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quinta-feira, 30 de junho de 2016

10 anos do tetra: Para aliviar a tensão

Com dois gols de Toni, Itália voltou às semifinais de um Mundial, o que não acontecia desde 1994 (Getty)
Por Arthur Barcelos

Depois da tempestade vem a bonança. A vitória complicada sobre a Austrália, com direito a apito amigo para Totti colocar a Itália nas quartas de final, assustou o time de Lippi, mas também lhe deu forças. Forças para superar uma série de problemas nos bastidores, que não envolvem diretamente a seleção, mas que afetam os jogadores. Contra a Ucrânia de Shevchenko e Blokhin, a Squadra Azzurra não teve vida fácil e sofreu, porém Toni finalmente apareceu. Em branco nas quatro partidas anteriores, o atacante da Fiorentina marcou dois gols decisivos e mostrou um pouco do repertório que o levou à artilharia da Serie A, com 31 gols.

Em Hamburgo, com Nesta definitivamente fora do restante da Copa do Mundo, Lippi escalou Barzagli no lugar de Materazzi, expulso nas oitavas. Mas essa não foi a única mudança do treinador, que pela primeira vez utilizou o 4-4-2 na Alemanha, com formação semelhante à que venceu a República Checa. A diferença foi o esquema tático: na fase de grupos, o técnico optou pelo "árvore de Natal", o 4-3-2-1.

A Ucrânia tinha Shevchenko como a grande estrela e todas as jogadas ofensivas focavam no ex-atacante do Milan, negociado com o Chelsea em maio. O time de Oleg Blokhin foi goleado na estreia pela Espanha, por 4 a 0, mas repetiu o placar a seu favor contra a Arábia Saudita e assegurou o segundo lugar com gol de pênalti do seu craque contra a Tunísia. Nas oitavas, superou o ferrolho suíço nos pênaltis, por 3 a 0, apesar de Sheva ter perdido o primeiro.

Os ucranianos empregaram marcação agressiva e individual, o que dificultou o jogo italiano, mas Camoranesi, Zambrotta e Totti superaram os adversários. Logo no início, o ítalo-argentino fez jogada individual e quase abriu o placar. Uma premonição do que aconteceria logo depois, quando Zambrotta tabelou com Totti e acertou belo chute de esquerda de fora da área. O experiente Shovkovskyi aceitou.

Na sequência, porém, a Ucrânia reagiu. Sviderskyi, zagueiro que perseguia Toni, foi amarelado aos 16 minutos e substituído aos 20 pelo atacante Vorobey, deixando a Husin a missão de marcar o centroavante da Fiorentina. Foi justamente no ataque, contudo, que o grandalhão Husin apareceu, exigindo grande defesa de Buffon, que ainda bateu a cabeça na trave. Em seguida, Kalynychenko teve chute parado por Zambrotta em cima da linha.

Mas como quem não faz, leva, Toni deu às caras e superou a marcação individual. Totti tabelou com Grosso em escanteio curto e levantou a bola na área: o bomber se antecipou e marcou ao seu jeito na pequena área – todo desengonçado, mas sempre oportunista.

Sempre nas bolas alçadas à área, a Ucrânia voltou a assustar com Husin no segundo pau, e dessa vez o defensor acabou acertando a trave. Em contra-ataque, Camoranesi respondeu com jogada individual e foi derrubado na área, mas a penalidade não foi marcada. No lance, o juventino acusou a pancada e teve que ser substituído.

Foi quando Lippi entrou em jogo: no lugar do camisa 16, Oddo, e no lugar do apagado Pirlo, Barone. Com a mudança, Zambrotta passou para a ponta esquerda, com Perrotta à direita e o laziale na lateral direita. Na primeira jogada de Zambrotta pela esquerda, menos de um minuto depois da substituição, saiu o terceiro: depois de tabela com Grosso, o juventino cruzou rasteiro para Toni matar o jogo, sempre na pequena área e desmarcado.

Ao final do jogo, homenagem dos juventinos à Gianluca Pessotto, internado após tentativa de suicídio. Seu antigo treinador, Lippi, dedicou a vitória ao ex-jogador da seleção italiana.

Nas semifinais, nada menos que os anfitriões pela frente: a Alemanha de Jürgen Klinsmann. A Nationalmannschaft está invicta na competição e conseguiu unir o país em torno de si e na busca pelo tetracampeonato. Por outro lado, os alemães nunca venceram a Itália em Copas do Mundo. Quem leva a melhor no maior clássico do futebol europeu?

Itália 3-0 Ucrânia – Quartas de final

Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Barzagli, Grosso; Camoranesi (Oddo), Gattuso (Zaccardo), Pirlo (Barone), Perrotta; Totti; Toni. Técnico: Marcello Lippi.

Ucrânia: Shovkovskyi; Gusev, Rusol (Vashchuk), Sviderskyi (Vorobey), Nesmatschnyi; Shelayev, Tymoschuk, Husin, Kalynychenko; Shevchenko, Milevskiy (Byelik). Técnico: Oleg Blokhin.

Gols: Zambrotta (6) e Toni (59 e 69)
Melhor em campo Fifa: Gattuso
Cartões amarelos: Sviderskiy, Kalynychenko e Milevskiy.
Árbitro: Frank De Bleeckere (Bélgica)
Local: AOL-Arena, em Hamburgo (Alemanha).

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Jogadores: Francesco Graziani

Graziani e Pulici fizeram a dupla de ataque responsável pelo último scudetto do Torino (Wikipedia)
Peça-chave no último scudetto do Torino, Francesco Graziani foi um típico atacante italiano. Ciccio não era o mais privilegiado em termos de técnica, mas era muito esforçado e sabia fazer de melhor o que dele se esperava: gols. Foi assim que se tornou ídolo do Torino, além de ter conquistado o Mundial de 1982, ao lado de Paolo Rossi.

O começo de carreira foi na região do Lácio, onde nasceu, nos arredores da capital italiana. Graziani jogava como trequartista, mas não foi notado pelas categorias de base de Roma e Lazio, maiores clubes daquela parte do país. Dividindo o futebol com o trabalho de auxiliar de pedreiro de seu pai, Ciccio, como era conhecido, acabou sendo descoberto em 1970 por um olheiro do Arezzo, time modesto que à época militava na Serie B. No clube toscano, seus treinadores viram que o potencial de Graziani não era no meio-campo e sim no comando de ataque.

Em sua nova função, Graziani rapidamente começou a ganhar espaço com gols, mas sobretudo ótima presença de jogo. A primeira temporada foi de adaptação, ainda mais para quem vinha dos campos de várzea, mas em sua segunda temporada no clube toscano, Ciccio começou a mostrar futebol. Mesmo sem uma grande campanha do Arezzo, chamou a atenção do Torino, que o contratou em 1972.

Ciccio ainda permaneceria um ano mais na Toscana, no qual anotou nove gols na Serie B, e chegou ao Toro somente após completar o serviço militar. Em 3 de outubro de 1973, Graziani fez sua estreia com a camisa do Torino, numa derrota de 2 a 1 para o Lokomotiv Leipzig, pela Copa Uefa. Na Serie A, a estreia aconteceu pouco mais de um mês depois, enquanto seu primeiro gol foi às vésperas de completar 21 anos. Sua primeira temporada terminaria com 22 jogos e 6 gols, mas a grande conquista foram os ensinamentos conquistados na companhia dos atacantes Gianni Bui e Paolo Pulici.

Seus primeiros anos só não foram melhores com a camisa do Torino porque sua personalidade forte fez com que se desentendesse tanto com Gustavo Giagnoni quanto com Edmondo Fabbri, treinadores naquele período. Somente após a chegada de Luigi Radice, em 1975, é que Ciccio recuperou seu prestígio e foi recolocado no comando de ataque ao lado de Pulici, com o qual teve um entendimento tremendo. A sintonia era tamanha a ponto de a dupla chegar a ser conhecida como os "gêmeos do gol".

Naquela temporada, Radice propôs inovações táticas à equipe e tirou o máximo de Graziani e Pulici, que viriam a ser vice-artilheiro e artilheiro do campeonato, com 15 e 21 gols respectivamente. Os tentos anotados pela dupla levariam o Torino ao título nacional, quebrando um jejum de 27 anos do clube e os colocando na história do futebol italiano. Até hoje, foi a única vez que o Toro conquistou um scudetto após a Tragédia de Superga, que matou o time conhecido como Grande Torino.

Finalmente o Torino voltava às glórias – embora tenha vencido a Coppa Italia anos antes. Pulici foi o artilheiro, mas Graziani foi o protagonista, conquistando o prêmio de "Jogador de Ouro" da competição. "Não esquecerei nunca o instante em que saí dos vestiários. Havia aquela faixa escrita 'Força, rapazes. Superga os observa', e aquela impressionante muralha humana, com coros e bandeiras. Entendi o que significava jogar com o peso da história sobre nós...", disse o atacante, em entrevista na qual recordava a conquista.

A partir de então, a carreira do atacante deslanchou. Após o título, fez sua temporada de mais gols com a camisa do Torino, com 21 gols apenas na Serie A, competição na qual se sagrou artilheiro. Em 1976-77, mesmo que os grenás tenham perdido o campeonato para a rival Juventus, que ficou com um ponto a mais, a épica disputa marcou a carreira de Graziani junto à torcida. Naquela campanha, ele atuou com um ferimento no queixo em um jogo contra a Sampdoria, mas apesar disso marcou três gols e não tirou o pé em nenhuma dividida.

Atuações pelo Torino levaram Ciccio à Azzurra, com a qual também disputou o Mundial de 1982 (Getty)
Ciccio atuou em alto nível, conquistando suas primeiras convocações para a Squadra Azzurra a partir de 1975 e se tornando membro frequente das convocações, seja com Fulvio Bernardini seja com Enzo Bearzot. Graziani foi escolhido para o elenco que levou a Itália ao quarto lugar na Copa de 1978 e começou a competição como titular, mas acabou perdendo a posição para o emergente Paolo Rossi. Seria com Pablito que, quatro anos depois, ele formaria dupla de ataque, na disputa do Mundial de 1982, dessa vez com um final mais feliz: a Nazionale faturou o tri.

