminando na oitava colocação da Serie C2. Nenê ainda treinou a Paganese, na C1, mas acabou sendo rebaixado.

Depois disso, o brasileiro recebeu o convite para trabalhar na base do Cagliari, onde ficou por cinco anos, até 1988. Foi nesse mesmo ano que, finalmente, Nenê voltou à Juventus e a Turim. O brasileiro trabalhou por 14 anos para os bianconeri, até 2002, como treinador e olheiro. Ele ajudou a descobrir e a moldar diversas promessas que viriam a se consagrar na equipe principal.

Embora tenha sido uma grande revelação brasileira, Nenê até hoje é mais conhecido e respeitado na Itália que em sua pátria-mãe. Atualmente, com 73 anos, ele vive em uma casa de repouso em Pirri, município da província de Cagliari.

Claudio Olinto de Carvalho, o Nenê
Nascimento: 1º de fevereiro de 1942, em Santos-SP
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Santos (1960-63), Juventus (1963-64), Cagliari (1964-76) e Chicago Mustangs (1967).
Títulos conquistados: Campeonato Paulista (1960, 1961 e 1962); Taça Brasil (1961 e 1962); Torneio Rio-São Paulo (1963); Copa Libertadores (1962 e 1963); Copa Intercontinental (1962); Campeonato Italiano (1969-70); Jogos Panamericanos (1963).
Clubes como treinador: Sant’Elena Quartu (1981-82) e Paganese (1982-83)
Pela seleção brasileira (pré-olímpica): 4 jogos e 1 gol

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Jogadores/Técnicos: Bruno Pesaola

Amado pela torcida do Napoli, Pesaola fez história no clube como jogador e treinador (Ansa)
28 de julho de 2015. Um dos maiores ídolos do Napoli completaria 90 anos. Foi por pouco: Bruno Pesaola, argentino de Buenos Aires – mas napolitano de coração, segundo o próprio –, faleceu no final de maio, deixando a cidade de Nápoles enlutada pela perda de um ícone azzurro. Conhecido como "Baixinho" – petisso, em espanhol –, Pesaola vestiu a camisa do clube por oito anos e ainda treinou os campanos em quatro oportunidades. Uma daquelas bandeiras tão caras ao futebol italiano.

Muito antes de se tornar uma figura tão identificada com o Napoli, o Petisso Pesaola viveu toda sua juventude na Argentina. Seu pai, Gaetano Pesaola, era italiano e se mudou para a América do Sul no início dos anos 1920, onde conheceu a espanhola Inocencia Lema. Em 1925, nasceu o filho Bruno, que viveria em Avellaneda e Buenos Aires até os 22 anos. O Petisso iniciou a carreira nas categorias de base do River Plate, ao lado de um tal Alfredo Di Stéfano. Entre 1939 e 1944 ficou nos Millionarios, mas por causa do sucesso de Félix Loustau, nunca chegou a jogar pelo time titular, treinado por Renato Cesarini – à época não eram permitidas substituições. Pesaola jogou dois anos no Dock Sud, time da rabeira da tabela da segunda divisão argentina. Tudo mudou quando ele foi para a Itália, em 1947, ajudado por um parente.

Pesaola acabou assinando com a Roma ao chegar na Itália e logo se destacou como ala avançado pela esquerda. Muito veloz e habilidoso, e com bom aproveitamento nos cruzamentos, o Baixinho dominou o flanco do time romano, resolvendo uma carência do elenco, em uma época de vacas bem magras dos giallorossi. Em três anos, se tornou popular e até apareceu em dois filmes sobre futebol da época. Em campo, disputou 90 partidas e marcou 20 gols, até que lesões graves na tíbia e no perônio quase acabaram com sua carreira.

A contusão fez com que o atacante perdesse espaço na Roma e acabasse negociando com a Cremonese, à época na Serie  B. Porém, o atacante Silvio Piola pediu para a diretoria do Novara tentar a contratação do argentino, que ele acreditava ser o seu parceiro ideal após a aposentadoria de Pietro Ferraris. Assim, Pesaola acabou tendo seu destino mudado depois que os azzurri pagaram a conta do hotel em Cremona – foi esse o acerto para a rescisão do contrato – e o levaram ao Piemonte.

Emprestado, colocaria sua carreira nos eixos novamente e seria apresentado à cidade em que faria parte da sua vida. Em dois anos, formou uma dupla de peso com Piola – maior artilheiro da Serie A –, disputou 64 jogos e fez 15 gols. No segundo ano, marcou oito, na melhor campanha da história do Novara, um oitavo lugar no Italiano.

Fora de campo, o argentino era um apreciador da noite, do uísque e principalmente dos cigarros, que fumava compulsivamente. Foi no ambiente das mesas de pôquer que conheceu Ornella Olivieri, miss Novara, sua esposa, com quem teve um filho – Zap Mangusta, nome artístico de Roberto Pesaola, se tornou um premiado escritor, dramaturgo, roteirista e radialista italiano. Sua esposa Ornella lhe orientou a acertar com o Napoli, em 1952. Com proposta dos azzurri e do Milan, ela convenceu o marido a ir para Nápoles, uma cidade que considerava mais aprazível, e na qual morava um irmão. Uma escolha de vida, pois foi lá que a família se estabeleceu para o resto da vida, com breves interrupções.

"Nápoles é como La Boca, em Buenos Aires", disse Pesaola, ao jornal La Repubblica, em 2007. "Cores, gente, barulho, magia, alegria, música. Mas aqui tem o mar, e lá apenas um canal". Assim, Pesaola passou a noite de núpcias e a lua de mel na ilha de Capri e em Positano, e logo foi para a pré-temporada napolitana. Começava muito bem.

Além de Pesaola, o Napoli do presidente Achille Lauro havia feito outra contratação de peso: o atacante sueco Hasse Jeppson, que brilhou com a camisa de sua seleção – terceira na Copa do Mundo de 1950 e prata na Olimpíada de 1948 – e com a Atalanta. Os dois se juntaram a Amedeo Amadei e formaram um dos mais fortes ataques da história do Napoli, que ficou formado por quatro anos. Sob o comando de Eraldo Monzeglio, o trio infernizou defesas e levou os partenopei a concluir o campeonato na quarta, na quinta e na sexta posição, respectivamente, nos três primeiros anos – apesar da quarta posição na primeira temporada, os azzurri brigaram pelo título até o final, mas a Inter levou. No quarto e último, o relacionamento entre jogadores e técnico ficou complicado e refletiu em campo, com a queda brusca na tabela – o Napoli acabou a temporada em 14º e com Amadei como treinador. Nem mesmo a chegada do brasileiro Luís Vinício ajudou a levantar a equipe.

Na temporada seguinte, Amadei continuou como treinador e acabou trocando Pesaola de posição. Com a saída de Jeppson e a aposentadoria de Amadei, Vinício ficava no comando de ataque, no lugar que era ocupado pelos dois, e o Petisso acabou recuado para a posição de meia-atacante. Pesaola continuou jogando bem, e teve como maior destaque naquela temporada uma doppietta em San Siro contra o Milan de Juan Schiaffino e Niels Liedholm: a partida, encerrada em 5 a 3, chegou a ter um 5 a 0 para o Napoli no primeiro tempo.

Nessa época, foi convocado para a seleção da Itália, por ser oriundo, e disputou sua única partida com a camisa da Nazionale. A maior glória, porém, foi no ano seguinte: a melhor campanha de Pesaola com o time napolitano aconteceu em 1957-58, quando ele e Vinício foram fundamentais para levar o Napoli novamente ao quarto lugar, com o segundo melhor ataque da competição. Naquele ano, marcou um gol contra a Inter em San Siro: roubou a bola de um defensor e acertou o ângulo. Este tento foi utilizado pela Rai como abertura do programa Domenica Sportiva durante anos.

Capitão da equipe desde 1953, Pesaola viveu outro grande momento na história do clube: a participação na inauguração do estádio San Paolo – à época, chamado de Del Sole –, em uma partida em que o Napoli fez 2 a 1 sobre a rival Juventus, pela Serie A 1959-60. Em 1960, a inimizade com o técnico e ex-companheiro Amadei fez com que ele deixasse o clube, encerrando sua passagem com 240 jogos e 27 gols marcados. Depois disso, jogou um ano pelo Genoa na Serie B e depois foi ser jogador e treinador da Scafatese, na Serie D. Assim, ele voltaria a viver próximo a Napoli, na província de Salerno.

