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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Jogadores: Edwin van der Sar

Holandês foi um dos grandes da posição na história, mas teve na Juve seu calcanhar de Aquiles (Reuters)
Hoje é dia de convidado especial no blog. Para falar sobre a passagem de Edwin van der Sar pela Itália, convidamos não só um dos maiores fãs do goleiraço, mas o maior especialista em futebol holandês do Brasil. Prestigiem o texto do Felipe dos Santos Souza, colunista da Trivela e responsável pelo excelente blog Espreme a Laranja, dedicado à Eredivisie e à Oranje. Boa leitura!

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Hoje, considerar Edwin van der Sar um dos melhores goleiros de sua geração é lugar comum. E é uma ideia mais do que justificável: o holandês nascido em Voorhout impunha presença física respeitável (1,97m, 85kg), além de sempre transmitir calma e segurança sob as traves, saber jogar bem com os pés e exercer liderança natural sobre os times por que passou. Todavia, se a visão sobre a carreira do atual diretor geral do Ajax é mais do que positiva após seu término, não foi sempre assim. E foi justamente na malograda passagem pela Juventus que Van der Sar perdeu terreno em relação a outros destaques do gol nos últimos 25 anos - como Gianluigi Buffon, seu sucessor na Juve. Todavia, era difícil pensar que VDS pudesse fracassar na Velha Senhora quando a possibilidade surgiu, em 1999.

Afinal de contas, a carreira do goleiro era feita de ascensões vertiginosas. Ainda na década de 1980, ele começara em duas equipes amadoras: primeiro o Foreholte, depois o Noordwijk. Neste, o treinador era Ruud Bröring, um professor de educação física – que tinha um grupo de amigos com o qual jogava baralho mensalmente. Também fazia parte daquela confraria outro professor de educação física, chamado... Louis van Gaal. E no começo de 1989, então auxiliar técnico do Ajax, Van Gaal disse a Bröring que precisava de um goleiro promissor. O colega de carteado indicou o jovem alto que era titular do Noordwijk. Bastou para que Van Gaal apostasse, trazendo Van der Sar para o time de juniores do Ajax, durante a temporada 1989-90.

Na temporada seguinte, o novato já era reserva de Stanley Menzo no time de cima – pelo qual estreou em 23 de abril de 1991, contra o Sparta Rotterdam, pela 25ª rodada do Campeonato Holandês, substituindo o lesionado titular. Cada vez melhor entrosado, cada vez mais mostrando que sabia jogar com os pés (iniciando contra-ataques, batendo bem na bola, trocando passes com os zagueiros quando necessário), Van der Sar pedia passagem na equipe. Agora já como técnico principal do Ajax, Van Gaal sabia disso. E duas falhas de Stanley Menzo no jogo de ida contra o Auxerre, pelas quartas de final da Copa UEFA 1992-93, foram suficientes para que, na partida seguinte do torneio continental, Van der Sar entrasse no time titular do Ajax para não sair mais.

A partir de então, o crescimento do goleiro se acelerou. Mesmo sem ter jogado nenhuma partida pela seleção holandesa até então, Van der Sar foi convocado por Dick Advocaat para a Copa de 1994, na qual foi o terceiro goleiro da Laranja. E pelo Ajax, como mais um dos garotos escolhidos a dedo, entrosados e desenvolvidos sob o comando de Van Gaal, o arqueiro tornou-se o primeiro nome de uma escalação que fez história, conquistando três Campeonatos Holandeses (1993-94, 1994-95 e 1995-96 – em 1994-95, de forma invicta, sem perder em nenhuma das 34 rodadas), duas Supercopas da Holanda (1994 e 1995), uma Supercopa Europeia (1995) e, principalmente, a Liga dos Campeões da Europa, em 1994/-5, e o Mundial Interclubes, em 1995. Depois, os Amsterdammers ainda conseguiram mais alguns feitos ao longo da década de 1990. Alcançaram a segunda final de Champions seguida, em 1995-96; ganharam mais um Campeonato Holandês (1997-98), e mais duas Copas da Holanda (1997-98 e 1998-99).

Individualmente, Van der Sar também evoluía. Em 1995, enfim estreou pela seleção da Holanda, para também não deixar mais de ser o titular, durante os 13 anos em que atuou por ela. Por quatro anos seguidos, foi eleito o melhor goleiro da Holanda, entre 1994 e 1997. Em 1998, ganhou o prêmio de melhor jogador do país – em geral, mesmo. E pela Oranje, já tinha uma Euro (1996) e uma Copa do Mundo (1998) no currículo, como titular. Era claro: Van der Sar já ganhara tudo o que podia no futebol holandês.

Pólos opostos: Conte, sinônimo de sucesso em Turim, e van der Sar, que fracassou no Delle Alpi (Tumblr)
A hora de passar por novos desafios chegou em 1999, após um mau ano do Ajax (6º colocado na liga holandesa, em 1998-99). Conforme contou em sua biografia, escrita pelo jornalista holandês Jaap Visser e lançada em 2011, Van der Sar comentou com seu agente, Rob Jansen: “Eu já tive o bastante na Holanda. Frank e Ronald [de Boer] já se foram [para o Barcelona], Danny Blind vai parar de jogar (e parou mesmo, no meio de 1999), Litmanen não renovará seu contrato [foi para o Liverpool]. Não quero mais ficar. Vou para uma competição com mais estrelas. Quero ir para Espanha, Inglaterra ou Itália”. E começaram as propostas.

Duas delas, oficialmente, da Itália. A primeira, da Lazio, segundo Van der Sar: “Foi o primeiro time a chegar. Eles ficariam mais um ano com Luca Marchegiani, e ficariam comigo depois. Eu assinaria um pré-contrato, receberia o dinheiro, e ainda seria emprestado ao Ajax por mais uma temporada. Mas recusei de imediato: se eu assinasse, quereria ir imediatamente, já estava terminado o meu tempo no Ajax”.

Depois, mesmo com outro interesse concreto do Liverpool, chegou a Juventus. E um triunvirato negociou com Van der Sar e o agente: Luciano Moggi (diretor-geral da Juve), Roberto Bettega (diretor técnico) e Carlo Ancelotti, técnico bianconero. O goleiro relatou, em suas memórias: “Bettega disse que eles queriam jogar diferente, de um modo mais ofensivo, com as jogadas construídas desde a defesa. Eu disse: ‘Seria ótimo, porque me sinto bem se eu puder jogar com os pés. Quero ter a bola recuada para mim, rolar a pelota, é o meu tipo de jogo’. ‘Ótimo’, eles responderam, ‘é o que queremos também’. Quiseram fazer negócio imediatamente. A Juventus queria um contrato por cinco anos; eu, por quatro. Acertamos assim, mas com um salário um pouco mais baixo”. E assim, em junho de 1999, Van der Sar acertou sua ida para a equipe alvinegra do Piemonte e se tornou o primeiro goleiro estrangeiro do tradicional clube.

A chegada a Turim foi cheia de otimismo, como o ex-goleiro recordou: “A Juventus tivera uma temporada ruim, também [7ª colocada na Serie A em 1998-99], mas havia muitos grandes jogadores. Alessandro Del Piero, Zinédine Zidane, Ciro Ferrara, Paolo Montero, todos jogadores contra quem eu já havia atuado. Acima de tudo, tinham contratado Edgar Davids. Era um clube com dinheiro, um clube de ponta na Europa, em condição de continuar assim. Não se diz não a essas coisas. Claro que eu sabia que ser goleiro na Itália é algo diferente de ser goleiro na Holanda. Mas a Juventus era um time ofensivo, e queria ser ainda mais ofensiva. O técnico e os dirigentes haviam dito isso. E eu acreditei”.

Crença que começou a ser ameaçada tão logo Van der Sar estreou na equipe. E um episódio foi fundamental para que ele visse que a adaptação à Itália seria mais difícil do que esperava: “No meu primeiro jogo, pela Copa Intertoto, contra um clube romeno [Ceahlaul Piatra Neamt], eu recebi uma bola recuada da ponta. Já tinha visto que Ferrara estava livre no meio; permitia a chegada por trás de um adversário, mas estava livre. Pensei: ‘Vamos jogar diferente, mais ofensivamente, e o goleiro participa disso atrás’, e aí mandei a bola de primeira para Ferrara. Mas ele se assustou, mandou rapidamente a bola pela lateral e fez sinais, como quem me dissesse ‘o que está fazendo, idiota?’. Ancelotti saiu imediatamente do banco e gritou: ‘Van der Sar, manda essa bola para frente!’. Eu só pensei: ‘Caramba, não posso mais fazer isso por enquanto. Não estão acostumados, ainda’”.

As dificuldades de adaptação ao estilo italiano de jogo continuaram. Van der Sar lembrou dos trabalhos com Wiliam Vecchi, treinador de goleiros da Juve à época: “É um cara muito gentil, ainda tenho contato com ele. (...) O problema é que não era flexível. Eu tinha de treinar à maneira italiana, porque era a melhor, segundo ele. A Itália tinha mais goleiros internacionalmente conhecidos do que a Holanda, isso era inquestionável. Mas eu podia ter chegado a ele e dito que eu não era um goleiro ‘italiano’, e que não me parecia boa ideia tentar fazer isso de mim”. O jeito era se mirar no goleiro reserva: “Michelangelo Rampulla era usado para mostrar o que era pedido de mim. Vecchi sempre dizia, apontando para ele: ‘Michelangelo é seu espelho’. A gente fazia muitos exercícios no chão. Pegar bolas na esquerda, na direita, sem parar. (...) Vecchi não era mau treinador, longe disso. Mas ele se baseava em sua visão, e não ligava para minha base. E minha autoconfiança começou a cair”.

Totti supera Van der Sar com uma cavadinha na Euro 2000 (LaPresse)
Com a habilidade no jogo com os pés pouco exigida, Van der Sar só participava do jogo na hora das defesas. Era pouco notado em campo – a ponto da Gazzetta dello Sport sequer dar notas a ele, em algumas partidas da Serie A, durante a temporada 1999-2000. Para piorar, a Juventus decepcionou naquele ano: com a queda para o Celta de Vigo nas oitavas de final da Copa UEFA e, principalmente, com a perda do título italiano na última rodada da liga, caindo para o Perugia num jogo sob chuva torrencial e vendo a Lazio superar a desvantagem de um ponto ao vencer a Reggina. Somente a vitória anônima na Copa Intertoto de 1999 sobrara para a Juve. Nem mesmo o fato de ter sido o goleiro menos vazado do certame tirou a incômoda impressão de que Van der Sar ficara devendo, para a expectativa que causara em sua chegada.

