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domingo, 30 de abril de 2017

34ª rodada: Sujeito de sorte

Keita decidiu o dérbi de Roma e adicionou mais um grande feito ao ótimo
campeonato que ele próprio e a sua Lazio vem realizando (LaPresse)
Quem viver, verá. O Campeonato Italiano está chegando ao fim e, nas últimas curvas de sua estrada, haverá quem encontrará um punhal de amor traído e ficará pelo meio do caminho, podendo apenas analisar as retas paralelas que completaram este destino. Haverá quem precisará suportar o dia a dia como uma triste alucinação e quem terá delírios graças às experiências com coisas reais, bastante agradáveis – vagas nas competições europeias e um scudetto, por exemplo. Certamente haverá muitos torcedores mais angustiados que um goleiro na hora do gol. Mas, no fim das contas, tudo faz parte da divina comédia humana e nada é eterno.

Neste fim de semana, no qual o Brasil perdeu Belchior – o bardo que tentamos homenagear com algumas palavras tortas nesta introdução –, a Juventus deu mais um passo rumo ao hexacampeonato; a Lazio venceu a Roma no clássico da capital; o Napoli encostou e acirrou a briga pelo segundo lugar; a Atalanta mais uma vez surpreendeu; e Milan, Inter e Fiorentina tropeçaram outra vez. Acompanhe o resumo da 34ª rodada. E ouça Belchior.

Roma 1-3 Lazio
De Rossi (pênalti) | Keita (Milinkovic-Savic), Basta, Keita (Lulic)

Tops: Keita e Strakosha (Lazio) | Flops: El Shaarawy e Strootman (Roma)

Em termos de tabela, era a Roma que precisava mais da vitória, mas foi a Lazio que soube fazer o jogo e ficou com o triunfo no dérbi da Cidade Eterna. Embalada por atuações muito boas de Keita (o homem da partida), Milinkovic-Savic e Biglia, a equipe celeste venceu com certa facilidade e infligiu à arquirrival a maior derrota nos últimos 20 confrontos no clássico. Matematicamente, a Lazio ainda não garantiu vaga na Liga Europa, mas como tem 11 pontos de vantagem sobre a Inter, sétima colocada, e serão disputados somente 12, já dá para cravar o time de Simone Inzaghi nos grupos da competição. Já a Roma complicou seus planos de ficar com a segunda posição na Serie A e obter a classificação direta à Liga dos Campeões: tem tabela complicada e viu o Napoli encostar.

Os primeiros minutos enganaram um pouco. Foi a Roma que chegou perto do gol, com Dzeko e Salah, mas os lances que obrigaram Strakosha a fazer ótimas defesas acabariam sendo uma das poucas vezes que os dois atacantes levariam perigo. Ainda no primeiro tempo, Keita abriria o placar, mostrando que a lesão de Immobile no aquecimento não seria um obstáculo tão grande para a Lazio – como falso nove, o senegalês fez excelente partida e deixou Rüdiger e Manolas atônitos. O pênalti inventado pela arbitragem e cavado com muita desonestidade por Strootman permitiu a De Rossi deixar tudo igual, mas ficou por aí – a não ser por mais uma defesaça de Strakosha logo na volta do intervalo. Spalletti mexeu mal em um time que já não rendia (Nainggolan, El Shaarawy, Strootman e Salah estiveram abaixo da crítica) e a entrada de Bruno Peres no lugar do Pequeno Faraó empurrou a Lazio ao ataque. Os gols de Basta e Keita dariam números finais à partida: nem mesmo a entrada de Totti fez efeito e o capitão saiu derrotado naquele que deve ser seu último dérbi.

Inter 0-1 Napoli
Callejón

Tops: Handanovic (Inter) e Koulibaly (Napoli) | Flops: Nagatomo (Inter) e Hamsík (Napoli)

Se concentração ganhasse jogo, o time do presídio seria sempre campeão, já diz a infame pérola esportiva. Pelo visto, a máxima nunca foi ouvida pelos lados de La Pinetina, centro de treinamentos da Inter: a equipe passou a semana isolada para trabalhar, mas voltou a apresentar um futebol muito pobre, foi uma presa fácil para o Napoli e poderia ter saído de San Siro com um resultado mais elástico. Houve torcedor que agradeceu aos céus pelas defesas de Handanovic e pelas partidas abaixo da crítica de Mertens e Hamsík, que desperdiçaram chances claras de gol. A Beneamata, por sua vez, mal fez cócegas em Reina – vale destacar que a defesa napolitana esteve bem postada e atuou bem; Koulibaly em especial.

O resultado deixa o Napoli apenas um ponto atrás da Roma, o que significa que o vice-campeonato é um sonho muito possível – sobretudo porque o time capitolino ainda enfrenta Milan e Juventus. A equipe azzurra dominou mais um adversário de relevo e conseguiu um feito inédito: pela primeira vez ganhou de todos os times de Roma e Milão fora de casa em uma mesma edição da Serie A. O gol da partida surgiu depois de uma das inúmeras oportunidades criadas por Insigne, um dos melhores em campo: ele inverteu o jogo para Callejón e o espanhol contou com falha de Nagatomo para balançar as redes. Um gol com a cara do time de Sarri.

Atalanta 2-2 Juventus
Conti (Gómez), Freuler | Spinazzola (contra), Daniel Alves (Pjanic)

Tops: Conti (Atalanta) e Buffon (Juventus) | Flops: Spinazzola (Atalanta) e Cuadrado (Juventus)

No duelo entre a sensação da temporada e a futura hexacampeã, uma igualdade que interessou a ambas. A Atalanta encerrou uma série de 14 derrotas seguidas para a Juve e ganhou um ponto valioso para se classificar à Liga Europa, ao passo que a Velha Senhora aumentou sua vantagem em relação à Roma para nove pontos. A Juventus, inclusive, pode levantar a taça na próxima rodada, se conseguir ampliar a distância para a rival, e em uma rodada doce: recebe o Torino, no sábado, enquanto os romanos visitam o Milan.

Em Bérgamo, La Dea foi um grande adversário às vésperas da partida contra o Monaco: o time bem treinado por Gasperini dominou grande parte do jogo, combateu no meio-campo e abriu o placar, com o ótimo lateral Conti. Após o intervalo, os bianconeri mostraram sua força e colocaram a defesa bergamasca em afã com bolas na área: Spinazzola fez contra, Daniel Alves xerocou o gol de Lichtsteiner no mesmo estádio, dois anos atrás, e ainda houve reclamações de pênalti. Após a virada, porém, Freuler aproveitou raro erro da defesa juventina e deu números finais à partida.

Crotone 1-1 Milan
Trotta (Nalini) | Paletta (Kucka)

Tops: Cordaz (Crotone) e Donnarumma (Milan) | Flops: Stoian (Crotone) e Deulofeu (Milan)

Se estivesse jogando assim desde o início da temporada, o Crotone não estaria brigando para deixar a zona de rebaixamento. Pode ser tarde demais para os calabreses, mas não dá para negar o quanto a garra da equipe tem encantado na reta final da Serie A. O primeiro tempo intenso, no qual Donnarumma teve de fazer uma grande defesa com um minuto de bola rolando e buscou a bola nas redes com oito, foi um dos grandes momentos dos pitagóricos em 2016-17. A incômoda dupla de ataque formada por Trotta e Falcinelli impôs pressão à falha defesa rossonera enquanto teve fôlego, tal qual seus companheiros seguravam a barra atrás. Após o intervalo, um desconexo Milan intensificou os ataques e, na base do abafa, conseguiu empatar a partida e também exigiu do goleiro Cordaz mais uma boa exibição. O empate, pasmem, acabou sendo mais útil para o time da Lombardia, uma vez que Inter e Fiorentina perderam e se afastaram da zona Europa. O Crotone, que tinha uma vitória nas mãos, poderia ter ficado a dois pontos do Empoli, primeiro time acima da zona de rebaixamento; agora está a quatro.

Gol solitário de Callejón aproximou o Napoli da Roma e reaqueceu disputa pelo vice (Foto Mosca)
Palermo 2-0 Fiorentina
Diamanti, Aleesami

Tops: Diamanti e Goldaniga (Palermo) | Flops: Salcedo e Sánchez (Fiorentina)

Um suspiro antes da queda. O rebaixamento do Palermo só precisa ser confirmado pela matemática, mas ao menos os rosanero deram uma última alegria para sua torcida, que não comemorava uma vitória em casa havia três meses. Pelo lado da Fiorentina, pura decepção e mais uma partida que ratifica o quanto o time atua aquém do que pode e que a vaga na Liga Europa, apesar de virtualmente possível, não deve ser conquistada. Naquele que o técnico Paulo Sousa classificou como "o pior jogo da minha gestão de dois anos", a Fiorentina não teve criatividade para quebrar as linhas do Palermo e, quando o fez, ou teve gol corretamente anulado, de Chiesa, ou teve o estreante Mlakar desperdiçando chance incrível. Os sicilianos, então, aproveitaram a partida negativa de toda a defesa viola: após Salcedo cometer falta boba na entrada da área, Diamanti fez valer sua especialidade e abriu o placar. Já na reta final do jogo, o bom lateral Aleesami fechou a conta.

Torino 1-1 Sampdoria
Iturbe | Schick (Linetty)

Tops: Boyé (Torino) e Silvestre (Sampdoria) | Flops: Ljajic (Torino) e Regini (Sampdoria)

Um jogo que não contava nada para efeito de tabela poderia ser a situação ideal para que Belotti se isolasse na artilharia da Serie A, certo? Mihajlovic quis ajudar o seu goleador e, diante do seu antigo time, montou um esquema bastante ofensivo: Boyé, Falqué e Ljajic davam suporte ao centroavante, mas somente o argentino fez um bom jogo, ao passo que o espanhol e o sérvio estiveram muito imprecisos e desligados. Belotti passou em branco, mas outra sensação da temporada deixou o dele, e com estilo: o checo Schick marcou seu 11º na Serie A, acertando o ângulo e abrindo o placar. A defesa doriana se fechava com solidez frente à pressão grená, até que Regini cometeu erro crasso e cedeu o empate. Iturbe, que entrou no segundo tempo, marcou seu primeiro pelo Toro e deu números finais à partida.