Graziani ainda atuaria outras três temporadas no Torino e também atuou na Euro 1980 (outro quarto lugar), antes de se transferir à Fiorentina, em 1981. Os problemas financeiros da equipe piemontesa anteciparam a saída do jogador, que ainda era um dos símbolos da equipe campeã em 1975-76 e um dos maiores artilheiros da história do time granata –  hoje, ele é o sétimo na lista, com 122 tentos marcados.

Na Toscana, Graziani encontrou seu ex-companheiro de Torino, Eraldo Pecci, e também mudou seu estilo de jogo, deixando de ser um centroavante propriamente dito para se transformar num generoso garçom. Foi pensando em ter um jogador com esse espírito que Bearzot o convocou para ser titular como ponta esquerda, no lugar do lesionado Roberto Bettega, na Copa de 1982. Ciccio atuou nos sete jogos da campanha e marcou um gol, contra Camarões, mas se machucou logo aos sete minutos da final e deu lugar a Alessandro Altobelli, que balançou as redes no 3 a 1 contra a Alemanha Ocidental.

Bom desempenho também na Fiorentina levou Graziani à Copa de 1982 (Gazzabet)
Em termos de clube, Graziani disputou dois campeonatos com a camisa viola, clube pelo qual anotou 14 gols – um deles justamente contra o Torino. O título esperado na Toscana não veio: seu time foi novamente superado pela Juventus por um mísero ponto em 1982, num final de campeonato até hoje contestado pelos torcedores de Florença por causa de um erro de arbitragem que acabou por favorecer os bianconeri. Contratado pela Roma, em 1983, viria a jogar no time recém-coroado campeão italiano e que o rejeitara quase 20 anos antes.

Ciccio chegava à capital para ser uma das peças chaves na disputa da Copa dos Campeões. Protagonista na equipe de Paulo Roberto Falcão, Toninho Cerezo, Agostino Di Bartolomei, Bruno Conti e companhia, Graziani ajudou a levar os romanistas à decisão europeia, na qual o time romano foi derrotado pelo Liverpool na decisão por pênaltis, em pleno estádio Olímpico. Graziani, aliás, foi um do romanistas que desperdiçaram a cobrança. Apesar de tudo, sua passagem pelos giallorossi não deixou de ser vitoriosa, com a conquista de duas Coppa Italia.

Ao final dos três anos de contrato e já na fase final da carreira, Ciccio transferiu-se à Udinese, clube em que ficou por duas temporadas, sendo uma na Serie A e outra na Serie B. Francesco Graziani ainda teria uma breve passagem pelo APIA Leichhardt, no futebol australiano, antes de deixar de vez os gramados.

Na reta final da carreira, Graziani passou pela Roma (Storie del Calcio)
Não demorou muito até que Graziani retornasse à Bota, para iniciar sua carreira como treinador, que nunca chegou a decolar. Sua grande oportunidade foi na Fiorentina, mas não chegou nem sequer a completar uma temporada à frente da equipe violeta. Ciccio passou ainda por Ascoli, Reggina e Avelino, antes de ficar afastado dos gramados por quase dez anos, até que retornou ao ofício para comandar o Catania, levando-o para a segunda divisão, em 2002.

Seu último trabalho como treinador aconteceu em 2013, pela equipe sub-17 do Vigervano e o único título foi conquistado em 2004 com o minúsculo Cervia, clube com o qual venceu a Eccellenza da Emília-Romanha, nível regional da sexta divisão italiana. Desde que se aposentou, Ciccio é mais conhecido pelas suas aparições no show business e em diversos reality shows na TV do Belpaese.

Francesco Graziani
Nascimento: 16 de dezembro de 1952, em Subiaco, Itália
Posição: atacante
Clubes como jogador: Arezzo (1970-73), Torino (1973-81), Fiorentina (1981-83), Roma (1983-86), Udinese (1986-88), APIA Leichhardt (1988)
Títulos como jogador: Serie A (1975-76), Coppa Italia (1983-84 e 1985-86) e Copa do Mundo (1982)
Clubes como treinador: Fiorentina (1989-90), Ascoli (1990), Reggina (1990-91), Avellino (1991-92), Catania (2001-02), Montevarchi (2003-04) e Cervia (2004-06)
Título como treinador: Eccellenza Emília-Romanha (2004)
Seleção italiana: 64 jogos e 23 gols

terça-feira, 28 de junho de 2016

Roy Hodgson: patacoadas também na Serie A

Esse olhar lascivo do inglês conquista e convence... isso mesmo: ninguém (Getty)
Ele está fora. Roy Hodgson, técnico da Inglaterra, não resistiu a mais um vexame do English Team e, após a eliminação nas oitavas de final da Euro 2016 contra a pequena Islândia, pediu demissão do cargo. Não deixa de ser irônico que o treinador tenha caído após perder para a seleção de um país nórdico, da mesma região do globo em que mais teve sucesso.

À frente da seleção inglesa, Hodgson teve exposição comparável apenas às que teve quando foi técnico de Inter e Liverpool. No entanto, os holofotes apontados para ele só evidenciaram o pior: o comandante londrino fez o mesmo que seus antecessores: ganhou milhões sem merecimento, deixou a torcida da Terra da Rainha empolgada e fracassou na Copa do Mundo e na Euro mesmo com uma boa geração a seu dispor. Acabou sendo mais lembrado por suas feições e gestuais pitorescos, além da total falta de intimidade com uma mentalidade vencedora e o poder de incentivar e convencer seus comandados de suas ideias.

A definição do Felipe Portes, dono da Todo Futebol, é precisa. A cena antológica do treinador após o gol de Luis Suárez na derrota da Inglaterra para o Uruguai durante a Copa do Mundo, também. E apresentam um técnico que passou pela Itália sem deixar saudades.
O homem que descartou Roberto Carlos
Hodgson morava do outro lado dos Alpes quando foi contactado para  se transferir para Milão e fechar com a Inter, com a Serie A 1995-96 já em andamento. O inglês era o técnico da Suíça e aceitou trabalhar na equipe recém-adquirida por Massimo Moratti, a qual assumiu na 7ª rodada do campeonato. Teria o seu emprego de maior destaque pouco depois de comandar os helvéticos na Copa de 1994.

Quando Hodgson chegou na Inter, o clube havia investido bastante e acertado com nomes como Javier Zanetti, Sebastián Rambert, Maurizio Ganz, Salvatore Fresi, Roberto Carlos e seu compatriota, o inglês Paul Ince. Porém, Ottavio Bianchi, seu antecessor, conseguiu a proeza de cair na primeira fase da Copa Uefa para o pequeno Lugano, da Suíça, o que fez a diretoria buscar o inglês no próprio país alpino. English Roy tinha a missão de apagar incêndio, mas não conseguiu fazer mais do que uma temporada medíocre na Lombardia, concluída com a sétima posição no Campeonato Italiano.

O inglês não durou mais que uma outra temporada na Pinetina. Em 1996-97, a Inter se reforçou ainda mais com as contratações de Iván Zamorano, Youri Djorkaeff, Aron Winter e Ciriaco Sforza e até fez uma campanha melhor: foi terceira colocada na Serie A, mas perdeu a final da Copa Uefa para o Schalke 04, tecnicamente inferior.

A derrota acabou ficando na conta de Hodgson, que foi alvo de moedas e isqueiros atirados pelos torcedores da Beneamata. Para se ter uma ideia, até mesmo o sempre calmo e educado Zanetti demonstrou irritação com o técnico na partida de volta da final – desculpando-se em seguida. Com o terceiro lugar já garantido, English Roy foi demitido após a final da copa e deu lugar a Luciano Castellini, que dirigiu a equipe nas duas últimas rodadas da Serie A.

Galante, Hodgson conta uma piada de tiozão para The Guv'nor Paul Ince (The FA)
Durante sua passagem pela Inter, o inglês ficou reconhecido por ser um homem decente, muito cortês, mas ao mesmo tempo sem afinidade com a persuasão e espírito vencedor – características atribuídas a Claudio Ranieri ao longo de quase toda sua carreira, por exemplo. Hodgson também ficou marcado por ter sido o técnico que dispensou Roberto Carlos, em uma das piores negociações da história recente do clube lombardo.

O inglês insistia em utilizar o brasileiro como meia aberto pela esquerda de seu 4-4-2 em linha, por considerá-lo indisciplinado taticamente e fraco do ponto de vista defensivo. Para manter seu espaço na seleção brasileira e jogar em sua posição de origem, Roberto pediu para ser negociado com o Real Madrid, clube em que fez história: venceu três Ligas dos Campeões (o mesmo número de Champions que a Inter conquistou desde sua fundação), e se tornou um dos maiores laterais esquerdos daquele período, com títulos mundiais acumulados pelo Real e pelo Brasil. Já Hodgson...

Por incrível que pareça, o inglês teve outra oportunidade com os nerazzurri. Na horrenda temporada 1998-99 ele foi contratado como interino para as quatro últimas partidas da Serie A, acumulando vitórias contra Roma (5 a 4) e Bologna e derrotas contra Parma e Venezia. Após concluir a temporada na 8ª posição, a Beneamata teve de jogar duas partidas extras contra o Bologna (empatado em número de pontos) para decidir quem jogaria a Copa Uefa. Os bolonheses faturaram o spareggio com dois triunfos por 2 a 1 e ficaram com a vaga.

Mesmo com a má fama adquirida pela decepção na Inter, Hodgson ainda dirigiu a Udinese em 2001-02, temporada em que a equipe bianconera brigou para não ser rebaixada. O inglês entrou em atritos com a direção do clube friulano em sua passagem e acabou sendo demitido na 14ª rodada.

