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terça-feira, 26 de abril de 2016

Pequenos milagres: Vicenza, a nobre provinciana

Com um dos uniformes mais belos da Itália, Vicenza contou com
Paolo Rossi para alcançar o vice nacional (Kaiser Magazine)
Nos últimos dois meses, o Quattro Tratti está trazendo aos leitores a série "Pequenos milagres", na qual contamos sobre as façanhas de equipes pequenas em suas participações na elite. Desta vez, falaremos de um dos times mais tradicionais e charmosos do futebol italiano, que acumula 37 participações na Serie A e, em diferentes ocasiões, conseguiu chegar longe: o Vicenza. Os biancorossi nunca foram campeões, mas conquistaram um segundo lugar no fim dos anos 1970.

O Vicenza é a agremiação futebolística mais antiga da região do Vêneto, com fundação em 1902 – um ano antes do Hellas Verona, seu maior rival. Nos primeiros anos de sua existência, os vicentinos jogaram as divisões inferiores da Itália e estrearam na primeira divisão em 1910. Quando o campeonato foi reformulado e começou a ser disputado em pontos corridos, em 1929, o Vicenza já havia voltado para a segunda divisão, de forma que participaria pela primeira vez da fase moderna da Serie A apenas em 1942.

Até 1953 o Vicenza ainda não havia feito muito na história do futebol italiano. Entre os maiores destaques dos biancorossi até aquele momento estavam a quinta colocação na Serie A 1946-47 e a revelação de alguns jogadores importantes para a época, como os meias Osvaldo Fattori e Alfonso Santagiuliana, além do atacante Romeo Menti, peça importante do Grande Torino. Após falecer junto com o time multicampeão no Desastre de Superga, Menti foi homenageado com o nome do estádio da cidade vêneta, que seria palco de sucessos nas décadas seguintes.

Um dos primeiros grandes momentos do Vicenza teve a participação do brasileiro
Luís Vinício (segundo em pé, da esq. para a dir.). Acima, uma formação da temporada 1963-64 (Wikipedia)
Lanerossi: 20 anos consecutivos na Serie A
Em 1953, o Vicenza, conhecido como ACIVI (por causa de seu primeiro nome, Associazione Calcio in Vicenza), foi comprado por uma grande indústria têxtil de Schio, cidade da região: a Lanerossi. A fábrica de lãs do empresário Alessandro Rossi adquiriu e rebatizou o clube, que começou a ser conhecido pelo nome de Lanerossi Vicenza e pelo R em formato de uma linha, desenhado em azul sobre a camisa listrada em branco e vermelho ou em dourado na bandeira do clube.

O regulamento do Campeonato Italiano só passou a permitir patrocínio nos uniformes dos clubes a partir da década de 1980, de forma que a iniciativa dos lanerossi acabou sendo pioneira. A fusão entre clubes e empresas existiram outras vezes na Itália – casos de Juventus Cisitalia, Torino Fiat e Talmone Torino –, mas somente o Vicenza "driblou" a lei, colocando a marca da financiadora entre os símbolos do clube e até mesmo na camisa. A existência do Lanerossi Vicenza foi uma das mais duradouras experiências de financiamento empresarial de um time do futebol italiano.

Os investimentos da Lanerossi no Vicenza o levaram à elite de forma quase instantânea: o time foi adquirido em 1953 e em 1955 garantiu o acesso. Daí em diante, os biancorossi conseguiram se manter na Serie A por 20 temporadas consecutivas na Serie A, período em que começou a ser apelidada de "La nobile provinciale" e "Provinciale di lusso" – nobre provinciana e provinciana de luxo, nas respectivas traduções para o português.

Em um primeiro momento na elite, o Vicenza se destacou por realizar campanhas sólidas e por revelar jogadores, como o goleiro Franco Luison, os meio-campistas Giorgio De Marchi e Luigi Menti (sobrinho de Romeo), além do atacante Sergio Campana. Os berici também tiveram em seu elenco e valorizaram jogadores como o defensor Mario David, o volante Giorgio Puia e o atacante Oscar Damiani, que chegaram a jogar na seleção italiana. Porém, um dos italianos que a torcida biancorossa mais amou neste período foi o zagueiro Giulio Savoini, que defendeu o clube de 1953 a 1966, atingindo a marca de 317 jogos – ninguém o superou até hoje. O líbero também foi auxiliar do time em seu ápice, na década de 1970, treinador em duas ocasiões, e teve a camisa 3, que utilizava, aposentada.