Empoli 1-3 Sassuolo
Pucciarelli (pênalti) | Peluso, Matri (Berardi), Duncan

Tops: Duncan e Consigli (Sassuolo) | Flops: Laurini e Bellusci (Empoli)

O Empoli freou – e feio. Após vitórias fora de casa contra Fiorentina e Milan, os azzurri implodiram diante do Sassuolo e viram o Crotone encostar: agora, o time da Calábria está apenas quatro pontos atrás e ameaça fazer a ultrapassagem, colocando o adversário na zona de rebaixamento. A coleção de falhas na defesa toscana (sem trocadilhos) poderia ter feito o Sassuolo aplicar uma goleada no estádio Carlo Castellani, mas somente a trombada de Barba e Bellusci foi aproveitada por Berardi e Matri – os outros gols foram marcados graças ao oportunismo de Peluso e a uma bomba de Duncan. O Empoli marcou com Pucciarelli, mas só ameaçou mesmo quando os neroverdi já haviam feito 3 a 1 e relaxaram. Dessa forma, coube a Consigli garantir o resultado, fazendo boas defesas contra Barba, Pucciarelli e Krunic.

Genoa 1-2 Chievo
Pandev (Laxalt) | Bastien (Castro), Birsa (Gobbi)

Tops: Pandev (Genoa) e Gobbi (Chievo) | Flops: Muñoz (Genoa) e Depaoli (Chievo)

O choro e a incredulidade do técnico Juric no fim do jogo explicam bem o momento do Genoa. A equipe lígure estava no meio da tabela, mas venceu apenas uma vez nas últimas 20 (!) rodadas e vê o rebaixamento como uma possibilidade: hoje, encontra-se somente cinco pontos acima da zona da degola. O time rossoblù tem mostrado debilidade nos aspectos físico e psicológico, algo que ficou nítido neste domingo, seja com o pênalti desperdiçado por Simeone ou pela desatenção dos jogadores depois que a partida foi interrompida por sinalizadores atirados no gramado. O Genoa chegou a aproveitar a inexperiência do jovem Depaoli na lateral direita, empenhando-o com as subidas de Laxalt – foi por ali que foram criadas as jogadas do pênalti e do gol de Pandev –, mas ruiu no segundo tempo e levou a virada antes da metade do segundo tempo. Com o resultado, a equipe de Maran reencontra o triunfo após cinco jogos sem pontuar.

Bologna 4-0 Udinese
Destro (Donsah), Taïder (Krejci), Destro, Danilo (contra)

Tops: Destro e Verdi (Bologna) | Flops: Danilo e Felipe (Udinese)

É necessário se esforçar muito para levar quatro gols do Bologna nesta Serie A – se ainda houver um combo com doppietta de Destro, então... Pois bem, a Udinese conseguiu e permitiu aos rossoblù vencerem a primeira após três derrotas e ao centroavante balançar as redes em duas partidas consecutivas. Em uma de suas piores atuações neste campeonato, a equipe friulana não criou praticamente nada e nem mesmo soube reagir aos ataques dos felsinei, que abriram o placar logo aos 2 minutos, com Destro. Os donos da casa atuaram com um meio-campo bastante desfalcado, mas dominaram facilmente as ações no setor, sobretudo por causa das ótimas partidas de Donsah, Verdi e Krejci. Após o 2 a 0 anotado por Taïder antes do intervalo, Verdi se soltou mais e foi o grande nome da segunda etapa, participando dos outros gols do jogo e sacramentando a goleada. Em termos práticos, o resultado não altera nada no campeonato: as equipes apenas cumpriam tabela.

Cagliari 1-0 Pescara
João Pedro (pênalti)

Tops: Rafael (Cagliari) e Caprari (Pescara) | Flops: Diego Farias (Cagliari) e Fornasier (Pescara)

O jogo de domingo no Sant'Elia serviria apenas para cumprir tabela – e assim ia se desenrolando até os minutos finais. Porém, um fato lamentável ofuscou o gol de pênalti de João Pedro e as defesas de Rafael: injúrias raciais contra o experiente Muntari. O ganês solicitou que o inexperiente Daniele Minelli cumprisse a regra e paralisasse a partida até que os infames cantos da torcida sarda parassem. O árbitro, além de não acatar o pedido, ainda deu cartão amarelo para o volante do Pescara, que se revoltou e abandonou a partida antes mesmo do fim. Uma atitude tão grande quanto a pequenez dos racistas e dos coniventes com ele: o incidente merece ser apurado e o apitador deve ser punido.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 33ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Strakosha (Lazio); Conti (Atalanta), Koulibaly (Napoli), Silvestre (Sampdoria), Aleesami (Palermo); Biglia (Lazio), Duncan (Sassuolo); Keita (Lazio), Diamanti (Palermo), Verdi (Bologna); Destro (Bologna). Técnico: Simone Inzaghi (Lazio).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pequenos milagres: Pescara, um ioiô com orgulho

O Pescara se notabilizou por ser um time-ioiô, mas teve momentos de alta na elite italiana (Globo Esporte)
Nesta semana, o Pescara foi rebaixado para a Serie B e cumpriu sua sina: quase todas as vezes que disputou a primeira divisão acabou voltando imediatamente para a segundona. Na única temporada em que conseguiu a salvezza, os delfini eram treinados por Giovanni Galeone e tinham o "capacete" Júnior no elenco. Foi o pequeno milagre na história da modesta equipe do Abruzzo, a única da região que já participou da elite do futebol italiano.

O Abruzzo é uma região localizada no centro da Itália, com saída para o litoral leste do país. Banhada pelo Mar Adriático, a praiana Pescara é a sede administrativa desta subdivisão da Bota, mas é bastante pacata e, atualmente, tem apenas 120 mil habitantes – há 45 anos, sua população praticamente não muda. Somente o fato de ter a oportunidade de disputar a Serie A e enfrentar potências como Juventus, Inter e Milan já é motivo de orgulho para a equipe. Uma honra conquistada pela primeira vez em meados da década de 1970.

Quando estreou na elite do Belpaese, o Pescara já tinha mais de 40 anos de vida e poucas glórias. O clube foi fundado em 1936, aproveitando a estrutura de uma antiga agremiação da cidade, e passou grande parte de sua existência na Serie C e nas divisões regionais. Em 1977, a reviravolta: os golfinhos subiram para a Serie A juntamente a Vicenza e Atalanta, após levarem a vantagem sobre o Cagliari em jogos-desempate pelo acesso. 

A equipe treinada por Giancarlo Cadè e conduzida pelo habilidoso meia-atacante Bruno Nobili, italiano nascido na Venezuela, festejou muito de início, mas logo sentiu a retumbante realidade. Ao contrário de biancorossi e nerazzurri, que fizeram grande Campeonato Italiano em 1977-78, o Pescara ocupou a zona de rebaixamento em quase todo o certame e, como lanterna, caiu para a segundona. No ano seguinte, venceu o spareggio contra o Monza e subiu de novo, mas o efeito ioiô voltou a atuar e o rebaixamento, em 1980, se revelou inevitável. Aquelas ocasiões dariam o gostinho da elite para a torcida do Abruzzo e constituiriam o prelúdio da época de ouro azul e branca, que atingiria o auge cerca de uma década depois.

Sliskovic, Galeone e Júnior: os protagonistas da salvação dos golfinhos (Forza Pescara)
Cantando de Gal...eone
A temporada 1985-86 foi muito dura para a torcida do Pescara. A equipe treinada por Enrico Catuzzi não conseguiu repetir o bom futebol demonstrado na edição anterior da Serie B e terminou o campeonato na 17ª posição, o que significava rebaixamento para a terceirona. No entanto, a falência do Palermo mudaria tudo: a federação italiana repescou os golfinhos para a segunda divisão 1986-87. A notícia aliviava os biancazzurri, mas havia um problema, pois a decisão da FIGC fora tomada quando a diretoria do Pescara já havia construído um elenco compatível com a disputa da antiga Serie C1 e, teoricamente, fraco para a segundona. Mas a cavalo dado não se olha os dentes, certo?

A missão de fazer uma Serie B digna à frente da equipe do Abruzzo estava nas mãos de Giovanni Galeone, técnico de 45 anos, que havia feito carreira como jogador na Udinese e só havia treinado times de divisões inferiores – seu melhor trabalho havia sido na Spal, na C1, entre 1983 e 1986. O comandante napolitano tinha à disposição um elenco curto e bastante jovem, mas surpreendeu e colocou o Pescara na briga pelo topo da tabela. Foi exatamente na parte mais alta da classificação que os golfinhos ficaram, pois faturaram o primeiro título de sua história. 

Em uma Serie B apertadíssima, na qual Bari, Messina, Parma, Genoa, Cremonese e Lecce brigaram até o fim e em que somente quatro pontos separaram o nono colocado do acesso, o Pescara garantiu título e vaga na elite graças à fundamental vitória contra os parmenses na última rodada – Cesena e Pisa também subiram. O estilo de Galeone, ofensivo para o contexto da época, ganhou o apelido de "calcio champagne" e deu resultado, pois o time do Abruzzo teve o segundo melhor ataque e o artilheiro do campeonato. Ainda assim, o centroavante Stefano Rebonato, autor de 21 gols, não marcaria época no Adriatico: se transferiu para a Fiorentina ao fim da campanha e nunca mais teve sucesso em sua carreira. Os jogadores que participaram da conquista e realmente seriam importantes nos anos seguintes foram os zagueiros Andrea Camplone e Giacomo Dicara, o lateral direito Cristiano Bergodi e os meias Rocco Pagano e Gian Piero Gasperini – este último, capitão do time.

Para o desafio na Serie A, o Pescara teria um novo presidente e modificações importantes no elenco. No verão de 1987, o clube foi adquirido pelo empresário Pietro Scibilia, dono da Gis, fabricante de sorvetes, e habituado à administração esportiva: no futebol, foi presidente da Giulianova (1979-82), e à época, ainda estava à frente da importante equipe de ciclismo Gis Gelati, fundada por ele próprio. Nos primeiros atos como cartola biancazzurro, Scibilia colocou a mão no bolso: fez contratações pontuais, como a do goleiro Giuseppe Zinetti (Bologna) e do meio-campista Stefano Ferretti (Ancona, já treinado por Galeone na Spal). No entanto, fez barulho ao assegurar a chegada de dois bigodudos: Blaz Sliskovic, um meia bósnio com passagens pela seleção da Iugoslávia, contratado junto ao Marseille, e principalmente a do experiente Júnior, que deixava o Torino. 

