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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Do caos ao penta: a redenção da Juve pós-Calciopoli

Agnelli, Conte e o V de vitória: dupla foi fundamental para reerguer a Juve (Getty)
Há 10 anos, uma bomba caía no futebol italiano: o Ministério Público de Nápoles começava a investigar suspeitas de fraude na Serie A. Escutas telefônicas revelavam a tentativa de dirigentes de diversas equipes de manipular árbitros em seu favor e foram a principal causa do escândalo conhecido pelo nome de Calciopoli.

O julgamento puniu os cartolas, principalmente os da Juventus, time que teve dois scudetti revogados e um rebaixamento decretado por causa corrupção de Luciano Moggi e Antonio Giraudo. Na primeira parte do nosso dossiê, publicada ontem, detalhamos todo o andamento do processo, com os seus efeitos e polêmicas. Hoje, no capítulo final, falaremos como a Velha Senhora, grande afetada pelo ilícito esportivo, deu a volta por cima e conquistou o pentacampeonato nacional de forma brilhante, apenas uma década depois do período mais turbulento de sua história.

>>> DOSSIÊ CALCIOPOLI, PARTE 1 – Da lama ao caos: os 10 anos do escândalo

A queda e a ascensão dos bianconeri de Turim
Os primeiros vazamentos que colocaram Moggi e a Juventus no centro do Calciopoli tiveram como efeito a entrega dos cargos por parte de todo o quadro de diretores do clube – até mesmo quem não estava envolvido preferiu se demitir. No final de julho, a sentença baniu Moggi e Giraudo do futebol e cassou dois scudetti da equipe, conquistados no campo em 2005 e 2006. A Velha Senhora, rebaixada para a Serie B, começaria com punição de 9 pontos na segundona.

A queda significava um inevitável redimensionamento do clube, com redução de receitas provenientes de uma série de fontes (contratos de TV, menor exposição da marca, premiações da Federação Italiana de Futebol – FIGC e da Uefa e borderôs) e a necessidade de negociar atletas para cobrir os rombos – sem falar que jogadores de ponta raramente ficariam satisfeitos ao atuarem em uma segunda divisão.

Àquela época, a Juventus tinha a base da seleção italiana tetracampeã mundial em 2006 e vários titulares de outras seleções, como a francesa (vice-campeã), a brasileira, a checa, a romena e a sueca. Alguns craques pediram para sair e outros foram negociados porque tinham mercado. Dessa forma, foram vendidos Patrick Vieira e Zlatan Ibrahimovic à Inter; Lilian Thuram e Gianluca Zambrotta ao Barcelona; Emerson e Fabio Cannavaro ao Real Madrid e Adrian Mutu à Fiorentina.

Por outro lado, jogadores muito identificados com a Velha Senhora permaneceram para ajudar a reerguer o clube e, pela fidelidade, se tornaram mais ídolos da torcida: casos de Gianluigi Buffon, Mauro Camoranesi, Pavel Nedved, Alessandro Del Piero e David Trezeguet. O ano na Serie B, vencida de ponta a ponta e sem dificuldades, também foi a oportunidade para que futuras bandeiras do clube, como Giorgio Chiellini e Claudio Marchisio, começassem a ganhar cancha vestindo bianconero.

O técnico que conduziu a Juve de volta à elite foi Didier Deschamps, mas ele não permaneceu em Turim por causa de divergências com a nova diretoria do clube. O escolhido para assumir seu lugar foi Claudio Ranieri, técnico que continuou contando com Buffon, Nedved, Camoranesi, Trezeguet e Del Piero como pilares, apesar de a forma física dos veteranos já não ser das melhores. O time não contou com reforços do nível ao que estava habituado e passou longe de encantar, mas mesmo assim garantiu duas classificações para a Liga dos Campeões. A velha Juve estava de volta? Ainda não.

Os dois anos seguintes foram de pesadelo: muitos reforços não deram certo e a equipe obteve duas sétimas posições (que ficaram entre as cinco piores colocações da Juve na Serie A) e não jogou a Champions. Apesar de tudo, 2010-11, uma das temporadas em que a Velha Senhora fracassou em campo, não foi perdida: os alicerces para uma grande equipe estavam começando a ser fincados ali.
 
