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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os melhores jogadores italianos da história da Premier League

Zola e Di Matteo em ação pelo Chelsea, um dos clubes que mais levou italianos à Inglaterra (Action Images)
Hoje é dia de iniciar uma nova série no blog: falaremos, de tempos em tempos, sobre os jogadores italianos que fizeram sucesso em outros campeonatos europeus. Não poderíamos começar com outro torneio nacional que não fosse a Premier League, já que os ingleses contribuíram muito para o desenvolvimento do futebol na Itália e os nascidos no Belpaese retribuíram, especialmente a partir da década de 1990.

Para dissecar a participação dos melhores jogadores italianos na Premier League, contamos com a luxuosa colaboração do jornalista Daniel Leite, um dos titulares do do podcast We Lose Every Week, especializado em futebol inglês. A viagem do Quattro Tratti à Terra da Rainha começa agora!

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Quando o atacante Andrea Silenzi trocou o Torino pelo Nottingham Forest em 1995, abriu-se uma porta pela qual passariam outros 65 jogadores. Dos italianos que já atuaram ou ainda atuam na Premier League, Silenzi talvez tenha sido uma das maiores decepções, com apenas 20 jogos e dois gols - por copas nacionais - no Forest. No entanto, esta não foi exatamente a tendência de desempenho de quem decidiu trocar a Serie A por um campeonato que aprofundava seu processo de internacionalização nos anos 90.

Com a explosão do dinheiro da TV, os clubes ingleses começaram a investir em estrelas de outras nacionalidades e ligas europeias. Os de origem italiana chamavam mais atenção, pela soberania da Serie A naquela época. De defensores sólidos a fantasistas, a Itália ofereceu jogadores relevantes à Premier League, que contribuíram para objetivos imediatos e de médio prazo de suas equipes (pensando até num processo de ascensão de patamar ao longo de temporadas) e, em alguns casos, até para uma melhor imagem global do campeonato.

Peças relativamente importantes trocaram clubes de ponta na Itália por médios da Inglaterra, como Derby County, Middlesbrough e Crystal Palace. Evidentemente houve discípulos de Silenzi, que fracassaram na Premier League, mas a percepção é de que, sobretudo no fim da década de 90 e no início da de 2000, a bancada italiana teve influência positiva. Nos últimos anos, entretanto, o protagonismo dos playmakers foi assumido pelos espanhóis, centroavantes decepcionaram (Rolando Bianchi, Bernardo Corradi e Marco Borriello, por exemplo), e o impacto já não é mais o mesmo.

Talvez o redimensionamento de clubes pequenos e médios ingleses esteja até mais intenso agora, mas as equipes não apostam tanto em compatriotas de Fabrizio Ravanelli, Attilio Lombardo e Paolo Di Canio. Hoje Dimitri Payet vai ao West Ham, Christian Benteke ao Crystal Palace, Xherdan Shaqiri ao Stoke, Salomón Rondón ao West Bromwich e Islam Slimani ao Leicester. São raros os italianos envolvidos no processo. Atualmente, a Premier League tem Matteo Darmian no Manchester United, Angelo Ogbonna e Simone Zaza no West Ham, Vito Mannone e Fabio Borini no Sunderland e Stefano Okaka no Watford.

A influência mais significativa da Itália no futebol inglês foi transferida ao mercado de treinadores. Carlo Ancelotti (2010), Roberto Mancini (2012) e Claudio Ranieri (2016) são campeões da Premier League, e Roberto Di Matteo - ídolo também em campo - foi coautor da página mais impressionante da história do Chelsea ao conquistar a Europa em 2012. Os primeiros meses de Antonio Conte em Stamford Bridge, onde a conexão com a Itália sempre foi especialmente forte, também são muito promissores.

Veja aqui a lista completa dos italianos que já disputaram a Premier League, com eternas promessas como Samuele Dalla Bona, Arturo Lupoli, Nicola Ventola e Federico Macheda a figurões, como Christian Panucci, Alberto Aquilani, Pierluigi Casiraghi, Roberto Mancini, Marco Materazzi e Vincenzo Montella. E, claro, nossos 20 escolhidos, que seguem logo abaixo.

Critérios
Para montar as listas, o Quattro Tratti levou em consideração a importância de determinado jogador na história dos clubes que defendeu, qualidade técnica do atleta versus expectativa, identificação com as torcidas e o dia a dia do clube (mesmo após o fim da carreira), grau de participação nas conquistas, respaldo atingido através da equipe, desempenho por seleções nacionais e prêmios individuais.

20º - Marco Branca


Posição: atacante
Clube em que atuou: Middlesbrough, 1998-99

Mais lembrado nos tempos recentes por ter sido diretor esportivo da Inter, Marco Branca foi um atacante razoável nos anos 1980 e 1990. O "Cisne de Grosseto" se destacou principalmente com as camisas da própria Beneamata, Udinese, Sampdoria e também com a do Middlesborugh, clube que defendeu já nos anos finais da carreira. Branca acertou com a equipe de Riverside em fevereiro de 1998, quando tinha acabado de completar 33 anos, e teve impacto imediato no time.

À época, o Boro disputava a segunda divisão inglesa, e Branca foi a contratação certeira para alçar os Smoggies de patamar: o italiano marcou nove vezes em 11 partidas e, com a excelente média de gols, ajudou o Middlesbrough a ser vice-campeão da Championship e subir para a Premier League. Branca ainda fez um gol importante contra o Liverpool, nas semifinais da League Cup, na qual o Boro foi derrotado pelo Chelsea, na final. Na temporada que poderia ser de afirmação na elite, o centroavante toscano sofreu uma lesão no menisco e, após somente 23 minutos em campo na Premier League, foi dado como acabado pelos médicos do clube. Branca foi afastado e rompeu com a diretoria: pagou a cirurgia do seu próprio bolso, se recuperou na Inter e entrou com uma representação na Fifa contra o clube inglês. Depois de ganhar a causa nos tribunais, foi indenizado e foi atuar no futebol suíço.

19º - Fabio Borini 


Posição: atacante
Clubes em que atuou: Chelsea, 2009-11; Swansea City, 2011; Liverpool 2012-13 e 2014-15; e Sunderland, 2013-14 e 2015-hoje
Títulos: Premier League (2010) e FA Cup (2010)
Prêmio individual: Seleção da Euro Sub-21 (2013)

Quando Borini chegou à Inglaterra, ele ainda era um prodígio da base. Cria do Bologna e com passagens pelas seleções sub-16 e sub-17 da Itália, o atacante acertou com o Chelsea e concluiu sua formação como profissional pelos clube londrino, no qual continuou arrebentando, em especial na FA Youth Cup. O jogador emiliano estreou pelo time principal dos Blues em 2009, quando tinha 18 anos, mas recebeu pouquíssimas oportunidades. Assim, foi emprestado ao Swansea City, em março de 2011,  e foi fundamental para o primeiro acesso do clube galês à Premier League em toda a história, com seis gols anotados em 12 partidas.

Em fim de contrato com o Chelsea, o atacante foi adquirido pelo Parma, que quase imediatamente o revendeu para a Roma. A positiva temporada 2011-12 pelo clube giallorosso fez com que o atacante recebesse a convocação para a Euro 2012 e retornasse para a Inglaterra graças a um velho conhecido: o técnico Brendan Rodgers, ex-Swansea, o levou ao Liverpool. Devido a uma séria lesão no pé e à má fase, o italiano jogou poucas vezes pelos Reds e marcou somente três vezes em dois anos em Anfield. No Sunderland, a história foi diferente: emprestado aos Black Cats em 2013-14, ele anotou sete gols na Premier League e três na League Cup, ajudando a equipe do nordeste da ilha a ser vice da copa e a permanecer na elite inglesa. Em 2015, Borini voltou ao Stadium of Light e manteve a média de atuações, colaborando mais uma vez com a manutenção do SAFC na mais prestigiosa liga do país.

18º - Matteo Sereni


Posição: goleiro
Clube em que atuou: Ipswich Town, 2001-02

A cara de poucos amigos não mente: Sereni era um goleiro brigão, daqueles que mostram a liderança em campo. O jogador, nascido em Parma, teve uma digna carreira na Itália – defendeu com bom nível Sampdoria, Piacenza, Empoli, Lazio, Torino e Brescia – e teve uma curta, mas importante passagem pelo futebol inglês. Em 2001, a Samp o negociou com o Ipswich Town porque estava com problemas financeiros, e o emiliano aproveitou para ser titular dos Tractor Boys na Premier League.

Sereni chegou ao leste da Inglaterra para disputar posição com Andy Marshall, mas não demorou para se estabelecer na meta dos Blues. O Ipswich caiu na Copa Uefa diante da Inter, foi rebaixado e teve a pior defesa da Premier League, mas o italiano não teve culpa pelo desempenho negativo – ao contrário, se destacou com seu estilo seguro e de agilidade, apesar do físico parrudo. Ao fim da temporada, Sereni não ficou para disputar a segunda divisão e foi emprestado ao Brescia, que contava com Roberto Baggio e disputava a Serie A.

17º - Nicola Berti


Posição: meio-campista
Clube em que atuou: Tottenham, 1998-99
Título: League Cup (1999)

Ícone da Inter nos anos 1980 e 1990, Berti teve uma curta – mas importante – passagem pelo Tottenham. O meio-campista chegou na Terra da Rainha com quase 31 anos, mas conseguiu encaixar seu estilo de muito dinamismo e trabalho duro no futebol inglês, convertendo-se em uma peça valiosa em tempos de entressafra dos Spurs.

O box to box italiano trocou Milão por Londres em janeiro de 1998, quando foi liberado pelos nerazzurri. Na primeira temporada em White Hart Lane, fez 15 jogos e três gols, que ajudaram os Lilywhites a escaparem do rebaixamento na reta final da Premier League. Querido pela torcida, Berti ainda continuou para a disputa da temporada 1998-99 e colaborou com o início da campanha do título da League Cup, mas deixou o clube no mercado de inverno, rumo ao Alavés, da Espanha.

