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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Re Cecconi e a banalidade da vida

Meia talentoso, Re Cecconi teve vida abreviada por uma brincadeira que acabou mal (Storie di Calcio)
Luciano Re Cecconi foi protagonista de uma das histórias mais ironicamente tristes do futebol profissional italiano – juntamente à de Luigi Meroni, do Torino. O meio-campista da Lazio fazia sucesso na Serie A e tinha espaço na seleção da Itália, mas acabou sendo assassinado por engano, aos 29 anos.

O jogador nasceu em Nervino, na Lombardia, e jogava futebol apenas por hobby: era carroceiro e ajudava o pai, pedreiro, nos anos difíceis do pós-guerra no norte da Itália. Mesmo sendo um esportista só nas horas vagas, Re Cecconi entrou nas categorias de base do Pro Patria e acabou estreando profissionalmente na Serie C 1967-68, aos 20 anos.

Cecco impressionou o técnico Carlo Regalia e foi integrado ao plantel principal no ano seguinte, virando profissional de uma vez. O loiro se destacou pelos tigrotti e logo foi contratado pelo Foggia, da segunda divisão. Treinado pelo técnico Tommaso Maestrelli, Re Cecconi ajudou os satanelli a chegarem à Serie A e explodiu: após três temporadas na Apúlia, foi levado à Lazio por seu mentor, em 1972. Os romanos também acabavam de retornar à elite.

O "anjo loiro", também chamado de Cecconetzer (pela semelhança ao campeão mundial Günter Netzer, da Alemanha Ocidental), rapidamente ganhou uma vaga de titular na equipe treinada por Maestrelli. O regista comandava as ações da equipe e fazia a bola circular com muita visão de jogo, técnica e habilidade. O salto de qualidade acontecia: se, quatro anos antes, ele estava na Serie C1, em 1972-73 era um dos grandes nomes da terceira colocada na Serie A. A Lazio ainda passou perto do scudetto, já que a campeã Juventus somou apenas dois pontos a mais.
 
Re Cecconi chegou a ser convocado para a Copa de 1974, mas ficou no banco (Getty)
No ano seguinte, porém, a grande glória chegaria e Cecco atingiria seu auge esportivo. Aos 25 anos, liderou a equipe e foi um dos grandes personagens da conquista do primeiro scudetto dos biancocelesti – uma surpresa, já que a Juve era o time mais poderoso à época. O meia criativo era o cérebro daquela equipe e o responsável por abastecer os atacantes Giorgio Chinaglia, Renzo Garlaschelli e Vincenzo D'Amico.

O sucesso pelos aquilotti levou Re Cecconi à seleção italiana. Observado por Enzo Bearzot, treinador da Nazionale sub-23, acabou ganhando espaço também na convocação de Ferruccio Valcareggi para a Copa do Mundo de 1974. O anjo loiro não entrou em campo e a Itália caiu na primeira fase, mas ele foi convocado outras vezes por Fulvio Bernardini, sucessor do técnico que comandou os azzurri por oito anos.

Após a experiência no Mundial, Re Cecconi ainda ajudou a Lazio a ser 4ª colocada na Serie A 1974-75. Na temporada seguinte, depois que Maestrelli começou a tratar um câncer no fígado, os celestes caíram muito de produção: os romanos nem pareciam ter sido campeões dois anos antes e só não foram rebaixados para a segunda divisão por um fio. Cecco mostrou sua importância e fez uma grande partida contra o Como na última rodada do Italiano, ajudando os laziali a permanecerem na elite.

Milhares foram ao funeral do jogador, em Roma (Forza Italian Football)
A morte do ídolo e a derrocada celeste
A temporada 1976-77 começava com dificuldades para a Lazio, uma vez que o ídolo Chinaglia fora jogar no New York Cosmos. A equipe iniciava com técnico novo: o brasileiro Luís Vinício substituiu Maestrelli, que se afastou em definitivo para cuidar da saúde. Daquele momento em diante, o time capitolino colocava suas fichas em Cecco e no atacante Bruno Giordano, de somente 20 anos.

O campeonato começou mal para a Lazio, que perdeu por 3 a 2 para a Juventus em pleno Olímpico – Re Cecconi marcou um golaço naquele jogo. Duas rodadas depois, sofreu uma séria lesão diante do Bologna e o celeste da camisa romana começava a escurecer.
 
A felicidade dos anos anteriores, quase inabalável pela conquista do scudetto, foi substituída pelo luto: no início de dezembro de 1976, Maestrelli sucumbiu ao câncer e faleceu. A onda de emoções negativas que circundavam o ambiente laziale não acabava por aí, pois eles teriam de enfrentar outra tragédia um mês depois.
  
Cecco nem havia se recuperado ainda de sua lesão quando, em janeiro de 1977, foi fazer compras em um bairro tranquilo de Roma. Acompanhado de Pietro Ghedin (atual técnico de Malta e então zagueiro da Lazio) e do perfumista Giorgio Fraticcioli, ele entrou em uma joalheria e fez algo que estava acostumado a fazer em lojas daquela região: com seu espírito brincalhão, tentou simular um assalto. Péssima ideia. 

O jogador foi atingido com um tiro no peito, disparado por Bruno Tabocchini, dono do estabelecimento. Ghedin não foi alvejado porque colocou as mãos ao alto, mas Re Cecconi não teve a mesma sorte: morreu horas depois, no hospital. Falecido aos 29 anos, Cecco deixou esposa e dois filhos, além de ter recebido uma enorme homenagem póstuma em seu funeral. Por sua vez, o joalheiro foi acusado de homicídio, mas alegou legítima defesa e foi absolvido.

A morte de Re Cecconi foi um forte símbolo da derrocada do histórico time da Lazio, que acabou enfraquecido e rebaixado para a Serie B em 1980. Atualmente, o meia dá nome a uma rua de Roma e continua sendo lembrado como um dos melhores jogadores que a Lazio já teve em sua posição.

Luciano Re Cecconi
Nascimento: 1º de dezembro de 1948, em Nerviano, Itália
Morte: 18 de janeiro de 1977, em Roma, Itália
Posição: meio-campista
Clubes como jogador: Pro Patria (1967-69), Foggia (1969-72) e Lazio (1972-77)
Títulos como jogador: Serie A (1974)
Seleção italiana: 2 jogos

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