Jornais publicaram que ele teria dito que estava feliz por ter voltado a treinar um time da Serie A, mas que poderia ter escolhido uma agremiação melhor, porque "a Udinese é um clube muito estranho". Hodgson nega ter dito estas palavras, mas assume que ficou aliviado por ter sido demitido, pois não se entendia com os cartolas. Vale ressaltar que o fracasso da equipe de Údine naquela temporada pode ser atribuído, sim, a ele, uma vez que o elenco era formado por vários jogadores de longa história no Friuli, como Morgan De Sanctis, Valerio Bertotto, Per Kroldrup, David Pizarro, Martin Jorgensen, David Di Michele, Vincenzo Iaquinta e Roberto Muzzi. Seria possível alcançar melhores resultados com este time, mas English Roy não demonstrou competência, mais uma vez.

Hodgson também teve uma curtíssima passagem pela Udinese (Getty)
Quando era bom o senhor inglês
Apesar de ser reconhecido pelas suas falhas, Hodgson teve seus momentos de alta. O treinador se notabilizou por ser um homem do mundo: globetrotter, ele girou o planeta antes de chegar à Itália e continuou percorrendo distâncias após deixar o Belpaese. Poliglota, além de inglês, ele fala fluentemente sueco, norueguês, alemão, italiano e um pouco de dinamarquês, francês e finlandês.

Hodgson iniciou sua carreira como treinador no futebol sueco, em 1976, por indicação do amigo Bob Houghton, que treinava o Malmö. Roy levou o surpreendente Halmstads a dois títulos nacionais, o Örebro à primeira divisão, a Allsvenskan, e ainda faturou um pentacampeonato com o próprio Malmö, nos anos 1980. Os dois são tidos como dois dos responsáveis pela evolução do futebol da Suécia, pela introdução da marcação por zona e de maior rapidez nas transições – Sven-Göran Eriksson, por exemplo, tem muito em comum com o estilo dos ingleses.

Após se tornar mito na Suécia e recusar contrato vitalício do Malmö, Hodgson foi para a Suíça, país em que se destacou à frente do Neuchâtel Xamax – chegou a vencer o Real Madrid em uma partida da Copa Uefa. O inglês acabou substituindo Uli Stielike no comando da seleção nacional helvética e sobrou: classificou a Suíça para a Copa do Mundo, algo que não acontecia desde 1966.

Neste percurso, deixou para trás Portugal e Escócia, além de ter tirando pontos da Itália de Arrigo Sacchi na qualificatória – chamando, pela primeira vez, a atenção do futebol da Bota. No Mundial, classificou-se em segundo em um grupo que tinha Estados Unidos, Romênia e a favorita Colômbia, caindo apenas nas oitavas de final, diante da Espanha. Em 1995, ele fechou com a Inter, clube em que ficou até 1997.

Depois da primeira passagem pela Itália, Hodgson acertou com o Blackburn e teve alguns bons meses pelos Rovers antes de ser demitido – neste período, foi sondado para assumir as seleções da Alemanha e da Inglaterra. No entanto, parecia que o inglês tinha como destino ir bem somente nos países escandinavos: foi campeão com folga na Dinamarca, pelo Copenhagen e teve trabalhos satisfatórios pelo Viking (Noruega) e pela seleção da Finlândia. Em 2007, Hodgson voltou a dirigir um clube inglês e renasceu para o futebol, após ser sétimo colocado na Premier League 2008-09 e vice campeão da Liga Europa em 2010. A aprovação do trabalho nos cottagers o levou ao Liverpool, no qual fracassou, e depois a uma medíocre passagem pelo West Bromwich. E, então, o prêmio: o English Team. Hora de voltar para a Escandinávia, Roy.

Roy Hodgson

Nascimento: 9 de gosto de 1947, em Croydon, Inglaterra
Carreira como técnico: Halmstads (1976-80), Bristol City (1982), IK Oddevold (1982), Örebro (1983-84), Malmö (1985-89), Neuchâtel Xamax (1989-92), Suíça (1992-95), Inter (1995-97 e 1999), Blackburn (1997-99), Grasshoppers (1999-2000), Copenhagen (2000-01), Udinese (2001), Emirados Árabes Unidos (2002-04), Viking (2004-05), Finlândia (2006-07), Fulham (2007-10), Liverpool (2010-11), West Bromwich (2011-12) e Inglaterra (2012-16)
Títulos conquistados: Allsvenskan (1976, 1979, 1985, 1986, 1987, 1988 e 1989), Copa da Suécia (1986 e 1989), Superliga Dinamarquesa (2001), Supercopa da Dinamarca (2001) e Segunda divisão norte da Suécia (1984)

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A revanche de Conte

A César o que é de César: Conte juntou elenco em torno de si e formou time competitivo para a Euro (Reuters)
Sabe todas aquelas críticas que o blog e vários outros jornalistas fizeram à convocação de Antonio Conte para a Euro e às atuações da Itália nas eliminatórias para a competição e nos amistosos? Elas estão mantidas. Porém, o futuro técnico do Chelsea tem mostrado porque tem suas convicções firmes e como suas escolhas se adequam ao que ele propõe em campo.

Nem mesmo quando derrotou a Bélgica com sobras, na fase de grupos da Eurocopa, a Itália tinha feito um jogo tão bom como o que fez contra a atual campeã, Espanha, nesta segunda, no Stade de France. Os que acreditam em mística podem dizer que a Squadra Azzurra venceu a Fúria pelo peso de sua camisa ou porque os espanhois nunca ganharam um jogo em Euro ou em Mundiais utilizando uniforme branco. Balela. 

Conte armou uma arapuca para Vicente Del Bosque e fez a Nazionale dominar quase toda a partida, obrigando a seleção adversária a jogar fora de seu estilo habitual. Assim foi construída a revanche da final de 2012, na qual a Itália, treinada por Cesare Prandelli, foi goleada pela Espanha por 4 a 0. O triunfo também deixou o retrospecto do confronto, que era absolutamente igual, favorável à Azzurra: agora são 11 vitórias, 10 derrotas e 14 empates contra os espanhóis.

As maiores decepções da Espanha de 2013 para cá foram contra times que foram a campo com linhas de três na defesa e muita intensidade na marcação, pressing e rápida transição ofensiva – Holanda e Chile, na Copa de 2014, e até mesmo a Itália, no primeiro confronto entre as seleções na Euro 2012, surpreendeu dessa forma, conseguindo um empate.

Já nos primeiros minutos a pressão dos jogadores italianos na marcação impediu os espanhóis de trocarem muitos passes sem que cometessem erros ou tentassem a ligação direta para Morata. Por isso, a Azzurra equilibrou a posse de bola no primeiro tempo e chegou a ter índice superior ao da Espanha em três quesitos: na própria manutenção da pelota e também em número de passes realizados e no índice de acerto. Em raríssimas oportunidades a Espanha se viu tão acuada.

Em alta, Éder e Giaccherini participaram do gol de Chiellini (Reuters)
O meio-campo italiano fez um fabuloso trabalho de marcação sobre Iniesta e Fàbregas, quase anulados durante toda a partida, seja pelo fato de De Rossi costumeiramente chegar junto para dobrar a marcação – e até dar uma caneta no jogador do Barcelona – ou pelos 13 quilômetros percorridos por Giaccherini no confronto. Sempre espetado, Florenzi também segurou as subidas de Jordi Alba. Pellè, questionadíssimo, fez um importante trabalho tático ao marcar Busquets o jogo inteiro, impedindo que a Espanha realizasse saída de bola mais limpa a partir do vértice baixo do meio-campo. Outro que exerceu função tática importante foi Éder, também questionado anteriormente, que ajudava a defesa, puxava contra-ataques e fazia boas aberturas para De Sciglio.
Nessa toada, o primeiro tempo foi um verdadeiro massacre da Itália sobre a Espanha. Imitando a Copa de 1970, Pellè cabeceou bem para o chão, mas De Gea deu uma de Banks e fez ótima defesa. O arqueiro voltou a fazer duas outras defesas fundamentais antes do intervalo, em tentativas de Giaccherini: uma de puxeta, que tocou também na trave, foi anulada pelo árbitro Çakir, enquanto a outra foi um belo chute com curva espalmado para escanteio. O goleiro do Manchester United, no entanto, falhou ao tentar espalmar uma bomba de Éder e o meia do Bologna aproveitou o rebote para passar para Chiellini fazer o primeiro.

O recital tático de Conte e o show de aplicação tática dos jogadores pode ser analisado ainda em outra perspectiva: Verratti e Marchisio, jogadores que seriam importantes demais para pressionar o time adversário e aliar a potência física à qualidade com a bola nos pés, estão machucados e nem foram para a Euro, ao passo que De Rossi não estava 100% fisicamente. Os remanescentes no elenco conseguiram diminuir as consequências desse cenário com muito comprometimento às ideias do treinador e uma perfeita execução do que lhes foi pedido.

Na segunda etapa a Espanha teve período de crescimento, depois que Nolito deu lugar ao centroavante Aduriz, que entrou cheio de confiança. De Rossi, cansado, deu lugar a Thiago Motta, que entrou em um ritmo inferior ao do companheiro e ao exigido à função. Com mais espaço, Iniesta começou a criar mais e a Itália passou algum sufoco: foi aí que Buffon apareceu. O Superman fez defesaças em um sem pulo de Iniesta, em um chute de fora da área de Piqué e em uma tentativa à queima-roupa do defensor, espalmada com reflexos de um garoto.

O crescimento da Espanha deixou Conte irritado – e sua reação foi dar um bico em uma bola perdida por Giaccherini. O jogo mudou bastante e a Espanha conseguiu aumentar significativamente a posse de bola – finalizou a partida com 58% dela – e a quantidade de passes realizados e acertados, superando os azzurri nos quesitos. Conte precisou mudar e colocou Insigne e Darmian em campo para dar sangue novo ao time. Deu certo: em contra-ataque iniciado pelo atacante napolitano, o lateral do Manchester United ajeitou para Pellè, em bela movimentação, marcar. O gol foi uma cópia do anotado contra a Bélgica: de voleio, nos acréscimos e sacramentando o 2 a 0.
Agora, a Itália avança às quartas de final com a sensação de dever cumprido. O objetivo mínimo na competição foi cumprido e as duas atuações de gala contra Bélgica e Espanha dão moral a um time que entrou desacreditado e que, se for eliminado perante a fortíssima Alemanha, voltará para casa  celebrado. Só que o retrospecto contra os germânicos, eternos rivais no futebol, é favorável à Azzurra, que nunca perdeu ou sequer foi eliminada nos pênaltis pela Nationalmannschaft em Euros ou Mundiais. Na última Eurocopa, por exemplo, os italianos acabaram com os sonhos dos comandados de Joachim Löw com um show de Balotelli.

