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sábado, 30 de abril de 2016

Crotone, o tubarão da Serie A

Crotone vem de uma das regiões mais pobres da Itália e já fez história ao chegar à elite (Getty)
Colaborou Arthur Barcelos

Nesta sexta, 29 de abril, a Serie A ganhou um pequeno capítulo em sua história: a confirmação de que a 66ª agremiação diferente disputará uma edição do Campeonato Italiano. O time estreante será o pequeno Crotone, que até o início dos anos 2000 não tinha sequer participado de uma Serie B – assim como Sassuolo, Frosinone e Carpi. Terceiro time da Calábria a disputar a elite, depois de Catanzaro (anos 1970 e 1980) e Reggina (1990 e 2000), os rossoblù terão a chance de construir uma história de superação na elite.

Em verdade, a cruzada de superação do Crotone começou muito antes disso. A equipe vem de uma das regiões mais belas da Itália, mais exatamente de uma cidade que tem uma longa e rica história, mas que atravessa dificuldades. Falaremos um pouco sobre a história do caçula da Serie A 2016-17 e da cidade aqui no blog.

Um time matemático
Crotone fica no litoral da Calábria, no extremo sul do país – na "sola" da Bota –, e é uma das mais antigas da Itália: foi fundada pelos gregos, em 718 a.C., sob o nome Kroton. A cidade foi palco da escola filosófico-matemática de Pitágoras, que lá viveu e desenvolveu seu nome como um dos maiores cientistas da antiguidade. Por causa do legado do criador do famoso teorema e das ruínas da época, o Crotone é conhecido pelo apelido de pitagóricos (pitagorici, em italiano) – e, por causa dos tubarões que habitam as águas do mar Jônico, os torcedores também são chamados de tubarões (squali).

Se, no passado, Crotone foi um dos centros do pensamento da Grécia Antiga, hoje atravessa um período muito complicado e menos próspero. O extremo sul do Belpaese depende da agricultura e do turismo, uma vez que a instalação de indústrias por lá acabou sendo comprometida pela crise da Europa. A região tem os piores índices de desenvolvimento humano do país (e um dos piores do continente), má infraestrutura e é uma das rotas de refugiados asiáticos e africanos, que acabam não conseguindo se inserir na sociedade, por diversos fatores. Crotone não escapa de todos estes problemas e, para piorar, tem uma taxa de desemprego de 31%.

O contexto sócio-econômico nunca foi favorável para a formação de uma equipe forte na Calábria – muito menos um clube que não é bancado por milionários, como o Crotone nunca foi. O time foi fundado em 1910 e nunca esteve em evidência, nem mesmo na região, cujos maiores times são Catanzaro e Cosenza. Na 12ª participação na Serie B, nesta temporada, o Crotone também não era um time forte. No nosso guia da segundona, inclusive, não citamos a equipe nem como uma das que corriam por fora pelo acesso – dissemos que ficaria do meio para baixo na tabela. De fato, os rossoblù não tinham tantas pretensões, mas surpreenderam.

Boa parte da força dos pitagóricos vinha de sua torcida. O estádio Ezio Scida, que possui apenas 9.547 lugares, é tão acanhado que é possível assistir aos jogos dos quartos do hospital San Giovanni di Dio, localizado ao lado de uma das arquibancadas e visível nas transmissões de televisão – um exótico caldeirão. A título de informação: Scida, que batizou o estádio, foi um jogador do Crotone que morreu em um acidente automobilístico a caminho de uma partida dos squali, nos anos 1940.
Bem vindo à Serie A, Crotone! (Getty)
Quase 30 anos de construção
O novo Crotone começou a ser esculpido em 1991, ano em que o clube foi refundado. O presidente Raffaele Vrenna, que está no cargo deste então, tem sido acompanhado pelo diretor esportivo Giuseppe Ursino desde 1995 e participou de todo o período de crescimento. Os pitagóricos conseguiram sete promoções de divisão entre 1991 e 2000, ascenderam da sétima para a segundona divisão, mas as principais evoluções aconteceram mesmo depois da chegada do time à Serie B.

O Crotone merece estar colhendo os frutos deste trabalho duro. A equipe estreou na segundona neste século, em 2000-01, e foi rebaixado apenas duas vezes neste período, em 2002 e 2007. Desde que retornou, em 2009, teve cinco campanhas acima do meio da tabela, e inclusive atingiu os play-offs de acesso para a Serie A em 2013-14, mas foi eliminado e, no último ano, caiu de produção e ficou próximo da zona de rebaixamento. Na atual temporada, além de garantir vaga na elite, a equipe chegou às oitavas de final da Coppa Italia e quase eliminou o Milan em pleno San Siro, num prelúdio do que estava por vir.

No entanto, a primeira vez que o Crotone começou a chamar atenção na Itália foi com o técnico Gian Piero Gasperini, hoje pra lá de conhecido por seu trabalho no Genoa. O piemontês começou sua carreira no futebol profissional como treinador justamente no clube, em 2003, e implantou uma política de valorização de jogadores jovens, que foi seguida pelos treinadores que o sucederam. Com Gasp, ex-comandante da equipe Primavera da Juventus por quase uma década, boa parte das revelações que passaram por lá eram ex-juventinos. Outro “professor” marcante do time foi Massimo Drago, cria da casa como jogador e técnico: Drago trabalhou na Calábria por dez anos, assumindo como treinador em 2012 e permanecendo até a última temporada, quando foi contratado pelo Cesena.

O clube calabrês também ficou conhecido por abrigar jovens de clubes maiores, a exemplo de Salvatore Aronica, Giuseppe Sculli, Daniele Gastaldello, Abdoulay Konko e Antonio Mirante, todos da Juventus nos anos 2000. O clube também foi palco do "estágio" de Stefano Pettinari, Vid Belec, Alessandro Florenzi, Raffaele Maiello, Lorenzo Crisetig, Jacopo Dezi, Danilo Cataldi e Federico Bernardeschi, quase todos na Serie A hoje.

Alguns jogadores então desconhecidos também cresceram desde a passagem pelos squali, como Domenico Maietta, Daniele Vantaggiato, Abdelkader Ghezzal, Antonio Nocerino, Graziano Pellè, Archimede Morleo e Nicola Sansone. Sem esquecer dos brasileiros Ângelo, Jeda, Digão e Gabionetta.

Por falar em brasileiros, a equipe que subiu para a Serie A tem como capitão o zagueiro goiano Claiton, que jogou na elite em poucos jogos, por Bologna e Chievo – além do goleiro paranaense Caio Secco, reserva da equipe. Claiton foi um dos jogadores mais importantes do time no acesso, ao lado do goleiro Alex Cordaz e do defensor Gian Marco Ferrari, os únicos que jogaram todos os minutos na Serie B – todos eles foram líderes da defesa menos vazada do campeonato. Velhos conhecidos, a exemplo do lateral esquerdo Francesco Modesto, meia Adrian Stoian e do atacante Raffaele Palladino (ex-Juventus e autor do gol do acesso), também se destacaram.

Como não poderia deixar de ser, o Crotone continuou com sua política de valorização de jovens. Nesta temporada, a base do time teve, de revelações, o zagueiro Guy Yao (Inter), o talentoso regista Leonardo Capezzi (Fiorentina) e Mihai Balasa e Federico Ricci, ala e ponta pela direita, ambos da Roma. Andrea Barberis, meio-campista promissor, ex-Varese, e Ante Budimir, centroavante croata emprestado pelo alemão St. Pauli e artilheiro do time, são outros jovens importantes. No entanto, o maior destaque do time é o ala esquerdo Bruno Martella, de 23 anos, revelado pela Sampdoria e na mira de clubes de maior expressão.

Deu para notar que a equipe não tem uma abundância de grandes nomes. O que nos leva ao seguinte ponto: a grande estrela dos tubarões em 2015-16 é o técnico Ivan Juric, aprendiz de Gasperini. O treinador do Genoa conheceu o croata na passagem pelo Crotone (época em que Juric, volante sólido, era jogador) e o levou para o Luigi Ferraris – o jovem treinador acompanhou o comandante grisalho também nos trabalhos em Inter e Palermo, já como assistente.

Após experiência pelo Mantova na Lega Pro, o ex-volante retornou para a Calábria e fez a equipe encaminhar o título da Serie B com o melhor futebol do campeonato, que lembra muito o Genoa de Gasperini. Além de o sistema ser o mesmo, o 3-4-3, o Crotone apresenta agressividade e alto ritmo, criando chances de gol através de ataques em bloco. Foi assim que os squali ultrapassaram equipes superiores, como Cagliari, Pescara, Bari, Spezia e Cesena, e colocaram o Milan nas cordas em San Siro. A torcida espera que a base seja mantida e que Juric fique. Será o primeiro passo para que a equipe possa desempenhar um bom papel na elite.
 Desde já, uma cena já é esperada com ansiedade para a próxima Serie A: a festa da torcida do Crotone. Além de tomarem as ruas da cidade, após o acesso, os pitagóricos elegeram a música "Ma il cielo è sempre più blu", do cantor crotonês Rino Gaetano (morto em acidente de carro em 1981) como hino da campanha que fez o sonho virar realidade. Ouvi-la na estreia do time rossoblù em casa será de tirar o fôlego.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Os 5 maiores brasileiros da história do Bologna

Uma das equipes mais tradicionais da Itália, o Bologna é um dos poucos times de médio e grande porte da Bota que não deu tanto espaço para brasileiros em sua história. Ao longo de mais de 100 anos de existência, apenas 20 jogadores nascidos em nosso país atuaram no clube do estádio Renato Dall'Ara.

O primeiro de todos foi o zagueiro Paulo Innocenti, gaúcho que foi para a Itália nos anos 1920 e jogou pelos felsinei entre 1923 e 1924. O segundo brasileiro chegou em Bolonha mais de 40 anos depois: o atacante Sergio Clerici, de duas passagens pela Emília-Romanha, fez história. Foi ele quem acabou abrindo as portas para outros 18 compatriotas, como Enéas, Geovani, Zé Elias, Lima, que foram bem, e outros nomes discutíveis, como Coelho, Ibson e Roger Carvalho.


