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terça-feira, 10 de maio de 2016

Jogadores: Néstor Combín

Combín jogou seis anos na Itália e ficou famoso por episódio violento no Milan (Maglia Rossonera)
Nos anos 1960, um franco-argentino se destacou no futebol italiano: o treinador Helenio Herrera, condutor da Grande Inter ao bicampeonato europeu e mundial. Outro esportista com a mesma procedência também foi importante no caminho traçado para que o Milan chegasse ao topo do planeta pela primeira vez: o atacante Néstor Combín anotou um dos gols que levaram os rossoneri à conquista sobre o Estudiantes La Plata. No entanto, a cena que mais marcou a carreira do jogador foi a agressão que ele sofreu em La Bombonera: um adversário quebrou o seu nariz. O milanista ainda teve muito trabalho para deixar Buenos Aires por fatores extracampo.

Nascido em Las Rosas, na província de Santa Fe, o jovem Néstor chegou a fazer as categorias de base em um clube local, mas nunca chegou a estrear profissionalmente na Argentina. Aos 17 anos, Combín se mudou para a França, país em que, de fato, fez carreira como jogador de futebol. O atacante concluiu sua formação no Lyon e, em 1959, já fazia parte do time principal.

Em cinco anos pelo OL, Combín formou uma dupla infernal com o goleador Fleury Di Nallo, que foi promovido aos profissionais quase na mesma época. A dupla elevou o Lyon e ajudou a equipe a alcançar a 5ª posição no Campeonato Francês, melhor colocação da história até aquele momento – os Gones também foram finalistas da Copa da França em 1963 e faturaram o troféu no ano seguinte. Di Nallo se tornou o maior artilheiro da história do clube, enquanto o jogador de Las Rosas é o sexto, com 94 gols. Muito veloz, Combín recebeu o apelido de La Foudre – em português, "O Raio".

Combín atravessou os Alpes para trocar o Lyon pela Juventus (France Football)
O sucesso na França fez com que Combín fosse convidado para defender a seleção local em 1964. Naturalizado francês, o atacante também conseguiu uma transferência naquele mesmo ano: assinou com a Juventus, uma das maiores equipes dos Alpes, assim como o Lyon. O franco-argentino chegou ao time bianconero em tempos de reformulação, após a saída de John Charles e a aposentadoria de Giampiero Boniperti.

Omar Sívori continuava na equipe e foi o parceiro principal de Combín no ataque, em um time que ainda tinha outros latino-americanos, como o ítalo-brasileiro Dino da Costa e o técnico paraguaio Heriberto Herrera – o meia espanhol Luis del Sol era o outro latino gringo do elenco. No fim da temporada, a Juve não decolou, mas foi campeã da Coppa Italia e o atacante guardou nove gols durante o ano.

A passagem pela Velha Senhora foi curta. Apesar de ter sido o vice-artilheiro da equipe na temporada, o franco-argentino foi negociado com o Varese, que havia estreado na Serie A em 1964. Combín fez dupla com Roberto Boninsegna, que estava em início de carreira, mas jogou poucas vezes e não evitou a queda do time lombardo para a segundona. Mesmo assim, O Raio acabou sendo convocado para defender a França na Copa de 1966 e, depois da má campanha dos Bleus no Mundial, voltou ao Piemonte: desta vez atuaria pelo Torino, rival da Juventus.

O camisa 9 abraça Gigi Meroni, no último jogo da vida do companheiro (ToroNews)
Foi com a camisa grená do Toro que Combín viveu seu período de maior estabilidade no futebol italiano, ganhando o apelido de "Il Selvaggio" ("O Selvagem"), por causa de seu espírito incansável de luta em campo. Ao longo de três anos, o franco-argentino ajudou o time a ficar em boas colocações na elite (duas vezes na 7ª e uma na 6ª posição), jogou 106 partidas e marcou 31 gols – 13 dos quais na temporada 1967-68, quando, além de faturar a Coppa Italia, foi vice-artilheiro da Serie A. A marca foi alcançada graças a duas triplettas, anotadas nas primeiras rodadas do campeonato: a primeira, contra a Sampdoria, e a segunda sobre a Juventus, num 4 a 0 sobre a rival.

Essas duas partidas têm um componente trágico: a morte do promissor atacante Luigi Meroni, companheiro de ataque de Combín. Após a vitória contra a Samp, em que a dupla deu show, Meroni foi comemorar a vitória em alguns bares, mas acabou atropelado e morreu – o autor do delito, ironicamente, foi Attilio Romero, que se tornaria presidente do Torino em 2000. O jogo posterior à morte do jogador de 24 anos foi justamente o dérbi contra a Juve, e Combín o homenageou com uma atuação de gala, que entrou para a história dos torcedores granata.

Após o período em Turim, o atacante foi contratado pelo Milan, a pedido do técnico Nereo Rocco, que o dirigiu no clube grená entre 1966 e 1967. Combín chegou para substituir o sueco Kurt Hamrin, transferido ao Napoli, e logo assumiu a titularidade de um time com forte poder de fogo: Gianni Rivera, Pierino Prati e Angelo Sormani faziam parte da linha ofensiva rossonera.