16º - Alessandro Diamanti


Posição: meio-campista
Clube em que atuou: West Ham, 2009-10

De carreira tão sinuosa quanto a trajetória que as bolas fazem em suas cobranças de falta, o fantasista Diamanti teve na Inglaterra uma das etapas mais significativas de sua carreira. Alino chegou aos Hammers depois de encantar a Itália com a camisa do Livorno: ele não evitou a queda dos amaranto para a segundona, em 2007-08, mas marcou 16 gols no ano seguinte, reconduzindo o time toscano para a Serie A. Dessa forma, chegou a Boleyn Ground com o aval de alguém que conhecia bem a sua função – Gianfranco Zola, então técnico da equipe.

O habilidoso canhotinho foi o 800º jogador da história do West Ham e, embora não tenha sido titular absoluto, foi uma peça vital para que os Hammers não fossem rebaixados. Em 28 partidas, Alino marcou sete gols – quatro de pênalti, já que era o cobrador oficial –, incluindo tentos contra Liverpool, Chelsea e Arsenal. Apesar de ter sido considerado pela torcida o segundo melhor jogador do clube na temporada, perdendo somente para Scott Parker, o exímio batedor de faltas não permaneceria no West Ham, pois seu avalista, Zola, rescindiu o contrato ao fim da temporada 2009-10. Diamanti voltou para a Itália e se destacou com o Brescia, equipe que impulsionou a sua primeira convocação para a seleção.

15º - Massimo Maccarone


Posição: atacante
Clube em que atuou: Middlesbrough, 2002-04 e 2005-07
Títulos: League Cup (2004)

Big Mac no país do fish and chips. Maccarone foi revelado no Milan, mas foi no Empoli que despontou, marcando uma penca de gols na Serie B, entre 2000 e 2002, fato que lhe valeu uma convocação para a seleção da Itália – foi o primeiro jogador em mais de 70 anos que estreou pelos azzurri sem ter atuado na primeira divisão. Após o amistoso contra a Inglaterra, Macca chamou a atenção do Middlesbrough, que decidiu investir 13 milhões de euros para torná-lo a contratação mais cara de sua história.

O atacante piemontês começou com três gols marcados em cinco jogos, mas foi atrapalhado por lesões ou pela má avaliação do técnico Steve McClaren, que achava que ele poderia atuar como meia aberto pelos flancos, longe da meta adversária. Apesar de ter sido artilheiro do time em 2002-03, com nove gols, e de ter uma League Cup no currículo, Maccarone viveu longo jejum de gols pelo clube de Riverside e passou a temporada 2004-05 emprestado – jogou por Parma e Siena –, retornando para mais dois anos na Inglaterra logo depois. Em sua segunda etapa pelo Boro, Big Mac continuou na reserva, mas teve participação decisiva na Copa Uefa: marcou três gols decisivos (dois deles nos minutos finais), que valeram a classificação dos ingleses nas quartas de final, contra o Basel, e nas semifinais, diante do Steaua Bucareste. Macca só não evitou o vice-campeonato do seu time, derrotado por um implacável Sevilla.

 14º - Alessandro Pistone


Posição: lateral esquerdo
Clubes em que atuou: Newcastle, 1997-98 e 1999-2000; Everton, 2000-07

Após passagens por clubes de menor expressão, Pistone apareceu para o futebol mundial com a Inter de Roy Hodgson, em 1995. Em dois anos pelos nerazzurri, o lateral esquerdo ganhou espaço na seleção italiana sub-21, disputou os Jogos Olímpicos de 1996 e também chamou a atenção do futebol inglês: o Newcastle de Kenny Dalglish investiu em sua contratação, mas as lesões, a utilização como defensor central e a chegada de Ruud Gullit ao comando da equipe impediram-no de ter continuidade pelos Magpies. Após um curto empréstimo ao Venezia e dois vice-campeonatos da FA Cup, o milanês foi vendido ao Everton.

Em Goodison Park, Pistone continuou convivendo com muitas lesões no joelho, que o afastaram dos gramados por ao menos um período da temporada em toda a sua passagem pelos Toffees. Ainda assim, o lateral foi um importante e experiente reserva durante sete anos de clube, contribuindo com uma classificação à Liga dos Campeões e uma à Copa Uefa. Em 2007, após 103 partidas, o italiano deixou o Everton para se aposentar no Mons, da Bélgica.

13º - Benito Carbone


Posição: atacante
Clubes em que atuou: Sheffield Wednesday, 1996-99; Aston Villa, 1999-2000; Bradford City, 2000-01; Derby County, 2001-02; Middlesbrough, 2002
Prêmio individual: Jogador do Ano no Sheffield Wednesday (1999)

Carbone é um raro caso de jogador italiano que não teve sucesso no futebol de seu país e só brilhou n Inglaterra. O calabrês se notabilizou na Bota por não ter honrado a camisa 10 do Napoli e por ter sido um atacante sem a verve do gol em seus anos de Torino e Inter. Ainda assim, como os olhos dos ingleses estavam voltados à Inter em 1995-96 (já que Hodgson treinava os nerazzurri), Benny ganhou a oportunidade de defender o Sheffield Wednesday, que o adquiriu por 3 milhões de libras. Aliás, foi pelos Owls que ele viveu a grande fase da carreira. Entre 1996 e 1999, Benny Carbone nem pareceu a eterna promessa que desfilou nos campos italianos.

Fixado como winger, ele anotou seis gols em sua primeira temporada, colaborando com a ótima sétima posição da equipe de Sheffield. Nos dois anos que se seguiram em Hillsborough, teve boa sintonia com o compatriota Paolo Di Canio: com 17 gols no total, ajudou na permanência na elite e foi eleito pela torcida o melhor jogador do clube em 1998-99. Carbone se transferiu para o Aston Villa no início da temporada 1999-2000, e ficou conhecido por ter marcado um hat-trick na semifinal da FA Cup contra o Leeds, que valeu a passagem da equipe de Birmingham à final. Benny foi vendido ao Bradford City no final da campanha, mas não evitou a queda dos Batams para a segundona, competição que ainda disputou por alguns meses. O atacante ainda voltaria a jogar na Premier League com a camisa de dois clubes que que abriram as portas para muitos italianos naquela época – Derby County e Middlesbrough.

12º - Francesco Baiano


Posição: atacante
Clube em que atuou: Derby County, 1997-2000
Prêmio individual: Jogador do Ano no Derby County (1998)

Jogador interessante do futebol italiano nos anos 1990, o atacante Francesco Baiano se destacou com as camisas de Foggia e Fiorentina, na segunda e na primeira divisão do Belpaese. Ambidestro, muito rápido, habilidoso e bom finalizador, Baiano já tinha até vestido a camisa da seleção italiana quando o Derby County surpreendeu e tirou o jogador da Fiorentina, que brigava por uma vaga em competições europeias.

Os Rams tinham retornado à elite na temporada anterior e formaram um time interessante, que conseguiu superar as expectativas e alcançou a 9ª posição no Campeonato Inglês 1997-98 e a 8ª no seguinte. Baiano foi eleito pela torcida o melhor jogador do Derby em sua primeira temporada no clube, superando alguns colegas, como Rory Delap, Paulo Wanchope, Deon Burton e Igor Stimac. Pudera, foram 12 gols marcados no bom ano dos alvinegros – no segundo ano em Pride Park, o camisa 27 anotou outros seis.  Em novembro de 1999, perto de completar 32 anos, Baiano retornou à Itália e fechou com o Ternana, da Serie B.

11º - Stefano Eranio


Posição: meio-campista e lateral direito
Clube em que atuou: Derby County, 1997-2001

Partícipe de dois times históricos, Eranio foi uma ambiciosa contratação do Derby County em 1997. O genovês, que já havia recebido 20 convocações para a seleção italiana, foi importante no Genoa de Osvaldo Bagnoli: a equipe surpreendeu ao se classificar para a Copa Uefa 1991-92 e eliminar o poderoso Liverpool, caindo apenas nas semifinais do torneio, para o Ajax. Depois, foi reserva no Milan de Fabio Capello, com o qual foi tricampeão italiano e uma vez esteve no topo da Europa. O já abastado currículo foi enriquecido com a idolatria que conquistou em Derbyshire.

O meio-campista, que atuava aberto pelo lado direito e também podia ser improvisado na lateral, chegou ao Derby a custo zero e se tornou uma lenda do clube: Eranio ainda entrou para a história por ter marcado o primeiro gol da história de Pride Park, novo estádio dos alvinegros e foi eleito pela torcida como um dos 11 melhores atletas da história dos Rams. Ao longo de quatro anos, assumiu a braçadeira de capitão e ajudou o Derby County a fazer duas campanhas tranquilas na Premier League, além de evitar o rebaixamento do time em outras duas oportunidades. O meia iria se aposentar em 2001, mas foi convencido pelo técnico Jim Smith a permanecer na equipe – no entanto, optou por sair em outubro, quando o comandante foi demitido, e pendurou as chuteiras com o pequeno Pro Sesto, da Itália.

10º - Graziano Pellè


Posição: atacante
Clube em que atuou: Southampton, 2014-16
Prêmio individual: Jogador do Mês da Premier League (setembro de 2014)

Alderweireld, Mané, Tadic e Pellè. A responsabilidade desses quatro jogadores era enorme na temporada 2014-15 do Southampton, que havia vendido várias promessas e peças-chave do time em anos anteriores. Os recém-chegados não teriam muito tempo para adaptação: eles seriam os protagonistas da reconstrução da equipe, que tinha trocado também o técnico – Mauricio Pochettino, de mudança para o Tottenham, por Ronald Koeman. Pellè era a autêntica contratação do treinador. Quando Koeman comandava o Feyenoord, o centroavante italiano lhe rendeu excelentes 55 gols em 66 jogos nas duas temporadas em Rotterdam. No entanto, era inevitável a desconfiança sobre um atacante de 29 anos que nunca havia sido prolífico antes do futebol holandês e que não tinha se destacado muito por Lecce, Catania, Parma e Sampdoria – na Itália, só teve bons números pelo Cesena, na Serie B. Destaque italiano tardio, à Luca Toni, ou "armadilha" da Eredivisie, à Afonso Alves?