Para montar a lista, o Quattro Tratti levou em consideração a importância dos jogadores na história do clube; a qualidade técnica do atleta versus expectativa; sua identificação com a torcida e o dia a dia do time (mesmo após o fim da carreira); grau de participação nas conquistas; respaldo atingido através da equipe e prêmios individuais conquistados. Também foram computadas premiações pelas seleções nacionais. A partir disso, escolhemos os brasileiros que marcaram a história da equipe e escrevemos breves biografias dos cinco maiores. Antes, veja também a lista completa daqueles que já vestiram a camisa do clube emiliano.

Brasileiros da história do Bologna
Adaílton, César, Claiton, Coelho, Daniel Bessa, Enéas, Geovani, Ibson, Juárez, Júnior Costa, Lima, Luciano, Luís Vinício, Matuzalém, Naldo, Paulo Innocenti, Rafael Santos, Roger Carvalho, Sergio Clerici e Zé Elias.

5º - Enéas


Posição: atacante
Período em que atuou no clube: 1980-81
Títulos: nenhum

Ídolo da Portuguesa nos anos 1970 e do Palmeiras na década seguinte, Enéas teve uma passagem rápida pela Emília-Romanha. O atacante assinou pelo Bologna em 1980, logo após a reabertura das fronteiras para estrangeiros na Serie A, e apesar das grandes expectativas da torcida, rendeu menos do que o esperado. A falta de adaptação ao rígido inverno, ao padrão tático e à saudade da família, além de uma lesão, fizeram com que ele fizesse 20 jogos e apenas três gols pelos felsinei.

No Brasil, Enéas já havia provado a sua qualidade – tanto é que já recebera convocações para a Seleção –, mas os problemas citados acima deixavam o técnico Luigi Radice desconfortável de colocá-lo em campo. Apesar das adversidades e de viver de lampejos – como uma bela atuação diante da Juventus –, o atacante ganhou a simpatia da torcida, com sua simplicidade. Em 1981, Enéas foi negociado com a Udinese e, em seguida, voltou ao Brasil. 

4º - Geovani


Posição: meia-atacante
Período em que atuou no clube: 1989-90
Títulos: nenhum

O Pequeno Príncipe. Geovani deixou o Vasco com essa alcunha e o Bologna apostava que ele repetiria na Emília-Romanha os momentos que o fizeram um dos jogadores mais adorados pela torcida cruz-maltina. O meia-atacante capixaba foi contratado pelo presidente Gino Corioni para dar classe a um time com alguns bons e veteranos jogadores, como Bruno Giordano, Antonio Cabrini e Massimo Bonini. Durante a única temporada em que jogou na Itália, concluída com a classificação dos felsinei à Copa Uefa, ele até conseguiu, mas somente em alguns momentos.

Os lampejos de Geovani se devem, basicamente, às dificuldades que ele teve em manter o peso – lendas urbanas de Bolonha dão conta de que o jogador ficou viciado em tortellino, uma iguaria típica da cidade. Um dos grandes momentos do Pequeno Príncipe nos 27 jogos que fez vestindo rossoblù foi o golaço que decidiu o Dérbi dos Apeninos, contra a Fiorentina. Mesmo tendo passado apenas um ano no clube, Geovani é querido pela torcida e participou das festividades pelo centenário do Bologna, em 2009.



Posição: atacante
Período em que atuou no clube: 1960-62
Títulos: Copa Mitropa (1961)

O atacante Luís Vinícius (na foto, o quarto, da esquerda para a direita) foi rebatizado Vinício na Itália. O jogador formado no Botafogo é praticamente desconhecido no Brasil, mas fez carreira de muito sucesso no Belpaese, principalmente por Napoli e Vicenza. Ele chegou à Bota para jogar em Nápoles e, após cinco anos no sul da Bota, fechou com o Bologna. Na temporada de estreia, o mineiro de 28 anos marcou 11 gols em 30 partidas, sagrando-se campeão da Copa Mitropa, competição que incluía times de países da região central da Europa, como Itália, Hungria, Áustria e Checoslováquia.

Apesar de ter ido muito bem no ano de estreia, Vinício perdeu espaço com a chegada de Harald Nielsen, atacante de apenas 20 anos. Desde a chegada do dinamarquês, que seria ídolo do clube e artilheiro da Serie A por duas vezes consecutivas, o brasileiro atuou menos de 20 vezes pelos felsinei. Dessa forma, Luís Vinício encerrou sua trajetória em Bolonha com 47 jogos e 17 gols, rumando para o Vicenza, clube pelo qual mais brilharia na Itália.

2º - Adaílton


Posição: atacante
Período em que atuou no clube: 2007-10
Títulos: nenhum

Formado pelo Juventude e artilheiro do Mundial Sub-20 de 1997 com 10 gols, Adaílton chegou à Itália através do Parma, mas não conseguiu se firmar. O brasileiro se destacou mesmo com a camisa do Verona, principalmente na Serie B, e se tornou uma figurinha carimbada da segundona. Foi exatamente na segunda divisão que Ada começou sua passagem pelo Bologna, em 2007. Ao longo de três anos, o jogador gaúcho emprestou a sua experiência e a sua ótima técnica com a perna canhota, principalmente nas bolas paradas, quesito em que ele era muito eficiente.

Adaílton foi contratado já aos 30 anos e foi importante na campanha que devolveu o Bologna à elite, em 2007-08: anotou oito gols, que ajudaram os felsinei a ficarem com o vice. No ano seguinte acabou sendo menos utilizado, mas fez parte de um time que garantiu a salvezza na bacia das almas. O script foi o mesmo em 2009-10, última temporada do trequartista na Emília-Romanha: salvação apenas na penúltima rodada. Desta vez, porém, Adaílton, foi protagonista: aos 32 anos, parecia rejuvenescido e fez 11 gols, sendo vice-artilheiro da equipe, atrás apenas de Marco Di Vaio (12). Adaílton será sempre lembrado pelo gol marcado nos acréscimos contra a Juventus (empate por 1 a 1) e pela tripletta diante do Genoa (virada por 4 a 3, em Gênova).

1º - Sergio Clerici


Posição: atacante
Período em que atuou no clube: 1967-68 e 1975-77
Títulos: nenhum

Matador. Mais conhecido no Brasil como técnico de Ferroviária de Araraquara, Santos e Palmeiras, Sergio Clerici saiu cedo do país e, aos 19 anos, trocou a Portuguesa Santista pelo pequeno Lecco, da Lombardia. Após se destacar nos blucelesti, e jogar quatro edições da segundona e três da primeira, o paulistano, então com 26 anos, fechou com o Bologna, sendo o substituto de Harald Nielsen. No entanto, apesar da 6ª colocação na Serie A, a primeira passagem do ítalo-brasileiro não foi boa e ele só fez quatro gols. Depois de rodar por Atalanta, Verona e Fiorentina e jogar com regularidade, ele chegou ao Napoli, clube em que virou ídolo, com 29 gols marcados em duas temporadas nas quais os azzurri foram muito bem: ficaram com um terceiro lugar e um vice-campeonato na Serie A.

Foi aí que, já aos 34 anos, o brasileiro de origem italiana voltou a Bolonha, embora não desejasse muito jogar de novo no clube. Envolvido em uma troca que levou o goleador Giuseppe Savoldi a Nápoles, o atacante, conhecido como "El Gringo", caiu no gosto da torcida: mestre da grande área e bom finalizador com os dois pés, fez 15 gols em dois anos – marca boa, pois a Serie A só tinha 16 equipes e era um torneio de poucos tentos, à época. Depois do biênio aos pés da Torre de Maratona, Clerici foi para a Lazio, onde se aposentou. Com 103 gols anotados na carreira, ele está no time dos 100 maiores artilheiros da história da Serie A e é o estrangeiro que vestiu a camisa do maior número de clubes na Itália: sete, ao todo.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Jogadores: David Trezeguet

Em 10 anos de Juventus, Trezeguet se tornou um dos maiores artilheiros do clube (Fanpop)
Francês de nascimento, argentino de coração, mas com um carinho impressionante pela Itália. Assim pode ser descrito, em um breve resumo, David Trezeguet. O atacante marcou época na Juventus e na seleção francesa, além de ter realizado o sonho de jogar no seu time de coração na Argentina. Um homem amado por três povos.

Filho de Jorge Trezeguet, também jogador de futebol, David nasceu na França, na época em que seu pai atuou no Rouen. Porém, ainda criança, sua família se mudou para a Argentina, país no qual o jovem deu seus primeiros passos na carreira, nas categorias de base do Platense, modesto time da grande Buenos Aires. Sua primeira partida aconteceu quando Treze tinha apenas 16 anos, contra o Gimnasia y Esgrima de La Plata. Por dois anos atuou na principal divisão da Argentina, embora não tenha jogado com frequência.

Alguns problemas particulares com seu empresário, encerraram, precocemente, a passagem do atacante pelo clube portenho. Com cidadania francesa, os trâmites para uma negociação com algum clube de seu país natal eram mais fáceis: assim, em 1995, Trezeguet desembarcava na França, e quase assinou com Paris Saint-Germain, mas fechou mesmo com o Monaco. Ainda desconhecido, Trezeguet passou por um teste, no qual anotou cinco gols, e chamou a atenção do treinador da equipe principal, Jean Tigana.

O atacante atuou em cinco temporadas pelo clube do principado, com 124 jogos e 62 gols, que lhe renderam o apelido de Rei David. Pelos monegascos, o jogador conseguiu alguns feitos, como o de gol em finalização mais potente da história da Champions League (157 km/h), nas quartas de final contra o Manchester United, e o de jogador jovem do ano da Ligue 1 – na primeira temporada em que teve mais chances, 1997-98, ele fez 18 gols. Foi nesse ano que Trezeguet solucionou suas dúvidas e optou por defender os Bleus.