O próprio goleiro vivenciava isso da pior maneira possível: tendo de ouvir o questionamento da torcida. Já adaptado ao país e falando a língua (morava em Cavoretto, bairro afastado de Turim), Van der Sar lembrou: “Já tinham me dito que na Itália tudo é futebol, futebol, futebol. Eu sabia, mas ainda assim me surpreendi. Em cada loja, em cada restaurante você era abordado para falar do assunto”. E prometia para si: “Quando aquela temporada terminou, eu só queria uma coisa: ir para casa. (...) Queria sair de Turim, sair da Itália, ir para a Holanda, para a minha família, para a Euro. Estava muito motivado para aquele torneio, em casa (Bélgica e Holanda foram sedes conjuntas da Euro). Pensava: ‘Beleza, jogo pela seleção holandesa, seremos campeões europeus, e aí eu mostrarei algo àqueles italianos’”.

O destino tratou de ser ainda mais irônico com o guarda-metas de Voorhout. Na semifinal da citada Euro 2000, disputada em plena Amsterdam Arena, a Holanda teve como adversária justamente a Itália. E Van der Sar viu a Oranje decepcionar um estádio todo laranja: com dois pênaltis perdidos no tempo normal, o time anfitrião fracassou ao tentar superar uma Azzurra que jogava com dez desde os 33 minutos do primeiro tempo – Gianluca Zambrotta, companheiro de Van der Sar na Juventus, fora expulso. O 0 a 0 ficou no placar por 120 minutos. E na decisão por pênaltis, quem brilhou não foi Van der Sar (que até pegou uma cobrança, de Paolo Maldini). O destaque supremo foi o outro goleiro do jogo: Francesco Toldo, que defendeu duas cobranças laranjas (Frank de Boer e Paul Bosvelt), viu Jaap Stam chutar nas nuvens de Amsterdã, e foi o símbolo de uma classificação heróica do Belpaese à final do torneio continental.

Tal decepção só aumentou em Van der Sar a sensação de que algo tinha de mudar em 2000-01: “Quando a ressaca da derrota na Euro diminuiu, eu só queria uma coisa: revanche. Revanche de tudo. Eu precisava e iria arrebentar na Juve. Eu queria afastar as dúvidas: do clube, da torcida, da imprensa. Pensava comigo mesmo: ‘Não desista, o primeiro ano foi de adaptação, agora seguramente as coisas vão melhorar”. Não melhoraram. Muito ao contrário.

Se em 1999-2000 Van der Sar fora apenas discreto, cometeu falhas desabonadoras em seu segundo ano no Piemonte. Começando em novembro de 2000. No dia 8, pela primeira fase de grupos da Liga dos Campeões, a Juve perdeu para o Panathinaikos (3 a 1), e o holandês foi o vilão: não só falhou no primeiro gol dos Trevos, ao não fechar bem o ângulo, mas também cometeu o pênalti que levou ao segundo gol do time helênico – e ainda foi expulso por isso. Mais três dias, e no empate por 1 a 1 contra a Lazio, pela 6ª rodada da Serie A, Van der Sar falhou de novo: deixou passar bola fácil no gol laziale, marcado por Marcelo Salas.


De goleiro cobiçado e pronto para se tornar um dos melhores do mundo quando chegou, Van der Sar passava a ser definitivamente ridicularizado. Apelidos como “Van der Gol” e “O homem das mãos de manteiga” tornaram-se comuns entre torcedores. Stefano Tacconi, de passado respeitável na Juve e no gol, não perdoava: “Van der Sar é melhor com os pés do que com as mãos, o estilo dele não combina com a Itália”. Surgiam até boatos de que Van der Sar era míope, e não via bolas vindas nos chutes de longe. Os resultados do time não ajudavam: a equipe foi eliminada da Liga dos Campeões já na fase de grupos.

O golpe de misericórdia na passagem de VDS foi dado na 29ª rodada do Italiano daquela temporada, contra a líder Roma: uma vitória aproximaria a Juve do time da capital, reabrindo a disputa pelo título. Jogando no Delle Alpi, os bianconeri faziam 2 a 0. Mas aos 33 minutos do segundo tempo, Hidetoshi Nakata acertou um chute no ângulo direito de Van der Sar. Finalmente, no último minuto do tempo regulamentar, Vincent Candela deu a bola a Nakata. O japonês bateu de longe, e Van der Sar foi infeliz: deu o rebote nos pés de Vincenzo Montella, que não perdoou e empatou. O 2 a 2 fora de casa praticamente colocou os giallorossi na rota do título que terminariam por conquistar. E o goleiro holandês caía definitivamente em desgraça.

"Com os erros, a queda na autoconfiança se acentuou ainda mais. Na biografia de Van der Sar, a esposa Annemarie (que já o acompanhava em Turim) descreveu: "Edwin começou a duvidar de si mesmo. Primeiro, ele pensou 'não preciso falar disso, as coisas se resolverão sozinhas'. (...) Quando não se resolveram, ele achou que podia resolver sozinho. Mas não deu certo, e foi piorando. Ficou tão grave que ele nem queria ir mais para o treino. Perdeu peso, e adoeceu muitas vezes". O agente Rob Jansen também comentou sobre a crise: "Uma noite, ele me ligou do nada. Foi estranho, porque ele não ligava assim de repente. 'Rob, você precisa me ajudar. Estou com um enorme problema'. Ele chegou rápido em casa. Eu disse: 'E aí, o que é?'. Ele: 'Eu não sei mais como devo agarrar uma bola'. A pequena crise depressiva do holandês só se ajeitou com palavras de Annemarie: "Um dia, de manhã, quando ele não queria sair da cama, eu sabia que tinha mais coisa por trás disso. Um dia, entrei no quarto, abri as cortinas e disse: 'Olha só: estamos aqui na Itália pela sua carreira. Faço o melhor que posso com nossos dois filhos, me esforço, e você nem quer saber. Você vai sair da sua cama, vai tomar banho e vai trabalhar. Tem coisa mais dura no mundo do que você deixar uma bola passar, como goleiro'. Foi um ponto de virada, como se ele tivesse acordado".

Ainda assim, depois das infelicidades na temporada 2000-01, o goleiro tinha esperanças de poder se recuperar. Na biografia, revelou: “Eu cheguei a Luciano Moggi e perguntei ‘e aí, chefe, quais são os planos para a próxima temporada?’ Ele disse: ‘Não se preocupe, rapaz, não acontecerá nada. Haverá algumas mudanças, queremos fortalecer o grupo, e você fica’”. Mas veio a venda de Zidane para o Real Madrid, o dinheiro começou a sobrar para contratações, e uma das principais foi a vinda de Gianluigi Buffon, a peso de ouro (52,8 milhões de euros), para o gol. Era a senha indireta para que Van der Sar arranjasse outro clube. O próprio sabia: “Não teria disputa de posição, porque já estava claro quem seria o titular”. Ficou a raiva apenas pela mudança repentina de planos. À época, em 2001, o holandês queixou-se: “Me senti traído”.

Na biografia, aprofundou: “Você não decide gastar um dinheiro desses de uma hora para outra. Eu disse que Moggi deveria ter me dado uma definição, para eu poder definir cedo um outro clube para jogar”. O tempo passou, veio o Calciopoli – envolvendo Moggi –, e o ex-jogador  não perdeu a chance de espezinhar o ex-diretor da Juve: "Depois de tudo, ficou claro como Moggi não era confiável. Ele fez todo tipo de desonestidade, subornou juízes, fraudou, fez coisas tão graves que foi preso. Eu devia ter notado, o cara estava sempre com dois telefones nas mãos".

Por mais que tenha gostado do tempo passado na Itália, em termos pessoais (“No futebol, foi uma tristeza, mas a vida foi ótima. (...) Viajávamos regularmente por Roma, por Florença, pela Sardenha, o sul, arquitetura linda, natureza linda, comida deliciosa”), Van der Sar demorou para retomar a regularidade que não faltou a alguns de seus pares – como o próprio Buffon, aposta hoje convertida em história viva. O holandês foi para o Fulham, em julho de 2001, pensando em jogar a Copa de 2002 para, a partir dela, voltar a um grande clube. Não deu certo, de novo: a Holanda ficou fora do Mundial, e coube a VDS ocupar seu posto nos Cottagers.

Por mais que a passagem pelo Fulham tenha sido elogiável, a verdade é que Van der Sar só começou a ser reconhecido e lembrado novamente quando aceitou a proposta do Manchester United, em julho de 2005 (quando Alex Ferguson corrigiu o que julgou ser “um dos grandes erros de sua carreira”). Em Old Trafford, o arqueiro holandês recuperou a confiança. E já veterano, voltou à doce rotina dos títulos, como sonhava na Juve: cinco títulos ingleses, duas Copas da Liga Inglesa, um Mundial de Clubes e, acima de tudo, a Liga dos Campeões, em 2007-08. Na conquista da Europa, o holandês foi a cara do lance decisivo da final, ao defender a cobrança de Nicolas Anelka, do Chelsea, na decisão por pênaltis, definindo-a em 6 a 5 para os Red Devils, após 1 a 1 em 120 minutos.

Depois, Edwin ainda foi escolhido o melhor goleiro da Europa, em 2009. E bateu o recorde de invencibilidade de um goleiro em campeonatos dos países do Reino Unido: 1311 minutos sem sofrer gols, na temporada 2008-09. Sem contar as duas finais de Liga dos Campeões que jogou (2008-09 e 2010-11), as participações nas Euros de 2004 e 2008, a atuação na Copa de 2006, o recorde de jogos pela seleção da Holanda...

Enfim, Van der Sar parou em 2011, aos 40 anos, deixando saudades. E duas histórias que envolvem italianos exibem com mais precisão como ele conseguiu reerguer a carreira, após a passagem pela Juventus. A primeira: na Euro 2008, durante o aquecimento das seleções de Holanda e Itália, antes da Oranje sobrepujar a Azzurra por 3 a 0, VDS foi abraçado justamente por Buffon, àquela altura já convertido em um dos ases históricos das três traves no Belpaese. E Gigi disse a Sar: “Edwin, meraviglioso, sei un grande” (“Edwin, maravilhoso, você é um grande”), em referência à recente conquista da Liga dos Campeões.

A segunda: em fevereiro de 2009, dias antes de ser fulminado por uma hemorragia cerebral, Candido Cannavò escreveu aquela que seria sua última coluna na Gazzetta dello Sport antes de morrer. E o tema do texto derradeiro de um dos decanos do jornalismo italiano na editoria de esportes foi justamente o recorde de invencibilidade do holandês na Inglaterra. A coluna foi intitulada “Nessuno ride più su Van der Sar” (“Ninguém ri mais de Van der Sar”). Um reconhecimento tardio de que, se a Juve não foi o sonho que parecia ser para o goleiro holandês, ele também não foi o trapalhão que pareceu ser quando atuou pela Velha Senhora.