Galeone precisou mexer na equipe para acomodar os novos contratados. A primeira mudança foi simbólica, com a passagem da faixa de capitão de Gasperini para Júnior, ao passo que Sliskovic assumiu a titularidade improvisado como centroavante, devido às más condições físicas de Nicola Zanone. Os biancazzurri surpreenderam a Itália no início da temporada 1987-88, ao estrearem com uma vitória por 2 a 0 sobre a Inter em pleno San Siro, e por ocuparem a liderança do campeonato na segunda rodada. 

Apesar do início interessante, o futebol ofensivo dos golfinhos era de altos e baixos. Vitórias comemoradas, como diante de Juventus e Verona, se intercalavam a goleadas acachapantes, como as sofridas para Napoli (6-0), Fiorentina (4-0) e Roma (5-1). Ainda assim, com muito espírito coletivo e atuações importantes de Sliskovic (artilheiro do time, com oito gols), Gasperini (autor de sete), Júnior, Zinetti, Camplone, Bergodi e Pagano, o Pescara conseguiu se manter na elite. O conjunto do Abruzzo se beneficiou de uma punição de cinco pontos dada ao Empoli antes de a temporada começar e da redução de rebaixados na competição de três para dois times, uma vez que a Serie A posterior teria o número de participantes aumentado de 16 para 18 equipes. Com isso, a 14ª e antepenúltima posição foi suficiente para evitar a queda e sacramentar o milagre.

Júnior, Edmar e Tita confraternizam com Alemão e Careca, do Napoli, antes de goleada histórica (Twitter)
Canarinhos e golfinhos
O sucesso de Júnior no Adriatico fez com que Scibilia decidisse investir em mais dois brasileiros com passagens pela Seleção: Tita, que militava no Bayer Leverkusen e havia feito sucesso com as camisas de Flamengo, Grêmio e Vasco; e Edmar, que brilhou por Guarani e Corinthians. A dupla de atacantes já tinha bastante experiência quando chegou ao litoral italiano (o primeiro tinha 30 anos e o segundo, 28) e deveria substituir Sliskovic, que fora liberado para retornar à França e assinar com o Lens. Assim como o bósnio, Edmar e Tita alcançaram boas marcas individuais: respectivamente, quatro e nove gols, além de atuações regulares. Júnior, que atuou em todas as partidas, também se doou muito ao longo da temporada. 

Com os brasileiros comandando o elenco biancazzurro juntamente a Gasperini, o Pescara chegou a ocupar o meio da tabela até a pausa de inverno, entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989. O segundo turno também começou bem, com uma vitória diante da Roma, mas dali em diante a equipe não se acertou e o fim da temporada não reservou um doce resultado para os golfinhos. 

O desequilíbrio defensivo continuava a atrapalhar a equipe, que chegou a levar 8 a 2 do Napoli e 6 a 1 do Milan no campeonato, mas o fator realmente determinante para a queda foi a falta de vitórias a partir da 18ª rodada. O Pescara terminou a Serie A na 16ª posição, com 27 pontos, dois a menos que Lazio, Verona, Ascoli, Cesena e Bologna, primeiros times fora da zona de rebaixamento. Por detalhes, Galeone e seus comandados voltaram à segunda divisão.

Allegri foi o destaque dos biancazzurri em sua última participação na elite nos anos 1990 (Wikipedia)
Últimos suspiros e tentativas de renascimento
Nos três anos seguintes, o Pescara disputou a Serie B; em dois deles contando com a presença de Edmar no elenco. Galeone, que teve uma breve experiência no Como, voltou ao Abruzzo no final de 1990 e, em 1992, devolveu os golfinhos à primeira divisão. No elenco havia alguns remanescentes da histórica campanha da salvezza na Serie A, como Camplone, Dicara e Pagano, e novos pilares, como o zagueiro Ubaldo Righetti (vice-campeão europeu e campeão italiano com a Roma) e os meias Ottavio Palladini e Massimiliano Allegri.

Para mais uma disputa do Campeonato Italiano, Scibilia novamente não poupou esforços para dar a Galeone jogadores de nível internacional. No entanto, se investiu em medalhões, não formou um elenco equilibrado: o retorno de Sliskovic e as chegadas dos experientes defensores Roger Mendy (da seleção senegalesa) e John Sivebaek (ex-Manchester United, Saint-Étienne, Monaco e campeão europeu pela Dinamarca); do futuro capitão do tetra brasileiro, Dunga, e do atacante Stefano Borgonovo, contratados junto à Fiorentina, não evitariam a queda para a segunda divisão.

Galeone foi demitido após a 25ª rodada e o Pescara chegou a ensaiar uma reação, vencendo o Napoli e aplicando 5 a 1 na Juventus, com dois de Allegri. Apesar disso, o rebaixamento e a lanterna se consumariam, com larga desvantagem para os concorrentes. Em uma época em que a vitória valia apenas dois pontos, os delfini concluíram a campanha de 1992-93 com 13 a menos que os primeiros times que se salvaram: foram 23 derrotas e apenas cinco empates e seis vitórias.

O ano seguinte foi duro para o Pescara, que se perdeu na gestão do futebol e ofereceu aos torcedores um aperitivo do que estava por vir: embora o elenco tenha mantido peças importantes, os golfinhos lutaram para não caírem para a Serie C1. Isto viria a acontecer em 2001, três anos antes de Pietro Scibilia deixar a presidência. Dali em diante, foram quase 20 anos perambulando entre a segunda e a terceira divisões.

O Pescara faliu em 2009 e, refundado, voltou a brigar para voltar à Serie A depois que o atual presidente, Daniele Sebastiani, assumiu o controle acionário. Em 2012, finalmente começou a encantar: com Zdenek Zeman no comando e os jovens Lorenzo Insigne, Ciro Immobile e o prata da casa Marco Verratti em campo, a equipe conquistou seu segundo título da Serie B. No ano seguinte, a equipe sofreu com um desmonte, penou, e nem mesmo os milagres do goleiro Mattia Perin a mantiveram na primeira divisão, e o tal "efeito ioiô" se fez presente, tal qual na atual temporada. 

A torcida biancazzurra está acostumada ao sobe e desce, mas não esconde que sonha com a possibilidade de desfrutar mais tempo na elite. Alguns radicais, mais exaltados, não pouparam o presidente Sebastiani em 2016-17: o pressionaram com ameaças e destruição de parte de seu patrimônio (teve carros queimados e casa apedrejada). Hoje, o dirigente pensa em deixar o esporte.

Ficha técnica: Pescara

Cidade: Pescara (Abruzzo)
Estádio: Adriatico – Giovanni Cornacchia
Fundação: 1936
Apelidos: Biancazzurri, Delfini
As temporadas (apenas séries A e B): 8 na Serie A e 35 na B
Os brasileiros: Douglas Packer, Dunga, Edmar, Gabriel Appelt, Jonathas, Júnior, Leandro Guerreiro, Lucas Chiaretti, Rômulo Togni, Tita, Victor da Silva e Vito.
Time histórico: Mattia Perin; Cristiano Bergodi, Andrea Camplone (Ubaldo Righetti), Giacomo Dicara, Júnior; Ottavio Palladini (Stefano Ferretti), Gian Piero Gasperini (Dunga), Bruno  Nobili; Massimiliano Allegri (Stefano Borgonovo); Tita, Blaz Sliskovic (Edmar). Técnico: Giovanni Galeone.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Serie B: A cidade de Ferrara vai voltar à elite?

Spal está próxima de fazer história e pode retornar à elite após cinco décadas (Foto: Lega B)
A partir de hoje, temos novos colaboradores no blog. Convidamos o pessoal do ótimo Calcio Alternative, que acompanha principalmente o futebol das divisões inferiores da Itália, para escrever periodicamente sobre a Serie B. Quem traz o panorama da segundona é Aldir Junior Gomes, e você pode acompanhar o seu trabalho no Twitter e no Facebook.

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Com apenas quatro rodadas para o final da temporada regular, não tem nada definido até o momento na Serie B. Se o título parece encaminhado à surpreendente Spal, as disputas pela segunda vaga direta na elite, pelos play-offs de acesso e contra o rebaixamento continuam abertas.

Nos últimos anos, a segundona vem assistindo a um fenômeno de ascensão de clubes menores, como Crotone, Carpi, Frosinone e Sassuolo, além de Latina e Trapani, que quase subiram recentemente e tomaram o espaço de equipes tradicionais, relegadas às divisões inferiores – casos de Livorno, Modena, Catania, Padova e Reggina. Embora pouco conhecida do público mais jovem, este não é o caso da Società Polisportiva Ars et Labor, a Spal. O time da cidade de Ferrara, na Emília-Romanha, já participou da primeira divisão em 21 ocasiões, mas está afastada da elite do futebol italiano desde 1967-68. Enquanto isso, o Verona tenta afastar o mau momento e segurar as pontas para não deixar o retorno à Serie A escapar para o Frosinone. A diferença entre os dois times é de apenas um ponto.

O Verona largou na frente, com a manutenção de jogadores importantes como o lateral ítalo-brasileiro Rômulo e os atacantes Giampaolo Pazzini e Juanito Gómez, além das chegadas de novos atletas. Destacam-se o goleiro Nícolas, que foi emprestado ao Trapani e fez sucesso pelo clube, terceiro colocado na temporada passada; o zagueiro Antonio Caracciolo, do Brescia; os meias Daniel Bessa, da Inter, e Marco Fossati, do Cagliari; e o centroavante Simone Ganz, que marcou 16 gols na última Serie B pelo Como. Os mastini começaram o campeonato com o elenco mais caro da competição, ao lado de Carpi e Frosinone, todos os três rebaixados da Serie A. 