"Com os anos, passei a me perguntar se teria tido lugar na seleção argentina, vendo os atacantes que tinham, como Gabriel Batistuta e Hernán Crespo. Eles também jogavam na Itália, em grandes clubes, como eu. Tivemos o mesmo percurso e eu ficava me perguntando se teria me adaptado ao jogo argentino", afirmou à revista France Football.

Campeão do mundo em 1998 e com o título europeu de 2000 em mãos, Trezeguet já era um jogador consagrado quando trocou o Monaco pela Juventus. No auge de sua carreira, o francês teve a seu lado Zinédine Zidane, Alessandro Del Piero, Edwin van der Sar, Antonio Conte, Edgar Davids e tantos outros craques, e não chegou como titular absoluto – Carlo Ancelotti preferia Filippo Inzaghi. Mesmo assim, Rei David soube aproveitar suas oportunidades: não à toa terminou como artilheiro da equipe na Serie A 2000-01, com 14 gols.

Ser artilheiro na Vecchia Signora virou rotina, o que aconteceu temporada atrás de temporada para o franco-argentino. Após o vice italiano em 2001, Ancelotti deixou a Juve e levou Inzaghi com ele para o Milan, o que permitiu a Trezeguet assumir a titularidade do time de Marcello Lippi e mostrar seu futebol, cujo estilo se adaptava demais ao do Campeonato Italiano. Oportunista, finalizador nato e com posicionamento invejável, o francês foi um craque da grande área. Com estes atributos, viveu uma década de ouro vestindo o branco e preto da Juve, tendo seu melhor momento nos primeiros anos.

Em sua segunda temporada em Turim, Rei David anotou 24 gols e foi o artilheiro do campeonato ao lado de Dario Hübner, ajudando a equipe bianconera a faturar o scudetto. Treze, que também anotou outros oito gols na Champions, foi eleito como melhor jogador estrangeiro e melhor no geral daquela Serie A por causa das exibições. A temporada 2002-03 foi mais complicada para o atacante: depois de participar do fiasco francês na Copa de 2002, competição em que os Bleus não marcaram gols e caíram na primeira fase, Trezeguet conviveu com lesões e participou pouco da campanha do título italiano. O atacante também desperdiçou o pênalti decisivo na final da Liga dos Campeões, justamente contra o rival Milan.

Alternando bons e maus momentos, Trezeguet mal podia imaginar que sua carreira entraria num período complicado ainda mais longo. Foram praticamente dois anos convivendo com seguidas lesões, que quase o tiraram da Euro 2004 – a ótima marca de 16 gols em 25 jogos, porém, o garantiram no grupo francês que disputou a competição continental.

Depois da Euro, a Juventus decidiu investir em um jovem Zlatan Ibrahimovic como opção a Trezeguet e Del Piero, já mais experientes. O sueco acabou sendo bem utilizado por Fabio Capello em 2004-05, porque Treze se machucou muito – ainda assim, teve média de um gol a cada duas partidas, com nove tentos anotados. Já na temporada seguinte, Rei David ficou de bem com a forma física e arrebentou: fez 23 gols e foi o vice-artilheiro da Serie A, além de superar os 100 gols com a camisa bianconera e ficar com o posto de maior goleador estrangeiro da história do clube, à frente de Michel Platini e John Charles.

Um dos grandes momentos de Trezeguet na Itália foi ao lado de Ibra (Getty)
Os gols de Trezeguet ajudaram uma Juventus muito forte a ser bicampeã italiana, em 2005 e 2006, mas a participação de diretores do clube na compra de árbitros, no escândalo Calciopoli, fez com que os títulos fossem revogados. A punição também incluiu o rebaixamento da equipe para a Serie B, o que provocou uma verdadeira debandada: jogadores como Ibra, Fabio Cannavaro, Patrick Vieira e Lilian Thuram foram negociados, mas os mais identificados com a equipe ficaram. Casos de Treze, Del Piero, Gianluigi Buffon e Pavel Nedved, que só tiveram sua idolatria aumentada por causa de tal gesto de fidelidade.

Mesmo envolvido em algumas polêmicas, Trezeguet fez uma ótima segundona (marcou 15 gols), renovou seu contrato e tornou-se um dos capitães da equipe que retornou à elite. O francês ajudou a Juve como podia, em um momento complicado, de reconstrução: já na primeiro jogo da volta à Serie A, marcou três gols contra o Livorno – acabaria o ano com 20 anotados e um terceiro lugar com a Velha Senhora na competição.

Após perder quase toda a temporada 2008-09, Trezeguet fez alguns jogos em uma das campanhas mais melancólicas da Juventus, a de 2009-10, em que o clube ficou com a sétima posição. A passagem do atacante por Turim acabaria bem no início da temporada seguinte, na qual Trezeguet atuou em um jogo das preliminares da Liga Europa – clube e jogador decidiram, em comum acordo, pela não renovação do contrato. O maior artilheiro estrangeiro da Juve – e o quarto no ranking geral – deixou a Velha Senhora com 171 gols em 318 jogos, além de quatro títulos da Serie A.

Com 33 anos, mas com físico muito debilitado em relação a anos anteriores, o Rei David assinou com o modesto Hércules, da Espanha, clube pequeno que havia acabado de subir à primeira divisão. Trezeguet era a grande estrela e capitão da equipe de Alicante (cidade de sua ex-esposa, Beatriz), que chegou a vencer Barcelona, Sevilla e Atlético de Madrid. Mesmo com algumas lesões, fez 31 jogos e 12 gols, mas não evitou o rebaixamento da equipe. Após a passagem pela Espanha, o francês aventurou-se no Baniyas, dos Emirados Árabes, numa passagem relâmpago e discreta, antes de retornar à Argentina para jogar no River Plate, seu time de coração.

Treze ajudou o time na campanha que marcou o retorno à elite e, tal qual aconteceu em Turim, tem até hoje a idolatria da torcida. Após dois anos, o franco-argentino transferiu-se para o Newell’s Old Boys para substituir Ignacio Scocco. Apesar de propostas para voltar à Bota, para atuar no Modena, David encerrou a carreira no Pune City, da Índia, aos 37 anos.

Longe dos holofotes, Trezeguet parou com o futebol, após uma brilhante carreira, com a participação em três Copas do Mundo e duas Eurocopas – e dois títulos no currículo. Sem pretensão de ser treinador, o craque se tornou embaixador da Juventus no mundo. Ídolo bianconero, o Rei David também foi um dos 50 jogadores homenageados com uma estrela no estádio da Velha Senhora.

David Sergio Trezeguet
Nascimento: 15 de outubro de 1977, em Rouen, França
Posição: atacante
Clubes como jogador: Platense (1994-95), Monaco (1995-2000), Juventus (2000-10), Hércules (2010-11), Baniyas (2011), River Plate (2012-13), Newell’s Old Boys (2013-14) e Pune City (2014)
Títulos conquistados: Campeonato Francês (1996-97 e 1999-00), Serie A (2001-02 e 2002-03), Serie B (2006-07), Campeonato Argentino da Série B (2011-12), Supercopa da França (1997), Supercoppa da Itália (2002 e 2003), Copa do Mundo (1998) e Eurocopa (2000)
Seleção francesa: 71 jogos e 34 gols

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Roma, tempo e Totti: não é hora do ponto final

Altrove, c’è l’altrove. Io non mi occupo dell’altrove. Dunque, che questo romanzo abbia inizio. In fondo, è solo un trucco. Sì, è solo un trucco. 
La Grande Bellezza 
Contra o tempo, o capitão tenta um último voo (Getty)

Francesco Totti começou a temporada como reserva de luxo de Edin Dzeko. Fez um gol impedido, lesionou-se por meses e voltou no crepúsculo do trabalho de Rudi Garcia. Com Luciano Spalletti, que há onze anos o transformou em falso nove, as tretas se tornaram públicas: Totti soltou problemas à imprensa, chegou a ser afastado e passou a colher esmolas de minutos finais. Até poucas semanas, o capitano se via empurrado à condição de relíquia viva, postura ressaltada pelo presidente James Pallotta, o qual já admitiu a preferência por concedê-lo um cargo de dirigente, ao invés de sua renovação enquanto jogador. Ele quer continuar em campo, deixando claro como ainda acredita na contribuição com o time.

Isso, aliás, tem sido cada vez mais difícil de refutar. Nos últimos quatro jogos, Totti provou que ainda pode acrescentar à Roma – muito embora a exigência de provas seja por si só grandíssima inversão de valores. Contra o Bologna, precisou de quatro minutos para dar um gol a Mohamed Salah. Diante da Atalanta, empatou a partida e ainda criou outra chance clara para Dzeko, que cumpriu sua tarefa existencial caindo no chão ao invés de finalizar. Em um chilique no mínimo infeliz, Spalletti desmoralizou o capitano, expondo ainda mais o ambiente pouco amistoso entre os dois: "Totti não salvou nada; foi a equipe".

Quando o folhetim parecia pouco receptivo a novos capítulos, o camisa dez entrou em campo nos cinco minutos finais contra o Torino, empatou a disputa em seu primeiro toque na bola e ainda virou o jogo ao cobrar pênalti, responsabilizando-se por mais lágrimas em marmanjos do que a atuação de Sylvester Stallone em Creed. Ante o Napoli, Francè entrou aos 80 e quebrou a defesa como ninguém na equipe havia feito ao lançar Salah a 30 metros – o que não deu em nada. Poucos minutos depois, porém, foi ele quem iniciou a jogada do gol romanista por meio de outro lançamento, um verdadeiro tapa para Pjanic.