Mais para a primeira versão, Pellè foi muito bem nos Saints. O bom encaixe no time o fazia ser tanto um facilitador para Tadic e Mané quanto um goleador - foram 30 gols em duas temporadas no St. Mary's (23 na liga), sem demandar período de aclimatação ao futebol inglês. Muito pelo contrário: o italiano foi o jogador do mês da Premier League já em setembro de 2014, quando marcou, por exemplo, um golaço de bicicleta contra o Queens Park Rangers. Pellè prestou ótimo serviço a um time que, mesmo precisando se reinventar, obteve, respectivamente, a sétima e a sexta posição da liga em 14-15 e 15-16. Com a saída de Koeman e o 31º aniversário, o atacante decidiu aceitar o convite do chinês Shandong Luneng e subir muito no ranking de jogadores mais bem pagos do futebol mundial.

9º - Gianluca Festa


Posição: zagueiro
Clubes em que atuou: Middlesbrough, 1997-2002; Portsmouth, 2002-03
Prêmio individual: Jogador do Ano no Middlesbrough (1998)

Disciplinado, versátil (também fazia a lateral direita se necessário) e capaz de marcar gols eventualmente, Festa tomou a primeira decisão que o transformou em referência no clube depois de apenas um semestre no Riverside Stadium. Apesar da caminhada até as finais da FA e da League Cup, estágio em que perdeu respectivamente para o Chelsea e o Leicester, 1996-97 terminou também com rebaixamento para o Boro. Festa, que havia acabado de chegar da Internazionale para se juntar a Fabrizio Ravanelli, escolheu permanecer no norte da Inglaterra, enquanto estrelas como Juninho Paulista e o próprio centroavante italiano deixaram o clube.

O retorno à Premier League foi imediato, e Festa recebeu o prêmio de Jogador do Ano no clube pelo papel fundamental na campanha vice-campeã na segunda divisão. Em 2002, quando perdeu espaço no time, voltou à segunda divisão inglesa pelo Portsmouth. Na Costa Sul da Inglaterra, também se transformou rapidamente em uma figura popular entre os torcedores e ajudou o Pompey a buscar o título e a promoção. Na temporada seguinte, preferiu disputar novamente uma divisão de acesso, mas desta vez a Serie B ao lado do melhor italiano da história da Premier League. Ao lado de Gianfranco Zola, Festa voltou ao Cagliari, clube de sua cidade natal, que havia o revelado pelo mundo e que já defendera por seis temporadas, para obter a promoção à Serie A.

8º - Mario Balotelli


Posição: atacante
Clubes em que atuou: Manchester City, 2010-13; Liverpool, 2014-15
Títulos: Premier League (2012), FA Cup (2011) e Community Shield (2012)
Prêmios individuais: Golden Boy (2010) e Artilheiro da Euro (2012)

Mario Fantastico, Mario Magnifico, ole, ole, ole, ole. A torcida do Liverpool até tentou deixá-lo bem à vontade, mas Balotelli foi uma tragédia em Anfield. Após um amistoso de pré-temporada contra o Milan em 2014, o então técnico do clube, Brendan Rodgers, afirmou categoricamente que o atacante italiano não se juntaria ao Liverpool. Algumas semanas depois ele estava lá, em uma transferência que mais parecia o acionamento do botão de pânico por quem ainda não sabia direito como proceder após perder Luis Suárez. Super Mario marcou apenas quatro gols pelo Liverpool - um na Premier League - e na segunda temporada foi emprestado ao Milan. Na terceira e última de seu contrato, foi liberado de graça para o francês Nice, onde, aliás, começou muito bem.

Balotelli não trabalhava em treinamentos e jogos como  desejavam seus treinadores, mas ele aparece na lista pela contribuição que prestou ao Manchester City em temporadas de consolidação do clube como um dos mais poderosos da Inglaterra. A relação com Roberto Mancini, que o levou a Manchester mesmo conhecendo suas idiossincrasias dos tempos de Internazionale, foi por vezes controversa, mas Balotelli foi relevante do jeito dele. Com um total de 30 gols, momentos de puro brilho associados a um aparente desinteresse e algumas expulsões estúpidas, Mario está registrado na história do clube, entre outros motivos, pela grande atuação e a famosa exibição da camisa com o questionamento Why always me? nos 6 a 1 sobre o Manchester United em Old Trafford e pela assistência para o gol de Sergio Agüero contra o QPR que, aos 94 minutos daquele jogo, decidiu dramaticamente a Premier League 2011-12.

7º - Carlo Cudicini


Posição: goleiro
Clubes em que atuou: Chelsea, 1999-2009; Tottenham, 2009-2012
Títulos: Premier League (2005, 2006), FA Cup (2000, 2007), League Cup (2005, 2007) e Community Shield (2000, 2005)
Prêmio individual: Jogador do Ano no Chelsea (2002)

Uma das principais conexões entre Chelsea e futebol italiano, Cudicini jamais teve vida fácil na Inglaterra. Filho do goleiro Fabio Cudicini, que se destacou por Roma e Milan, Carlo foi revelado pelos rossoneri e desembarcou em Londres, inicialmente por empréstimo e para ser reserva de Ed de Goey, após boas exibições pelo Castel di Sangro na Serie B. Em sua segunda temporada, ganhou espaço e gradativamente consolidou o posto de titular. O auge veio entre 2001 e 2003, quando se estabilizou como um dos melhores goleiros da liga - não apenas por isto, evidentemente, mas também pela defesa de pênaltis importantes, o que ajudou na construção de seu status. Ele ainda não havia completado 30 anos quando Roman Abramovich comprou o Chelsea e certamente imaginava que suas temporadas mais produtivas estavam por vir, mas foi talvez a vítima mais emblemática do redimensionamento do clube.

A temporada 2003-04, a última de Claudio Ranieri como treinador e de Cudicini como titular dos Blues, foi de problemas físicos para o goleiro e de frustração coletiva, apesar da trajetória até a semifinal da Champions League e da segunda posição doméstica, atrás apenas da versão invencível do Arsenal. Novas exigências, José Mourinho e Petr Cech chegaram, e as aparições de Cudicini ficaram restritas a competições secundárias e a períodos de inatividade do goleiro checo - quando ele mesmo não estava indisponível, como nos meses seguintes ao famoso choque entre Stephen Hunt, do Reading, e a cabeça de Cech. No Tottenham, para onde foi em janeiro de 2009, Cudicini foi reserva imediato de Gomes, mas perdeu terreno após as contratações de Brad Friedel e Hugo Lloris. No fim das contas, a imagem é de um goleiro importante, um dos grandes da liga em seu melhor momento, mas que poderia ter escolhido um caminho diferente para jogar mais a partir de 2004 - como, a propósito, fez seu ex-companheiro Gomes ao recomeçar a carreira no Watford, onde atualmente desfruta uma das mais interessantes fases da carreira.

6º - Attilio Lombardo


Posição: winger
Clube em que atuou: Crystal Palace, 1997-99

He's got no hair, but we don't care, cantavam os torcedores no Selhurst Park. Campeão da Itália com Sampdoria e Juventus, e da Europa e do mundo pela Velha Senhora, Lombardo se mudou para o Crystal Palace logo após completar 30 anos. A surpresa foi diretamente proporcional à empolgação da torcida dos Eagles, que ganhou um winger capaz de associar diversas qualidades essenciais à posição - velocidade, drible, cruzamento e trabalho defensivo. Ele saía da Juve para um time que provavelmente terminaria na metade de baixo da tabela. Mais ou menos o que aconteceu com Emanuele Giaccherinni no Sunderland em 2013 ou Roberto Pereyra no Watford nesta temporada, com a diferença de que a liga inglesa não tinha sobre as outras a vantagem financeira que desfruta atualmente.

A relevância de Lombardo foi comprovada assim que ele se lesionou: o time caiu da décima para a última posição no período de ausência do italiano. Com apenas duas vitórias no Selhurst Park em toda a Premier League, o Palace foi rebaixado, apesar da influência positiva de Lombardo - que chegou a ser técnico interino por mais de 40 dias -  no início e no fim da temporada. Mesmo assim, ele decidiu permanecer em Londres para a disputa da segunda divisão. A trajetória foi interrompida em janeiro de 1999, quando, em crise financeira, o clube  o vendeu à Lazio, onde ele conquistou pela segunda vez a Serie A, em 2000, ao lado de Sven Göran-Eriksson. Foram apenas 49 jogos pelo Palace, mas The Bald Eagle, como era chamado pelos torcedores, foi ainda assim eleito para o time do século do clube. Sua conexão com o futebol inglês continuou no Manchester City, onde trabalhou na comissão técnica de Roberto Mancini. Atualmente auxiliar no Torino, ajudou a convencer Joe Hart a transferir-se por empréstimo para o clube do norte da Itália.

5º - Fabrizio Ravanelli


Posição: atacante
Clubes em que atuou: Middlesbrough, 1996-97; Derby County 2001-03

Ravanelli poderia estar até mais bem colocado na lista pela expectativa que gerou na chegada à Premier League. O Middlesbrough pagou à Juventus incríveis (para a época) £7 milhões e lhe ofereceu o maior salário do país. A estreia foi a mais promissora que você pode imaginar: hat-trick no empate por 3 a 3 com o Liverpool. Ravanelli ainda marcaria outros 13 gols naquela edição da liga e mais 15 por copas nacionais numa impressionante temporada de estreia, pelos números e pela sociedade com Juninho Paulista. No entanto, o rebaixamento do Boro e o comportamento questionável fora de campo fizeram o registro histórico de sua passagem pelo Riverside não ser tão positivo assim.

