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terça-feira, 8 de março de 2016

Pequenos milagres: a década do Avellino na Serie A

Em 10 temporadas na elite, o Avellino fez jogo duro contra os grandes. Em 1986-87, com a presença do
brasileiro Dirceu (agachado, no centro), ficou na 8ª posição (Wikipedia)
Historicamente, o Campeonato Italiano é um palco de surpresas e muita superação. Times de cidades pequenas, chamados de provincianos, já conseguiram grandes façanhas: o Verona, que levou o scudetto em meados dos anos 1980, talvez seja o maior exemplo disso – e já falamos sobre o feito aqui. Hoje, o Sassuolo, que ensaia conquistar uma vaga em competição europeia e participa de sua terceira Serie A, tem honrado a tradição, que será tema de uma nova série do Quattro Tratti: Pequenos milagres. Começamos com o Avellino, que conseguiu ficar na elite por 10 anos consecutivos.

Onde fica Avellino?
O clube foi fundado em 1912, mas até a década de 1970 não tinha expressão alguma no futebol. Foi com a gestão do presidente Antonio Sibilia que o panorama mudou e os biancoverdi subiram para a Serie B. Depois de cinco anos na segundona, os lobos garantiram o acesso em 1978, e muita gente começou a ficar curiosa, primeiro por causa das cores do time: existem poucos clubes que têm o verde como cor social na Itália. Com o acesso, as pessoas começaram a se perguntar onde ficava Avellino. 

A cidade, que hoje tem 55 mil habitantes, fica na região conhecida como Irpinia, situada na Campânia. Avellino é uma província vizinha a Nápoles e Salerno, mas não tem mar: na verdade, nesta parte da Itália o turismo é voltado para quem quer visitar castelos, bosques, parques ecológicos e trilhas nas montanhas. A partir do futebol, todos começaram a saber onde Avellino fica. E muitos adversários tiveram dores de cabeça quando foram até lá.

A "Lei do Partenio"
Durante a década em que o Avellino esteve na elite, valia a chamada "Lei do Partenio": dentro de seus domínios os biancoverdi raramente perdiam pontos, e faziam seu estádio de fortaleza, uma verdadeira arma para conseguir permanecer na elite. Em 10 anos, a equipe sofreu apenas 27 derrotas frente a sua calorosa torcida e venceu equipes grandes, como Juventus, Inter, Milan, Napoli e Verona – o Hellas, no caso, perdeu na Campânia no ano em que foi campeão.

A temporada de estreia dos irpini na Serie A, 1978-79, teve Rino Marchesi como técnico e alguns jogadores que se tornariam históricos para o clube, como o goleiro Ottorino Piotti, os defensores Salvatore Di Somma, Cesare Cattaneo e Vincenzo Romano, além do capitão, o meia Adriano Lombardi – o meia, aliás, chegou a treinar o Avellino algumas vezes e foi presidente honorário, além de receber homenagens após sua morte, como a aposentadoria da camisa 10 e a renomeação do estádio Partenio.

Depois de duas temporadas na elite, Marchesi foi contratado pelo Napoli e, em 1980, o brasileiro Luís Vinício assumiu a equipe – quase uma troca, pois o novo técnico havia comandado os vizinhos napolitanos na temporada anterior. Naquele campeonato, alguns reforços foram fundamentais e viraram ídolos: gente como o goleiro Stefano Tacconi, o meia Beniamino Vignola e o atacante brasileiro Juary, primeiro estrangeiro do clube campano após a reabertura das fronteiras na Serie A. Eles, juntamente a Vinício, começaram a escrever a sua história como ídolos dos lobos logo no primeiro ano, quando conseguiram uma sofrida salvezza, na última rodada: cinco times ficaram empatados com 25 pontos, mas pelo confronto direto os biancoverdi escaparam.

Formação dos irpini em 1982 (Guerin Sportivo)
A permanência foi muito comemorada, já que o Avellino começou o torneio com penalização de cinco pontos, por envolvimento de um jogador em manipulação de resultados, no que foi o escândalo Totonero. Não bastasse a penalização, após a vitória por 4 a 2 sobre o Ascoli, na 8ª rodada, um terremoto de 6,9 graus na escala Richter afetou o sul da Itália, e a província de Avellino foi a mais afetada. Ao todo, mais de 280 mil pessoas ficaram desabrigadas, cerca de 9 mil se feriram e quase 3 mil morreram.

Di Somma, capitão da equipe, lembra de um caso bem particular, que mostra como a presença do Avellino na elite era importante. Em uma importante praça da cidade, ele encontrou uma senhora que chorava os seus mortos, mas que ao mesmo tempo comentava, feliz, pela bela vitória dos irpini. O futebol era uma compensação para o esquecido sul da Itália, que só teve ajuda adequada dias depois do desastre natural.