Edwin van der Sar
Nascimento: 29 de outubro de 1970, em Voorhout, Holanda
Posição: goleiro
Clubes: Ajax (1990-99), Juventus (1999-2001), Fulham (2001-05) e Manchester United (2005-11)
Títulos conquistados: Mundial Interclubes (1995), Mundial de Clubes da FIFA (2008), Liga dos Campeões (1995 e 2008), Copa UEFA (1992), Supercopa Europeia (1995), Holandês (1994, 1995, 1996 e 1998), Copa da Holanda (1993, 1998 e 1999), Supercopa da Holanda (1993, 1994 e 1995), Campeonato Inglês (2007, 2008, 2009 e 2011), Copa da Liga Inglesa (2006 e 2009) e Supercopa da Inglaterra (2007, 2008 e 2010)
Seleção holandesa: 130 jogos

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

22ª rodada: O esquadrão zebrado

Allegri montou linha de frente poderosa e fez a Juve voltar a jogar bem (LaPresse)
Durou pouco o período em que Roma e Napoli comemoravam a diminuição da vantagem da Juventus na liderança. Em um único final de semana, a ofensiva equipe da Velha Senhora teve vida tranquila diante do Sassuolo e ainda contou com os tropeços de suas adversárias para ganhar terreno na briga pelo inédito hexacampeonato. A rodada ainda foi boa para a Inter, que se aproximou de uma vez por todas da zona Champions. Na semana que vem, teremos o Derby d'Italia: quem rirá por último?

Sassuolo 0-2 Juventus
Higuaín (Alex Sandro) e Khedira (Higuaín)

Tops: Higuaín e Mandzukic (Juventus) | Flops: Cannavaro e Aquilani (Sassuolo)

Sem drama, novamente a Juventus garantiu mais uma vez vitória nos primeiros minutos. A experiência com o 4-2-3-1 super ofensivo, com Pjanic, Cuadrado, Dybala, Mandzukic e Higuaín continua produtiva para quebrar o marasmo das últimas partidas da Velha Senhora, além de resgatar o equilíbrio e a solidez do time de Allegri. Nesse cenário, Mandzukic tem sido protagonista pela grande quantidade de trabalho que tem tido, atuando com muita dedicação na ponta esquerda e com bom aproveitamento em roubadas de bola e na criação de jogadas.

Contra o Sassuolo, o croata se manteve como alvo dos passes longos de Bonucci e Pjanic e gerou o primeiro gol, quando fez trabalho de pivô e tocou para a ultrapassagem de Alex Sandro, que cruzou na medida para antecipação de Higuaín, aos nove minutos – foi o 15º gol do Pipita, artilheiro do campeonato junto a Icardi e Dzeko. Não muito depois, outra boa trama ofensiva juventina garantiu a vitória, quando Higuaín recebeu na esquerda e passou para o corta luz de Dybala – esperto, o argentino percebeu a chegada de Khedira, que ampliou a vantagem. Na segunda etapa, os anfitriões chegaram a ameaçar o gol de Buffon, mas o aniversariante fez duas defesas à queima-roupa para manter a tranquilidade bianconera e garantir a ampliação da vantagem na liderança. Agora, a Velha Senhora tem quatro pontos à frente da Roma e um jogo a menos.

Sampdoria 3-2 Roma
Praet (Muriel), Schick (Muriel) e Muriel | Bruno Peres e Dzeko (Emerson)

Tops: Muriel e Praet (Sampdoria) | Flops: De Rossi e Vermaelen (Roma)

Faltava aquela romada para começar o ano. Depois de três vitórias por 1 a 0, a Roma resgatou seu espírito ao ceder o triunfo em duas oportunidades e ainda levar a virada de uma Sampdoria que não sabia o que era vencer havia seis jogos e quase dois meses. Os giallorossi não tem bom retrospecto no Marassi e foi justamente no estádio que a defesa romana, inviolada em 2017, sofreu logo três gols de uma vez. A pequena vingança doriana – a equipe genovesa foi goleada pelos capitolinos na Coppa Italia, dez dias atrás – teve Muriel com papel decisivo. O colombiano recuperou a forma e participou de simplesmente todos os gols dos blucerchiati, com passes para os empates de Praet e Schick, além do gol da virada, em cobrança de falta. A boa partida de Dzeko e a participação dos alas brasileiros Bruno Peres e Emerson foi insuficiente diante das atuações discretas de Nainggolan e Perotti e a terrível exibição de De Rossi. Assim, os romanos voltam a ficar mais longe da Juventus, enquanto a Samp voltou ao meio da tabela.

Napoli 1-1 Palermo
Mertens (Zielinski) | Nestorovski (Rispoli)

Tops: Mertens (Napoli) e Posavec (Palermo) | Flops: Allan (Napoli) e Goldaniga (Palermo)

Quem diria que o Napoli tropeçaria em pleno San Paolo para o Palermo? Mas aconteceu, e o time de Sarri saiu bastante frustrado em uma partida cheia de contradições. O goleiro Posavec, por exemplo, foi protagonista para evitar uma goleada com quase dez defesas, porém falhou retumbantemente no gol de empate de Mertens – engoliu um frango clássico, após um chute fraco. Já o belga decidiu com o empate, foi bastante participativo, mas também perdeu chances claras. O gol de Nestorovski em cruzamento de Rispoli logo aos seis minutos condicionou o jogo, e os anfitriões tiveram que correr atrás do empate. A tarefa foi dificultada por Posavec e pela boa atuação dos zagueiros palermitanos, bem posicionados pelo novo técnico Diego López, ex-defensor. O Napoli igualou o marcador muito tarde, apenas na metade da segunda etapa e nem mesmo a entrada de Pavoletti deu maior presença na área adversária, já que Insigne e Callejón estiveram bastante imprecisos. Com o tropeço, os partenopei diminuíram a diferença para a Roma, mas viram a Juventus voltar a abrir vantagem na liderança. Enquanto isso, a Inter se aproximou ainda mais.

Inter 3-0 Pescara
D'Ambrosio (Brozovic), João Mário (Perisic) e Éder (Icardi)

Tops: João Mário e Brozovic (Inter) | Flops: Bruno e Coda (Pescara)

Parece que enfim a Inter tem um meio-campo. Na vitória protocolar sobre o lanterna Pescara, foi essa a principal impressão do time de Pioli, que poderia ter tido vantagem maior no marcador, mas se deu por satisfeita por tomar a quarta posição e chegar aos sete triunfos consecutivos na Serie A. Com Kondogbia poupado para não correr risco de perder o Derby d'Italia, Gagliardini, Brozovic e João Mário pela primeira vez jogaram juntos desde o início e confirmaram a expectativa com atuação dominante no setor. Não à toa, foram decisivos para os dois gols que garantiram a vitória interista ainda no primeiro tempo. O gol de D'Ambrosio, após cobrança de escanteio, acalmou um jogo que começou frenético, ao passo que João Mário foi coroado, no final da primeira etapa, ao finalizar bela jogada que começou com o próprio e ainda teve participação de Icardi e Perisic. Na etapa final, o Pescara bem que tentou pressionar a saída nerazzurra, mas sem solidez. Gabriel e Éder ainda participaram bem da parte final do jogo, com mais um gol anotado pelo catarinense.

Udinese 2-1 Milan
Théréau (Hallfredsson) e De Paul (Jankto) | Bonaventura (Suso)

Tops: Théréau e Hallfredsson (Udinese) | Flops: Locatelli e Bacca (Milan)

Enfim de volta à vitória. No mais uma vez lotado Friuli, a Udinese contou com grande atuação e o apoio da sua torcida para bater o Milan de virada. Sempre em alto ritmo, os bianconeri não sofreram com o gol de Bonaventura logo aos oito minutos, quando o rossonero completou grande cruzamento de Suso e aproveitou a falha da marcação no segundo pau. Aliás, a saída de Bonaventura, lesionado aos 27, sim, foi um baque, mas para o seu time: depois da saída de Jack, o Milan atacou muito pouco e teve atuação insuficiente dos espanhóis Suso e Deulofeu. O empate da equipe de Delneri veio logo após a substituição: Théréau aproveitou roubada de bola de Hallfredsson, em novo erro crucial de Locatelli – que foi expulso contra a Juventus. Os anfitriões não perderam o ritmo como o esperado e seguiram em busca da vitória, que veio aos 73 com forte finalização de De Paul – pouco antes, o argentino deveria ter sido expulso, por falta que deixará De Sciglio no estaleiro até março. Aos 87, Lapadula quase empatou, mas a bola foi na trave e a Udinese assegurou sua primeira vitória em 2017, enquanto o Milan perdeu pela segunda vez e não aproveitou tropeço da Lazio, se mantendo três pontos atrás.

Lazio 0-1 Chievo
Inglese (Gobbi)

Tops: Sorrentino e Inglese (Chievo) | Flops: Strakosha e Djordjevic (Lazio)

Quando você menos espera, o Chievo vai lá e te surpreende. Depois de um início de temporada confortável, o time de Maran vinha de quatro derrotas consecutivas (para Roma, Atalanta, Inter e Fiorentina) e conseguiu um grande feito fora de casa. Adversários superiores, como era a Lazio no primeiro jogo da rodada, mas os gialloblù voltaram a vencer em pleno Olímpico. Os visitantes não foram fantásticos e nem mesmo defenderam bem, considerando o domínio físico de Parolo e Milinkovic-Savic no meio-campo e as corridas de Felipe Anderson e Lulic em vários contra-ataques. No entanto, Sorrentino foi decisivo ao parar os chutes dos anfitriões, que certamente sentiram a falta de Immobile e Keita. O gol fatal do time do Vêneto veio pouco antes do apito final, quando Gobbi desceu com facilidade na esquerda e cruzou para Inglese se antecipar e pela primeira vez chutar ao gol, marcando graças a um desvio na zaga. Não poderia haver pior cenário para os laziali, que já vinham de derrota para a Juventus e perderam a quarta posição para a Inter.

