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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Os 5 maiores técnicos da história do Torino

Único treinador que conquistou o scudetto pelo clube após o desaparecimento
do Grande Torino, Radice é idolatrado pela torcida granata (Today Sport)
Hora do rival. Depois de começarmos a nossa série sobre os melhores treinadores do futebol italiano ao falarmos da Juventus, trazemos o ranking dos técnicos que ajudaram a escrever a história do Torino. E, adiantamos, teremos surpresas no texto.

A princípio os leitores poderiam imaginar que a lista teria uma série de profissionais responsáveis pelo sucesso do Grande Torino nos anos 1940, mas não: o esquadrão que encantou o mundo e faleceu em um desastre aéreo em Superga não tinha os treinadores como seu grande forte. András Kuttik, Antonio Janni, Mario Sperone, Leslie Lievesley ou os diretores técnicos Roberto Copernico e Ernő Erbstein não entraram no nosso ranking, embora tenham sido importantes para o clube. Houve quem os superasse.

Ao contrário da rival Juve, o Torino teve muitos treinadores – a crise que culminou em rebaixamentos nos anos 1990 e 2000 fez este número crescer. Dentre os 91 profissionais que comandaram o clube, alguns outros que não viveram a década de ouro grená merecem citação: o primeiro deles é Vittorio Pozzo, pioneiro em Turim. O bicampeão mundial com a Itália em 1934 e 1938 comandou o Torino entre 1912 e 1922. Outros dois técnicos de relevo e que também tiveram seus bons momentos no Piemonte foram Nereo Rocco (1963-67) e Edmondo Fabbri (1967-69 e 1974-75). Nenhum dos citados, porém, deu mais alegrias do que os cinco que elencamos abaixo.

Critérios
Para montar as listas, o Quattro Tratti levou em consideração a importância de cada técnico na história do clube, do futebol italiano e mundial. Dentro desses parâmetros, analisamos os títulos conquistados, a identificação com a torcida e o dia a dia do clube (mesmo após o fim da carreira), respaldo atingido através da passagem pela equipe, grau de inovação tática e em métodos de treinamento e, por fim, prêmios individuais.

5º - Gian Piero Ventura


Período no clube: 2011-16
Títulos conquistados: nenhum

Atual técnico da Itália, Ventura tinha uma carreira bastante modesta até chegar ao Torino. Especialista em fazer times subirem de divisão, o genovês assumiu o Toro na Serie B com o objetivo de levá-lo à elite, mas acabou se tornando uma solução de longo prazo para os granata. Surpreendentemente, o veterano treinador permaneceu por cinco anos em Turim e comandou a equipe por 207 partidas consecutivas, batendo o recorde estabelecido por Luigi Radice. Depois de conseguir o retorno à elite logo em seu primeiro ano no clube, Ventura construiu um time sólido, equilibrado na defesa e com um contra-ataque mortal. Graças a ele, o Torino voltou a competir na Serie A sem correr riscos de rebaixamento e, ainda por cima, conseguiu se classificar para uma competição europeia depois de mais de 20 anos – na Liga Europa eliminou o Athletic Bilbao e só caiu para o Zenit. 

O lígure ainda conseguiu quebrar um jejum incômodo para a torcida grená: jogou de igual para igual com a Juventus e comandou o Toro na primeira vitória no clássico local desde 1995. Além de contribuir para que o Torino voltasse a ter força dentro da Itália e ser respeitado internacionalmente, o treinador valorizou jogadores como Kamil Glik, Alessio Cerci, Ciro Immobile, Omar El Kaddouri, Danilo D'Ambrosio, Nikola Maksimovic, Bruno Peres, Andrea Belotti e Matteo Darmian, ajudando a tirar a agremiação do vermelho.

4º - Tony Cargnelli


Período no clube: 1927-29, 1934-36 e 1940-42
Títulos conquistados: Serie A (1928) e Coppa Italia (1936)

Austríaco, mas de origem italiana, Anton "Tony" Cargnelli não tinha um currículo recheado quando assinou com o Torino, em 1927: aos 38 anos, o ex-jogador de carreira modesta treinara apenas o Mühlburg, da Alemanha, e o Timisoara, da Romênia. Eram outros tempos, nos quais a figura do técnico apenas começava a ganhar importância, mas Cargnelli foi contratado para dar ao Toro o primeiro scudetto – os grenás haviam vencido em 1926-27, mas tiveram o título confiscado por fraude.

Logo em seu primeiro ano em Turim, o ítalo-austríaco conseguiu aproveitar a boa base que o time já tinha e conduziu os granata ao título, aproveitando o melhor de estrelas do clube, como Adolfo Baloncieri (tido como um dos melhores meias da época), o artilheiro Julio Libonatti e também Gino Rossetti, Mario Sperone e Antonio Janni. Após o vice-campeonato em 1929, Cargnelli rodou pela segunda e pela terceira divisões até retornar ao Toro em 1934, para salvar o time de um rebaixamento e conquistar uma Coppa Italia. O treinador ainda teve uma terceira passagem pelo clube nos anos 1940, mas saiu antes de os grenás se tornarem o Grande Torino. Com tanta identificação com Turim, Cargnelli ficou na cidade após se aposentar e lá viveu até seu falecimento, em 1974.



Período no clube: 1990-94 e 1998-2000
Títulos conquistados: Coppa Italia (1993) e Copa Mitropa (1991)

Técnico de poucos títulos, mas muito querido pelo meio futebolístico, Mondonico atingiu o auge da sua carreira comandando o Torino na primeira metade dos anos 1990. Após passagens consistentes por Cremonese e Atalanta, Mondo voltou ao time em que atuou como jogador e, de cara, conseguiu resultados expressivos com seu estilo de jogo organizado e de muitos cuidados defensivos. Com um elenco relativamente modesto, o Toro ficou com a 5ª posição e a terceira melhor defesa da Serie A, classificando-se à Copa Uefa. A equipe granata também venceu a Copa Mitropa, competição disputada por campeões das segundas divisões de Áustria, Hungria, República Checa e Itália, além do vice da Serie B.

A obra-prima da carreira de Mondo, porém, foi o trabalho realizado na temporada 1991-92, uma das melhores campanhas grenás após a década de 1940. Mondonico conduziu o time a um terceiro lugar na Serie A, com a melhor defesa do torneio, e ainda colocou o Torino em uma inédita final de competição europeia: com direito a agir como carrasco do Real Madrid, a equipe só caiu na Copa Uefa frente ao Ajax – em um dos jogos da decisão, o treinador ainda protestou de forma veemente contra a arbitragem, ganhando ainda mais o amor dos torcedores. No ano seguinte, para coroar seus primeiros anos como técnico em Turim, Mondo levantou a Coppa Italia, encerrando o ciclo vencedor em 1994. Quatro anos depois, o lombardo foi contratado novamente para levar a equipe, imersa em dívidas, de volta à elite. Especialista em acessos que é, ele conseguiu, mas rescindiu o contrato depois de um rebaixamento.

2º - Luigi Ferrero


Período no clube: 1945-47
Títulos conquistados: Serie A (1946 e 1947)

O Grande Torino foi um dos maiores times da história do futebol mas, ao contrário da maioria das equipes que marcaram época, ele não teve um único treinador responsável por ficar com os méritos  da criação. O pentacampeonato conquistado pelo Toro entre 1943 e 1949 é filho de vários pais: uma construção coletiva, com cinco profissionais diferentes. Eles comandaram uma mesma e refinada base de jogadores, que contava com Mario Rigamonti, Ezio Loik, Romeo Menti, Franco Ossola, Gugliemo Gabetto e, claro, Valentino Mazzola. Luigi Ferrero, que foi atacante granata na década de 1930, foi o mais duradouro treinador do período e o único a ter sido bicampeão italiano pelo clube.

O treinador turinês é pouco lembrado fora de sua cidade natal, mas foi ele quem esteve no comando da equipe em em uma de suas temporadas mais marcantes, a de 1946-47. Naquela ocasião, o time venceu 28 jogos e perdeu apenas três em 38 partidas, conquistando o título com 10 pontos de vantagem com relação à vice-campeã, a rival Juventus. A equipe marcou absurdos 104 gols e teve um saldo positivo de 69 tentos, um recorde que seria quebrado pelo próprio Torino no ano seguinte. Depois do sucesso em Turim, Ferrero também foi treinador de Fiorentina, Lazio e Inter, mas nem de longe repetiu os feitos que conseguiu no antigo estádio Filadélfia.



Período no clube: 1975-80 e 1984-89
Títulos conquistados: Serie A (1976)

Gigi Radice sobreviveu a alguns dos ambientes de maior pressão na Itália, como os de Milan, Inter, Roma e Fiorentina, mas o seu feito mais emocionante foi devolver a grandeza a um clube nobre, mas que teve sua trajetória marcada por um desastre. Um dos idealizadores do modelo de jogo conhecido como zona mista, o técnico lombardo fez do Torino um time a ser temido pela marcação pressão e por uma dupla de ataque fulminante. Com esta fórmula, a equipe mostrou uma eficiência categórica e foi campeã da Serie A em 1975-76, naquele que foi o primeiro e único scudetto grená após a Tragédia de Superga. A taça valeu ao técnico o prêmio Seminatore d'Oro, dado ao melhor profissional da temporada.