O contrato de Francesco Totti precisa ser renovado. No universo futebolístico, trata-se de uma questão de vida ou morte. Ninguém espera que ele jogue 90 minutos; ninguém espera que participe de todas as partidas. Negar sua eficácia, por outro lado, beira o ridículo. Não é preciso apelar para questões morais: Totti ainda tem lugar em campo, e não há nada mais absurdo do que forçar a prová-lo semanalmente, tendo dez minutos à disposição. Questões morais, afinal, deveriam bastar. O capitano é a Roma, e sua história de vida no clube se mostra mais que suficiente para entregar-lhe uma proposta com o campo de término de contrato em branco.

Dito isso, podemos detalhar alguns aspectos.

Idade ou vitalidade?
Para um jogador de futebol, Totti é indiscutivelmente velho. São 39 anos. Se renovar, terminará a temporada seguinte com 40. Isso, claro, traz problemas: velocidade, tempo de recuperação, agilidade e vários outros fatores, ainda que, por sorte, a calvície não tenha dado sinal. Assim sendo, não adianta colocá-lo pra correr; não adianta enfiá-lo entre os zagueiros para levar pancada. Se futebol fosse uma mera questão de velocidade e força, no entanto, para ser campeão bastaria montar uma dupla de ataque com Guerrón e Kléber Bambam.

Por outro lado, sua leitura de jogo, sempre assustadora em relação aos demais, não atrofiou e dificilmente atrofiará. Para não dizer que isso não se ensina, limitemo-nos a afirmar que é quase impossível. Da mesma forma, a qualidade do toque na bola, seja para lançar ou finalizar, não demonstra nenhum sinal de queda. Diante dos lampejos de atuação concedidos a Totti, o argumento de que "não pode jogar porque tem 40 anos", como o ouroboros, passa a comer o próprio rabo. Se ele ainda prova – não são indícios, são provas – de que tem a acrescentar ao elenco, por que romper com o maior ídolo da história do time? Meus argumentos se tornarão ainda mais concretos por meio de comparações.

(Um parêntese pessoal: se Totti afundasse o time; se chegasse ao estádio embriagado, com os botões da camisa soltos, olhos vermelhos e colares brilhantes de festa de formatura; se Totti chutasse do meio-campo apenas por diversão e chamasse o presidente do clube de "ow, véi" — ainda assim, a Roma deveria renovar seu contrato. Ele não é um jogador; é uma entidade; significante e significado convergindo numa equipe desprovida de grandes conquistas. Esse, porém, é um ponto de vista naturalmente refutável – e completamente hipotético, pois não chega perto de ser o caso do atacante. Voltemos ao jogo.)

Para comparar, portanto, é válido resgatar alguns nomes da história recente da Roma. Desde que o clube se americanizou, vários atacantes vestiram a camisa giallorossa. Em um resumo breve, Borini foi um amor de verão, o grosso e raçudo que empurrava a bola enquanto tropeçava. Osvaldo, o affair com um psicopata. Lamela comeu a bola em sua última temporada e se foi, gerando dinheiro suficiente para não deixar saudades. Por sua vez, Ljajic, cujo apelido monofinta traduz fielmente seu repertório ofensivo, consegue habitar na linha tênue entre "talentoso, só falta um bom gerenciamento" e "não é que ele me enganou?". Mas nós nem começamos com os asquerosos. Exceto Osvaldo. Você é lamentável, Osvaldo.

Por ordem cronológica, lembremos de Bojan, um flop grotesco, completamente incapaz de duelar em uma partida Serie A. Contratado sob uma cláusula "se der certo, o Barcelona recompra a preço de retalho", simbolizou o prelúdio no fracasso ofensivo romanista: custo grande, rendimento bosta. Em seguida, Mattia Destro, o hype de craque no potencial de um Emanuele Calaiò, pertence ao grupo mais desgraçado entre praticantes de balípodo. Pois qualquer um que já o tenha visto em campo, antes de mais nada, teve sérias dificuldades para encontrá-lo, dado o sumiço nebuloso a que o atacante se submete. Além disso – repare e você pensará "caramba, é verdade" – a íngua ofensiva, não obstante escondida entre as sombras adversárias, pede todas as bolas do ataque, reclamando sempre – sempre – ao não recebê-las. Enfim, estamos falando de um centroavante que já foi expulso por tirar a camisa quando tinha um cartão amarelo e vencia por 3 a 1. Sem dar sinais de amadurecimento, nessa temporada, dessa vez contra a Roma, Destro estava pendurado, comemorou um gol removendo a camisa e conseguiu outra suspensão mentecapta. O gol foi de pênalti.

Mas calma, o buraco dos fracassos é bem mais fundo. Como ignorar Iturbe, um desses futebolistas incapazes de correr e pensar ao mesmo tempo? Se Destro é o representante oficial da banheira na pelada, Iturbe é o serial killer de qualquer jogada trabalhada, o autômato que corre por duas horas sem levantar a cabeça, deixa de entregar um passe simples e se justifica com "foi mal, não vi", como se a culpa fosse do planeta – e talvez seja, por permitir uma conjuntura astronômica que avalie Juan Manuel Iturbe em trinta milhões de euros. Mais do que serem jogadores ruins, ou simplesmente não vingarem por uma razão ou outra, o que se passa é que a Roma, ainda sem resposta quanto à renovação do maior ídolo de sua história, contrata atletas capazes de gerar uma concreta depressão.

Depressão, afinal, é o que emana todo o caminhar de Edin Dzeko. Se o romance Os Sofrimentos do Jovem Werther causou uma onda de suicídios na Europa é porque nenhuma daquelas vidas perdidas teve a oportunidade de assistir ao bósnio em campo. Eles teriam reconsiderado; teriam pensado que há Mal maior, e que esse Mal atende por Dzeko, uma maria-mole de quase dois metros. Há algo seriamente errado com o pirulão, que sequer esconde o semblante de abatimento. Ele parece ter saído de um disco do James Blunt, tamanha a falta de hormônios. Quanto a Iago Falqué, vale fazer de sua presença no texto a metáfora das contribuições em campo: o nome está aqui, mas não há qualquer diferença. Sequer estamos levando Ibarbo e Doumbia em consideração, supostamente trazidos por Sabatini para fortalecer a jogatina de Fifa online da cúpula engravatada.

Dzeko (centro) e Bojan (direita). Destro se escondeu atrás do adesivo

A contextualização pode ser extensa, mas simboliza o beco ridículo em que a Roma vem entrando por conta própria. Muito dinheiro foi gasto com atacantes genéricos, e o maior ídolo da história do clube ainda não teve seu contrato renovado. E se Francesco Totti pode não correr muito, isso passa longe de ser novidade. Há anos, para não dizer uma década, o atacante romanista pretere a velocidade em favor da inteligência no que tange à movimentação. Não é um problema, ou, ao menos, não é um problema novo, surgido entre os 38 e 39 anos. Se o camisa dez já foi um dia veloz – e nem foi tão veloz assim – essa época passou faz tempo, e mesmo na ponta-esquerda de Zeman o capitano comprovou que a inteligência na circulação pode ser infinitamente mais útil à ocupação de espaço do que o uso destrambelhado da velocidade. Não que isso já não seja um corolário evidente do futebol. Por fim, sua qualidade técnica não precisa ser esmiuçada; até a bandana do Gervinho sabe que Totti é um dos poucos jogadores capazes de colocar a bola onde bem entender.

Além disso, ícone entre os italianos comedores, ele continua bonito pra cacete.

Tu vuò fà l'americano
Aqueles que argumentam contra a permanência de Totti recorrem ao raciocínio de que o capitano tem atrasado a Roma, que dele se vê refém há décadas. Alguns afirmam, não sem alguma lógica, que a Roma é maior que Totti. Mas será mesmo?

Em toda a história do futebol, pouquíssimos jogadores foram tão importantes por tanto tempo para um clube quanto Francesco Totti para a Roma. Entre os 23 anos em que atua profissionalmente, mais da metade deles se ocupou de carregar o time nas costas. Nem Giggs nem Maldini aturaram tantos companheiros de nível assustadoramente baixo quanto Totti, que disputou sua primeira Liga dos Campeões aos 25 anos. Sem ele, a Roma seria um clube ainda mais triste, grudado ao âmbito do simpático. Isto é, torcida bacana, uniforme bonito e ponto. Se ele foi duzentas vezes vice-campeão italiano, levantando o troféu apenas uma vez, não é porque, de sua parte, faltou algo: estamos falando da Roma, cazzo, um time mediano de orçamento mediano em uma cidade de pressões explosivas. Quando no alto escalão da Europa, os giallorossi vivem a exceção, não a regra – Francesco Totti é responsável direto pelos momentos de quebra.

James Pallotta costuma expor suas preocupações com brand, marketing e outros termos retirados de reuniões publicitárias nas quais certamente se ouviram as palavras "job" e "brainstorming". Pallotta visa à expansão da marca; una Roma mondiale. Qual passo seria mais contraproducente do que expulsar o maior ídolo da equipe; seu jogador mais reconhecido – aquele que mais vende camisas, populariza a equipe e traz novidades até no videogame? A essa altura, resta imaginar que tudo não passa de um plano pragmático do presidente: ele espera o momento mais oportuno para anunciar uma renovação de Totti de maneira a parecer que cedeu aos desejos do povo, desviando a atenção de falhas no elenco ou eventuais ausências de reforços.

Não é fácil averiguar se Pallotta, que ainda reside em Boston, realmente gosta de futebol. É possível que ele nunca tenha sentido a catarse dos passes mágicos e finalizações milimétricas de Totti – e isso pouco importa, dado que gostar do esporte não é seu trabalho, e sim gerenciar o clube. A questão, todavia, é que ele nem precisa recorrer ao coração: com o salário baixo do atacante, sua existência em campo é lucrativa para a Roma. Em suma, sequer devemos romantizar o problema todo.