Verona ocupa segunda colocação, mas decepciona (Foto: Lega B)
O início da campanha dos butei foi promissor, com apenas uma derrota e 31 gols marcados nas 13 primeiras partidas. No entanto, o time do inexperiente técnico Fabio Pecchia, ex-auxiliar de Rafa Benítez em Napoli, Real Madrid e Newcastle, nunca mais foi o mesmo após sofrer duas goleadas para Novara e Cittadella, por 4 a 0 e 5 a 1, respectivamente, em novembro do ano passado. Desde então, o Hellas não conseguiu mais vencer três jogos seguidos, deixou a ponta da tabela e chegou a cair para a terceira colocação, fora da zona de acesso direto. Hoje, a equipe ocupa a segunda posição com 66 pontos, apenas um à frente do Frosinone e sete atrás do líder.

Exatamente ao mesmo tempo em que o Verona desmoronava, surgia a improvável força da Spal. Desde o dia 31 de outubro, os spallini ganharam 17 jogos, empataram sete e foram derrotados em apenas três rodadas. Para analisar o momento mágico dos ferraresi não tem como deixar de falar do técnico Leonardo Semplici. O comandante assumiu o cargo em 2014, quando o clube biancoazzurro estava na Lega Pro. Logo no primeiro ano, a Spal ficou na quarta colocação do grupo B. E ainda conquistou o acesso à Serie B na temporada passada, o que não acontecia desde 1993. 

Técnico Leonardo Semplici comanda a Spal desde 2014
O objetivo no início do campeonato era evitar o rebaixamento, mas a mistura de jovens jogadores com outros mais experientes, formou uma equipe equilibrada, que não dá espetáculo, mas cumpre muito bem o que Semplici pede com seu tradicional esquema 3-5-2: muita dedicação e transpiração do goleiro ao centroavante. O resultado é o melhor ataque da competição, com 68 gols marcados, e a terceira defesa menos vazada, com 34 gols sofridos, atrás apenas de Pisa e Spezia. Com essa boa campanha, a Spal está próxima de um feito histórico: desde o Como, em 2002, um time que estava na terceira divisão na temporada anterior não conquista o título da Serie B.

Entre os jogadores mais importantes dos estensi, podemos citar o goleiro Alex Meret, de 20 anos, emprestado pela Udinese e convocado à Azzurra; o zagueiro Francesco Vicari, 22; o ala Manuel Lazzari, 23; o lateral Cristiano Del Grosso, 34; o meia Pasquale Schiatarella, 29; e os atacantes Mirco Antenucci, 32, e Sergio Floccari, 35. O rodado Antenucci, dispensado do Leeds United ao final da última temporada, se reencontrou na Emília-Romanha, onde tem sido o principal destaque ofensivo. O avançado já marcou 17 gols e deu sete assistências, se tornando o artilheiro e maior garçom do time até o momento.

Play-offs
Os dois primeiros colocados sobem diretamente, mas a briga pela terceira vaga na Serie A envolve outras seis equipes que disputam um play-off, no qual o campeão consegue um lugar ao sol. Hoje, Frosinone, Perugia, Cittadella, Benevento, Spezia e Carpi estariam classificados para um mata-mata que pode não existir, caso a diferença do terceiro para o quarto colocado seja igual ou maior a 10 pontos – atualmente é de oito. Neste grupo, o destaque fica para Cittadella e Benevento, que, assim como a Spal, estavam na Lega Pro há um ano. A diferença do oitavo colocado Carpi, último time que ainda estaria qualificado a sonhar com o acesso, para o décimo Novara é de apenas quatro pontos. 

Rebaixamento
Depois de um acesso heroico, o Pisa teve inúmeros problemas no início do campeonato. Imerso em uma grande crise financeira, os jogadores chegaram a ficar com os salários atrasados e o técnico Gennaro Gattuso pediu demissão durante a pré-temporada. Ele retornou ao cargo após a concretização da venda do clube para um grupo de empresários, mas, por causa da indefinição, os nerazzurri perderam o tempo da janela de transferências e começaram a Serie B com praticamente o mesmo elenco que disputou a Lega Pro. Mesmo assim, Gattuso conseguiu tirar leite de pedra com apenas três derrotas nas 12 primeiras rodadas. No entanto, com muitos empates e poucas vitórias, a força de vontade não tem sido suficiente para a manutenção da equipe na segundona.

Pisa de Gattuso é o lanterna da competição (Foto: Lega B)
Não bastasse o desempenho ruim dentro de campo, o time da cidade da torre inclinada ainda foi punido com a perda de quatro pontos por causa de dívidas com a liga e segura a lanterna com 33 pontos, oito atrás do Vicenza, primeira equipe fora da zona de rebaixamento direto. Mesmo na última posição, a equipe de Gattuso possui a melhor defesa da competição, com 29 gols sofridos em 38 rodadas. O trabalho não tem sido de todo ruim e Ringhio pode almejar um time mais competitivo na próxima temporada, já que a queda dos pisanos é iminente.

Ainda entre os últimos, o Latina, com 34 pontos, também parece condenado ao descenso, enquanto a Ternana, com 39, briga mais diretamente com Vicenza, Trapani e Brescia pela salvação. Será que teremos mais times tradicionais indo em direção à terceirona?

terça-feira, 25 de abril de 2017

33ª rodada: A "insuportável e defensiva" Serie A

Procurando quem ainda despeja este clichê por aí: Fiorentina protagonizou
jogo maluco com a Inter e ainda vê possibilidade de vaga na Liga Europa (Getty)
Realmente, não dá para aguentar um campeonato chato desses. Um campeonato que tem uma rodada com 48 gols marcados – o maior número desde outubro de 1992 –, uma partida com nove tentos anotados e uma outra com oito. Uma rodada em que só uma equipe passou em branco. Um campeonato que tem seis jogadores com mais de 20 gols marcados, fato que aconteceu somente outras três vezes, em 1950, 1951 e 1998. Um campeonato com um time incrível, como é a Juventus, e outros com futebol vistoso, como Roma e Napoli, e que mostra (que o digam Milan e Inter) que essa história de que a camisa pesa sempre pode ser uma balela enorme. Um campeonato em que até mesmo um time ofensivo, como o Pescara, acaba rebaixado sem dó. Confiram abaixo mais uma prova de como a Serie A é insuportável e defensiva.

Fiorentina 5-4 Inter
Vecino (Milic), Astori (Borja Valero), Vecino (Borja Valero), Babacar (Vecino) e Babacar (Salcedo) | Perisic (Candreva), Icardi (João Mário), Icardi (Perisic) e Icardi (Candreva)

Tops: Vecino (Fiorentina) e Icardi (Inter) | Flops: Sánchez (Fiorentina) e Gagliardini (Inter)

Por incrível que pareça, a última vaga na Liga Europa continua em aberto e um confronto direto com nove gols marcados colocou fogo no campeonato – e adicionou querosene ao já explosivo ambiente da Inter. Depois de três meses quase perfeitos, os nerazzurri chegaram a cinco partidas sem vitória (somaram apenas dois dos últimos 15 pontos) e dessa vez quem aproveitou a má fase foi a Fiorentina, que agora vislumbra a possibilidade de ultrapassar a dupla de Milão e se classificar para uma competição continental: em 6º, o Milan tem 58 pontos, contra 56 da Inter e 55 da Fiorentina. Para reabrir uma disputa que parecia já definida, além do tropeço dos rossoneri, os viola e os nerazzurri fizeram uma partida louca, com a marca da Serie A mais mesmerizante dos últimos anos.

O confronto teve a pressão anfitriã nos primeiros minutos premiada pelo gol de Vecino, em boa trama pela esquerda e cruzamento de Milic. Pouco depois, a Inter conseguiu a virada em um espaço de cinco minutos, com Perisic e Icardi, em jogadas de Candreva e João Mário, e ficou à frente no placar até o intervalo. No entanto, o time visitante não conseguia controlar o jogo e corria riscos a todo momento, pois atacava sem equilíbrio. E se faltou precaução depois da virada, sobrou preguiça na etapa final: Handanovic salvou pênalti muito mal cobrado por Bernardeschi, mas em oito minutos os viola não apenas empataram, como viraram e abriram vantagem. Borja Valero conduziu a virada, com cruzamento para Astori e participação na doppietta de Vecino, ao passo que o uruguaio puxou contra-ataque e acionou Babacar, que só colocou no canto de Handanovic. O senegalês tem estrela contra a Inter (anotou quatro vezes em cinco partidas) e marcou mais uma vez dez minutos depois, após receber passe de Salcedo em posição irregular. No final, Icardi conseguiu uma tripletta e a Beneamata quase igualou o placar: Astori salvou em cima da linha o chute de Brozovic que levaria ao incrível empate.

Lazio 6-2 Palermo
Immobile (De Vrij), Immobile (Milinkovic-Savic), Keita (De Vrij), Keita (pênalti), Keita (Immobile) e Crecco | Rispoli e Rispoli

Tops: Keita e Immobile (Lazio) | Flops: Strakosha (Lazio) e Posavec (Palermo)

Com muito prazer, a pior defesa da Serie A. O Palermo se despediu virtualmente da Serie A de forma humilhante e honrando seus números negativos: agora, o time rosanero tem 13 pontos a menos que o Empoli e, com apenas 15 pontos em disputa, precisa de um verdadeiro milagre para escapar da segundona. Na capital, em pouco mais de 25 minutos, o placar já marcava cinco gols para a Lazio, que praticamente confirmou sua vaga na Liga Europa e até mesmo na fase de grupos da competição – uma vez que agora os celestes estão oito pontos à frente do Milan.

O show no primeiro tempo teve grandes atuações de Immobile e Keita, que mostraram grande sintonia e simplesmente passaram por cima da defesa siciliana – o pobre Posavec, goleiro mais vazado e com mais erros do campeonato, nem teve culpa desta vez. Com a vantagem, o time relaxou depois do que seria o quarto de Keita, corretamente anulado por impedimento e, depois do intervalo, desligou-se até demais. Nos erros dos holandeses De Vrij e Hoedt, Rispoli aproveitou para marcar duas vezes, mas sem iniciar uma verdadeira reação. No final, o garoto Crecco ampliou a goleada em mais um erro adversário.