Ravanelli reclamava da estrutura do clube, dos métodos de treinamento, da liga de maneira geral e da vida no país. "Jogadores ingleses têm um dom natural para correr, mas, em explosão e tempo de reação, não estão no nível dos italianos. No futebol você precisa fazer mais do que correr", afirmou durante aquela temporada. O centroavante deixou o Boro, mas ainda voltaria à Inglaterra por outro time que se acostumou a apostar em jogadores italianos: o Derby County. Não foi tão prolífico quanto no Middlesbrough, mas marcou nove gols na liga, insuficientes para evitar o rebaixamento. Desta vez ele disputou a segunda divisão, mas foi incapaz de reconduzir os Carneiros à elite. Do Derby, seguiu à Escócia para atuar pelo Dundee FC.

4º - Gianluca Vialli


Posição: atacante
Clube em que atuou: Chelsea, 1996-99
Títulos: FA Cup (1997), League Cup (1998), Recopa da Uefa (1998) e Supercopa da Uefa (1998)

Companheiro de Attilio Lombardo na Samp, na Juve e na seleção, Vialli foi indubitavelmente um dos melhores italianos a defender um clube inglês. No entanto, da mesma forma que a maioria dos compatriotas, não reservou seus melhores anos à Premier League, onde esteve dos 32 aos 35. A relação difícil com Ruud Gullit limitou inicialmente minutos e contribuição ao Chelsea, mas mesmo assim ele concluiu 1996-97 como artilheiro do clube na liga, com nove gols, e o título da FA Cup.

O desentendimento de Gullit com a diretoria, a cultura já estabelecida de ter um jogador-treinador (era o caso do holandês) e a presença de outros italianos no grupo levaram Vialli a acumular as funções de atleta e técnico. Foi o primeiro dos 11 comandantes italianos que a Premier League já teve e conseguiu conciliar bem as funções, mantendo uma média de gols respeitável (40 em 78 jogos em toda a trajetória em Stamford Bridge), ainda que tenha preferido pendurar as chuteiras no fim de 1998-99 para se dedicar mais à nova carreira. Como treinador, Vialli repetiu o feito de quando era apenas jogador do Chelsea, com a conquista da FA Cup em 2000, que se somou a quatro outros troféus menos relevantes. No entanto, certa inabilidade no trato com os atletas (inclusive Gianfranco Zola), mesmo mal que indiretamente derrubou Gullit, fez o ex-atacante perder o emprego em setembro de 2000. No comando do Watford, não obteve o mesmo sucesso.

3º - Paolo Di Canio


Posição: atacante
Clubes em que atuou: Sheffield Wednesday, 1997-99; West Ham, 1999-2003; Charlton, 2003-04
Prêmios individuais: Jogador do Ano do Sheffield Wednesday (1998) e Jogador do Ano do West Ham (2000)

"Aquilo é sensacional. Até para os padrões dele!", registrou a narração do gol da temporada 1999-2000 na Inglaterra, eleito pelo programa Match of the Day, da BBC. Di Canio, um dos jogadores com quê de Eric Cantona que passaram pela Premier League, foi o autor da finalização acrobática contra o Wimbledon, que será lembrada como um dos grandes momentos do saudoso Boleyn Ground, estádio de que o West Ham se despediu na temporada passada. Os lances magníficos - descritos pelo treinador que o contratou para o West Ham, Harry Redknapp, como "coisas com que as pessoas podem apenas sonhar" - se revezavam com as controvérsias, como o empurrão que derrubou o árbitro Paul Alcock e lhe rendeu uma suspensão de 11 jogos.

De qualquer forma, sua jornada de três clubes e sete anos pela Inglaterra, que indubitavelmente teve seu auge no West Ham, foi bastante positiva. Tanto que, no Natal de 2001, Alex Ferguson tentou em uma ligação convencê-lo a transferir-se para o Manchester United, o que não se concretizou porque Di Canio, então capitão dos Hammers, "não poderia virar as costas ao West Ham". Sua trajetória como técnico também foi marcante, com um bom trabalho no Swindon Town, incluindo uma promoção à terceira divisão e uma boa campanha na Copa da Liga em 2012-13. No Sunderland, cumpriu à base do "vamos que vamos" sua missão inicial, de salvá-lo do rebaixamento no fim daquela mesma temporada, mas fracassou no início de 2013-14 e foi demitido, também por enlouquecer o elenco com métodos, digamos, pouco convencionais.

2º - Roberto Di Matteo


Posição: meio-campista
Clube em que atuou: Chelsea, 1996-2002
Títulos: FA Cup (1997 e 2000), League Cup (1998), Recopa da Uefa (1998), Supercopa da Uefa (1998) e Charity Shield (2000)

Marcou o golaço que, aos 42 segundos do primeiro tempo, abriu o caminho para o título da FA Cup contra o Middlesbrough na temporada de estreia; na temporada seguinte, o gol da vitória diante do mesmo adversário na final da League Cup; também o único gol da decisão da FA Cup em 1999-2000 contra o Aston Villa. São apenas detalhes da jornada de Di Matteo nos Blues, que não precisa se prender a episódios isolados, mas ajudam a entender a grande passagem por Stamford Bridge de um meio-campista capaz de controlar o jogo e ameaçar muito em chutes de longe. Ele não trazia a fantasia de Gianfranco Zola, mas provavelmente foi tão importante quanto o Magic Box para a ascensão do clube na metade final da década de 90. Foi o Frank Lampard de seu tempo.

Poderia ter sido ainda mais relevante não fosse uma fratura na perna, que ele sofreu em setembro de 2000 contra o suíço St. Gallen, pela Copa Uefa. Após 18 meses de batalha contra a lesão, com apenas 31 anos, Di Matteo foi forçado a uma precoce aposentadoria. O tamanho dele para o Chelsea é simbolizado pelo tributo que Claudio Ranieri, técnico à época, prestou ao meio-campista, já após o fim da carreira: ele liderou a fila de entrada dos jogadores no Millennium Stadium, em Cardiff, antes da final da FA Cup de 2000, que os Blues perderiam para o Arsenal. Os anos que deixou de desfrutar como jogador certamente foram compensados pela quase inacreditável glória do Chelsea na Champions League 2011-12, quando, sob a liderança do treinador interino Di Matteo, o clube conquistou a Europa depois de derrubar Napoli, Benfica, Barcelona e Bayern. Em seguida, a carreira como técnico deu vários passos para trás, culminando na recente demissão do Aston Villa.

1º - Gianfranco Zola


Posição: atacante e meia-atacante
Clube em que atuou: Chelsea, 1996-2003
Títulos: FA Cup (1997 e 2000), League Cup (1998), Recopa da Uefa (1998), Supercopa da Uefa (1993 e 1998) e Charity Shield (2000)
Prêmios individuais: Hall da Fama do Futebol Inglês (2005), Jogador do Ano na Inglaterra (1997), Jogador do Ano no Chelsea (1999 e 2003) e Jogador do Mês na Premier League (dezembro de 1996 e outubro de 2002)

Símbolo da internacionalização do futebol inglês a partir dos anos 90, Zola tem uma cadeira nobre na história do Chelsea - equivalente às ocupadas por Terry, Lampard e Drogba, até por ter desempenhado um papel fundamental numa época de franco crescimento do clube. Não por acaso fez jus a um título de cavalaria: a Ordem do Império Britânico (OBE), que ele recebeu em 2004. Protagonista nos sete anos que antecederam a chegada de Roman Abramovich a Stamford Bridge, o Magic Box, alcunha que lhe foi atribuída pelos ingleses, levantou seis troféus em Londres, incluindo duas edições da FA Cup.

Já aos 30 anos, em 1996, Zola deixou o Parma e foi contratado por £4,5 milhões pelo então treinador Ruud Gullit e teve um início arrasador ao ponto de ser eleito o melhor jogador da temporada inglesa pelos jornalistas, superando Juninho Paulista, segundo colocado na votação. Apesar dos números expressivos na Premier League (59 gols e 22 assistências em 229 partidas), a maior contribuição deste autêntico fantasista ao clube e especialmente ao futebol inglês é intangível. A ousadia para fazer diferente ajudou a popularizar a Premier League em escala global. O controle de bola associado aos dribles e os gols de falta e por cobertura estão na memória afetiva de todos os torcedores do Chelsea e amantes do jogo que assistiram a tudo isso.  Como treinador, Zola já passou por West Ham e Watford, ainda sem grande êxito.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

14ª rodada: A queda da gigante

Bonucci lamenta lesão e derrota expressiva da Juventus para um aguerrido Genoa (LaPresse)
Fim de semana de muita intensidade, surpresas e números interessantes para os outsiders. Para começar, a Juventus foi engolida com voracidade por um Genoa muito agressivo e chegou a uma improvável terceira derrota em 14 partidas da Serie A. Por sua vez, o Milan vem na vice-liderança, empatado com a Roma, e tem o melhor retrospecto do campeonato nas últimas 11 rodadas. A fase também é boa para Atalanta e Lazio, invictas há nove rodadas, enquanto a Inter ganhou um alívio e as crises de Napoli e Fiorentina se intensificaram. Confira o resumo da jornada.

Genoa 3-1 Juventus
Simeone, Simeone e Alex Sandro (contra) | Pjanic

Tops: Simeone e Rigoni (Genoa) | Flops: Cuadrado e Alex Sandro (Juventus)

Diante das más apresentações, uma hora a derrota chegaria para a Juventus e o Genoa foi gigante para desmontar o time de Allegri – muito mais que os vizinhos de Milão, que também venceram os bianconeri. Com muita intensidade e a habitual agressividade na marcação e no ataque, a equipe de Juric forçou erros de um meio-campo sem ideias e lento, levando a lambanças incomuns na defesa, que nem mesmo Buffon conseguiu suportar. Com menos de 30 minutos, a vitória já estava garantida: aos 3, depois de quatro chutes no gol, Cholito Simeone aproveitou o último rebote e abriu o placar; dez minutos depois, Lazovic fez a festa na direita e cruzou certeiro para o filho de Diego, ídolo de Inter e Lazio, ampliar. Por fim, aos 28, depois de confusão em escanteio e chute de Rigoni, Alex Sandro fez contra, num episódio que definiu bem a situação dos bianconeri em Gênova.