Contra os alemães a fórmula e a escalação de Conte devem ser as mesmas de hoje. Dos muitos pendurados (a Nazionale tinha 11 amarelados antes do jogo contra a Fúria), somente Thiago Motta estará indisponível, o que já é um mérito. O trio BBC, à frente de Buffon, será a base do aguerrido esquema, ao passo que a volta de Candreva (fora com um problema muscular) é quase impossível. O foco está no treino, na mentalidade, na confiança no trabalho e na aplicação das ideias de seu treinador.

Isso nos leva às críticas antes da Euro. Provavelmente, uma seleção com nomes que foram desconsiderados pelo treinador, como Saponara, Bonaventura, Berardi, Sansone e Belotti poderia entregar um futebol mais vistoso e técnico, mas talvez sem a mesma dedicação requisitada por Conte e a consequente confiança do treinador. Ideias que podem ser discutidas com argumentos em prol de cada estilo de jogo. O fato é que, dentro de sua proposta, o sucesso da fórmula do técnico apuliano nesta Euro é incontestável.

Itália 2-0 Espanha
Chiellini e Pellè (Darmian)

Itália (3-5-2): Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Florenzi (Darmian 84'), Parolo, De Rossi (Thiago Motta (54'), Giaccherini, De Sciglio; Pellè, Éder (Insigne 82'). Técnico: Antonio Conte.

Espanha (4-3-3): De Gea; Juanfran, Sergio Ramos, Piqué, Jordi Alba; Fàbregas, Busquets, Iniesta; Silva, Morata (Lucas Vázquez 70'), Nolito (Aduriz 46', Pedro 81'). Técnico: Vicente Del Bosque.

Local: Stade de France, em Saint-Dénis, França
Árbitro: Cüneyt Çakir (Turquia)

domingo, 26 de junho de 2016

10 anos do tetra italiano: Apito decisivo

Totti saiu do banco para marcar em pênalti polêmico nos acréscimos e classificar a Itália (Getty)
Após uma primeira fase sem sustos, a Itália tem pela frente nas oitavas de final da Copa de 2006 uma das surpresas da competição: a Austrália, treinada por Guus Hiddink, tinha superado o estereótipo e ser apenas um time físico e defensivo e havia passado por um grupo difícil, com Brasil (derrota por 2 a 0), Japão (vitória por 3 a 1) e Croácia (empate por 2 a 2). A primeira seleção da Oceania classificada ao mata-mata de um Mundial não era favorita, mas prometia complicar a vida da Squadra Azzurra com um jogo organizado e no campo da sorte. Foi no Fritz-Walter-Stadion, em Kaiserslautern, que os Socceroos venceram sua primeira partida em uma Copa do Mundo.

Por um lado, a Itália enfrentaria a geração de ouro australiana, com Schwarzer, Bresciano, Cahill e Viduka – além de Kewell, no banco, e Emerton, suspenso –, mas por outro a seleção de Lippi tinha uma penca de opções. O técnico de Viareggio fez três alterações em relação ao time que venceu a República Checa: Materazzi continuou ocupando o lugar do lesionado Nesta (que não deve mais atuar na competição), Toni voltou ao time, na vaga de Camoranesi, e, surpreendentemente, Totti perdeu espaço para Del Piero. O esquema foi o mesmo, o 4-3-1-2.

A Itália entrou em campo pela primeira vez com seu uniforme tradicional no torneio, com camisa e meiões azuis e calções brancos. Isso, no entanto, não deu forças adicionais à Nazionale, que teve dificuldades de vencer o 3-5-1-1 australiano. Del Piero tentava se movimentar e criar, mas Toni e Gilardino estavam sem pontaria.

Nas duas melhores chances da primeira etapa, antes mesmo dos 25 minutos, o bomber da Fiorentina cabeceou para fora em uma oportunidade, enquanto em outra fez Schwarzer defender com os pés; por sua vez, Gila obrigou o goleiro espalmar um chute central, mas difícil, para escanteio. Do lado oposto, a grande chance veio com um chute potente de Chipperfield, defendido em dois tempos por Buffon.

No intervalo, Lippi decidiu mudar o esquema para um 4-3-3, substituindo Gilardino por Iaquinta e abrindo o atacante da Udinese na direita e Del Piero na esquerda. Porém, o árbitro Medina Cantalejo acabou com os planos do técnico: aos cinco minutos, Materazzi deu carrinho forte sobre Bresciano e o espanhol decidiu expulsá-lo com um cartão vermelho direto. A atitude extremamente rigorosa do apitador fez com que Lippi tirasse Toni para colocar Barzagli em campo e reconstituir a defesa. No entanto, a Austrália não se lançou ao ataque com a superioridade numérica e Viduka mal foi visto em campo. Somente Chipperfield, em outro chute forte, testou Buffon.

A Itália ainda foi melhor em campo e chegou perto do gol, apesar do cansaço. Não muito bem em campo, Pirlo quase surpreendeu Schwarzer com uma cobrança de falta por cobertura, mas o goleiro do Middlesbrough colocou para escanteio. A oportunidade mais clara, porém, foi desperdiçada por Gattuso: em contra-ataque os azzurri tinham vantagem de três contra dois, mas o volante errou passe simples para Del Piero, que estava na cara do gol. Disperso, aliás, o juventino foi substituído por Totti aos 30 da segunda etapa. A substituição que ajudou a decidir o jogo.

Não, Totti não foi autor de nenhuma jogada fenomenal. Na verdade, os jogadores italianos estavam bem cansados e a partida se encaminhava para a prorrogação, até que, no último minuto dos acréscimos, apareceu Grosso. O lateral esquerdo do Palermo envolveu Neill com algumas fintas e, quando o australiano deu um carrinho, provocou o contato com ele, cavando a penalidade – inexistente. Implacável, Totti cobrou e converteu, no último lance do jogo, levando a Itália para as quartas sob as vaias dos australianos. No caminho para o tetra, a Squadra Azzurra terá Suíça ou Ucrânia na próxima fase e larga como favorita no confronto.



Itália 1-0 Austrália – Oitavas de final

Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Materazzi, Grosso; Perrotta, Pirlo, Gattuso; Del Piero (Totti); Gilardino (Iaquinta), Toni (Barzagli). Técnico: Marcello Lippi.

Austrália: Schwarzer; Neill, Moore, Chipperfield; Sterjovski (Aloisi), Culina, Grella, Wilkshire, Bresciano; Cahill; Viduka. Técnico: Guus Hiddink. 

Gol: Totti (90 + 5)
Melhor em campo Fifa: Buffon
Cartões amarelos: Grosso, Gattuso e Zambrotta; Grella, Cahill e Wilshire.
Cartão vermelho: Materazzi.
Árbitro: Luis Medina Cantalejo (Espanha)
Local: Fritz-Walter-Stadion, em Kaiserslautern (Alemanha).

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Jogadores: Gianluca Signorini

Signorini foi capitão do Genoa em momentos de destaque na história recente do clube (Liverpool Echo)
O futebol italiano é especial e um dos motivos para isso é que, ao longo de sua história, alguns jogadores não foram exatamente brilhantes, mas conseguiram se tornar verdadeiros ídolos em times de menor expressão e com uma realidade bem diversa daquela dos grandes centros. Um desses personagens foi Gianluca Signorini, histórico capitão do Genoa, um batalhador em campo e fora dele. O jogador influenciou a forma de jogar de Franco Baresi, um mito do futebol, e emocionou a todos em sua luta contra a esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que, infelizmente, encerrou sua passagem neste mundo mais cedo do que se imaginava.

Nascido em Pisa, Signorini começou no clube da cidade no final dos anos 1970. Apesar disso, o jovem recém-promovido das categorias de base pisanas só atuou em duas partidas e acabou cedido ao amador Pietrasanta, que conseguira uma improvável promoção à Serie C2. Até 1983, o líbero atuou apenas em times da Toscana, região em que nasceu, passando também por Prato e Livorno. Ainda nas divisões inferiores, ele atuou por Ternana e Cavese, até que, em 1985, teve o divisor de águas na carreira: fechou com o Parma.

O zagueiro chegou à equipe juntamente com o técnico Arrigo Sacchi, que revolucionou sua forma de jogar. Signorini passou dois anos sob as ordens do estrategista, recebeu atribuições táticas inovadoras e conquistou a Serie C1 em 1986. Quando Sacchi foi para o Milan, utilizava vídeos com a movimentação do líbero Signorini como referência para Baresi, um dos maiores nomes da posição em toda a história do futebol. O caso é contada como folclore e dizem que Baresi, já campeão mundial, não gostava de aprender a jogar com um zagueiro de divisões inferiores, e que isto seria o principal motivo das frequentes rusgas entre ele e o treinador.

Zagueiro toscano teve curta passagem pela capital (AS Roma Ultras)
O sucesso no Parma, tanto na terceira como na segunda divisões fizeram com que Signorini, já aos 27 anos, tivesse a grande oportunidade na carreira ao assinar com a Roma, já na reta final da gestão do presidente Dino Viola. O jogador pisano atuou apenas uma temporada pelo clube capitolino, mas, sob o comando de Nils Liedholm, foi titular da defesa terceira colocada na Serie A 1987-88, ao lado de Fulvio Collovati. Ao final do campeonato, se transferiu para o Genoa, então na Serie B. 