A qualidade ofensiva daquele Milan não foi suficiente para que a equipe tivesse sucesso em competições locais e continentais: o Diavolo foi eliminado ainda na primeira fase da Coppa Italia e caiu nas oitavas da Copa dos Campeões para o Feyenoord. Na Serie A, ficou apenas na quarta posição. No entanto, no meio disso, em outubro de 1969, os rossoneri se sagraram campeões mundiais pela primeira vez, em um confronto muito polêmico contra o Estudiantes La Plata. Combín, para o bem e para o mal, foi protagonista nos dois jogos.

1969 foi o primeiro ano em que o Mundial Interclubes (ou Copa Intercontinental) levaria em conta o saldo de gols como critério de desempate – à época, o título era decidido em dois jogos, um na Europa e outro na América do Sul. Justo naquele ano, o Milan dos protagonistas Rivera e Karl-Heinz Schnellinger superou o defensivo Estudiantes de Carlos Bilardo e Juan Ramón Verón (pai de Juan Sebastián) por um sonoro 3 a 0 no San Siro. Sormani marcou duas vezes e Combín anotou o outro, driblando o goleiro Alberto Poletti.

Duas semanas depois, um clima hostil esperava o Milan em Buenos Aires. La Bombonera estava lotada, com 45 mil pessoas, mas ainda assim os rossoneri abriram o placar: Combín interceptou passe errado da zaga alvirrubra e ajeitou para Rivera abrir o placar. Ainda no primeiro tempo, o Estudiantes virou para 2 a 1 com dois gols em sequência, mas não conseguiu mais criar: parou no catenaccio imposto por Rocco, um dos especialistas no esquema. O tempo foi passando e, aí, os jogadores pincharratas acabaram ficando nervosos e protagonizaram, a maior vergonha da história do clube, conforme explica o Futebol Portenho.

Agressão ao atacante no Mundial Interclubes de 1969 foi o ápice do Massacre da Bombonera (Storie di Calcio)
De acordo com o meia Giovanni Lodetti, do Milan, a equipe já havia sido recebida pela torcida alvirrubra com jatos de café quente, atirados das arquibancadas – durante a foto oficial, os adversários chutaram bolas contra eles, para provocar. Até aí, um clima apimentado de Libertadores. Porém, na segunda etapa, alguns jogadores do Estudiantes passaram dos limites. As faltas duras se transformaram em agressões e Combín, tido como traidor – já que era argentino e mudou-se para a França –, foi o alvo preferencial.

Ramón Aguirre Suárez acertou um cotovelaço no rosto do francês, que quebrou o nariz e o osso malar, ficando ensanguentado no gramado. A imagem definiu o "Massacre da Bombonera", já que nem o defensor foi expulso nem o atacante foi substituído. Só depois de novas agressões é que Aguirre Suárez foi para o chuveiro mais cedo, juntamente com Eduardo Manera. Os dois receberam longas suspensões, assim como o goleiro Poletti, e até foram detidos temporariamente pela ditadura de Juan Carlos Onganía.

Após o jogo e a conquista do título, nada de comemoração: Combín ainda viveu novas desventuras. O jogador também foi detido e teve de se tratar em um hospital militar, sob a acusação de ter deserdado do exército argentino. Oficiais de baixa patente alegaram que desde 1963 havia ordem de prisão para o atleta, mas como ele cumprira o serviço militar pelas forças armadas da França e havia um tratado de cooperação entre os países, ele foi liberado.

De volta à Europa, Il Selvaggio continuou sendo titular do Milan e ocupando um dos flancos do ataque. A temporada 1970-71 acabou com os vices da Serie A e da Coppa Italia e com mais 10 gols marcados por Combín. Depois de 70 jogos e 20 gols com a camisa rossonera, o jogador encerrou sua passagem de sete anos pelo futebol italiano.

Nos anos finais da carreira, Combín ainda atuou pelos tradicionais Metz e Red Star, além dos amadores do Hyères. Depois de ser ídolo na primeira divisão com os grenás, o argentino marcou época no clube estrelado de Paris: La Foudre foi artilheiro da segundona da França com 24 gols, levando o time da Cidade Luz para a sua última participação na elite. Depois de aposentar, Combín continuou na Europa e passa sua aposentadoria em uma vila da Riviera Francesa.

Néstor Combin
Nascimento: 29 de dezembro de 1940, em Las Rosas, Argentina
Posição: atacante
Clubes em que atuou: Lyon (1959-64), Juventus (1964-65), Varese (1965-66), Torino (1966-69), Milan (1969-71), Metz (1971-73), Red Star (1973-75) e Hyères (1975-77)
Títulos: Mundial Interclubes (1969), Coppa italia (1965 e 1968) e Copa da França (1964)
Seleção francesa: 8 jogos e 4 gols

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