Do outro lado, Perin quase não trabalhou e fez apenas uma defesa, sendo que o outro chute da Juventus resultou em gol, graças a uma cobrança de falta de Pjanic. Nunca Dybala fez tanta falta como nesse domingo, e agora Daniel Alves (três meses) e Bonucci (dois) são mais desfalques para uma equipe que já não conta com Barzagli, tem Marchisio em recuperação e Chiellini em má forma, além de um meio-campo que não funciona, pois cria pouco para o ataque e gera problemas na defesa. De qualquer forma, a Velha Senhora segue líder, agora com quatro pontos de vantagem, enquanto o Genoa fica no meio da tabela, a nove da zona europeia e longe da zona de rebaixamento. Entre resultados irregulares e bom futebol, espera-se que com Juric a vida seja mais tranquila sem as rixas que Gasperini criava durante a temporada. Difícil é acreditar em tranquilidade total com Preziosi no comando.

Inter 4-2 Fiorentina
Brozovic (Icardi), Candreva, Icardi (Candreva) e Icardi | Kalinic (Badelj) e Ilicic (Valero)

Tops: Icardi e Perisic (Inter) | Flops: João Mário (Inter) e Rodríguez (Fiorentina)

Para fechar a rodada, um jogo louco na segunda-feira fria de Milão em San Siro. Nos primeiros 30 minutos, a Inter imprimiu intensidade massacrante sobre a Fiorentina e construiu vantagem que deveria dar tranquilidade ao time de Pioli. Aos 3, após jogada de Ansaldi, Brozovic aproveitou toque de Icardi para abrir o placar. Seis minutos depois, o chute de Perisic foi mal afastado por Tatarusanu e Candreva completou para o gol. Antes mesmo dos 20, foi a vez de Icardi fazer grande jogada sobre a defesa viola e marcar o terceiro. A Inter não fazia dois gols tão rapidamente desde 2009 e três desde 1990, mas como se tratava da "pazza" equipe, o jogo não estava decidido. A pressão interista perdeu ritmo depois da vantagem, mas a defesa seguiu adiantada e Badelj finalmente acertou lançamento para o compatriota Kalinic vencer D'Ambrosio e Ranocchia com facilidade e descontar. Nem mesmo a expulsão de um desastroso Gonzalo Rodríguez bastou para definir a partida.

Isso porque, no segundo tempo, depois de Perisic acertar a trave, Ilicic contou com grave falha de Handanovic, que havia sido decisivo no primeiro tempo, para diminuir a diferença para um gol e levar os visitantes a pressionar, ainda que com 10 em campo. Felipe Melo e Éder entraram para dar gás ao time, mas surtiram pouco efeito. Quando João Mário perdeu gol inacreditável, coroando sua partida de pouquíssimos acertos, parecia que o tropeço realmente viria. Nos acréscimos, então, Icardi aproveitou jogada de Perisic e mais uma vez foi decisivo, chegando a seu 12º gol no certame, se igualando a Dzeko na artilharia. Maurito se mostra cada vez mais fundamental para a Inter no campeonato: hoje, a equipe subiu para a oitava posição, a sete pontos da zona europeia, ultrapassando a Fiorentina. O cargo do técnico Paulo Sousa subiu no telhado por causa de desavenças com a diretoria.

Roma 3-2 Pescara
Dzeko (Perotti), Dzeko (Perotti) e Perotti (pênalti) | Memushaj (Zampano) e Caprari

Tops: Perotti e Dzeko (Roma) | Flops: Rüdiger (Roma) e Vitturini (Pescara)

A Roma quase romou, mas resistiu graças às participações de Szczesny e Fazio e conquistou importante vitória para voltar a diminuir a diferença para Juventus. Se o time não esteve tão bem, pouco criativo diante de um sistema defensivo desequilibrado, Perotti foi decisivo, dando as assistências para os gols de Dzeko – que fez dois em menos de dez minutos – e convertendo o pênalti que aliviou a pressão, depois de Memushaj deixar o placar apertado. O gol de Caprari, de longe o jogador mais perigoso do Pescara, não bastou: o time não vence há doze rodadas e conquistou sua única vitória no tapetão.

Empoli 1-4 Milan
Saponara | Lapadula (Suso), Suso (Abate), Costa (contra) e Lapadula (Suso)

Tops: Lapadula e Suso (Milan) | Flops: Costa e Skorupski (Empoli)

Nas últimas 11 rodadas, ninguém pontuou mais do que o Milan, que somou 26 dos seus 29 pontos. Depois do início lento, o time de Montella se mantém no topo e segue buscando resultados preciosos, com um futebol que ainda não é espelho do seu treinador e cujo elenco ainda apresenta diversas debilidades. Na Toscana, contra o Empoli, teve a bola, mas atacou pouco no primeiro tempo. Marcou o primeiro gol com Lapadula em assistência de Suso, mas levou o empate na jogada seguinte, com Saponara executando a lei do ex. Foi somente na metade do segundo tempo que a vantagem foi construída, outra vez a partir de Suso, autor do gol da vitória e protagonista no outro de Lapadula, que anotou uma doppietta no dia que o titular Bacca preferiu assistir ao ex-clube (Sevilla) a acompanhar seus companheiros. Não há mais clima para o colombiano em Milanello e é Lapadula quem deverá substitui-lo. Para se dar bem, precisará superar um tabu: os últimos três camisas 9 dos rossoneri marcaram contra o Empoli e depois entraram em longo jejum.

Napoli 1-1 Sassuolo
Insigne (Hamsík) | Defrel (Gazzola)

Tops: Insigne (Napoli) e Consigli (Sassuolo) | Flops: Gabbiadini (Napoli) e Matri (Sassuolo)

É incrível pensar em como um centroavante faz tanta falta ao sistema de Sarri. Sem a cota de gols de Higuaín, Milik era mais discreto, mas tão importante quanto o argentino por sua participação no jogo, com toques importantes para dar sentido à movimentação e liberdade a Callejón, Hamsík e Insigne. O trio, por mais excelente que seja, sente muito a falta de uma referência, não correspondida por Gabbiadini e que não teve em Mertens este encaixe, apesar de toda a técnica e dinâmica do belga. Contra o Sassuolo, mais uma vez o time criou oportunidades e dominou com a posse de bola, mas o gol de Insigne foi insuficiente, depois de Defrel empatar em novo erro da defesa. A bola chutada na trave por Callejón, nos acréscimos, foi um duro golpe para o torcedor e a equipe, que voltou a tropeçar e está a quatro pontos de onde estaria em condições normais: a zona europeia.

Torino 2-1 Chievo
Falqué (Barreca) e Falqué (Ljajic) | Inglese (Birsa)

Tops: Falqué (Torino) e Castro (Chievo) | Flops: Cacciatore e Pellissier (Chievo)

Depois de Belotti e Ljajic decidirem, foi a vez de Falqué recuperar a forma e voltar a ser importante para o Torino. Em jogadas pela esquerda com Barreca e o sérvio, o espanhol foi fenomenal para finalizá-las com precisão e garantir a vitória em três minutos, ainda no primeiro tempo, aos 35 e 38. À sua maneira, sempre em busca de gols, o time de Mihajlovic se manteve ofensivo com a vantagem e controlou o jogo com boa partida da defesa, sem exigir trabalho de Hart. O gol de Inglese, aos 85, certamente foi um grande susto, mas não abalou a equipe, que chegou à terceira vitória seguida e só não se aproximou mais da zona europeia porque Milan, Lazio e Atalanta também seguem vencendo.

Palermo 0-1 Lazio
Milinkovic-Savic (Basta)

Tops: Milinkovic-Savic e Biglia (Lazio) | Flops: González e Diamanti (Palermo)

No ritmo frenético já habitual, a Lazio bem que tentou e pressionou o Palermo, com o trio Felipe Anderson, Immobile e Keita, mas parou em Posavec e na trave. Diante de um adversário de baixíssimo nível, competitivo apenas com Aleesami e Nestorovski, o físico de Milinkovic-Savic se sobressaiu: o sérvio marcou o único gol da partida após uma assistência do compatriota Basta ainda no primeiro tempo. Também ameaçada, a defesa laziale se manteve intacta graças a outra boa partida do brasileiro Wallace, embora o jovem albanês Strakosha tenha feito intervenções importantes. Dessa forma, invicto a nove rodadas, o time da capital segue em grande momento e mantém viva a briga por vaga na Liga dos Campeões.

Bologna 0-2 Atalanta
Masiello (Gómez) e Kurtic (Gómez)

Tops: Gómez e Conti (Atalanta) | Flops: Mirante e Destro (Bologna)

A Atalanta é daqueles times que você sabe que vai cair de rendimento, mas não faz ideia de quando e se regozija enquanto ele está em grande forma. O que diferencia o time de Gasperini dos outros é o condicionamento físico do elenco, que suporta o estilo intenso imposto pelo treinador piemontês para massacrar os adversários como se fosse um misto de time inglês e alemão. Sem grande força técnica, isso tem bastado para levar a equipe a nove jogos de invencibilidade e à quinta posição, somente cinco pontos a menos que a Juventus. À espera de que equipes que naturalmente atingirão o auge físico, técnico e tático se recuperarão durante a temporada, como Napoli e Inter, os nerazzurri de Bérgamo aproveitam: dessa vez a vítima foi o irregular Bologna, que teve a volta de Mirante após problema cardíaco, mas sofreu com a falta de ritmo do goleiro em meio a um time se reação à tática adversária. Com isso, a zaga foi presa fácil para Papu Gómez.

Crotone 1-1 Sampdoria
Falcinelli | Bruno Fernandes

Tops: Cordaz e Falcinelli (Crotone) | Flops: Álvarez e Linetty (Sampdoria)

Foi por pouco que o Crotone não conseguiu a vitória em casa contra a Sampdoria. Mais uma vez com Cordaz sólido no gol, os anfitriões contaram com um grande Falcinelli para incomodar a fraca defesa adversária e o ex-Sassuolo correspondeu com gol no final do primeiro tempo. Ainda assim, a dupla não foi suficiente para aguentar a pressão da equipe adversária, que ameaçou com Muriel e Quagliarella. No entanto, foi mesmo o baixinho Bruno Fernandes, que substituiu um decepcionante Álvarez e foi o responsável pelo empate. O empate mantém os dorianos no meio da tabela, com a mesma pontuação do rival Genoa, enquanto os calabreses seguem afundados na zona de rebaixamento – pela primeira vez acima do Palermo, por causa do saldo de gols.