Foi ao longo dos sete anos em que vestiu a camisa rossoblù que Signorini se consagrou como um dos mais sólidos zagueiros do fim dos anos 1980 e 1990 e fez carreira, sendo considerado o maior jogador da história do time. Contratado em 1988, o líbero subiu à elite com o clube genovês em sua primeira temporada já como peça fundamental do time de Franco Scoglio. Além de ter bom posicionamento e ser forte nas jogadas aéreas, o toscano também era um líder nato e chegava com força ao ataque.

A partir do ano seguinte, Signorini voltou a ter a companhia do campeão mundial Collovati na zaga, e deu suporte a uma equipe com jogadores de qualidade e voluntariosos, como Branco, Gennaro Ruotolo, Vincenzo Torrente, Carlos Alberto Aguilera e Tomás Skuhravy. Este elenco foi vice-campeão da Copa Mitropa, em 1990, e, em 1990-91, na melhor temporada da história do futebol da cidade de Gênova,  conseguiu a melhor classificação do time da Ligúria no pós-guerra: o Genoa, guiado por Osvaldo Bagnoli, ficou na quarta posição da Serie A e se classificou à Copa Uefa.

A emoção e o alívio do capitão com um resultado positivo dos genoveses (Genoa News 1893)
Na competição continental, o Genoa parou apenas nas semifinais, frente ao Ajax que se sagraria campeão contra o Torino de Casagrande. Signorini marcou um gol contra nos 16 avos de final, contra o Dinamo Bucareste, mas não se abateu, pois tinha crédito. Afinal, além de toda a doação em campo, seus poucos gols marcados pelo Vecchio Balordo foram sempre importantes, como o realizado em um dérbi contra a Sampdoria – 2 a 2, em 1992.

Signorini também esteve presente – e como – nas horas mais dramáticas. Em 1995, o Genoa venceu o Torino pela última rodada da Serie A, mas ia sendo rebaixado mesmo assim. Quando a Inter virou sobre o Padova, provocando o spareggio (partida-desempate entre as equipes, disputada em campo neutro), Signorini correu dos vestiários para a Gradinata Nord comemorando e chorando muito com a torcida no estádio Marassi. Mesmo assim, o time caiu para a segundona, após perder para os padovanos nos pênaltis.

Com o rebaixamento, Signorini voltou para o Pisa, clube em que começou e o qual ajudaria a reconstruir. Em 1995, o líbero tinha apenas 35 anos e lenha para queimar, mas decidiu ajudar o clube a voltar ao profissionalismo: os nerazzurri haviam declarado falência e iriam jogar as divisões amadoras, mas com a ajuda do experiente defensor, a equipe retornou à Serie C2. Signorini se aposentou em 1997.

Após encerrar a carreira, ele foi diretor esportivo e auxiliar técnico do Pisa, além de responsável pelas categorias de base do Livorno, mas teve sua carreira abreviada quando tentava tirar a licença para treinador profissional através do curso da Federação Italiana de Futebol, em Coverciano. O ex-jogador foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, assim como Stefano Borgonovo, e faleceu precocemente, aos 42 anos, em 2002. Não teve tempo de ver seu filho, Andrea, dar os primeiros passos no futebol pelo Genoa – hoje, atua no Rimini.

Signorini nunca foi esquecido pela torcida rossoblù, que tentou ajudá-lo enquanto ele batalhava contra a síndrome degenerativa. Uma partida beneficente com sua presença, pouco antes de sua morte, lotou o Marassi e emocionou o jogador, que, consciente, não pode conter as lágrimas. Sua camisa 6 foi aposentada pelo clube, que também renomeou o centro de treinamentos em sua homenagem – o Pisa também dedicou a ele um setor das arquibancadas de seu estádio. Nada mais justo para um dos jogadores que mais contribuíram com o vermelho e azul genoano e com o azul e preto toscano.

Gianluca Signorini
Nascimento: 17 de março de 1960, em Pisa, Itália
Morte: 6 de novembro de 2002 em Pisa, Itália
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Pisa (1978-79 e 1995-97), Pietrasanta (1979-80), Prato (1980-81), Livorno (1981-83), Ternana (1983-84), Cavese (1984-85), Parma (1985-87), Roma (1987-88) e Genoa (1988-95)
Títulos conquistados: Serie B (1989) e Serie C1 (1986)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A real Itália

Gol de Brady, com falha da defesa italiana, deu vitória à Irlanda (Getty)
Não é Itália se for com 100%. No último dia da fase de grupos da Euro, o time de Conte chegou como o único com a chance de ganhar as três partidas e já classificado, algo raríssimo para os padrões da seleção do Belpaese. Isto não só não aconteceu, como a Squadra Azzurra perdeu pela primeira vez e também sofreu o primeiro gol. Mas nada desesperador, claro: a primeira posição já estava assegurada e desde o minuto 87 de Croácia 2-1 Espanha se sabia o adversário nas oitavas – a Fúria.

Como não poderia deixar de ser, os italianos ficaram na "chave da morte". Passando pela Espanha, poderão enfrentar a Alemanha (que duela com a Eslováquia) nas quartas e França ou Inglaterra (adversários de Irlanda e Islândia) nas semifinais. A adversária Bélgica no Grupo E, por outro lado, terá a Hungria nas oitavas, País de Gales ou Irlanda do Norte nas quartas e Suíça, Polônia, Croácia ou Portugal nas seminais. Para a Itália, tudo tem que ser do jeito difícil mesmo: se tivesse ficado com a segunda posição no grupo, como se imaginava, a Azzurra teria vida facilitada no mata-mata.

Em Lille, o jogo honrou o péssimo estado do gramado, afetado pelas chuvas e pior que o de San Siro. O time pouco técnico e mais físico de Conte combinou com os irlandeses criados na Inglaterra e o que se viu foram muitas disputas aéreas (38) e faltas (40), poucas jogadas trabalhadas e muitos passes errados.

Nesse cenário, a Irlanda foi superior a uma Itália com oito reservas em campo: criou mais oportunidades, exigiu bastante de um Sirigu fora de forma e conseguiu o gol histórico aos 85' (muito melhor nessa trilha sonora) com seu melhor jogador, Brady - não o Liam, craque em campos italianos nos anos 80, mas Robbie.

Se Conte esperava observar algo do jogo de hoje, não teve muita sorte. Quem ganhou chance no time titular não aproveitou, especialmente Bernardeschi e Immobile, enquanto quem entrou no segundo tempo, Insigne e El Shaarawy, enfrentou um contexto complicado para mostrar algo positivo. O napolitano ainda acertou a trave na melhor chance italiana, logo após entrar em campo, mostrando que merece ser mais utilizado. A Nazionale ainda teve a seu favor um voleio perigoso de Zaza no primeiro tempo, mas em uma das únicas coisas produtivas que fez em campo. Agora é se poupar para o jogo de segunda, contra a Espanha.

Itália 0-1 Irlanda
Brady (Hoolahan)

Itália (3-5-2): Sirigu; Barzagli, Bonucci, Ogbonna; Bernardeschi (Darmian 60'), Sturaro, Thiago Motta, Florenzi, De Sciglio (El Shaarawy 81'); Zaza, Immobile (Insigne 74'). Técnico: Antonio Conte.

Irlanda (4-3-3): Randolph; Coleman, Duffy, Keogh, Ward; Hendrick, McCarthy (Hoolahan 77'), Brady; Long (Quinn 90'), Murphy (McGeady 70'), McClean. Técnico: Martin O'Neill.

Local: Estádio Pierre-Mauroy, em Lille, França
Árbitro: Ovidiu Hategan (Romênia)

10 anos do tetra: Um caminho escrito em linhas tortas

Oportunista, Inzaghi anotou seu único gol em mundiais e sacramentou classificação italiana às oitavas (Getty)
A hora da verdade. Apesar de ter feito dois bons jogos na Copa do Mundo, a Itália ainda não havia garantido a classificação no disputado Grupo E da competição. Àquele momento, as quatro seleções tinham chances de se classificar e a Squadra Azzurra teria pela frente o adversário teoricamente mais complicado. Líderes da chave com quatro pontos, os italianos enfrentariam a badalada República Checa, de ótima campanha na Eurocopa de 2004 e com três pontos conquistados. Gana, com três, e Estados Unidos, com um ponto, duelavam no mesmo horário.

A partida não começou muito bem para a Itália, que se viu pressionada graças à liderança de Nedved, um inimigo íntimo. Ex-jogador da Lazio e titular da Juventus, o loiro atuou no centro do meio-campo e era o principal responsável por acionar Baros, que deu trabalho pra Buffon nos primeiros minutos. Depois, o arqueiro juventino precisou fazer duas ótimas defesas em chutes de fora da área do colega. Aos 17 minutos, outra complicação para a Nazionale: Nesta voltou a sentir dores no adutor da coxa direita, que o incomodaram na reta final da temporada 2005-06, e precisou ser substituído por Materazzi. Foi a terceira vez que o jogador do Milan se lesionou durante um Mundial.

O que parecia uma péssima notícia para a Itália logo se transformou em um grito de felicidade. Aos 26 minutos, Totti bateu escanteio e Matriz subiu mais alto que Polák para cabecear sem chances para Cech e abrir o placar. O volante checo voltou a falhar no final da primeira etapa, quando cometeu dura falta sobre Totti no campo de defesa italiano: ele levou o segundo cartão amarelo e foi para o chuveiro mais cedo.

Com a vantagem o placar e no número de jogadores em campo, Lippi recuou o meio-campo da Azzurra e explorou os contra-ataques e os erros dos checos. Em um desses lances, Totti (com mais liberdade, após a expulsão de Polák) aproveitou uma roubada de bola e obrigou Cech a espalmar um perigoso chute para escanteio. Poucos minutos depois, Inzaghi – substituto de Gilardino – quase marcou depois de uma lambança da defesa eslava, mas bateu à direita do gol adversário. O atacante rossonero perdeu outro gol feito, depois que Pirlo provocou um salseiro na área: na sobra, Super Pippo, sozinho, cabeceou para fora.