Comandando ícones do Torino, como o lateral Claudio Sala e os atacantes Paolo Pulici e Francesco Graziani, Radice ainda conseguiu levar os granata a dois vice-campeonatos, um terceiro e um quinto lugares entre 1977 e 1980 – somente em seus anos de ouro o Toro esteve tão frequentemente no alto da tabela da Serie A. Depois de não lograr êxito em quatro clubes, de 1980 e 1984, Radice voltou a Turim e defendeu as cores grenás por mais cinco temporadas. Neste período, conquistou mais um vice do Italiano, em 1985, e também ficou com a segunda colocação na Coppa Italia, em 1988. Apesar de ter deixado o clube por ter sido incapaz de evitar o rebaixamento em 1989, o técnico que mais vezes esteve à beira do gramado comandando o Torino manteve uma relação indelével de carinho com a torcida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Italianos na Europa, semana 2: Diga quem goleias que te direi quem és

Napoli faz 4 a 2 no Benfica e praticamente se garante na próxima fase da Liga dos Campeões. Nem todas as goleadas italianas na Europa, porém, foram tão importantes assim... (Getty)
Se o melhor do futebol são os gols, os torcedores italianos não têm motivos para reclamar dessa segunda rodada de torneios europeus: todos os times da Bota protagonizaram jogos com placares elásticos. Apesar disso, há pouco motivo para empolgação. Juventus, na Liga dos Campeões, e Roma e Fiorentina, na Liga Europa, golearam adversários fracos e que não servem de parâmetro para cravar favoritismo de ninguém. Inter e Sassuolo, por sua vez, perderam feio e a decepção é evidente. 

Ou seja, a única goleada saborosa de verdade foi a do Napoli, que, com um 4 a 2 sobre o Benfica, principal adversário do grupo, praticamente garante sua na próxima fase. Só um desastre muda esse cenário após duas vitórias - e, principalmente, duas boas apresentações - nos dois primeiros jogos. Contra os portugueses, a equipe de Maurizio Sarri conseguiu se impor desde o início e interrompeu a impressionante sequência de 15 vitórias seguidas fora de casa do time de Lisboa. 

Milik, mais uma vez, foi o grande nome da equipe napolitana, com um gol e uma assistência, e já chega a sete gols em oito partidas na temporada. Antes de fazer o seu, de pênalti, ele já tinha exigido uma boa defesa de Julio Cesar e tinha visto Hamsík abrir o placar e Mertens fazer 2 a 0. Julio César colaborou (bastante) fazendo um pênalti e depois catando borboletas no quarto gol da equipe, segundo de Mertens. Gonçalo Guedes e Eduardo Salvio descontaram para os portugueses, mas já era tarde demais para tentar uma reação. 

Quem conseguiu uma reação - mesmo que relativa, por causa do adversário mais fraco - foi a Juventus. O time de Allegri apresentou futebol decepcionante na estreia, contra o Sevilla, em casa, mas conseguiu mostrar que pode render muito mais. O 4 a 0 sobre o Dinamo Zagreb, na Croácia, colocou o time como líder do grupo e foi importante para Dybala recuperar a confiança. 

O argentino ainda não tinha marcado nessa temporada e abriu a contagem com um golaço, em chute forte e preciso de 25 metros que valeu o 3 a 0. Pjanic, que abriu o placar, foi o nome do jogo, sempre muito ligado defensiva e ofensivamente. Foi dele o passe para Higuaín fazer o segundo. Daniel Alves contou com desvio da defesa para fazer 4 a 0 em cobrança de falta e empolgar de vez a torcida bianconera. Para os supersticiosos, vale lembrar que a última fez que a Juve venceu por 4 a 0 fora de casa na Liga dos Campeões foi em 1995, contra o Rangers. A temporada terminou em título europeu.

Em belíssima atuação, Totti mais uma vez foi a estrela da Roma (Bartoletti)
Show de aniversário
Totti completou 40 anos na terça-feira, dia 27, mas deixou a festa com os torcedores para esta quinta, 29. Il Capitano deu show contra o Astra Giurgiu, no Olímpico de Roma, e, com participação direta em três dos quatro gols, só não deixou os romanistas mais felizes porque não conseguiu balançar as redes. A grande atuação vem em momento importante, depois de um empate feio contra o Viktoria Plzen na estreia, mas não deve empolgar. O romeno Astra é o pior time do grupo e já acumula sete gols sofridos em duas rodadas. 

O domínio absoluto da partida por mais de 80 minutos, esse sim é de se comemorar. A equipe soube mandar muito bem no jogo e não teve dificuldades. O goleiro Alisson, por exemplo, só foi exigido duas vezes e foi muito bem em ambas. Strootman, Fazio e Salah marcaram e Fabricio ainda fez um contra. Gerson, ex-Fluminense, entrou no fim da partida e não agradou muito Spaletti: “Rápido de ideia, mas muito lento das pernas. Terá dificuldades para se adaptar”, disse em entrevista pós-jogo. 

Em Florença, a Fiorentina teve vitória parecida com a da Roma: goleada após estreia, domínio, mas necessidade de frear a empolgação. O Qarabag, afinal, passa longe de ser um adversário à altura. O time do Azerbaijão ainda ficou com um a menos a partir dos 30 minutos do primeiro tempo e viu show de Zárate e Babacar, que marcaram dois gols cada, depois que a Viola ficou com um a mais em campo. Kalinic (F) e Ndlovu (Q) completaram o placar.

Erros de Ranocchia e Felipe Melo causaram mais uma derrota da Inter na Liga Europa (EPA)
Decepção
A palavra define a participação da Inter na Liga Europa essa temporada. Após perder para o Hapoel, em casa, por 2 a 0, na primeira rodada, a Inter deu novo vexame contra o Sparta Praga, dessa vez jogando longe de seus torcedores. Com defesa totalmente perdida em campo, Vaclav Kadlec conseguiu fazer 2 a 0 em apenas 25 minutos de jogo. Para piorar, Ranocchia foi expulso logo quando a Inter esboçava uma reação (gol de Palacio) e Holek fez o 3 a 1. A Inter da Europa não parece a mesma do Campeonato Italiano. Os jogadores que ganham chance no turnover de De Boer não aproveitam a chance e a equipe não mostra o mesmo empenho. Agora, a classificação ficou muito difícil: a Inter é a última do grupo, quatro pontos atrás de Southampton e Hapoel. 

Enquanto isso, o Sassuolo - que impressionou muito na primeira rodada com vitória por 3 a 0 sobre o favorito Athletic Bilbal - decepcionava na Bélgica, contra o Genk. Visitante, o time de Di Francesco não conseguiu repetir a boa atuação e viu os belgas decidirem a partida ainda na primeira etapa. Karelis e Bailey fizeram 2 a 0 com 25 minutos e depois administraram. No segundo tempo, Buffel ampliou para os donos da casa e Politano descontou para o Sassuolo, que continua na briga. Agora, todos os times do grupo têm três pontos.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

40 fatos sobre Totti em seu aniversário de 40 anos

Em 40 anos de vida, 27 deles dedicados à Roma, Totti construiu história inigualável (Getty)
Por Braitner Moreira e Mateus Ribeirete

27 de setembro de 2016: o oitavo (ou nono, se considerarmos Paulo Roberto Falcão) Rei de Roma completa 40 anos. Homenageado por grandes figuras do futebol mundial e do showbiz, Francesco Totti construiu uma história invejável, a qual continua escrevendo, dia após dia. Neste momento de festejos, é hora de elencarmos 40 fatos sobre o craque romano.
  1. No último jogo antes de completar 40 anos, contra o Torino, Francesco Totti chegou a 250 gols no Campeonato Italiano. À frente dele, na história da competição, só há Silvio Piola, que marcou 274 vezes de 1929 a 1954, por Pro Vercelli, Novara, Juventus... e, ironicamente, Lazio.

  2. Apesar de tantos gols, Totti tem apenas um prêmio pessoal de artilheiro de alguma competição. O camisa 10 marcou 26 gols no Campeonato Italiano 2006-07 (seis a mais que Cristiano Lucarelli, do Livorno) e conquistou também a Chuteira de Ouro europeia. A Roma terminou a temporada como vice-campeã, atrás da Inter.

  3. O melhor amigo de Totti é Giancarlo Pantano, 39 anos, jogador aposentado que sequer chegou à Serie B. Eles se conheceram aos 2 anos e ainda se veem com frequência. Pantano atuou por times como Lodigiani, Pistoiese, Igea Virtus, Latina e Cisco Roma.

