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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Técnicos: Sebastião Lazaroni

Após dar vexame com o Brasil na Copa do Mundo, Lazaroni dirigiu
Fiorentina e Bari, também sem sucesso (L'Unità)
Basta que o nome de Sebastião Lazaroni seja pronunciado para ver os mais saudosistas torcedores brasileiros ficarem com o sangue gelado. Até hoje o treinador é considerado o maior culpado pelo mau desempenho e eliminação da seleção brasileira na Copa de 1990, disputada na Itália. Depois do vexame brasileiro na Velha Bota, Lazaroni teve curta passagem em clubes italianos.

Lazaroni assumiu o comando do Brasil em 1989, em meio à preparação para a Copa de 1990, e após trabalhos em Flamengo, Vasco e Al-Ahli, da Arábia Saudita. Tido como estudioso do futebol, o técnico logo implantou o 3-5-2 como esquema da Seleção e foi criticado por, supostamente, fazer o time jogar de forma defensiva. 

Sem encantar, os brasileiros venceram a Copa América de 1989, disputada em seu próprio país, e embarcaram para a Itália no ano seguinte, jogando com líbero fixo, algo essencial para o trabalho do estrategista mineiro. Se o líbero era Mauro Galvão, outro jogador importante no time de Lazaroni era Dunga, que acabou virando símbolo da geração que privilegiava a força e deixava o talento de lado – na avaliação do senso comum, pelo menos. Após três vitórias magras na fase de grupos e a eliminação nas oitavas de final, contra a Argentina, o Brasil deixava Turim e voltava para casa. Seu treinador não.

O comandante da Seleção foi ao Mundial já certo de que deixaria o cargo, porque não aguentava mais as críticas da imprensa. Ele estava apalavrado com a Fiorentina, mas não assinara contrato antes da Copa. Segundo ele, em entrevista à Placar, porque estava esperando propostas formais de outras equipes, como Bologna, Lazio e Sampdoria, caso tivesse sucesso na competição. O treinador também queria garantias de que a nova direção florentina reforçaria a equipe, que tinha perdido o craque Roberto Baggio e o defensor Sergio Battistini.

Lazaroni tentou emplacar o zagueiro Ricardo Rocha na Fiorentina, mas o recifense foi descartado após circularem boatos (falsos, diga-se) de que ele levava uma vida desregrada, como Sócrates. O trauma pela passagem decepcionante do Doutor pela Toscana acabou fazendo com que os dirigentes desistissem de levar o xerife para lá. Dessa forma, os principais reforços contratados pela Viola não foram muito animadores: os meias Diego Fuser e Massimo Orlando e os atacantes Mario Lacatus e Stefano Borgonovo (de volta ao clube), mas mesmo assim o brasileiro aceitou o desafio – afinal, sua imagem estava arranhada pela pior campanha do Brasil em um Mundial desde 1966. Outro fator que contribuiu para a assinatura do contrato foi que um dos principais jogadores do elenco gilgiatto era o capitão Dunga, seu pupilo na Seleção e já anteriormente, nos tempos de Vasco.

Assim que o técnico chegou a Florença, a Placar esteve na concentração da Fiorentina, e perguntou se a Fiorentina não havia ficado receosa de contratá-lo após a Copa do Mundo. O mineiro respondeu que não, e que inclusive o presidente Mario Cecchi Gori poderia ter exercido o poder de desfazer o acordo que ele tinha com o clube, uma vez que este havia sido feito por Flavio Pontello, seu antecessor. Lazaroni achava que estava prestigiado, mas o jornal La Repubblica fez reportagens nas quais afirmava que Cecchi Gori "não suportava Lazaroni" e que queria um técnico italiano no comando.

A estreia do brasileiro nos gramados europeus foi uma cacetada: no Olímpico, a Roma aplicou 4 a 0 sobre a Fiorentina. A primeira vitória do novo treinador sob o comando da equipe veio só na 4ª rodada, quando venceu a Atalanta por 3 a 1. O primeiro turno foi um calvário para o time violeta, que chegou a ficar oito jogos sem vencer. Ameaçado no cargo, Lazaroni conseguiu se manter à frente da equipe depois de uma vitória por 1 a 0 sobre o Bologna, no Dérbi dos Apeninos, no dia 30 de dezembro. 