Atalanta 3-2 Bologna
Conti (Gómez), Freuler (Petagna) e Caldara (Cristante) | Destro (Di Francesco) e Di Francesco (Dzemaili)

Tops: Spinazzola (Atalanta) e Di Francesco (Bologna) | Flops: Rafael Tolói (Atalanta) e Da Costa (Bologna)

O jogo que abriu esta rodada repleta de gols só poderia ter sido uma loucura também. Com 15 minutos, o marcador já contava três gols e a Atalanta acabou surpreendida por um Bologna que saiu das férias por alguns minutos. Inclusive, o time de Gasperini esteve muito mal, atacando menos do que o comum e se defendendo de forma desorganizada – talvez pela vantagem construída prematuramente, com os gols de Conti e Freuler, ambos com a participação de Gómez. Na jogada seguinte, contudo, Rafael Tolói cochilou na linha de impedimento e Destro voltou a marcar depois de um mês. Mesmo assim os anfitriões seguiram em ritmo lento e sofreram o empate na segunda etapa, depois de grande jogada de Di Francesco, uma das poucas boas notícias de uma apagada dos felsinei. E se Petagna não põe a bola para as redes adversárias, Caldara está lá para resolver os problemas: com sete gols, é o segundo maior artilheiro da equipe e o defensor com mais gols no campeonato. La Dea está cada vez mais próxima da Europa e talvez nem precise passar pela dramática fase preliminar. Mérito incontestável.

Milan 1-2 Empoli
Lapadula (Sosa) | Mchedlidze (El Kaddouri) e Thiam (Maccarone)

Tops: Skorupski e El Kaddouri (Empoli) | Flops: Zapata e Suso (Milan)

Quem diria que depois de três meses sem vencer e sete derrotas consecutivas o Empoli bateria Fiorentina e Milan em sequência? Pois é, depois de ver o Crotone reagir, os toscanos cresceram justamente contra os adversários mais improváveis. Depois do 2 a 1 em Florença, o placar foi repetido em Milão com outra atuação gigantesca de Skorupski, autor de onze defesas (incluindo um pênalti muito mal batido por Suso), e nova participação determinante de El Kaddouri no centro do campo – o marroquino construiu as jogadas dos gols de Mchedlidze e Thiam. Lapadula foi o jogador mais perigoso dos rossoneri e o autor do único gol, mas nem ele, o chute na trave de Ocampos e os sete minutos de acréscimos de Gavillucci foram suficientes para evitar um tropeço muito pesado para o Milan. Uma derrota que poderia ter sido pior, não fosse defesaça de Donnarumma sobre Maccarone e a intervenção do goleiro contra Thiam nos acréscimos. O Diavolo poderia ter ampliado a vantagem sobre a Inter, mas agora ganhou também a concorrência da Fiorentina pela última vaga na Liga Europa. Pelo visto, ela ficará entre os três.

Juventus 4-0 Genoa
Muñoz (contra), Dybala (Khedira), Mandzukic, Bonucci

Tops: Bonucci e Mandzukic (Juventus) | Flops: Muñoz e Burdisso (Genoa)

Em meio à chuva de gols deste fim de semana, somente a melhor defesa do campeonato não foi vazada. Além disso, a fortíssima Juventus se deu ao luxo de poupar Buffon, Chiellini, Daniel Alves, Cuadrado e Pjanic e mesmo assim não tomou conhecimento do Genoa, vingando a derrota sofrida para os rossoblù no primeiro turno. Aos 18 minutos, a Velha Senhora já vencia por 2 a 0, graças ao azar de Muñoz, que marcou contra, e a mais um golaço de Dybala: La Joya tabelou com Khedira e, de surpresa, finalizou no canto de Lammana. Mandzukic mais uma vez mostrou grande espírito coletivo e foi premiado por isso. Depois de desarmar ataque adversário no campo de defesa, deu início à jogada que ele mesmo concluiu, ampliando o placar. Com os três pontos garantidos e pouco pressionada pelo Genoa, a Juve manteve o ritmo alto e fez 4 a 0 com Bonucci. O defensor avançou sozinho da defesa e, na entrada da área, acertou um chute de rara felicidade no ângulo do goleiro genoano. Suficiente? Não para Marchisio, Higuaín e Asamoah, que ainda acertaram a trave antes do fim do jogo.

Pescara 1-4 Roma
Benali (Memushaj) | Strootman (El Shaarawy), Nainggolan (Dzeko), Salah (El Shaarawy), Salah (El Shaarawy)

Tops: Salah e El Shaarawy (Roma) | Flops: Coda e Caprari (Pescara)

A Roma visitava o velho conhecido Zeman com a expectativa de sair com uma fácil vitória do Adriatico e ampliar a vantagem para o Napoli para quatro pontos, aumentando as chances de assegurar uma vaga direta na próxima Champions League. Assim foi, embora os primeiro gols tenham saído somente no fim da primeira etapa – na verdade, Salah balançou as redes aos 2 minutos, mas a arbitragem anulou a jogada, corretamente, por impedimento. A goleada foi construída principalmente pelas incursões em velocidade do egípcio e do ítalo-egípcio El Shaarawy, os melhores em campo. No entanto, os dois primeiros gols, anotados logo antes do intervalo, saíram dos pés de Strootman e Nainggolan, que apareceram bem no ataque, como de costume. Após o intervalo, a dupla de ases romanistas não encontrou resistência para ampliar e decretou o rebaixamento do Pescara. Benali, um dos poucos que se salvaram no time biancoazzurro, descontou e deixou o Genoa como único time sem gols neste final de semana. Menos mal para o ofensivo Zeman, que comandava o Foggia naquele outubro de 1992 e também deixava o campo goleado por 4 a 1 – para o Brescia.

Roma venceu o Pescara e, além de abrir vantagem na vice-liderança, rebaixou o adversário (Getty)
Sassuolo 2-2 Napoli
Berardi e Mazzitelli (Ragusa) | Mertens (Callejón) e Milik (Albiol)

Tops: Cannavaro (Sassuolo) e Mertens (Napoli) | Flops: Lirola (Sassuolo) e Hamsík (Napoli)

Não exatamente de férias. Depois de sequência de derrotas, o Sassuolo chegou à terceira partida de invencibilidade e novamente frustrou um time da parte de cima da tabela. Dessa vez provou novamente ser a asa negra do Napoli, que contou com grande presença da sua torcida, mas não esteve bem tecnicamente e vacilou feio na briga por uma vaga direta na fase de grupos da próxima Liga dos Campeões. Não foi por falta de oportunidade, porque os visitantes levaram bastante perigo: abriram o placar somente após o intervalo, em jogada iniciada por Hamsík e com cruzamento de Callejón completado com cabeçada de Mertens. O capitão partenopeo, porém, falhou feio e entregou o gol do empate para Berardi, graças a um erro em recuou com a cabeça. Mertens e Insigne, então, pararam na trave duas vezes e os visitantes levaram a virada no gol de Mazzitelli, depois de nova desatenção em bola parada. Milik, que entrou logo depois da desvantagem, voltou às redes após sete meses e amenizou a situação. Por fim, o ídolo napolitano Cannavaro acabou sendo algoz e salvou, com uma cabeçada providencial, o gol da virada nos acréscimos.

Chievo 1-3 Torino
Pellissier (Inglese) | Ljajic (Falqué), Zappacosta e Falqué (Belotti)

Tops: Ljajic e Zappacosta (Torino) | Flops: Hetemaj e Radovanovic (Chievo)

Havia pouca coisa valendo para Chievo e Torino, mas os times incorporaram bem o espírito da rodada na volta do intervalo. Os visitantes foram bastantes agressivos (como de costume), enquanto os anfitriões buscaram os contra-ataques, e ambos levaram algum perigo assim. Melhor para o time de Mihajlovic, que abriu o placar com Ljajic, o craque dos jogos inúteis, e ampliou com chutaço de Zappacosta. Pellissier guardou seu oitavo gol no campeonato e até ameaçou a vitória do Torino, que, contudo, ampliou com Falqué. O artilheiro Belotti não balançou as redes, mas participou com uma assistência e ajudou a deixar a equipe em boa situação para terminar a temporada na primeira parte da tabela. Por outro lado, a série de derrotas do Chievo só cresce: agora são cinco e apenas os últimos quatro perderam mais que os gialloblù no campeonato.

Sampdoria 1-2 Crotone
Schick (Quagliarella) | Falcinelli (Trotta) e Simy (Falcinelli)

Tops: Schick (Sampdoria) e Simy (Crotone) | Flops: Silvestre (Sampdoria) e Ferrari (Crotone)

Para confirmar um lugar na primeira parte da tabela e até para valorizar seus jogadores, a Sampdoria vinha em boa pegada nas últimas semanas, em especial por causa de Schick, que assumiu a titularidade. À Bergkamp, o talentoso atacante checo abriu o placar com um dos gols mais bonitos do campeonato, entortando o perdido Ferrari e finalizando sem chances para Cordaz. Praet acertou a trave na sequência, porém o time doriano perdeu o pique e demorou para reagir: relaxou no segundo tempo e acabou levando a virada, que mantém a equipe calabresa na briga contra o rebaixamento. São três vitórias em quatro rodadas, mas os squali ainda estão longe do Empoli, que venceu as últimas duas. Se o Crotone ainda está na briga pela salvezza, muito disso passa por Falcinelli: o atacante empatou, com seu 12º gol no campeonato, e deu passe para o grandalhão Simy novamente decidir. O nigeriano fez gol decisivo também diante do Torino, na última rodada.