Se no curriculum vitae de James Pallotta deve haver inúmeros grandes feitos comerciais, a verdade é que, na Roma, sua aba de experiência profissional no LinkedIn inclui zero título; uma triste derrota para a Lazio na final da Coppa Italia; duas goleadas patéticas – 7 a 1 para o Bayern e 6 a 1 contra o Barcelona – na competição mais assistida pelos fãs da modalidade e a debandada do setor mais fiel do estádio. Até o momento, a maior conquista da Roma americana é a mudança de escudo, que substituiu o elegante "ASR" por um "ROMA" idêntico aos emblemas de camelódromo. Não vale a pena estender os insucessos ao tratamento direcionado a Totti. Nem mesmo um roteirista extremamente preguiçoso traçaria um caminho tão unidimensional quanto "americanos frios e milionários despejam o maior ídolo". Ninguém precisa disso: a Roma já é melancólica o bastante.

Como lágrimas na chuva
Os últimos grãos de areia caem da ampulheta. Ainda que permaneça em Roma como jogador, não há maneira de estender a carreira de Francesco Totti por muito tempo. Dar-se conta disso machuca. Não à toa, o estardalhaço após o miracolo do camisa dez contra o Torino acentuou o choque de realidade do romanista: em breve não haverá mais Totti e um ciclo imenso se encerrará, derrubando consigo um pilar da identidade da agremiação, de seus torcedores e dos fãs de futebol em geral. Na internet, crianças e senhores passam a espernear enquanto pedem a renovação do capitano, por si só filtro de reconhecimento do esporte para gerações diversas.

Por décadas, Totti e Roma surgiram como ideias anexas, e separá-las não será indolor. Que ele atue aos 39 anos é uma dádiva aos romanistas; que o faça em alto nível é um feito assustador. Desconsiderar isso, portanto, emularia um cuspe no âmago da relação entre um clube de futebol e sua torcida, aquele mais puro e instintivo, isto é, o do ídolo, ainda por cima o ídolo local. Nunca mais, daqui até o fim dos dias, um jogador será tão importante para a Roma quanto Francesco Totti. Ninguém jamais o alcançará em relevância. A partir do momento em que ele abandonar o futebol, um período mágico terá morrido. Tudo será areia, e do reino de Totti restarão apenas ruínas. Os golaços, os lançamentos e até os cartões serão transcritos no universo da memória, onde o tempo não passa e a imortalidade é palpável.

"Meus gols devem unir, e não dividir", foi o comunicado mais recente do camisa 10, que em 23 anos uniu mais do que ninguém. Demiurgo, proporcionará lampejos de imortalidade enquanto pisar nos gramados. Cortá-lo seria um pecado mortal.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Pequenos milagres: Vicenza, a nobre provinciana

Com um dos uniformes mais belos da Itália, Vicenza contou com
Paolo Rossi para alcançar o vice nacional (Kaiser Magazine)
Nos últimos dois meses, o Quattro Tratti está trazendo aos leitores a série "Pequenos milagres", na qual contamos sobre as façanhas de equipes pequenas em suas participações na elite. Desta vez, falaremos de um dos times mais tradicionais e charmosos do futebol italiano, que acumula 37 participações na Serie A e, em diferentes ocasiões, conseguiu chegar longe: o Vicenza. Os biancorossi nunca foram campeões, mas conquistaram um segundo lugar no fim dos anos 1970.

O Vicenza é a agremiação futebolística mais antiga da região do Vêneto, com fundação em 1902 – um ano antes do Hellas Verona, seu maior rival. Nos primeiros anos de sua existência, os vicentinos jogaram as divisões inferiores da Itália e estrearam na primeira divisão em 1910. Quando o campeonato foi reformulado e começou a ser disputado em pontos corridos, em 1929, o Vicenza já havia voltado para a segunda divisão, de forma que participaria pela primeira vez da fase moderna da Serie A apenas em 1942.

Até 1953 o Vicenza ainda não havia feito muito na história do futebol italiano. Entre os maiores destaques dos biancorossi até aquele momento estavam a quinta colocação na Serie A 1946-47 e a revelação de alguns jogadores importantes para a época, como os meias Osvaldo Fattori e Alfonso Santagiuliana, além do atacante Romeo Menti, peça importante do Grande Torino. Após falecer junto com o time multicampeão no Desastre de Superga, Menti foi homenageado com o nome do estádio da cidade vêneta, que seria palco de sucessos nas décadas seguintes.

Um dos primeiros grandes momentos do Vicenza teve a participação do brasileiro
Luís Vinício (segundo em pé, da esq. para a dir.). Acima, uma formação da temporada 1963-64 (Wikipedia)
Lanerossi: 20 anos consecutivos na Serie A
Em 1953, o Vicenza, conhecido como ACIVI (por causa de seu primeiro nome, Associazione Calcio in Vicenza), foi comprado por uma grande indústria têxtil de Schio, cidade da região: a Lanerossi. A fábrica de lãs do empresário Alessandro Rossi adquiriu e rebatizou o clube, que começou a ser conhecido pelo nome de Lanerossi Vicenza e pelo R em formato de uma linha, desenhado em azul sobre a camisa listrada em branco e vermelho ou em dourado na bandeira do clube.

O regulamento do Campeonato Italiano só passou a permitir patrocínio nos uniformes dos clubes a partir da década de 1980, de forma que a iniciativa dos lanerossi acabou sendo pioneira. A fusão entre clubes e empresas existiram outras vezes na Itália – casos de Juventus Cisitalia, Torino Fiat e Talmone Torino –, mas somente o Vicenza "driblou" a lei, colocando a marca da financiadora entre os símbolos do clube e até mesmo na camisa. A existência do Lanerossi Vicenza foi uma das mais duradouras experiências de financiamento empresarial de um time do futebol italiano.

Os investimentos da Lanerossi no Vicenza o levaram à elite de forma quase instantânea: o time foi adquirido em 1953 e em 1955 garantiu o acesso. Daí em diante, os biancorossi conseguiram se manter na Serie A por 20 temporadas consecutivas na Serie A, período em que começou a ser apelidada de "La nobile provinciale" e "Provinciale di lusso" – nobre provinciana e provinciana de luxo, nas respectivas traduções para o português.

Em um primeiro momento na elite, o Vicenza se destacou por realizar campanhas sólidas e por revelar jogadores, como o goleiro Franco Luison, os meio-campistas Giorgio De Marchi e Luigi Menti (sobrinho de Romeo), além do atacante Sergio Campana. Os berici também tiveram em seu elenco e valorizaram jogadores como o defensor Mario David, o volante Giorgio Puia e o atacante Oscar Damiani, que chegaram a jogar na seleção italiana. Porém, um dos italianos que a torcida biancorossa mais amou neste período foi o zagueiro Giulio Savoini, que defendeu o clube de 1953 a 1966, atingindo a marca de 317 jogos – ninguém o superou até hoje. O líbero também foi auxiliar do time em seu ápice, na década de 1970, treinador em duas ocasiões, e teve a camisa 3, que utilizava, aposentada.

Chinesinho (segundo agachado, no canto direito da imagem) foi outro brasileiro
que teve sucesso pelos lanerossi (Vicenza Calcio)
Um Vicenza com tempero brasileiro
As duas décadas dos lanerossi na Serie A fazem parte de um período conhecido pelos torcedores como "Il ventennio". Nestes 20 anos, os técnicos mais representativos foram Manlio Scopigno (campeão italiano com o Cagliari) e Ettore Puricelli (vencedor com o Milan), mas a participação de dois jogadores brasileiros é que foi fundamental: em momentos diferentes, Luís Vinício e Chinesinho foram os diferenciais de um elenco dedicado, mas pouco brilhante.

Vinício foi o primeiro a fechar com os berici, em 1962. O atacante formado no Botafogo já havia se consagrado com a camisa do Napoli, mas foi com a camisa biancorossa que viveu seu auge. Ele foi contratado em 1962, quando já tinha 30 anos, e ficou no clube até 1966 – tendo uma segunda passagem entre 1967 e 1968.

Nos primeiros quatro anos no Vêneto, o brasileiro anotou 61 gols, contribuindo bastante para que o Vicenza alcançasse a 6ª posição em duas ocasiões e a 7ª em uma. Em 1965-66, o brasileiro foi o goleador do campeonato, com 25 tentos, e acabou negociado com a Grande Inter. A marca do "mítico" Luís Vinício só seria alcançada novamente na Itália 26 anos depois, quando Marco van Basten foi o artilheiro da temporada 1991-92.

Assim que Vinício se aposentou, em 1968, o Lanerossi Vicenza apostou em outro experiente brasileiro para substitui-lo. Chinesinho, de 33 anos, contava com um currículo extenso: seis temporadas na Itália, títulos por Internacional, Palmeiras e Juventus, além de 17 jogos pela Seleção.

O gaúcho jogava mais recuado, como regista, e teve resultados menos expressivos do que os de Vinício e companhia, nos anos anteriores à sua chegada. Mesmo assim, não deixou o Vicenza cair e virou ídolo dos torcedores – e de um deles em especial: um pequeno Roberto Baggio frequentava o Romeo Menti com seu pai e aprendeu a gostar do esporte assistindo o brasileiro jogar. Anos depois, no início da década de 1980, o garoto se tornaria profissional exatamente com a camisa dos lanerossi.

Após a saída de Chinesinho, em 1972, os vicentinos caíram de produção. O time quase foi relegado em 1972-73, mas quando o rebaixamento já era dado como certo, o Vicenza venceu o confronto direto contra a Atalanta graças a um gol contra nerazzurro. Os lanerossi permaneceram na Serie A por mais duas temporadas, até 1975, quando completavam exatos 20 anos na elite.

