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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Jogadores: Oleksandr Zavarov

Trequartista de muita classe, o ucraniano Zavarov venceu com a Juve, mas não impressionou (Calcio Fanpage)
Em tempos de Guerra Fria, a União Soviética produzia alguns dos mais fortes esportistas em diversas modalidades. A rivalidade política e olímpica com os Estados Unidos é bem conhecida, mas o país eslavo tinha adversários mais próximos na Europa e o futebol os colocava frente a frente com regularidade. Nos anos 1980, perto do fim do regime socialista, os dois mundos se aproximaram ainda mais, quando jogadores soviéticos receberam a permissão de se transferirem para o exterior. Um deles foi Oleksandr Zavarov, um dos craques daquela década, que em 1988 chegou à Juventus.

Muito antes de pensar em chegar a um dos maiores times do mundo, Zavarov levava uma vida típica para um soviético. Nascido na Ucrânia, uma das repúblicas que formava a USSR, o jovem Oleksandr nasceu em uma família de operários cristãos ortodoxos. Enquanto um dos irmãos seguiu a carreira dos pais e o outro virou motorista de ônibus, ele estudou educação física, curso que servia para que ele tivesse um entendimento maior sobre sua paixão: o futebol.

Carinhosamente chamado de Sacha, Zavarov iniciou sua carreira pelo Zorya Luhansk, da sua cidade natal e, em 1979, foi vice-campeão mundial Sub-20 com a USSR. O ucraniano jogou no SKA Rostov antes de assinar, em 1983, com o Dynamo Kyiv, maior equipe da Ucrânia e concorrente ao título soviético. Meia-atacante de muito talento, o baixinho de 1,70m mostrava habilidade e formou uma dupla de altíssimo nível com o craque Oleh Blokhin, vencedor da Bola de Ouro em 1975. 

O próprio Zavarov começou a ser lembrado nas votações da revista France Football a partir de 1986, ano em que faturou um de seus dois Campeonatos Soviéticos e no qual foi eleito melhor jogador do país. O meia-atacante entrou em evidência internacional com o título da Recopa Uefa: ele foi um dos artilheiros do torneio, com cinco gols, e balançou as redes na final contra o Atlético de Madrid, mas não recebeu a honraria. Quem ganhou foi seu companheiro de clube e seleção, o atacante Igor Belanov. Após receber o prêmio, Belanov declarou que quem merecia a bola dourada era Zavarov, que tinha lhe cedido muitas assistências naquele ano.

O ucraniano também começou a ser conhecido fora da Europa porque disputou sua primeira Copa do Mundo naquele ano: Zavarov foi titular no torneio do México e marcou um gol, contra o Canadá. Apesar de ser destro, o soviético passou a ser comparado com Diego Maradona, por causa da sua habilidade e pela estatura. Até mesmo o técnico da seleção e do Dynamo, Valeriy Lobanovskyi, fazia este tipo de declaração, já que o jogador de 25 anos era uma das peças centrais de seu laboratório futebolístico.

Dois anos depois, Zavarov, Lobanovskyi e a União Soviética voltariam à ribalta com o vice-campeonato europeu – superando a forte Itália por 2 a 0 nas semifinais. Além de amargar a derrota para a Holanda na final, com o famoso golaço de Marco van Basten, o meia ucraniano não fez uma grande competição. Mesmo assim, o governo socialista implantou as políticas de Perestroika e Glasnost, permitindo aos cidadãos soviéticos trabalharem fora do país. Dessa forma, o talento e a reputação de Sacha o levaram para a Juventus naquele verão.