Altafini, Pesaola e Sívori: já como treinador, o Petisso comandou o Napoli em outra época marcante (Wikipedia)
O trabalho pelos canarinhos de Scafati não foi maravilhoso, mas a proximidade com o presidente Lauro e o fato de estar vivendo a realidade campana outra vez fez com que Pesaola logo voltasse para ajudar o Napoli, que vivia situação complicada. A equipe havia sido rebaixada no ano seguinte à sua saída e estava muito mal na Serie B. Assim, em meio à temporada 1961-62, em janeiro, o ítalo-argentino foi chamado às pressas para ser o treinador da equipe, substituindo Fioravante Baldi. Sabendo o caminho das pedras, Pesaola fez um pequeno milagre: levou a equipe ao vice-campeonato da série cadetta e ao acesso à primeira divisão e ainda deu ao Napoli o seu primeiro título, a Coppa Italia. O Baixinho dirigiu o time apenas na semifinal contra o Mantova e na final contra a Spal, mas escreveu seu nome na história mais uma vez.

Pesaola não tinha a habilitação necessária para dirigir um time da primeira divisão. Então o Napoli convidou Eraldo Monzeglio para o cargo de diretor técnico, e os dois dividiriam o comando da equipe. A divergência de ideias não deu certo e os partenopei acabaram rebaixados, mesmo com o surgimento de futuros ícones do clube, como o meia Antonio Juliano e o atacante brasileiro Cané. Após passar quatro meses dirigindo o amador Savoia, Pesaola voltou ao Napoli para a temporada 1964-65. O time ainda estava na Serie B, e valorizando Juliano – que se tornaria capitão da equipe – e Cané, o Petisso conseguiu um novo vice-campeonato e outro acesso para seu currículo. Ali estava para começar o auge de sua carreira como treinador. Pesaola se tornaria um dos principais técnicos do país, concorrendo com ícones como Helenio Herrera, da Inter, e Nereo Rocco, do Milan – os dois principais esquadrões daquela época.

As três temporadas seguintes foram as melhores temporadas na história do Napoli antes da Era Diego Maradona. Logo no retorno para a elite, o clube de Fuorigrotta fez duas contratações de peso: José Altafini e Omar Sívori, que chegavam de Milan e Juventus, respectivamente, com os currículos cheios de títulos, gols e prêmios individuais. Brigando pelo título da Serie A até o fim, o Napoli ficou com a terceira posição, atrás do vice Bologna e da campeã Inter. 

O trio de ataque sul-americano funcionou bem e os azzurri faturaram o título da Copa dos Alpes, disputada na parte final da temporada – primeiro título internacional napolitano. No último jogo do torneio disputado entre quatro times italianos e quatro suíços, Pesaola deu uma tacada de mestre. Ele, que já havia convencido Sívori a trocar a Juve pelo Napoli, por causa dos problemas que o atacante tinha com o técnico paraguaio Heriberto Herrera, estimulou seu compatriota através da raiva que sentia pelo ex-comandante. No intervalo da partida contra o Servette, ele pediu que fosse anunciado no alto-falante do estádio que a Juventus vencia – o que tiraria o título azzurro. A informação era falsa, mas Pesaola provocou Sívori, que não estava jogando bem. O ex-Bola de Ouro voltou enfurecido a campo e ajudou a decidir a partida, que fez com que os sulistas ficassem com a taça.

Nos dois anos seguintes, o Napoli continuou jogando um futebol muito bonito, um dos melhores de toda a Itália. Em 1966-67, a equipe ficou com a quarta posição, em um campeonato muito disputado, que teve a Juventus como campeã, cinco pontos à frente dos azzurri. Em 1967-68, a equipe dirigida por Pesaola ganhou o reforço de Dino Zoff, continuou jogando muito bem e chegou ao vice-campeonato, até então o melhor resultado de sua história, ficando atrás do histórico Milan de Rocco – que seria campeão europeu no ano seguinte.

O Petisso é identificado com o Napoli, mas também com a Fiorentina:
treinou o time no segundo scudetto da história gigliatta (Wikipedia)
O estilo de Pesaola já estava definido. Seus times jogavam da mesma forma que as equipes em que ele atuava como jogador: praticavam um futebol bastante vertical, explorando a velocidade pelos lados do campo e com um goleador na frente, abastecido pelos alas e por um regista ofensivo. Fora de campo, o Petisso era conhecido como um motivador de primeira linha, vide o caso de Sívori e o fato de ter conseguido controlar jogadores de personalidade forte e já em final de carreira em um mesmo elenco. Pesaola convidava Sívori e Altafini para jantar com frequência, para que os dois, de jeitos tão diferentes, não brigassem. O treinador também era conhecido por fumar bastante durante os jogos e também por usar um sobretudo de pele de camelo como talismã. Tudo indicava que os seus métodos continuassem a serviço do Napoli, mas após o vice-campeonato, o argentino deixou o San Paolo porque facções contrárias a ele e ao presidente ameaçavam de morte a sua esposa.

O Baixinho chegou a receber uma proposta da Juventus, mas fechou com a Fiorentina, que lhe oferecera o dobro de salário – 120 milhões de liras. Logo em seu ano de estreia pela equipe de Florença, Pesaola levou a Viola ao segundo – e, até hoje, último – scudetto de sua história. Foi um campeonato bastante disputado e no primeiro turno o Milan tinha o histórico Cagliari de Gigi Riva como seu maior rival. Em uma virada antológica, a Fiorentina de Amarildo, Giancarlo De Sisti e Mario Maraschi ultrapassou os adversários e ainda conquistou o título com uma rodada de antecedência, batendo a odiada Juventus em Turim. A equipe foi a primeira na história a conquistar o campeonato sem perder partidas fora de casa e teve como destaque uma defesa muito forte, que sofreu somente 18 gols.

Com o título mais importante de sua carreira debaixo do braço, Pesaola recebeu propostas da Inter e do Napoli. Mesmo sob contrato com a Fiorentina, o ítalo-argentino acertou com a equipe de Milão, mas quando viu a proposta napolitana, balançou – afinal, amava Nápoles. Assinou contrato com os três clubes, mas prometeu ao presidente do seu antigo clube, Corrado Ferlaino, que voltaria para a Campânia caso ele contratasse Amarildo e dois jogadores da Inter que estavam em conflito com a diretoria: Angelo Domenghini e a bandeira Sandro Mazzola.

Ferlaino não fechou com nenhum, Pesaola desistiu da nova aventura italiana e foi denunciado à Federação Italiana de Futebol pelo dirigente. O Petisso poderia ter sido banido do futebol por ter assinado contrato com três clubes, mas o comandante da FIGC, Artemio Franchi, muito ligado à Fiorentina – o estádio do clube foi batizado com seu nome, anos depois – lhe concedeu uma graça: se ficasse em Florença, escaparia da punição. Assim foi e Pesaola treinou os gigliatti por mais um ano e meio, sem conseguir levar a equipe a glórias novamente, apesar de ter vencido o prêmio Seminatore d'Oro, como o melhor técnico do país. Após uma metade de Serie A ruim em 1970-71, Pesaola acabou demitido em janeiro.

Na Fiorentina, batendo uma bolinha com craques como Amarildo e De Sisti
e vestido com seu talismã, um casaco de pele de camelo (Wikipedia)
A demissão deixou o argentino parado por uma temporada e meia. No entanto, quando voltou a trabalhar, Bruno Pesaola foi para o outro lado dos Montes Apeninos, mais precisamente para a cidade de Bolonha. Em um Bologna que tinha jogadores experientes como Giacomo Bulgarelli e Giuseppe Savoldi, o Petisso passou quatro anos, nos quais deixou a equipe em posições intermediárias na Serie A – três vezes na sétima e uma na nona. A grande glória neste período foi a conquista da Coppa Italia, em 1974, passando por Napoli, Milan e Inter nas fases de grupos e batendo o Palermo na final.

Depois de quatro temporadas no Bologna, Pesaola voltou para o Napoli, onde encontrou velhos conhecidos, como Savoldi (ex-Bologna), Juliano (já uma bandeira napolitana) e Luciano Chiarughi, jogador importante em seus tempos de Fiorentina. A equipe ainda tinha dois defensores duros, como Tarcisio Burgnich e Giuseppe Bruscolotti, e apesar da posição intermediária na Serie A – sétimo lugar – a temporada 1976-77 foi positiva. Os azzurri ficaram com o título da Copa da Liga Anglo-Italiana, com vitória sobre o Southampton, e chegaram às semifinais da Coppa Italia e da Recopa Europeia.