Torino 1-1 Atalanta
Falqué (Barreca) e Petagna (Kurtic)

Tops: Barreca (Torino) e Petagna (Atalanta) | Flops: Valdifiori (Torino) e Freuler (Atalanta)

No confronto entre as sensações do campeonato, um frustrante empate para ambas as equipes. Pior para o Torino, que perdeu o fôlego nas últimas rodadas, com apenas uma vitória em nove partidas, e vê o próprio treinador Mihajlovic incrédulo: ele não acredita que a equipe deixe o meio da tabela. De qualquer forma, os anfitriões começaram melhor e poderiam ter tido sorte e pontaria melhor. Se a defesa esteve firme, o ataque produziu algumas jogadas mesmo após Falqué abrir o placar em cruzamento perfeito de Barreca. A Atalanta de Gasperini foi competitiva, mas demorou para encaixar seu jogo. Quando o fez, após a entrada de Kessié no intervalo, Petagna ganhou na pequena área contra dois adversários e empatou. Na sequência, os visitantes mantiveram o ritmo na busca pela virada, mas Hart finalmente foi decisivo e manteve a situação controlada para os granata. Placar mantido, os bergamascos não aproveitaram o tropeço da Lazio para voltarem à zona europeia, enquanto o Torino também perdeu oportunidade de se aproximar de Fiorentina e Milan.

Fiorentina 3-3 Genoa
Ilicic (Sánchez), Chiesa (Kalinic) e Kalinic (Bernardeschi) | Simeone (Taarabt), Hiljemark (Taarabt) e Simeone (pênalti)

Tops: Kalinic (Fiorentina) e Simeone (Genoa) | Flops: Sportiello (Fiorentina) e Lamanna (Genoa)

Pazza Fiorentina. Em 21 partidas no campeonato, 13 tiveram pelo menos três gols. Mais uma vez a equipe de Paulo Sousa protagonizou jogo bastante movimentado e também acabou frustrada com o novo tropeço, considerando os vacilos dos adversários em briga por vaga europeia. Por outro lado, a partida de sacrifício e recuperações dá um gás para o Genoa de Juric, que vem de longa sequência sem vencer. O jogo maluco começou estranho logo na escalação, com Ilicic começando a partida no lugar do destaque Bernardeschi: e o esloveno aproveitou bem a oportunidade ao abrir o placar aos 17 minutos. Chiesa acertou a trave no lance seguinte e a viola pressionou em busca da vitória, mas ficou com apenas um gol no primeiro tempo. Na volta do intervalo, o filho de Enrico voltou a marcar pela Serie A depois de muita pressão. Mas Simeone, filho de Diego, outro craque do futebol italiano nos anos 1990, não deixou barato e conduziu seu time à recuperação. Em passe do estreante Taarabt, o centroavante descontou. Na sequência, outro estreante grifone apareceu: Hiljemark aproveitou novo passe de Taarabt. Seguindo o ritmo louco, logo depois Kalinic voltou a colocar os anfitriões na frente do placar. Bernardeschi, que entrou na etapa final e foi protagonista do terceiro gol, fez pênalti já nos minutos finais e ainda foi expulso. Na cobrança, Simeone marcou novamente e decretou o placar final. Ufa.

Cagliari 1-1 Bologna
Borriello | Destro (Krejci)

Tops: Borriello e Tachtsidis (Cagliari) | Flops: Viviani e Krafth (Bologna)

Foi por muito pouco que o Bologna não saiu do Sant'Elia com uma vitória, que seria a terceira consecutiva no campeonato. No meio do caminho tinha Borriello: o veterano centroavante novamente foi decisivo para o Cagliari, empatando a partida já nos acréscimos, em cobrança de falta. Embora o empate só tenha acontecido depois que o Bologna estava com nove em campo, pela expulsões de Viviani e Krafth, não foi por falta de tentativa que os anfitriões tropeçaram em casa, afinal o time de Rastelli pressionou bastante em busca do primeiro gol, com direito a bola na trave. Pelo lado dos visitantes, vale destacar que Destro voltou às redes após dois meses e oito partidas sem marcar, completando cruzamento de Krejci. O empate não mudou a situação das equipes, que seguem no meio da tabela com a mesma pontuação.

Crotone 4-1 Empoli
Stoian (Palladino), Falcinelli (Barberis), Falcinelli (pênalti) e Falcinelli (Rohdén) | Mchedlidze (Marilungo)

Tops: Falcinelli e Stoian (Crotone) | Flops: Croce e Dimarco (Empoli)

Se com 22 rodadas a situação na parte de baixo da tabela parece definida, isso não quer dizer que o Crotone não pode se divertir na sua curta passagem pela Serie A. Em busca da vitória contra o primeiro time acima da zona de rebaixamento, o time da Calábria foi com tudo para cima do Empoli e aproveitou até o último minuto para garantir o triunfo em casa. Com Falcinelli liderando os ataques, os anfitriões abriram o placar aos 24 minutos com Stoian, mas os visitantes empataram ainda no primeiro tempo com Mchedlidze. Coube então ao centroavante emprestado pelo Sassuolo decidir: na volta do intervalo, voltou a colocar sua equipe na frente e, já nos acréscimos, decretou a goleada com mais dois gols. Apesar da vitória, a diferença entre os clubes segue grande: são oito pontos, com 16 rodadas por jogar – os novatos ainda têm um jogo a menos contra a Juventus.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

Relembre a 21ª rodada aqui.
Confira estatísticas, escalações, artilharia, além da classificação do campeonato, aqui.

Seleção da rodada
Sorrentino (Chievo); D'Ambrosio (Inter), González (Palermo), Chiellini (Juventus), Barreca (Torino); Brozovic (Inter), Hallfredsson (Udinese), João Mário (Inter); Muriel (Sampdoria), Falcinelli (Crotone), Mandzukic (Juventus). Técnico: Massimiliano Allegri (Juventus).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Jogão à vista

Cirúrgica, Juve bate o Milan em casa e avança para enfrentar o Napoli na semi da Coppa Italia (AP)
Dois bons jogos abriram as quartas de final da Coppa Italia nessa semana e confirmaram o que muitos já esperavam: grande clássico entre Napoli e Juve nas semi. Fiorentina e Milan, respectivamente, não foram páreos para os favoritos, mas também não venderam barato as derrotas que os eliminaram da copa nacional. Os placares magros são prova disso e servem de alento para as equipes, que tentam emplacar sequência na Serie A em busca de vaga na Liga Europa. Juve e Napoli, por sua vez, mantêm grande fase e não perdem fôlego para a corrida pelo scudetto, que vai se acirrando no segundo turno. 

Ontem, em Turim, Allegri repetiu a escalação ofensiva que usou contra a Lazio, no domingo, e, mais uma vez, se deu bem. Os quatro homens de frente (Dybala, Mandzukic, Higuaín e Cuadrado) não desequilibraram o 4-2-3-1 e o time se portou muito bem, principalmente, na fase defensiva. A menor posse de bola durante todo o jogo, por exemplo, hora nenhuma foi um problema para os donos da casa, que concederam pouco espaço e souberam aproveitar bem o contra-ataque. Enquanto o Milan trocava passes sem conseguir infiltrar, a Juve recuperava a bola e acelerava na transição para levar perigo ao gol de Donnarumma. 

Com mais eficácia, a Velha Senhora fez 2 a 0 com menos de 25 minutos de jogo e viu aberto o caminho para a próxima fase. Primeiro, Dybala converteu um sem-pulo após cruzamento da esquerda. Depois, Pjanic cobrou falta com perfeição no ângulo direito do goleiro rossonero para ampliar. Dali em diante, o time se preocupou mais em controlar a partida do que em correr atrás da bola. O Milan continuou com a posse até o fim do primeiro tempo, mas as melhores chances continuaram sendo dos bianconeri.

Só na segunda etapa que a Juve levou o primeiro susto. Em belíssimo voleio, Bacca diminuiu para 2 a 1 aos sete minutos e encheu de esperanças os torcedores do Milan. O histórico na temporada (a equipe de Montella ainda não tinha perdido para a Juve em 2016-16) e na Coppa (os últimos três jogos entre os times foram para a prorrogação) contavam a favor, mas Locatelli não demorou a jogar um banho de água fria nos supersticiosos. O meia entrou duro em Dybala e, com o segundo amarelo, foi expulso de campo. Como já virou rotina, o Milan não se rendeu nem no momento mais difícil e incomodou um pouco (Deulofeu entrou e perdeu chance de empatar), mas a menor qualidade técnica ficou evidente. A Juve ainda poderia ter ampliado pelo menos duas vezes, com Mandzukic.

Jogando como centroavante, Callejón deu vitória ao Napoli sobre a Fiorentina (AP)
Na terça, o Napoli não foi tão dominante contra a Fiorentina, mas fez prevalecer a melhor qualidade técnica. A equipe de Sarri foi mais esperta em identificar o que o jogo pedia e se aproveitou da ingenuidade da defesa viola para sair com a vitória. Callejón foi quem marcou o gol decisivo, no segundo tempo: sem precisar tirar os pés do chão e (mal) acompanhado por dois defensores, ele conseguiu cabecear para o fundo das redes após cruzamento de Hamsík. 

Antes, no primeiro tempo, a Fiorentina se portava bem em campo, com duas linhas de quatro bem organizadas no 4-4-1-1, e até foi mais perigosa. Bernadeschi e Chiesa fizeram bom jogo e poderiam ter levado o time ao gol se não fossem grandes defesas de Pepe Reina. No segundo tempo, porém, os donos da casa se impuseram e passaram a dominar. Com o gol, a tarefa ficou mais simples e a Fiorentina não conseguiu reagir. A expulsão de Hysaj no fim ainda deu um sopro de esperança para os viola, mas Oliveira também foi avermelhado em seguida e não deixou nem o time se animar no desafio de empatar. 

Napoli e Juve decidem a vaga na decisão em jogos de ida e volta, nos dias 1º de março e 5 de abril. A outra semifinal será decidida na semana que vem: Inter e Lazio se enfrentam na terça, em Milão, e Roma e Cesena fecham as quartas na capital italiana, na quarta-feira.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Jogadores: Gennaro Gattuso

Em mais de uma década de Milan, Gattuso se tornou sinônimo de seriedade e mentalidade vencedora (Omega)
Símbolo de raça e imagem típica de um italiano calabrês, Gennaro Gattuso é daqueles jogadores que tratam cada lance como se valesse um prato de comida. Sanguíneo, Ringhio não gosta de perder e valoriza cada conquista. Segundo o próprio, “uma conquista de terceira divisão tem a mesma importância de uma Champions League”. Gattuso também chegou a dizer que, para ele, "a Bola de Ouro é roubar o maior número de bolas possíveis".