  4. O fato de Totti ter chegado a 2016 como maior bandeira da história da Roma se deve a uma decisão tomada em 1990. Naquele ano, aos 13, o jovem Francesco se recusou a ouvir as propostas da Lazio e do Milan.

  5. Totti não estava sozinho quando deu seus primeiros passos na Roma. A mãe, Fiorella, o levava aos treinamentos em Trigoria e aguardava até que o pequeno saísse das atividades. Sol, chuva, frio? Lá estava mamma Fiorella dentro do carro, preparando resumos das disciplinas que Francesco deveria estudar ao chegar em casa. Hoje, ela tem um lugar fixo no Estádo Olímpico.

  6. Depois do título italiano da temporada 2000-01, o último scudetto da Roma, Totti ganhou um painel na região de Monti, na Cidade Eterna. Uma década depois, torcedores da Lazio picharam a figura e escreveram: “Roma è morta”. Uma força-tarefa de torcedores restaurou a pintura, atacada novamente no ano seguinte e, mais uma vez, consertada por voluntários.

  7. Totti já virou personagem de gibis: o Papertotti, pato da Disney que joga futebol e celebra os gols chupando o dedo. Sua primeira aparição se deu em “Papertotti e o segredo do cucchiaio”, homenagem ao característico chute por cobertura com que o jogador se notabilizou.

  8. Tem um gladiador tatuado no braço direito. Naturalmente, também já foi homenageado em tatuagens alheias.

  9. Dérbi: Totti já fez 11 gols na Lazio, todos na Serie A. Esse número o consolida como maior artilheiro do clássico romano. Também é quem mais disputou a partida, com 41 encontros.

  10. O casamento entre Francesco Totti e Ilary Blasi, em junho de 2005, foi transmitido ao vivo pela Sky, que pagou 30 mil euros pelos direitos do evento, acompanhado nacionalmente por mais de 1 milhão de espectadores. O dinheiro foi doado para a beneficência.

    Ainda jovem, Totti já era camisa 10 e capitão da Roma (The Sun)
  11. Por sinal, Ilary Blasi é torcedora da Lazio e nunca escondeu isso, mas depois do casamento começou a dizer que não costumava acompanhar futebol. Das tantas tatuagens da modelo/apresentadora, uma é dedicada a Totti: o F, de Francesco, no antebraço esquerdo.

  12. A estreia na seleção italiana veio aos 22 anos, nas Eliminatórias da Eurocopa de 2000, contra a Suíça, em Údine. Aos 25 minutos, o técnico Dino Zoff colocou Totti, com a camisa 17, no lugar de Alessandro Del Piero, que marcou os dois gols da vitória italiana. O primeiro gol só sairia um ano e meio depois, diante de Portugal.

  13. O maior herói de Totti no futebol é Giuseppe Giannini, il Principe, capitão da Roma de 1987 a 1992. No quarto da casa em que vivia, em Porta Metronia, Francesco tinha um pôster do ex-camisa 10 e vários recortes de jornal das grandes partidas do ídolo.

  14. Totti disputou sua primeira Champions League somente em 2001/02, ou seja, já próximo de completar 26 anos. Antes disso, limitava-se à Copa Uefa. Esse fato simboliza a dificuldade de defender, ao mesmo tempo, Roma e ambições profissionais máximas.

  15. Na Euro 2004, cuspiu em Poulsen. Já pisou em Ramelow e chutou Balotelli. Também empurrou o colega e amigo Vito Scala ao ser expulso de campo. Aos quarenta anos, não arruma mais encrencas.

  16. Quando o treinador Vujadin Boskov chamou Francesco Totti para que ele estreasse, contra o Brescia, em 28 de março de 1993, o jovem romano nem acreditou. “Quando ele disse ‘se aqueça’, pensei que estava chamando (Roberto) Muzzi, sentado ao meu lado”, contaria Totti, anos depois. Ele entrou no lugar de Ruggiero Rizzitelli.

  17. Naquele jogo contra o Brescia, Totti usou a camisa 16. No dia do primeiro gol pelo Campeonato Italiano, vestia a 9. Pela Roma, também jogou com a 20 e a 17 até tomar para si a 10. A estreia com o número mais importante do futebol se deu em 30 de outubro de 1994, contra o Parma, fora de casa. O time da capital perderia por 1 a 0, castigada pelo gol de outro 10: Gianfranco Zola.

  18. O goleiro mais vazado por Totti é Gianluigi Buffon, amigo pessoal e ex-companheiro de seleção italiana. São 11 gols na conta do camisa 10 da Roma, sendo o mais importante deles o de 17 de junho de 2001, na vitória por 3 x 1 diante do Parma, que valeu o scudetto. O francês Sébastien Frey (ex-Inter, Verona, Parma, Fiorentina e Genoa) sofreu 10.

  19. Francesco Totti é o único jogador remanescente do Fifa 96. Desde então, o capitão da Roma esteve em todas as edições da história do game.

  20. Coleciona oito vice-campeonatos da Serie A, além de cinco da Coppa Italia e três da Supercoppa.

    Em toda sua carreira, o torcedor Totti entrou em ação: se esforçava
    em dobro quando atuava contra a Lazio (AP)
  21. Quando patrocinado pela Nike, participou de comerciais marcantes, como “Brasil x Portugal” e “Torneio Secreto” – esse último dirigido por ninguém menos que Terry Gilliam, do Monty Python. Curiosamente, uma segunda versão de “Brasil x Portugal” o substitui por van Nistelrooy, dado o fim de seu contrato com a marca.

  22. Tímido e com sotaque carregado, Totti carregou a fama de ignorante no início da carreira. Sua resposta bem-humorada foi o lançamento de um livro de piadas. Ele é o alvo de todas. Exemplo:

    Totti diz a um amigo: “Olha só, achei um livro interessantíssimo!”.
    O amigo: E qual o nome do livro?
    Totti: Como resolver 50% dos seus problemas.
    O amigo: E você comprou?
    Totti: Sim, comprei dois.

  23. Aldair cedeu a braçadeira de capitão da Roma a Francesco Totti em 1998. “Achei que ele estivesse pronto para essa responsabilidade e que a faixa só iria ajudá-lo a crescer mais. Foi só para encorajá-lo”, afirmou o brasileiro.

  24. “Não suportava Carlos Bianchi”. O técnico argentino tentou emprestar Totti à Sampdoria.

  25. Inaugurou uma escola de futebol, comandada por seu irmão Riccardo. A Totti Soccer School desenvolve projetos com crianças portadoras de deficiência.

  26. Já atuou em qualquer posição ofensiva, da meia-esquerda à função de falso nove. Hoje, costuma entrar em campo à Totti, isto é, flutuando como bem entende na construção de jogadas.

  27. Jogou a Copa do Mundo de 2006 no sacrifício, após lesão séria no tornozelo. Mesmo assim, fez um gol e conferiu quatro assistências. Na temporada seguinte, quando foi Chuteira de Ouro, ainda tinha um pino de metal na região.

  28. A Beginner’s Guide to Totti: proteção de bola; passes de primeira; visão; cucchiaio; 235 gols; pênaltis.

  29. O que toca no iPod de Francesco Totti? Ele mesmo contou, em 2012:

    1. Su di Noi (Pupo)

    2. Balliamo Sul Mondo (Ligabue)

    3. We Will Rock You (Queen)

    4. Vado Al Massimo (Vasco Rossi)

    5. The Best (Tina Turner)

    6. Goodbye Kiss (Kasabian)

    7. Sotto Bombardamento (Ligabue)

    8. Rolling in the Deep (Adele)

    9. The Final Countdown (Europe)

    10. Ragazzo Fortunato (Jovanotti)

  30. Em 2005, uma camisa de Totti ajudou a salvar a vida de Giuliana Sgrena, jornalista italiana que permaneceu um mês sequestrada em Bagdá. O capitão entrou em campo com os escritos “Liberate Giuliana” sobre o uniforme. Segundo a refém, torcedora da Juventus, um dos sequestradores era fã da Roma, viu a imagem pela TV e ficou desconcertado ao ver a mensagem emitida por seu ídolo. Apesar disso, Giuliana conta na biografia escrita por Tonino Cagnucci que nunca se encontrou com Totti.

    A grande beleza: essa história terá fim em breve (TMW)
  31. O gols mais bonitos da carreira? Certamente a lista precisa ter aquele contra a Inter de Milão, num lance em que Totti corre desde antes do o meio-campo, passa por três jogadores e encobre Julio Cesar. Não dá para esquecer a trivela de canhota diante da Sampdoria, lance em que a bola faz uma curva improvável, nem a bola de cobertura nos 5 x 1 contra a Lazio. Entre os gols mais antigos, outra trivela que parecia impossível, contra o Milan de Sebastiano Rossi.