Cagliari 2-1 Udinese
Diego Farias (pênalti) e Sau (Isla) | Fofana

Tops: Isla (Cagliari) e Fofana (Udinese) | Flops: Di Gennaro (Cagliari) e Karnezis (Udinese)

No confronto entre times do meio da tabela que flertam com a parte inferior, Cagliari e Udinese até fizeram um jogo movimentado, mas bastante ruim tecnicamente. Os anfitriões perderam vários ataques por perdas e posse de bola, enquanto os visitantes responderam com muita força física, mas também falharam em aproveitar as oportunidades. Pesou mais para o time de Delneri, que teve grande atuação de Fofana (cujo estilo é muito parecido ao de Pogba), mas não acompanhada no ataque pelos outros companheiros. Nos casteddu, fundamental a volta de Sau, autor do gol da vitória depois de passar despercebido em novembro: dessa vez, o baixinho se fez notar por um lindo gol de letra.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 13ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada 
Consigli (Sassuolo); Conti (Atalanta), Bruno Alves (Cagliari), Izzo (Genoa); Suso (Milan), Rigoni (Genoa), Bonaventura (Milan), Perotti (Roma); Falqué (Torino), Icardi (Inter), Dzeko (Roma). Técnico: Ivan Juric (Genoa).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Italianos na Europa, semana 5: Cópia fiel

Bonucci a cada dia se confirma decisivo também no ataque: o zagueiro marcou
e classificou a Juve para as oitavas da Champions (Getty)
A quinta rodada das competições europeias reservou aos italianos vereditos que são retratos fieis das campanhas 2016-17 de cada um dos seis times do país que participam dos torneios Uefa. A Juventus não foi brilhante, mas encontrou os caminhos certos para vencer e se mostrar soberana; a Roma ratificou sua força ofensiva contra times de frágil defesa, enquanto Fiorentina, Inter e Napoli tropeçam nas próprias pernas. O Sassuolo, por sua vez, tenta jogar um bom futebol, mas sofre demais com os desfalques. Com isso, o futebol da Itália tem somente dois times já classificados para o mata-mata continental, outras duas com boas chances de avançar e mais uma dupla eliminada.

Quem entrou em campo primeiro foi a Juventus, na terça. A visita ao Sevilla de Sampaoli pela Liga dos Campeões era o confronto direto não apenas pela classificação, mas pelo primeiro lugar no Grupo H, que a qualificada Velha Senhora praticamente garantiu após a vitória por 3 a 1 na Andaluzia. Com 11 pontos, os bianconeri enfrentam o zerado e frágil Dinamo Zagreb em Turim na rodada final, enquanto o Sevilla (10 pontos) visita o Lyon (7).

O jogo do Ramón Sánchez Pizjuán foi bastante complicado para a pentacampeã italiana. O Sevilla começou com a pressão característica dos times de Sampaoli e marcou o primeiro nos minutos iniciais, quando Pareja aproveitou a sobra de um escanteio e acertou um chute de rara felicidade, sem chances para Buffon. Melhor em campo, a equipe rojiblanca dominava o meio-campo porque Vázquez, N'Zonzi e Vitolo encaixotavam Marchisio, Pjanic e Khedira entre as linhas. O ítalo-argentino ganhava o duelo contra o camisa 8 juventino, até que recebeu dois cartões amarelos em um espaço de cinco minutos e desequilibrou o duelo. Dali para frente, a Juve cresceu: empatou ainda antes do intervalo, quando Marchisio converteu pênalti assinalado por Mark Clattenburg.

A partida, que já tinha ritmo intenso, ficou mais quente após a penalidade marcada e continuou assim no segundo tempo – Sampaoli chegou a ser expulso por reclamação. Allegri já estava satisfeito pelo empate, sobretudo porque a Juve não tinha Barzagli, Dybala e Higuaín, e até já tinha lançado o garoto Kean, tornando-o o primeiro nascido nos anos 2000 a atuar na Champions. Porém, no finalzinho, Bonucci deu o troco em Pareja e, após uma sobra, emendou um canhotaço e fez o gol da virada. Na tentativa de buscar o empate, o Sevilla sofreu um contra-ataque e Mandzukic fez o terceiro, dando números finais ao jogo.

Ao fazer apenas a avaliação do resultado, não dá para desconsiderar que foi uma vitória gigante da Juve contra um time que não tinha sofrido gol algum na competição. Porém, a partida deixa um alerta, uma vez que, nos minutos iniciais a Senhora foi dominada. Na Serie A, a equipe consegue se livrar de situações assim com facilidade, mas na Europa pode não conseguir o mesmo sempre.

A outra equipe da Itália que venceu no meio de semana foi a Roma, comandada por um Dzeko impossível e por um Perotti cada vez mais abusado. Enquanto o bósnio fez três gols – um deles um golaço, em que entortou o zagueiro e bateu no ângulo –, o argentino o ofuscou graças a um golaço digno de prêmio Puskás: veja aqui como ele, de letra, encobriu o goleiro Kozácik e deu números finais ao jogo. O 4 a 1 sobre o fraco Viktoria Plzen ainda teve espaço para uma curiosidade: um jogador chamado Zeman, homônimo do histórico técnico giallorosso, descontou para os checos.

A goleada garantiu a classificação da Roma para os 16 avos de final e a primeira posição no Grupo E, que ainda tem Astra Giurgiu e Austria Vienna brigando por uma vaga. A  Fato é que, diante de uma chave tão simples, o verdadeiro desafio para a Roma em nível europeu começa apenas em 2017.

Coisa feia: a Inter perdeu de novo para equipe israelense e foi eliminada da Liga Europa (Getty)
Vexame consumado
Falando em chave fácil, não tem como não lembrar da Inter. A Beneamata conseguiu ser eliminada com uma rodada de antecedência e com a última posição em um grupo que tinha Southampton, Sparta Praga e o inexpressivo Hapoel Be'er Sheva. Foi diante da equipe israelense, aliás, que o vexame na Liga Europa tomou forma: as duas derrotas para a equipe alvirrubra foram fundamentais para sacramentar uma das maiores vergonhas que os nerazzurri já passaram em competições continentais.

Pioli estreava na Liga Europa com uma missão difícil: fazer a Inter vencer os dois jogos e torcer para o Southampton vencer o Sparta fora de casa. A sua parte a equipe italiana ia fazendo no primeiro tempo, quando demonstrou um futebol muito bom e abriu 2 a 0 em 25 minutos, em duas jogadas criadas por Éder e gols de Icardi e Brozovic.

No intervalo, os jogadores devem ter visto que o Sparta vencia os Saints e se desmotivaram, porque o time voltou transformado em uma versão piorada dos tempos de Mancini e De Boer. O time treinado por Barak Bakhar também voltou diferente e foi para cima, descontando com o brasileiro Lúcio Maranhão, que aproveitou falha de Miranda e, sozinho, cabeceou para as redes.

Minutos depois foi a vez de Murillo falhar e deixar Buzaglo cara a cara com Handanovic: o meia-atacante tentou encobrir o goleiro e errou. Na saída, o esloveno derrubou o adversário e foi expulso por segundo amarelo – levara o primeiro por fazer cera, na primeira etapa. Nwakaeme bateu bem e converteu. A insegurança de Carrizo se fazia sentir e a cada bola fácil que o argentino soltava, o Hapoel Be'er Sheva crescia na partida. Até que Ben Sahar recebeu passe de calcanhar e, nos acréscimos, virou o jogo. Dia histórico para o time de Israel e para a própria Inter, que precisará se refazer emocional e tecnicamente para a disputa da Serie A.

Napoli conseguiu se complicar na LC: poderia se classificar na 3ª rodada e chega
na última partida precisando somar pontos (Getty)
Ainda pela Liga Europa, o Sassuolo também foi eliminado, mas de cabeça erguida. A equipe emiliana começou a competição com ótimos resultados e bom futebol, mas tal qual na Serie A, sofreu com os desfalques de Berardi e Duncan e caiu de rendimento. Nesta quinta, perdeu de 3 a 2 para o Athletic Bilbao e o resultado, aliado à vitória do Genk por 1 a 0 sobre o Rapid Vienna, classificou belgas e bascos. O resultado foi aceitável e valeu pelo espírito de luta e pelo futebol de Ragusa, mas Aduriz foi decisivo – ainda que Balenziaga tenha feito este gol contra impagável.

Por sua vez, a Fiorentina conseguiu se complicar levemente. Não fez um bom jogo contra o Paok e saiu perdendo por 2 a 0; buscou o empate, mas, nos acréscimos, viu o time de Tessalônica achar o gol do 3 a 2, sacramentando o resultado na Toscana. Além de ressuscitar os gregos no Grupo J, a equipe de Paulo Sousa ainda precisará somar pontos na última rodada para garantir a primeira colocação na chave. Isso porque Qarabag (seu próximo adversário, em visita ao Azerbaijão) e Paok agora dividem a vice-liderança com 7 pontos, três a menos que a viola. Os alvinegros da Grécia terão compromisso fácil, contra o eliminado Slovan Liberec.

Quem soube se complicar mesmo foi o Napoli, na Liga dos Campeões. A equipe azzurra teve a chance de ser a primeira equipe na história da competição a se classificar ainda na 3ª rodada e, após resultados ruins, chegará ao último jogo o grupo com grande possibilidade de eliminação. O time de Sarri tem 8 pontos e viajará para Portugal para enfrentar o Benfica, que divide consigo a liderança. Logo atrás, com 7, o ótimo Besiktas visitará o eliminado Dynamo Kyiv. Em caso de vitória turca, só os três pontos interessam aos italianos. Isso porque o Napoli foi incompetente o suficiente para empatar por 0 a 0 contra os ucranianos, em um jogo que teve mais escanteios do que chutes a gol. Sorte da Itália que o coeficiente Uefa não serve mais para muita coisa.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Brasileiros no Calcio: Paulo Sérgio

Tetracampeão em 1994, Paulo Sérgio fez parte de uma Roma que
amadurecia para buscar a conquista do scudetto (The Sun)
A Roma é o time mais brasileiro do futebol italiano e isso se deve ao sucesso que nossos compatriotas tiveram na Cidade Eterna. Um dos 45 jogadores nascidos por aqui que tiveram passagem positiva pelo Olímpico foi o atacante Paulo Sérgio, que defendeu as cores dos giallorossi por duas temporadas e marcou quase 30 gols pelo clube.