Ao contrário do que pudesse parecer, Gattuso não fazia o estilo “bad boy” e demonstrava toda sua virilidade dentro de campo, seja com o adversário ou com seus próprios companheiros. A agressividade e a raça acabaram lhe rendendo o apelido que lhe acompanhou em toda sua trajetória como jogador: Ringhio - "rosnado", em italiano. Embora esta fosse sua marca registrada, o volante tinha também seu talento, e não à toa sempre figurou entre os titulares do Milan e conquistou tudo o que podia, durante a última fase dourada do time rossonero. Ele era o suporte de um meio-campo que tinha Andrea Pirlo, Clarence Seedorf, Rui Costa e Kaká.

Rino, como também ficou conhecido, decidiu muito cedo seguir os passos de seu pai, Franco, que teve uma carreira como jogador na Serie D. Aos 12 anos, foi reprovado em uma peneira do Bologna, mas logo foi aceito no Perugia, clube pelo qual realizou todas as etapas das categorias de base e se tornou um expoente dos juvenis: foi peça importante dos dois únicos scudetti sub-20 da história perugina, conquistados em 1996 e 1997. 

Eleito melhor jogador do Campeonato Primavera 1996-97, Gattuso foi integrado ao elenco principal ainda aos 17 anos, na Serie B, e meses depois estava na primeira divisão com os grifoni. Após oito jogos na elite e dois anos como profissional na Úmbria, o volante, que integrava a seleção sub-18 da Itália, acertou sua transferência ao Rangers, da Escócia. A diretoria do time italiano tentou resistir e propôs novo contrato a Gattuso, mas ele até fugiu do centro de treinamentos do clube, quando seu vínculo estava acabando, para mostrar que queria jogar no exterior. Ainda assim, Ringhio ficou dois meses sem jogar em Glasgow, pois a Federação Italiana de Futebol - FIGC demorou de homologar os documentos da tratativa, pela situação delicada que se formou.

À época, o calabrês tornou-se o mais jovem emigrante do futebol italiano. Gennaro foi um pedido do técnico Walter Smith e por lá acabou por fazer seu primeiro gol como profissional. Gattuso rapidamente se adaptou ao futebol escocês, muito duro e físico, apto a suas características como atleta. A torcida enlouquecia com sua dedicação e rapidamente o apelidou como Braveheart ("Coração valente"). Apesar disso, o italiano não teve vida longa na Escócia.

Além de ser um católico atuando por um clube protestante, o que gerou certos entreveros, a chegada de Dick Advocaat no comando técnico, em 1998, fez com que pouco mais de um ano após ser contratado, Rino retornasse ao país natal para jogar na Salernitana. De Glasgow, porém, o Gattuso guarda a amizade feita com Paul Gascoigne, outro jogador “casca grossa”, com quem deve ter aprendido um pouco sobre como não tirar o pé em uma dividida.

Só mesmo no acirrado clássico Old Firm, contra o Celtic, para Ringhio apanhar (Goal)
De volta à Itália, Gattuso se tornou o jogador de mais alto salário do clube de Salerno e fez valer cada centavo. Apesar de a equipe ter sido rebaixada um ano após conseguir a promoção, o volante foi um dos destaques do campeonato, mostrando raça e muito conhecimento tático no meio-campo granata. No mercado de verão de 1999, aos 21 anos, foi contratado pelo Milan e realizou um sonho de seu pai. O jovem calabrês chegava não apenas com as credenciais das boas atuações por Perugia, Rangers e Salernitana, mas com o aval de Ruben Buriani,então diretor da equipe campana e ex-jogador dos rossoneri nos anos 1970. O cartola desempenhava a mesma função de Gattuso em campo.

Rino estreou em uma partida de Champions League contra o Chelsea, mas foi após se destacar num dérbi contra a Inter, encarando de frente ninguém menos que o brasileiro Ronaldo, que ganhou de vez o coração dos torcedores milanistas. Demonstrando incrível maturidade, assumiu a titularidade e rapidamente se tornou ídolo da equipe. Sua referência? Curiosamente um jogador que passou pela Inter: Salvatore Bagni, Gattuso guardava, em segredo, um pôster do jogador por boa parte da carreira, já que o pai o proibia de colar na parede.

Em sua primeira temporada no Milan, Gattuso fez nada menos que 28 jogos, conseguindo inclusive anotar um gol. Líder em campo, Gattuso impressionou não apenas Alberto Zaccheroni, treinador rossonero, mas também Marco Tardelli, treinador da seleção sub-21 italiana: Rino participou da conquista do Europeu da categoria, em 2000, e também foi convocado para os Jogos de Sidney. No mesmo ano, o milanista recebeu ainda suas duas primeiras convocações para a Nazionale, comandada por Giovanni Trapattoni. Sob a batuta de Trap, marcou seu único gol com a camisa azzurra, em um amistoso contra a Inglaterra.

Embora limitado tecnicamente, Gattuso conseguiu seu espaço no Milan mostrando determinação, correndo e dando carrinhos, além de cobrar o máximo de empenho de seus companheiros. Com a saída de Fatih Terim e a chegada de Carlo Ancelotti no comando técnico do clube, em 2001, ganhou ainda mais espaço, se tornando o jogador com mais presenças na temporada 2001-02 e uma peça fundamental para a conquista da Champions League da temporada seguinte, a qual foi eternizada na pele do “Gladiador”. Sob as ordens de Don Carletto, Gattuso também conquistou outra Liga dos Campeões, um Mundial Interclubes, uma Serie A e uma Coppa Italia - sem falar nas Supercopas Uefa e Italiana.

Mais do que uma referência, Gattuso tornou-se um símbolo de determinação em campo e motor de uma equipe poderosíssima. Passou a também ser presença constante na seleção italiana, participando das Copas do Mundo de 2002 e 2006. Titular na segunda vez que disputou a competição, foi um pilar do meio-campo tetracampeão mundial de Marcello Lippi. Na decisão contra a França, coube ao camisa 8 a marcação sobre o craque Zinédine Zidane. “Já não era a primeira vez que o marcava e aquilo dava-me sempre insônia na véspera. Rezava para que ele não se lembrasse de fazer magia”, disse certa vez. Apesar das dificuldades contra Zizou, que fez ótima partida, foi Rino quem levou a melhor.

Um guerreiro em campo, Gattuso também não se importava em quebrar protocolos, quando achasse necessário defender a sua equipe - que o diga Joe Jordan, ex-auxiliar do Tottenham e estrela do Milan, enforcado por Rino em uma confusão, acontecida durante partida da Liga dos Campeões. O volante também era conhecido por suas atitudes um tanto estúpidas, como por exemplo dar tapas na cara de seus companheiros. Quem sofreu com isso foi o brasileiro Kaká. “A gente tomava direto, todo dia. Porque a gente brincava com ele. Quando a gente vê isso (o tapa), não estranha”, disse. Nem mesmo seu treinador, Ancelotti, escapava dos “carinhos” de Rino.

Imagine então quando o gênio de Gattuso encontrou nada menos que o gênio de Zlatan Ibrahimovic. “O Zlatan começou a discutir com o Gattuso, mas em tom de brincadeira. ‘Você é isso, você é aquilo’, e tal. E aí começaram a brincar de briguinha dentro do vestiário. Tinha uma lata de lixo, do lado da parede, e o Gattuso foi dar uma de forte. Aí o Ibra pegou ele, virou de cabeça para baixo e colocou dentro da lata de lixo. Só dava pra ver as perninhas pra cima balançando! Todo mundo deu muita risada, porque ninguém esperava que o Ibra fosse fazer aquilo, porque o Gattuso é um cara muito forte. Ele pegou com maior facilidade”, contou o brasileiro Thiago Silva, companheiro da dupla no rossonero.

Ex-jogador do Milan e então auxiliar do Tottenham, Joe Jordan provou da ira de Rino (Times)
Ainda como jogador milanista, Gattuso teve seu nome envolvido em investigações de possíveis manipulação de resultado durante a temporada 2010-11. O procurador do caso ainda afirma que ele e Cristian Brocchi poderiam ser acusados de conspiração criminosa e fraude desportiva porque foram associados ao processo por serem ouvidos em escutas. Como não poderia deixar de ser, ele em nenhum momento “tirou o pé da dividida” e falou: “Se provarem que manipulei jogos, me mato em praça pública”. Na mesma temporada, conquistou mais uma Serie A, o penúltimo título da carreira - o último seria a Supercopa Italiana.

Este é Gattuso, ídolo rossonero, com 13 anos de equipe e 468 jogos. O volante, que chegou a ostentar a faixa de capitão em algumas oportunidades, encerrou sua passagem no Milan em 2012. Na ocasião, chorou: algo aparentemente atípico para um jogador como ele, tão duro em campo, mas uma manteiga ao ser submetido à ovação da torcida que o idolatrou. O jogador via que não teria mais espaço e, depois de 13 anos, foi vestir outra camisa, a do Sion, da Suíça. No clube, se viu em um novo desafio, quando foi convidado a ser treinador interino e jogador ao mesmo tempo. Foram 12 jogos acumulando as funções até que Rino decidisse pendurar as chuteiras de vez.

Como treinador, Gattuso ainda teve passagens por Palermo e OFI Creta, antes de desembarcar em Pisa, para comandar o time na terceira divisão. Nada que preocupasse o ex-volante, que levou o time de volta à Serie B após sete anos, com a mesma paixão de quem conquistou o mundo. Hoje, só quer evoluir para um dia realizar seu novo grande sonho, comandar o Milan. “Tenho noção de que preciso melhorar em muitos aspectos para me tornar um bom treinador e sei que tenho a paixão e o desejo dentro de mim para fazer isso. Ser treinador do Milan um dia é um sonho, como também foram vestir a faixa de capitão e essa camisa gloriosa. Meu caminho (como técnico) é longo e um dia, se eu me tornar um bom técnico, espero ter essa oportunidade”.

Leia também >>> Os 23 de Lippi: Gennaro Gattuso

Gennaro Ivan Gattuso
Nascimento: 9 de janeiro de 1978, em Corigliano Calabro, Itália
Posição: meio-campista
Times como jogador: Perugia (1995-97), Rangers (1997-98), Salernitana (1998-99), Milan (1999-2012) e Sion(2012-13)
Títulos conquistados: Serie A (2004 e 2011), Coppa Italia (2003), Supercopa Italiana (2004 e 2011), Uefa Champions League (2003 e 2007), Supercopa Uefa (2003 e 2007), Mundial Interclubes (2007) e Copa do Mundo (2006)
Times como treinador: Sion (2013), Palermo (2013), OFI Creta (2014-15) e Pisa (2015-17)
Seleção italiana: 73 jogos e 1 gol

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

21ª rodada: Suor e recompensa

João Mário garantiu a sexta vitória consecutiva da Inter (AP)
Na segunda rodada do returno da Serie A, a Inter voltou a viver um drama, mas venceu e demonstrou que ainda está viva na briga por uma vaga na Liga dos Campeões. Longe do maior torneio europeu desde 2012, a equipe nerazzurra chegou a seis triunfos em sequência e finalmente tem rendido o que se esperava de um elenco tão caro. A 21ª jornada do Campeonato Italiano também teve como destaques o jogaço entre Milan e Napoli e as marcas positivas de Juventus, Roma e Atalanta. Com quase metade do torneio pela frente, os rebaixados para a segundona também estão virtualmente definidos. Confira.