  32. Além dos gols, Totti se consagrou com 128 assistências, 117 pela Roma - número que só não foi maior porque os alvos dos passes nesses tantos anos foram “desperdiçadores” como Nonda, Mido, Esposito, Destro e, agora, Dzeko. Seu maior companheiro de ataque foi Cassano, com quem jogava por telepatia. Totti praticamente adotou o rapaz de Bari quando ele chegou à capital, ainda jovem, e a relação sofreu desgastes nos anos seguintes, principalmente quando Cassano saiu para o Real Madrid.

  33. Algumas comemorações de gols marcados por Totti já foram eternizadas. A última grande delas, a selfie para comemorar um gol no dérbi contra a Lazio, foi emulada até em videogame. Empunhar a câmera oficial de transmissão para apontar para o público e “6 unica” (de novo contra a Lazio) completam o pódio.

  34. Os gols de Totti puderam ser vistos em 122 estádios: 47 italianos e 75 internacionais. Entre os times, as vítimas preferidas foram Parma (20 gols marcados), Udinese (16) e Sampdoria (15). Contra os outros grandes do futebol italiano, foram 12 contra a Inter, 11 sobre a Lazio e o Milan e 9 diante da Juventus.

  35. A expulsão mais impactante da carreira de Totti é a das oitavas de final da Copa do Mundo de 2002, contra a Coreia do Sul, quando o italiano foi derrubado na grande área. Em vez de marcar o pênalti, o árbitro Byron Moreno deu o segundo cartão amarelo e o tirou de campo. A Fifa admitiu o erro, depois de alguns dias. Moreno seria preso em 2011.

  36. Entre pontapés, cuspes, carrinhos e reclamações, não é raro que Totti saia de campo com algum cartão. Foram 122 amarelos e 15 vermelhos, segundo a Gazzetta dello Sport. Hoje, ele vive a fase mais light da carreira.

  37. Perdi a virgindade aos 12. Ela tinha 17”. Não, essa não estava no livro de piadas lançado por Totti...

  38. Filho mais velho do capitão, Cristian Totti tem 10 anos e é capitão do time infantil da Roma. Joga com a camisa 10, obviamente. As outras crias do casal Totti-Blasi são as garotas Chanel e Isabel.

  39. Fora o futebol, Totti é fã de basquete. Em dezembro de 2009, vestiu a camisa da Lottomatica Roma, time da cidade, num evento beneficente que confrontou Itália e Resto do Mundo numa partida de dois tempos. Antes do intervalo, os jogadores de futebol se enfrentavam no basquete; depois, os atletas do basquete jogavam futsal. Totti marcou dois pontos. O ex-lateral John Arne Riise, amigo próximo do capitão, terminou como cestinha, com 13 pontos.

  40. Messi: “Ele é o futebol, que fenômeno”. Cristiano Ronaldo: “Totti é impressionante”. Ibrahimovic: “Totti é como eu, não deve demonstrar mais nada a ninguém”. Alex Ferguson: “Sem dúvida, é o melhor jogador da história italiana”. Pelé: “Totti é o Pelé italiano. É o jogador italiano mais conhecido no mundo”. Maradona: “É o melhor jogador do mundo. Me convence mais que Zidane e Beckham, faz as coisas difíceis ficarem simples, faz o time jogar bem”.

Os 5 maiores técnicos da história da Juventus

Professor e aprendiz: Trapattoni e Conte figuram no hall dos
maiores treinadores que a Juve já teve (Gazzetta dello Sport)
Nenhum país leva mais a sério a função de um técnico do que a Itália. Em outra ocasião, demos destaque ao trabalho destes profissionais quando fizemos o guia tático do futebol italiano, no qual falamos quais treinadores revolucionaram a história do esporte na Bota. Hoje começamos uma nova série, similar àquelas dos jogadores mais importantes dos principais clubes do Belpaese e do campeonato: listaremos os treinadores que marcaram época nos times e também criaremos um ranking com os melhores desde o estabelecimento da Serie A. Começamos com a Juventus, a maior vencedora de scudetti.

Em seus quase 120 anos de existência, a Juve teve 44 técnicos – 10 dos quais comandaram o time de forma interina. Somente em 1923 é que a figura do treinador foi estabelecida de forma definitiva na equipe, e foi o húngaro Jenő Károly que teve o privilégio de ser o pioneiro, após ser contratado pelo presidente Edoardo Agnelli. Desde então, ao menos 23 treinadores ganharam troféus pelo clube, mas menos de 10 fizeram história – falaremos mais detalhadamente sobre cinco deles logo abaixo.

Entre os treinadores estrangeiros, tal qual Károly, a Juve viu o sucesso do ítalo-argentino Renato Cesarini, vencedor de duas Serie A e uma Coppa Italia nos anos 1950, e do checoslovaco Cestmír Vycpálek (tio de Zdenek Zeman), ganhador de dois scudetti na década de 1970. O paraguaio Heriberto Herrera, que ficou em Turim entre 1964 e 1969 e levantou duas taças, também marcou época: é o estrangeiro com mais jogos à frente do clube (215). Um brasileiro chegou a treinar o time: Paulo Amaral, que não obteve sucesso nos anos 1960.

Mas foram mesmo os italianos que tiveram maior identificação e mais conquistas na agremiação de mais torcida do país. Entre os vitoriosos que não serão perfilados por nós, vale mencionar o atual técnico do clube, Massimiliano Allegri, bicampeão da Serie A e da Coppa Italia, que vai cavando seu lugar na história juventina dia após dia – podendo até galgar espaços em um futuro ranking. Outro que merece uma notinha de rodapé é Fabio Capello. Oficialmente, o sisudo comandante não tem conquistas pela Velha Senhora, mas foi ele que levou a Juve a um bicampeonato nacional em 2005 e 2006 – títulos revogados pelo Calciopoli.

Critérios
Para montar as listas, o Quattro Tratti levou em consideração a importância de cada técnico na história do clube, do futebol italiano e mundial. Dentro desses parâmetros, analisamos os títulos conquistados, a identificação com a torcida e o dia a dia do clube (mesmo após o fim da carreira), respaldo atingido através da passagem pela equipe, grau de inovação tática e em métodos de treinamento e, por fim, prêmios individuais.



Período no clube: 1959-61, 1961-62 e 1974-76
Títulos conquistados: Serie A (1960, 1961 e 1975) e Coppa Italia (1959 e 1960)

Parola foi um dos zagueiros mais importantes da história da Juventus – no momento em que ele virou treinador da equipe, talvez fosse o mais significativo, inclusive. O ex-xerife da zaga não tinha grande currículo fora das quatro linhas quando assumiu o cargo em 1959, tendo Renato Cesarini a seu lado, como diretor técnico, mas já chegou conquistando títulos: a primeira dobradinha da história bianconera, com as taças da Serie A e da Coppa Italia. Era Parola quem dava os treinos e comandava a Juventus à beira do campo, quando a Velha Senhora tinh um dos times mais importantes de sua história, com o Trio Mágico, formado por Giampiero Boniperti, John Charles e Omar Sívori.

No ano seguinte, ainda com Cesarini, e depois com Gunnar Gren, Parola levou a equipe à conquista de mais uma Serie A, no último ano do Trio Mágico, que deixou de existir com a aposentadoria de Boniperti. O treinador deixou o cargo ao fim da temporada, mas logo foi chamado para substituir Gren, e fazendo nova dupla, desta vez com Július Korestelev: dessa vez, porém, a temporada foi falimentar e a Juve ficou com a 12ª posição, a pior em sua história. Demitido, Parola rodou em equipes menores até meados dos anos 1970, quando foi chamado por Boniperti, agora presidente da Juve, para voltar ao comando técnico do clube. Com influências do Futebol Total holandês, Parola armou um time dinâmico, que ficou com o título em 1975 e o vice em 1976 – as rusgas internas do elenco atrapalhara. Foi o último trabalho da carreira do treinador.



Período no clube: 2011-14
Títulos conquistados: Serie A (2012, 2013 e 2014) e Supercopa Italiana (2012 e 2013)

Assim como Parola, Conte tinha um importante passado como jogador juventino e um currículo modesto como treinador quando foi alçado ao cargo de comandante da Juventus. A falta de experiência como técnico em grandes equipes não atrapalhou o ex-capitão, que durante seus tempos como atleta foi treinado por gente do quilate de Giovanni Trapattoni, Arrigo Sacchi, Marcello Lippi e Carlo Ancelotti. Em seu primeiro desafio à frente de um time grande, Conte soube usar as peças que tinha à disposição, e alternando entre o 3-5-2 e o 4-3-3, devolveu à Velha Senhora a soberania perdida após o rebaixamento, consequência do Calciopoli.

Nenhuma equipe foi capaz de dar testa à Juve de Conte. Nos três anos em que o atual técnico do Chelsea treinou a Juve, a Velha Senhora alcançou diversos recordes e cinco títulos, incluindo o tricampeonato italiano. Não bastasse ter vencido tanto, a intensidade, a organização e a vontade de vencer que o salentino construiu em Vinovo ficou como herança para Massimiliano Allegri, que manteve a gigante bianconera no topo da Itália e entre os times mais competitivos de toda a Europa.