Mesmo com a boa temporada, Pesaola acabou deixando o Napoli e voltando para o Bologna. O Petisso conduziu os felsinei a duas temporadas em meio de tabela e depois foi para a Grécia, onde quase levou o Panathinaikos ao título local. Já perto de se aposentar, dirigiu o Siracusa na Serie C1 e, no meio da temporada 1982-83, foi chamado às pressas para tentar salvar o Napoli do rebaixamento. 

Como diretor técnico – o treinador era Gennaro Rambone –, ele ajudou um time com bons jogadores, como Bruscolotti, Luciano Castellini, Moreno Ferrario e as estrelas Ruud Krol e Ramón Díaz a escapar de uma vergonhosa queda. Para salvar o time do rebaixamento, ele apostou em uma tática bastante defensiva, e para não ser vaiado pela torcida, enquanto fazia movimentos com os braços para que a equipe atacasse, gritava para que os jogadores se defendessem – já que os torcedores não poderiam lhe ouvir. A última temporada rendeu a Pesaola uma de suas mais marcantes imagens: antes dos pênaltis cobrados por Ferrario, ele se agarrava a um terço e fechava os olhos.

Pesaola se aposentou relativamente cedo. Aos 58 anos, após deixar o Napoli, ainda treinou o Campania, equipe amadora de um bairro de Nápoles. Depois de deixar o futebol, ele continuou morando em Nápoles, mesmo depois de ter ficado viúvo, em 1985, e, até ficar incapacitado, era figura constante em transmissões esportivas quando o Napoli era assunto. Pesaola inspirou o renomado diretor de cinema Paolo Sorrentino a criar o personagem Molosso, no filme L'Uomo in più, de 2001.

Antes de falecer, Pesaola declarou que seu único arrependimento na carreira foi não ter treinado Maradona no Napoli – um ano após sua saída, o Pibe de Oro chegou no San Paolo. O ítalo-argentino foi homenageado pela Fiorentina e entrou para o Hall da fama da equipe, além de ter ganhado o título de cidadão honorário de Nápoles. O Petisso nos deixou no final de maio de 2015, e foi lembrado com um minuto de silêncio nos jogos disputados em Nápoles e Florença.

Bruno Pesaola
Nascimento: 28 de julho de 1925, em Buenos Aires, Argentina
Morte: 29 de maio de 2015 em Nápoles, Itália
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Sportivo Dock Sud (1944-46), Roma (1947-50), Novara (1950-52), Napoli (1952-60), Genoa (1960-61), Scafatese (1961-62)
Títulos como jogador: nenhum
Seleção italiana: 1 jogo, nenhum gol 
Carreira como treinador: Scafatese (1961-62), Napoli (1962-63, 1964-68, 1976-77 e 1982-83), Savoia (1963-64), Fiorentina (1968-71), Bologna (1972-76 e 1977-79), Panathinaikos (1979-80), Siracusa (1980-81) e Campania (1984-85)
Títulos como treinador: Serie A (1969), Coppa Italia (1962 e 1974), Copa dos Alpes (1966) e Copa da Liga Anglo-Italiana (1976)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Jogo à italiana: a história dos esquemas táticos no futebol da Bota - parte 1

Trapattoni e Sacchi, dois dos mais influentes técnicos da história do futebol italiano (Interleaning)
Itália, terra do Renascimento, de obras de arte ao ar livre, de praias belíssimas, montanhas imponentes, vinhos saborosos, muita comida boa e... do futebol tático. Discutir esquemas táticos, forma de colocar uma equipe em campo e a melhor estratégia para um time é algo que qualquer amante do futebol na Bota aprende a fazer desde cedo, seja em rodas de conversa com amigos seja assistindo aos programas esportivos da TV.

Entender os movimentos do jogo é algo inerente à cultura futebolística italiana, até porque foram os técnicos do país que introduziram muitas novidades no esporte ao longo dos anos. Em um especial de quatro partes iremos dissecar o que aconteceu em pouco mais de um século de futebol na Itália e em que os treinadores azzurri contribuíram para o desenvolvimento do jogo ao longo dos anos, quem eles influenciaram e por quem foram influenciados. O nosso passeio pela história começa agora.

O começo: o advento das escolas inglesa e húngara e o contraponto de Pozzo
Embora seja o esporte mais popular e que hoje seja uma parte considerável do dia a dia italiano, o futebol demorou para chegar e se desenvolver na sua forma moderna no Belpaese. Enquanto na Inglaterra o esporte já tinha caráter profissional desde os anos 1860, com a criação da Football Association (FA) – a federação de futebol da Terra da Rainha –, somente nos anos 1890 é que os clubes começaram a se organizar na Itália. Primeiro com os lígures do Genoa e depois com os piemonteses do Pro Vercelli e da Juventus, seguidos pelos romanos da Lazio e de um novo clube de Turim, o Torino.

Naquela década, a organização tática no futebol já vinha se desenvolvendo, saindo das premissas do rugby e buscando a essência do que é o esporte hoje - um esporte coletivo e muito, muito tático. Nessa época aconteceu a primeira mudança na regra do impedimento e surgiu o esquema  pirâmide, o 2-3-5, como registra Jonathan Wilson no livro Invertendo a Pirâmide. A publicação é a grande referência no assunto e estará sempre presente daqui em diante nesse especial, que também aproveita a tradução e interpretação de Eduardo Cecconi em seu antigo blog.

Nessa época, os escoceses do Queens Park já traziam a ideia de criar linhas de passes, priorizar a circulação da bola através de passes curtos com velocidade, quebrando o paradigma do futebol inglês, antes baseado no kick and rush, nas corridas individuais. Dali, austríacos e húngaros importaram muitas coisas e desenvolveram a Danubian School, atingindo sucesso no continente com seu futebol coletivo no início do século XX.

Décadas depois, com a nova mudança da regra do impedimento, um inglês revolucionou o futebol, trazendo novo sistema tático com sua interpretação da nova regra, e também a importância da organização coletiva, do trabalho sem a bola, e a figura do treinador que estuda o adversário e orienta seus jogadores de forma mais precisa. Era Herbert Chapman, treinador do Arsenal, com seu revolucionário WM, o 3-2-2-3.

Ok, inglês aqui, escocês ali, austro-húngaros acolá... mas e os italianos? É a partir da Danubian School e do WM de Chapman que o futebol italiano começa a se desenvolver taticamente. Vittorio Pozzo se torna a grande figura do futebol na terra que, àquela época, era dominada pelo fascismo – o regime viu no esporte uma forma de fazer propaganda. Pozzo, que treinara Torino e Milan e a seleção italiana por duas outras oportunidades, estava no seu último trabalho à frente da Squadra Azzurra – que duraria 19 anos, entre 1929 e 1948.

Vittorio Pozzo, técnico marcado como primeiro "taticista" do futebol italiano (Punto Cultura)
O técnico era identificado ao regime de Benito Mussolini, e seria apelidado de "tenente" por seu jeito rígido. Pozzo foi um dos primeiros a trazer a ideia de pré-temporada, de fazer a preparação para competições isoladamente. Preparação essa que também traria mudanças no trabalho físico, com maior preocupação na força e na velocidade. Era o "futebol-força".

Pozzo, amigo e rival de Hugo Meisl, treinador da seleção austríaca e expoente da Danubian School, desenvolveu um novo sistema tático, não convencido com o WM inglês e buscando ajustar a pirâmide para a nova regra do impedimento. Juntamente com Meisl, com quem trocava contínuas ideias sobre tática, embora Itália e Áustria fossem rivais em campo (especialmente nos anos 1930), o italiano criou o esquema WW, na prática um 2-3-2-3 - na Itália conhecido como metodo, enquanto o WM era o sistema.
O WW, 2-3-2-3, de Pozzo e Meisl
O revolucionário WM, 3-2-2-3, de Chapman
Enquanto Meisl priorizava passes curtos, posse de bola, contínua troca de posicionamento e movimentação ofensiva, num jogo de posição muito rico - talvez o primeiro -, Pozzo, no mesmo "desenho", tinha um futebol caracterizado pela força e velocidade, implantando a até então nova marcação individual. Um dos zagueiros fazia a sobra e os outros jogadores "encaixavam" a marcação e "perseguiam" adversários previamente definidos, especialmente seus destaques, como o centromédio, que muitas vezes tinha a figura do regista na época, e, claro, o centroavante. Com os encaixes na marcação e linhas recuadas, este esquema tinha nas transições ofensivas o seu ponto forte: os contra-ataques através das bolas longas, da velocidade dos pontas e da individualidade dos meias-atacantes, consagrando dois craques, Giuseppe Meazza e Giovanni Ferrari.