Rossi e Gibì Fabbri: dois dos personagens mais importantes da nobre provinciana (Wikipedia)
O auge: com tricampeão mundial, os lanerossi brigariam pelo scudetto
Após a queda, o Vicenza teve um ano negativo na segundona e brigou para não encarar a Serie C. Em 1976, tudo mudou e os primeiros pilares do time dos sonhos foram construídos: o presidente Giuseppe Farina – que tinha apenas 2% das ações, mas o controle administrativo vicentino desde 1968 – contratou o técnico Giovan Battista Fabbri, campeão da Serie C com o Piacenza em 1975. Também chegou ao Vêneto o atacante Paolo Rossi, revelação da Juventus: foi com a camisa alvirrubra que a carreira de Rossi começou a mudar – e foi ele quem ajudou a construir parte da história dos berici.

O técnico Gibì Fabbri praticava um futebol com influências do Totaalvoetbal holandês, considerado bastante avançado para os padrões táticos italianos à época. Os laterais eram bastante ofensivos e praticavam ultrapassagens com os alas. Ao mesmo passo, meias e defensores trocavam rapidamente de funções, confundindo os adversários. O treinador também gostava de usar um atacante fixo na área e apostou em Rossi: o jogador, que era um atacante pelos flancos, foi transformado por Fabbri em centroavante. A capacidade de observação do treinador fez com que Rossi viesse a se tornar um dos principais goleadores do futebol italiano e que a relação da dupla fosse excepcional.

Já na primeira temporada de Fabbri e Rossi em Vicenza, a equipe conquistou o título da Serie B, em uma temporada bem equilibrada. Pablito foi o artilheiro, com 21 tentos anotados, e a equipe ainda teve como destaques o goleiro Ernesto Galli, o lateral esquerdo Luciano Marangon, os defensores Giuseppe Lelj e Giorgio Carrera e os meias Renato Faloppa e Roberto Filippi. Todos os citados formariam a base do time que impressionaria a Itália na elite e passaria a ser conhecido como "Real Vicenza".

O início na Serie A 1977-78 não foi dos melhores, e o Vicenza somou duas derrotas e três empates nas cinco primeiras partidas. Apenas a partir de um 4 a 2 sobre a Atalanta (jogo em que estreou o regista Mario Guidetti, peça importante do time, autor de dois gols) é que os lanerossi começaram a mostrar seu estilo, com futebol ofensivo e pouco preocupado com a defesa – especialmente para os padrões italianos.

O esquema 1-3-5-1 de Gibì Fabbri começou a dar resultados a partir de então, e o Lanerossi Vicenza engatou uma sequência de onze jogos de invencibilidade, entrando na briga pelo scudetto. O nono jogo desta série foi o confronto direto contra a Juventus, que também tinha 18 pontos à altura da 15ª rodada, que fechava o primeiro turno. A partida, disputada no Romeo Menti, acabou empatada em 0 a 0, e registrou o recorde de público do estádio, que recebeu 31.023 pessoas naquele 22 de janeiro de 1978.

Ao longo do campeonato, o Vicenza não conseguiu competir com uma Juventus fortíssima, treinada por Giovanni Trapattoni e com fortíssima defesa (Dino Zoff, Claudio Gentile, Gaetano Scirea e Antonio Cabrini) e bom ataque (Roberto Bettega e Roberto Boninsegna). Mesmo assim, os berici fizeram uma campanha belíssima, com importantes vitórias sobre Roma, Lazio, Napoli e Fiorentina, e terminaram a temporada com o melhor ataque, com 50 gols marcados – 24 deles por Rossi. Pablito foi o artilheiro do campenato, com oito gols à frente de Giuseppe Savoldi, do Napoli.

O atacante já ganhara convocações para a seleção de Enzo Bearzot e representaria a Itália na Copa de 1978. Na competição, em que a Squadra Azzurra foi quarta colocada, Rossi marcou três gols e foi um dos melhores jogadores do torneio. As grandes atuações do atacante toscano fizeram com que ele fosse considerado uma das peças preferidas do técnico e lhe garantissem uma vaga até mesmo na Copa de 1982, na qual Rossi foi o grande responsável pelo tri italiano. Pablito, inclusive, foi o único jogador do Vicenza a disputar um Mundial pela Itália.

Após o vice e a Copa de 1978, os berici enfrentaram uma dura realidade e começaram a entrar em derrocada. A origem do retrocesso dos lanerossi foi financeira e envolveu o seu maior ídolo: para assegurar a permanência de Rossi, cujo passe era 50% de propriedade da Juventus, o presidente Farina desembolsou um valor absurdo para a época (quase 3 bilhões de liras), fazendo do atacante o jogador mais caro do mundo. Nem mesmo a tentativa de cobrir o rombo com a venda de carnês de sócio-torcedor salvou as contas dos biancorossi, que perderam estabilidade.

Para piorar, o tiro saiu pela culatra. Pablito Rossi teve seu desempenho comprometido por uma lesão no joelho, sofrida na eliminação na Copa Uefa diante do Dukla Praga, e seus 15 gols não conseguiram salvar o Lanerossi Vicenza do rebaixamento em 1978-79. O time decepcionou e só conseguiu cinco vitórias – uma no returno –, além de 14 empates, passando de um incrível vice-campeonato ao rebaixamento. Nem mesmo o prêmio Seminatore d'Oro, dado a Gibì Fabbri (eleito melhor treinador do ano) valeram como prêmio de consolação.

Nos anos 1990, os berici tiveram seu último momento de glória, com a conquista da Coppa Italia (Wikipedia)
O último título e o ocaso
Após a queda, o Vicenza começou a se desfazer. Fabbri deixou o cargo e Rossi ficou na Serie A, emprestado ao Perugia e depois vendido de volta para a Juve. Ícones do time, com Guidetti, Cerilli, Galli, Faloppa, Filippi, Lelj e Carrera também não permaneceram. Com as dívidas, os berici também não conseguiram montar um elenco competitivo para a Serie B e, após um surpreendente 5º lugar na segundona de 1979-80, o time caiu para a Serie C1 no ano seguinte. Com o novo rebaixamento, Giuseppe Farina deixou a presidência sem tapar o buraco no cofre biancorosso.

No início da década de 1980, o Vicenza até ensaiou uma reação, com a conquista da Coppa Italia da Serie C e a revelação de Roberto Baggio. Porém, foram anos de perdas: o Divino Codino, que só atuou pelos berici na terceira divisão (ajudando no acesso para a Serie B em 1985), foi vendido para a Fiorentina e o clube deixou de contar com a patrocinadora Lanerossi em definitivo. O logotipo e o nome da fábrica permaneceram ligados ao Vicenza até 1988-89 – mesmo depois, inclusive, os vicentinos mantiveram o apelido na boca do povo –, mas a empresa não contribuía economicamente desde o início da década.

Em meados dos anos 1990, o Vicenza voltou a aparecer nacionalmente. Em 1994, os biancorossi contrataram o técnico Francesco Guidolin, cujo início de carreira tinha como principal feito o acesso do Ravenna para a Serie B. Logo na primeira temporada, o treinador conseguiu levar os vênetos de volta para a elite depois de 16 anos de ausência, e até 1998, quando deixou o cargo, deu novas esperanças aos berici.

Nas três temporadas em que comandou o Vicenza na elite, Guidolin ajudou um time modesto a ficar em boas colocações na Serie A – 9º e 8º lugares – e a conquistar um título da Coppa Italia e as semifinais da Recopa Uefa. A equipe, para se ter uma ideia do feito, tinha como maiores destaques os zagueiros Gustavo Méndez e Giovanni Lopez, o lateral direito Luigi Sartor, o meio-campista Domenico Di Carlo e o atacante Marcelo Otero – no último ano, chegaram o atacante Pasquale Luiso e os jovens Francesco Coco e Massimo Ambrosini, emprestados pelo Milan.

A conquista da Coppa Italia em 1997 é, até hoje, o título mais expressivo de toda a história do Vicenza, em mais de 110 anos de existência. Na campanha, os biancorossi eliminaram Milan e Bologna e precisaram virar sobre o Napoli para ficarem com o título. A taça deu aos lanerossi o direito de participarem da Recopa, competição em que eliminaram Legia Varsóvia, Shakhtar Donetsk e Roda JC antes de caírem nas semifinais diante do Chelsea de Gianfranco Zola e Gianluca Vialli.

Depois da saída de Guidolin, em 1998, o Vicenza ainda disputou a Serie A mais duas vezes, em 1998-99 e 2000-01, com dois rebaixamentos – entre as duas participações, venceu a segundona, em 2000. Desde então, os lanerossi disputaram 14 edições da Serie B, quase sempre na parte de baixo da tabela (foram rebaixados três vezes e repescados em duas ocasiões). O time jogou a terceira divisão uma vez e quase voltou à Serie A em 2015, ano em que foi eliminado nos play-offs de acesso. Neste período de baixa do clube, os maiores ídolos foram os atacantes Stefan Schwoch (italiano de origem polonesa) e Massimo Margiotta (venezuelano de origem italiana).

A volta aos anos de bonança ainda é uma busca do Vicenza, mesmo com tantos problemas financeiros, em meio à tradição. No entanto, um clube como este pode buscar forças e verbas onde existe de onde parte um amor incondicional.

Hoje, os berici tentam se reerguer com um plano que prevê a participação de seus torcedores: em 2012, um grupo de figuras ligadas ao Vicenza decidiu lançar um projeto para que o clube tivesse participação popular. A cooperativa, chamada Nobile Provinciale, é apoiada pela prefeitura da cidade e juntou mais de 400 torcedores interessados em serem acionistas dos lanerossi, entre os quais o técnico Fabbri, e os ex-jogadores Marangon, Rossi, Carrera e Lelj. O primeiro de muitos passos para um amanhã melhor.