Período no clube: 1930-34
Títulos conquistados: Serie A (1931, 1932, 1933 e 1934)

O elegante Carlo Carcano foi um dos primeiros grandes técnicos de equipes italianas. Ex-jogador da Alessandria, o lombardo realizou um bom trabalho à frente do clube que o formou e também passou brevemente pela seleção italiana antes de elevar a Juventus de patamar em solo nacional. Quando Carcano chegou, em 1930, o time bianconero tinha apenas dois scudetti, mas ele fez uma revolução na história do clube. O comandante iniciou o período conhecido como Quinquennio d'Oro, que valeu à Velha Senhora o primeiro pentacampeonato consecutivo de qualquer agremiação na Bota. A marca ainda é um recorde a ser batido na Serie A, já que apenas Torino, Inter e a própria Juventus conseguiram igualá-lo.

Protagonista do time na década de 1930, Carcano esteve presente em quatro das cinco conquistas, estabelecendo o recorde de scudetti consecutivos para treinadores, que também perdura até a atualidade. O treinador, que também foi auxiliar de Vittorio Pozzo na vitoriosa campanha da Itália na Copa de 1934, só não ficou mais tempo na Juve porque o fascismo dominante naqueles tempos sombrios do Belpaese não permitiu. Carcano foi demitido sem maiores explicações, mas jornais da época afirmavam que o clube de Turim rompeu com seu ídolo por uma suposta homossexualidade de Carcano, que nunca confirmou o boato. Fato é que, depois disso, sua carreira decaiu.



Período no clube: 1994-99 e 2001-04
Títulos conquistados: Serie A (1995, 1997, 1998, 2002 e 2003), Supercopa Italiana (1995, 1997, 2002 e 2003), Liga dos Campeões (1996), Mundial Interclubes (1996) e Supercopa Uefa (1996)
Durante muito tempo, falar em Lippi era falar em Juventus. Apesar de ter treinado a seleção italiana duas vezes – em uma, foi tetracampeão mundial – e de ter feito trabalhos muito bons em Cesena, Atalanta e Napoli, a identificação do treinador toscano é completa com a Velha Senhora, clube em que trabalhou duas vezes, num total de oito anos. Considerado antipático por boa parte dos não-juventinos, Lippi mesclou influências do trabalho de Arrigo Sacchi com o velho jogo à italiana para fazer da Juve uma máquina nos anos 1990 e início dos 2000.

Na primeira passagem por Turim entre 1994 e 1999, Lippi conquistou, entre outros títulos, três scudetti, um Mundial Interclubes e foi a duas finais de Liga dos Campeões – foi vencedor uma vez –, enquanto em seu segundo período bianconero, foi campeão italiano em mais duas oportunidades. Em ambos os trabalhos, Alessandro Del Piero era o centro do esquema e o foco de criação e finalização das jogadas de elencos que atacavam com dinâmica e pressão para contra-atacar. Além disso, Lippi solidificou na Juventus uma tradição de um futebol de marcação muito aplicada, grandes defesas e poucos gols sofridos. Não à toa, o treinador nascido em Viareggio foi coroado também com muitos prêmios a seu trabalho durante a carreira, sendo eleito melhor profissional da Itália e da Europa.



Período no clube: 1976-86 e 1991-94
Títulos conquistados: Serie A (1977, 1978, 1981, 1982, 1984 e 1986), Copa Uefa (1977 e 1993), Coppa Italia (1979 e 1983), Copa dos Campeões (1985), Mundial Interclubes (1985), Supercopa Uefa (1984) e Recopa Europeia (1984)

Um dos maiores técnicos da história do futebol italiano e europeu, Trapattoni começou a se tornar um dos mais vitoriosos comandantes do mundo na Juventus. Ele chegou à Velha Senhora em 1976, após estrear pelo Milan, e ficou no clube por uma década, estabelecendo o ciclo mais duradouro de toda a história do Belpaese – Trap ainda teve um retorno a Turim em 1991, totalizando 13 anos à frente da gigante bianconera. Neste período, o milanês comandou a equipe em 598 jogos, com 53,34% de aproveitamento e 14 títulos conquistados.

Eleito duas vezes Seminatore d'Oro – prêmio conferido ao melhor técnico da Serie A –, Trapattoni é o recordista em número de scudetti (sete) e venceu o Campeonato Italiano seis vezes pela Juventus - o que significa dizer que quase 20% dos títulos nacionais do clube têm o seu dedo. Pioneiro da zona mista, estilo de jogo com fortes influências do catenaccio e do Futebol Total, Trap montou o time juventino mais lembrado de toda a história, com uma das defesas mais sólidas de todos os tempos: ao longo deste período, teve Dino Zoff, Stefano Tacconi, Claudio Gentile, Gaetano Scirea, Antonio Cabrini, Marco Tardelli, Paolo Rossi, Zbigniew Boniek e Michel Platini como pilares. Sob a batuta do Trap, uma lenda viva, a Velha Senhora também venceu a Copa dos Campeões e o Mundial Interclubes pela primeira vez em uma sua história.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

6ª rodada: Touro desembestado

Na volta de Belotti ao time titular, o Torino mostrou força contra a Roma (Ansa)
Rodadas que antecedem jogos de competições europeias tem suas peculiaridades: enquanto os times que participam dos torneios continentais poupam alguns jogadores e atum em ritmo mais lento, os adversários que disputam apenas a Serie A tentam aproveitar para somar pontos. Foi o que aconteceu em Torino-Roma, partida em que a volta de Belotti fez diferença para os granata, amplamente superiores – e responsáveis por ofuscarem uma marca histórica da carreira de Totti, às vésperas de seus 40 anos. A 6ª rodada ainda teve vitórias pro forma de Juventus e Napoli, além de empates para Inter, Fiorentina e Milan. Confira abaixo.

Torino 3-1 Roma
Belotti (Obi), Falqué (pênalti) e Falqué (Belotti) | Totti (pênalti)

Tops: Belotti e Falqué (Torino) | Flops: Bruno Peres e De Rossi (Roma)

Il Gallo is back. Belotti estava ausente do time titular havia três rodadas, após lesão sofrida na data Fifa deste mês, e voltou em grande estilo, simplesmente gerando os três gols da grande vitória do Torino sobre a Roma. O centroavante e o meia-atacante Falqué, emprestado pelo clube giallorosso, dominaram a defesa visitante e, especialmente, o ex-granata Bruno Peres, que teve partida desastrosa no seu retorno à Turim – jogador pouco faltoso, o brasileiro fez até pênalti.

Eficiente como sempre – desde que Belotti esteja em campo –, o time de Mihajlovic jogou à sua maneira, alternando entre defesa baixa e pressão no campo adversário, sempre com ataques rápidos e objetivos, aproveitando a inteligência e força do seu camisa 9, junto à técnica e precisão do camisa 14 espanhol. Nota negativa para o enésimo problema físico de Obi, que fez belo cruzamento no primeiro tento e vinha de bom início de temporada, mas acabou substituído aos 23 minutos. Quem diria que o gol número 250 de Totti na Serie A passaria quase batido? Pois é, os romanos jogaram tão mal que até o seu lendário capitão saiu ofuscado.

Palermo 0-1 Juventus
Goldaniga (contra)

Tops: Posavec (Palermo) e Daniel Alves (Juventus) | Flops: Goldaniga (Palermo) e Mandzukic (Juventus)

Um típico jogo que leva a Juventus ao título. A equipe de Allegri não esteve bem (muito pelo contrário) e sofreu com a estranha dupla de ataque formada pelo treinador, que preferiu escalar Higuaín e Mandzukic juntos e deixar Dybala no banco. Outro ponto negativo foi o jogo muito concentrado em Dani Alves, apesar de boas participações de Lemina e Higuaín. Cuadrado teve seus primeiros minutos na temporada, mas também não teve grande impacto na partida – o colombiano substituiu o lesionado Rugani, que, assim como Asamoah, fica fora por cerca de seis semanas.

Com as muitas chances desperdiçadas por Mandzukic, as ótimas defesas do jovem goleiro Posavec e poucas oportunidades claras para Higuaín, bastou o gol contra de Goldaniga, em desvio de chaleira após chute de Dani Alves. Gol contra com estilo para determinar uma vitória magra e a manutenção da liderança.

Napoli 2-0 Chievo
Gabbiadini (Callejón) e Hamsík (Insigne)

Tops: Zielinski e Hamsík (Napoli) | Flops: Birsa e Hetemaj (Chievo)

Contra um adversário que se provou diversas vezes complicado, Sarri preferiu não correr riscos e precisou de apenas 45 minutos para garantir importante vitória para o Napoli diante do Chievo, sua asa negra. Em meio a boa parte do time titular, Zielinski mais uma vez foi um dos melhores em campo, mas foram os "veteranos" que desequilibraram.