Agnelli, Giraudo, Capello e Moggi: atual presidente vivia dia a dia do clube
durante o escândalo e soube reerguer a Juve (Getty)
O respeito voltou
Um verdadeiro sinal de bons ventos para a Juventus é quando um membro da família Agnelli ocupa o cargo de presidente. Sempre que um integrante da dinastia mais próspera da Itália deu as ordens no clube e/ou viveu o seu dia a dia de muito perto, a Velha Senhora montou elencos competitivos e conseguiu títulos. Dizem que é o olho do dono que engorda o gado, certo?

A Juventus começou a construir o caminho que a fez ser soberana outra vez na Itália a partir do retorno da família à presidência – mesmo que os Agnelli sejam detentores da maior parte das ações desde 1923 e nunca tenham se ausentado do seu papel. Em 2010, Andrea, que já era conselheiro da Exor (holding que controla o clube e outras empresas da família, como a Fiat), foi nomeado como novo presidente do clube e se tornou o quarto membro da família a ser mandatário da Juve, após Edoardo (seu avô, 1923-35), Gianni (tio, 1947-54) e Umberto (pai, 1955-1962). Durante o Calciopoli, Andrea já acompanhava o dia a dia juventino, mas não ocupava cargo algum no clube do coração.

O fato de a Juventus fazer parte de um conglomerado empresarial tão pujante já lhe ajudaria a se reerguer com mais facilidade do que um time sem o mesmo aporte financeiro. A Fiat é a maior empresa italiana (e a Exor ainda é acionista majoritária da Ferrari e da The Economist) e nem com toda a crise econômica na Europa a sua liderança no mercado automobilístico se abalou. O fato de um representante direto do clã Agnelli voltar ao comando estreitava esta relação e facilitava o aporte de novos investimentos. Verbas que acabariam mudando a relação do torcedor piemontês com o seu time.

A Juve tem a maior torcida da Bota há muitos anos e uma parte disso se deve à família Agnelli: além de montar elencos que encantaram o país e conquistaram a paixão de novos adeptos, a equipe e a dinastia simbolizavam a Fiat, maior empregadora do Belpaese. Mesmo em qualquer momento de crise na Itália, a gigante dos automóveis era um ponto de referência para os trabalhadores e sinônimo da esperança de um futuro próspero. Com grande apelo em todo o território nacional e ajudando famílias (muitas delas, do sul, onde os bianconeri têm torcida enorme) a deixarem a pobreza, a Fiat alavancou o crescimento de admiradores da Velha Senhora. Com quase o dobro do número de torcedores de Milan ou Inter, a Juventus é o time do povo.

Porém, mesmo com uma torcida tão grande, a Velha Senhora tinha uma média de público baixíssima. O estádio Delle Alpi (69.295 lugares) ficava distante do centro de Turim e a má infraestrutura desanimava os torcedores, que preferiam assistir as partidas dos sofás de suas casas. A praça esportiva tinha baixa visibilidade, não era confortável e, sem cobertura, acabava por ser gelado demais durante inverno, outono e primavera.

Por isso, em 2003, a Juventus adquiriu o imóvel da prefeitura e, cinco anos depois, optou pela demolição. A nova arena do clube seria construída no lugar do antigo estádio e tinha um projeto moderno, com o objetivo de diversificar receitas, que não viriam apenas dos dias de jogos: o Juventus Stadium é ecossustentável, dispõe de centro comercial, museu e calçada da fama do clube. O campo é à inglesa, com arquibancadas próximas ao gramado, bem diferente do desolado Delle Alpi. A capacidade foi reduzida para 41.475 lugares e deu novo gás ao time zebrado, hoje acompanhado sempre de perto pelo seu torcedor. A distância do centro continua igualzinha, mas o Stadium, inaugurado em 2011, está sempre lotado.

