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quarta-feira, 15 de março de 2017

Clubes italianos tentam vencer a burocracia para inaugurarem novos estádios

Projeto original do novo estádio da Roma, que já teve de ser
alterado por solicitação da prefeitura (Divulgação)
As últimas semanas foram cheias de novidades no extracampo do futebol italiano. A começar pela reeleição do presidente da Federação Italiana de Futebol – FIGC, Carlo Tavecchio, que terá mandato até 2020. Apoiado pela maior parte dos grandes clubes do país, o dirigente teve como um dos mantras na campanha a candidatura da Itália para sediar a Euro 2028. Proposta ousada, tendo em vista a situação financeira e estrutural do país, que também impacta no futebol – em especial, nos estádios.

Atualmente, apenas quatro no país estão na categoria 4 da Uefa, maior nível técnico de classificação medido pela administradora do futebol europeu: Olímpico (Roma), San Siro (Milão), Olímpico Grande Torino e Juventus Stadium (Turim). De forma geral, a última grande reforma nas praças futebolísticas do Belpaese aconteceu para a Copa do Mundo de 1990. Quase três décadas se passaram e muito pouco mudou.

Entre os estádios usados no Mundial, o Olímpico de Roma e o San Siro tiveram algumas reformas, estão na maior categoria da Uefa, mas ainda tem uma estrutura envelhecida – principalmente se os compararmos com outros grandes palcos do futebol europeu. Ambos continuam recebendo grandes jogos: a arena de Milão hospedou a final da Liga dos Campeões em 2016 e a romana será uma das sedes da itinerante Euro 2020, com jogos da fase de grupos e das quartas de final.

Enquanto o Delle Alpi (Turim) nem existe mais, Marcantonio Bentegodi (Verona), Renato Dall'Ara (Bolonha) e San Nicola (Bari) estão não estão em boas condições – especialmente o último, que teve problemas graves nos últimos anos. O Sant'Elia (Cagliari), um dos maiores elefantes brancos daquele Mundial, chegou a ser interditado pela prefeitura da cidade sarda e, após uma série de intervenções foi reaberto: adaptado, com três arquibancadas de metal em cima da pista de atletismo, está liberado para receber apenas ¼ da sua capacidade total.

Com fachada feita nos anos 1950 e renovada para a Copa de 1990, o San Siro é um dos mais
charmosos estádios do mundo, mas pode melhorar (Divulgação)
Pela participação dos clubes mandantes e concessionários em competições internacionais, os estádios Artemio Franchi (Florença), Luigi Ferraris (Gênova), Renzo Barbera (Palermo) e San Paolo (Nápoles) tiveram pequenas reformas nas tribunas e nos vestiários, mas as estruturas continuam obsoletas. O Friuli (Údine), hoje Dacia Arena, foi o único a ter sido remodelado – na verdade, reconstruído. Muito pouco sobrou do simpático estádio, que ganhou um belo visual e agora é de propriedade da Udinese, sob concessão de 100 anos junto à prefeitura.

>>> Saiba mais: Como a Copa de 90 ajudou a frear o futebol na Itália

A arena no nordeste italiano foi uma das primeiras de propriedade privada do país, diretamente ligada aos clubes – e ainda é uma das três da primeira divisão, ao lado das casas de Juve e Sassuolo. Pioneira, a Juventus acertou em cheio com o seu J-Stadium e abriu os olhos do outros clubes da Serie A. Em tempos de crise, com as prefeituras abarrotadas de dívidas e preocupadas com problemas sociais mais urgentes, os estádios não tiveram renovação ou reformas necessárias e se tornaram um dos principais motivos para a evasão dos torcedores e a queda de público do campeonato.

Por isso, depender do governo – em qualquer instância, municipal, regional ou nacional – não é mais uma opção para os clubes italianos. A Juventus aproveitou muito bem o terreno comprado junto à prefeitura de Turim para construir um centro esportivo e comercial, que vai muito além da arena, para dar uma experiência muito melhor para torcedores e turistas e aumentar a própria arrecadação. Pela força política da família Agnelli, conseguir o terreno e investidores não foi tão complicado, mas a burocracia italiana tem frustrado projetos similares.

Se, por um lado, a Udinese conseguiu construir seu estádio com o apoio de sua patrocinadora e o novato Sassuolo ganhou da patrocinadora Mapei sua casa (ainda que a alguns quilômetros de sua cidade), Inter, Milan, Roma e Napoli são exemplos de clubes grandes que esbarraram na burocracia. As prefeituras não têm sido favoráveis para os projetos de locais que poderiam mudar a cidade e ajudar a recuperar o crescimento. Porque, mesmo com investidores e planejamentos prontos, precisam do terreno e da aprovação do conselho municipal.

