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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Chata, eu?

Com um dos melhores ataques da Europa, o Napoli mostra que há jogo ofensivo na Itália (LaPresse)
Pergunte a qualquer pessoa que não tenha o hábito de assistir partidas da Serie A quais são os motivos para ela não acompanhar o futebol italiano e a resposta será quase unânime: "porque é chato". Bom, talvez seja a hora de mostrar a estes amigos que tal preconceito está mais que ultrapassado e já não tem nem mais fundamento histórico.

Nenhum país do mundo tem uma cultura tática tão difundida quanto a Itália. Durante muito tempo, um técnico que entendia de futebol na Velha Bota deveria armar times imbatíveis não baseado em uma enorme força ofensiva, mas de modo a fazê-los capazes de apresentarem movimentos bem definidos, solidez defensiva e serem letais no contra-ataque.

Com influência da escola austríaca, o catenaccio foi a forma de interpretar o esporte que mais se disseminou no Belpaese a partir dos anos 1950 e foi a chave do sucesso de grandes equipes, que tiveram sucesso internacional, além de base para esquemas táticos que predominaram até meados dos anos 1990. Identificados com esta tradição, técnicos como Helenio Herrera, Nereo Rocco, Gipo Viani, Giovanni Trapattoni, Fabio Capello e Marcelo Lippi fizeram história.

Isso não significa, porém, que tenha sido sempre assim. Antes de os placares ficarem mais magros, a partir da década de 1950 (e especialmente nos anos 1970 e início dos 1980), o Grande Torino se constituiu como um dos maiores exemplos de futebol bem jogado da história do esporte. A Itália só voltaria a ver um futebol tão ofensivo – embora mais organizado taticamente – a partir da revolução de Arrigo Sacchi no Milan, entre 1987 e 1991. Hoje, a Serie A é muito mais sacchiana do que trapattoniana.

>>> Saiba mais em nosso Guia tático: parte 1 | parte 2 | parte 3 | parte 4

Neste momento, o Campeonato Italiano se divide entre times que valorizam mais a posse de bola propositiva – inspirados na mudança de mentalidade promovida por Pep Guardiola e nas aplicações à italiana, adotadas por Cesare Prandelli –; os que buscam jogo mais direto, muitas vezes pelas pontas, e também entre os que apostam em sistemas híbridos. Quase todos, porém, atuam com três atacantes e tem mostrado conceitos muito mais ligados a um futebol que busca mais marcar gols do que propriamente evitá-los.

Prova disso é que as redes já balançaram 688 vezes em 24 rodadas, o que dá ao campeonato uma média de 2,78 gols por partida. É a terceira maior média entre as cinco maiores ligas do continente europeu, perdendo para os campeonatos Espanhol (2,89) e Inglês (2,81), mas à frente da incensada Bundesliga alemã (2,67). A rodada com menos gols nesta Serie A teve 21 tentos anotados, enquanto quatro jornadas atingiram a marca de 33 gritos arrancados das gargantas. Por cinco vezes ao longo do certame os placares ainda registraram oito gols marcados em uma única partida: Cagliari 3-5 Fiorentina; Napoli 5-3 Torino; Bologna 1-7 Napoli; Pescara 2-6 Lazio; Torino 5-3 Pescara.

Para quem acompanha de perto o futebol da Bota não é novidade. Os times que ocupam a parte de cima da tabela da Serie A 2016-17 tem privilegiado, em sua maioria, projetos que promovem estilos mais soltos de jogar futebol. São equipes que gostam muito de ficar com a bola, apresentam muita agressividade e tem ataques bastante positivos: dos 10 primeiros, somente Milan e Sampdoria deixam a desejar, ao passo que Juventus, Roma e Napoli tem médias superiores a dois gols por partida. Se, tempos atrás, Luciano Spalletti e sua Roma eram o maior expoente de futebol ofensivo do Belpaese, hoje este posto é ocupado pelo Napoli de Maurizio Sarri, um dos times mais agradáveis de toda a Europa.

Obcecado por futebol, Sarri é o discípulo de Sacchi que adaptou da melhor forma o estilo do milanista à modernidade e ao atual estado da arte do futebol italiano. Os azzurri jogam com muita movimentação sem a bola e com rápidas trocas objetivas de passes, sem que a bola fique muito no pé de cada peça do esquema. Fundamental para fazer o jogo fluir, o capitão Hamsík é o jogador do futebol europeu com mais passes completados em 2017 (421) e lidera o quesito na Itália, se considerarmos toda a temporada – são 1662 passes certos, que lhe conferem também o terceiro posto no continente.

Além dos toques curtos e rápidos, é bem comum que o time faça, a partir do eslovaco e Zielinski, inversões com bolas longas para Callejón ou Insigne. Nesta temporada, ao inventar Mertens como um falso 9, que não se fixa na zona central do ataque, Sarri aprimorou as suas ideias e fez do Napoli o time que tem o futebol mais estimulante do país e um dos mais encantadores da Europa. Os partenopei têm o melhor ataque da Serie A, com 57 gols, e o terceiro mais positivo das grandes ligas nacionais europeias, atrás apenas de Barcelona (61) e Monaco (75).

Ontem, Sarri e seu Napoli assustaram o Real Madrid, mas perderam a partida de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões. Embora o resultado tenha sido negativo, o golaço que abriu a contagem no Santiago Bernabéu é a pura essência do que o técnico ensina à sua equipe; um estilo que metade dos times da Itália buscam e às vezes até conseguem executar – com menções para a Juve de Allegri, a Roma de Spalletti, a Atalanta de Gasperini, a Inter de Pioli, a Fiorentina de Paulo Sousa e o Sassuolo de Di Francesco. Quando te disserem novamente que o futebol italiano é um saco, mostre a jogada do gol de Insigne. Depois, peça para que a pessoa lhe agradeça de joelhos por ter visto este golaço e se livrado de um preconceito.

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