Os dois gols do vice-líder da Serie A saíram com a marca Napoli de Sarri: o primeiro, com roubo de bola no campo adversário, teve lançamento de Hamsík para Callejón nas costas da defesa e passe do espanhol para o atacante centralizado – Gabbiadini, no caso, que aproveitou a chance e o espaço para chutar colocado no canto. O segundo surgiu em jogada pela esquerda: Insigne carregou a bola por dentro e apenas serviu o capitão Hamsík, que se desmarcava atrás do lateral que perseguiu o ponta. Com uma linda finalização, o eslovaco chegou ao 100º gol com a camisa dos partenopei.

Inter 1-1 Bologna
Perisic (Candreva) | Destro (Verdi)

Tops: Candreva (Inter) e Verdi (Bologna) | Flops: Kondogbia (Inter) e Krafth (Bologna)

Não foi por falta de chances que a Inter tropeçou em San Siro diante do Bologna. O quarteto Candreva, Banega, Perisic e Icardi novamente esteve em grande forma, mas acabou não tendo a mesma precisão de outras oportunidades e também esbarrou em Júnior Costa, substituto de Mirante. Apesar de um desastre com os pés diante do sufocante pressing interista, o brasileiro manteve o grande resultado para o time de Donadoni, que teve poucas chances, mas aproveitou a falha de Kondogbia para abrir o placar. Em grande jogada de Verdi, o ponta desorganizou a defesa para Destro receber livre e superar Handanovic, executando a lei do ex pela quarta vez contra a equipe em que foi revelado.

A Inter melhorou com a entrada do jovem Gnoukouri no lugar do desastroso volante francês, ainda no primeiro tempo, e respondeu com um golaço de Perisic em lançamento de Candreva – o melhor em campo. Apesar do crescimento na partida, a Inter perdeu grandes chances com Icardi  e Ranocchia, enquanto Éder e o estreante Gabriel não acrescentaram muito no segundo tempo, diante da solidez bolonhesa. Méritos para o pragmatismo de Donadoni e para a bem postada zaga rossoblù, com destaque para Maietta.

Fiorentina 0-0 Milan
Tops: Bernardeschi (Fiorentina) e Donnarumma (Milan) | Flops: Ilicic (Fiorentina) e Bacca (Milan)

Outro resultado decepcionante para a Fiorentina. Pela enésima vez, o time de Paulo Sousa teve o domínio da posse de bola e territorial, criou boas chances, mas não chegou ao gol ou à vitória. O Milan, por sua vez, contou com Donnarumma para manter o empate, já que o plano de jogo pareceu pouco elaborado por Montella no retorno à Florença. Os rossoneri criaram apenas em contra-ataques com Bonaventura e Niang, mas ainda assim reclamaram de penalidade de Tomovic sobre Luiz Adriano, na reta final da partida. Do outro lado, Ilicic ficará marcado pelo pênalti perdido, seu primeiro na Serie A, mas ainda assim foi de longe o mais perigoso e criativo na partida.

Sassuolo 1-0 Udinese
Defrel (Lirola)

Tops: Lirola e Acerbi (Sassuolo) | Flops: De Paul e Théréau (Udinese)

Apesar de não ter Berardi, o Sassuolo segue firme. Não fosse a derrota para o Pescara no tribunal por escalação irregular, o time de Di Francesco neste momento estaria na terceira posição, a três pontos da líder Juventus. E se seu craque não está disponível, o lado direito segue perigoso. O jovem Lirola mais uma vez fez ótima partida: o espanhol foi protagonista no gol da vitória e apareceu como jogador mais criativo do time junto a Politano, herdeiro de Berardi na ponta direita. Defrel, mesmo abaixo da sua média dessa vez, segue oportunista para marcar os gols que fazem os neroverdi sonharem. Do outro lado, a fraquíssima atuação de válvulas de escape da Udinese – a saber, Adnan, De Paul, Kums, Peñaranda e Théréau – comprometeu as chances dos friulanos, embora Zapata e Perica tenham tentado o empate a qualquer custo.

Lazio 2-0 Empoli
Keita e Lulic

Tops: De Vrij e Lulic (Lazio) | Flops: Saponara e Gilardino (Empoli)

Um tanto confuso, o time de Inzaghi não tem sido confiável ou deixado boas impressões, mas os resultados vem aparecendo e a equipe está bem na tabela: localizada num grupo de cinco times com 10 pontos, entre a 4ª e 8ª posições. Sem tantas referências técnicas para segurar a bola e trocar passes por muito tempo, mais uma vez a Lazio deixou de ter a pelota para apostar na força física do seu elenco e no desequilíbrio individual, o que resultou em muitos duelos aéreos ganhos, roubos de bola no campo adversário e dribles – neste cenário, destaque para os zagueiros e meio-campistas. O Empoli teve a bola, mas não teve quase nenhuma efetividade, já que Saponara e Gilardino mais uma vez tiveram dia apagado, enquanto os anfitriões foram eficazes e oportunistas. Em lances que tiveram participação quase que involuntária de Immobile, Keita e Lulic aproveitaram os erros defensivos para marcar os gols.

Genoa 1-1 Pescara
Simeone (Gentiletti) | Manaj (Zampano)

Tops: Simeone (Genoa) e Zampano (Pescara) | Flops: Edenílson e Pandev (Genoa)

No confronto dos times dos jovens treinadores Juric e Oddo – ambos com experiência na base genoana –, quem chamou atenção foram os promissores centroavantes Simeone e Manaj. Titular pela primeira vez, Cholito substituiu o lesionado Pavoletti, foi autor de belo gol no primeiro tempo e realizava  grande partida até ser substituído no final, por causa da segunda expulsão dos anfitriões – as expulsões de Edenílson e Pandev geraram revolta do presidente Preziosi. Já o albanês, emprestado pela Inter, foi decisivo para o Pescara: outra vez saiu do banco para marcar seu segundo gol no campeonato, completando grande jogada de Zampano. O jogo foi caótico e divertido, como tem sido as jornadas de ambas as equipes até aqui na temporada.

Cagliari 2-1 Sampdoria
João Pedro (Padoin), Melchiorri | Bruno Fernandes (Álvarez)

Tops: Cepittelli (Cagliari) e Silvestre (Sampdoria) | Flops: Tachtsidis (Cagliari) e Viviano (Sampdoria)

Em uma partida com muitas emoções, o Cagliari acabou saindo com a vitória diante da Sampdoria e ultrapassou a adversária na tabela. Os sardos ficaram na frente do placar em quase todo o jogo, depois que João Pedro completou cruzamento com um toque de letra, e pressionaram mais: as boas participações do brasileiro e de Isla acabaram parando na bem postada defesa doriana. Por sua vez, Quagliarella e Muriel tiveram partida apagada e não foram páreo para a defesa do time da casa. A Samp só empatou no final, em uma jogada trabalhada pelos meia-atacantes Álvarez e Bruno Fernandes, concluída pelo português. Quando o empate já parecia contentar os blucerchiati, no lance seguinte ao tento o goleiro Viviano cometeu um erro incrível e furou quando tentava afastar um contra-ataque rossoblù. Com o gol aberto, Melchiorri decretou o 2 a 1 final e a quarta derrota seguida do time de Giampaolo.

Crotone 1-3 Atalanta
Simy (Falcinelli) | Petagna (Masiello), Kurtic (Freuler), Gómez (Kessié)

Tops: Simy (Crotone) e Gómez (Atalanta) | Flops: Cordaz e Dussenne (Crotone)

Uma vitória impactante contra um adversário direto para acalmar o ambiente. A Atalanta estava na zona de rebaixamento após as quatro derrotas nas cinco primeiras rodadas da Serie A, mas o fácil triunfo sobre o Crotone em Pescara não só tirou o time de Gasperini da situação como complicou a vida do técnico Nicola. A superioridade nerazzurra fez com que a vitória fosse construída ainda no primeiro tempo: Petagna aproveitou furada de Dussenne para abrir o placar e Cordaz entregou o ouro para permitir o segundo – o terceiro foi obra de boa jogada de Gómez. Kessié, autor de uma assistência e um chute da trave, acabou expulso por falta dura sobre Dussenne, o que deu um pouco de ânimo aos calabreses. No entanto, o gol de Simy aconteceu apenas no final e não ocasionou reação do lanterna do torneio.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 5ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Donnarumma (Milan); Lirola (Sassuolo), De Vrij (Lazio), Maietta (Bologna), Zampano (Pescara); Valdifiori (Torino), Hamsík (Napoli); Candreva (Inter), Falqué (Torino), Gómez (Atalanta); Belotti (Torino). Técnico: Sinisa Mihajlovic (Torino)

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.