Formado no terrão do Corinthians, Paulo Sérgio estreou pelo clube paulista em 1988, quando estava prestes a completar 19 anos. Após alguns jogos pelo alvinegro, o atacante foi emprestado ao Novorizontino, com o intuito de ganhar experiência, e logo deu resultados com a camisa do Tigre do Vale: após um 1989 regular, o atacante foi fundamental no Campeonato Paulista de 1990, do qual a equipe aurinegra, que também tinha o zagueiro Márcio Santos, foi vice-campeã. Após o belo resultado, o técnico Nelsinho Baptista foi contratado pelo Corinthians e decidiu utilizar Paulo Sérgio também no Timão.

No primeiro ano para valer no Parque São Jorge, Paulo Sérgio foi importante na campanha do título brasileiro de 1990 – na ocasião, Neto foi o destaque do Corinthians. Inicialmente reserva, o atacante marcou gols, mas ficou marcado principalmente por sua disciplina tática, versatilidade e por ter feito ótimas partidas na reta final do Brasileirão, conquistado sobre o São Paulo. Paulo Sérgio fez 121 jogos e 47 gols com a camisa do Timão e, em 1993, foi negociado com o Bayer Leverkusen por um valor equivalente a 1 milhão de euros.

Na Alemanha, o brasileiro despontou de vez. Não precisou de tempo de adaptação e explodiu logo no primeira temporada, sendo o destaque do Leverkusen em 1993-94: a equipe ficou com a terceira posição na Bundesliga e ganhou vaga na Copa Uefa muito graças aos 17 gols marcados por Paulo Sérgio. O atacante ficou atrás apenas dos artilheiros, Stefan Kuntz (Kaiserslautern) e Anthony Yeboah (Eintracht Frankfurt), que balançaram as redes em 18 oportunidades.

As grandes atuações e os números de Paulo Sérgio o levaram para a Copa do Mundo de 1994. O jogador paulista já havia sido convocado para vestir a amarelinha algumas vezes desde 1991, mas entrou no grupo como um dos reservas do time de Carlos Alberto Parreira pela ótima forma demonstrada às vésperas da competição. O atacante entrou em campo durante somente 23 minutos, contra Camarões e Suécia, mas pode se orgulhar de ter feito parte da campanha do tetracampeonato do Brasil.

Após o reconhecimento máximo com a seleção, Paulo Sérgio retornou para Leverkusen e viveu anos de altos e baixos pelas aspirinas. Em 1994-95, a equipe foi apenas sétima colocada na Bundesliga, pois se dedicou muito à Copa Uefa, competição em que caiu nas semifinais. diante do Parma – o brasileiro fez quatro gols no torneio continental e um contra os gialloblù, mas não evitou a eliminação. 

Se o Bayer Leverkusen passou 1995-96 lutando contra o rebaixamento, a temporada seguinte foi de redenção para Paulo Sérgio e companhia: o atacante marcou 17 gols novamente e ajudou a equipe a ser vice-campeã alemã e a conquistar uma vaga na Liga dos Campeões. No auge físico, aos 28 anos, chamou a atenção da Roma, que investiu cerca de 6 bilhões de velhas liras para levá-lo à Cidade Eterna.

O atacante brasileiro foi titular de uma Roma treinada por Zeman (Getty)
Paulo Sérgio chegou a uma Roma que, sob o comando do presidente Franco Sensi, começava a ter mais ambições, após anos de baixa no início da década de 1990. A equipe teria vocação ofensiva, já que Zdenek Zeman era o treinador, e o tridente de ataque seria formado pelo brasileiro e também por Abel Balbo e Francesco Totti, com Marco Delvecchio como opção para o segundo tempo. O camisa 7 paulista foi escalado pelo treinador como ponta direita do 4-3-3 e se tornou uma figura central do elenco, entrando em todas as partidas dos romanos na temporada – 40; 34 na Serie A e seis na Coppa Italia. Além de sempre presente, Paulo Sérgio foi o vice-artilheiro da equipe, ao lado de Totti, com 14 tentos anotados (12 deles no Italiano). 

Alguns destes foram fundamentais para fazer da Roma a quarta colocada naquela Serie A, como os marcados diante de Parma, Fiorentina e Milan, equipes que ficaram abaixo dos giallorossi na tabela. O gol contra os rossoneri é o mais lembrado até hoje – mais ainda que o que ele fez sobre a Lazio, na copa: Paulo Sérgio deu um drible da vaca em Alessandro Costacurta e apenas deslocou o goleiro Sebastiano Rossi para guardar o terceiro na goleada por 5 a 0.

Em 1998-99, Balbo trocou a Roma pelo Parma e o tridente romano viu Delvecchio ganhar a titularidade. Paulo Sérgio, por sua vez, continuou atuando pela faixa direita do ataque e marcou os mesmos 12 gols na Serie A que no ano anterior. Se os números foram os mesmos, os romanistas caíram de rendimento e não fizeram um grande campeonato: se esperava que a equipe desse um salto de qualidade, mas o time da capital foi apenas quinto colocado. Apesar dos tentos decisivos contra Milan e Juventus, Paulo Sérgio também não atuou no mesmo nível de 1997-98 e fez apenas nove partidas completas entre 30 disputadas.

O fracasso romano na temporada levou o presidente Sensi a fazer uma pequena reformulação na equipe. Primeiro, Zeman deixou o cargo para dar espaço a Fabio Capello, o que já diminuiria as chances de Paulo Sérgio na equipe, por questões táticas. Quando o friulano revelou o desejo de contar com Vincenzo Montella, o atacante brasileiro acabou negociado com o Bayern Munique, que pagou cerca de 6,6 milhões de euros e o levou de volta para a Alemanha. Com Capello, a Roma finalmente seria campeã, mas Paulo Sérgio não teve essa oportunidade. Ao menos, fez história com os Roten.

O brasileiro vestiu a camisa dos bávaros entre 1999 e 2002, e em Munique conquistou quase todos os títulos de sua carreira – sete das suas nove taças foram levantadas com os gigantes da Baviera. Embora tenha se destacado principalmente em sua primeira temporada pelo Bayern, na qual faturou uma Bundesliga e duas copas locais, Paulo Sérgio fez parte das conquistas de mais um campeonato alemão, de uma Liga dos Campeões e de um Mundial Interclubes. Depois de deixar o clube alemão, o atacante ainda atuou por Al-Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, e pelo Bahia, antes de se aposentar, aos 34 anos, em 2003.

Mais reconhecido no exterior do que no Brasil por sua carreira vitoriosa, Paulo Sérgio ficou muito tempo nos bastidores e atuou como representante do Bayern Munique depois de pendurar as chuteiras. O ex-atacante teve uma breves experiências como treinador, em 2008 (quando trabalhou no Red Bull Brasil), e como diretor esportivo (Juventus da Mooca, em 2011), mas não seguiu carreira. Na televisão, foi apresentador do programa "Menino de Ouro", exibido pelo SBT, e também atuou como comentarista dos canais ESPN. O craque também foi secretário de Esportes de Barueri, cidade da região metropolitana de São Paulo, e hoje se dedica a sua empresa de gestão esportiva, com negócios na Áustria e na Alemanha.

Paulo Sérgio Silvestre do Nascimento
Nascimento: 2 de junho de 1969, em São Paulo
Posição: atacante
Clubes como jogador: Corinthians (1988 e 1990-93), Novorizontino (1989-90), Bayer Leverkusen (1993-97), Roma (1997-99), Bayern Munique (1999-2002), Al-Wahda (2002) e Bahia (2003)
Títulos conquistados: Copa do Mundo (1994), Liga dos Campeões (2001), Mundial Interclubes (2001), Bundesliga (2000 e 2001), Copa da Alemanha (2000), Copa da Liga Alemã (1999 e 2000) e Campeonato Brasileiro (1990).
Seleção brasileira: 13 jogos e 2 gols

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Por que Pratto não deu certo na Itália?

O atacante argentino ficou menos de oito meses no Genoa, que rapidamente o descartou (Getty)
Não há dúvidas de que Lucas Pratto é um dos maiores atacantes que passaram pelo Campeonato Brasileiro desde o início da disputa do torneio no sistema de pontos corridos. O atacante já fez mais de 100 jogos com a camisa do Atlético-MG e, por suas excelentes atuações e seus 42 gols anotados em dois anos de Galo, ganhou vaga na seleção da Argentina – e não só, já que chegou a colocar Sergio Agüero e Gonzalo Higuaín no banco contra a Colômbia. Apesar disso, na melhor chance que teve no futebol europeu, El Oso não decolou: pelo contrário, foi quase um fantasma no Genoa.

Pratto foi revelado nas categorias de base do Boca Juniors, mas recebeu poucas chances pelos xeneizes. Emprestado para Tigre, Lyn (clube da Noruega), Unión de Santa Fe e Universidad Católica, foi somente no Chile que o atacante nascido em La Plata teve destaque. Após marcar 10 gols entre 2010 e 2011, o argentino chegou ao Genoa como um dos principais reforços para a Serie A 2011-12: os grifoni, que haviam terminado a competição na 10ª posição na temporada anterior, investiram nele e no brasileiro Zé Eduardo, pois ambos se destacavam no futebol da América do Sul naquele momento. Pratto, inclusive, era tido como jogador da mesma estirpe de Diego Milito.