Chinesinho (segundo agachado, no canto direito da imagem) foi outro brasileiro
que teve sucesso pelos lanerossi (Vicenza Calcio)
Um Vicenza com tempero brasileiro
As duas décadas dos lanerossi na Serie A fazem parte de um período conhecido pelos torcedores como "Il ventennio". Nestes 20 anos, os técnicos mais representativos foram Manlio Scopigno (campeão italiano com o Cagliari) e Ettore Puricelli (vencedor com o Milan), mas a participação de dois jogadores brasileiros é que foi fundamental: em momentos diferentes, Luís Vinício e Chinesinho foram os diferenciais de um elenco dedicado, mas pouco brilhante.

Vinício foi o primeiro a fechar com os berici, em 1962. O atacante formado no Botafogo já havia se consagrado com a camisa do Napoli, mas foi com a camisa biancorossa que viveu seu auge. Ele foi contratado em 1962, quando já tinha 30 anos, e ficou no clube até 1966 – tendo uma segunda passagem entre 1967 e 1968.

Nos primeiros quatro anos no Vêneto, o brasileiro anotou 61 gols, contribuindo bastante para que o Vicenza alcançasse a 6ª posição em duas ocasiões e a 7ª em uma. Em 1965-66, o brasileiro foi o goleador do campeonato, com 25 tentos, e acabou negociado com a Grande Inter. A marca do "mítico" Luís Vinício só seria alcançada novamente na Itália 26 anos depois, quando Marco van Basten foi o artilheiro da temporada 1991-92.

Assim que Vinício se aposentou, em 1968, o Lanerossi Vicenza apostou em outro experiente brasileiro para substitui-lo. Chinesinho, de 33 anos, contava com um currículo extenso: seis temporadas na Itália, títulos por Internacional, Palmeiras e Juventus, além de 17 jogos pela Seleção.

O gaúcho jogava mais recuado, como regista, e teve resultados menos expressivos do que os de Vinício e companhia, nos anos anteriores à sua chegada. Mesmo assim, não deixou o Vicenza cair e virou ídolo dos torcedores – e de um deles em especial: um pequeno Roberto Baggio frequentava o Romeo Menti com seu pai e aprendeu a gostar do esporte assistindo o brasileiro jogar. Anos depois, no início da década de 1980, o garoto se tornaria profissional exatamente com a camisa dos lanerossi.

Após a saída de Chinesinho, em 1972, os vicentinos caíram de produção. O time quase foi relegado em 1972-73, mas quando o rebaixamento já era dado como certo, o Vicenza venceu o confronto direto contra a Atalanta graças a um gol contra nerazzurro. Os lanerossi permaneceram na Serie A por mais duas temporadas, até 1975, quando completavam exatos 20 anos na elite.

Rossi e Gibì Fabbri: dois dos personagens mais importantes da nobre provinciana (Wikipedia)
O auge: com tricampeão mundial, os lanerossi brigariam pelo scudetto
Após a queda, o Vicenza teve um ano negativo na segundona e brigou para não encarar a Serie C. Em 1976, tudo mudou e os primeiros pilares do time dos sonhos foram construídos: o presidente Giuseppe Farina – que tinha apenas 2% das ações, mas o controle administrativo vicentino desde 1968 – contratou o técnico Giovan Battista Fabbri, campeão da Serie C com o Piacenza em 1975. Também chegou ao Vêneto o atacante Paolo Rossi, revelação da Juventus: foi com a camisa alvirrubra que a carreira de Rossi começou a mudar – e foi ele quem ajudou a construir parte da história dos berici.

O técnico Gibì Fabbri praticava um futebol com influências do Totaalvoetbal holandês, considerado bastante avançado para os padrões táticos italianos à época. Os laterais eram bastante ofensivos e praticavam ultrapassagens com os alas. Ao mesmo passo, meias e defensores trocavam rapidamente de funções, confundindo os adversários. O treinador também gostava de usar um atacante fixo na área e apostou em Rossi: o jogador, que era um atacante pelos flancos, foi transformado por Fabbri em centroavante. A capacidade de observação do treinador fez com que Rossi viesse a se tornar um dos principais goleadores do futebol italiano e que a relação da dupla fosse excepcional.

Já na primeira temporada de Fabbri e Rossi em Vicenza, a equipe conquistou o título da Serie B, em uma temporada bem equilibrada. Pablito foi o artilheiro, com 21 tentos anotados, e a equipe ainda teve como destaques o goleiro Ernesto Galli, o lateral esquerdo Luciano Marangon, os defensores Giuseppe Lelj e Giorgio Carrera e os meias Renato Faloppa e Roberto Filippi. Todos os citados formariam a base do time que impressionaria a Itália na elite e passaria a ser conhecido como "Real Vicenza".