Itália e a sexualidade escondida no 'esporte de macho'

Mais uma campanha contra a homofobia na Itália, um país tolerante ao preconceito (Foto: AGF)
*Publicado originalmente no Gazzebra

“A Itália ainda é um país homofóbico e racista, de certa maneira. Nós estamos longe da liberdade presente atualmente em outros lugares, como Estados Unidos e Inglaterra. Nós precisávamos ensinar respeito ao próximo na escola”, disse Giovanni Licchello, único ex-jogador de futebol assumidamente gay na Itália, ao Gazzebra.

O pensamento em agosto de 2008, quando a revista GQ foi às bancas com uma entrevista com jogadores da Fiorentina, era bastante parecido com o atual: no esporte, hostilidade. Em resposta às falas dos atletas, a antiga deputada pelo Partido Democrata Paola Concia declarou que é "impossível um jogador dizer que é homossexual, e os atletas da Viola falaram claramente porque o mundo do futebol e os torcedores são 'machos' e homofóbicos".

Participaram desta conversa no vestiário florentino Marco Donadel, Giampaolo Pazzini, Alessandro Gamberini e Sebástien Frey. Os dois primeiros afirmaram que, provavelmente, nunca encontraram um gay no futebol. O zagueiro tentou motivar, afirmando que a torcida acompanharia a atitude positiva e apoiaria um jogador caso se declarasse gay. Frey respondeu de forma enfática: "Sério? Em um mundo onde os torcedores já atacam as mulheres e namoradas dos jogadores, imagina como seria se alguém se assumisse. Seria um massacre. Faixas, cânticos. Um inferno". Inferno.

Seis anos separavam a entrevista em Florença e a do ex-jogador Francesco Coco ao jornal Corriere Dello Sport. Em janeiro último, o ex-Milan e Inter declarou que existem homossexuais no futebol, mas é bem difícil falar sobre o tema porque há a necessidade de modificar a forma de pensar do esporte. Olha só como o discurso se mantém o mesmo: "se o jogador se revela gay e continua jogando, os ultras não saberão como agir. Infelizmente, é complicado para muitos ter um ídolo futebolístico homossexual".

As frases foram ditas nos dias que sucederam a partida da Coppa Italia entre Inter e Napoli, quando o técnico Roberto Mancini afirmou que foi chamado de "frocio" e "finocchio" (o equivalente a “bicha" em italiano; alguma coincidência com o que acontece no Brasil?) pelo rival Maurizio Sarri. "Ele é um racista. Pessoas como ele não devem estar no futebol", esbravejou Mancini contra o outro treinador. O comandante do Napoli, aos 57 anos, é um exemplo do italiano médio das gerações nascidas antes da década de 1980. O antigo diretor da Juventus Luciano Moggi, 79, é outro: ele declarou em 2008 que não contrataria um homossexual pois "não há espaço para um gay no calcio".

Por vezes, o futebol pratica, em campo, ações contra o preconceito - como os jogadores do Juve Stabia (Foto: Reprodução)
Das últimas partidas que vi, cito Palmeiras x São Paulo. Pelo Campeonato Brasileiro, era um tiro de meta qualquer para o Tricolor. Denis ainda corria para a bola quando já dava para pressentir o "bicha" que ecoaria da arquibancada nos milésimos de segundo seguintes. Uma derrota do futebol brasileiro; uma derrota da civilidade. Na Itália, gritos e cantos desse cunho não existem – ainda. Só que a situação está longe de ser a ideal, mesmo que o caminho aponte para o correto a ser seguido.

Estrangeiros, provincianismo e Mussolini
A homofobia no Belpaese está diretamente ligada ao pensamento de um país que tolera o racismo e que só viu imigração a partir da década de 70. Enquanto mais de 24 milhões de italianos saíram da terra natal até 1976, apenas 1,5 milhão de estrangeiros foram registrados como residentes italianos até 2004. Se os europeus do Norte eram vistos com respeito, os peninsulares rebaixavam as regiões ao sul em relação às suas: para os milaneses, o povo de Florença era "africano"; aos de Florença, este era o romano; aos romanos, os napolitanos; por fim aos napolitanos, os sicilianos. Abrange-se mais ainda a disputa territorial ao dividir entre Norte (potência industrial) e Sul (agrário) - vale a leitura adicional de “O raio-x da discriminação contra o napolitano na Itália”, do blog Partenopeo.

O aumento de estrangeiros na Itália em um momento de crescimento econômico ajuda a explicar o preconceito racial. O que acontecia à época era o despertar financeiro que o país não via desde os últimos anos da trajetória do poder fascista de Benito Mussolini, ainda nos anos 40. Podemos, desta forma, traçar um paralelo cultural: a Itália olha torto para o diferente. Por tanto tempo, a diversidade não foi aceita - chegaremos lá.

Para exemplificar o preconceito: uma nova discussão sobre racismo entrou em pauta em julho de 2013, quando a recém-eleita Ministra da Integração, Cécile Kyenge, foi atacada com bananas, chamada de orangotango pelo senador Roberto Calderoli, da Liga Norte, e ouviu que tinha de ser estuprada para "entender o que era ser uma vítima de um crime atroz" por um conselheiro do mesmo partido anti-imigração. Não é fácil ser um indivíduo fora do que o italiano médio acha comum.

O campanilismo é outro aspecto sério; a identificação à região na qual nasceu ao invés de um sentimento nacional. No século 19, a Itália ainda era uma imensidão de estados separados. Ora, existe um ditado popular em Lucca assim: “melhor ter alguém morto na sua casa que uma pessoa de Pisa na sua porta”. As cidades são separadas por uma viagem de 20 minutos pela Toscana.

Em maio, a Itália viu manifestações em Turim e Roma (Foto: La Presse)
Pasquale Moretti é dono de um bar nas redondezas do estádio Olímpico, em Roma. É o local de encontro dos torcedores da Lazio antes das partidas em casa. Nesse estabelecimento há um armazém com memorabilia fascistas, como camisetas, quadros e vinhos com a face do Duce estampada no rótulo da garrafa. Quando falou ao The Guardian, em 2013, Moretti estava com 78 anos. Ele disse que nasceu naquela época e que foi Mussolini quem construiu casa e colocou pão na mesa dos trabalhadores.

Um turista desinformado nos janeiros passados podia ficar assustado ao ver calendários do Duce nas bancas italianas. As vendas do catálogo impresso subiram 10 vezes na última década. Mussolini se tornou uma figura pop. O grupo neofascista CasaPound, uma minoria, não deixa desmentir sobre a influência da ideologia do antigo ditador, sendo que os jovens que chegam a ele veem o Duce como a figura paternal da Itália. Aqui, vale uma digressão: ao mesmo tempo, pensadores e escritores batem de frente com a ideia da CasaPound, frisando que muitos dos compradores dos produtos relacionados a Mussolini não votam em partidos fascistas.

Da velha guarda, podemos pegar, além do "piadista e não-racista" Calderoli, Silvio Berlusconi como figura principal. Ele, o antigo dono do Milan e atual presidente honorário, foi o forte aliado da Liga Norte - atualmente com poucas cadeiras no Senado - no arranque para chegar ao poder nacional nos anos 90. A Itália tolera o racismo porque ainda existem desacordos sobre o que é esse preconceito. Calderoli disse que chamar Cécile de orangotango foi uma "brincadeirinha" e tantos italianos consideraram normal uma charge retratar Mario Balotelli como King Kong. Teve prefeito de cidade grande da mesma região que afirmou que imigrantes tinham de se vestir de animais e serem caçados.

Mudança
Sexo entre pessoas do mesmo gênero é algo natural no Belpaese desde 1887. Nem Mussolini nem a República Social Italiana mexeram nas leis sobre relações homossexuais consensuais - apesar que o regime fascista perseguiu gays, advertindo e confinando-os como método de punição administrativa.

Jogadoras da liga amadora protestam contra o presidente da Federação, que as chamou de lésbicas (Foto: Divulgação/UCP Tavagnaco)
A Ilga, uma ONG de direitos LGBT, revelou uma pesquisa em 2015 que mostrava que a Itália era o país da Europa Ocidental mais desigual para com as diferenças na sexualidade. Até aquele momento, o movimento gay no Belpaese era dividido e a política não integrava os direitos civis. Neste levantamento, Malta subiu 20% em um ano por conta da legislação aprovada naquele mesmo ano que reconhecia os direitos da identidade de gênero e vetava a cirurgia reparadora em bebês intersex. O co-presidente da organização, Paulo Côrte-Real, afirmou que os países que mais cresceram na comparação do Mapa Arco-Íris (Finlândia, Luxemburgo, Croácia e Andorra) tiveram grande ajuda dos líderes ativistas e políticos.

Outra pesquisa muito importante foi divulgada no outono seguinte. Os dados do Instituto Nacional de Estatísticas (Istat) mostraram a fotografia de uma Itália culturalmente preconceituosa e segmentada pelo famoso "não sou contra gay, mas...":

  • 73% acham injusto contratar ou dar abrigo a alguém por conta da orientação sexual;
  • 74% não consideram a homossexualidade como doença;
  • 73% não consideram imoral ser homossexual;
  • 74% afirmaram que gays não são uma ameaça à família;
  • 65% colocaram que o amor gay é igualmente ao hétero.