Do outro lado, o duelo entre Buffon e Nedved seguia duro. A Fúria Checa era a grande luz da sua equipe e obrigou seu amigo bianconero e espalmar dois chutes fortes, negando o empate. A partida ia ficando perigosa para a Itália, que não conseguia definir o resultado, mas ao mesmo tempo os checos iam perdendo a confiança a cada minuto que passava, já que iam sendo eliminados, já que Gana vencia os EUA por 2 a 1. 
 
A tensão estava no ar e é nestes momentos que os jogadores decisivos aparecem. O goleador Inzaghi teve a chance para se redimir das oportunidades desperdiçadas, aos 37 do segundo tempo: Barone roubou uma bola na defesa e Perrotta deu belíssima assistência, deixando Pippo livre para correr meio campo sem marcação, driblar Cech e classificar a Azzurra às oitavas. Foi o primeiro gol do milanista pela seleção em Mundiais (ele também jogou em 1998 e 2002) e o primeiro desde o anotado contra o Azerbaijão, em 2003.

Com a vitória, a Itália garantiu a liderança do grupo e despachou a República Checa, tida como uma das seleções que poderiam fazer excelente campanha na Copa. A decepção eslava foi substituída pela estreante seleção de Gana, que continua viva no torneio. A adversária da Azzurra sairá dos confrontos do Grupo F, que acontecem mais tarde: a surpreendente Austrália de Guus Hiddink e a Croácia são as candidatas, já que o Japão dificilmente vencerá o classificado Brasil.



República Checa 0-2 Itália – Grupo E

República Checa: Cech; Grygera, Kovác (Heinz), Rozehnal, Jankulovski; Polák; Rosicky, Poborsky (Stajner), Nedved, Plasil; Baros (Jarolim). Técnico: Karel Brückner.

Itália: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Nesta (Materazzi), Grosso; Gattuso, Pirlo, Perrotta; Camoranesi (Barone), Totti; Gilardino (Inzaghi). Técnico: Marcelo Lippi.

Gols: Materazzi (26) e Inzaghi (87).
Melhor em campo Fifa: Materazzi.
Cartões amarelos: Gattuso e Polák.
Cartão vermelho: Polák.
Árbitro: Benito Archundia (México).
Local: AOL Arena, Hamburgo (Alemanha).

sexta-feira, 17 de junho de 2016

10 anos do tetra: Som e fúria

Cotovelada de De Rossi marcou negativamente um jogo em que a Itália foi bem (Getty)
O segundo jogo da Itália na campanha do Mundial de 2006 ficou marcado para sempre como o jogo em que De Rossi deu uma dura cotovelada em McBride e deixou o norte-americano ensanguentado – tal qual Tab Ramos, quando o brasileiro Leonardo fez o mesmo gesto na Copa de 1994, diante da seleção dos Estados Unidos. Galvão Bueno logo vaticinou: o volante da Roma é o jogador mais violento do mundo. Essa foi uma das partes de fúria de um jogo em que Pirlo jogou por música.

No entanto, a partida foi muito mais do que isso. O primeiro tempo foi agitadíssimo: aos 22, Pirlo cobrou falta perfeita, na cabeça de Gilardino, que abriu o placar. Cinco minutos depois, o empate ianque chegou a galope, graças a um lance bizarro. Donovan levantou bola na área e Zaccardo furou de maneira bisonha com a canhota, vendo a pelota bater na direita e ir para as redes. Após a retomada do jogo, um ainda inexperiente de Rossi foi expulso. Com isso, Totti – que voltava após se lesionar no primeiro jogo do Grupo E – deu lugar a Gattuso.

A criação ficou quase toda a cargo de Pirlo, que fez mais uma bela partida – já havia sido eleito o melhor em campo no 2 a 0 contra Gana. Antes do intervalo, o meia do Milan provocou a expulsão do volante Mastroeni, que lhe deu um duríssimo carrinho após quase marcar um golaço em cima de Buffon. Assim que os times voltaram dos vestiários foi a vez de Gilardino cavar nova expulsão, desta vez de Pope – incrivelmente, o árbitro Jorge Larrionda acertou em todos os lances. O apitador uruguaio também anulou corretamente um gol norte-americano: Beasley bateu cruzado, mas a bola tocou em McBride, impedido, e enganou Buffon.

O segundo tempo foi uma verdadeira blitz da Itália, iluminada por Pirlo. O regista cruzou com perigo na área e Bocanegra cabeceou contra o próprio patrimônio, acertando o travessão. Com uma linda cavadinha, o rossonero também acionou Del Piero, que obrigou Keller a se esticar e evitar o segundo gol da Nazionale. Muito bem debaixo das traves, o arqueiro norte-americano (eleito melhor em campo), ainda estava na bola em chute perigoso de Zambrotta e espalmou uma bomba de Delpi para segurar o empate.

Com o resultado, o Grupo E fica embolado: a Itália lidera com 4 pontos, seguida por Gana e República Checa, com 3, e Estados Unidos, com 1. Nos dias que se seguem, a expectativa é grande para a punição a De Rossi: se imagina que o romanista possa ficar de fora do resto do Mundial.


Itália 1-1 Estados Unidos – Grupo E
Itália: Buffon; Zaccardo (Del Piero), Nesta, Cannavaro, Zambrotta; Perrotta, Pirlo, De Rossi; Totti (Gattuso); Toni (Iaquinta), Gilardino. Técnico: Marcello Lippi. 
Estados Unidos: Keller; Cherundolo, Pope, Onyewu, Bocanegra; Dempsey (Beasley), Reyna, Mastroeni, Convey (Conrad); Donovan; McBride. Técnico: Bruce Arena. 
Gols: Zaccardo (contra; 21) e Gilardino (27). 
Melhor em campo Fifa: Keller.
Cartões amarelos: Totti, Zambrotta e Pope.
Cartões vermelhos: De Rossi, Pope e Mastroeni.
Árbitro: Jorge Larrionda (Uruguai).
Local: Fritz Walter Stadion (Kaiserslautern).

Uma rara Itália

Gol de Éder teve quê de raridade e levou a Itália às oitavas da Euro (Getty)
"Contra Suécia (17, sexta) e Irlanda (22, quarta) a Itália terá a oportunidade de evoluir como time ou simplesmente administrar a vantagem e esperar a próxima fase", falávamos na análise que fizemos após o jogo da Squadra Azzurra contra a Bélgica. Até o minuto 88, tudo se encaminhava para a segunda parte. Itália e Suécia fizeram jogo medíocre, muito lento e pouco técnico, provavelmente um dos piores desta Euro. No entanto, como tem sido tendência na competição, um gol no apagar das luzes definiu o resultado e levou a Nazionale para as oitavas de final, com duas vitórias e nenhum gol sofrido. Uma fase de grupos incomum para uma Itália que costuma sofrer.

Contra tudo e todos, Conte manteve Éder em campo. O atacante ítalo-brasileiro, nascido em Lauro Müller (SC), não havia sequer dado um passe ou um chute a gol – sofria com a falta de interação com Pellè. O treinador já havia colocado Thiago Motta e Sturaro em campo, aparentemente sem grande ambição, apenas para renovar o meio-campo e manter o ritmo no setor.

Mas dos pés do contestado atacante saiu o belíssimo gol, que deu a segunda vitória italiana na França e a classificação garantida para a próxima fase. Uma jogada digna do Éder dos tempos de Sampdoria e que decepciona na Inter, mas que quebrou uma marca: desde a Copa de 2006, contra a República Checa, a Azzurra não vencia partida em Euro, Copa das Confederações e Mundial com um gol de atleta nerazzurro – na final de 2006, contra a França, Materazzi, que anotou contra os checos, deixou o dele, mas a partida acabou empatada.

O gol da vitória sobre a Suécia teve um bônus: participação de Zaza no pivô, após lateral longo de Chiellini. O centroavante juventino entrou no segundo tempo para corrigir o problema ofensivo italiano (ou um dos problemas), visto que a Suécia se preparou para anular Pellè e teve sucesso. Mesmo mais participativo e técnico, o reserva lucano não teve grande impacto até a assistência decisiva, porque, de forma geral, a Itália jogou sem ritmo, com pobreza na movimentação e na construção das jogadas.

Além de dominar Pellè, a Suécia adiantou a marcação, diminuindo espaços entre as linhas, impedindo apoios ao pivô italiano. Por outro lado, seguiu medíocre com a bola, mesmo dominando a posse, e Buffon não fez uma única defesa em todo o jogo. Guidetti até incomodou, mas Ibrahimovic desapareceu na marcação de Barzagli e Chiellini e, quando teve uma chance, colocou por cima do gol um cruzamento que recebeu, em impedimento, debaixo das traves. Sorte dele que o bandeira assinalou a infração – aliás, a Suécia não chutou uma bola sequer no gol nesta Euro.

O time escandinavo também cedeu espaços para desmarques, como o de Giaccherini contra a Bélgica, mas os italianos estiveram apáticos, e jamais o baixinho, Éder ou os alas buscaram essa movimentação para Bonucci lançar.

De qualquer forma, desta vez sem convencer e deixar nenhum aspecto positivo, a Itália venceu pela segunda vez consecutiva - o que não acontecia desde a Euro de 2000 -, não sofreu gol e se classificou. Depois de Giaccherini, Éder foi outro herói improvável, e desta vez em uma vitória com gosto de vingança: os italianos têm certa rivalidade com a Suécia pelo fato de os blagult terem feito jogo de compadres com a vizinha Dinamarca na Euro 2004 para eliminarem a Azzurra. O troco foi dado, já que os suecos se complicaram no grupo.

Contra a Irlanda, na próxima quarta, novamente o time de Conte terá a oportunidade de evoluir seu jogo ou simplesmente descansar e se preparar para a próxima fase. Seria interessante, até pelo ponto de vista físico e como poderiam acrescentar para o time, ver Insigne, Bernardeschi e El Shaarawy, que ainda não jogaram na França. Conte declarou que deve fazer mudanças no time que vai a campo e agora é aguardar para ver como os reservas aproveitarão sua chance.