Udinese 2-1 Cagliari
Perica e Angella (Perica) | Borriello (Isla)

Tops: Perica e Angella (Udinese) | Flops: Théréau (Udinese) e João Pedro (Cagliari)

Ainda em busca de um lugar entre os dez melhores do campeonato, a Udinese segue com boa pegada para terminar o ano em uma posição mais digna. No Friuli, pressionou bastante o Cagliari, perdeu pênalti com Théréau e somente com o jovem Perica chegou ao gol: o croata abriu o placar com chute de fora da área e desviou cobrança de escanteio, fornecendo assistência para o segundo, marcado por Angella. Os sardos descontaram com Borriello: o ex-Milan, Roma e Juventus tem 16 gols, e está a apenas três do seu recorde; os 19 anotados em 2007-08 pelo Genoa.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 32ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Skorupski (Empoli); Zappacosta (Torino), Cannavaro (Sassuolo), Bonucci (Juventus), Spinazzola (Atalanta); Vecino (Fiorentina); Keita (Lazio), Immobile (Lazio), El Shaarawy (Roma); Babacar (Fiorentina), Icardi (Inter). Técnico: Massimiliano Allegri (Juventus).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Artilharia pesada e um bunker impenetrável

Com a melhor defesa da Europa há anos, Juventus expurgou o Barcelona e avançou na UCL (Getty)
Esta quarta foi um daqueles dias em que o inesperado não aconteceu e tudo correu dentro dos conformes para a Juventus. A remontada do Barcelona não estava sendo considerada nem pelo mais pessimista dos torcedores juventinos e nem chegou perto de se concretizar. Depois de ter sido perfeita no ataque e na defesa em Turim, a equipe de Massimiliano Allegri teve um grande desempenho defensivo na Catalunha e segurou o forte ataque blaugrana para avançar às semifinais da Liga dos Campeões. Após o 3 a 0 na ida, o 0 a 0 na volta até poderia ser considerado uma partida "menor", mas a Juventus registrou outra atuação para os anais de sua história.

Não foi um jogo essencialmente de ataque contra defesa, ao contrário do que se poderia imaginar e de como poderiam sugerir os números: o Barcelona, que precisava de pelo menos três gols, fez mais de quatro em todos os jogos em casa nesta UCL e a Juve havia sido vazada apenas duas vezes no torneio. No primeiro tempo, a maior parte das grandes chances de gol foi da Velha Senhora, mas Higuaín chutou para fora ou parou em Ter Stegen – no total, a equipe bianconera finalizou 12 vezes, quatro delas na direção do gol. 

O Barcelona teve uma oportunidade claríssima com Messi, da marca do pênalti, mas o craque argentino errou o alvo. Um anúncio e uma metáfora da noite apagadíssima do trio MSN – somente uma das 18 finalizações culés obrigou Buffon a fazer uma defesa. A salientar, ainda, o destempero de Neymar, que poderia ter sido expulso por falta fora do lance em Pjanic.

O apagar dos craques do Barcelona se deveu basicamente ao muro que Allegri ergueu e à perfeição dos jogadores na execução dos papeis que cada um deveria ter em campo. Mais uma vez, Mandzukic fez uma vigorosa marcação em apoio a Alex Sandro na lateral esquerda, enquanto Cuadrado e Daniel Alves pararam Neymar no flanco direito. Pelo meio, Iniesta, Messi e Suárez ficaram encaixotados entre Khedira, Pjanic, Bonucci, Chiellini e Barzagli – que atuou durante a maior parte do segundo tempo, após substituir Dybala.

Buffon teve pouco trabalho no Camp Nou e segue sem levar gol de Messi (Reuters)
Na reta final da partida, a Juventus chegou a fazer uma linha de sete na defesa – Cuadrado, Daniel Alves, Barzagli, Bonucci, Chiellini, Alex Sandro e Mandzukic. Não se tratava de covardia ou pura retranca, mas de um reforço para o impecável posicionamento de Bonucci e Chiellini, que fizeram cortes fundamentais na partida. 

A atuação da dupla – com a participação de Barzagli no segundo tempo – em ambos os confrontos contra o Barcelona pode sacramentar a consagração definitiva da defesa juventina. Há anos, Buffon e o trio BBC formam a defesa mais sólida do mundo e, agora, tem a chance de adicionar um título europeu (e, depois, um mundial), ao provável hexacampeonato da Serie A. Isto deve aproximá-los ainda mais de Zoff, Gentile, Scirea e Cabrini, que nas décadas de 1970 e 1980 formaram a mais célebre linha defensiva da história da Juventus e uma das principais do futebol mundial.

Diante de uma defesa do mais alto gabarito e de um bunker armado na frente da área, as chances de gol para o Barcelona se resumiam a aproveitar eventuais falhas da Juventus. Na única vez que Alex Sandro bobeou no Camp Nou, Sergi Roberto aproveitou e bateu à direita do gol de Buffon. Super Gigi cometeu um raro erro em sua carreira e, em uma saída em falso de sua meta, Messi não aproveitou e isolou. O italiano segue sem levar gols do argentino em toda sua carreira.

A revanche da final de 2015 sobre o Barcelona está completa. Nas semifinais, a Juventus pode enfrentar Atlético de Madrid, Real Madrid ou Monaco e não é exagero dizer que tem um conjunto mais equilibrado que todos os adversários. Afinal, quem será capaz de parar um ataque com Higuaín e Dybala e derrubar o muro preto e branco?

Barcelona 0-0 Juventus (0-3 no placar agregado)
Quartas de final da Liga dos Campeões (volta)

Barcelona: Ter Stegen; Sergi Roberto (Mascherano), Piqué, Umtiti, Jordi Alba; Rakitic (Paco Alcácer), Busquets, Iniesta; Messi, Suárez, Neymar. Técnico: Luis Enrique.

Juventus: Buffon; Daniel Alves, Bonucci, Chiellini, Alex Sandro; Pjanic, Khedira; Cuadrado (Lemina), Dybala (Barzagli), Mandzukic; Higuaín (Asamoah). Técnico: Massmiliano Allegri.

Local: Camp Nou (Barcelona, Espanha)
Árbitro: Björn Kuipers (Holanda)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

32ª rodada: Thriller milanês e uma páscoa em HD

Riso ou choro? Inter saiu na frente, mas permitiu empate do Milan e viu rival rir por último no dérbi (LaPresse)
Rodada de páscoa significa jogos ao sábado na católica Itália. A 32ª jornada da Serie A começou bem cedo, com um emocionante clássico entre Inter e Milan, no qual os rossoneri conseguiram um resultado mais interessante, mas ficou marcado mesmo pelo aumento da vantagem da Juventus na ponta. A Velha Senhora bateu o lanterna Pescara com facilidade e ainda pode se deliciar, simultaneamente, com um tropeço da Roma contra a sensação Atalanta – com isso, agora são oito pontos de distância para o segundo colocado. Se o hexacampeonato da Juve está bem próximo, os romanos que se cuidem, pois o Napoli está tentando dar o bote e tomar-lhe a vaga direta nos grupos da Liga dos Campeões. Confira o resumo pascal.

Inter 2-2 Milan
Candreva (Gagliardini) e Icardi (Perisic)

Tops: João Mário (Inter) e Zapata (Milan) | Flops: Éder (Inter) e De Sciglio (Milan)

O dérbi dos recordes. Bastante especial a partida que abriu a rodada de páscoa da Serie A: no confronto entre milaneses, o grande destaque foi para a maior audiência da história do campeonato (cerca de 862 milhões de espectadores ao redor do mundo) e para a maior renda (4,2 milhões de euros, superando o Derby d'Italia de setembro). O inédito horário de 12h30 no clássico, para atender ao mercado chinês (cada vez mais importante para os milaneses, já que os dois times tem donos nascidos no país asiático) teve alguma resistência dos mais conservadores – especialmente dos ultras, que espalharam faixas pelas arquibancadas, em protesto –, mas o San Siro mais uma vez esteve lotado e trouxe um ótimo ambiente para uma partida emocionante. Outro fato raro na história do confronto foi a utilização de uniforme reserva por parte de uma das equipes – o Milan jogou de branco.

O próprio Milan começou melhor e levou bastante perigo com Suso e Deulofeu, com bola na trave e defesas importantes de Handanovic. A Inter demorou para reagir, mas quando conseguiu encaixar seu jogo, foi fatal. Liderados por João Mário, os nerazzurri atacaram muito bem os espaços do adversário, que mantinha a posse de bola e defendia alto, mas não tinha profundidade e sofria com o caos a cada perda de bola. Exatamente assim saíram os gols dos nerazzurri, com Gagliardini lançando Candreva nas costas de De Sciglio e com Icardi finalizando com precisão uma bonita tabela com Perisic. foi o primeiro gol do argentino contra o Milan, então único time da Serie A que não tinha vitimado. Icardi ainda se igualou na artilharia história interista a Facchetti e seus compatriotas Milito e Cruz.

A vantagem deu bastante tranquilidade para os interistas e o contexto seguiu o mesmo na segunda etapa, mas a tranquilidade se tornou excessiva e Perisic e Éder perderam chances de ouro para ampliarem. Foi a deixa para o crescimento rossonero: Montella ordenou que a equipe partisse ao ataque, mesmo sem organização, fez seu adversário recuar ainda mais, e ocupando mais o campo rival, conseguiu o empate em jogadas de bola parada e muita desatenção da Beneamata. Depois de escanteio curto, Suso cruzou para Romagnoli se antecipar e descontar aos 82. Nos acréscimos, depois de a Inter enrolar bastante, o Milan chegou ao empate graças a Zapata e à tecnologia, que validou seu gol, no último lance da partida. Orsato deu cinco minutos a mais no tempo extra, mas prolongou por outros dois justamente pelos consecutivos atrasos dos interistas, que vacilaram outra vez e seguem atrás do rival na tabela. O empate foi ruim para ambos, mas menos mal que os concorrentes pelas últimas vagas europeias também tropeçaram.

Pescara 0-2 Juventus
Higuaín (Cuadrado) e Higuaín

Tops: Higuaín e Cuadrado (Juventus) | Flops: Coda e Muntari (Pescara)

Higuaín ao resgate. Quem disse que a artilharia estava entre Belotti e Dzeko? O argentino tem crescido no momento mais decisivo da temporada e aumentou bastante sua cota de gols, e agora está a apenas dois tentos dos artilheiros do campeonato – já são 23. Contra o Pescara de Zeman, o Pipita encontrou uma presa fácil e, após sua doppietta, deixou até mesmo que seus companheiros pudessem descansar no segundo tempo. Vale ressaltar a opção de Allegri de descansar toda a defesa titular antes do jogo decisivo contra o Barcelona na Catalunha, apesar de o ataque ter sido o titular. Isso, inclusive, pode ter atrapalhado os planos do treinador, uma vez que Muntari fez sua primeira vítima no retorno à Serie A. Dybala precisou sair de campo após seguidas entradas do ganês, mas aparentemente não sofreu nada grave e teve apenas que ser substituído. Não surpreenderia, porém, que La Joya começasse a partida do Camp Nou no banco.