Assim, sempre com Meazza e Ferrari e seu metodo, Pozzo comandou os times italianos que ganharam o primeiro bicampeonato mundial do futebol, conquistando as Copas de 1934 e 38 - o treinador, até hoje, é o único a ter alcançado tal feito. Aquela seleção italiana ainda faturou o ouro na Olimpíada de 1936 e dois títulos na Copa Internacional, similar à Eurocopa de hoje, em 1930 e 35. No campeonato nacional, foi seguindo o planejamento de Pozzo que o Bologna venceu seis vezes nos anos 1920 e 1930 e a Juventus alcançou o recorde dos cinco scudetti consecutivos entre 1931 e 35 – até hoje apenas igualado, por Torino e Inter, mas não ultrapassado.
A formação da Itália campeã mundial em 1938, no WW
Apesar da fórmula vencedora na seleção e em alguns clubes, o WW não foi difundido no futebol como o WM, mesmo na Itália. O sucesso de Pozzo sempre esteve ligado ao fascismo, e, com a queda do regime, o técnico nascido em Turim foi definido como um homem do passado, antiquado. Seu jogo de imposição física, de vencer a qualquer custo e de intimidação ao adversário não superou o pós-guerra, caindo no ostracismo, mesmo que Pozzo ainda estivesse ligado ao futebol italiano até os anos 1950, participando, inclusive, da criação do centro de formação de treinadores da Federação Italiana de Futebol – FIGC, em Coverciano. Taticamente, foi o esquema WM, de Chapman, que seguiu como referência para os treinadores no Belpaese.

No WM, a formação titular do último Grande Torino, antes da tragédia de Superga, em 1949
A afirmação do WM como esquema principal dos times italianos se deve também pelo que aconteceu nos anos 1930 e 1940, com a importação de treinadores húngaros e ingleses, todos influenciados pelo WM de Chapman. A contratação de técnicos sobretudo da Hungria era uma verdadeira febre e todos os principais times do país – e quase todos os menores, mas seguramente todos os que jogaram a Serie A alguma vez – tiveram pelo menos um técnico do país entre as décadas de 1920 e 1940 – magiares ainda treinaram equipes italianas nos anos 1950 e 1960.

Enquanto a II Guerra Mundial entrava no auge em 1940, o futebol italiano avançava após os vários títulos dos anos 1930. Nessa época, surge o Grande Torino, que passa a construir um ótimo time a partir da contratação de jogadores de vários clubes, como Juventus, Ambrosiana-Inter, Fiorentina, Venezia, Genoa, entre outros. Inicialmente treinado pelo austríaco Tony Cargnelli, seguidor de Pozzo, o Torino não teve sucesso e abandonou o WW em favor do WM ao substitui-lo pelo húngaro András Kuttik, que seria seguido por Antonio Janni, Luigi Ferrero, Mario Sperone – ex-jogadores do clube –, Leslie Lievesley (inglês) e Erno Erbstein (húngaro), todos preservando o sistema.

Com o esquema clássico de Champman, os técnicos tornaram o Torino cinco vezes campeão italiano - além dos títulos dos campeonatos de guerra em 1944 e 45, época em que foi patrocinado pela Fiat e contou com o craque Silvio Piola. A inteligência de grandes jogadores, como Mario Rigamonti, Ezio Loik, Romeo Menti, Franco Ossola e Valentino Mazzola ajudou que, mesmo com as constantes mudanças de treinadores, o time executasse o esquema com perfeição. O Desastre de Superga acabou com aquele elenco multicampeão, mas não foi o responsável pela extinção do WM. A evolução tática do futebol nos anos 1950 e 1960 mudou o esporte para sempre e ajudou a tornar os placares mais magros, em um jogo cada vez mais estudado. Assunto para a parte 2 do nosso especial. Até lá!

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Técnicos: Nevio Scala

Novo presidente do Parma, Scala foi o técnico do time em grande parte dos anos de ouro (Eurosport)
O Parma faliu oficialmente em 2015 e começou a renascer no final de junho do mesmo ano. O clube vai recomeçar da Serie D e terá como um dos comandantes dessa tentativa de volta por cima um homem identificado com as maiores glórias parmenses. Ele tem nome e sobrenome: Nevio Scala. O novo presidente do Parma se destacou como treinador no início dos anos 1990 e foi um dos responsáveis por fazer os crociati conquistarem seus primeiros títulos em sua década de ouro.

Muito antes de treinar o Parma, Scala chegou a ser jogador de futebol. Nascido no Vêneto, o jovem Nevio logo se transferiu para Milão, onde iniciou a carreira profissional pelo Milan. Ele nunca se tornou um craque, mas foi um jogador útil para equipes da parte alta da tabela da Serie A por uma década – apesar de ser quase sempre reserva. Neste período, atuou também por Roma, Vicenza, Fiorentina e Inter, mas conquistou seus títulos na segunda de suas três passagens pelo Milan. Com o Diavolo, além de uma Recopa e de uma Serie A, pode se gabar de ter vencido uma Copa dos Campeões.

Fora dos campos durante a maior parte do tempo, Scala aprendeu muito sobre a parte tática do jogo. E, uma de suas principais influências vem dos tempos de Milan, onde foi treinado por Nereo Rocco, um dos mais célebres utilizadores do catenaccio. Após aposentar-se, Scala voltou ao Vêneto, e dirigiu as categorias de base do Vicenza. Ele chamou atenção e viajou para o sul da Itália, contratado pela inexpressiva Reggina. Seu trabalho na Calábria foi excelente: na primeira temporada, acesso para a Serie B, e na temporada seguinte, bateu na trave na tentativa de levar os amaranto pela primeira vez para a elite. Seu time, quinto colocado empatado em pontos com a Cremonese, acabou sendo derrotado no spareggio – jogo-desempate que havia antigamente para definir situações de igualdade de pontos em campeonatos de pontos corridos na Itália.

Foi com a ótima campanha que o casamento com o Parma começou. Os crociati também disputaram aquela Serie B, mas terminaram apenas na nona posição – Zdenek Zeman fracassou na missão de substituir Arrigo Sacchi, que aparecera para o futebol treinando a equipe na terceira divisão, dois anos antes, e, à época, já estava no comando de um Milan histórico. Já ambicioso, o Parma de Calisto Tanzi, dono da Parmalat, escolheu um técnico de estilo bem diferente dos outros dois. Enquanto Sacchi e Zeman pregavam futebol mais ofensivo, Scala tinha como predileção um jogo mais tradicional do futebol italiano, inspirado no catenaccio e chamado de zona mista. Assim, ele conquistou o respeito na Emília-Romanha e no mundo, guiando um time que se tornaria histórico.

A primeira temporada de Nevio Scala no comando do Parma já adiantava o que estava por vir: teve o acesso da equipe para a Serie A pela primeira vez em quase oitenta anos de existência – para completar, a conquista da vaga foi comemorada diante da Reggiana, rival regional. Para o debute na elite, o magnata Tanzi colocou a mão no bolso e contratou nomes de peso internacional, como o brasileiro Cláudio Taffarel, o belga Georges Grün e o sueco Tomas Brolin – todos destaques em suas seleções –, que se somaram a pilares do time, como Luca Bucci, Lorenzo Minotti, Luigi Apolloni e Alessandro Melli. A campanha foi ótima, e o Parma ficou nas três primeiras posições por boa parte da temporada, embora tenha acabado na sexta posição, empatado em pontos com o Torino, mas à frente de times fortíssimos, como a Juventus de Roberto Baggio e o Napoli de Diego Maradona e Careca, campeão no ano anterior.

A vaga na Copa Uefa logo de cara já deixava a temporada com cara de sucesso absoluto. Tanto é que para o segundo ano na elite, Scala recebeu apenas reforços pontuais – alguns deles, porém, se tornariam pilares da equipe, como os laterais Antonio Benarrivo e Alberto Di Chiara. No Campeonato Italiano, um sétimo lugar mostrou que a equipe estava se estabelecendo entre os grandes. E, se na Copa Uefa o time não decolou, a mostra de que o Parma chegava para ficar ficou por conta do título da Coppa Italia. O herói da campanha foi o jovem atacante Melli, que anotou seis gols – um deles na partida de volta da final contra a Juventus, na qual o Parma reverteu a vantagem de 1 a 0 da Velha Senhora e ficou com o 2 a 1 no placar agregado. Começava ali a existir uma forte rivalidade entre Parma e Juve.

