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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quando Petkovic fracassou na Itália

Pet tentou deslanchar em um grande centro europeu, mas passagem
pelo pequeno Venezia não foi feliz (Getty Images)
Dejan Petkovic foi um dos maiores estrangeiros que atuaram no futebol brasileiro e sobre isso não há dúvidas. O sérvio fez história com as camisas rubro-negras de Vitória e Flamengo, além de ter defendido as camisas de Vasco, Fluminense, Santos e Atlético-MG com honradez. Nos gramados brasileiros, o europeu com jeitão canarinho mostrou enorme qualidade com a perna direita, marcando golaços inesquecíveis, sobretudo em cobranças de falta e de escanteio. O que pouca gente sabe é que o craque teve uma curta passagem pelo futebol italiano.

Antes de ser adotado pelas torcidas do Brasil e de fracassar na Itália, Pet teve destaque no seu país, a antiga Iugoslávia. Começou no Radnicki Nis e logo chamou a atenção do Estrela Vermelha, campeão europeu e mundial, onde foi protagonista em conquistas de um campeonato e duas copas locais. Conhecido como Rambo, Petkovic deixou para trás os conflitos nos Bálcãs e toda a tensão das rivalidades das etnias locais para se transferir para o Real Madrid. Na Espanha, porém, ele não teve bons momentos: foi emprestado pelos merengues a Sevilla e Racing Santander, mas jogou pouco e não fez gols em nenhuma das três equipes.

Depois de um amistoso entre Real Madrid e Vitória, a carreira de Petkovic tomou outro rumo. Os madrilenhos usaram reservas e o iugoslavo arrebentou, chamando a atenção do time baiano, que conseguiu convencê-lo a jogar no Brasil. Nos dois anos em que esteve em Salvador, o Rambo dos Bálcãs se destacou no Brasileirão e conquistou um estadual e uma Copa do Nordeste, virando ídolo da torcida e dando corda ao clichê de que os jogadores da antiga Iugoslávia são "os brasileiros da Europa". 

Pet, que havia voltado a ser convocado para a seleção da Iugoslávia, era cobiçado por diversos times brasileiros e também pelo Atlético de Madrid. No entanto, o pequeno Venezia, da Itália, conseguiu fechar com o jogador de forma inesperada, aproveitando o fato de que o jogador queria se redimir em nível europeu, após os anos negativos na Espanha. De acordo com Paulo Carneiro, presidente do Vitória, os rubro-negros ganharam 4,5 milhões de dólares pela transferência, concretizada em maio, embora Petkovic só embarcasse para a Bota em julho.

Então dono dos lagunari, Maurizio Zamparini (hoje mandatário do Palermo), sempre apostou em talentos de centros menos badalados e em revelações. O Venezia já havia negociado com o rubro-negro baiano no ano anterior e levado o meia Tácio e o zagueiro Fábio Bilica para a Itália e, agora, apostava em Pet, que chegava junto com o japonês Hiroshi Nanami, o norueguês Runar Berg e o austríaco Michael Konsel. O treinador da equipe seria Luciano Spalletti.

A equipe do Vêneto, com seu exótico uniforme preto, verde e laranja, havia subido para a primeira divisão no ano anterior, após 30 anos fora da elite. A permanência dos leões alados havia sido garantida por um jogador de características similares a Petkovic, embora o iugoslavo seja destro e seu antecessor fosse canhoto: o uruguaio Álvaro Recoba chegou ao Venezia em janeiro de 1999, emprestado pela Inter, e, com 11 gols em 19 partidas, levou a equipe à 10ª posição na tabela. Em sua apresentação, Rambo, novo camisa 10 do time, declarou não sentir o peso de substituir Recoba e comentou que estava pronto para dar a volta por cima na Europa, depois de ter se tornado um dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro.

O início de Pet foi animador: fez boas partidas contra Udinese, Torino e Roma, chegando a marcar um golaço contra os romanos, no qual entortou Antônio Carlos Zago e bateu no canto, sem chances para Francesco Antonioli. A equipe, no entanto, não ia bem: somou somente um ponto nestas partidas. Dali em diante, inclusive, o futebol de Petkovic caiu e ele só voltaria a marcar novamente contra a Udinese, em jogo das oitavas de final da Coppa Italia. Ao todo, Rambo disputou apenas 13 partidas pelos arancioneroverdi na Serie A, sendo substituído em sete delas e começando uma no banco, chegando ao total de 872 minutos em campo. Seu retrospecto foi de oito derrotas, três empates e apenas dois triunfos. No final da temporada, é claro, o Venezia acabaria rebaixado. Mas Pet teria um destino diferente.

Ainda valorizado pelo desempenho no Vitória e infeliz com a má fase do seu time, ele assinou um contrato com o Flamengo no dia 27 de dezembro. O clube carioca, em parceria com a ISL, pagou cerca de 6 milhões de dólares ao Venezia, que ainda conseguiu ver seu investimento compensado – ou o presidente Zamparini, que dois anos depois deixou o clube quase falido e investiu na compra do Palermo. 
O resto da carreira do sérvio é história: virou ídolo no Flamengo e ganhou títulos estaduais e até um brasileiro pelo time da Gávea, e também rodou pelo mundo, tendo destaque por onde passou. No entanto, ele tem um arrependimento, que declarou a uma entrevista a André Rizek, da Revista Placar: segundo Pet, se ele tivesse permanecido no Venezia, um time "dez vezes mais fraco que o Flamengo", continuaria a ser chamado por Vujadin Boskov para a seleção da Iugoslávia e jogaria a Euro 2000. Não deu. Talvez o lugar em que o mais brasileiro dos sérvios brilharia teria de ser mesmo o maior país da América do Sul.
Dejan Petkovic
Nascimento: 10 de setembro de 1972, em Majdanpek, Sérvia
Posição: meia-atacante
Times em que atuou: Radnicki Nis (1988-92), Estrela Vermelha (1992-95), Real Madrid (1995, 1996 e 1997), Sevilla (1996), Racing Santander (1997), Vitória (1997-99), Venezia (1999-2000), Flamengo (2000-02 e 2009-11), Vasco (2002-03 e 2004), Shangai Shenhua (2003), Al-Ittihad (2005), Fluminense (2005-06), Goiás (2007), Santos (2007) e Atlético-MG (2008)
Títulos conquistados: Campeonato Iugoslavo (1995), Copa da Iugoslávia (1993 e 1995), Campeonato Espanhol (1997) e Supercopa da Espanha (1997), Campeonato Baiano (1997 e 1999), Copa do Nordeste (1999), Campeonato Carioca (2000 e 2001), Taça Rio (2000 e 2003), Taça Guanabara (2001 e 2003), Copa dos Campeões (2001), Liga dos Campeões Árabe (2005), Copa dos Campeões da Ásia (2005) e Campeonato Brasileiro (2009)
Carreira como treinador: Atlético Paranaense sub-23 (2014) e Criciúma (2015)
Seleção iugoslava: 7 jogos e um gol

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