Roma 1-1 Atalanta
Dzeko (Salah) | Kurtic (Conti)

Tops: Dzeko (Roma) e Kurtic (Atalanta) | Flops: Strootman (Roma) e Petagna (Atalanta)

Dzeko está impossível. Dessa vez, porém, não evitou o tropeço da Roma depois de quatro vitórias consecutivas. Um tropeço que certamente tira os giallorossi da corrida pelo scudetto, se é que ela existia: como o próprio Szczesny disse, não há como tirar da Juventus uma desvantagem de oito pontos em seis rodadas. O time da capital ainda viu o Napoli voltar a se aproximar  da vice-liderança, colocando pressão no técnico Spalletti. Em campo, o time capitolino enfrentou uma Atalanta menos agressiva do que de costume com a bola, mas os anfitriões custaram para atacar, mesmo com a larga posse de bola e os 20 chutes: apenas cinco foram ao alvo e Dzeko acabou tendo poucas oportunidades. Em uma delas, fez o gol de empate logo após o intervalo, já que Kurtic abriu o placar na primeira etapa. Por fim, um jogo aquém das expectativas, e melhor para a Dea, ainda que tenha cedido o empate. O time bergamasco poderia ter terminado a rodada em melhor condição, mas conseguiu um grande resultado contra o segundo melhor mandante da Serie A: foi apenas o segundo tropeço da Roma no Olímpico, depois da derrota para o Napoli há um mês.

Napoli 3-0 Udinese
Mertens (Jorginho), Allan e Callejón

Tops: Jorginho e Allan (Napoli) | Flops: Adnan e Heurtaux (Udinese)

Salve, Jorginho. Não é de hoje que o ítalo-brasileiro não está muito bem, o que inclusive lhe fez perder a posição em jogos importantes para o garoto Diawara. Nas últimas semanas, porém, o catarinense tem dado boa resposta e contra a Udinese talvez tenha feito não só sua melhor partida pelo Napoli, como a mais impactante de um mediocentro na Serie A nesta temporada. 13,5% do jogo napolitano passou pelo camisa 8, que recuperou a confiança de Sarri e teve 176 toques na bola e 161 passes completados – nas maiores ligas europeias, ninguém efetuou mais passes do que ele. Foi de Jorginho, aliás, o passe para Mertens abrir o placar logo após o intervalo e arquivar um primeiro tempo difícil para os anfitriões contra a competitiva Udinese de Delneri. Emprestado pelo Napoli, Zapata acertou a trave e quase empatou, mas Adnan falhou e Allan, que também estava em má fase e cresceu nas últimas semanas, ampliou. Dez minutos depois, Callejón fechou a conta na vitória que praticamente assegurou a vaga na Liga dos Campeões: a briga agora é com a Roma, para definir quem pega a vaga direta para a fase de grupos.

Dupla HD mais uma vez levou a Juventus à vitória e a aproximou do hexa (LaPresse)
Genoa 2-2 Lazio
Simeone e Pandev (Lazovic) | Biglia e Luis Alberto

Tops: Lamanna (Genoa) e Luis Alberto (Lazio) | Flops: Strakosha e Immobile (Lazio)

O presidente Zamparini, ex-Palermo, saiu da Serie A, mas seu espírito continua no campeonato: o promissor Juric foi demitido precipitadamente pelo também incontrolável Preziosi, mas o time foi muito mal sob o comando de Mandorlini. Então, o sérvio voltou ao clube pelo qual foi ídolo como jogador e fez o time ser mais competitivo diante de uma equipe muito forte e que ainda tem objetivos no campeonato, ao contrário dos grifone, que somente cumprem tabela. A surpresa da vez foi a atuação do inconstante Lamanna, que perdeu a posição para Rubinho nas últimas rodadas, mas voltou bem à meta genoana. O goleiro fez defesas importantes para segurar o resultado e até Pandev ressurgiu das cinzas para encerrar jejum de mais de dois anos sem balançar as redes e marcar o gol que seria o da vitória contra seu ex-clube. Não foi, porque nos acréscimos outro desaparecido foi decisivo: Luis Alberto evitou a derrota em Gênova com belo gol. Mas nada muda para a Lazio, já que Atalanta, Milan e Inter também empataram.

Fiorentina 1-2 Empoli
Tello (Valero) | El Kaddouri e Pasqual (pênalti)

Tops: El Kaddouri e Pasqual (Empoli) | Flops: Tatarusanu e Kalinic (Fiorentina)

Que hora para o Empoli voltar a vencer. Depois de quase quatro meses desde seu último triunfo, ainda em janeiro, os toscanos bateram justamente a rival Fiorentina, em pleno Artemio Franchi. Três pontos fundamentais para o time de Giovanni Martusciello respirar depois de sequência muito negativa, que aproximou o time da zona de rebaixamento – agora vez cinco pontos distante. Para os anfitriões, o duro tropeço no clássico da Toscana praticamente acaba com as chances de brigar pela última vaga europeia: são seis pontos para tirar do Milan, faltando justamente seis rodadas. O romeno Tatarusanu novamente falhou, enquanto os poucos destaques do time de Paulo Sousa não tiveram boa exibição. Ironia do destino o gol da vitória ter sido marcado pelo ídolo viola Pasqual. O veterano lateral, ex-capitão da Fiorentina, teve muito estômago e concentração para converter um pênalti discutível, aos 92 minutos.

Sassuolo 2-1 Sampdoria
Ragusa (Pellegrini) e Acerbi (Pellegrini) | Schick (Silvestre)

Tops: Pellegrini e Acerbi (Sassuolo) | Flops: Politano (Sassuolo) e Bruno Fernandes (Sampdoria)

Férias, que nada. Sassuolo e Sampdoria não têm muito o que disputar, mas nem por isso deixaram de fazer um bom jogo no Mapei Stadium. Os dorianos, que brigam pela primeira parte da tabela e já têm boa vantagem sobre os concorrentes, buscaram mais o jogo e inclusive abriram o placar com Schick, em jogada bastante confusa, no primeiro tempo. Porém, o time de Giampaolo voltou mal do intervalo e pagou caro por isso: em seis minutos os anfitriões viraram, com Ragusa e Acerbi, ambos em assistências de Pellegrini, mais um jovem italiano que tem chamado atenção dos grandes. A Roma, clube em que cresceu, deseja repatriá-lo, mas enfrenta concorrência dos rivais Inter e Juventus.

Torino 1-1 Crotone
Belotti (pênalti) | Simy (Nalini)

Tops: Belotti (Torino) e Cordaz (Crotone) | Flops: Hart e Maxi López (Torino)

Se ainda almejava a salvação, um tropeço em Turim não era uma opção para o Crotone, mesmo porque, simultaneamente, o Empoli venceu. Apesar de ser um bom resultado olhando de longe, na prática o empate deixou a equipe da Calábria cinco pontos distante dos toscanos, devido à improvável vitória azzurra em Florença. Isso porque o grandalhão Simy evitou o pior com gol no final do jogo, em outra falha clamorosa de Hart, que só fica atrás de Posavec como o goleiro com mais erros cruciais no campeonato - o inglês ainda encabeça a quarta pior defesa do torneio. Estacionado no meio da tabela, longe da briga por vaga europeia, o Torino ainda assim entrou bastante ofensivo e Cordaz acabou sendo o grande nome do jogo, com sete defesas, não evitando apenas o gol de pênalti de Belotti. A briga pela artilharia do Gallo, disputada tento a tento com Dzeko, é o que ainda mantém o time de Mihajlovic competitivo.

Cagliari 4-0 Chievo
Borriello, Sau (João Pedro), João Pedro e João Pedro

Tops: João Pedro e Sau (Cagliari) | Flops: Seculin e Dainelli (Chievo)

É, o Chievo definitivamente entrou no modo piloto automático. Como sempre, o time de Maran faz um bom primeiro turno, assegura a salvezza e depois cai nos braços de Morfeu no final do campeonato. Na Sardenha, o time levou uma sapatada do Cagliari. Ou melhor, quatro. Com show de João Pedro, Sau e Borriello, autores dos gols, os rossoblù inclusive empataram com os gialloblù na tabela e estacionaram no meio da tabela. Destaque também para a péssima atuação do goleiro Seculin, que tomou a vaga de Sorrentino nas últimas semanas e falhou nos dois gols do brasileiro. O antigo titular, um dos melhores goleiros do campeonato, dessa vez nem mesmo foi relacionado para a partida.

Palermo 0-0 Bologna
Tops: Fulignati e Sunjic (Palermo) | Flops: Jajalo (Palermo) e Pulgar (Bologna)

Na estreia de mais um treinador, Diego Bortoluzzi (velho braço-direito de Francesco Guidolin, inclusive com uma passagem pela Sicília como auxiliar), o Palermo não perdeu a chance de decepcionar mais uma vez sua torcida e se aproximar mais do rebaixamento. Faltando seis rodadas, são dez pontos de desvantagem para o Empoli, que voltou a vencer. Em campo, o time até atacou e teve mais a bola, mas raramente ameaçou o gol dos visitantes, que, com um a menos desde a expulsão de Pulgar aos 24 minutos, ainda levaram muito mais perigo, colocando bola na trave e obrigando o goleiro Fulignati e o zagueiro Sunjic a fazerem boas partidas.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 31ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Cordaz (Crotone); Conti (Atalanta), Zapata (Milan), Acerbi (Sassuolo), Pasqual (Empoli); João Mário (Inter), Jorginho (Napoli), Pellegrini (Sassuolo); João Pedro (Cagliari), Callejón (Napoli); Higuaín (Juventus). Técnico: Massimo Rastelli (Cagliari).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Tchau, Silvio... e olá, senhor Li

O rei dos troféus deixa o comando rossonero: Berlusconi marcou o capítulo mais vitorioso do Milan (AC Milan)
É oficial: após uma novela que se arrastou por anos, Silvio Berlusconi finalmente vendeu o Milan. Neste dia 13 de abril de 2017, o site do clube confirmou a passagem de 99,93% das ações da holding Fininvest para o grupo Rossoneri Sport Investment Lux, comandado pelo chinês Yonghong Li, que desde 2016 estava em tratativas para adquirir o Diavolo. Com isso, 31 anos e 53 dias depois, está encerrada a presidência do Cavaliere.