Fim de ano feliz? Nem tanto. Muitos jogadores do elenco estavam insatisfeitos por ficarem no banco de reservas e havia um descontentamento geral no clube, por uma série de questões de bastidores. O brasileiro era simpático com a imprensa e levava uma vida confortável em Florença, mas não conseguia controlar os vestiários. Lazaroni continuou no cargo, mas o segundo turno não foi lá tão diferente do primeiro – a principal glória foi a vitória sobre a Juventus de Baggio, por 1 a 0. 

No final da Serie A, os florentinos ficaram com a 12ª posição, com 8 vitórias, 15 empates e 11 derrotas. Retrospecto medíocre, mas superior ao de 1989-90, temporada em que a Fiorentina se salvou do rebaixamento só na última rodada. O treinador foi bastante criticado, mas também mereceu elogios por ter explorado o potencial ofensivo do ala Alberto Di Chiara, que depois teve boa fase no Parma.

No ano seguinte, Lazaroni foi confirmado como técnico dos gigliatti para mais uma temporada. Chegavam como reforços o lateral brasileiro Mazinho, conhecido do treinador, além dos atacantes Marco Branca e Gabriel Batistuta – o último se tornaria ídolo da torcida. O mineiro, porém, não viveria o ápice de Batigol em Florença: após apenas cinco jogos na Serie A, ele foi substituído por Luigi Radice. Seu último jogo foi uma derrota em casa para a Roma.

Apesar de não ter marcado época na Toscana, Lazaroni declarou que a cidade de Florença ficou no seu coração, embora redes de televisão locais costumassem fazer brincadeiras jocosas com seu italiano abrasileirado. Ele também salientou que as dificuldades financeiras do clube acabaram atrapalhando o seu trabalho: de fato, nos anos seguintes a gestão da família Cecchi Gori gastou muito dinheiro – de origem suspeita, vale notar – e a Fiorentina acabou alçada ao patamar de concorrente a troféus no Belpaese. Enquanto alguns comiam o filé nessa época, outros, como o treinador de Muriaé, roeram o osso anos antes.

Sebastião Lazaroni voltaria à Itália pouco tempo depois. Depois de alguns meses no Al-Ahli, o Bari do presidente Vincenzo Matarrese o convidou para assumir a equipe, que havia sido rebaixada para a Serie B – caíra em 1991-92, quando ficou em 15º na elite. Na Apúlia, o treinador brasileiro reencontrava o atacante João Paulo, que havia sido deixado de fora da convocação do Mundial de 1990 – um dos maiores injustiçados pelo técnico, segundo a imprensa e os torcedores. 

Lazaroni, porém, não teve como colocar o atacante em campo no período em que dirigiu os galletti na segundona, pois ele havia sofrido lesão gravíssima na temporada anterior. Após apenas 18 rodadas e desempenho medíocre, o treinador acabou encerrando sua passagem pela equipe do sul da Itália. Cerca de um ano depois, já acertado com o Vasco da Gama, o treinador pediu a contratação de João Paulo para o vice-presidente Eurico Miranda e "se reconciliou" com o atleta.

A passagem pelo Bari foi a última do técnico brasileiro em um centro estrangeiro de ponta. Depois do fracasso pelos biancorossi, Lazaroni teve alguns trabalhos fracos e medianos em clubes brasileiros e virou um cigano da bola: trabalhou na Turquia, em Portugal, na Jamaica e em diversos países da Ásia. Sem sucesso esportivo, restou-lhe buscar a tranquilidade financeira.

Sebastião Barroso Lazaroni
Nascimento: 25 de setembro de 1950, em Muriaé (MG)
Carreira: Flamengo (1984-86), Vasco (1987-88 e 1994), Al-Ahli-ASA (1988 e 1992), Seleção Brasileira (1989-90), Fiorentina (1990-91), Bari (1992-93), León (1993), Fenerbahçe (1996-97), Paraná (1997), Grêmio (1998), Shangai Shenhua (1999), Seleção da Jamaica (2000 e 2004-05), Botafogo (2000-01), Yokohama F. Marinos (2001-02), Al-Arabi (2003), Juventude (2005), Trabzonspor (2006), Marítimo (2007), Qatar SC (2008-09, 2012-14 e 2015) e Seleção do Qatar (2011)
Títulos conquistados: Campeonato Carioca (1986, 1987 e 1988), Troféu Ramón de Carranza (1987),  Copa América (1989), Copa da Arábia Saudita (1995), Supercopa da China (1999),  Copa da Liga Japonesa (2002),  Copa do Príncipe Herdeiro (2009) e Copa QNB (2014)

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