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sábado, 30 de abril de 2016

Crotone, o tubarão da Serie A

Crotone vem de uma das regiões mais pobres da Itália e já fez história ao chegar à elite (Getty)
Colaborou Arthur Barcelos

Nesta sexta, 29 de abril, a Serie A ganhou um pequeno capítulo em sua história: a confirmação de que a 66ª agremiação diferente disputará uma edição do Campeonato Italiano. O time estreante será o pequeno Crotone, que até o início dos anos 2000 não tinha sequer participado de uma Serie B – assim como Sassuolo, Frosinone e Carpi. Terceiro time da Calábria a disputar a elite, depois de Catanzaro (anos 1970 e 1980) e Reggina (1990 e 2000), os rossoblù terão a chance de construir uma história de superação na elite.

Em verdade, a cruzada de superação do Crotone começou muito antes disso. A equipe vem de uma das regiões mais belas da Itália, mais exatamente de uma cidade que tem uma longa e rica história, mas que atravessa dificuldades. Falaremos um pouco sobre a história do caçula da Serie A 2016-17 e da cidade aqui no blog.

Um time matemático
Crotone fica no litoral da Calábria, no extremo sul do país – na "sola" da Bota –, e é uma das mais antigas da Itália: foi fundada pelos gregos, em 718 a.C., sob o nome Kroton. A cidade foi palco da escola filosófico-matemática de Pitágoras, que lá viveu e desenvolveu seu nome como um dos maiores cientistas da antiguidade. Por causa do legado do criador do famoso teorema e das ruínas da época, o Crotone é conhecido pelo apelido de pitagóricos (pitagorici, em italiano) – e, por causa dos tubarões que habitam as águas do mar Jônico, os torcedores também são chamados de tubarões (squali).

Se, no passado, Crotone foi um dos centros do pensamento da Grécia Antiga, hoje atravessa um período muito complicado e menos próspero. O extremo sul do Belpaese depende da agricultura e do turismo, uma vez que a instalação de indústrias por lá acabou sendo comprometida pela crise da Europa. A região tem os piores índices de desenvolvimento humano do país (e um dos piores do continente), má infraestrutura e é uma das rotas de refugiados asiáticos e africanos, que acabam não conseguindo se inserir na sociedade, por diversos fatores. Crotone não escapa de todos estes problemas e, para piorar, tem uma taxa de desemprego de 31%.

O contexto sócio-econômico nunca foi favorável para a formação de uma equipe forte na Calábria – muito menos um clube que não é bancado por milionários, como o Crotone nunca foi. O time foi fundado em 1910 e nunca esteve em evidência, nem mesmo na região, cujos maiores times são Catanzaro e Cosenza. Na 12ª participação na Serie B, nesta temporada, o Crotone também não era um time forte. No nosso guia da segundona, inclusive, não citamos a equipe nem como uma das que corriam por fora pelo acesso – dissemos que ficaria do meio para baixo na tabela. De fato, os rossoblù não tinham tantas pretensões, mas surpreenderam.

Boa parte da força dos pitagóricos vinha de sua torcida. O estádio Ezio Scida, que possui apenas 9.547 lugares, é tão acanhado que é possível assistir aos jogos dos quartos do hospital San Giovanni di Dio, localizado ao lado de uma das arquibancadas e visível nas transmissões de televisão – um exótico caldeirão. A título de informação: Scida, que batizou o estádio, foi um jogador do Crotone que morreu em um acidente automobilístico a caminho de uma partida dos squali, nos anos 1940.
Bem vindo à Serie A, Crotone! (Getty)
Quase 30 anos de construção
O novo Crotone começou a ser esculpido em 1991, ano em que o clube foi refundado. O presidente Raffaele Vrenna, que está no cargo deste então, tem sido acompanhado pelo diretor esportivo Giuseppe Ursino desde 1995 e participou de todo o período de crescimento. Os pitagóricos conseguiram sete promoções de divisão entre 1991 e 2000, ascenderam da sétima para a segundona divisão, mas as principais evoluções aconteceram mesmo depois da chegada do time à Serie B.

O Crotone merece estar colhendo os frutos deste trabalho duro. A equipe estreou na segundona neste século, em 2000-01, e foi rebaixado apenas duas vezes neste período, em 2002 e 2007. Desde que retornou, em 2009, teve cinco campanhas acima do meio da tabela, e inclusive atingiu os play-offs de acesso para a Serie A em 2013-14, mas foi eliminado e, no último ano, caiu de produção e ficou próximo da zona de rebaixamento. Na atual temporada, além de garantir vaga na elite, a equipe chegou às oitavas de final da Coppa Italia e quase eliminou o Milan em pleno San Siro, num prelúdio do que estava por vir.

