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terça-feira, 22 de março de 2016

Pequenos milagres: o Foggia e sua Zemanlândia

Zeman se tornou um dos técnicos mais famosos da Itália a partir dos seus anos em Foggia (Gerardo Parrella)
Quem acompanhou a Serie A nos anos 1990 tem em suas melhores lembranças as arrojadas atuações de um pequeno time do sul da Itália. Assistir uma partida do Foggia naqueles tempos era promessa de diversão e muitos gols e, até hoje, o time treinado pelo checo Zdenek Zeman é utilizado como exemplo de futebol jogado de forma ofensiva e corajosa. Atuando dessa forma, os satanelli venceram a Serie B em 1991 e ficaram quatro temporadas na elite. Um pequeno milagre.

Um parque de diversões chamado Zemanlândia
O Foggia havia disputado a primeira divisão algumas vezes antes da década de 1990: a equipe, cujo escudo tem dois diabinhos (por isso o seu apelido é "satanelli") jogou nos anos 1920, 1960 e 1970. Porém, a grande fase da equipe rossonera da Apúlia – região que fica "no salto da Bota" – veio com o técnico Zdenek Zeman. Não é segredo nenhum que o checo é o maior treinador e grande figura da história do clube. O sucesso do Foggia se confunde com o sucesso do seu técnico.

O treinador já havia passado pelo Foggia entre 1986 e 1987 e voltou no início da temporada 1989-90, convidado pelo presidente Pasquale Casillo, que projetava o acesso da Serie B para a Serie A. O comandante boêmio tinha propostas de jogo claras: o esquema era sempre um 4-3-3 arrojado e ofensivo, com o maior número de jogadores possível no campo adversário, marcação por pressão e defesa em zona. A proposta? Não se preocupar em sofrer gols e divertir.

"Para os jogadores é mais satisfatório construir do que destruir. Para destruir deve-se usar a força e eu sou um homem de paz", dizia Zeman, à época. Incentivador do futebol-espetáculo, ele dizia que, para vencer, "basta preciso marcar um gol a mais que o adversário". A partir desses conceitos, surgiu o que os jornalistas e torcedores da época chamaram de "Zemanlândia", um parque de diversões em forma de time, que se apresentava no estádio Pino Zaccheria e em outros gramados do Belpaese.

Foi divertindo a torcida – e deixando os jogadores exaustos com treinamentos estafantes – que o Foggia conquistou o título da segundona em 1991, garantindo a volta para a Serie A depois de 12 anos – teria voltado no ano anterior se não tivesse começado a temporada com penalização de cinco pontos. A primeira versão do modelo de jogo zemaniano a chamar atenção teve como destaque o trio de atacantes, obviamente.

Giuseppe Signori e Roberto Rambaudi, que atuavam na Serie C1, chegaram em 1989, e, no ano seguinte, Francesco Baiano trocou o Avellino pelos satanelli. Eles, que tinham entre 21 e 22 anos, até então eram praticamente desconhecidos e passaram por um clássico trabalho de amadurecimento feito por Zeman, que costuma dar chances a novos talentos e revelou dezenas de craques. Na campanha que levou à conquista do título, o tridente fez 48 gols (22 de Baiano, 15 de Rambaudi e 11 de Signori), número superior ao de 16 times do torneio – o Foggia, claro, teve o melhor ataque da Serie B, com 67 tentos. Foi o prelúdio da ascensão dos rossoneri, que iriam dar espetáculo na badalada liga italiana.

Giuseppe Signori foi o nome mais badalado dos rossoneri (Wikipedia)
O milagre de Foggia na Serie A
Após os dois anos na segunda divisão, a Zemanlândia continuou por três temporadas na Serie A. O Foggia chegou causando frisson, uma vez que Zdenek Zeman era visto como revolucionário: o treinador, ao lado de seu inseparável maço de cigarro, colocava em prática um estilo ousado em uma equipe pequena, algo muito raro no futebol mundial – e muito mais em um país de técnicos conservadores, como a Itália. À época, parecia que o boêmio levava um universo paralelo aos campos italianos, já que quase todos os times de menor expressão ainda reciclavam versões do futebol do catenaccio e da zona mista.

Para a disputa da Serie A, a equipe se fortaleceu com a chegada de jogadores de seleção: assinaram os meia-atacantes russos Igor Shalimov e Igor Kolyvanov, e a defesa ganhou o romeno Dan Petrescu – outro reforço foi o zagueiro Salvatore Matrecano, que atuou pelo time olímpico italiano. Outros destaques daquele Foggia foram o já citado tridente que já havia brilhado na Serie B e o goleiro Francesco Mancini, os defensores Maurizio Codispoti e Pasquale Padalino e o meia Onofrio Barone.

A primeira temporada do time de Zeman na elite foi muito boa. Os satanelli ficaram com a 9ª posição na Serie A e por pouco não se classificaram para a Copa Uefa – foram cinco pontos de distância para a Roma, última qualificada para o torneio europeu. Outra vez, o tridente ofensivo brilhou demais: Baiano perdeu só para Marco van Basten e Roberto Baggio e foi o terceiro colocado na artilharia, com 16 tentos. Por sua vez, Signori balançou as redes 11 vezes; Rambaudi e Shalimov fizeram nove cada um.