Scala ficaria, ainda, outros quatro anos no comando dos ducali, e com resultados ainda melhores. Na temporada 1992-93, ele ganhou os reforços do volante Gabriele Pin e do atacante Faustino Asprilla e abocanhou o título da Recopa, vencendo o Royal Antwerp, e ainda uma terceira posição na Serie A, um recorde para a equipe. O time se fortaleceu com as contratações de Gianfranco Zola, Roberto Sensini e Massimo Crippa, mas em 1993-94 o Parma terminou a temporada com gosto amargo. O Arsenal acabou derrotando os gialloblù na final da Recopa, e nem mesmo o título na Supercopa Uefa, meses antes, diante do Milan, aplacou a decepção – à época, a Supercopa não era tão importante.

Scala, entre Minotti, Tanzi, e o presidente Giorgio Pedraneschi, após a conquista da Coppa (Omega)
Na campanha de 1994-95, Scala viveu seus últimos grandes momentos sob o comando do Parma. O esquema funcionava muito bem antes: no seu 3-5-2, Benarrivo, Di Chiara e Crippa criavam pelos flancos, Grün, Minotti, Apolloni e Sensini ofereciam segurança defensiva e, na frente, Brolin, Asprilla e Zola concluíam as jogadas, com a ajuda de Melli. Para a temporada que começaria após a Copa do Mundo, o Parma ganhou os reforços de Fernando Couto, Dino Baggio e do promissor Stefano Fiore, que deixaram a equipe ainda mais forte. Foi o ápice dos ducali sob o comando do treinador vêneto, que aproveitou-se do elenco numeroso e fez o time deslanchar.

Na Serie A, Zola anotou 19 gols, mas outra vez o scudetto ficou apenas na imaginação, embora a equipe tenha lutado "nas cabeças" até o final. Os parmenses acabaram com a terceira posição, atrás da campeã Juventus e empatados em pontos com a vice Lazio, perdendo nos critérios de desempate. Na Copa Uefa, no entanto, a história foi diferente, e um forte Parma foi deixando adversários para trás com propriedade, crescendo nos jogos contra os times mais fortes. 

Frente à Juventus, nas finais, a rivalidade que marcou o início dos anos 1990 na Itália foi posta à prova novamente. Era a chance de revanche da Juve, que só havia levado a melhor sobre o Parma na Serie A, considerando os quatro últimos confrontos, enquanto o Parma poderia comemorar outro título sobre os juventinos, como o da Coppa Italia, três anos antes.

Scala venceu o duelo tático com Marcello Lippi na ida e na volta e, mesmo que o Parma tivesse um time forte, foi o dedo do treinador que ajuou os gialloblù a passarem por um verdadeiro esquadrão, que tinha nomes como Robert Jarni, Paulo Sousa, Angelo Di Livio, Didier Deschamps e um ataque mortífero, com Roberto Baggio, Gianluca Vialli, Fabrizio Ravanelli e um jovem Alessandro Del Piero. O treinador contou ainda com duas belas atuações do Baggio do seu time, que desbancou o xará mais famoso e marcou nas duas partidas. Com o 1 a 0 em Parma e o empate por 1 a 1 em Milão – sim, a volta foi disputada no Giuseppe Meazza –, o time da província pode comemorar o título mais importante da sua história.

O ano seguinte foi de muitas críticas para Scala e o seu Parma. Como a equipe crescia, os investimentos da Parmalat só aumentavam e as expectativas de um scudetto ou de outros títulos também. Em 1995-96, os ducali conseguiram contratar uma estrela do porte de Hristo Stoichkov, que brilhou na Copa do Mundo de 1994 e por anos no Barcelona, e ainda contaria com estrelas ascendentes como Gianluigi Buffon e Fabio Cannavaro, em suas primeiras temporadas no Ennio Tardini. Além disso, Melli retornava e quase toda a forte base era mantida. Nada poderia dar errado, certo? Pelo contrário.

Stoichkov foi uma espécie de termômetro da equipe: raramente se entendeu com Zola dentro de campo, o que ocasionou uma temporada de poucos altos e muitos baixos. Naquele ano, o Parma caiu no primeiro turno da Coppa Italia e nas quartas da Recopa, e ficou com o 6º lugar na Serie A – um pontinho atrás de Lazio e Fiorentina, terceira e quarta colocadas. Parece até uma temporada digna, mas se esperava mais – embora o técnico tenha sido absolvido depois, uma vez que os erros foram mais atribuídos às contratações que não vingaram. Para evitar maiores desgastes, Scala e diretoria preferiram interromper o trabalho ao final da temporada. Na última partida do treinador no estádio Ennio Tardini, aplausos por cerca de 10 minutos e muita emoção. Nevio Scala era um semi-deus em Parma.


Uma das experiências do técnico pós-Parma foi no Borussia Dortmund (Getty)
Após deixar o Parma, Scala tirou férias e não aceitou nenhuma proposta para continuar em atividade. No entanto, após cerca de seis meses parado, o treinador topou um desafio: assumiu o Perugia, que estava na zona de rebaixamento da Serie A 1996-97, substituindo Giovanni Galeone. O ambicioso time comandado por Luciano Gaucci retornava à elite, mas não estava jogando bem. Dessa forma, Scala pegou o cargo na 16ª rodada, logo após o ano novo. Sua equipe tinha jogadores como Marco Materazzi, Gennaro Gattuso, Müller, Luca Bucci e Massimiliano Allegri, mas os destaques eram Michel Kreek e o artilheiro Marco Negri. 

Nas 22 rodadas que comandou os biancorossi, Scala não conseguiu afastá-los da zona de rebaixamento, mas uma sequência de três vitórias nas últimas rodadas era animadora. Os grifoni entravam na 34ª e última rodada precisando de um empate no confronto direto contra o Piacenza treinado pelo "bombeiro" Bortolo Mutti para se salvar. As chances eram boas, até porque o Cagliari, outro que brigava para não cair, jogava fora contra o Milan – que não vinha bem, mas era um gigante nacional. No entanto, o Cagliari bateu o Diavolo em pleno San Siro e, em Piacenza, os emilianos venceram e acabaram jogando o time umbro para a segundona. Os três times ficaram empatados com 37 pontos, mas o Perugia perdia nos critérios de desempate e caiu. Já o Piacenza veio em grande crescimento na reta final da temporada e, no jogo extra contra o Cagliari, venceu e deixou os sardos na mesma situação que o time dirigido por Scala.

Mesmo tendo sido rebaixado com o Perugia, Nevio Scala foi promovido. O italiano iniciou, então, sua carreira no exterior, e não foi em qualquer trabalho: substituiria Ottmar Hitzfeld no Borussia Dortmund. Uma tarefa nada fácil, já que o suíço passara seis anos na equipe, e vencera duas Bundesligas, duas Supercopas da Alemanha e, para colocar a cereja no bolo, acabara de conquistar a Liga dos Campeões. Scala contava com um time forte e que tinha protagonizado fortes duelos contra a Juventus nos anos anteriores, assim como o seu Parma – na verdade, entre 1990 e 1995, as duas equipes foram as principais rivais da Juventus, do ponto de vista do equilíbrio e constância dos confrontos. Entre os principais jogadores à sua disposição, podemos citar os ex-juventinos Stefan Reuter, Andreas Möller, Paulo Sousa e Júlio César, o ex-interista Matthias Sammer e Stefan Klos, Michael Zorc, Heiko Herrlich e Stéphane Chapuisat, bandeiras do clube. 

Com este elenco em mãos, quis o destino que Scala encontrasse o Parma na Liga dos Campeões. No Grupo A da competição, uma vitória para cada lado: 1 a 0 para os italianos na ida, com gol de Hernán Crespo, e 2 a 0 na volta, com dois de Möller. O Parma, comandado por Carlo Ancelotti, caiu na fase de grupos, mas os aurinegros de Dortmund foram em frente. Quando poderia encontrar novamente a Juventus e repetir a final da LC passada – e outros duelos da Copa Uefa na mesma década –, o Borussia de Scala caiu. Parou nas semifinais, contra o Real Madrid, e depois viu a Juve levantar a orelhuda. Na Bundesliga, a equipe ficou apenas com a 10ª posição. 