O início na Serie A 1977-78 não foi dos melhores, e o Vicenza somou duas derrotas e três empates nas cinco primeiras partidas. Apenas a partir de um 4 a 2 sobre a Atalanta (jogo em que estreou o regista Mario Guidetti, peça importante do time, autor de dois gols) é que os lanerossi começaram a mostrar seu estilo, com futebol ofensivo e pouco preocupado com a defesa – especialmente para os padrões italianos.

O esquema 1-3-5-1 de Gibì Fabbri começou a dar resultados a partir de então, e o Lanerossi Vicenza engatou uma sequência de onze jogos de invencibilidade, entrando na briga pelo scudetto. O nono jogo desta série foi o confronto direto contra a Juventus, que também tinha 18 pontos à altura da 15ª rodada, que fechava o primeiro turno. A partida, disputada no Romeo Menti, acabou empatada em 0 a 0, e registrou o recorde de público do estádio, que recebeu 31.023 pessoas naquele 22 de janeiro de 1978.

Ao longo do campeonato, o Vicenza não conseguiu competir com uma Juventus fortíssima, treinada por Giovanni Trapattoni e com fortíssima defesa (Dino Zoff, Claudio Gentile, Gaetano Scirea e Antonio Cabrini) e bom ataque (Roberto Bettega e Roberto Boninsegna). Mesmo assim, os berici fizeram uma campanha belíssima, com importantes vitórias sobre Roma, Lazio, Napoli e Fiorentina, e terminaram a temporada com o melhor ataque, com 50 gols marcados – 24 deles por Rossi. Pablito foi o artilheiro do campenato, com oito gols à frente de Giuseppe Savoldi, do Napoli.

O atacante já ganhara convocações para a seleção de Enzo Bearzot e representaria a Itália na Copa de 1978. Na competição, em que a Squadra Azzurra foi quarta colocada, Rossi marcou três gols e foi um dos melhores jogadores do torneio. As grandes atuações do atacante toscano fizeram com que ele fosse considerado uma das peças preferidas do técnico e lhe garantissem uma vaga até mesmo na Copa de 1982, na qual Rossi foi o grande responsável pelo tri italiano. Pablito, inclusive, foi o único jogador do Vicenza a disputar um Mundial pela Itália.

Após o vice e a Copa de 1978, os berici enfrentaram uma dura realidade e começaram a entrar em derrocada. A origem do retrocesso dos lanerossi foi financeira e envolveu o seu maior ídolo: para assegurar a permanência de Rossi, cujo passe era 50% de propriedade da Juventus, o presidente Farina desembolsou um valor absurdo para a época (quase 3 bilhões de liras), fazendo do atacante o jogador mais caro do mundo. Nem mesmo a tentativa de cobrir o rombo com a venda de carnês de sócio-torcedor salvou as contas dos biancorossi, que perderam estabilidade.

Para piorar, o tiro saiu pela culatra. Pablito Rossi teve seu desempenho comprometido por uma lesão no joelho, sofrida na eliminação na Copa Uefa diante do Dukla Praga, e seus 15 gols não conseguiram salvar o Lanerossi Vicenza do rebaixamento em 1978-79. O time decepcionou e só conseguiu cinco vitórias – uma no returno –, além de 14 empates, passando de um incrível vice-campeonato ao rebaixamento. Nem mesmo o prêmio Seminatore d'Oro, dado a Gibì Fabbri (eleito melhor treinador do ano) valeram como prêmio de consolação.

Nos anos 1990, os berici tiveram seu último momento de glória, com a conquista da Coppa Italia (Wikipedia)
O último título e o ocaso
Após a queda, o Vicenza começou a se desfazer. Fabbri deixou o cargo e Rossi ficou na Serie A, emprestado ao Perugia e depois vendido de volta para a Juve. Ícones do time, com Guidetti, Cerilli, Galli, Faloppa, Filippi, Lelj e Carrera também não permaneceram. Com as dívidas, os berici também não conseguiram montar um elenco competitivo para a Serie B e, após um surpreendente 5º lugar na segundona de 1979-80, o time caiu para a Serie C1 no ano seguinte. Com o novo rebaixamento, Giuseppe Farina deixou a presidência sem tapar o buraco no cofre biancorosso.