Nenhum dirigente foi tão vitorioso no futebol italiano quanto Berlusconi – em toda a história do futebol, apenas Santiago Bernabéu, do Real Madrid, conquistou mais troféus. Ao longo de mais de três décadas sob o comando do empresário e político italiano, o Milan acumulou 29 troféus: oito scudetti, sete Supercopas Italianas, cinco Uefa Champions League, cinco Supercopas Uefa, três Mundiais Interclubes e uma Coppa Italia. Em 2017, Silvio entrega o clube aos chineses em um momento muito menos positivo, mas que não diminui os seus feitos como cartola rossonero.


A ascensão de Berlusconi
Berlusconi nasceu e foi criado na pequena burguesia de Milão. Formou-se em direito e teve um breve período como cantor em cruzeiros, mas especializou-se mesmo no trabalho como agente imobiliário. O forte tino de Silvio para os negócios se fez notar quando ele surfou a onda do milagre econômico proporcionado pelo Plano Marshall e do aquecimento de setores da economia (como indústria e construção) durante os anos 1950, 1960 e início dos 1970. Dono de uma construtora que também operava em outras áreas do ramo imobiliário, sobreviveu à recessão que se seguiu para se tornar um dos jovens empresários mais respeitados e um dos homens mais ricos da Itália na década de 1980.

Pelas contribuições de suas empresas à República Italiana, recebeu do governo o título de Cavaliere, dado apenas a figuras destacadas na sociedade – daí vem o apelido que o acompanhou por toda a carreira. Os lucros no setor imobiliário levaram Berlusconi a diversificar sua receita, investindo em canais de TV e tornando-se um magnata das comunicações. Através do grupo Fininvest, Berlusconi fundou, em 1980, o Canale 5, o primeiro canal privado de transmissão nacional na Itália. 

Para movimentar a recém-criada rede de televisão, Berlusconi recebeu uma sugestão que envolvia diretamente o futebol e que lhe possibilitou entrar no mundo do esporte: então presidente da Inter, Ivanoe Fraizzoli, criou o Mundialito de clubes, em 1981, e ofereceu a Silvio a possibilidade de organizar e transmitir o torneio. A competição foi um sucesso e teve três edições – todas com a participação do Milan.

Na primeira metade dos anos 1980, porém, o time rossonero vivia um dos piores momentos de sua história. O clube havia vencido apenas oito títulos entre 1969 e 1986 (somente um scudetto, no fim dos anos 1970) e chegou a ser rebaixado em 1980, por participação no Totonero, e novamente em 1982, dessa vez por mau rendimento no campo – dois dos títulos citados foram da segundona. Giuseppe (ou Giussy) Farina, antigo presidente do Lanerossi Vicenza, comprara o clube pouco antes da primeira queda e levou o Milan à derrocada financeira – como fizera no Vêneto; mas ao contrário do que houve com a equipe biancorossa, que teve sucesso nos campos, levou a torcida rossonera à loucura. 

Em fevereiro de 1986, o cartola pôs o clube à venda e Berlusconi apareceu para tirá-lo do limbo, com o objetivo de devolver ao Diavolo a grandeza dos anos 1950 e 1960. O Cavaliere conseguiria mais: encheu o time de craques e transformou uma equipe já campeã europeia e multicampeã nacional em uma máquina; no clube que tem mais troféus no planeta.

Berlusconi e Galliani, parceiros de longa data, ao lado de Liedholm, primeiro técnico da gestão (Corrriere della Sera)
31 anos sob as rédeas do Cavaliere: do início ao fim
Berlusconi sempre soube como causar uma primeira impressão – cantor que foi, precisava desse dom. Sua apresentação como presidente do Milan foi impactante: aterrissou na arena cívica de Milão ao som da épica Cavalgada das Valquírias, composta por Richard Wagner e que tem, entre seus usos clichês, ser trilha sonora de invasões vikings. Berlusconi acertou em cheio, pois a música foi a verdadeira expressão do que viria a ser a sua presidência, com o "saque" da Itália, da Europa e do mundo.

De cara, Berlusconi mostrou do que era capaz. Gestor ousado, deu espaço a um treinador que somente havia passado somente pelas séries C e B, mas em que via potencial suficiente para alçar o Milan às estrelas. Sua escolha foi alvo de muita desconfiança, no início, mas calou a todos: Arrigo Sacchi transformou o Diavolo num esquadrão, referência para o esporte não apenas no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, mas para a eternidade. Fabio Capello veio depois e manteve a trajetória vencedora daquele Milan, que figura entre os maiores times de toda a história do futebol – saiba mais aqui e aqui. Entre os 15 treinadores da Era Berlusconi, não há como esquecer também Carlo Ancelotti, campeão italiano, europeu e mundial com os rossoneri. Alberto Zaccheroni e Massimiliano Allegri também levantaram taças.

O Cavaliere também levou inúmeros craques para Milanello e aproveitou jogadores formados na base, como Paolo Maldini, Franco Baresi, Alessandro Costacurta, Demetrio Albertini, Alberigo Evani e Gianluigi Donnarumma. Logo nos primeiros anos na presidência, Berlusconi usou a forte base rossonera e a reforçou com as chegadas de Marco van Basten, Ruud Gullit, Frank Rijkaard, Roberto Donadoni e Daniele Massaro. Depois, contratou jogadores como Dejan Savicevic, Zvonimir Boban, Roberto Baggio, Marcel Desailly, Marco Simone, George Weah, Oliver Bierhoff, Andriy Shevchenko, Pippo Inzaghi, Clarence Seedorf, Gennaro Gattuso, Alessandro Nesta, Andrea Pirlo, Rui Costa, Hernán Crespo, Gianluca Zambrotta e Zlatan Ibrahimovic... Poucos clubes podem se orgulhar de ter tido tantos craques no seu plantel em pouco tempo.

Foi com Silvio Berlusconi que o Milan começou a desenvolver relação especial com o Brasil – muito por causa de Adriano Galliani, que visita com frequência nosso país. 31 brasileiros jogaram pelo clube e 25 deles foram contratados por Silvio Berlusconi; isso a partir de 1996, quando o presidente já tinha 11 anos de casa e decidiu "trocar" os holandeses pelos brasileiros. Desde então, jogaram no clube Leonardo, André Cruz, Dida, Serginho, Ronaldo, Robinho, Alexandre Pato, Thiago Silva, Cafu e Kaká.

A derrocada do Milan de Berlusconi coincidiu com o desgaste de sua vida política e os inúmeros escândalos, que envolvem corrupção, fantasias sexuais, declarações nada corretas e mais uma série de fatores. A influência que conseguiu nacional e mundialmente com os feitos do Milan não serviram para que ele conseguisse conservar sua posição como primeiro-ministro (cargo que ocupou três vezes, a última até 2011). Depois disso, a crise econômica na Itália, somada à falta de credibilidade de Berlusconi, atingiu em cheio as economias do clube a partir do envolvimento de dirigentes no Calciopoli. 

Formalmente afastado de cargos políticos e voltado para salvaguardar parte do que tinha construído, o ex-homem forte do país colocou sua filha Barbara à frente do Milan e reduziu drasticamente os investimentos no clube. O título da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes de 2007 e a Serie A de 2011 foram as últimas grandes glórias dos rossoneri. A partir de então, o processo de deterioração do elenco foi iniciado, ao passo em que Silvio tentava arranjar um sócio ou um comprador. Anos depois, com resultados pífios em campo, o plano se concretizou e a Era Berlusconi-Galliani chegou ao fim. Apesar da baixa na reta final da gestão, não há como negar que os dirigentes tiveram um sucesso retumbante nos anos em que estiveram à frente do Milan.

Han, Berlusconi e Li: negócio fechado (Sempre Milan)
Afinal, quem é Yonghong Li?
Dá para imaginar que o novo manda-chuva de um clube global, como o Milan, não é um magnata conhecido? Apenas para ilustrar, Yonghong Li teve seu artigo criado na Wikipédia inglesa apenas ontem, dia 12 de abril, e até o fechamento desta matéria, só tinha versões em francês e albanês – nada em seu idioma materno, o mandarim, ou em qualquer variante da língua chinesa. 

Li é misterioso ou apenas bastante reservado? O excelente jornal italiano Il Sole 24 Ore, especializado em economia, fez um levantamento nas semanas anteriores e conseguiu algumas informações sobre o empresário. O patrimônio do novo dono do Milan, somado ao de sua esposa, a senhora Huang Li, é de cerca de 504 milhões de euros, que foram usados como garantia pela compra do Milan. Os dois são acionistas diretos ou indiretos de várias empresas dos ramos de construção, empacotamento e exploração de fosfato, mas são pouco conhecidos até mesmo dos jornalistas chineses especializados em economia. Não figuram nem mesmo na lista das 400 personalidades mais ricas da China.

Em 2012, Yonghong Li foi multado pela bolsa de valores de Xangai por descumprimento de normas de publicidade em negócios locais. O empresário também chegou a ser suspeito de dar um golpe em 18 mil pessoas que depositavam economias em um fundo de investimentos, nos anos 1990, mas já emitiu um comunicado negando qualquer envolvimento com o caso. No ano passado, seu nome constava na lista de proprietários de offshores no famosos vazamento conhecido como "Panama Papers".

O mistério em torno de Li deve ir se desfazendo nas próximas semanas? Vamos aguardar, pois o empresário nem mesmo viajou a Milão para concluir a transação – o negócio foi conduzido pelo emissário David Han Li e por Marco Fassone, ex-diretor de Napoli, Juventus, Inter e que fará parte da nova administração rossonera. 

A estreia da nova diretoria do Milan acontecerá em uma partida enorme e diante de compatriotas: o Derby della Madonnina, realizado com uma Inter há pouco também adquirida por chineses. Será o primeiro e importante passo de uma diretoria que chega transpirando incógnitas e que precisará suar bastante para se aproximar minimamente da história construída por Silvio Berlusconi.