No entanto, Scala não saiu de mãos abanando – pelo contrário. Antes de tudo isso, em dezembro, com a temporada em curso, o treinador comandou o Dortmund na final do Mundial Interclubes – ou Copa Intercontinental, como queiram – frente ao Cruzeiro de Dida, Gonçalves, Bebeto, Donizete e do técnico Nelsinho Baptista. A fácil vitória por 2 a 0, com gols de Zorc e Herrlich, foi o único título do italiano na Alemanha. Até hoje, apenas Bayern Munique e Borussia Dortmund possuem este título entre as equipes germânicas.

Mesmo com o título mundial, Scala deixou a Alemanha e ficou dois anos parado. Retornou ao futebol para comandar o Besiktas, mas não durou nem uma temporada completa. Em 2002, assumiu o Shakhtar Donetsk em uma época em que o campeonato ucraniano era mais fraco do que hoje, e nem mesmo com a dobradinha – liga e copa nacionais – permaneceu no cargo. Um ano depois, substituiu Vladimir Fedotov no Spartak Moscou com a temporada em andamento e garantiu uma Copa da Rússia. No ano seguinte, campanha mediana e fim de carreira. Scala, então com 57 anos, voltou para a Itália e passou a se dedicar ao cultivo de tabaco na fazenda da família, além de comentar partidas ocasionalmente para uma rádio.

Após ficar tanto tempo afastado do futebol, Scala voltou ao caminho do Parma. Com a falência do clube, novos investidores se uniram para levantar a equipe. A Parmalat – que não é mais dos corruptos Tanzi – tem como parceiro Guido Barilla, dono da multinacional de alimentos que leva o seu nome e que foi fundada por seu pai, nascido em Parma. Nevio Scala será o principal executivo do novo grupo, que ainda nomeará Luigi Apolloni como técnico e Lorenzo Minotti como diretor esportivo. Conduzido por quem ama o Parma, as cinzas em breve poderão constituir uma nova fênix.

Nevio Scala
Nascimento: 22 de novembro de 1947, em Lozzo Atestino, Itália
Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Milan (1965-66, 1967-69 e 1975-76), Roma (1966-67), Vicenza (1969-71), Fiorentina (1971-73), Inter (1973-75), Foggia (1976-79), Monza (1979-80) e Adriese (1980-81)
Títulos como jogador: Serie A (1968), Recopa Europeia (1968) e Copa dos Campeões (1969)
Carreira como treinador: Vicenza [juvenis] (1985-87), Reggina (1987-89), Parma (1989-96), Perugia (1996-97), Borussia Dortmund (1997-98), Beisktas (2000-01), Shakhtar Donetsk (2002) e Spartak Moscou (2003-04)
Títulos como treinador: Coppa Italia (1992), Recopa Europeia (1993), Supercopa Uefa (1993), Copa Uefa (1995), Mundial Interclubes (1997), Copa da Ucrânia (2002), Campeonato Ucraniano (2002) e Copa da Rússia (2003)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Brasileiros no Calcio: Vampeta

Mistura de vampiro com capeta, volante só jogou oito vezes
pela Inter e não assustou adversários (Stuart Franklin)
Quando lembramos de Vampeta, lembramos automaticamente de uma pessoa com muita personalidade, por vezes polêmico, e que tem muitas histórias para contar. Histórias, em sua maior parte, engraçadas, irreverentes como o próprio jogador sempre demonstrou ser fora dos campos. No entanto, a passagem do baiano de Nazaré das Farinhas pela Itália não teve graça nenhuma. Pelo contrário, foi um dos momentos mais difíceis de sua carreira como jogador. Uma passagem tão melancólica que fez com que o brasileiro acabasse eleito várias vezes como uma das piores contratações da história da Internazionale.

Até chegar em Milão, no entanto, o Velho Vamp passou por alguns ótimos momentos na carreira. Momentos tão bons que fizeram Massimo Moratti gastar cerca de 30 bilhões de liras – aproximadamente 15 milhões de dólares – para assegurar a sua ida para Appiano Gentile. Vampeta não foi contratado à toa. Tinha credenciais para tal.

Vampeta começou sua carreira no Vitória, onde foi vice-campeão brasileiro das Séries B e A, respectivamente, em 1992 e 1993. Apesar de ter sido pouco utilizado, chamou a atenção do PSV Eindhoven, que o levou para a Holanda em 1994. Seus primeiros meses na Europa foram difíceis, mas ali Vampeta ficou próximo de Ronaldo, um amigo que teria por toda a carreira de futebolista. Após passar um período emprestado a VVV-Venlo e Fluminense (no tricolor, chegou às semifinais do Brasileirão), o volante retornou aos Boeren, assumiu a titularidade e faturou três títulos.

A afirmação na Holanda, contudo, não levou o volante baiano para um grande campeonato europeu. Ao contrário, Vampeta voltou para o Brasil, contratado pelo Corinthians. Foi peça-chave de uma das equipes mais fortes que passaram no Parque São Jorge, ao lado de Dida, Carlos Gamarra, Fábio Luciano, Freddy Rincón, Marcelinho Carioca, Ricardinho, Edílson e Luizão. O time, treinado primeiro por Vanderlei Luxemburgo e depois por Oswaldo de Oliveira, foi bicampeão brasileiro e venceu o primeiro Mundial de Clubes da Fifa. Com grande destaque, foi titular absoluto da seleção brasileira, com Luxa e com Emerson Leão, ganhando uma Copa América e sendo vice na Copa das Confederações. Foi aí que Vampeta entrou de vez no radar dos grandes clubes estrangeiros. E foi a Inter que o levou de volta para a Europa, em agosto de 2000.

O amigo Ronaldo foi um dos principais responsáveis por levar Vampeta à Itália. Os dois tinham o mesmo procurador, e o atacante, mesmo afastado dos campos pela primeira de suas graves lesões, recomendou o jogador à diretoria. Em entrevista ao Corriere dello Sport, Ronaldo disse que Vampeta era um jogador veloz, hábil tanto para defender quanto para ajudar no ataque, até nas conclusões. "Vai entrar em sintonia com Di Biagio, Seedorf, Jugovic e os outros companheiros. Ele também é muito extrovertido, ajudará o grupo nos vestiários", declarou o Fenômeno.

Com o aval do craque, com quem dividiria apartamento em Milão, o Velho Vamp fechou um contrato de quatro anos com a Inter no dia 24 de agosto de 2000. Mas a espera para ter o jogador, que vestiria a camisa 25, foi adiada para o dia 5 de setembro. Peça importante para o Brasil, ele foi chamado para a partida contra a Bolívia, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Lá, deu três assistências no 5 a 0 sobre os vizinhos – isso que, antes, ele já tinha feito dois gols no 3 a 1 sobre a Argentina, em 1999.

A animação para tê-lo na Pinetina era enorme, visto que no dia anterior a Inter havia sido eliminada na fase preliminar da Liga dos Campeões pelo Helsingborg, da Suécia, em um dos tantos vexames daquela época. O anúncio no dia seguinte à queda fez com que a Gazzetta dello Sport usasse um trocadilho insinuante em sua capa, já que o brasileiro chegava com status de craque: "Inter, una Vampeta di speranza". Vampata, em italiano, é chama. Ou seja, Vampeta seria a chama de esperança para aquela temporada que começava mal. Ele era a chave para um meio-campo desorganizado e sua contratação entusiasmava a torcida.

A campanha 2000-01, no entanto, terminaria ainda pior para a Inter. Vampeta chegava juntamente a outros nomes badalados, como Javier Farinós, Robbie Keane e Hakan Sükür, que, assim como ele, também não se adaptariam. Um tal de Andrea Pirlo também chegava, após empréstimo à Reggina, e logo sairia.