Consolidação de Pogba e Allegri foram fundamentais para bianconeri manterem ciclo vitorioso (Eurosport)
Um clube do tamanho da Juventus, no entanto, não pode se contentar apenas com muita verba e um lindo novo estádio. Por isso, Andrea Agnelli também mudou uma série de políticas dentro do clube. A queda para a Serie B, as mudanças na diretoria e no elenco deixaram a Juventus à deriva e fora do lugar que sempre ocupou no futebol da Itália. Era certo de que o clube precisaria passar por um tempo de readaptação, mas até mesmo sua postura habitual no mercado foi comprometida com as punições pelo Calciopoli – e não foi exatamente por falta de verba, já que bons milhões foram gastos com Amauri, Tiago, Diego e Felipe Melo em um momento no qual o clube construía seu novo estádio, diga-se de passagem.

O modelo de negócio que sempre pautou as contratações do clube (sobretudo em épocas menos endinheiradas) foi mal gerido (quase abandonado) entre 2007 e 2010, por questões de competência. Afinal, os diretores que substituíram Moggi e Giraudo não tinham tanta experiência, trânsito nos bastidores e poder de barganha do que seus antecessores para fazerem as melhores negociações possíveis para a Velha Senhora. A contratação de Giuseppe Marotta, diretor esportivo de ótimo trabalho pela Sampdoria, foi uma cartada de mestre do presidente. A nomeação de Nedved para presidente do conselho deliberativo do clube também.

Com Marotta, o clube gastou 59 milhões de euros em 2010-11, ano em que alcançou posição intermediária na tabela. O alto valor investido, desacompanhado de bons resultados de imediato gerou críticas e fez parecer que o novo projeto não iria engrenar. No entanto, naquele ano foram contratados jogadores como Leonardo Bonucci e Andrea Barzagli, pilares da equipe até hoje. A chegada de um treinador muito exigente nos treinamentos e partidas, além de bastante identificado com o clube, como Antonio Conte, contratado na temporada seguinte, acelerou o processo de reconstrução.

Um claro projeto de mercado em consonância com um projeto técnico: foi assim que a Juventus solidificou o caminho que a levou à conquista de nove títulos de 2012 para cá; sem contar o vice-campeonato da Liga dos Campeões. Entre as contratações pontuais, o clube ousou e foi atrás de jogadores em fim de contrato, como Andrea Pirlo, Fernando Llorente e Sami Khedira – o mesmo vale até para Massimiliano Allegri, que substituiu Conte em 2014. Também aproveitou boas oportunidades de mercado, como quando fechou com Arturo Vidal, Carlos Tévez, Juan Guillermo Cuadrado e até mesmo Emanuele Giaccherini.

Os jovens nunca estiveram de fora. Seja valorizando os que foram feitos em casa, como Claudio Marchisio (quando surgiu) e Daniele Rugani ou indo buscá-los em outras paragens – casos de Paul Pogba, Kingsley Coman, Álvaro Morata, Simone Zaza e Paulo Dybala. Hoje, os dois grandes craques da equipe, ao lado do veterano Buffon, são Pogba e Dybala, dois sub-23. O que sugere que a margem para retorno esportivo e/ou financeiro ainda é enorme.

Além disso, a Juve soube gerir a saída de seus ídolos ou grandes craques. Del Piero, Tévez, Vidal e Pirlo deixaram Vinovo e não fizeram falta dentro de campo. Nenhum deles teve rusgas com treinadores ou diretoria e foram bem substituídos – no hard feelings: suas saídas foram progressivamente planejada, seja com a preparação de um jogador do elenco para substitui-los ou com nomes já engatilhados para serem contratados. Outro ponto positivo para a ótima gestão Agnelli-Marotta.

Não há dúvidas: a Juventus é o time mais bem administrado do futebol italiano. Em qualquer um dos campos que estão relacionados com o gerenciamento de uma entidade esportiva, a gigante de Turim é superior a suas adversárias mais próximas. Mesmo que Inter e Milan passem por um profundo período de reformulação e que a Velha Senhora tenha, como explicamos, um contexto que foi favorável para a sua volta por cima, o abismo que separa a Juve dos outros times só se explica com a competência na gestão – não há exemplo em qualquer campeonato de alto nível de outra equipe que foi rebaixada e garantiu um pentacampeonato na década seguinte. Os rivais terão de suar muito para quebrar a hegemonia bianconera.

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