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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Um desperdício chamado Mendieta

Ruim em campo e para os cofres: quase falida, Lazio jogou dinheiro fora para ter Mendieta (Getty)
Todos os anos 1990 e a parte inicial dos anos 2000 foram uma época de glórias esportivas para o futebol italiano. No entanto, a construção de esquadrões teve sua consequência: o gasto desenfreado com jogadores e seus salários pagou sua conta. A bolha criada pelos altos custos fez com que boa parte das equipes italianas acabasse enfrentando problemas financeiros, uma vez que a administração deles não era sustentável. Foi o que aconteceu com a Lazio, que antes de quase falir gastou o equivalente a 48 milhões de euros com o basco Gaizka Mendieta, uma das piores contratações da história da Serie A.

Mendieta era um meio-campista que atuava pelo lado direito. Nascido em Bilbao, ele começou a atuar pelo Castellón, time valenciano, e logo passou para o Valencia, maior clube da região. Foi em quase 10 anos pelos Che que o espanhol ganhou maior destaque, especialmente a partir de 1999: primeiro, com Claudio Ranieri, faturou três títulos, enquanto depois, com Héctor Cúper, foi vice-campeão da Liga dos Campeões em dois anos seguidos. Após as duas campanhas europeias, foi eleito pela Uefa o melhor meio-campista do continente em ambas as temporadas: moderno, tinha visão de jogo privilegiada, cobrava faltas, sabia aparecer para finalizar e ainda era bom marcador.

Àquele momento, a Inter, agora treinada por Cúper, queria contratar Mendieta, mas foi a Lazio que desembolsou o valor necessário para tirá-lo do Valencia. O espanhol seria um reforço que manteria a tendência de negócios impactantes feitos pelo presidente Sergio Cragnotti: Christian Vieri e Hernán Crespo já haviam entrado para o rol de transferências mais caras do mundo e Gaizka entrou para o ranking das 10 maiores. O basco também chegaria para reforçar um meio-campo que perdera Juan Sebastián Verón para o Manchester United e Pavel Nedved para a Juventus – não havia divergência de que era o setor a ser reforçado. Mas Mendieta era o nome ideal? O técnico Dino Zoff tinha dúvidas sobre isso.

Logo no início da temporada o treinador mostrou seu ceticismo, mas após três partidas, Zoff foi demitido. Alberto Zaccheroni, seu substituto, continuou com os mesmos problemas: tentou deslocar Mendieta para o centro do meio-campo, mas o jogador de 48 milhões de euros errava muito e, por isso, foi sendo colocado à margem do time titular à medida que a temporada avançava.

Além de não acertar passes e até mesmo seu posicionamento em campo, Mendieta também não fazia gols – isso em uma temporada na qual a Lazio não brigava pelas posições mais altas da tabela. Em 27 jogos (20 na Serie A e sete na Champions), o meia não anotou um gol sequer, algo bem diferente do que estava acostumado, uma vez que havia marcado 54 gols nas quatro temporadas anteriores.

Passagem pela Lazio foi divisor de águas na carreira do meia: passou de destaque a flop (MTV)
O desempenho decepcionante para um jogador tão caro deixou a torcida impaciente. Assim, a diretoria da Lazio quis se desfazer de Mendieta apenas um ano depois de sua chegada. Recuperar o investimento seria quase impossível: o Real Madrid se interessara pelo espanhol anteriormente, mas uma cláusula proibia a Lazio de vender o espanhol para os merengues (a não ser que pagasse uma multa).

A solução foi tentar aliviar pelo menos a folha salarial, e por isso Mendieta foi emprestado ao Barcelona, que não vivia grande fase na época e ficou apenas na 6ª posição de La Liga no ano em que o espanhol vestiu blaugrana. Depois de mais uma decepção, o meia foi negociado com o Middlesbrough, da Premier League inglesa.

Ao todo, a Lazio só recuperou 5 dos 48 milhões investidos em Mendieta. No entanto, o clube não tinha chegado a pagar ao Valencia tudo o que devia e, em 2004, para liquidar a dívida, cedeu o meia Stefano Fiore e o atacante Bernardo Corradi aos morcegos valencianos, à época treinados por Ranieri. A dupla fracassou retumbantemente na cidade mediterrânea e, de alguma forma, os clubes ficaram quites também em campo: todos saíram perdendo.

A separação definitiva entre Gaizka Mendieta e a Lazio levou os dois a um caminho de percalços e poucas glórias. O meia ficou cinco anos no clube inglês, venceu uma Copa da Liga Inglesa em sua primeira temporada, mas depois conviveu com muitas lesões e pouco jogou: já como reserva, viu o time de Teeside ser vice-campeão da Copa Uefa, em 2006. O espanhol se aposentou em 2008, aos 34 anos, e fixou morada em Yarm, cidade próxima a Middlesbrough. Hoje, ele vive uma espécie de crise da meia-idade: fez implante de cabelo para se livrar da calvície, é dj e tem uma banda.

Os celestes, por sua vez, enfrentaram um processo forte de crise. A empresa alimentícia Cirio era de propriedade do presidente Cragnotti e financiava a Lazio, mas faliu em 2004, afetando o clube. O próprio cartola foi condenado por administração fraudulenta e teve de deixar o comando do time romano, que acabou ficando com Claudio Lotito. Desde então, os aquilotti conquistaram duas Copas da Itália, uma Supercopa Italiana e ficou duas vezes na terceira posição da Serie A. E não torraram mais dinheiro em nenhum Mendieta.

Gaizka Mendieta Zabala
Nascimento: 27 de março de 1974, em Bilbao, Espanha
Posição: meio-campista
Clubes em que atuou: Castellón (1991-92), Valencia (1992-2001), Lazio (2001-02), Barcelona (2002-03) e Middlesbrough (2003-08)
Títulos: Copa do Rei (1999), Supercopa da Espanha (1999), Copa Intertoto (1998) e Copa da Liga Inglesa (2004)
Seleção espanhola: 40 jogos e 8 gols
Seleção basca: 6 jogos e 1 gol

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