Palermo 0-1 Inter
João Mário (Candreva)

Tops: Murillo e Gagliardini (Inter) | Flops: Goldaniga e Jajalo (Palermo)

Seis vitórias consecutivas na Serie A. A Inter não conseguia tal marca desde outubro de 2012, quando teve um ótimo início de temporada – ainda que a equipe, treinada por Stramaccioni, acabaria o campeonato com a pior colocação do clube neste século. Neste campeonato, apenas a Atalanta tinha conquistado tantos triunfos em sequência, entre setembro e novembro. Com Pioli, a equipe de Milão tem aproveitamento de campeã: segundo levantamento feito pela Gazzetta dello Sport, se projetados para as 21 rodadas disputadas, seus números renderiam 51 pontos e a primeira posição à Beneamata. De qualquer forma, o time de Pioli não tem vivido este bom momento sem que protagonize certo drama: a partida realizada em um vazio Renzo Barbera, contra o pior anfitrião da Serie A, não foi exceção.

Os visitantes ofereceram alguma resistência com Bruno Henrique, Quaison e Nestorovski, mas Miranda e Murillo estiveram firmes na defesa e Handanovic só trabalhou para cortar cruzamentos – não fez uma defesa sequer. Do outro lado, porém, o inexperiente Posavec superou as frequentes falhas e fez defesas importantes para manter o placar zerado por mais de 60 minutos, mesmo com a insistência do ataque interista. Se Icardi, Perisic, Banega e Candreva não estiveram inspirados, João Mário entrou com gás e mais uma vez foi decisivo, completando cruzamento do italiano na pequena área. A vantagem foi mantida, mas a Beneamata ainda teve as expulsões de Ansaldi e Pioli no final do jogo. Com o resultado, a Inter voltou à zona europeia e ocupa a 5ª posição, a um ponto da Lazio. O Palermo, por sua vez, está cada vez mais próximo da Serie B.

Juventus 2-0 Lazio
Dybala (Mandzukic) e Higuaín (Cuadrado)

Tops: Mandzukic e Cuadrado (Juventus) | Flops: Felipe Anderson e De Vrij (Lazio)

Pela primeira vez a Juventus teve Dybala, Higuaín e Mandzukic juntos no time titular, e juntamente com o trio, Cuadrado. A formação super ofensiva de Allegri foi uma surpresa, inclusive para a Lazio: o diretor esportivo laziale, Igli Tare, falou que não esperava o adversário dessa forma. Não à toa, os gols em Turim surgiram dos pés do quarteto, que aproveitaram desatenções da defesa laziale para matar o jogo depois de apenas 17 minutos. Sem jamais reagir de forma competitiva, a Lazio viu seu jejum de vitórias contra os bianconeri, em Turim, aumentar para 14 anos. Por sua vez, a Velha Senhora estendeu sua série de vitórias em casa a incríveis 27 jogos.

Com os gols marcados logo no início, os anfitriões não tiveram qualquer problema para apenas administrar a vantagem pelos mais de 70 minutos restantes, controlando a posse de bola e impedindo o adversário de pisar na sua área. A Lazio até chutou mais, mas a maioria das vezes arriscou de fora da área e Buffon pouco trabalhou. Assim como Marchetti do outro lado: ele viu as finalizações dos argentinos Dybala e Higuaín balançarem as redes e depois não sofreu mais nenhum chute contra sua meta. Tranquila, a Juventus defendeu a primeira posição e manteve a liderança frente às vitórias de Roma e Napoli. Já a Lazio segue em 4º, mas viu os napolitanos abrirem vantagem e a Inter encostar.

Milan 1-2 Napoli
Kucka (Pasalic) | Insigne (Mertens) e Callejón (Mertens)

Tops: Mertens e Insigne (Napoli) | Flops: Gómez (Milan) e Tonelli (Napoli)

Nem mesmo o Napoli de Maradona esteve confortável em San Siro contra o Milan. Mas com Sarri o cenário é outro: domínio total dos napolitanos em Milão. Depois de ficar quase três décadas sem vencer o confronto no norte, os azzurri agora comemoram a segunda vitória seguida e também uma invencibilidade de dez partidas no campeonato, recorde nesta temporada. Números que exaltam a reação do Napoli, sempre na cola de Juventus e Roma. Sarri também foi exaltado, porque seu planejamento funcionou perfeitamente nos primeiros 30 minutos e, em que pese a reação rossonera, a vitória foi mantida. O caminho para os gols foi construído através de recuperações no seu campo e lançamentos para Mertens, que teve facilidade para achar espaços na desfalcada defesa milanista. Após passes longos dos brasileiros Allan e Jorginho, o belga tocou para Insigne e Callejón superarem Donnarumma, tão desatento quanto seus companheiros. Jeito ruim para o ótimo goleiro comemorar os seus 50 jogos na Serie A.

No entanto, o belga virou antagonista e o goleiro de 17 anos começou sua recuperação em um lance que acabou sendo determinante para a sequência da partida. Cara a cara, Mertens perdeu gol inacreditável, e Donnarumma fez uma defesa que devolveu a confiança para si e o restante do time. A equipe de Montella se tornou competitiva ao ofuscar a saída napolitana e criar consecutivas oportunidades, aproveitando erros individuais. Como os de Tonelli, que vacilou em recuo de Jorginho e viu Pasalic passar para Kucka tocar na saída de Reina. O zagueiro italiano ainda deu outro susto ao derrubar Bacca quase no limite da área, nos acréscimos. Após o intervalo, a tônica seguiu a mesma e em dois minutos os anfitriões tiveram duas grandes oportunidades, novamente com Pasalic, que acertou a trave em cabeceio após cruzamento perfeito do Abate, e teve enfiada de bola interceptada por Albiol, que deixaria Bacca na cara do gol. De qualquer forma, assim como o gol perdido por Mertens levou à queda do Napoli, as oportunidades não aproveitadas pelo Milan também tiraram o gás da equipe com os ataques frustrados – somadas à reorganização dos visitantes na defesa. O placar derrubou os rossoneri na tabela: após perderem duas posições, estão em sétimo.

Roma 1-0 Cagliari
Dzeko (Rüdiger)

Tops: Dzeko e Fazio (Roma) | Flops: João Pedro e Diego Farias (Cagliari)

Pela terceira vez seguida, a Roma bateu seu adversário por 1 a 0. Um início de ano sem graça para os giallorossi, que costumam fazer boas partidas, mas também mostram a maturidade de uma equipe que não precisa de grande esforço para conquistar os três pontos. Contra o Cagliari, Fazio ganhou todas as bolas na defesa e Szczesny só tocou na pelota para bater tiro de meta, segurar a posse com seus companheiros ou lançar para o pivô de Dzeko. O bósnio garantiu sua volta às redes, marcando o gol da vitória pouco depois do intervalo, completando cruzamento de Rüdiger, e ainda fez uma grande partida, comandando sozinho o ataque romano – ainda acertou a trave e teve um gol bem anulado. Fechando a rodada, sabendo dos resultados de Juventus e Napoli, o time de Spalletti não teve problemas para defender a segunda posição e manter a distância de um ponto para a liderança. Com o resultado, a Roma igualou sua maior série de vitórias em casa: como em 1930, chegou a 13 consecutivas.

Atalanta 1-0 Sampdoria
Gómez (pênalti)

Tops: Gómez e Bastoni (Atalanta) | Flops: Silvestre e Linetty (Sampdoria)

Tem sido um campeonato fantástico para a Atalanta. Já com a salvezza garantida, o time de Gasperini aproveita para se divertir e, quem sabe, beliscar uma vaga europeia. É um objetivo difícil, mas depois de 21 rodadas os nerazzurri seguem na briga, agora, inclusive, na frente do Milan. Corajoso, o treinador ainda foi responsável por um feito importante: pela primeira vez um time escalou dois ou jogadores nascidos em 1999 na Itália. O zagueiro Bastoni e o volante Melegoni, já titulares no sub-19, não tiveram problemas para estrearem na Serie A como titulares em Bérgamo – o primeiro ainda se destacou, com grande exibição e cortes decisivos para manter a vitória. No ataque, brilharam Spinazzola, Gómez e Petagna, que protagonizaram 19 dos 21 dribles da equipe. Em pênalti duvidoso sofrido pelo centroavante, o argentino converteu com personalidade e colocou a Dea na sexta colocação, além de aumentar a sequência negativa da Sampdoria, que não vence há seis rodadas. Giampaolo já recebeu um recado do presidente Ferrero.

Chievo 0-3 Fiorentina
Tello, Babacar (pênalti) e Chiesa (Vecino)

Tops: Chiesa e Tatarusanu (Fiorentina) | Flops: Dainelli e Pellissier (Chievo)

Depois de bater a rival Juventus, a Fiorentina voltou a superar o Chievo – eliminou os gialloblù na Coppa Italia há duas semanas –, dessa vez no Bentegodi, um dos campos mais complicados da Serie A. Para isso, o time de Paulo Sousa não foi exatamente espetacular e, na verdade, sofreu bastante, por mais que o placar indique o contrário. Os anfitriões tentaram reagir com Castro, Birsa e Meggiorini, mas inacreditavelmente Tatarusanu foi decisivo para manter o clean sheet e afastar qualquer chance de reação adversária. Para tanto, o goleiro também contou com boa participação do trio Sánchez, Rodríguez e Astori. Para espantar a má fase, o espanhol Tello contou com erro clamoroso para abrir o placar aos 18 minutos e o senegalês Babacar, substituto do suspenso Kalinic, marcou em pênalti sofrido por Chiesa, aumentando a vantagem logo após o intervalo. Por fim, o filho do ex-atacante Enrico finalmente conseguiu o gol que não lhe foi atribuído na rodada anterior e marcou pela primeira vez no campeonato. O ponta, tão rápido e habilidoso quanto o pai, vai se mostrando cada vez mais importante para os viola.