Os dados não são minimamente favoráveis em relação à média europeia, ainda mais se considerarmos o outro lado:

  • 63% dos entrevistados admite a união gay, mas somente 43% aprovam o casamento;
  • 50% dos italianos não concordam que gays possam ser professores; e menos de 20% aceitam gays na medicina e política;
  • 29% dos entrevistados querem que os homossexuais sejam mais discretos;
  • 40% ficariam incomodados caso o vizinho fosse gay;
  • 80% são contra a adoção de crianças por casais homossexuais.


Esse cenário se opõe à exposição dos gays italianos devido à insegurança social. A esperança, corroborada pela Ilga, é que os descendentes da nova geração estão muito mais abertos para discutir e tolerar. Enquanto 60% dos idosos aceitam as diferentes sexualidades, a taxa sobe para 90% entre as pessoas com até 25 anos.

Lei Cirinnà
Ainda bem que o multiculturalismo existe. Não somente ele, como também a discussão do futuro. “Acredito que a homofobia no futebol italiano é grande. Nos últimos anos, algumas coisas têm mudado”, afirmou Francesco Viola, torcedor fanático do Catania, graduado em Farmácia e gay. Os dados do Istat vieram a público somente após o reconhecimento do casamento homossexual em território italiano após 30 anos de discussão no Parlamento. Foi em maio último que a lei Cirinnà, uma proposta da senadora Monica Cirinnà, entrou em vigor para conceder direitos iguais entre casais de mesma orientação sexual.

O microcosmo do futebol, é claro, não fica de fora. Em meio à toda turbulência, lá esteve a Rainbow Roma, única torcida organizada gay italiana. A primeira visita ao Olímpico foi realizada na 21ª rodada da Serie A 2012-13, contra a Inter. O Pochos, equipe de Nápoles, foi fundado no mês seguinte e reconhecido como o primeiro time homossexual do Sul. E não para por aí, pois existem outros times na Bota, como I Romei e Phoenix (Roma), Revolution (Florença), Gatto Nero (Turim), Arzenal (Gênova) e Bugs (Bolonha). O romano B.A.T. e o milanês I.C.O.N.S. foram desmembrados no último biênio.

Os clubes não têm qualquer filiação com a Federação Italiana de Futebol (FIGC), mesmo que a primeira seleção nacional de gays e transgêneros tenha sido formada em 2016. A associação Gaycs regula o futebol homossexual e tem três equipes sob sua tutela: a dupla de Roma e o time napolitano. É ela quem organiza o Italian Gaymes, um torneio multiesportivo realizado anualmente no mês de julho. Os campeonatos de futebol podem ter datas alteradas, porém, geralmente, seguem a mesma agenda: na primavera, Nápoles sedia a Copa Adelante; e no verão, a Copa Finocchiona é disputada em Florença, Genoa tem a Copa Superb e Milão organiza a Copa Diversity. Turim costuma ter uma competição nacional durante o outono, quando também é jogada outra Superb. Outros torneios são espalhados durante o ano em Bolonha e na capital.

Apesar da linha do tempo não contínua, o ano de 2013 foi muito importante para a comunidade gay no esporte. Um triunfo inédito do futebol italiano foi o ouro do extinto Black Angels, de Roma, na edição disputada na Antuérpia do Mundial de Jogos Abertos, festival esportivo e cultural LGBT. A conquista no OutGames foi comemorada como uma vitória olímpica pelos grupos homossexuais.

O ex-jogador
Giovanni Licchello foi atleta do Chieti, Bitonto e Brindisi, nas séries C e D, respectivamente, e atuou na primeira divisão da Suíça pelo Sion antes de encerrar a carreira em 2011, aos 24, por questões físicas (ele tinha 1,80 m). Além disso, estava cansado de tentar pertencer àquele ambiente que não lhe cabia. “O futebol italiano não está preparado para aceitar a normalidade. A reação dos fãs e os contatos com patrocinadores são os principais obstáculos para um jogador se assumir”, declarou ao Gazzebra.

O ex-goleiro falou com exclusividade ao blog (Foto: Sky Sport)
Naquele mesmo ano de 2013 que Licchello concorreu por brincadeira e venceu o prêmio Mister Gay, dois jogadores se posicionaram a favor dos homossexuais no futebol italiano. O lateral Federico Balzaretti disse que "os mais inteligentes aceitarão [a revelação da sexualidade], enquanto os menos inteligentes, não". Durante a disputa da Eurocopa de 2012, Antonio Cassano disse em entrevista coletiva que esperava não haver gays no elenco da Squadra Azzurra. Óbvio que a frase despertou a ira de ativistas. O outro atleta foi o bianconero Claudio Marchisio, refutando o pensamento retrógrado do companheiro de seleção.

O canal Sky Italia indagou Licchello sobre o posicionamento de Cassano. Sem citar nomes, o ex-jogador declarou que conhecia atletas bissexuais e gays da Serie A - inclusive companheiros de Totò no Parma. O modelo nunca pensou em falar sobre a sexualidade enquanto era goleiro por uma escolha pessoal, que “todos precisam ser livres para gerir a vida”. Ao blog, falou: “prefiro rir [sobre Cassano] porque mostra uma mentalidade fechada ao invés de construir exemplos positivos para os mais jovens, que desejam compartilhar valores do esporte, incluindo respeito ao próximo”.
“No futebol, não estamos preparados”
Embrenhando ao esporte, a empresa Paddy Power usou o aplicativo Forza Football para realizar uma pesquisa, com auxílio dos movimentos Arcigay e ArciLesbica, e verificar a opinião dos torcedores sobre jogadores que pudessem revelar suas orientações. A ideia da campanha "Vamos lutar contra o padrão” era estimular a discussão sobre a discriminação de gênero e sexualidade. Dos 12 mil votos coletados, 15,7% afirmaram que se incomodariam em ter um gay jogando no time preferido. A psicóloga especialista em temática LGBT Paola Biondi declarou que o percentual de incômodo ainda era "significante demais".

Moscardelli foi um dos garotos-propaganda da ação promovida pela Paddy Power (Foto: Reprodução)
Algumas pessoas envolvidas no futebol tentam minimizar as diferenças entre os lados, como os jogadores Giorgio Chiellini, Davide Moscardelli e Radja Nainggolan. Eles participaram e promoveram a campanha acima. O antigo técnico da seleção Cesare Prandelli encontrou a equipe gay de Florença, enquanto o próprio Sarri visitou o time de Nápoles neste ano.

Os homossexuais italianos ainda buscam o fim da violência contra eles mesmos enquanto tentam gerir a vida. Alguns amigos de Licchello se afastaram após a vitória no Mister Gay. Um atacante juvenil deu um beijo no companheiro de time durante uma partida entre Salernitana e Ischia, o que resultou num polêmico processo dos pais do jovem ao site que publicou a nota.

Os episódios de homofobia são recorrentes. Teve o cartaz com a frase “a perversão nunca será lei” pendurado no Gay Center de Roma na manhã seguinte ao da decisão sobre a lei Cirinnà. Ou o casal de Turim que precisou se mudar porque estavam cansados da tormenta dos vizinhos, que iam dos insultos verbais às pichações ofensivas nas paredes. Ou o professor de Perugia confrontado por pais porque ele era militante da causa.

Também teve o genovês agredido em um ônibus; o rapaz espancado porque gostava de roupas cor-de-rosa; ou os restaurantes e hotéis Itália adentro que não admitiam a entrada ou permanência de casais gays no Dia de São Valentim. Que tal o barês Paolo, de 18 anos, que se suicidou em uma linha férrea após enviar uma carta ao namorado que dizia "me desculpe, eu te amo" porque ele sofria agressões na escola e em casa? Os pais adotivos dele não admitiam a homossexualidade do garoto.

Não podemos deixar a religião às margens do cenário. Afinal, 81% da população italiana é católica. Massimo Salzano, juventino gay que trabalha em uma agência de apostas e escreve sobre esportes, comentou ao Gazzebra que o Vaticano também contribui com o preconceito - a homofobia, sobretudo. O conservadorismo e o tradicionalismo faz com que o poder permaneça dentro da Igreja Católica, declarou Pietro Pustorino, professor de direitos humanos da Universidade de Roma. Assim, a frase do torcedor da Velha Senhora no intertítulo não é um choque, apesar da promissora teoria de melhora da igualdade para os anos seguintes em diferentes camadas da sociedade italiana.

Do jeito semelhante, não podemos desvincular o preconceito desse esporte inclusivo até a página dois. Tenho de lembrá-lo que o presidente da FIGC, Carlo Tavecchio, é racista, sexista, misógino e homofóbico? Um dos homens próximos a ele é o chefão do futebol amador, Felice Belloli, que chegou a chamar de lésbicas as jogadoras. Muitas vezes não é só futebol. Desta, não mesmo.