El Oso chegou a Gênova logo no início da pré-temporada – o anúncio foi feito no dia 7 de julho e poucos dias depois ele ficou à disposição do treinador Alberto Malesani. O técnico veronês deu confiança rapidamente ao camisa 2 (sim, Pratto escolheu este insólito número), que estreou marcando um gol pelo Genoa, na vitória por 4 a 3 sobre a Nocerina, em partida válida pela Coppa Italia. O primeiro jogo do argentino na Serie A aconteceu na 2ª rodada, contra a Atalanta, mas ele não foi bem e só voltou a começar uma partida pela competição três meses depois, em dezembro. Neste meio tempo, fez outro gol na copa, diante do Bari.

Não foi um erro de avaliação do estilo de jogo ou da capacidade de Pratto que fez com que o argentino fosse relegado. Malesani sempre escalou El Oso com liberdade para se movimentar no ataque, cujo comando dividiu diversas vezes com o compatriota Rodrigo Palacio, em qualquer um dos esquemas utilizados pelos rossoblù na temporada – 4-4-2, 4-3-1-2 ou 3-5-2. No entanto, o jogador platense não fez valer seu porte físico, sua velocidade e seu 1,88m para tentar fazer a diferença.

Se El Trenza realizaria 19 gols na Serie A naquela temporada, Pratto balançou as redes apenas uma vez no torneio, em meados de dezembro. Na 16ª rodada do campeonato, o camisa 2 foi escalado como titular ao lado de Zé Love, graças à ausência de Palacio, e decidiu a partida contra o Bologna: foi o melhor em campo e participou da vitória com uma preciosa assistência para o gol de Marco Rossi e com um tiro certeiro de fora da área, que colocou o 2 a 1 no placar final. 

Aquela acabou sendo a penúltima partida de Pratto pelo time do Marassi, já que Malesani foi demitido às vésperas do natal e o seu substituto, Pasquale Marino, o colocou na geladeira. Famoso por fazer negócios a atacado nas janelas de transferências, o presidente Enrico Preziosi atendeu aos pedidos de Marino e reforçou o ataque com Giuseppe Sculli e Alberto Gilardino (o último já havia sido sondado meses antes), que o treinador achava mais adaptáveis ao 4-3-3 e a seus conceitos táticos. Encostado, o jogador de La Plata passou todo o mês de janeiro sem ser utilizado, o que só aumentou sua insatisfação com a vida na Itália.

Em 8 de fevereiro de 2012, dias após o encerramento da janela europeia, o Vélez Sarsfield fez uma proposta ao Genoa para repatriar o atacante. O descontentamento de Pratto coincidiu com a conhecida impaciência de Preziosi com a adaptação dos reforços e sua falta de critério (a não ser o econômico) nos negócios, o que acelerou a transação. Após somente sete meses, 16 jogos e três gols, El Oso voltou à Argentina, cedido por um empréstimo avaliado em 500 mil euros e opção de compra por 3 milhões. Um valor inferior ao que o Grifone tinha pagado por Pratto: algo em torno de 4,5 milhões de dólares.

A volta a Buenos Aires não poderia ter feito melhor a Pratto, que foi um destaques da conquista do Campeonato Argentino pelo Vélez e acabou tendo sua contratação em definitivo solicitada pelo técnico Ricardo Gareca. A partir de 2013, o atacante começou a viver a melhor fase de sua carreira, se tornando ídolo para a torcida de El Fortín, com a conquista de títulos, prêmios individuais e muitos gols anotados – feitos que também acumula no Atlético-MG. Olhando para trás, não dá para não sublinhar que o Genoa perdeu um excelente atacante (ou, no mínimo, mais alguns milhões de euros) por impaciência e má gestão. Sorte da massa atleticana.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Tenham calma, Gabigol vai jogar pela Inter

Gabriel implora para que a mídia brasileira pare de cobrar sua presença em campo pela Inter (AFP)
Uma partida da Inter com transmissão para o Brasil é sinônimo de uma coisa: pedidos por Gabigol em campo. Narradores, comentaristas e/ou ~amigos internautas~ questionam a qualidade do elenco da Beneamata e dizem que o ex-atacante do Santos tem espaço entre os titulares, a todo momento reclamam das substituições realizadas e acham inconcebível que ele esquente o banco nerazzurro – no último domingo, no clássico contra o Milan, houve quem levantasse a hipótese de haver preconceito com o atleta. O conselho do blog para quem não se conforma com a atual situação do jogador está no título do texto: tomem um chá de camomila e tenham paciência, pois Gabriel terá espaço.

Desconsiderando pontos de vista que beiram o pachequismo e o total desconhecimento de como funciona o futebol italiano, não é tão difícil entender porque Gabriel atuou por somente 16 minutos em uma partida oficial com a Inter – na reta final do jogo contra o Bologna, em setembro. Os motivos são diversos e passam por questões que precisam ser melhor trabalhadas no atacante e também pela própria precaução do clube para fazer com que o grande investimento feito para levá-lo à Itália tenha valido a pena. As agremiações do Belpaese são conservadoras neste sentido.

Para começar, Gabigol não é unanimidade nem mesmo aqui no Brasil, por causa de seu temperamento: o atacante é, por vezes, considerado imaturo, desligado e também nervoso com os adversários. Em parte, isto faz com que ele não seja "jogado aos leões" logo de cara. O diretor esportivo nerazzurro, Piero Ausilio, já afirmou que o brasileiro precisa entender primeiro os mecanismos do futebol na Velha Bota e que dosar a sua participação é uma forma de preservar o seu futebol. Neste estágio, é importante não queimar etapas.

Isso significa que a diretoria do clube crê que é interessante que Gabriel aprenda mais com os treinadores e os companheiros mais experientes. No momento, o brasileiro deve ficar focado principalmente em estudar como se comportam os adversários, evoluir em questões táticas e comportamentais, e dominar a língua e aspectos culturais do país. Enfim, tudo o que perpasse a adaptação de qualquer jogador a uma nova realidade futebolística e de vivência.

Um argumento plausível seria o de que grande parte desses elementos se aprendem em campo. Sim, de fato, a prática é importantíssima, pois não é possível ficar apenas na teoria. O problema é que a Inter vive um momento caótico, muito complicado nos bastidores e que compromete também as atuações da equipe. Em quase todo fim de semana, os nerazzurri tem entrado em campo pressionados, com a corda no pescoço. Este seria o melhor momento para lançar um jovem jogador, qualquer que seja? Tratar Gabriel como salvador da pátria é depositar falsas expectativas e um peso enorme sobre os ombros do brasileiro.

O caos na Inter – sobre o qual falamos aqui – vem de muito tempo e um de seus desdobramentos deste ano afetou Gabigol. A contratação do brasileiro foi finalizada quando Roberto Mancini ainda era o treinador da equipe e a troca por Frank De Boer, ainda na pré-temporada, fez com que o atacante de 20 anos ficasse no final da lista de preferências do holandês para o setor. Após a sua demissão ser consumada, Ronald De Boer deixou claro que Gabigol não era um dos favoritos do seu irmão.

Com Pioli é diferente. O treinador chegou em Milão durante a data Fifa, época em que muitos jogadores não estavam presentes em La Pinetina, uma vez que haviam sido convocados para suas seleções. Gabriel, por sua vez, participou dos primeiros treinamentos e recebeu atenção especial do técnico, com o qual parece ter relação melhor. A comemoração dos dois após o gol que definiu o empate por 2 a 2 no Derby della Madonnina é um sinal de sintonia e também de que o jogador parece entender a sua função no elenco neste momento. A tendência é que o campeão olímpico receba chances.

Ainda assim, a Beneamata tem muitas opções para o ataque: além do paulista, Icardi, Éder, Candreva, Perisic, Jovetic e Biabiany também brigam por posição, e mesmo Banega, Brozovic e João Mário podem atuar centralizados na segunda linha de meias do 4-2-3-1. Com tantos concorrentes, o normal seria que Gabriel recebesse oportunidades na Coppa Italia – cuja participação da Inter começa apenas em janeiro – ou na Liga Europa. No entanto, o brasileiro não foi inscrito na competição continental, uma vez que a equipe italiana cumpre punição por desrespeitar o Fair Play Financeiro da Uefa e, além de ter o elenco reduzido para 21 peças, não relacionou os mais caros contratados de 2016-17. Uma situação atípica, portanto. Tivesse sido adquirido sob outro contexto, Gabigol provavelmente já teria recebido mais minutos de jogo.

Se nas competições em que poderia atuar, ele não joga, por que a Inter não o deixou no Santos até dezembro ou o emprestou para outra equipe? Simples: tal qual o Milan fez com Thiago Silva, em 2009, a Inter preferiu levar Gabriel Barbosa para Milão mesmo antes de ele estar 100% apto para jogo – justamente para fazer a adaptação que mencionamos acima. Resta ainda lembrar que a temporada do brasileiro começou em janeiro e ele fez 40 jogos neste ano, boa parte deles na Olimpíada do Rio de Janeiro, quando seus companheiros treinavam e se preparavam para o início da Serie A. Treinadores e cartolas do clube já afirmaram que não ter realizado a pré-temporada faz com que Gabigol esteja com condicionamento físico inferior ao do restante do elenco. A expectativa é que ele esteja pronto em janeiro, quando a temporada do futebol brasileiro, a qual ele estava adaptado, estará começando.

Então, leitor fã de Gabigol, voltamos a dizer: fique tranquilo. Quem mais tem interesse que Gabriel jogue é a própria Inter, que desembolsou quase 30 milhões de euros para ter o seu futebol à disposição. Se o brasileiro não joga, acaba se desvalorizando, e além do prejuízo financeiro, a agremiação nerazzurra mancha sua reputação de negociadora mais uma vez – algo que a família Zhang, dona do clube há pouquíssimo, certamente não deseja, por questão de credibilidade com a torcida e com o próprio mercado. Algo que já é lembrado todas as vezes que Philippe Coutinho, pouco utilizado em Milão, tem uma atuação de gala com a camisa do Liverpool. Não é necessário relembrar aos interistas que paciência é fundamental e que ver Gabriel Barbosa estourar em outro clube está fora de cogitação para a turma de Appiano Gentile.