Ficha técnica: Vicenza

Cidade: Vicenza (Vêneto)
Estádio: Romeo Menti
Fundação: 1902
Apelidos: Biancorossi, Lanerossi, Lane, La nobile provinciale, Berici
As temporadas (apenas séries A e B): 37 na Serie A e 37 na B
Os brasileiros: Alemão, Américo Murolo, Angelo Sormani, Bruno Siciliano, China (José Ricardo da Silva), Chinesinho, Daniel Bessa, Diego Oliveira, Fabiano, Felipe Chalegre, Jeda, Rodrigo Possebon, Luís Vinício e Marco Aurélio.
Time histórico
Ernesto Galli; Giulio Savoini, Gianfranco Volpato, Giovanni Lopez, Luciano Marangon; Renato Faloppa, Domenico Di Carlo; Chinesinho (Romeo Menti), Roberto Baggio (Stefan Schwoch), Luís Vinício; Paolo Rossi. Técnico: Giovan Battista Fabbri.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

35ª rodada: Cinco estrelas

Pentacampeã, Juventus contou com força dos craques para chegar ao título (AFP)
Cinco vezes Juventus. Uma Juventus cinco (ou 32 ou, como clamam, 34) estrelas. A Velha Senhora venceu 24 das últimas 25 partidas, em uma arrancada surpreendente, e mesmo tendo começado a Serie A em maus bocados, conseguiu o título com três rodadas de antecedência e 12 pontos de vantagem. A Juve é o único clube a ter conseguido o penta duas vezes: agora e nos anos 1930, enquanto Torino (década de 1940) e Inter (2000), conseguiram uma vez. Veja a análise da rodada, que ainda teve resultados importantes para Napoli, Roma, Inter, Fiorentina, Milan, Sassuolo, Carpi, Palermo e Verona.

Fiorentina 1-2 Juventus
Kalinic (Zárate) | Mandzukic (Pogba) e Morata

Tops: Bernardeschi (Fiorentina) e Buffon (Juventus) | Flops: Astori (Fiorentina) e Bonucci (Juventus)

Não foi a melhor partida da Juventus na Serie A – longe disso, aliás. Mas a Velha Senhora soube ser cínica e contou com a estrela de Buffon, que, aos 38 anos, vive uma de suas melhores temporadas em sua carreira. Sem jogar tão bem, a Fiorentina dependeu demais de Bernardeschi, grande adversário do goleiro juventino na noite do Artemio Franchi, e acabou perdendo a partida. Deve se consolar com a quinta posição na Serie A.

A Fiorentina até se dedicou para tentar evitar o scudetto da Juventus, sua maior rival, mas a péssima arbitragem de Tagliavento complicou as coisas: o árbitro, é bom falar, errou demais para os dois lados, ma, primeiro, anulou gol legítimo de Bernardeschi, por impedimento mal marcado. No melhor momento dos viola no jogo, Dybala foi buscar jogo no campo de defesa – a Juve, com buracos no meio-campo, não ia bem – e armou, com Pogba, a jogada do gol de Mandzukic. A Fiorentina teve pênalti não marcado a seu favor, mas contou com um presente de Bonucci para empatar, com Kalinic. Dois minutos depois, porém, um apagão na zaga viola permitiu a Morata fazer o 2 a 1. No final da partida, Tagliavento inventou pênalti para o time da casa, mas Buffon fez defesaças na cobrança de Kalinic e no rebote. O croata ainda acertou a trave na sequência, mas não evitou a derrota.

O incrível recorde da Juventus em números (Mediaset)

Roma 1-0 Napoli
Nainggolan (Pjanic)

Tops: Szczesny (Roma) e Koulibaly (Napoli) | Flops: El Shaarawy (Roma) e Ghoulam (Napoli)

Mais uma vez, Totti foi fundamental para a Roma. Na volta de Higuaín ao time do Napoli, quem brilhou foi o capitão romanista, que entrou no final do segundo para participar da jogada que acabou no gol de Nainggolan e na vitória no confronto direto. O jogo ficou abaixo das expectativas, mas a Roma saiu satisfeita, afinal reabriu a briga pela vaga direta na Liga dos Campeões: os azzurri têm apenas dois pontos a mais que os giallorossi. Para o Napoli, o único motivo de comemoração foi a 400ª partida de Hamsík pelo clube.

No feriado italiano, o estádio Olímpico não recebeu um excelente público e não foi tão caloroso como de costume – talvez por isso a partida não tenha engrenado em momento algum. Logo no início, Manolas teve de ser substituído após machucar o olho em um choque com Higuaín. O argentino, aliás, obrigou Szczesny a fazer uma boa defesa no melhor momento dos partenopei no jogo – o Napoli também teve um gol bem anulado. Quando a partida se encaminhava para o 0 a 0, Totti achou Pjanic com um bonito passe, e o bósnio acionou Nainggolan, que bateu no canto e marcou, aos 89 minutos.

Inter 3-1 Udinese
Jovetic (Icardi), Jovetic (Biabiany) e Éder (Brozovic) | Théréau (Badu)

Tops: Jovetic e Kondogbia (Inter) | Flops: Murillo (Inter) e Danilo (Udinese)


Os primeiros minutos em San Siro foram o indicativo do que poderia ser o enésimo tropeço interista. Além da pressão da Udinese, colocando o time de Mancini em apuros pela postura desligada, um golaço improvável com menos de dez minutos. Saída limpa de Danilo, lançamento perfeito de quase 50 metros de Badu, corrida para vencer Murillo e finalização espetacular de Théréau para superar um Handanovic sem reação. Tão inesperado quanto isso, só uma virada da Inter. Pela primeira vez na temporada, os nerazzurri viraram e mantiveram a liderança até o final, também superando um tabu incômodo de não vencer o time de Údine em casa, o que não acontecia desde 2009-10.

A reação veio graças aos talentos interistas, que superaram a má atuação da defesa com o que melhor sabem fazer: jogar futebol. Kondogbia e Brozovic deram as caras e passaram a comandar o meio-campo, Icardi deu vida ao time com sua luta e Jovetic decidiu com gols. O empate veio ainda no primeiro tempo, quando após cruzamento de Juan Jesus, Icardi fez jogada individual e chutou cruzado para Jovetic completar na pequena área. Papeis invertidos, que se mantiveram no segundo tempo, quando Biabiany foi lançado por Brozovic e novamente o montenegrino estava na pequena área para completar o cruzamento. Já nos acréscimos, contra-ataque interista e o primeiro gol de Éder pelo clube milanês. Com os resultados na rodada, a Inter assegurou matematicamente sua volta às competições europeias, e deve mesmo ficar na quarta posição e com uma vaga na fase de grupos da Liga Europa. Já a Udinese está tranquila e tem mais três rodadas para assegurar outro ano na Serie A sem problemas.

Os 22 estrangeiros de Inter-Udinese: pela primeira vez, a Serie A teve uma partida sem
italianos como titulares (La Gazzetta dello Sport)
Verona 2-1 Milan
Pazzini (pênalti) e Siligardi | Ménez

Tops: Siligardi (Verona) e Donnarumma (Milan) | Flops: Bacca (Milan)

Quando você acha que as coisas não têm como piorar para o Milan, elas pioram. O time de Brocchi abriu o placar com Ménez aos 20 minutos e estava em boas condições de vencer, se aproximar da Fiorentina e se distanciar do Sassuolo. Mas com um restinho de gás que ainda sobrava, o Verona reagiu e foi feroz em busca da vitória, que eventualmente veio através de bola parada e nos acréscimos – primeiro com Pazzini, de pênalti, e depois com Siligardi, de falta. Quis o destino que os carrascos fossem dois ex-jogadores da Inter – o Pazzo também jogou pelos rossoneri.

Não foi pior – ou a virada não veio antes – por causa de Donnarumma. O jovem goleiro, maior revelação da Serie A, fez dez defesas nos doze chutes a gol dos anfitriões, de 28 ao todo. De qualquer forma, a reação dos gialloblù ficou apenas como um agrado para a torcida, já que o Carpi venceu horas depois e decretou o rebaixamento do time de Delneri. Valeu para a torcida, que cantou muito mesmo quando o time perdia e já tinha a queda definida pela matemática.

Torino 1-3 Sassuolo
Bruno Peres (Baselli) | Sansone (Duncan), Peluso (Berardi) e Trotta (Longhi)

Tops: Bruno Peres (Torino) e Duncan (Sassuolo) | Flops: Glik e Martínez (Torino)

O Sassuolo não quis muito saber de comemoração em um dia de festa para o Torino. O estádio Olímpico de Turim teve a expressão "Grande Torino" adicionada a seu nome oficial, em homenagem ao maior time da história dos granata, que desapareceu tragicamente em um acidente aéreo em 1949, ano em que o Sassuolo, que nem era profissional. Dias após a renovação de contrato do treinador Di Francesco por mais três temporadas, o Sassuolo encostou de vez no Milan e sonha, mais do que nunca, com uma vaga na Liga Europa.

Depois do tropeço contra a Sampdoria e de duas derrotas seguidas, uma vitória importante, fora de casa e contra um adversário complicado, o que dá moral ao time para seguir na briga pelo sexto lugar. Vale destacar também a reação dos jovens: Sansone, Berardi e Trotta participaram dos gols e Duncan foi o grande destaque da partida, juntamente com Acerbi e Peluso, mais experientes. Os anfitriões competiram enquanto Bruno Peres – em mais uma exibição muito acima da média – teve gás para carregar um time já de férias após a salvezza garantida.

Sampdoria 2-1 Lazio
Fernando (Krsticic) e De Silvestri | Djordjevic (Candreva)

Tops: Viviano (Sampdoria) e Keita (Lazio) | Flops: Gentiletti e Candreva (Lazio)

No início, a Lazio parecia em boas condições para vencer fora de casa e se manter viva na briga pelo sexto lugar. A defesa da Sampdoria estava desarrumada e os visitantes criavam seguidas oportunidades com um Keita em grande dia. Porém, ainda melhor que o senegalês, apenas o goleiro Viviano, que só foi vencido por Djordjevic, que completou cruzamento de Candreva para marcar seu primeiro gol desde novembro. Os anfitriões reagiram a partir do gol de Fernando, seu quarto na temporada e o terceiro em nove partidas. Do outro lado, Candreva mais uma vez iludiu, apesar da assistência, tendo pênalti defendido no final do primeiro tempo e substituído por Felipe Anderson no segundo. A virada doriana veio em lance confuso e muito contestado pela Lazio, no qual os ex-laziali De Silvestri e Diakité dividiram bola no alto, junto com adversários – o gol foi atribuído ao primeiro. O resultado deixa a Lazio longe da vaga na Liga Europa e praticamente garante a salvezza da Samp.