Bologna 2-0 Torino
Dzemaili (Krejci) e Dzemaili (Donsah)

Tops: Dzemaili e Mirante (Bologna) | Flops: Falqué e Valdifiori (Torino)

Dando outro indicativo da sua irregularidade, depois de sequência negativa o Bologna venceu pela segunda vez no ano. Agora, a equipe de Donadoni está exatamente no meio da tabela, em décimo. Para isso, Mirante e seus companheiros de defesa estiveram firmes contra um ataque que sentiu a falta de Belotti e não teve grandes atuações de Ljajic e Falqué, sem falar na apatia de seu meio-campo. A vitória dos emilianos veio graças à falha defesa de Mihajlovic e a dois gols de Dzemaili, que superou Hart facilmente em duas oportunidades. Nos últimos jogos, o meia suíço voltou a mostrar o lado artilheiro do início de carreira e foi fundamental para as conquistas dos felsinei. O Toro, por sua vez, parece encontrar seus limites fora de casa e quase não consegue somar pontos longe de Turim – venceu somente duas partidas fora de seus domínios.

Empoli 1-0 Udinese
Mchedlidze (Veseli)

Tops: Mchedlidze e Croce (Empoli) | Flops: Karnezis e Zapata (Udinese)

Depois de encerrar o ano em alta, a Udinese iniciou 2017 com três derrotas – ainda que duas delas tenham sido contra Inter e Roma e com bom desempenho do time de Delneri. Porém, na Itália as coisas funcionam quase como no Brasil: o treinador já levou um puxão de orelha e a diretoria pensa em preparar uma concentração. Isso porque dessa vez a equipe esteve apática fora de casa e caiu para o Empoli no pior jogo da rodada, em confronto marcado por duelos aéreos, muitas perdas de posse de bola e pouco trabalho dos goleiros. O jovem time friulano não teve a mesma disposição no ataque, enquanto os anfitriões também pouco ameaçaram, mas aos 82 minutos, a defesa visitante sucumbiu ao cabeceio de Mchedlidze, que subiu alto para completar cruzamento de Veseli e garantir rara vitória do Empoli, cada vez mais tranquilo na 17ª posição, por incrível que pareça. Afinal de contas, Palermo, Pescara e Crotone não oferecem qualquer resistência e a diferença já aumentou para 11 pontos. Restando 17 rodadas, o cenário parece muito bem definido na parte de baixo da tabela.

Genoa 2-2 Crotone
Simeone (Cofie) e Ocampos (pênalti) | Ceccherini (Barberis) e Ferrari

Tops: Simeone (Genoa) e Ceccherini (Crotone) | Flops: Lamanna (Genoa) e Cordaz (Crotone)

Como a Udinese, o Genoa também caiu de desempenho depois de boa sequência de resultados – ainda que tenha mantido bom futebol com Juric. O treinador, como sempre, acaba sendo o bode expiatório e já foi criticado pelo presidente Preziosi, que tem muita consideração pelo ex-jogador. Contra o novato Crotone, antiga equipe do técnico sérvio, pesaram a deficiência dos grifoni na bola parada e mais uma vez as falhas do goleiro Lamanna, que certamente tem causado desespero nos torcedores desde a lesão do ídolo Perin. Em cobranças de falta de Barberis, os zagueiros Ceccherini e Ferrari responderam aos gols anfitriões, marcados pelos bons Simeone e Ocampos. A equipe genovesa caiu para a 16ª posição, mas olha mais para a parte de cima da tabela do que para a zona de degola. Virtualmente rebaixado, o Crotone aproveitou para somar mais um ponto na sua curta passagem pela Serie A.

Pescara 1-3 Sassuolo
Bahebeck (Biraghi) | Matri (Politano), Pellegrini (Mazzitelli) e Matri (Politano)

Tops: Matri e Consigli (Sassuolo) | Flops: Bizzarri e Fornasier (Pescara)

O calvário do laterna Pescara continua. A diretoria formou boa equipe do meio-campo para frente, mas esqueceu da defesa e o time de Oddo sofre exatamente pela instabilidade na zaga, que agora afetou até mesmo a produção ofensiva, que foi boa nos primeiros meses no retorno à Serie A. Dessa vez, até levou a uma vitória fora de casa do Sassuolo, que chegou a apenas seu segunda triunfo longe da Emília-Romanha, novamente graças aos gols de Matri. O ex-jogador de Juventus, Milan e Lazio ficou três meses sem marcar, mas nas últimas duas partidas guardou quatro vezes contra os quase rebaixados Palermo e Pescara. Depois da ajuda de Berardi, agora contou com os passes de Politano e as falhas do experiente Bizzarri, até então único ponto de resistência na defesa dos golfinhos. Consigli ainda defendeu pênalti no final, tirou onda e comemorou a segunda vitória seguida dos neroverdi, depois de um mês sem vitórias. Longe da zona de rebaixamento, a equipe neroverde agora promete crescer e ficar em posição mais condizente com seu elenco.

*Os nomes entre parênteses nos resultados indicam os responsáveis pelas assistências para os gols

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Seleção da rodada
Tatarusanu (Fiorentina); Bastoni (Atalanta), Murillo (Inter), Fazio (Roma); Cuadrado (Juventus), Chiesa (Fiorentina), Dzemaili (Bologna), Spinazzola (Atalanta); Insigne (Napoli); Matri (Sassuolo), Dzeko (Roma). Técnico: Massimiliano Allegri (Juventus).

A Liga Serie A disponibiliza os melhores momentos da rodada em seu canal oficial. Veja os melhores momentos dos jogos abaixo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Pequenos milagres: o Pisa, o xamã e os gringos

Com mais de 100 anos de história, o Pisa teve auge nos anos 1980, com presença de craques e conquista de títulos internacionais (Il Pisa Siamo Noi)
Em 2016, um dos mais tradicionais times da Toscana voltou às manchetes. O Pisa começou a receber atenção desde que Gennaro Gattuso assumiu o cargo de treinador da equipe, mas teve destaque mais concreto quando conseguiu o acesso à Serie B pela primeira vez após a sua segunda falência, que ocorreu em 2009. Os nerazzurri também estiveram no centro de um imbróglio societário, que resultou na compra do clube por Giuseppe Corrado, presidente de uma cadeia de salas de cinema na Itália.

Ambos os acontecimentos são tentativas para tentar reerguer o clube, que viveu seu auge nos anos 1980 e protagonizou alguns pequenos milagres na elite do futebol local. Nada mais apropriado para a equipe de uma cidade que tem na Piazza dei Miracoli ("Praça dos Milagres") um de seus maiores pontos turísticos.

Fundado em 1909, o Pisa foi aceito na primeira divisão da Itália em 1912, época em que o campeonato era regionalizado e tinha a disputa final em mata-mata. Neste sistema, a equipe venceu os troféus da Toscana e da Itália Centro-Meridional em 1921, garantindo uma vaga na final nacional, contra a Pro Vercelli. Os bianchi do Piemonte venceram por 2 a 1 e o Pisa acabou ficando com o vice.

Após o estabelecimento do torneio de pontos corridos, oito anos depois, os pisanos demoraram a frequentar a elite. Ficaram muito tempo na segundona e na terceirona, até conseguirem o primeiro acesso, em 1968-69, graças a um time no qual se destacaram o líbero Piero Gonfianti, o lateral Roberto Gasparroni e o meia Fabrizio Barontini. A participação naquela edição da Serie A seria a única dos nerazzurri até a compra do clube por Romeo Anconetani, no fim da década de 1970. A partir daí, muita coisa mudou na cidade da Torre Inclinada.

Sob a égide do Presidentissimo
Podemos dizer que Romeo Anconetani dedicou uma vida quase inteira à gestão de futebol; experiência que atingiu seu auge no Pisa, a partir de 1978. Nascido em Trieste, ele se mudou para Florença a trabalho e viveu tranquilamente até ser convocado pelo exército italiano para a II Guerra Mundial. Aos 25 anos, após o conflito, ele entrou no esporte como secretário do Signa, pequeníssimo clube da Toscana, e depois foi dirigente de Empoli e Prato, times que também são da região. Em 1973, Romeo foi morar em Pisa para ajudar mais de perto o filho Adolfo, que era diretor esportivo da Lucchese, time da vizinha cidade de Lucca.

Naquele momento, Anconetani já desempenhava outro papel no futebol. A partir do fim dos anos 1950, quando foi suspenso pela Federação Italiana de Futebol – FIGC, ele havia se tornado consultor de mercado para equipes de toda a Itália e, segundo estudiosos, foi um dos pioneiros do ofício de procurador esportivo – ele ganhava 5% do valor de cada transação acertada.

Após cinco anos morando na terra de Galileu Galilei, Romeo usou parte do que tinha acumulado com sua consultoria e adquiriu o Pisa, então na Serie C1, por 300 milhões de liras. Um valor baixo para a época e que nem se comparava ao mundaréu de dinheiro à disposição das gigantes da Velha Bota: para se ter uma ideia, Marco Tardelli, meio-campista revelado no clube, havia sido contratado pela Juventus em 1975 por 950 milhões.

O grande trunfo de Anconetani para reerguer o Pisa era um trabalho que ele vinha desenvolvendo há anos e continuava encorpando. O dirigente tinha uma rede de pessoas de confiança que era responsável por avaliar jogadores em toda a Itália, dando-lhes notas a cada atuação. O catálogo, criado originalmente para que ele pudesse indicar novas contratações para os clubes que usavam os serviços de sua consultoria, foi ampliado pelos olheiros dos nerazzurri e também ganhou nomes da América do Sul e de países da Europa – falaremos mais adiante sobre os contratados. Diz a lenda que mais de 40 mil nomes foram listados pelo cartola.

Anconetani e sua superstição: sal à beira do campo para dar sorte à equipe (Il Pisa Siamo Noi)
Os resultados da nova gestão se fizeram sentir quase de imediato. Em 1978-79, o Pisa conseguiu o vice-campeonato da terceira divisão e retornou à segundona após sete anos de ausência. Foram necessárias outras três temporadas na Serie B para que os pisani retornassem ao Olimpo do Belpaese: a elite era realidade. Durante a Era Anconetani, encerrada em 1994, os nerazzurri disputaram a Serie A em seis oportunidades, em anos alternados, faturaram duas vezes a Serie B (1985 e 1987) e a Copa Mitropa (1986 e 1988) e ainda foram semifinalistas da Coppa Italia (1989). O prestígio alcançado fez com que Romeo ganhasse a pomposa alcunha de "Presidentissimo".

Outro apelido que Anconetani recebeu foi o de Lo Sciamano ou O Xamã, em bom português. Supersticioso até o último fio de cabelo, o mais conhecido ritual do presidente era colocar sal à beira do gramado para espantar a má sorte – antes de um jogo contra o Cesena, ele ordenou que 26 quilos (!) de sal fossem depositados em torno do campo da Arena Garibaldi. Romeo também era muito religioso: católico, se definia como um "bispo de araque" e chegou a levar o elenco em diversas peregrinações, nas quais até pagava promessas em caminhadas com pés descalços.