Zavarov, Rui Barros e Aleinikov foram os três estrangeiros da Juve em 1989-90 (Wikipedia)
Zavarov chegou a Turim juntamente com outro baixinho, o atacante português Rui Barros, e logo ganhou os apelidos de Alessandrino de Kiev e Czar de Luhansk. O ucraniano era o primeiro soviético a jogar na Itália após o afrouxamento do regime vermelho e tinha a missão de ser o herdeiro de Michel Platini, que se aposentara em 1987 – Ian Rush, contratado na temporada anterior, não foi bem e acabou negociado. Curiosamente, Sacha foi morar justamente na casa em que o galês viveu no Piemonte.

Era um momento duro para a Velha Senhora, que precisava assimilar o pós-Giovanni Trapattoni (o treinador deixou o comando depois de uma década de um trabalho histórico) e as aposentadorias de Platini e Gaetano Scirea. Com Dino Zoff no comando, a Juve foi tateando na temporada, mas Zavarov não se adaptou muito bem. 

O meia-atacante era bastante tímido, tinha temperamento melancólico e não buscava se integrar à cultura italiana ou mesmo aprender a língua – andava com um tradutor a tiracolo. Em campo, ele atuava de forma muito individual: era um solista, gostava de driblar e precisava de espaço. Para piorar, Zoff não conseguiu achar o lugar certo para o ucraniano no time: ele atuou como trequartista, segundo atacante e regista. Pouco incisivo e fora de lugar, Sacha marcou apenas quatro gols e teve desempenho bastante irregular.

Na temporada seguinte, o meia central Sergei Aleinikov, seu colega na seleção soviética, chegou ao Delle Alpi, mas Zavarov quase foi negociado – Verona, Bologna e Genoa mostraram interesse, mas a transferência não saiu. Para quem achava que Aleinikov poderia ajudá-lo a se enturmar com o time, a contratação não surtiu efeito: apesar de parceiros na URSS, o volante era bielorrusso, povo sem tanta proximidade com o ucraniano.

Para aquela temporada, Zavarov acabou perdendo a camisa 10, que era de Platini, e começou a jogar com a 9. Talvez pela diminuição da pressão ele começou a jogar um pouco melhor e marcou gols importantes na Coppa Italia, contra Cagliari e Pescara, que ajudaram os bianconeri a faturarem o torneio. O Czar de Luhansk foi titular como trequartista na temporada, marcou nove vezes e também venceu a Copa Uefa, mas mesmo assim foi considerado uma decepção. Tanto é que a Juve o vendeu ao Nancy e adquiriu Roberto Baggio – este, sim, um ídolo.

Depois de atuar na Copa de 1990, Zavarov foi para a França e atuou por cinco temporadas no Nancy (justamente outro time em que Platini foi ídolo) e mais três no semiprofissional Saint-Dizier. No pequeníssimo clube da Alsácia-Lorena, Sacha começou sua carreira de técnico, a qual conciliou com a de jogador durante três anos, entre 1995 e 1998. 

O ex-jogador não chegou a decolar, mas teve uma longa passagem pelo Arsenal Kyiv. O craque também assumiu o cargo de treinador interino da Ucrânia, da qual é auxiliar hoje em dia. Inclusive, começou a trabalhar com Andriy Shevchenko, novo comandante da seleção e seu fã confesso.

Oleksandr Anatoliyovych Zavarov
Nascimento: 26 de abril de 1961, em Luhansk, Ucrânia
Posição: meia-atacante
Clubes como jogador: Zorya Luhansk (1977-79 e 1982), SKA Rostov (1979-81), Dynamo Kyiv (1983-88), Juventus (1988-90), Nancy (1990-95) e Saint-Dizier (1995-98)
Títulos como jogador: Campeonato Soviético (1985 e 1986), Copa da União Soviética (1981, 1985 e 1987), Recopa Uefa (1986), Coppa Italia (1990) e Copa Uefa (1990)
Clubes como treinador: Saint-Dizier (1995-2003), Wil (2003-04), Astana-1964 (2004), Metalist Kharkiv (2005), Arsenal Kyiv (2006-10) e Ucrânia (interino, 2012)
Seleção soviética: 41 jogos e 6 gols

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