Itália 1-0 Suécia
Éder (Zaza)

Itália (3-5-2): Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Candreva, Parolo, De Rossi (Thiago Motta 74'), Giaccherini, Florenzi (Sturaro 85'); Pellè (Zaza 60'), Éder. Técnico: Antonio Conte.

Suécia (4-4-2): Isaksson; Lindelöf, E. Johansson, Granqvist, M. Olsson; S. Larsson, Ekdal (Lewicki 79'), Källström, Forsberg (Durmaz 79'); Guidetti (Berg 85'), Ibrahimovic. Técnico: Erik Hamrén.

Local: Estádio Municipal, em Toulouse, França
Árbitro: Viktor Kassai (Hungria)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A vitória do coletivo

Bonucci e Giaccherini, protagonistas do primeiro gol italiano na Euro (Getty)
Aconteceu. A Itália estreou com vitória sobre a favorita Bélgica, dando um passo importante no seu grupo. Não precisou de dribles desconcertantes, jogadas espetaculares, 800 passes certos e 20 finalizações. Bastou um plano de jogo bem estruturado e executado, sem espaço para desconfiança e desconcentração. O simples que os italianos fazem muito bem.

O resultado não diminui em nada as críticas que fizemos em relação à convocação e preparação para o torneio na França. Ainda contestamos e contestaremos isso, mas em campo o time cumpriu aquilo que Antonio Conte queria: jogo em equipe, com todos dispostos a se sacrificar, mesmo num período que deveriam estar de férias, curtindo o litoral e as ilhas do Belpaese. A aplicação foi fundamental para que os atletas seguissem a mentalidade proposta pelo treinador.

Contra a Bélgica, a Itália foi até mais defensiva que o que Conte prega. A Squadra Azzurra não teve vergonha de, na maior parte do jogo, ceder espaço no meio de campo e se fechar entre sua defesa e a intermediária, descendo em bloco muito estreito e compacto, balançando de um lado ao outro em sincronia, conforme os belgas passavam a bola sem objetividade.

Se tornou impossível encontrar Lukaku entre Barzagli, Bonucci e Chiellini ou Fellaini nos duelos contra De Rossi – assim como buscar o drible de Hazard e o passe de De Bruyne com a marcação dobrada dos alas e dos meio-campistas. O técnico Wilmots nunca foi um primor em leitura de jogo e em quatro anos jamais montou uma equipe verdadeiramente forte e unida, capaz de extrair a riqueza técnica da melhor geração do futebol belga. Dessa forma, sucumbiu frente ao coletivo italiano.

Buffon comemora com a torcida após o jogo (Reuters)
Apesar da retranca, a Nazionale também teve momentos mais agressivos, subindo esse mesmo bloco estreito e compacto para marcar alto e pressionar a pobre saída de bola adversária. No primeiro tempo, apenas os chutes de longe, em especial de Nainggolan, foram ameaças para Buffon. O goleiro viu Candreva e Pellè serem os principais destaques ofensivos, muito bem apoiados por Éder e Giaccherini. Sem Pirlo, Marchisio e Verratti, Bonucci assumiu o protagonismo para ditar e criar o jogo italiano – aliás, zagueiros modernos cada vez mais assumem a função de registas.

A Itália não se limitou a controlar o jogo apenas defendendo sua área e acabou assumindo a posse de bola para diminuir o ritmo alto que os belgas que atuam no futebol inglês tentavam imprimir – algo que não seria conveniente para o time mais velho da Euro. Foi justamente Bonucci, juntamente com seus companheiros de Juventus e De Rossi, que chefiou este movimento. Com os alas bem largos – a Azzurra, com a bola, atuava numa espécie de 3-3-4 – para abrir a defesa adversária e os mais centrais buscando desmarques, o quarteto buscava um passe direto para Pellè ou os baixinhos entre as linhas.

Exatamente assim saiu o primeiro gol, em jogada amplamente executada na Juventus de Conte. Alas largos para abrir a defesa, preocupação com o pivô de Pellè e eventual apoio de Éder mais recuado. Ao decorrer de toda esta movimentação, Giaccherini se desmarcava despercebido entre Ciman e Alderweireld para receber o lançamento de Bonucci em ótima condição e concluir para as redes.

O momento do primeiro gol: Bonucci lança, Giaccherini desmarca. Mas atenção nos alas e a preocupação com Pellè e Éder. Com o avanço de Parolo, há mais italianos que belgas à espera de um passe longo e o desequilíbrio é criado (Reprodução/BBC)
No segundo tempo, o time se deu a liberdade de tocar mais na bola e atacar com mais frequência, até mesmo buscando um erro belga, considerando a falta de atitude do time adversário em Lyon. Não aconteceu, apesar de ter feito Courtois trabalhar. Assim, a Azzurra acabou se preparando para a pressão que naturalmente iria sofrer no final.

E sofrer é algo a que a Itália está acostumada e nem mesmo o furdunço em uma bola cruzada na área ou a chance clara perdida por Lukaku na fase final do jogo abalaram a confiança do time. No apagar das luzes, Immobile ameaçou em um chute forte e no último lance do jogo o resultado foi definido: golaço de Pellè, que emendou voleio em passe de Candreva.

Contra Suécia (17, sexta) e Irlanda (22, quarta) a Itália terá a oportunidade de evoluir como time (ainda faltam algumas coisas) ou simplesmente administrar a vantagem e esperar a próxima fase. O jogo mais difícil do grupo foi vencido com louvor e a classificação está próxima.

Bélgica 0-2 Itália
Giaccherini (Bonucci) e Pellè (Candreva)

Bélgica (4-2-3-1): Courtois; Ciman (Carrasco 75'), Alderweireld, Vermaelen, Vertonghen; Nainggolan (Mertens 62'), Witsel; De Bruyne, Fellaini, Hazard; Lukaku (Origi 73'). Técnico: Marc Wilmots.
Itália (3-5-2): Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Candreva, Parolo, De Rossi (Thiago Motta 78'), Giaccherini, Darmian (De Sciglio 59'); Pellè, Éder (Immobile 75'). Técnico: Antonio Conte.

Local: Estádio Parc Olympique Lyonnais, em Lyon, França
Árbitro: Mark Clattenburg (Inglaterra)

domingo, 12 de junho de 2016

10 anos do tetra: o início da campanha da Itália

Iaquinta comemora o gol que decidiu o jogo contra Gana (Getty)
O clima não era bom. Às vésperas da Copa do Mundo de 2006, o escândalo Calciopoli começou a ser desvelado e abalou o futebol italiano, incluindo a seleção: a base da Squadra Azzurra era formada por jogadores de Juventus e Milan e também havia outros jogadores de equipes que viriam a ser punidas ao fim das investigações (13 dos 23 jogadores convocados por Marcello Lippi). Não havia como dizer que o grupo não tinha sido afetado, já que a credibilidade da própria Serie A estava em jogo.

Este era o clima da preparação da Itália para o Mundial. No entanto, a Nazionale parecia estar imersa em uma bolha de tranquilidade e estreou muito bem contra Gana, seleção que pela primeira vez disputava a competição. Com uma arbitragem discutível do trio brasileiro, encabeçado por Carlos Eugênnio Simon, a Squadra Azzurra poderia ter feito muitos gols, mas ainda assim passou perrengue diante dos Estrelas Negras, em Hannover.

Os ganeses tentaram aproveitar a inexperiência de Zaccardo com a camisa da seleção e assustaram em ataques pelo setor direito da defesa italiana. De Rossi, aos 22 anos, correu enormes riscos de ser expulso, com duas entradas ríspidas, as quais lhe renderam apenas um cartão amarelo. Apesar dos contratempos, a Itália mandou no jogo: na primeira chance, um contra-ataque puxado por Cannavaro passou nos pés de Totti, Pirlo e Perrotta antes de Gilardino finalizar com perigo. Kingson defendeu parcialmente e contou com a sorte, pois a bola bateu na trave e foi para escanteio.

Ainda no primeiro tempo, a Itália teve um manancial de chances. Acertou o travessão com Toni, colocou a bola por cima do gol com um imponente Cannavaro e Totti também testou Kingson em potente cobrança de falta. No entanto, os azzurri só abriram o placar aos 40 minutos, após uma jogada ensaiada de escanteio: Pirlo recebeu na cabeça da área e colocou a bola com jeito e força no canto direito do goleiro – Gilardino precisou dar uma de Romário e se desviar da redonda para que ela entrasse. Antes do intervalo Kingson ainda fez grande defesa, fechando a porta para Grosso, que recebeu ótimo passe de Totti.

Na volta dos vestiários a Itália manteve um alto ritmo, ganhando os confrontos contra o forte meio-campo de Gana, que tinha Muntari, Essien e Appiah. Isso durou até que Totti saísse, por lesão, e desse lugar a Camoranesi: antes de ser substituído, aos 56 minutos, o romanista lançou Gilardino, que outra vez obrigou o goleiro ganês a afastar o perigo. Kingson foi fundamental outra vez em uma pancada de Perrotta.

Foi aí que o trio brasileiro entrou em ação negativamente. O bandeira Ednílson Corona marcou um impedimento absurdo contra a Itália em um lance capital, em que Iaquinta, substituto de Gilardino, ia saindo na cara do gol. Aos 34 da segunda etapa, Simon não assinalou penalidade de De Rossi em Gyan: o ganês foi calçado quando passava entre o romano e Zaccardo, mas o árbitro, que estava próximo ao lance, mandou seguir.

Quatro minutos depois, o castigo: Iaquinta decidiu a partida. Pirlo lançou o atacante da Udinese, mas Kuffour ganhou na corrida. Só que o experiente zagueiro errou no recuo para Kingson e o atacante aproveitou, driblando o goleiro e concluindo para o gol vazio. Vitória merecida e bom resultado para encaminhar a classificação no Grupo E. No outro jogo, a República Checa fez 3 a 0 sobre os Estados Unidos, próximos adversários da Azzurra.