Além de exagerado, extravagante e supersticioso, Anconetani era vulcânico – um típico presidente folclórico de outros tempos de Serie A. Demitia técnicos por atacado (foram 22 em 16 anos de gestão) e podia passar de uma chuva de elogios a ofensas pesadíssimas no confronto de jogadores e técnicos em uma questão de minutos. Escrevia, a próprio punho, longos desmentidos à imprensa e era capaz de atender o telefone se passando por secretário para fingir que estava indisponível. E esteve presente no clube em seu auge e na primeira falência.

Com o Presidentissimo era oito ou oitenta também na forma como agiam com ele: era amado, mas quase ficou cego em 1993, depois de receber uma garrafada de um torcedor. Morreu em 1999 e, dois anos depois, o estádio do clube teve o nome do cartola incorporado a ele, tornando-se Arena Garibaldi – Romeo Anconetani.

O brasileiro Luís Vinício foi um dos principais treinadores da história pisana (Il Pisa Siamo Noi)
Um ioiô azul e preto
Ser capaz de competir durante um quarto de século em alto nível na Serie B e dificultar os grandes na elite já era um feito e tanto para o Pisa. A torcida entendia que o clube era uma espécie de peixe fora d'água na Serie A e que obter a salvezza era motivo para varar noites comemorando. Nas sete vezes em que disputou a principal categoria do futebol do Belpaese, somente em duas oportunidades a equipe não foi rebaixada: em 1982-83 e 1987-88. Em 1969, 1983, 1986, 1989 e 1991, sucumbiu.

Na primeira ocasião, o técnico dos nerazzurri era o respeitado brasileiro Luís Vinício, um dos maiores andarilhos do futebol italiano. O mineiro já havia feito trabalhos marcantes por Napoli e Lazio e foi contratado por Anconetani com o objetivo de atingir a mesma façanha que conseguira com o pequeno Avellino: manter a equipe na Serie A.

Era a primeira temporada dos pisani na elite sob as ordens do Presidentissimo e, embora o time tenha passado alguns longos períodos sem vitórias, o cartola bancou Vinício. O treinador conseguiu a salvação na última rodada, com um pontinho a mais que o Cagliari, o antepenúltimo colocado.

O artífice da segunda salvezza foi Giuseppe Materazzi – pai do zagueiro Marco Materazzi. Então com 41 anos, o treinador foi contratado após chamar a atenção na Casertana, da terceirona, e precisou fazer o time se superar para não cair. Isso porque o Pisa começou sofrendo quatro vitórias consecutivas, mas o sardo se segurou no cargo.

No decorrer do campeonato, a equipe acumulou pontos em confrontos diretos e vitórias importantes sobre Fiorentina e Inter. Ainda assim, só alcançou a permanência matemática na última rodada, com um triunfo sobre o Torino. O ataque nerazzurro foi pífio – marcou 23 gols e seus artilheiros só balançaram as redes três vezes –, mas a defesa, vazada 30 vezes, foi a quarta melhor da Itália. Materazzi acabou sendo seduzido por uma proposta da Lazio e os pisani seriam rebaixados no ano seguinte.

Berggreen e Kieft: dois dos gringos que entraram para a história nerazzurra (Twitter)
Os gringos
O elenco do Pisa era recheado de italianos, mas foram os "gringos" que deram mais peso ao time. Enquanto jogadores locais, como Alessandro Mannini, Roberto Chiti, Antonio Cavallo, Davide Lucarelli, Stefano Cuoghi, Pasquale Casale, Claudio Sclosa, Daniele Bernazzani, Michele Padovano e Lamberto Piovanelli seguravam as pontas e formavam uma base de coadjuvantes sólida, os estrangeiros eram responsáveis pelo toque de brilho. Lembrando que, durante a maior parte dos anos 1980, a FIGC permitia que cada clube contratasse somente dois jogadores de outras nacionalidades a cada temporada.

Sem dúvidas, o principal estrangeiro que vestiu a camisa nerazzurra foi o dinamarquês Klaus Berggreen – considerado por muitos o maior jogador da história do clube. O meio-campista, então com 24 anos, foi adquirido em 1982 junto ao Lyngby por 270 milhões de liras, como uma prova de que a equipe da Toscana tinha ambições em seu retorno à elite, depois de 13 anos de ausência. O camisa 7, que já fazia parte da seleção de seu país, ficou quatro temporadas no Pisa, pelo qual realizou 124 jogos e anotou 29 gols.

O meia capitaneou os nerazzurri e ganhou mais carinho da torcida porque topou disputar uma Serie B, em 1984-85. Berggreen teve como grandes momentos no Pisa as artilharias do time em seus dois primeiros anos e o gol decisivo de para a vitória pisana sobre o Napoli de Diego Maradona, em pleno San Paolo, em 1986. Enquanto esteve na Toscana, o jogador fez parte do elenco da Dinamarca semifinalista da Euro 1984 e que encantou o mundo na Copa de 1986. Acabou vendido à Roma por 4 bilhões de liras e rendendo um lucro de quase 1500% aos toscanos.

Outro loiro fez sucesso pelas bandas da Torre Inclinada: Wim Kieft. A contratação do centroavante, em 1983, fez ainda mais barulho do que a de Berggreen, pois o jovem de 20 anos havia marcado 32 gols no Campeonato Holandês e sido Chuteira de Ouro com a camisa do Ajax, no ano anterior. Kieft era muito físico e sabia se posicionar muito bem na grande área – especialmente para cabecear, já que tinha 1,90m. Ele tinha tudo para brilhar no futebol italiano daquela época e prometia marcar muitos gols, pois seria o grande terminal ofensivo de uma equipe de ambições modestas. O holandês começou marcando quatro gols na Coppa Italia, mas não engrenou na Serie A: viveu um jejum de quase seis meses e anotou o primeiro de seus únicos três tentos na competição em fevereiro de 1984.

A queda para a Serie B não fez com que Kieft deixasse o Pisa. Pelo contrário, serviu para que ele entrasse em forma: a dupla com Berggreen finalmente engrenou e o holandês marcou 15 gols, sendo o grande nome do título da segundona, em 1985. No início da nova temporada, Kieft foi o autor do tento que deu o primeiro título internacional da equipe nerazzurra: na final da Copa Mitropa, disputada pelo vencedor da Serie B e equipes dos Bálcãs, ele fez o seu contra o Debrecen, da Hungria. O holandês teve um desempenho bom no restante da campanha – marcou 11 gols no total; sete deles na Serie A –, mas o efeito ioiô se fez presente e os pisani foram rebaixados de novo. Kieft acabou negociado com o Torino e depois ainda faria parte da seleção da Holanda campeã da Euro 1988.

Um brasileiro muito conhecido também fez sucesso no Pisa. Dunga, capitão do tetra e ex-técnico da Seleção, teve sua primeira experiência no futebol europeu com a camisa nerazzurra. O gaúcho, então com 23 anos e titular do Vasco, era observado pelos olheiros dos pisani, mas chegou ao clube em 1987 emprestado pela Fiorentina, que já tinha dois estrangeiros no plantel. Dunga foi recebido com pompa no aeroporto e conheceu a cidade em um passeio conduzido pessoalmente pelo presidentíssimo Anconetani. O volante ficou somente um ano no clube nerazzurro, mas foi vital para dar sustentação ao forte sistema defensivo montado por Beppe Materazzi. Cucciolo – nome do anão Dunga em italiano – ainda marcou um golaço na importante vitória sobre a Inter.

O Pisa ainda teve em seu plantel, entre 1990 e 1992, um outro símbolo da raça em campo e da excelência como volante: Diego Simeone. El Cholo já era um prodígio e, aos 20 anos, assumiu a liderança da equipe, que defendeu nas séries A e B, em 55 partidas. Juntamente com ele, outro jovem destaque argentino, o lateral esquerdo José Chamot, também se destacou na Toscana. Os dois fizeram parte do elenco nerazzurro na última temporada que o Pisa disputou a primeira divisão.

Dunga foi um dos poucos brasileiros da história do Pisa, clube que o levou à Europa (Interleaning)
Últimos suspiros na Serie A: a decadência e os anos recentes
Em 1991, o Pisa se despediu da elite e nunca mais voltou. Nem Simeone, Chamot ou o competente Mircea Lucescu, em início de carreira, foram capazes de salvá-lo – o romeno treinou os nerazzurri durante poucos meses e logo foi tragado pela fúria de Anconetani. O Presidentissimo também foi puxado para o olho do furacão e não conseguiu evitar a falência do clube, que foi à bancarrota em 1994. Refundado, o Pisa precisou disputar a Eccellenza toscana, uma das categorias regionais da sexta divisão.

O clube subiu para a Serie C2 em dois anos; alcançou a C1 em 1999 e, em 2000, venceu a Coppa Italia da terceirona. Somente em 2007 garantiu o acesso à Serie B e, justo na temporada 2007-08, quase garantiu outro feito: a diretoria nerazzurra contratou Gian Piero Ventura, atual treinador da Itália, e conseguiu o seu melhor momento no pós-Anconetani, sendo eliminada nos apenas play-offs de acesso à primeira divisão.

O genovês conseguiu montar uma equipe interessante, com jovens como Daniele Padelli, Leonardo Bonucci e Alessio Cerci, além dos rodados Vitali Kutuzov, Gaël Genevier e José Ignacio Castillo, mas seus esforços foram em vão. No ano seguinte, o Pisa faliu de novo e precisou recomeçar da estaca zero. Hoje, atuando na Serie B e com Gattuso como técnico, o time certamente terá a determinação necessária para tentar fazer um novo milagre.

Ficha técnica: Pisa

Cidade: Pisa (Toscana)
Estádio: Arena Garibaldi – Romeo Anconetani
Fundação: 1909
Apelidos: Nerazzurri, Pisani
As temporadas (apenas séries A e B): 7 na Serie A e 32 na B
Os brasileiros: Adriano Mezavilla, Denílson Gabionetta, Dunga, Joelson, Juliano e Wellington.
Time histórico: Alessandro Mannini; Roberto Gasparroni, Antonio Cavallo (Piero Gonfiantini), Davide Lucarelli, José Chamot; Klaus Berggreen (Stefano Cuoghi), Dunga (Fabrizio Barontini), Diego Simeone (Marco Tardelli); Michele Padovano (Sergio Bertoni), Wim Kieft, Lamberto Piovanelli (Enzo Loni). Técnico: Luís Vinício.