No início da década de 1980, o Vicenza até ensaiou uma reação, com a conquista da Coppa Italia da Serie C e a revelação de Roberto Baggio. Porém, foram anos de perdas: o Divino Codino, que só atuou pelos berici na terceira divisão (ajudando no acesso para a Serie B em 1985), foi vendido para a Fiorentina e o clube deixou de contar com a patrocinadora Lanerossi em definitivo. O logotipo e o nome da fábrica permaneceram ligados ao Vicenza até 1988-89 – mesmo depois, inclusive, os vicentinos mantiveram o apelido na boca do povo –, mas a empresa não contribuía economicamente desde o início da década.

Em meados dos anos 1990, o Vicenza voltou a aparecer nacionalmente. Em 1994, os biancorossi contrataram o técnico Francesco Guidolin, cujo início de carreira tinha como principal feito o acesso do Ravenna para a Serie B. Logo na primeira temporada, o treinador conseguiu levar os vênetos de volta para a elite depois de 16 anos de ausência, e até 1998, quando deixou o cargo, deu novas esperanças aos berici.

Nas três temporadas em que comandou o Vicenza na elite, Guidolin ajudou um time modesto a ficar em boas colocações na Serie A – 9º e 8º lugares – e a conquistar um título da Coppa Italia e as semifinais da Recopa Uefa. A equipe, para se ter uma ideia do feito, tinha como maiores destaques os zagueiros Gustavo Méndez e Giovanni Lopez, o lateral direito Luigi Sartor, o meio-campista Domenico Di Carlo e o atacante Marcelo Otero – no último ano, chegaram o atacante Pasquale Luiso e os jovens Francesco Coco e Massimo Ambrosini, emprestados pelo Milan.

A conquista da Coppa Italia em 1997 é, até hoje, o título mais expressivo de toda a história do Vicenza, em mais de 110 anos de existência. Na campanha, os biancorossi eliminaram Milan e Bologna e precisaram virar sobre o Napoli para ficarem com o título. A taça deu aos lanerossi o direito de participarem da Recopa, competição em que eliminaram Legia Varsóvia, Shakhtar Donetsk e Roda JC antes de caírem nas semifinais diante do Chelsea de Gianfranco Zola e Gianluca Vialli.

Depois da saída de Guidolin, em 1998, o Vicenza ainda disputou a Serie A mais duas vezes, em 1998-99 e 2000-01, com dois rebaixamentos – entre as duas participações, venceu a segundona, em 2000. Desde então, os lanerossi disputaram 14 edições da Serie B, quase sempre na parte de baixo da tabela (foram rebaixados três vezes e repescados em duas ocasiões). O time jogou a terceira divisão uma vez e quase voltou à Serie A em 2015, ano em que foi eliminado nos play-offs de acesso. Neste período de baixa do clube, os maiores ídolos foram os atacantes Stefan Schwoch (italiano de origem polonesa) e Massimo Margiotta (venezuelano de origem italiana).

A volta aos anos de bonança ainda é uma busca do Vicenza, mesmo com tantos problemas financeiros, em meio à tradição. No entanto, um clube como este pode buscar forças e verbas onde existe de onde parte um amor incondicional.

Hoje, os berici tentam se reerguer com um plano que prevê a participação de seus torcedores: em 2012, um grupo de figuras ligadas ao Vicenza decidiu lançar um projeto para que o clube tivesse participação popular. A cooperativa, chamada Nobile Provinciale, é apoiada pela prefeitura da cidade e juntou mais de 400 torcedores interessados em serem acionistas dos lanerossi, entre os quais o técnico Fabbri, e os ex-jogadores Marangon, Rossi, Carrera e Lelj. O primeiro de muitos passos para um amanhã melhor.

Ficha técnica: Vicenza

Cidade: Vicenza (Vêneto)
Estádio: Romeo Menti
Fundação: 1902
Apelidos: Biancorossi, Lanerossi, Lane, La nobile provinciale, Berici
As temporadas (apenas séries A e B): 37 na Serie A e 37 na B
Os brasileiros: Alemão, Américo Murolo, Angelo Sormani, Bruno Siciliano, China (José Ricardo da Silva), Chinesinho, Daniel Bessa, Diego Oliveira, Fabiano, Felipe Chalegre, Jeda, Rodrigo Possebon, Luís Vinício e Marco Aurélio.
Time histórico
Ernesto Galli; Giulio Savoini, Gianfranco Volpato, Giovanni Lopez, Luciano Marangon; Renato Faloppa, Domenico Di Carlo; Chinesinho (Romeo Menti), Roberto Baggio (Stefan Schwoch), Luís Vinício; Paolo Rossi. Técnico: Giovan Battista Fabbri.

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