A cidade de Avellino se superava, assim como o seu clube. Ao longo dos anos seguintes, o time teve elencos modestos, mas com alguns jogadores italianos de destaque, como o zagueiro Luciano Favero e o meia Fernando De Napoli – o último, inclusive, foi convocado para a Copa de 1986 e é o único jogador biancoverde a ter atuado em um Mundial pela Itália. Dentre os italianos, o capitão Di Somma não chegou a jogar na seleção ou em grandes centros, mas chegou a ser eleito o quarto melhor jogador da temporada 1980-81, pela média de votos dados pelos jornalistas da revista Guerin Sportivo. Nos cinco anos em que ele defendeu a equipe pela Serie A, o Avellino teve a quarta defesa menos vazada da Itália, se compararmos com os outros times que também disputaram estas edições.

Alguns poucos estrangeiros passaram pela Irpinia também. Embora alguns tenham ido mal, como o dinamarquês Soren Skov, o brasileiro Batista e o grego Nikos Anastopoulos, outros brilharam: casos do ágil atacante peruano Gerónimo Barbadillo e do argentino Ramón Díaz, artilheiro do time em uma única edição da Serie A, com 10 gols. Entre 1981 e 1986, os lobos se salvaram sempre nas últimas rodadas, e por uma pequena distância da degola – só em 1985 e 1986, acima dos dois pontos.

Schachner e Dirceu participaram da era de ouro biancoverde (Repubblica)
A melhor temporada dos irpini na Serie A foi em 1986-87. Vinício voltou ao comando do clube, que tinha deixado em 1982, e viu a equipe fechar alguns grandes reforços, como o experiente brasileiro Dirceu e o austríaco Walter Schachner, com a bagagem de três e dois Mundiais, respectivamente. Eles se juntaram ao capitão, o regista Franco Colomba, e o ala Angelo Alessio. A campanha foi excelente, e o time fez 30 pontos, em uma época na qual a vitória valia apenas dois: foram nove vitórias, 12 empates e nove derrotas, e a equipe ficou a apenas cinco pontos de uma classificação para a Copa Uefa, e oito acima da zona de rebaixamento. Dirceu e Alessio foram os artilheiros do time, com seis gols.

Foi a última glória da equipe. que acabou rebaixada na temporada seguinte. Vinício foi demitido após quatro derrotas nas primeiras cinco rodadas e Eugenio Bersellini tentou fazer uma campanha de recuperação. Schachner fez nove gols, mas não deu: o Pisa ganhou do Torino na última rodada e o Avellino empatou com a Inter fora de casa. Assim, o time irpino foi ultrapassado e caiu por um ponto. Um dos poucos times alviverdes do futebol italiano – e o mais famoso – nunca mais voltou à elite depois disso.

Outros feitos
No período de ouro do clube irpino, houve um resultado avassalador, em 1983-84: o Avellino fez 4 a 0 sobre o Milan, que tinha um tal de Franco Baresi na defesa. Como já citamos, os biancoverdi tiveram uma das melhores defesas da Serie A nos anos 1980, e devemos considerar que, naquela época, a Itália via os maiores craques do mundo desfilarem por seus campos. Diego Armando Maradona, por exemplo, nunca marcou um gol sequer no estádio Partenio.

Ao fim de 1985-86, o clube também conquistou o Torneio de Verão da Federação Italiana de Futebol – foi uma copa organizada pela FIGC e que envolvia as 12 equipes da Serie A que não estavam nas semifinais da Coppa Italia.

Depois da queda
A partir de 1988, o Avellino rodou pelas divisões inferiores. A equipe chegou a ser comprada pela Bonatti, empresa-satélite de Calisto Tanzi, dono do Parma, mas acabou sendo vendida depois. O presidente Sibilia, que foi dirigente do clube nos seus momentos especiais, teve mais outro mandato à frente dos biancoverdi na década de 1990, mas sem o mesmo sucesso.

Em todos estes anos, a maior felicidade dos torcedores irpini veio em 2005, quando o Avellino venceu o Napoli nos play-offs da Serie C e retornou à segundona com um gostinho especial, eliminando os rivais azzurri no dérbi campano. Quatro anos depois, porém, o clube faliu e teve de começar tudo de novo, na quinta divisão. Em 2014-15, os lobos bateram na trave e quase retornaram à elite, mas caíram nos play-offs da segundona para o Bologna. Quando veremos o Avellino de volta à Serie A?

Ficha técnica: Avellino

Cidade: Avellino (Campânia)
Estádio: Partenio-Adriano Lombardi
Fundação: 1912
Apelidos: Biancoverdi, Irpini, Lupi/Lobos
As temporadas (apenas séries A e B): 10 na Serie A e 17 na B
Os brasileiros: Babú, Dirceu, Juary, Montezine, Rodrigo Defendi, Rodrigo Ely, Ronaldo Vanin, Rômulo Togni e William Justino.
Time histórico: Stefano Tacconi; Salvatore Di Somma, Roberto Amodio, Luciano Favero (Vincenzo Romano); Dirceu (Beniamino Vignola), Adriano Lombardi, Franco Colomba, Fernando De Napoli; Gerónimo Barbadillo, Walter Schachner (Juary), Ramón Díaz. Técnico: Luís Vinício.

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