Bologna 2-0 Genoa
Giaccherini (Brienza) e Floccari

Tops: Brienza e Giaccherini (Bologna) | Flops: Ansaldi e Matavz (Genoa)

Vitória para garantir a salvezza do Bologna – não matematicamente, mas virtualmente, já que os felsinei estão oito pontos acima da zona de rebaixamento e restam apenas nove em disputa. O time da casa poderia estar em situação bem melhor, não fossem a escolha errada em começar a temporada com o técnico Delio Rossi e as nove partidas sem vencer depois da arrancada, com a chegada de Donadoni. No jogo disputado no domingo, o destaque maior foi Brienza, protagonista nos ataques do Bologna e na pressão que desmantelou o Genoa – também sem ambições na temporada. O veterano atacante garantiu os gols de Giaccherini e Floccari.

Atalanta 1-0 Chievo
Borriello

Tops: Borriello e De Roon (Atalanta) | Flops: Gómez (Atalanta) e Bizzarri (Chievo)

Salvezza assegurada com um artilheiro improvável: Borriello, o veteraníssimo centroavante que chegou no inverno e ficou nove rodadas sem marcar, mas que agora tem quatro gols em três partidas. O goleador, que sonha com uma também improvável convocação para a Eurocopa, foi importante para garantir pontos a uma Atalanta quase de férias. Tão importante quanto foram as exibições de Rafael Tolói e De Roon, que mantiveram o time seguro, e a do criativo Diamanti. Estúpido mesmo foi Gómez, expulso no final da partida e por pouco não comprometendo a vitória nerazzurra. Do lado do Chievo, a se registrar o erro de Bizzarri no gol que decidiu a partida e o distanciamento da vaga na Liga Europa.

Carpi 1-0 Empoli
Lasagna (Pasciuti)

Tops: Romagnoli e Lasagna (Carpi) | Flops: Mbakogu (Carpi) e Mchedlidze (Empoli)

Jogo nervoso no Alberto Braglia, o que refletiu o momento do Carpi. A partida, realizada em Módena, teve duas expulsões, várias faltas e os visitantes com um a menos por 70 minutos, mas no final das contas, o time de Castori conseguiu os três pontos. Apesar disso, o Empoli foi dominante, enquanto os anfitriões jogaram à sua maneira: agressivos em ataques diretos. Na rodada que o Palermo esboçou uma reação, foi fundamental o gol de Lasagna aos 85 minutos. O atacante mais uma vez saiu do banco para decidir, pela quinta vez em 26 partidas em que entrou em campo com o jogo em curso. Considerando as cinco maiores ligas europeias, desempenho melhor do que o do atacante com nome de comida, apenas os de Lewandowski (Bayern) e Grosicki (Rennes).

Frosinone 0-2 Palermo
Gilardino (Rispoli) e Trajkovski

Tops: Gilardino e Sorrentino (Palermo) | Flops: Leali e Tonev (Frosinone)

Reação muito importante do Palermo. Mesmo com Ballardini de volta ao "comando", o time agora não pode se importar com velhos problemas e deve vencer os últimos jogos para superar os novatos Frosinone e Carpi. O primeiro passo foi a vitória na casa do primeiro, com os veteranos Sorrentino e Gilardino sendo fundamentais. O goleiro e capitão como sempre liderou o time e fez seu papel enquanto goleiro, salvando dois gols dos donos da casa, enquanto o centroavante fez sua melhor partida em muitos anos. Os três pontos colocam os sicilianos à frente do Frosinone, mas ainda três pontos atrás do Carpi. Apesar da desvantagem, os rosanero tem tabela relativamente mais fácil que as dos novatos, que já surpreendem por chegarem na 35ª ainda brigando pela salvezza.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

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Seleção da rodada
Buffon (Juventus); Bruno Peres (Torino), Maietta (Bologna), Rafael Tolói (Atalanta), Rispoli (Palermo); Fernando (Sampdoria), Kondogbia (Inter); Jovetic (Inter), Brienza (Bologna), Lasagna (Carpi); Gilardino (Palermo). Técnico: Eusebio Di Francesco (Sassuolo).

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Quando o Leicester tirou Mancini da aposentadoria

Ícone do futebol italiano, Mancini fez seu último jogo como profissional na Inglaterra (Four Four Two)
O Leicester está muito perto de fazer história na Inglaterra: surpreendendo a todos, os Foxes lideram a Premier League e podem começar o mês de maio comemorando o título do campeonato mais rico (e um dos mais difíceis) do mundo. Claudio Ranieri, treinador da equipe, está sendo fundamental para o clube do centro da ilha e tem dado um toque italiano à excelente campanha do time de Jamie Vardy, Riyad Mahrez e companhia. O que pouca gente sabe é que, antes do técnico, o Leicester teve outro italiano em seus quadros: o craque Roberto Mancini já vestiu a camisa azul.

Mancio passou pelos Foxes há mais de 15 anos: foi na virada do milênio, entre 2000 e 2001, que ele assinou com o clube, aos 36 anos, tornando-se o primeiro (e até agora, único) italiano a atuar pelo Leicester. Àquele momento, o trequartista já havia vencido tudo na carreira, e brilhado por Bologna, Sampdoria e Lazio – nem tanto na seleção italiana.

O craque se destacou ao longo de 15 anos com a camisa doriana, com a qual atuou 566 vezes, fez 171 gols e conquistou sete títulos (incluindo um scudetto), sendo o grande destaque de uma geração que contou com Gianluca Vialli, Toninho Cerezo, Pietro Vierchowod, Attilio Lombardo, Gianluca Pagliuca e outros. O camisa 10 jesino também fez sucesso em uma Lazio endinheirada e cheia de estrelas, com a qual também foi campeão italiano. No entanto, chegou à Inglaterra em outro momento da carreira.

Ao final da temporada 1999-2000, o fantasista tinha anunciado sua aposentadoria em grande estilo, depois de faturar três troféus com a Lazio – Serie A, Coppa Italia e Supercopa Uefa –, mas prosseguiu no time romano. Mancio assumiu o posto de auxiliar de Sven-Göran Eriksson, técnico sueco que o comandou na Sampdoria e na Lazio, e com o qual desenvolveu grande afeição e respeito profissional. Apesar da sintonia, a dupla não engrenou pelo time celeste em 2000-01: Eriksson tinha proposta para dirigir a seleção inglesa e se demitiu após uma derrota contra o Napoli, no início de janeiro. Dias depois, Mancini voltava a ser jogador de futebol e seguiria o sueco rumo à Inglaterra.

Mancini assinou com o Leicester no dia 18 de janeiro, como indicação de Eriksson ao técnico Peter Taylor. A princípio se especulou que a Federação Inglesa de Futebol teria feito um acordo com o clube para que Robi assumisse um posto de olheiro de Eriksson, mas isso foi desmentido – apesar de o italiano ter realizado essa função de maneira informal e ter fornecido informações ao sueco enquanto aperfeiçoava seus conhecimentos para ser treinador.

Atual técnico da Inter foi o primeiro italiano da história do Leicester (Getty)
Mancio fechou um contrato de seis meses com os Foxes. Em sua chegada, ele declarou que havia aberto mão de permanecer na Lazio como auxiliar de Dino Zoff e que também tinha recebido propostas de clubes italianos para continuar jogando, as quais recusou veementemente. Além do patrocínio de Eriksson, a chegada de Mancini a Leicester teve influência do amigo Vialli, ex-jogador e técnico do Chelsea, mas à época no comando do Watford. O carequinha era um entusiasta de sua transferência e havia falado bem dos Foxes para ele.

O Leicester vinha de um oitavo lugar na Premier League e do título da Copa da Liga Inglesa, mas não estava tendo atuações do mesmo nível em 2000-01. Mancini foi contratado para dar maior experiência ao time, que também estava tendo problemas no ataque – a expectativa era a de que o italiano passasse um pouco de sua técnica para os mais jovens. O italiano não jogava havia quase oito meses, mas mesmo assim ganhou a camisa 10 e já seria escalado como titular diante do Arsenal.

A passagem de Robi pela Inglaterra foi curtinha: durou apenas um mês. O craque realmente estreou contra os Gunners, e foi substituído no segundo tempo da partida, terminada em um empate por 0 a 0. Mancini entrou em campo pelo Leicester outras quatro vezes, três pelo Campeonato Inglês e uma pela FA Cup: foram duas vitórias, contra Chelsea e Aston Villa (este jogo, pela Copa) e duas derrotas, para Southampton e Everton. Mancini foi titular em quatro dos jogos, mas não marcou nenhum gol pela equipe, que concluiria a temporada na 13ª posição. Assim mesmo, ficou querido pela torcida.

Mancio decidiu deixar a Inglaterra porque já negociava sua volta para a Itália, desta vez para pendurar as chuteiras em definitivo. O craque rescindiu com os ingleses e aceitou o cargo de técnico da Fiorentina, que vivia crise financeira e demitia o turco Fatih Terim. Pelo clube violeta, Mancini conquistou a Coppa Italia - a primeira das quatro que já conquistou enquanto treinador – e iniciou uma trajetória vitoriosa, com passagens por Lazio, Inter, Manchester City e Galatasaray. Quando o Leicester levantar o troféu da Premier League, a torcida lembrará que, antes de Ranieri, outro italiano adotou a cidade, mesmo que por pouco tempo.