Fiorentina: o presidente Della Valle observa a maquete do estádio que o clube quer construir (La Repubblica)
Por exemplo, a Inter já estruturou um projeto para fazer uma grande reforma no San Siro, transformando o terceiro anel em uma área comercial, sem cadeiras, e realizando a renovação de todos os setores, banheiros, áreas de convivência e da parte externa do "Scala del Calcio". Claro, tornando o estádio de sua propriedade, ou em conjunto com o Milan. Hoje, os clubes administram o Giuseppe Meazza através de um consórcio e devem se reportar ao Conselho Municipal, além de pagar nove milhões de euros por ano pela concessão exclusiva de um estádio que não gera dividendos a não ser em dias de jogos.

O impasse está na aprovação do conselho local, mesmo que já exista o posicionamento favorável do prefeito Giuseppe Sala. Outro fator importante é a indefinição societária do Milan, em meio às negociações entre Fininvest e Sino-Europe Sports na passagem de propriedade do clube. A própria agremiação rossonera planejou há dois anos seu próprio estádio, na área de Portello, mas desistiu e recentemente teve que pagar cinco milhões de euros de indenização à prefeitura – o processo previa o ressarcimento de 40 milhões, mas as partes chegaram a um acordo.

Se no centro financeiro da Itália a burocracia emperra os projetos, na caótica capital não é diferente. Depois de muita luta, a Roma conseguiu uma abertura com a prefeita Virginia Raggi e relançou o plano de abrir sua nova casa até 2022, juntamente com uma grande área comercial que teria investimentos de cerca de 2 bilhões de euros, sendo 400 milhões destinados ao estádio com capacidade para 52 mil espectadores e possibilidade de expansão para 60 mil. O projeto teve de ser readequado por questões ambientais e por pedido da prefeitura: entre as modificações, as duas torres comerciais que seriam construídas na vizinhança não existirão mais.

Por sua vez, o Napoli, na figura do seu presidente, Aurelio De Laurentiis, tem travado uma guerra com o conselho municipal napolitano, que rejeitou os planos de reestruturação do San Paolo e não colabora com o clube na busca por uma área para construir um novo estádio. A falta de apoio dos municípios é um problema corriqueiro, de norte a sul da Velha Bota.

Na semana passada, a bola da vez foi a Fiorentina, que finalmente lançou o projeto de uma nova arena. O “Renascimento viola”, se inspira no histórico da cidade de Florença, berço do Renascimento italiano, e prevê uma arena para 40 mil espectadores a um custo de 420 milhões de euros e que deve levar dois anos para ser construída, a partir de 2019. O belo projeto do clube é audacioso, mas não há nenhuma certeza de que irá avante. Por enquanto, é apenas mais um entre tantos projetos.

O estádio Renato Dall'Ara e a histórica Torre de Maratona: é mais trabalhoso recuperar
um estádio com valor arquitetônico tão único (Tutto Bologna Web)
Outro clube que também está pensando em se renovar é o Cagliari, que também anunciou na última semana um plano para desocupar o Sant’Elia, antes de demoli-lo e construir um novo estádio no mesmo local. Enquanto erguem sua nova casa, os sardos pretendem usar as três arquibancadas de metal instaladas na pista de atletismo do estádio e a arquibancada principal da Is Arenas – outra praça cagliaritana já utilizada pelo clube, durante a interdição do Sant'Elia – e assim construir um campo improvisado no estacionamento, com lugar para pouco mais de 16 mil espectadores. Segundo o clube, o conselho municipal e o governo da região deram o aval e os trabalhos serão iniciados em abril.

Atalanta, Empoli e Torino já divulgaram planos para casas próprias, mas após mais de um ano desde que os projetos vieram à tona, muito pouco foi feito. O time de Turim, na verdade, decidiu transformar o histórico estádio Filadelfia em um complexo esportivo, com um campo principal para acomodar 4 mil lugares e campos secundários para treinamentos da equipe principal e Primavera, que mandará seus jogos lá. O Toro também transferiu a sede do clube para o local, e fará um museu e uma pousada para o setor juvenil. Já o Bologna e seus ambiciosos sócios tiveram a primeira aprovação para reformar o Renato Dall’Ara, um dos estádios mais antigos da Itália e conhecido mundialmente pela Torre de Maratona, que fica em uma das tribunas e foi concluída em 1929.

Entre projetos frustrados e novos anúncios, os clubes italianos tentam dar um passo importante para voltarem à grandeza, mas por enquanto esbarram na burocracia, na própria incompetência: na falta de dinheiro em caixa, faltam soluções criativas. Se a Udinese planeja ter lucro com seu estádio daqui a cinco anos, a Suning parece ter outras ideias para a Inter e os torcedores laziali estão em guerra com o presidente Lotito. Em meio a um ambiente de insegurança e com tantas realidades diferentes, ao menos os primeiros passos começam a ser dados. Resta saber se a caminhada continuará ou se acabará como grande parte dos projetos de arenas nos últimos anos: natimorta.

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