Apresentado no dia 5 de setembro, Vampeta entrou em campo três dias depois, com poucos treinos. O técnico Marcello Lippi também aprovava o jogador e, visto as ótimas condições físicas do brasileiro em relação às dos companheiros, em pré-temporada, o escalou como titular na Supercopa Italiana, contra a Lazio. A formação da Inter naquele dia era a seguinte: Ballotta; Serena, Córdoba, Domoraud, Macellari; Vampeta, Farinós, Jugovic; Seedorf; Keane, Sükür. À época, parecia um grande time. Tanto é que deu testa a uma Lazio multiestelar e campeã nacional, que foi a campo com Peruzzi; Pancaro, Nesta, Mihajlovic, Favalli; Stankovic, Simeone, Verón, Nedved; Claudio López, Crespo – curiosamente, uma equipe com sete jogadores que vestiram a camisa nerazzurra também. A partida teve superioridade dos biancocelesti, que venceram por 4 a 3, mas foi bastante parelha. Vampeta até jogou bem e, meio sem querer, marcou o seu único gol pela Internazionale naquele dia.

Olhar de terror: Vampeta participou de uma das mais famigeradas temporadas da Era Moratti (Goal)
Faltava quase um mês para o início da Serie A, mas a Inter teria, até lá, compromissos pela Copa Uefa e pela Coppa Italia. Foram quatro partidas de mata-mata, em ida e volta, e Vampeta atuou nas quatro. Na estreia pelo Italiano, o camisa 25 foi titular em Reggio Calabria, contra a Reggina, mas acabou substituído aos 25 do segundo tempo. Cabalístico, digamos. Muito mal em campo, a Inter foi derrotada por 2 a 1, completando o péssimo ciclo de início de temporada: eliminação vexatória da LC, derrota na final da Supercopa e queda ante um time pequeno. Nervoso, Lippi deu uma entrevista impactante após o jogo. "Digo o que disse a eles no vestiário, meia hora atrás. Fosse eu o presidente, demitiria o treinador e depois colocaria os jogadores em fila, de frente para um muro, e sairia chutando as bundas de cada um deles, porque não dá para jogar assim". Lippi, é claro, foi demitido horas depois.

Para o lugar de Lippi, o diretor técnico Gabriele Oriali contratou um ex-jogador da equipe: Marco Tardelli, que estava no comando da seleção italiana sub-21 e havia vencido a Euro da categoria meses antes – o treinador, assim como Lippi, era muito identificado com a Juventus e sua chegada não foi bem aceita pela torcida.

A contratação do novo comandante colocava mais uma anedota na vida de Vampeta na Itália. Meses antes de chegar ao clube, o brasileiro estava na mira da Fiorentina e havia sido chamado de "Tardelli moderno" por Giancarlo Antognoni, um dos maiores meias da história do clube e da Itália, que fazia as vestes de diretor geral viola. Talvez o recém-contratado técnico nerazzurro não tenha curtido – ou não tenha mesmo entendido – a comparação, pois Vampeta só jogou novamente outras duas vezes pela Inter. Foi titular no 0 a 0 contra o Vitesse, pela Copa Uefa, e na tunda contra o Parma na Coppa Italia: um sonoro 6 a 1.

Titular da seleção brasileira, conhecido e prestigiado no seu país e concorrendo por uma vaga na Copa do Mundo, Vampeta logo mexeu seus pauzinhos para tentar sair do time antes que Marcos Assunção tomasse sua vaga como titular canarinho. Insatisfeito, pediu para ser negociado, e não deixou de soltar farpas para a imprensa. "Nunca vivi uma situação assim. Titular da seleção do meu país, eleito o melhor jogador do Brasileirão e não jogo. No Brasil, sou tão conhecido quanto Romário e Ronaldo. Aqui não sou porque não me põem para jogar", disparou, à época. Em janeiro, Vampeta acabou trocado pelo meia francês Stéphane Dalmat (outro que não vingou no futebol) e foi jogar no Paris Saint-Germain. A Inter terminaria a Serie A na quinta posição, com direito a uma vaga na Copa Uefa.

Após apenas seis meses na França, onde também não se adaptou, Vampeta foi para o Flamengo, em uma transação complicada, que levou o atacante Reinaldo à França e que, meses antes, já havia levado a então promessa Adriano a Milão. Espirituoso, o Velho Vamp disse que não gostou nem da Itália nem da França, e que preferia as praias da Bahia ou o ambiente liberal da Holanda, onde podia beber e sair com mulheres à vontade. Na chegada ao Brasil, ainda disparou contra Massimo Moratti: "Sabe muito de petróleo [nota: o ex-presidente da Inter é dono da Saras, holding de energia], mas de bola não entende nada", ironizou.

Após alguns meses em que fingia jogar enquanto os dirigentes do Fla fingiam que pagavam, o volante fechou com o Corinthians. Pelo Timão, conseguiu assegurar uma vaga no grupo da Seleção para a Copa do Mundo, após resolver desentendimentos com Luiz Felipe Scolari – ex-técnico do Palmeiras, Felipão deixou para trás a rivalidade entre o seu antigo time e o Corinthians e convocou o baiano, mesmo com a falta de continuidade nos últimos meses. Antes titular absoluto, com Luxemburgo e Leão, Vampeta perdeu a vaga e só atuou na estreia, entrando no segundo tempo contra a Turquia. Mesmo assim, é uma das figuras mais lembradas na conquista do pentacampeonato por, na comemoração, ter bebido demais e ter descido a rampa do Palácio do Planalto em uma desengonçada cambalhota.

A descida na rampa presidencial em Brasília foi também o início do declínio de sua carreira como jogador. Descartado dos planos da comissão técnica verde e amarela, Vampeta ainda sofreu uma séria lesão pelo Corinthians, que o fez ficar fora dos campos por oito meses. Ele ainda passou pelo Vitória, pelo Kuwait e, por alguns outros clubes do Brasil – a nota mais baixa do final da carreira foi a queda para a Série B com o Corinthians, em 2007. Após curta experiência como treinador, Vampeta é, desde 2011, diretor esportivo do Grêmio Osasco – que, em 2013, comprou o Audax-SP e o Audax-RJ, atualmente presididos pelo ex-jogador.

No final das contas, apesar de ser campeão do mundo pela Seleção e pelo Corinthians, Vampeta deixou a Europa conhecido como uma das piores transações da história da Inter – um dos grandes bidoni, como se diz por lá – e como um jogador folclórico. A mídia e os torcedores do Velho Continente não acompanharam o seu auge e, até hoje, o relembram por outros motivos, todos extracampo.

Lá, o Velho Vamp virou notícia pelo bigodinho infame, à Clark Gable, e por ter posado nu para recuperar o cinema que frequentava na infância em Nazaré. Ou por gostar de tomar uma cervejinha, se enveredar entre rabos de saia e também por ter jogado fora um vinho que o Papa João Paulo II tinha dado de presente a Ronaldo. Histórias pitorescas e espirituosas, mas que em nada ajudaram os torcedores da Inter a se afeiçoarem e pedirem por sua permanência após a fortuna gasta para finalizar a sua contratação.

Marcos André Batista Santos, o Vampeta
Nascimento: 13 de março de 1974, em Nazaré (BA)
Posição: volante
Clubes: Vitória (1990-94 e 2004), PSV Eindhoven (1994 e 1996-98), VVV-Venlo (1995), Fluminense (1995-96), Corinthians (1998-2000, 2002-03 e 2007), Internazionale (2000), Paris Saint-Germain (2001), Flamengo (2001), Al-Salmiya (2004), Brasiliense (2005), Goiás (2006), Juventus-BRA (2008) e Grêmio Osasco (2011)
Títulos: Copa do Mundo (2002), Mundial de Clubes (2000), Copa América (1999), Campeonato Brasileiro (1998 e 1999), Copa do Brasil (2002), Campeonato Holandês (1996-97), Supercopa da Holanda (1996 e 1997), Torneio Rio-São Paulo (2002), Campeonato Paulista (1999 e 2003), Campeonato Baiano (2004) e Campeonato Goiano (2006)
Seleção brasileira: 41 jogos e 2 gols

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Jogadores: Paolo Sollier

Raro exemplo de jogador e intelectual, Sollier ficou conhecido por militância
nos anos de chumbo italianos (Zona Cesarini)
Fim dos anos 1960. No Brasil, tempos de terror: a Ditadura Militar endurecia o regime, com a criação do AI-5, e opositores do regime eram perseguidos, silenciados, torturados e mortos. Na Itália, engana-se quem acha que a situação era muito melhor. Apesar de o país viver um estado democrático de direito, na Bota a situação não era calma: eram os chamados Anos de Chumbo. 