No entanto, a primeira vez que o Crotone começou a chamar atenção na Itália foi com o técnico Gian Piero Gasperini, hoje pra lá de conhecido por seu trabalho no Genoa. O piemontês começou sua carreira no futebol profissional como treinador justamente no clube, em 2003, e implantou uma política de valorização de jogadores jovens, que foi seguida pelos treinadores que o sucederam. Com Gasp, ex-comandante da equipe Primavera da Juventus por quase uma década, boa parte das revelações que passaram por lá eram ex-juventinos. Outro “professor” marcante do time foi Massimo Drago, cria da casa como jogador e técnico: Drago trabalhou na Calábria por dez anos, assumindo como treinador em 2012 e permanecendo até a última temporada, quando foi contratado pelo Cesena.

O clube calabrês também ficou conhecido por abrigar jovens de clubes maiores, a exemplo de Salvatore Aronica, Giuseppe Sculli, Daniele Gastaldello, Abdoulay Konko e Antonio Mirante, todos da Juventus nos anos 2000. O clube também foi palco do "estágio" de Stefano Pettinari, Vid Belec, Alessandro Florenzi, Raffaele Maiello, Lorenzo Crisetig, Jacopo Dezi, Danilo Cataldi e Federico Bernardeschi, quase todos na Serie A hoje.

Alguns jogadores então desconhecidos também cresceram desde a passagem pelos squali, como Domenico Maietta, Daniele Vantaggiato, Abdelkader Ghezzal, Antonio Nocerino, Graziano Pellè, Archimede Morleo e Nicola Sansone. Sem esquecer dos brasileiros Ângelo, Jeda, Digão e Gabionetta.

Por falar em brasileiros, a equipe que subiu para a Serie A tem como capitão o zagueiro goiano Claiton, que jogou na elite em poucos jogos, por Bologna e Chievo – além do goleiro paranaense Caio Secco, reserva da equipe. Claiton foi um dos jogadores mais importantes do time no acesso, ao lado do goleiro Alex Cordaz e do defensor Gian Marco Ferrari, os únicos que jogaram todos os minutos na Serie B – todos eles foram líderes da defesa menos vazada do campeonato. Velhos conhecidos, a exemplo do lateral esquerdo Francesco Modesto, meia Adrian Stoian e do atacante Raffaele Palladino (ex-Juventus e autor do gol do acesso), também se destacaram.

Como não poderia deixar de ser, o Crotone continuou com sua política de valorização de jovens. Nesta temporada, a base do time teve, de revelações, o zagueiro Guy Yao (Inter), o talentoso regista Leonardo Capezzi (Fiorentina) e Mihai Balasa e Federico Ricci, ala e ponta pela direita, ambos da Roma. Andrea Barberis, meio-campista promissor, ex-Varese, e Ante Budimir, centroavante croata emprestado pelo alemão St. Pauli e artilheiro do time, são outros jovens importantes. No entanto, o maior destaque do time é o ala esquerdo Bruno Martella, de 23 anos, revelado pela Sampdoria e na mira de clubes de maior expressão.

Deu para notar que a equipe não tem uma abundância de grandes nomes. O que nos leva ao seguinte ponto: a grande estrela dos tubarões em 2015-16 é o técnico Ivan Juric, aprendiz de Gasperini. O treinador do Genoa conheceu o croata na passagem pelo Crotone (época em que Juric, volante sólido, era jogador) e o levou para o Luigi Ferraris – o jovem treinador acompanhou o comandante grisalho também nos trabalhos em Inter e Palermo, já como assistente.

Após experiência pelo Mantova na Lega Pro, o ex-volante retornou para a Calábria e fez a equipe encaminhar o título da Serie B com o melhor futebol do campeonato, que lembra muito o Genoa de Gasperini. Além de o sistema ser o mesmo, o 3-4-3, o Crotone apresenta agressividade e alto ritmo, criando chances de gol através de ataques em bloco. Foi assim que os squali ultrapassaram equipes superiores, como Cagliari, Pescara, Bari, Spezia e Cesena, e colocaram o Milan nas cordas em San Siro. A torcida espera que a base seja mantida e que Juric fique. Será o primeiro passo para que a equipe possa desempenhar um bom papel na elite.
 Desde já, uma cena já é esperada com ansiedade para a próxima Serie A: a festa da torcida do Crotone. Além de tomarem as ruas da cidade, após o acesso, os pitagóricos elegeram a música "Ma il cielo è sempre più blu", do cantor crotonês Rino Gaetano (morto em acidente de carro em 1981) como hino da campanha que fez o sonho virar realidade. Ouvi-la na estreia do time rossoblù em casa será de tirar o fôlego.

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