Itália 2-0 Gana – Grupo E
Itália: Buffon; Zaccardo, Nesta, Cannavaro, Grosso; Perrotta, Pirlo, De Rossi; Totti (Camoranesi); Gilardino (Iaquinta), Toni (Del Piero). Técnico: Marcello Lippi. 
Gana: Kingson; Paintsil, Mensah, Kuffour, Pappoe (Shilla); Appiah, Addo, Essien, Muntari; Gyan (Tachie-Mensah), Amoah (Pimpong). Técnico: Ratomir Djukovic. 
Gols: Pirlo (40) e Iaquinta (83).
Melhor em campo Fifa: Pirlo.
Árbitro: Carlos Eugênio Simon (Brasil). 
Cartões amarelos: De Rossi, Camoranesi, Iaquinta, Muntari e Asamoah. 
Local: Niedersachestadion (Hannover).

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Serie B: Ajustes finais

Pescara contou com ótimo trabalho do técnico Oddo e do artilheiro Lapadula para subir (Corriere dello Sport)
Como não poderia deixar de ser, foi com muita emoção que o Pescara se tornou o terceiro time a subir para a Serie A 2016-17, se juntando a Cagliari e Crotone. Em um jogo brigado contra o Trapani, que teve muito apoio da torcida siciliana, o empate no jogo de volta garantiu o acesso dos golfinhos, vitoriosos na ida.

A final entre Trapani e Pescara foi um prêmio para os clubes, que chegaram a ser desacreditados em períodos do campeonato e cresceram na reta final, até mesmo se aproximando dos líderes Cagliari e Crotone. A destacar que o novato Massimo Oddo superou o veterano Serse Cosmi, que caiu ao prantos após o apito final, consolado pelo tetracampeão mundial com a Itália em 2006.

O clube do Adriático retorna à primeira divisão após três anos de ausência no ritmo do agora badalado Gianluca Lapadula, artilheiro do campeonato. O centroavante, que interessa a Napoli, Leicester e até a Ricardo Gareca, treinador da seleção do Peru – a mãe do jogador é peruana e ele tem direito à nacionalidade –, marcou 27 gols no campeonato regular e outros três nos play-offs, incluindo um no primeiro jogo da final. Marca melhor, inclusive, que a de Ciro Immobile, autor de 28 gols no goleador Pescara de Zdenek Zeman, em 2011-12.

Apesar da promoção inédita para a elite do futebol italiano não ter vindo, fica o registro da luta do time de Cosmi: o experiente treinador não vinha de grandes trabalhos e a equipe de investimentos modestos entrou na terceira temporada na Serie B sem grandes ambições, mas com bons resultados – este o melhor deles, evidentemente. Vittorio Morace, presidente e dono, reorganizou o clube de forma modesta e por muito pouco não comemorou a quarta promoção desde que assumiu o comando, há dez anos.

Trapani (3º colocado) e Pescara (4º) fizeram a final do play-off, mas outros quatro clubes chegaram a esta etapa da competição: o Bari (5º), enfrentou o Novara (8º) para decidir o rival do Pescara, enquanto Cesena (6º) e Spezia (7º) duelaram para definir o adversário do Trapani, com sucessos para os times posicionados mais abaixo na tabela. A decepção ficou por conta de Bari, Cesena e Spezia, times que investiram muito para a disputa do torneio. Bareses e spezinos registram outro ano batendo na trave na briga pelo acesso e tantos gastos sem retorno podem pesar nas finanças.

No play-out, a Salernitana não teve grandes dificuldades para superar o Virtus Lanciano por 5 a 1 no agregado, vencendo em casa por 4 a 1 e garantindo a permanência na segundona mesmo tendo passado 3/4 do torneio na zona de descenso. Um feito a ser comemorado para o clube campano.

O time de Claudio Lotito, também dono e presidente da Lazio, apesar do bom investimento, sofreu na primeira temporada na Serie B, mas conseguiu a salvezza. Fica a desilusão para o Lanciano, que sofreu com a má administração: atrasos no pagamento de salários e outras contas fizeram a equipe perder quatro pontos valiosos, que a livrariam do rebaixamento.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Taribo West, um exótico sarrafeiro em Milão

De olho na bola ou na canela? O nigeriano não deixava os adversários tranquilos
Quem jogou o icônico Elifoot 98, um autêntico formador de caráter futebolístico, sabe bem o que quer dizer SARRAFEIRO – e sabe que o nigeriano Taribo West se encaixa nesta definição. Ao longo de sua carreira, o ríspido zagueiro ficou mais conhecido por seu estilo faltoso e seus penteados exóticos, além de, após sua aposentadoria, ter sido acusado de ter adulterado a sua idade em sua documentação.

Antes de ter sucesso no futebol europeu, West foi auxiliar da mãe na venda de acarajés nas ruas de Port Hartcourt e atuou em alguns times da Nigéria, entre eles os tradicionais Enugu Rangers e Julius Berger. Aos 19 anos – supostamente – ele foi contratado pelo Auxerre, da França, clube pelo qual jogou quatro anos e faturou dois títulos, incluindo um Campeonato Francês. 

Titular da defesa ao lado de Franck Silvestre e Laurent Blanc, o jogador começou a ser convocado para a seleção de seu país e representou a Nigéria nos Jogos Olímpicos de 1996 e esteve em campo na fatídica eliminação do Brasil e na final, vencida contra a Argentina. A conquista das Super Águia foi o primeiro ouro olímpico para um país africano em toda a história.

Em 1997, West se transferiu para a Inter, na mesma janela em que chegaram Luigi Sartor, Zé Elias, Benoît Cauet, Álvaro Recoba, Diego Simeone e Ronaldo. Taribo não foi nem de longe a contratação mais badalada, mas foi titular na maior parte da campanha interista, que terminou com um polêmico vice-campeonato na Serie A e o título da Copa Uefa. O nigeriano fez seus dois únicos gols com a camisa nerazzurra nesta temporada – um deles, importantíssimo, foi decisivo nas quartas de final do torneio continental, contra o Schalke 04.

"Como eu queria bater com a classe do Simeone..." (Interleaning)
Apesar do gol fundamental, West ficou conhecido pelo estilo botinudo – não à toa, na final da copa contra a Lazio, ele conseguiu ser expulso quando o jogo já estava decidido, com um 3 a 0 para os milaneses. Durante a Serie A, o nigeriano também deu uma entrada violentíssima sobre o russo Andrei Kanchelskis, da Fiorentina, e o deixou meses parado. A tesoura foi punida com um simples cartão amarelo – aliás, apesar de ser duro, tosco e até violento, Taribo recebeu poucos cartões em seus anos de Itália.

O camisa 16 ainda passou mais um ano e meio na Inter, completando 64 partidas com a camisa nerazzurra. No entanto, ele não foi tão utilizado quanto antes, chegando a ficar seis meses sem atuar pelo clube, em 1999. Antes disso, Taribo foi peça fundamental na boa campanha nigeriana na Copa de 1998, quando a seleção caiu nas oitavas de final para a Dinamarca.

Em janeiro de 2000 West seguiu em uma trajetória cara a poucos jogadores: atravessou os pórticos de Milão e levou as tranças e chuquinhas da Beneamata para o rival Milan. O nigeriano foi apresentado com pompa na sala de troféus do clube, mas fez apenas quatro partidas em nove meses, com um gol marcado contra a Udinese e foi cedido ao Derby County, da Inglaterra, inicialmente em um empréstimo de três meses.

West surpreendeu o mundo ao fechar com o Milan, cedido pela Inter
Nos anos que se sucederam à passagem pela Itália, West girou pelo mundo. Primeiro ele teve seu empréstimo renovado por mais seis meses e ajudou o Derby a se safar do rebaixamento na Premier League, antes de passar ao Kaiserslautern, da Alemanha. Taribo ainda atuou em duas Copas Africanas de Nações (2000 e 2002), uma Copa do Mundo (2002) e até 2005 na seleção da Nigéria, além de passar pelo futebol da Sérvia (no qual teve atuações dignas), do Qatar, da segunda divisão inglesa e do Irã antes de se aposentar, em 2008.

Depois de pendurar as chuteiras, uma enorme polêmica sobre West explodiu: Žarko Zečević, ex-diretor do Partizan Belgrado, afirmou que o zagueiro teria lhe confidenciado que teria 12 anos a mais que o declarado – ou seja, teria atuado na Itália com uma idade entre 35 e 38 anos, embora oficialmente teria de 23 a 26. Um médico do Rijeka teria notado esta diferença de idade em 2006, quando o jogador foi submetido (e reprovado) a testes no joelho quando fazia exames no clube, mas não tornara a história pública. West, claro, desmentiu tudo e disse que nascera em 1974 e não em 1962.

Hoje, Taribo West deixou seu penteado marcante de lado e não usa mais trancinhas. Também trocou os rituais do juju, uma crença sobrenatural iorubá, pela cristianismo: é pastor pentecostal em tempo integral na Nigéria. Ele já havia fundado seu ministério nos subúrbios de Milão, dedicado principalmente a africanos que haviam emigrado para o país e, mesmo nos tempos de  Derby County, o técnico Jim Smith permitia que ele folgasse aos domingos ir pregar na Itália. Só que, por mais que se dedique à religião e tente salvar almas através de orações, o nigeriano nunca poderá pagar pelos pecados que cometeu em campo, surrando os adversários com força desproporcional.

Taribo West
Nascimento: 26 de março de 1974, em Port Hartcourt, Nigéria
Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Ibukun-Oluwa (1989), Sharks (1990), Enugu Rangers (1991), Julius Berger (1992), Auxerre (1993-97), Inter (1997-99), Milan (2000), Derby County (2000-01), Kaiserslautern (2001-02), Partizan Belgrado (2002-04), Al-Arabi (2004-05), Plymouth Argyle (2005-06) e Paykan (2007-08)
Títulos conquistados: Ouro Olímpico (1996), Copa Uefa (1998), Campeonato Francês (1996), Copa da França (1994 e 1996) e Campeonato Sérvio-Montenegrino (2003)
Seleção nigeriana: 42 jogos