Destroçada pela II Guerra Mundial anos antes, a Itália começava a se unir como um país e em torno de uma língua, relegando os dialetos locais a segundo plano. O milagre econômico proporcionado pelo Plano Marshall recuperou setores da economia como indústria e construção durante os anos 1950 e 1960. No final desta última década, porém, tudo havia cessado. A desigualdade aumentou e o país entrou em uma era de recessão, austeridade e desemprego, além de diversos problemas ambientais, trabalhistas, energéticos e políticos. 

Esta crise abriu espaço para a contestação do sistema e a Itália, como vários outros países do mundo, teve um ano de 1968 bastante movimentado do ponto de vista político. O crescimento de partidos de esquerda e direita foi notório, e uma coalizão dos partidos Socialista e Democrata Cristão acabou chegando ao poder na Velha Bota. No entanto, isso não aplacou os ânimos: com os anos, o que restou foi muita violência, radicalismo e terrorismo. Facções paramilitares de direita e de esquerda – e mesmo grupos ligados ao governo – banhavam a Itália de sangue. Acredita-se que mais de 2 mil mortes tenham tido motivação política naquela época. Desde atentados que vitimaram milhares de pessoas até o final dos anos 1980 à morte do poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini, um dos gênios italianos do século XX. 

Bem, deu para ficar claro que se posicionar era difícil. Era assumir um lado – e suas consequências – em uma época de extremos. Fazer isso no futebol poderia ser ainda mais duro. Afinal, futebolistas são pessoas públicas e, de certa forma, ligadas ao entretenimento. Dessa forma, pouca gente ousava tomar lado, mesmo em um país altamente politizado. Jogadores raramente davam declarações sobre os acontecimentos da época, embora algumas torcidas tivessem suas ideologias muito bem definidas – até hoje existem times/torcidas identificados com cada um dos espectros da política, mas naquela época as brigas entre os ultras tinham ainda mais base em rivalidade entre esquerdistas e direitistas. Assim como hoje, era raro que futebolistas decidissem dizer quais suas causas. O meia Paolo Sollier era um dos que não fugiam da raia. Tinha personalidade e assumia um lado: era comunista.

Como muitos jogadores, Sollier teve origem humilde. Vinha de família proletária, do operariado – para usar termos marxistas. Criado nas redondezas de Turim, era filho de um trabalhador de uma empresa do ramo elétrico e trabalhava em uma ONG que ajudava a combater a fome. Após concluir a escola, ingressou na faculdade de Ciências Políticas – e conseguiu um emprego na Fiat, o desejado por qualquer piemontês. Apesar de ter um futuro encaminhado, Sollier tinha o sonho de ser jogador de futebol, e acabou abandonando a faculdade e o emprego para dedicar-se exclusivamente ao esporte. Ou melhor, quase: afinal, continuou seu ativismo político dentro e fora dos gramados.

Na segundona, com a camisa do Perugia (Wikipedia)
Meia voluntarioso, mas pouco técnico, ele mesmo se definia "um bom jogador para a Serie B e fraco para a elite". Em sua melhor fase da carreira, Sollier atuou no Perugia por dois anos – curiosamente um time que tem o vermelho como cor e uma torcida mais orientada à esquerda, o que contava a seu favor. Com o time umbro, conquistou a segundona e foi reserva na primeira campanha dos biancorossi na Serie A em sua história, atuando em 21 partidas sem marcar gols. No entanto, ajudou a equipe treinada por Ilario Castagner a atingir um honroso oitavo lugar no campeonato. Tudo bem, eram "anos de chumbo" também na Serie A. Fechado para estrangeiros desde o final dos anos 1960, o campeonato teve grande queda técnica, e a Itália, antes avassaladora em termos continentais, acabou relegada, perdeu vagas europeias – algo que só foi mudar na década seguinte, quando o Italiano se tornou o maior torneio nacional de toda a Europa.

Só que Sollier ficou mesmo conhecido mesmo pelo ativismo político. Sempre entrava em campo com o punho levantado e a mão fechada, símbolo típico da esquerda mundo afora. Por isso, conseguiu simpatia da torcida perugina e de outras do país que tinha o mesmo viés político, ao mesmo passo em que era detestado pelos torcedores de direita. O ex-jogador, no entanto, declarava que isso não era um ato endereçado aos frequentadores dos estádios italianos, mas uma mensagem para si próprio e aos parentes e amigos próximos.

"Quando entrei no futebol, fui criticado por conciliar o meu salário com o fato de ser militante de esquerda, embora o que eu ganhasse fosse o equivalente ao que um empregado comum recebia em qualquer lugar. O gesto com o punho alçado não era propaganda comunista, servia para eu me lembrar sempre das minhas origens e para mostrar aos meus amigos que continuava o mesmo. Era assim que eu os cumprimentava nos campinhos da juventude. Ao mesmo tempo, sabia que eu era uma exceção no futebol e para mim era normal levar a minha ideologia ao trabalho que amava", explicou. De qualquer forma, o gesto era significativo, e para muitos era um sinal de resistência e de luta democrática para o país se livrar da barbárie dos anos de chumbo.

Sollier e Raffaeli se informam através de um jornal da classe operária (Wikipedia)
Em Perugia, Sollier encontrou no lateral esquerdo Giancarlo Raffaeli, filiado ao Partido Comunista, um parceiro de luta – curiosamente, ambos se transferiram para o Rimini em 1976 e lá permaneceram por três anos. Os dois costumavam se reunir com torcedores ligados ao operariado e não raro eram vistos lendo jornais entre os treinamentos ou participando de reuniões sindicais. Sollier, no entanto, foi mais longe e, em 1976, escreveu um livro, chamado "Calci e sputi e colpi di testa" (em tradução livre, "Chutes e cusparadas e cabeçadas"), no qual conta sua militância na associação Vanguarda Operária e descreve o futebol de um ponto de vista alternativo e crítico. A publicação lhe valeu uma advertência da Federação Italiana de Futebol – FIGC.

De fato, Sollier tem uma visão bem diferente do que o normal sobre o esporte. Um ponto de vista que não é compartilhado pela própria esquerda: segundo ele, hoje o futebol vê um crescimento da penetração de ideias de direita porque aqueles que compartilham do mesmo ideal político que ele passaram a ver o esporte como uma distração fútil, esquecendo o potencial social e de solidariedade inerente à prática.

Em uma entrevista dada em 2013, o ex-jogador também afirma que derrotas devem ser relativizadas e não se deve ter a obsessão pelo sucesso: perder é normal, não é humilhante, e deve ser usado para aprender. Sollier acha que cada vez mais o futebol está perdendo a humanidade, e também pensa que os jovens devem ser ensinados a serem mais livres dentro de campo, desde a base, para não perderem o gosto pelo futebol, o que é fundamental, de acordo com ele. O ex-jogador também pensa que a tecnologia não deve ser utilizada, porque ataca o problema pelo lado errado: segundo ele, assim como existem os erros dos jogadores, os erros da arbitragem também são legítimos. É humano e, para ele, o esporte precisa ter esta dimensão.

Uma visão romântica, bastante apaixonada, e de quem não vê o futebol essencialmente como competição, mas como divertimento. Este foi provavelmente um dos motivos que fizeram com que Sollier não decolasse nem como jogador nem como treinador – após aposentar-se, ele teve carreira em times amadores, e o máximo que conseguiu foi treinar a Pro Vercelli, então na sexta divisão.

É fato que Sollier não teve, nem de longe, uma carreira fulgurante como a de Pietro Anastasi, considerado por muitos como "o artilheiro dos operários" – mais pela origem humilde e da migração da Sicília para Turim do que por posicionamento político. O ex-meia italiano também não chegou nem perto de Sócrates, um dos gênios do futebol e mais conhecidos intelectuais de esquerda do mundo da bola – tanto dentro quanto fora dos gramados. No entanto, em anos marcados pela violência no Belpaese, Sollier merece ser lembrado por ter passado a sua mensagem de forma pacífica e argumentativa – quando escrevia – e de forma silenciosa – quando alçava o punho –, bem diferente dos extremistas que assustavam o país e o mundo.

Hoje, além de escrever para alguns jornais, Paolo Sollier é técnico do Osvaldo Soriano FC, combinado italiano de escritores que disputa partidas beneficentes.

Paolo Sollier
Nascimento: 13 de janeiro de 1948, em Chiomonte, Itália
Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Cinzano (1967-69), Cossattese (1969-73 e 1984-85), Pro Vercelli (1973-74 e 1979-81), Perugia (1974-76), Rimini (1976-79) e Biellese (1981-84)
Títulos: Serie B (1975), Serie D (1972) e Interregionale (1983)