O estilo pirotécnico do Foggia fez com que o time tivesse a segunda pior defesa e o segundo melhor ataque do campeonato, com 58 gols sofridos e marcados.  Essa forma de jogar, claro, levava a alguns placares elásticos e derrotas acachapantes, como um 4 a 4 com a Atalanta ou o famoso 8 a 2 sofrido em pleno Pino Zaccheria, na última rodada, diante do Milan campeão de Fabio Capello.

Escalação dos satanelli em 1991-92, ano de estreia da Zemanlândia na elite (Guerin Sportivo)
Como era de se imaginar, Baiano, Shalimov, Signori e Rambaudi não permaneceram na Apúlia para a temporada 1992-93: o primeiro foi para a Fiorentina, o segundo rumou à Inter, o terceiro assinou com a Lazio e o último reforçou a Atalanta. Com o dinheiro arrecadado com as vendas, o diretor esportivo Giuseppe Pavone trouxe jogadores importantes, como o holandês Bryan Roy e o volante italiano Luigi Di Biagio – além do costarriquenho Hernán Medford, que decepcionou. A temporada não foi tão boa e o Foggia escapou do rebaixamento apenas no final do campeonato.

O final da era de ouro dos satanelli
Confirmado no comando do Foggia pelo quinto ano consecutivo, Zeman mais uma vez precisou ajustar a equipe às perdas no mercado – Petrescu fechou com o Genoa e Padalino com o Bologna. Com as contratações do beque argentino José Chamot e do meia-atacante italiano Giovanni Stroppa a equipe ganhou mais solidez e de novo bateu na trave por uma vaga na Copa Uefa: 9º lugar outra vez, a três pontos da zona europeia.

Outra vez, a temporada teve placares esdrúxulos, como derrotas por 5 a 4 para o Piacenza e 6 a 0 para a Sampdoria, mas também goleadas sobre Genoa, Lazio, Lecce e Torino. As ótimas atuações de alguns jogadores chegaram a fazer com que eles fossem convocados para a Copa do Mundo de 1994 – casos do holandês Roy, autor de 12 gols na Serie A, e do argentino Chamot. Porém, ali acabava a Zemanlândia: o treinador checo fechou com a Lazio e, em 1994-95, o Foggia seria dirigido pelo inexpressivo Enrico Catuzzi.

Estádio Pino Zaccheria cheio para ver um confronto contra o Milan, em 1993 (Gerardo Parrella)
Por um lado, o dinheiro oferecido pela endinheirada Lazio, patrocinada pela Cirio, tornou impossível a permanência de Zeman. Por outro, foi difícil para os torcedores do Foggia assistirem o novo time do checo alcançarem o vice-campeonato em 1994-95, ano do rebaixamento dos pugliese. Desde então, os satanelli nunca mais voltaram à primeira divisão.

Durante cinco anos – e mais intensamente durante três – a torcida do Foggia viveu um lindo sonho. O time ficou conhecido mundialmente, já que a Serie A era o maior campeonato de clubes do planeta, e também pelas convocações de jogadores para suas respectivas seleções: além dos "gringos" Kolyvanov, Shalimov (ambos da Rússia), Petrescu (Romênia), Roy (Holanda), Medford (Costa-Rica) e Chamot (Argentina), Baiano, Signori e Di Biagio vestiram o manto azul da Itália – Padalino e Rambaudi também, pouco tempo depois de deixar a Apúlia.

Entre 1995, último ano na elite, e 2016, já se passam 21 anos. Tempos difíceis para quem acompanha os satanelli e, desde então, viram o clube falir, ser refundado e chegar ao fundo do poço, na quinta divisão – o melhor momento do clube nestes anos foi a conquista da Coppa Italia da terceira divisão, em 2007. Atualmente, contando com o lateral direito brasileiro Ângelo (ex-Lecce, Parma e Siena), o Foggia batalha por uma vaga na próxima Serie B.

Ficha técnica: Foggia

Cidade:
Foggia (Apúlia)
Estádio:
Pino Zaccheria
Fundação:
1920
Apelidos:
Satanelli, Rossoneri
As temporadas (apenas séries A e B):
13 na Serie A e 27 na B
Os brasileiros:
Ângelo, Diego Farias, Felipe Curcio, Massimo Zappino, Marcos de Paula, Rafael Magalhães, Renan Wagner e Wilson.
Time histórico

Francesco Mancini; Dan Petrescu, Pasquale Padalino, Giuseppe Di Bari, Massimo Codispoti; Igor Shalimov, Luigi Di Biagio, Onofrio Barone (Giovanni Stroppa); Roberto Rambaudi (Bryan Roy), Francesco Baiano (Igor Kolyvanov), Giuseppe Signori. Técnico: Zdenek Zeman.

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